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08/04/2022

Brasil pandeiro | Assis Valente, 1941


Até o fim dos anos 1930, o baiano Assis Valente (1911-1958) vinha sendo o compositor predileto de Carmen Miranda, a quem tinha entregue sucessos como “Good-bye, boy”, “Minha embaixada chegou”, “Fala, meu pandeiro”, “Uva de caminhão” e “Camisa listrada”. Em julho de 1940, na primeira visita da Pequena Notável ao Brasil após um ano de sua mudança para os Estados Unidos, Assis anunciou numa entrevista que tinha três sambas prontos, feitos sob medida para sua musa. A letra de um deles, então batizado de “Chegou a hora”, com algumas poucas diferenças, era basicamente a mesma da que ficou conhecida em “Brasil pandeiro”, aberta pelo verso: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.” No entanto, apesar de cantá-lo em apresentações no Cassino da Urca e na Rádio Nacional, Carmen avisou ao compositor que não iria gravar o samba.
No início de 1941, já com o nome que ficou conhecido, “Brasil pandeiro” virou disco, pelo selo Columbia, na voz dos Anjos do Inferno. Em seguida, o grupo também interpretou a música, dublada a partir da gravação original, numa cena do filme Céu azul, o segundo protagonizado pela dupla Oscarito e Grande Otelo. Apesar da recusa de Carmen, que o torturado Assis Valente nunca perdoou, em plena Segunda Guerra o país inteiro cantou seu samba-exaltação:
“Brasil, esquentai vossos pandeiros / Iluminai os terreiros que nós queremos sambar.”
Esta é mais uma canção que voltou à vida graças a João Gilberto. Mesmo que, no caso, de forma indireta, por meio das vozes e do instrumental dos Novos Baianos. No início dos anos 1970, no apartamento em que viviam em comunidade, eles recebiam quase que diariamente, ou melhor, noturnamente, visitas do conterrâneo bossa-novista. Eram intermináveis conversas e saraus nos quais o grupo foi sendo apresentado por João a muitos grandes sambas do passado. Entre eles, “Brasil pandeiro”, que foi escolhido para abrir o fundamental segundo álbum dos Novos Baianos, Acabou chorare (1972), pioneiro na fusão do rock com o samba e o choro.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

09/03/2022

Na Baixa do Sapateiro | Ary Barroso, 1938


Gravada em 1938 por Carmen Miranda, “Na Baixa do Sapateiro” virou uma das músicas brasileiras mais executadas no mundo. Também é a segunda mais conhecida de Ary Barroso, perdendo apenas para a sua “Aquarela do Brasil”, lançada um ano depois.
Mineiro de Ubá, onde nasceu em 7 de novembro de 1903, órfão de pai e mãe aos 8 anos, Ary de Resende Barroso começou a estudar piano na adolescência. Aos 12 anos, já trabalhava como pianista num cinema de sua cidade; três anos depois, fez sua primeira canção; mas, antes de abraçar definitivamente a música, por via das dúvidas, fazia o curso de Direito no Rio de Janeiro, para onde tinha se mudado aos 17 anos. Em 1929, recém-formado, o colega de faculdade Mário Reis (1907-1981) gravou duas canções suas, “Vou à Penha” e “Vamos deixar de intimidades”, com tanto sucesso que o diploma de advogado de Ary foi para a gaveta e o Brasil ganhou um de seus maiores compositores.
Um dos responsáveis pela consolidação do samba urbano e moderno, o mineiro Ary também vinha sendo um dos inventores do imaginário popular da Bahia, que conheceu e por que se encantou em 1929, quando atuava como pianista na orquestra de Napoleão Tavares e seus Soldados Musicais. Sua paixão pela cultura e pelos sabores afro-brasileiros foi cantada também em grandes músicas como “No tabuleiro da baiana”, “Os quindins de Iaiá” e “Faixa de cetim”. Curiosamente e por linhas tortas, “Na Baixa do Sapateiro” acabou abrindo caminho para o verdadeiro baiano Dorival Caymmi. Após a gravação de Carmen, lançada em disco pela Odeon, era para a Pequena Notável também cantar o samba no filme Banana da terra, mas o compositor pediu mais dinheiro do que a produção oferecia. Sem acordo, o produtor Wallace Downey soube da existência de um jovem recém-chegado de Salvador, que lhe apresentou “O que é que a baiana tem”.
Cinco anos após perder para Caymmi a vaga no filme de Carmen, “Na Baixa do Sapateiro” teve outra chance, dessa vez em Hollywood, na trilha sonora de Você já foi à Bahia? (ou The three caballeros, título original do filme de animação de Walt Disney). Graças a esse empurrão, e com o título de “Bahia”, começou a rodar o mundo. Foram dezenas de gravações, até pelo saxofonista supremo do jazz moderno, John Coltrane, que gravou “Bahia” e assim batizou um álbum lançado em 1965, um ano após a morte do compositor mineiro e universal.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

