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21/11/2021

Prato ilustrando Shapur II

Prato de prata do Irã | 309-379 D.C.


O poema sinfônico Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss, é conhecido por muita gente por ter sido usado na trilha sonora do filme 2001: Uma odisseia no espaço. Contudo, poucos de nós sabemos o que Zaratustra falava de verdade ou quem foi ele. Isso é um tanto surpreendente, porque Zaratustra — ou, como é mais conhecido, Zoroastro — foi o fundador de uma das maiores religiões do mundo. Durante séculos, junto com o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, o zoroastrismo foi uma das quatro religiões dominantes do Oriente Médio. Era a mais antiga das quatro — a primeira de todas as religiões baseadas em textos — e teve profunda influência nas outras três. Ainda existem comunidades zoroastristas dignas de nota espalhadas pelo mundo inteiro, especialmente no Irã, onde essa religião nasceu. Na verdade, a república islâmica hoje reserva cadeiras no parlamento para judeus, cristãos e zoroastristas. Há dois mil anos, o zoroastrismo era a religião estatal do Irã. Na época, o país era a superpotência do Oriente Médio.
O objeto mostrado aqui é uma visualização dramática de poder e fé naquele império iraniano. É um prato de prata do século IV, que parece mostrar o rei em uma expedição de caça. Na verdade, o rei está protegendo o mundo do caos.
Na Roma daquela época, o cristianismo acabara de se tornar a religião oficial. Quase ao mesmo tempo, no Irã, a dinastia Sassânida construiu um Estado altamente centralizado, no qual a autoridade secular e a autoridade religiosa se interligavam. Em seu auge, esse império iraniano estendia-se do Eufrates ao Indo — em termos modernos, da Síria ao Paquistão. Durante séculos, equiparou-se a Roma — e rivalizou com ela — na longa luta para controlar o Oriente Médio. O rei sassânida que aparece caçando nesse prato de prata é Shapur II, que governou com retumbante sucesso durante setenta anos, de 309 a 379.
Trata-se de um prato raso e redondo, feito com prata da melhor qualidade, e, ao movê-lo, percebe-se que há detalhes em ouro. O rei está sentado, confiante, em sua montaria e usa uma grande coroa com algo no topo que lembra um globo alado. Atrás dele fitas esvoaçam na prata, dando a impressão de movimento. Tudo em seus trajes é rico — os brincos pendentes, a túnica de manga comprida com ombreiras bordadas com esmero, as calças bastante enfeitadas e os sapatos com fitas. É uma imagem cerimonial de riqueza e poder minuciosamente trabalhada.
Tudo isso pode parecer bastante previsível: os reis sempre se mostraram exageradamente vestidos, dominando animais. Entretanto, neste caso há mais do que uma simples exibição convencional de destreza e privilégio. Os reis sassânidas não eram apenas governantes seculares — eram agentes de deus, e os títulos oficiais de Shapur destacam sua função religiosa: “O bom venerador de Deus, Shapur, o rei do Irã e do não Irã, da divina raça de Deus, o Rei dos Reis.” O deus, nesse caso, é obviamente o deus do zoroastrismo, a religião do Estado. O historiador Tom Holland nos conta quem foi o grande profeta e poeta Zoroastro:

Zoroastro é o primeiríssimo profeta no sentido que descreveríamos Moisés ou Maomé como profetas. Ninguém sabe ao certo quando ou se de fato ele viveu, mas, se realmente existiu, é provável que tenha vivido nas estepes da Ásia Central, por volta do ano 1000 a.C. Aos poucos, no desenrolar dos séculos e, depois, dos milênios, seus ensinamentos passaram a formar o núcleo do que poderíamos provavelmente chamar de Igreja zoroastrista. Com o passar do tempo, ela se tornou a religião do povo iraniano, e, dessa forma, do império sassânida quando este se estabeleceu.
Os ensinamentos de Zoroastro soariam muito familiares a qualquer um que tenha sido criado como judeu, cristão ou muçulmano. Zoroastro foi o primeiro profeta a ensinar que o universo é um campo de batalha entre forças rivais do bem e do mal. Foi o primeiro a ensinar que o tempo não gira em um ciclo infinito, mas tem um fim — que haverá o fim dos dias; o dia do julgamento. Todas essas noções entraram na corrente abraâmica dominante do judaísmo, do cristianismo e do islamismo.

É quando se vê o animal que o rei cavalga no prato de prata que se leva um choque. Não se trata de um cavalo, mas de um veado macho adulto com chifres plenamente desenvolvidos. O rei monta o animal sem sela ou estribos, segurando-o pelos chifres com a mão esquerda enquanto com a direita lhe enfia uma espada no pescoço — o sangue jorra, e na base do prato vemos o mesmo veado nos estertores da morte. Essa imagem é uma fantasia, desde a grande coroa no topo, que sem dúvida cairia se ele estivesse de fato cavalgando, até a ideia de matar a própria montaria no momento em que ela dá um salto.
Então o que está acontecendo aqui? No Oriente Médio, cenas de caça eram muito usadas para representar o poder real ao longo dos séculos. Reis assírios, bem protegidos em seus carros de batalha, são mostrados matando bravamente leões a uma distância segura. Shapur faz outra coisa. Aqui está o monarca em combate individual com o animal, arriscando a vida não por estouvada fanfarronice, mas em benefício dos súditos. Como governante protetor, nós o vemos matar certos tipos de animais, as feras que ameaçam os súditos: grandes felinos que atacam o gado e as aves domésticas, javalis e veados que destroem plantações e pastos. Imagens como esta são, portanto, metáforas visuais do poder real concebido em termos zoroastristas. Ao matar o veado, o rei-caçador impõe a ordem divina ao caos demoníaco. Shapur, atuando como agente do supremo deus zoroastrista da bondade, derrotará as forças do mal primitivo para cumprir seu papel central de rei.
Guitty Azarpay, professora de Arte Asiática da Universidade da Califórnia, em Berkeley, destaca o duplo papel do rei:

É tanto uma imagem secular — porque a caça, é claro, era praticada pela maioria das pessoas, pela maioria dos países, especialmente no Irã — quanto uma expressão da ideologia zoroastrista da época. O homem é a arma de Deus contra as trevas e o mal e serve à vitória final do criador seguindo o princípio da moderação e levando uma vida segundo as prescrições do bom modo de falar, das boas palavras e das boas ações. Dessa forma, o zoroastrista devoto pode esperar o melhor da existência nesta vida e, espiritualmente, o melhor paraíso na próxima. O melhor rei é aquele que, como chefe de Estado e guardião da religião, cria a justiça e a ordem, é um supremo guerreiro e um caçador heroico.

Este prato destina-se, sem a menor dúvida, não apenas a ser visto, mas a ser alardeado. É um objeto pomposo e caro, feito de uma única e pesada peça de prata, e as figuras em alto-relevo foram marteladas pela parte de trás. As várias texturas da superfície foram lindamente executadas pelo artesão, que escolheu diferentes tipos de pontilhado para a carne do animal e para a roupa do rei. E os elementos principais da cena — a coroa e a roupa do rei, a cabeça, a cauda e os cascos dos veados — são destacados em ouro. Quando a peça era exibida na bruxuleante luz de vela de um banquete, o ouro dava vida à cena, chamando a atenção para o conflito central entre o rei e o animal. Era assim que Shapur queria ser visto, como queria que seu reino fosse compreendido. Pratos de prata como este foram abundantemente usados pelos reis sassânidas, que os enviavam como presentes diplomáticos para todas as partes da Ásia.
Além de enviar pratos de prata com imagens simbólicas, Shapur despachava missionários zoroastristas. Era uma identificação entre fé e Estado que acabaria se revelando muito perigosa, sobretudo depois que a dinastia Sassânida foi varrida do mapa e os exércitos do Islã conquistaram o Irã. Tom Holland explica:

O zoroastrismo tinha de fato pregado suas cores no mastro sassânida. Definira-se através do império e da monarquia. E, quando ambos desmoronaram, o zoroastrismo ficou mutilado. Apesar de, com o passar do tempo, ter sido aceito que o zoroastrismo fosse tolerado, o islã jamais o tratou com a dose de respeito que dispensava a cristãos ou judeus. Outro problema grave era que os cristãos — mesmo os que tinham sido subjugados pelos muçulmanos — podiam olhar para impérios cristãos independentes, para reinos cristãos independentes, e saber que no mundo ainda existia algo chamado cristianismo. Aos zoroastristas não restou essa opção: todos os lugares que tinham seguido o zoroastrismo foram conquistados pelo islã. Hoje, mesmo na terra de seu nascimento, o Irã, os zoroastristas são uma reduzidíssima minoria.

Contudo, se os zoroastristas hoje são relativamente pouco numerosos, uma parte central de seus ensinamentos sobre o eterno conflito entre o bem e o mal e sobre o fim do mundo ainda se revela com muita força. A política do Oriente Médio continua assombrada e em certa medida influenciada pela crença em um eventual apocalipse e no triunfo da justiça — ideia que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo herdaram do zoroastrismo. E, quando políticos em Teerã falam do grande satã e políticos de Washington denunciam o império do mal, somos tentados a lembrar que “assim falou Zaratustra”.

Neil MacGregor, in A história do mundo em 100 objetos

22/03/2020

Pergaminho das Admoestações - Pintura oriunda da China, 500-900 D.C.

Depois de banquetes e sexo gay nos primórdios do império romano, de fumo e cerimônias na América do Norte, de jogos de pelota e crenças no México, deparamos agora com outro tipo de prazer social elaborado: a contemplação da pintura. Quero observar especificamente uma obra-prima da pintura da China, em forma de rolo, baseada num original pintado por volta dos anos 400 ou 500 d.C. Ela compreende três formas de arte distintas, conhecidas liricamente na China como as “três perfeições”: pintura, poesia e caligrafia. Por ser um rolo manual, era para ser vista na companhia de amigos e, como bela obra de arte, foi apreciada por imperadores durante centenas de anos. É conhecida como As Admoestações da Preceptora às Damas da Corte, ou Pergaminho das Admoestações, e é uma espécie de cartilha antiga de boas maneiras, e sobretudo de conduta moral, para as damas da corte chinesa: ensina às mulheres poderosas como devem se comportar.
 


O imperador rejeita sua esposa. Eis a tradução dos versos: Ninguém agrada para sempre; / Afeição não pode ser para um só; / Se for, acabará em desgosto. / Quando o amor atinge o clímax muda de objeto; / Pois tudo que alcança a plenitude começa a declinar. / Esta lei é absoluta. / A “bela esposa que se sabe bela” / Logo era odiada. / Se com ar afetado tentas agradar, / Os homens sensatos te abominarão. / Vem daí, certamente, / A quebra dos laços de favoritismo.

Um tema comum nos objetos que descrevi nos últimos capítulos tem sido a mudança de atitudes em relação àquilo que constitui uma forma aceitável de prazer. Em diferentes épocas da história do mundo, o tempero se tornou vício — ou vice-versa. Mas apreciar uma obra de arte como o Pergaminho das Admoestações sempre foi inteiramente aceitável, e o próprio objeto traz o registro daqueles que, ao longo dos séculos, tiveram a sorte de vê-lo e apreciá-lo.
O rolo está entregue aos cuidados de um estúdio do British Museum especializado em conservação de pinturas do Leste Asiático, onde a pintura pode ser toda estendida — ela tem quase 3,5 metros de comprimento. Sua criação envolveu artistas de diferentes períodos e desde que foi concluída tem sido continuamente apreciada e preservada. O ponto de partida foi um longo poema escrito pelo cortesão Zhang Hua em 292 d.C. Mais ou menos um século mais tarde, por volta do ano 400, uma famosa pintura — agora tida como perdida — incorporou o poema. É provável que o Pergaminho das Admoestações tenha sido terminado uns duzentos anos depois, mas ele copiou e capturou tão fielmente o espírito da grande pintura original que muitos até acreditam que esta talvez seja a obra original. Seja qual for sua condição exata, este pergaminho é um dos exemplos mais consagrados das primeiras pinturas chinesas que chegaram até nós.
Cerca de metade dele é composta de cenas pintadas, separadas uma da outra por versos. À medida que o desenrolamos, vamos lendo o poema e vendo uma cena de cada vez; desenrolar é parte essencial do prazer. Um dos quadros mostra um episódio perturbador. Uma bela e sedutora mulher do harém da corte aproxima-se do imperador. Suas túnicas e faixas vermelhas ondulantes lhe acentuam os movimentos enquanto ela segue, balançando e flertando, em direção ao homem. Porém, olhando com mais atenção, vemos que na verdade ela vacila: é detida pelo braço estendido e pela mão do imperador, erguidos num inequívoco gesto de rejeição. O imperador está acima do desejo carnal. O corpo dela se contorce enquanto começa a recuar, e seu rosto estampa a expressão de uma vaidade perplexa e frustrada.
Quando Zhang Hua escreveu o poema em 292 d.C., a China passava por um período de fragmentação, após o colapso do império Han. Forças rivais disputavam a supremacia, fazendo constantes ameaças de destronar o imperador. Ele era deficiente mental, por isso sua mulher, a imperatriz Jia, acumulou grande poder, que utilizava espetacularmente mal. De acordo com uma história escrita na época, Zhang Hua, que era ministro da corte, ficava cada dia mais horrorizado com a usurpação da autoridade do imperador por ela e seu clã; a imperatriz ameaçava a estabilidade da dinastia e do Estado por meio de assassinatos, intrigas e tumultuosos relacionamentos sexuais. A intenção explícita de Zhang Hua ao escrever era instruir todas as mulheres da corte, mas seu alvo principal era a própria imperatriz. Ele esperava que, usando o veículo belo e inspirador da poesia, pudesse conduzir sua governante extraviada de volta à correção moral, ao comedimento e ao decoro:

Mantenha guarda atentamente sobre sua conduta;
Pois disso virá a felicidade.
Cumpra suas obrigações com calma e respeito;
Assim conquistará glória e honra.

A pintura que ilustra esse poema também tem um elevado objetivo moral. Embora se destinem às mulheres, as lições aplicam-se igualmente aos homens. O imperador, quando se recusa a ser seduzido por sua vaidosa mulher, dá um exemplo de discernimento e força masculinos. O Dr. Shane McCausland, renomado especialista nos primórdios da pintura chinesa, estudou minuciosamente o Pergaminho das Admoestações:

É sobre crítica positiva. O artista não tenta dizer às pessoas o que não devem fazer, e sim como fazer algo da melhor forma. Cada cena descreve maneiras de as damas da corte aperfeiçoarem sua conduta, seu comportamento, seu caráter. A admoestação, na verdade, diz respeito a aprender, a aperfeiçoar-se; mas, para isso, se o público já possui uma fama ruim, o autor precisa injetar muita graça e muito humor no que diz. Foi exatamente o que ele fez. Tem bastante a ver com dignidade real, com tradição do estadismo, com governo baseado em princípios. É um retrato inspirado e revelador das interações inerentes à função de governar.

Infelizmente, a imperatriz Jia era inacessível à mensagem moral do poema e prosseguiu em suas escandalosas proezas sexuais e atividades sanguinárias. Parte de sua brutalidade talvez fosse justificável, uma vez que havia rebeldes empenhados em provocar uma guerra civil, até que, enfim, no ano 300, um golpe foi bem-sucedido. A imperatriz foi presa e obrigada a cometer suicídio.
Um século depois, por volta do ano 400, a corte foi afligida pelos mesmos problemas. Certa vez o imperador Xiaowudi comentou com sua consorte favorita: “Agora que você tem trinta anos, é hora de trocá-la por alguém mais jovem.” Era um gracejo, mas ela não gostou nem um pouco e o matou naquela noite. A corte ficou escandalizada. Sem dúvida era tempo de lembrar a todos como deviam se comportar, reeditando o poema de Zhang Hua num rolo pintado pelo maior artista do momento, Gu Kaizhi. A obra-prima resultante é o Pergaminho das Admoestações. A Dra. Jan Stuart, curadora do Departamento da Ásia no British Museum, conhece muito bem esta pintura e seus objetivos:

O pergaminho encaixa-se numa tradição de imagens didáticas estabelecida na dinastia Han e influenciada pelo grande filósofo Confúcio. Lendo o texto junto com as imagens, percebe-se que uma profunda mensagem está sendo transmitida. Confúcio acreditava que todos têm uma função e um lugar específicos na sociedade, e, se isso for respeitado, garante-se uma sociedade muito saudável e eficaz. A mensagem deve ter tido especial importância na época do poema que serviu de base para este pergaminho. Diz a mensagem que a mulher, mesmo quando possui grande beleza, deve sempre demonstrar humildade, obedecer às regras e jamais esquecer sua posição em relação ao marido e à família; assim agindo, será uma força positiva e ativa na promoção da ordem social.




 Uma dama corre para salvar o imperador de um urso feroz

No Pergaminho das Admoestações lê-se que uma dama jamais deve explorar os hábitos ou as fraquezas de seu homem. Só deve ficar na frente do imperador se for para protegê-lo de um perigo. Outra cena do pergaminho ilustra um acontecimento real, em que um feroz urso-negro escapou da jaula durante uma apresentação para o imperador e as damas do harém. Nessa cena em particular, veem-se primeiro duas damas fugindo do animal e olhando para trás horrorizadas. Em seguida, vê-se o imperador sentado, paralisado de espanto, e diante dele uma valorosa dama que em vez de fugir correu para se colocar entre o imperador e o urso, que pula diante dela, rosnando ferozmente. Mas o imperador está são e salvo. Esse, diz-nos a pintura, é o tipo de sacrifício de que necessitamos e que esperamos de nossas grandes damas.
Este pergaminho tornou-se objeto de estima de muitos imperadores, que talvez vissem nele um instrumento útil para ajudar a acalmar esposas e amantes difíceis, mas também admiravam sua grande beleza e colecionavam esta preciosa obra-prima para mostrar que eram culturalmente astutos e poderosos. Sabemos bem em quais cortes ele foi visto, porque cada governante imperial deixou sua marca, na forma de um selo cuidadosamente colocado nos espaços em branco em torno das pinturas e da caligrafia. Alguns dos donos anteriores também tinham acrescentado seus próprios comentários. Isso produz uma espécie de deleite que nunca se tem diante de uma pintura europeia: a sensação de compartilhar o prazer que se sente com pessoas de séculos passados, de participar de uma comunidade de perspicazes conhecedores de arte que têm amado esta pintura através dos séculos. Por exemplo, o imperador Qianlong, do século XVIII — contemporâneo de George III —, assim resume sua avaliação do pergaminho:

A pintura Admoestações da Preceptora, de Gu Kaizhi, com texto. Autêntica relíquia. Tesouro de divina qualidade pertencente ao Palácio Interno.

Era uma relíquia tão apreciada que poucas pessoas tinham acesso a ela. Isso ainda vale, mas por outra razão: a seda em que está pintada sofre muito quando exposta à luz e, portanto, é delicada demais para ficar em exposição, a não ser muito raramente. Mas, embora não seja permitido imprimirmos nela nosso selo ou o registro de nosso prazer, graças à moderna tecnologia de reprodução podemos nos juntar ao imperador Qianlong e às outras pessoas que ao longo das décadas têm se deliciado com a contemplação do Pergaminho das Admoestações. Graças à internet, o prazer que era reservado à corte imperial chinesa tornou-se universal.
Neil MacGregor, in A história do mundo em 100 objetos

12/03/2020

A Coluna de Ashoka

Fragmentos de pedra de uma coluna erguida em Meerut, Uttar Pradesh, Índia, por volta de 238 A.C.

Há mais ou menos dois mil anos, as grandes potências da Europa e da Ásia estabeleceram legados que até hoje se fazem presentes. Elas lançaram as ideias fundamentais sobre como os líderes devem governar e como governantes constroem uma imagem e projetam poder. Mostraram também que um governante pode mudar de fato o modo de pensar das pessoas. O líder indiano Ashoka, o Grande, tomou posse de um vasto império e, pela força de suas ideias, iniciou uma tradição que leva diretamente aos ideais de Mahatma Gandhi e até hoje florescem: uma tradição de estadismo pluralista, humano e não violento. Tais ideias estão incorporadas neste objeto. É um fragmento de pedra — de arenito, para sermos exatos — do tamanho de um grande tijolo recurvado; não enche os olhos, mas revela a trajetória de uma das grandes figuras da história mundial. Na pedra há duas linhas de texto, grafado em letras redondas, esticadas — descritas, certa vez, como “escrita pin-man”. As duas linhas são o que resta de um texto muito mais longo, gravado originalmente numa grande coluna circular, de cerca de nove metros de altura e pouco menos de um metro de diâmetro.
Ashoka mandou fazer colunas como esta por todo o império. Eram grandes proezas arquitetônicas e ficavam às margens das estradas ou no centro das cidades — como as esculturas públicas nas praças de nossas cidades hoje. Mas esses pilares são diferentes das colunas clássicas que a maioria dos europeus conhece: não têm base e são coroados com um capitel em forma de pétalas de lótus. No topo da mais famosa das colunas de Ashoka há quatro leões virados para fora — ainda hoje emblemas da Índia. Nosso fragmento vem de uma coluna que foi erguida originalmente em Meerut, cidade localizada ao norte de Délhi, e destruída no palácio de um governante mongol por uma explosão no começo do século XVIII. Contudo, muitas colunas parecidas sobreviveram e estão espalhadas por todo o império de Ashoka, que compreendia a maior parte do subcontinente.
Essas colunas eram uma espécie de sistema público de comunicação. Seu objetivo era transmitir proclamações ou éditos de Ashoka, que podiam então ser promulgados por toda a Índia e mais além. Sabemos hoje que há sete importantes éditos gravados em colunas, e nosso fragmento é daquele que ficou conhecido como o “édito da sexta coluna”; ele declara a política benévola do imperador Ashoka para com todas as seitas e todas as classes em seu império:

Penso em como dar felicidade ao povo, não apenas a meus parentes ou a quem mora na minha capital, mas também àqueles que estão longe de mim. Ajo da mesma forma em relação a todos. Preocupo-me igualmente com todas as classes. Além disso, tratei com reverência todas as seitas religiosas, fazendo-lhes várias oferendas. Porém considero meu principal dever visitar as pessoas.

Devia haver alguém encarregado de ler essas palavras para os cidadãos, na maioria analfabetos, que provavelmente as recebiam não apenas com prazer, mas com grande alívio, pois Ashoka nem sempre se preocupara tanto com seu bem-estar. Ele começara não como um filósofo suave e generoso, mas como um jovem cruel e brutal, seguindo os passos militares do avô, Chandragupta, que subira ao trono depois de uma campanha militar que criara um imenso império que se estendia de Kandahar, no atual Afeganistão, a oeste, até Bangladesh, a leste. Ele tomava a maior parte da Índia moderna e foi o maior império da história indiana.
Em 268 a.C. Ashoka subiu ao trono, mas não sem considerável luta. Escritos budistas nos contam que para tanto ele matou “99 irmãos seus” — supostamente irmãos tanto no sentido metafórico quanto no literal. Os mesmos escritos criam a lenda dos tempos pré-budistas de Ashoka como dias de frivolidade egoísta e muita crueldade. Quando se tornou imperador, ele decidiu completar a ocupação de todo o subcontinente e atacou o Estado independente de Kalinga, hoje Orissa, na costa leste. Foi um ataque feroz e brutal, que mais tarde parece ter mergulhado Ashoka num remorso terrível. Ele mudou todo o seu estilo de vida, adotando o conceito do darma, o caminho virtuoso que guia os seguidores através de uma vida de desprendimento, piedade, dever, boa conduta e decência. O darma é aplicado em muitas religiões, incluindo o siquismo, o jainismo e, é claro, o hinduísmo — mas a ideia de darma de Ashoka passou pelo filtro da fé budista. Ele descreveu seu remorso e anunciou a conversão ao povo por meio de um édito:

O território de Kalinga foi conquistado pelo rei, Amado pelos Deuses, no oitavo ano do seu reino. Cento e cinquenta mil pessoas foram capturadas, cem mil foram assassinadas, e um número muito maior morreu. Logo após a conquista desse povo, o rei passou a se dedicar intensamente ao estudo do darma…
O Amado pelos Deuses, conquistador de Kalinga, agora está tomado de remorso. Pois sentiu grande tristeza e arrependimento, porque a conquista de um povo nunca antes conquistado envolve massacre, morte e deportação.

A partir de então, Ashoka decidiu redimir-se — estender a mão a seu povo. Para isso, escrevia seus éditos não em sânscrito, a língua clássica antiga que depois se tornaria idioma oficial do Estado, mas em dialetos locais repletos de fala cotidiana.
Convertido, Ashoka renunciou à guerra como instrumento de política de Estado e adotou a bondade humana como solução para os problemas do mundo. Apesar de inspirar-se nos ensinamentos do Buda — e seu filho foi o primeiro missionário budista no Sri Lanka —, ele não impôs o budismo ao império. O Estado de Ashoka era, num sentido muito especial, um Estado secular. Amartya Sen, economista e filósofo indiano e ganhador do Prêmio Nobel, comenta:

O Estado precisa manter distância de todas as religiões. O budismo não se torna religião oficial. Todas as outras religiões precisam ser toleradas e tratadas com respeito. Portanto, o secularismo, na versão indiana, não significa “ausência de religião em questões governamentais”, mas “ausência de favoritismo de qualquer religião em detrimento de outras”.

A liberdade religiosa, a conquista do eu, a necessidade de todos os cidadãos e líderes ouvirem uns aos outros e debaterem ideias, direitos humanos para todos, tanto homens como mulheres, e a importância atribuída à educação e à saúde — ideias que Ashoka promulgou em seu império — continuam fundamentais para o pensamento budista. Ainda hoje existe no subcontinente indiano um país governado de acordo com princípios budistas: o pequeno reino do Butão, espremido entre a Índia setentrional e a China. Michael Rutland é um cidadão butanês e cônsul honorário do Butão no Reino Unido. Ele também foi tutor do antigo rei, e lhe perguntei que papel as ideias de Ashoka poderiam desempenhar num Estado budista moderno. Ele começou me apresentando uma citação:

Em todo o meu reino, jamais mandarei em você como um rei. Protegê-lo-ei como pai, cuidarei de você como irmão e servi-lo-ei como filho.” Isso poderia ter sido escrito pelo imperador Ashoka. Mas não foi. É um trecho do discurso de coroação pronunciado em 2008 pelo quinto rei do Butão, de 27 anos. O quarto rei, o que tive o grande privilégio de ensinar, viveu e continua a viver numa pequena cabana de madeira. Não há ostentação para a monarquia. Ele talvez seja o único exemplo de monarca absoluto que voluntariamente convenceu o povo a destituí-lo de seus poderes e instituir uma democracia eletiva. O quarto rei também introduziu a frase “felicidade nacional bruta” — em contraste com o conceito de “produto nacional bruto”. Além disso, como teria pensado Ashoka, a felicidade e o contentamento do povo eram mais importantes do que a conquista de outras terras. O quinto rei tem seguido praticamente à risca os preceitos budistas de monarquia.

A filosofia política e moral de Ashoka, tal como está expressa em suas inscrições imperiais, iniciou uma tradição de tolerância religiosa, de debate não violento e de compromisso com a ideia de felicidade que desde então anima a filosofia política indiana. Porém — e é um grande porém —, seu benévolo império durou pouco mais do que ele próprio. E isso nos deixa com a desconfortável questão: ideais tão elevados podem sobreviver às realidades do poder político? Ainda assim, esse governante de fato mudou o modo de pensar de súditos e sucessores. Era admirado por Gandhi, assim como por Nehru, e a mensagem de Ashoka foi parar no dinheiro moderno: em todas as cédulas indianas vemos Gandhi de frente para os quatro leões da coluna de Ashoka. Os arquitetos da independência indiana sempre pensavam nele. Mas, como diz Amartya Sen, sua influência vai muito mais longe, e toda a região tem nele uma inspiração e um modelo:

As partes de seus ensinamentos com que os indianos particularmente se identificaram na época da independência foram o secularismo e a democracia. Contudo, Ashoka é também uma grande figura na China, no Japão, na Coreia, na Tailândia, no Sri Lanka; é uma figura pan-asiática.
Neil MacGregor, in A história do mundo em 100 objetos

07/07/2018

Saltador de touro minoico (1700-1450 A.C.)

O touro e o saltador são de bronze e juntos têm cerca de cinco centímetros de comprimento e treze centímetros de altura, representando um touro e uma figura humana saltando por cima do animal encontrada em Creta, onde foi feita há mais ou menos 3.700 anos. O touro está galopando – pernas estiradas e cabeça erguida –, e a pessoa pula por cima em um grande salto mortal em arco. Trata-se provavelmente de um jovem. Ele segurou os chifres e jogou-se por cima do touro, de forma que o vemos em um momento no qual o corpo está todo virado. As duas figuras arqueadas são reflexo uma da outra: a curva exterior do corpo do rapaz encontra resposta na curva interior da espinha dorsal do touro. É uma escultura de grande dinamismo e beleza e nos conduz à realidade – e, não menos importante, ao mito – da história de Creta.
A imagem é a representação literal de algo que para a maioria das pessoas é hoje apenas metafórico: “segurar o touro pelos chifres” é o que todos nós pretendemos fazer diante dos grandes problemas morais da existência. Entretanto, a arqueologia sugere que há mais ou menos quatro mil anos uma civilização inteira parece ter sido fascinada pela ideia e pelo ato de enfrentar o touro.
Neil MacGregor, in A história do mundo em 100 objetos