16/08/2017

A bela ninfa do bosque sagrado


Hollywood, novembro de 1946: A noite é alta, Ciro’s terminou e estamos todos - um destacado grupo de “estrelas” e “astro”", entre os quais sou um modesto meteorito - na casa de Beverly Hills de Herman Hover, o notório dono da famosa boate de Sunset Boulevard. Vou nas águas de minha amiga Carmen Miranda, com quem saí e a quem, como um cavalheiro que sou, depositarei em sua vivenda de Bedford Street. Lá estão também as figuras ciclópicas de José do Patrocínio de Oliveira, o não menos conhecido Zé Carioca, e seu sonoplástico parceiro Nestor Amaral, ambos homens dos sete instrumentos, sendo que este é capaz de tocar o Hino Nacional batendo com um lápis nos dentes e o “Tico-tico no fubá” mediante pequenos cascudos acústicos aplicados no cocuruto - tudo diante de um microfone, bem entendido.
Carmen está quieta, sentada no braço de minha poltrona. Tornamo-nos rapidamente grandes amigos. Celebramo-nnos com o devido foguetório quando nos encontramos e uma vez juntos temos assunto para conversas intermináveis, sempre salpicadas de história sobre seus inícios como cantora, que me encantam. Sua verve é inesgotável e ninguém imita como ela antigas situações marotas em que se viram envolvidos, nos primeiros contatos com o público, seus velhos companheiros Mário Reis, Francisco Alves e Ari Barroso, na fase renascentista do samba carioca. Aprendi a querer-lhe muito bem e admirar a coragem com que enfrenta, ela uma mulher toda sensibilidade, a tortura de se ter tornado um grande cartaz comercial para Hollywood e de ter de sorrir à boçalidade, com raríssimas exceções, dos produtores, diretores, cenaristas, cinegrafistas, iluminadores e demais mão-de-obra dos estúdios. : Mas hoje Carmen está quieta. Seus imensos olhos verdes se horizontalizam numa linha de cansaço, quem sabe tédio, daquilo tudo já “tão tido, tão visto, tão conhecido”, como diria Rimbaud. Cerca de nós, o ator Sonny Tuffs toca um piano mais bêbedo que o do genial Jimmy Yancey nas faixas em que foi gravado sem saber. Depois seu corpanzil oscila, ele se levanta só Deus sabe como e sai por ali cercando frango, não sem antes abraçar à passagem a atriz Ella Raines, que compareceu de noivo em punho e deixa-se estar com este a um canto, com um ar de Alicinha que só enganaria os drs. Sobral Pinto e Albert Schweitzer.
Numa poltrona a meu lado estira-se, com um viso suficientemente decomposto, o magnata Howart Hughes. Troco duas palavras com ele, mas o tedioso multimilionário e playboy, descobridor e bicho-papão de “estrelas”, me parece muito mais interessado em Ella Raines - espécie de Grace Kelly de 1940, só que menos pasteurizada. Deixo-o, pois, à sua nova conquista, enquanto no meio da sala, Zé Carioca e Nestor Amaral "se viram" para chamar a atenção sobre os seus dotes de instrumentistas. Mas a pressão geral é grande e cada um procura cavar o pão da noite como pode, enquanto Herman Hover passeia com um ar de Napoleão em Marengo. Há propostas para um banho de piscina, para um concurso de rumba e outras trivialidades, mas ninguém topa mesmo porque o Sol (ou melhor “Ele”, como dizem com o maior nojo meus amigos Américo e Zequinha Marques da Costa) já deve, contumaz ginasta matutino, estar pendurado à barra do horizonte para a sua atlética flexão de cada dia. O ambiente se está nitidamente desgastando em álcool e semostração.
Vou propor a Carmen irmos embora quando uma cortina se entreabre e surge uma mulher espetacular. Não creio que ninguém houvesse reparado, mas a mim ela me pareceu tão linda, tão linda que foi como se tudo tivesse de repente desaparecido diante dela.
Fiquei, confesso, totalmente obnubilado ante tanta beleza, muito embora essa beleza se movimentasse, por assim dizer, um pouco à base da dança a que chamam quadrilha: dois passinhos para diante e três para trás com direito a derrapagem. Mas o que o corpo fazia, o rosto desconhecia; pois esse rosto tinha mais majestade que Carlos Machado entrando no Sacha's. Ela olhou em torno com um soberano ar de desprezo e logo, dando com Carmen, tirou um ziguezague até ela, vindo postar-se no esplendor de todo o seu pé-direito justo diante de mim, coitadinho que nunca fiz mal a ninguém.
- Hey, Carmen - disse ela.
- Hey, honey - respondeu Carmen com o seu sorriso no 3.
- Gee, Carmen, I think you're wonderful, you know. I think you're tops, you know. Tops. You're terrific.
Para quem não sabe inglês, esse diálogo inteligente exprimia a admiração da moça por Carmen, a quem ela chamava de “do diabo”, de “a máxima” e toda essa coisa. Passado o quê, dá ela de repente comigo lá embaixo, pobre de mim que tive bronquite em criança, e olhando-me por cima de suas pirâmides, fez-me a seguinte pergunta num tom de rainha para vassalo:
- Who are you? (- Quem é você?)
Declinei minha condição de modesto servidor da pátria no estrangeiro, o que não pareceu interessá-la um níquel. Em seguida, sem aviso prévio, ela debruçou-se a ponto de eu poder ver o algodãozinho que havia juntado no seu umbigo, pôs as mãos sobre os meus braços, trouxe o rosto até um centímetro do meu e cuspindo-me todo como devia fez-me a seguinte indagação:
- Do you think I'm beautiful? (- Você me acha bonita?)
Fiz-lhe os elogios de praxe. Ela esticou-se novamente e concordou comigo:
- You're right. I’m very beautiful. But morally, I stink! (- Você está certo. Eu sou muito bonita. Mas moralmente eu... como traduzir sem ofender tanta beleza, tirante os ouvidos do leitor? - não cheiro muito bem.)
Dito o quê, partiu como chegara, através da mesma cortina, para onde suponho houvesse um bar privado. Só sei que aquilo deu-me uma grande animação, a festa continuou até “Ele” raiar e eu acabei dançando com a linda moça, ela bastante mais alta do que eu, o que permitia ouvir-lhe bater o coração, de resto levemente taquícárdico. Antes de sair vi vários casais no Jardim que não se sabia mais quem era quem, vi Sonny Tuffs atravessado num sofá, vi coisas como só se vê em baile de carnaval. Festinha familiar, como diria a finada dona Sinhazinha.
Fora perguntei a Carmen se ela sabia quem era a deusa.
- É uma atriz nova que está entrando agora. Bonita, não é? Chama-se Ava Gardner.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor