Mostrando postagens com marcador Jostein Gaarder. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jostein Gaarder. Mostrar todas as postagens

08/05/2021

As estrelas

O ônibus para na frente do edifício do aeroporto.
Agora só restam três passageiros. Jenny, Camila e o pai de Camila. Eles procuram suas bagagens.
Depois da longa viagem de ônibus, a mais longa que Jenny fez em sua vida, ela tem a sensação de conhecer muito bem os outros dois. Eles estão mais próximos dela do que Siri, Ragnhild e as colegas do laboratório. Eles são mais do que companheiros casuais de viagem. Eles são seus semelhantes.
Jenny joga o sobretudo verde sobre um braço e com o outro puxa a mala para fora do compartimento de bagagem. Depois ela sai do ônibus, o motorista faz o motor roncar, fecha as portas e segue viagem.
Anoiteceu entre Soreide e Bergen. A Terra girou alguns graus em torno de seu eixo e fez o sol desaparecer no horizonte. As luzes vermelhas de sinalização no limite do aeroporto comprovam que Jenny morrerá no final do século XX.
Jenny movimenta-se com passos pesados em direção à entrada.
Embarque... Departure.
Sobre o baixo edifício do aeroporto, ela vê as primeiras estrelas da noite como pálidas manchas azuladas na penumbra.
Sóis distantes. E ainda assim nossos vizinhos mais próximos no Universo.
Jenny vai morrer num planeta que gira em torno de uma entre bilhões de estrelas da Via Láctea. E além da Via Láctea, mais além de onde alcançam os pensamentos de Jenny, existem outras centenas de milhões de galáxias como essa.
A morte tão perto — e as estrelas tão distantes.
Jenny teve uma fase em que se interessou por astronomia. Desde o segundo grau até quando foi para Trondheim fazer seus estudos de química, ela lia todos os livros que conseguia encontrar sobre o Universo. Era como uma obsessão.
Jenny sabia que toda a matéria no Universo formava uma unidade orgânica. Ela também sabia que, em tempos primordiais, toda a matéria havia se concentrado numa bola de massa tão desproporcionalmente densa, que a cabeça de um alfinete pesava bilhões de toneladas. Sabia que o átomo primordial explodira devido à imensa força gravitacional. Sabia também que o Universo que a cercava agora era resultado dessa explosão. E mais ainda: ela sabia que todas as galáxias ainda estavam se afastando umas das outras numa velocidade astronômica.
No segundo grau, uma vez Jenny se inserira dentro de um contexto maior. Ela traçara coordenadas de tempo e espaço e localizara sua própria cidade com toda a exatidão. Aprendera a lidar com os acontecimentos arbitrários com os quais os seres humanos inescapavelmente se confrontam na Terra. Depois a vida na Terra a agarrara cada vez mais firmemente.
Jenny vê uma estrela sobre o aeroporto de Bergen. Ela sabe que a luz dessa estrela percorreu bilhões de quilômetros antes de se encontrar com seu olhar no dia 5 de abril de 1983 às vinte e uma horas.
A luz dessa estrela precisou de tempo para essa longa viagem. A cada pulsação no corpo de Jenny, ela avançava centenas de milhares de quilômetros através da noite cósmica. E mesmo assim foram necessários dias e meses e anos. Dez anos, cem anos, milhares de anos...
Olhar para o espaço sideral significa retroceder no tempo. Não vemos o Universo como ele é, mas como foi há muito tempo...
Quando os radiotelescópios conseguem captar a luz de longínquas galáxias que estão a bilhões de anos-luz distantes de nós, eles desenham um mapa do Universo como ele era nos tempos primordiais após a grande explosão. Sim, pois o Universo não conhece uma geografia atemporal. O Universo é um acontecimento. O Universo é uma explosão.
Olhar para o espaço sideral significa viajar no tempo.
Jenny sabe disso. Ela sabe disso desde que tinha dezesseis anos.
Tudo o que uma pessoa pode ver no céu são fósseis cósmicos de milhares e de milhões de anos. Tudo o que um astrólogo pode fazer é interpretar o passado.
Quando uma química de vida atarefada que está com câncer levanta seu olhar da Terra e olha para o espaço sideral, está olhando retrospectivamente para a história do Universo. Numa noite clara, ela vê milhões, sim, bilhões de anos atrás no passado. De certa forma, está vendo o caminho de volta para casa, de volta para sua origem cósmica. Quando
Jenny era criança, muitas vezes a ideia de que o Universo era infinito lhe causava vertigens.
Seu pai lhe explicara que o mundo era uma minúscula esfera que girava em torno do Sol. O Sol era uma estrela. E lá em cima no céu havia milhões e mais milhões daqueles sóis.
E depois das estrelas? Outros milhões de novas estrelas. E depois destas?
Em suas leituras, Jenny deparara com o fato de que essa já era uma visão ultrapassada do mundo. O Universo não era infinito. Ele era grande. Mas não infinito.
E não era para ter vertigens com essa ideia? Que o Universo fosse finito, a realidade, um enigmático colosso que se erguia do nada absoluto?
A caminho do setor de embarque, Jenny se lembra de que lera sobre um astrônomo que calculara o número total de galáxias no Universo. E, não se dando por satisfeito, além de contar as estrelas do firmamento, calculara também o número total de partículas elementares em todo o cosmo e determinara o peso do Universo.
Jenny fica emocionada com essa ideia.
A realidade, ela pensa, a realidade é um objeto que pesa determinado número de quilos.
Nesse momento, a massa do Universo está dividida em bilhões de galáxias numa área gigantesca. Mas nem sempre foi assim. Em algum momento, em tempos remotos, há dez ou quinze bilhões de anos, toda a massa existente no Universo formava um único objeto. Naquela época, um único objeto formava a realidade.
A pulsação de Jenny acelerou com esse pensamento.
Todas as estrelas e galáxias no espaço sideral compõem-se da mesma matéria. Aqui e ali foram se formando aglomerações dessa matéria. Uma galáxia pode estar a bilhões de anos-luz das outras. Mas todas possuem a mesma origem. Todas são da mesma linhagem...
Mas que matéria era essa que formava o mundo?
O que é isso que explodiu há bilhões de anos? De onde veio?
Essa questão afeta Jenny profundamente. Afinal, ela mesma é feita dessa matéria.

Jostein Gaarder, in O Pássaro Raro

29/12/2020

O mundo

             Jenny sempre gostou de andar de ônibus.
Ela gostava de se sentar à janela e ver a paisagem passar. As montanhas, o fiorde, as casas, as vitrinas, as pessoas...
Era como se estivesse folheando um livro.
No ônibus ela podia ficar sentada sem ser perturbada e ouvir em segredo a conversa-fiada das pessoas, e não precisava arrumar alguma desculpa para isso.
As horas em que Jenny refletia mais intensamente eram durante as viagens de ônibus que fazia todos os dias entre Asane e Bergen. As poucas ocasiões em que seus pensamentos giravam em torno de outros temas além de economia e das bagatelas do cotidiano eram no ônibus.
No ônibus ela vira o nascer do sol. No ônibus vivera o crepúsculo. No ônibus tinha se dado conta do paradoxo que é um ser humano não viver eternamente.
Jenny estava sentada atrás de uma mãe e de seu falante filho de seis ou sete anos.
O menino acabara de atingir o estágio da vida em que havia se acostumado à realidade. O mundo não era mais algo novo em folha ou inexplorado. Ele ainda podia descobrir muitas coisas novas, mas há tempo o mundo já não oferecia mais motivos para se maravilhar. Ele havia deixado de ser uma permanente revelação.
Duas fileiras à frente, uma menina de dois anos estava sentada no colo de seu pai. Num momento, ela puxava a barba de seu papai; no momento seguinte, soltava-se dele e apontava entusiasmada para fora da janela.
Essa menininha era um ser totalmente diferente do garoto de sete anos. Ela ainda estava nos anos mágicos. Para ela, o mundo era ainda tão novo como no sétimo dia, em que o Senhor descansou. E a menina via que tudo era bom...
Se o motorista de repente tivesse colocado o ônibus no piloto automático para sair flutuando pelo teto do ônibus sobre a cabeça dos passageiros, talvez ela apontasse para ele e dissesse: “Olha, papai, o homem está voando!”.
O pai, um professor universitário ou educador social com seus trinta e poucos anos, provavelmente teria sofrido um choque. Simplesmente porque estava no mundo havia mais de trinta anos sem nunca antes ter vivido nada semelhante. Sim, apenas por isso.
Agora a menina apontava para uma ambulância com sinal luminoso e sirene tocando. O veículo passou pelo ônibus a toda velocidade na direção de Soreide. Para a menina pequena, tudo isso era extraordinário.
O pai deixava-se guiar e olhava para tudo o que sua filha apontava. Certamente ele participava das experiências de sua filha apenas por considerações de ordem pedagógica. Ele já vira inúmeras ambulâncias.
Mal a menina havia se sentado, já se soltava novamente. Agora ela apontava, sem caber em si de tanto entusiasmo, para um cavalo em frente a um grande estábulo.
Au-au! — disse.
Cavalo, Camila, é um cavalo. O professor tinha razão.
Se tivesse visto um Canguru pela janela do ônibus, com certeza ele teria cocado a cabeça intrigado — sem dúvida, apenas porque já havia feito a viagem para Fjosanger muitas vezes sem nunca ter deparado com um Canguru.
A menininha, por sua vez, provavelmente teria exclamado novamente com todo o entusiasmo: “Au-au!”.
Ver um Canguru para ela não teria sido nem mais nem menos emocionante. Ela ainda não possuía conhecimentos de zoologia tão bons assim.
Na verdade, nesse momento ela estava vendo um Canguru. Com um filhote dentro da pequena bolsa em sua barriga. Ou um elefante. Um elefante cor-de-rosa. Com asas douradas e prateadas...
A pequena Camila mergulhou em seu conto de fadas. Um conto em que o professor universitário talvez apenas conseguisse mergulhar se de repente o espaço à sua volta se enchesse de anjinhos.
Ter uma doença incurável significava um aguçamento incrível da memória. De repente, Jenny podia se lembrar tão bem de sua infância, que não tinha nenhuma dificuldade em se identificar com aquela menininha de dois anos tão maravilhada com tudo o que via.
Jenny tinha a sensação de estar vendo o mundo pela primeira vez. Muito embora fosse a última. Mas no fundo não era a mesma coisa? Como a garotinha à sua frente no ônibus, ela estava na extrema fronteira do mundo.
Jenny olhou para fora da janela.
A grama estava tão verde, a montanha tão alta e seus contornos tão definidos, o céu vespertino de um azul tão deslumbrante e as pessoas e os animais tão vivazes.
O mundo parecia ter sido criado havia apenas poucos minutos. Como se um mágico tivesse acabado de tirar a realidade da manga do paletó.
Lá em cima na encosta, ainda se viam algumas manchas de neve. Uma última saudação do ano passado.
De uma vida...
Jenny não veria mais a neve caindo em flocos do céu. Seu ciclo fora interrompido e soara o aviso da última rodada.
Neve!
Jenny ainda se lembrava da primeira vez em que vira algo branco sobre a terra. Na primeira de todas as manhãs de inverno do mundo. Um espesso tapete de uma geada de grãos graúdos cobrira tudo como um cobertor gelado.
Açúcar! — ela exclamara.
Ela se aprumara em seu carrinho e sacudira vivamente os braços.
Açúcar!
Isso havia sido no tempo em que ela ainda desfrutava desse esplendor. Ela não vira outra coisa senão uma paisagem confeitada.
O mundo é um enigma, pensava Jenny agora. Mas nós nos acostumamos a esse enigma quando crescemos. Até que ao final não nos acontece mais absolutamente nada enigmático. O mundo torna-se constante e previsível. E precisamos refletir profundamente para destituir o mundo de sua aparente compreensibilidade. Precisamos nos aprofundar intensamente em nós mesmos se quisermos vivenciar o mundo como mistério...
Não é engraçado?
O único verdadeiro mistério é aquele que vemos. Mas é o único que nunca é mencionado.
Isso diz respeito a todas as pessoas. Mas não é um tema de conversa. Nada é tão obscuro quanto o que é cristalino.
Nada é tão oculto quanto o que vivemos em cada um dos dias.
Aqui despertamos num globo terrestre no Universo. Num globo flutuante. Uma esfera mágica. Com lagos, florestas e montanhas. E uma pitada de vida em todas as formas e tamanhos.
Aqui a matéria espalha-se pelo campo. Aqui ela desponta do solo entre pedras e árvores. Aqui ela fervilha em rios e lagos. Aqui ela tremula no ar entre o céu e a terra. E mais ainda, mais: a matéria neste misterioso planeta é consciente de si mesma. Ela abre os braços e diz: “Opa! Lá vou eu!”.
E, apesar de tudo, depois é assim. Nos acostumamos a tudo o que está à nossa volta e agimos como se tivesse que ser assim. Consideramos a vida neste planeta a forma mais racional de existência. Talvez ainda consideremos os dodos e os dinossauros algo extraordinário, mas apenas porque eles não existem mais.
Ainda na terceira ou na quarta série, Jenny admirava-se de que na Austrália as pessoas não despencassem da superfície da terra. Ela achava isso espantoso, do mesmo modo que teria ficado perplexa com o contrário: caso os australianos de fato caíssem no espaço sideral.
O que ela sabia naquela época sobre “leis da natureza” — leis da natureza, o que era isso?
Camila e o “au-au” lembraram a Jenny salas de leitura e grupos de trabalho.
Quinze ou vinte anos antes, ela lera os dois volumes da História da filosofia, de Arne Naess, para um exame. Ela só conseguia se lembrar de uma frase — talvez porque tivesse lhe parecido verdadeira logo à primeira vista: “Nada existe na consciência que antes não tenha existido nos sentidos”.
Algum filósofo havia formulado mais ou menos assim. Agora ela pensava de novo nessa frase — e ela lhe parecia a quintessência de tudo o que é possível dizer sobre este mundo.
Todos nascemos com uma série de expectativas perante o mundo, que depois se concretizam ou não. Assim, aceitaríamos também qualquer outro tipo de ordem no mundo.
No que diz respeito à racionalidade, a realidade não leva nenhuma vantagem sobre qualquer conto de fadas. Do ponto de vista da lógica, todas as ordens são igualmente possíveis no mundo. Ou impossíveis. Mas o homem é dotado de uma capacidade de adaptação inconcebível. Se conseguimos nos manter a cada dia na realidade sem perder o entendimento, sem nem ao menos piscar os olhos, é porque somente a realidade é real, somente ela é um fato.
Quem é que acreditaria na realidade sem que fossem apresentadas provas de que ela existe?
O mundo, pensou Jenny, o mundo vira um hábito. Tudo é inflacionado. Se começar a acontecer um milagre após o outro, ao final só poderemos estar indiferentes. Até que chega o dia em que simplesmente não vemos mais que existe um mundo.
Uma coisa só pode nos parecer enigmática se contrastada com nossas expectativas. Somente nos surpreendemos ainda quando a longa série de nossas expectativas é quebrada. O mundo precisa dar uma guinada. E nós precisamos viver algo “sobrenatural” para sentir na própria pele que existimos.
Jenny olha novamente para fora da janela.
Soreide. Uma cidadezinha a dez quilômetros ao sul de Bergen. Algumas lojas, uma escola, uma agência de correio. Uma noite quieta de um dia de trabalho. Jenny olha para tudo com a visão aguçada de uma criança.
A única coisa que torna este mundo mais plausível do que a mais alucinada fantasia é o fato de que ele existe. Deixando essa diferença de lado, Soreide é tão incompreensível para a razão quanto a Terra Média dos hobbits ou o País das Maravilhas de Alice.
Isso também deve ter sido formulado mais ou menos assim por algum filósofo. O grande mistério não consiste em como o mundo é, mas apenas em que ele existe.
Essa tese também marcou Jenny na época em que ela se preparava para o exame de filosofia. Essa frase parecia abranger tudo o que se podia imaginar.
Mas em todos os anos que desde então se passaram ela nunca mais havia pensado nisso. Estava ocupada demais em viver. O mundo em si não é um tema com o qual se deva quebrar a cabeça todos os dias.
Mas quando de repente alguém descobre que está com câncer, a coisa fica bem diferente. Então, palavras como mundo, vida ou morte passam a ter mais importância. Os doentes de câncer muitas vezes desenvolvem uma apurada sensibilidade para as grandes questões existenciais. Muitos chegam a afirmar que isso faz parte do quadro da doença.
No Wesselstue, porém, esses pensamentos não estavam exatamente na ordem do dia. Essas idéias eram estranhas aos médicos e professores de Finse. Eles eram saudáveis demais para elas. Eles eram um pouco animais demais para elas.
O que os diferenciava, então, das vacas e ovelhas em Blomsterdalen? Eles simplesmente estavam lá. Absolutamente sem notar isso. Sem recuar um passo.
O que teria movido Siri em Finse se existisse apenas um sexo sobre a terra? Talvez ela tivesse ficado observando as estrelas. Talvez ela tivesse deitado a cabeça para trás para olhar o Universo. Talvez tivesse descoberto a si mesma e se perguntado de onde teria vindo.
Quase toda sua vida na terra Jenny vivera como uma personagem de história em quadrinhos, sem uma consciência de si mesma. Apenas uma rara vez, a consciência da própria existência lhe percorrera o corpo como um calafrio.
Uma pessoa vive no máximo oitenta ou noventa anos, ela pensou agora. Uma geração sucede a outra... Todos temos que morrer... Não vivemos para sempre — no trato entre as pessoas existem muito floreios.
Se vivêssemos apenas três ou quatro anos, precisaríamos nos conformar com isso exatamente da mesma maneira. Seria essa então a nossa natureza. Mesmo se vivêssemos mil ou dez mil anos, também estaríamos insatisfeitos quando o final se aproximasse.
Trinta e seis anos...
Um dia na eternidade. Um piscar de olhos no tempo. Não fazia muito tempo que Jenny tinha a sensação de ser adulta. Ela ainda era uma principiante.
E, mesmo assim, não invejava mais os outros pela indulgência de alguns parcos dias a mais. Ter mais uma semana ou mil anos de vida no fundo não fazia diferença, se de qualquer forma ela deixaria de existir um dia. Afinal de contas, existiam questões mais importantes do que o exato momento em que a vida de um único indivíduo chega ao fim. Tratava-se de algo mais do que simplesmente regatear a hora de partir.
Não sou eu quem está doente, ela pensou. O mundo está doente. Pois, afinal de contas, “tudo o que vem a ser é digno de perecer”.
Buda também se referiu a isso quando disse que tudo no mundo está preenchido por sofrimento. Existem muitas coisas boas no mundo. Muito a que nos afeiçoamos. Mas nada daquilo que amamos e a que nos apegamos perdura.
Será que não existia um remédio contra seu medo de se perder de si mesma? Não havia nada que curasse Jenny de seu desejo intenso de viver, nada que a libertasse de sua sede de vida? Não existia uma perspectiva que fosse mais importante do que a questão do ser ou não ser?
Com essa questão ocupava-se Jenny no último posto avançado do mundo.

Jostein Gaarder, in O pássaro raro

15/11/2020

Abril

          Passou mais uma barca para Askey. Jenny levanta-se do banco, pega a mala branca e anda em direção à cidade.
Abril. Os gramados são tão verdes que doem nos olhos. Nos canteiros florescem campânulas, açaflores e narcisos. As bétulas nuas cobriram-se de véus lilases. Em algumas delas despontam os brotos de folhinhas verde-claras. Em uma semana, as bétulas estarão todas vestidas de verde...
Abril. É inconcebível, pensa Jenny, como em poucas semanas são bombeadas toneladas de matéria verde e viva da terra escura e sem vida.
Abril. Ela pensa de novo na Páscoa. Na morte e na ressurreição. Na semente que precisa cair no solo e morrer...
Jenny passa lentamente pela Fredriksberg e alcança as casas antigas de madeira entre Kloster e o fiorde Pudde.
Gramados verdes. Árvores. Um velho com uma bengala. O trinado das risadas das crianças. Um pesado Sol se põe rompendo a camada de nuvens.
Jenny absorve cada uma dessas impressões.
Adeus, pensa com tristeza e amargura. Adeus, Bergen. Adeus, terra viva, adeus, céu e sol... Agora vou me retirar, meu tempo chegou ao fim. Vou desaparecer. Não por uma ou duas semanas. Mas para sempre. Eternamente.
De repente, ela compreende o que significa essa palavra. Eternamente. Numa fração de segundo, ela compreende. Jenny conhece a eternidade.
Este aqui foi o meu mundo. Por trinta e seis anos. Não, por milhões de anos. Ela não se sentia nem um só dia mais nova do que o monte Ulrikken. Mas quanto este mundo foi meu. Quão colorido foi para mim. O quanto o apreendi em minha consciência.
Talvez existam outros mundos além deste. Num outro lugar. Ou num outro tempo. Talvez ambos. Mas deste mundo Jenny pôde participar. De um mundo feito de vales e fiordes e montanhas, de deserto, mar e selva. Com cavalos e vacas e cabras, elefantes, rinocerontes e girafas. Com açaflores, campânulas e hibiscos, laranjas, ameixas e framboesas... e com seres humanos, mulheres e homens. Jenny conheceu a humanidade. Bem de perto. Ela teve um contato imediato de quarto grau. Ela mesma foi um ser humano!
O mundo!
Ela fez uma breve visita a esse mundo. Como participante, como representante, como observadora.
Quantas horas ainda lhe restarão aqui?
Mas isso ainda faz alguma diferença, se ela já está mesmo de saída?
Sim, faz diferença. Quantas horas ainda lhe restam para viver? Para existir?
Dai-me a vida mais uma vez, pensa Jenny. Dai-me um corpo são. Dai-me de volta minha juventude...
Dai-nos Barrabás!
Nesta comemoração da Páscoa, Jenny é o cordeiro imolado. Ela carrega o sofrimento do mundo em suas costas.
Quando tudo está quieto, ouvimos os corações batendo... rastejando ou andando, ou totalmente perdidos: nós vivemos!”
Agora ela estava outra vez no meio da cidade.
Se fosse uma terça-feira à noite totalmente normal, ela ainda iria ao café Wesselstue antes de tomar o ônibus para Asane. Podia ser que lá encontrasse conhecidos, alguém para conversar...
Mas esta aqui não era uma terça-feira à noite normal. Mesmo assim, ela decidiu dar uma última olhada no Wesselstue. Não para encontrar conhecidos. Mas para mergulhar pela última vez na multidão antes de deixar Bergen e voar para Oslo.
Ela passou furtivamente pelo vestiário para não ter que entregar o sobretudo e a mala. Com a mala numa das mãos e a bolsa na outra, tentava abrir caminho por entre as mesas no salão enfumaçado. Hoje não ficou procurando conhecidos. Preferiu ficar com uma visão geral da atmosfera, da vida do café...
Era o grande dia do “vejam-só-o-meu-bronzeado”. Também se podia ver um ou outro rosto pálido. Os rostos pálidos deviam se sentir como uma minoria étnica. Era absolutamente normal que no primeiro dia útil após a Páscoa alguém circulasse com uma mala na mão por entre as mesas do Wesselstue. O que não era nada natural e parecia quase grotesco era aquela combinação de uma mala com um rosto pálido, quase branco.
Além disso, Jenny estava completamente sóbria. Ela não recendia a cera de esqui ou a bronzeador, nem a petróleo ou lenha de bétula. Também não recendia a cio.
Era estranho ver como as pessoas encostavam as cabeças e sussurravam e cochichavam umas com as outras, como riam e tagarelavam. Como faziam seus jogos de sedução umas com as outras e contavam suas anedotas de viagem. Como abriam seus leques de pavão e se exibiam cheias de vaidade. Quase doía ter que ver isso.
Veja só a ponta do meu nariz! Até na barriga eu fiquei um pouco bronzeada... e na barriga da perna, também não fiquei? Bem, sabe, conhecemos um professor e um médico... eles estavam numa casa imensa... com sauna, entende... na verdade... Alguns dias fez tanto calor que deu para tomar banho de sol sem blusa!
Pobres de espírito, pensou Jenny. Ela tremia debaixo de seu sobretudo.
Há poucas semanas, ela também era uma dessas pessoas. Agora elas lhe eram estranhas. Agora ela se sentia como se estivesse no topo de uma montanha bem alta. Agora ela estava em algum lugar lá fora no espaço sideral.
Ela ficou com medo de encontrar conhecidos e, por isso, logo deixou o local.
Jenny abre caminho entre as muitas motocicletas em frente ao Hotel Norge. Ela atravessa a Festplass e segue pela Lille Lungengärdsvann em direção ao terminal rodoviário.
Bem lá embaixo, à beira do lago, está deitado um casal aos beijos e abraços. Não parece muito confortável o modo como estão ali enlaçados. Como é que eles conseguem?, pensou Jenny. Parece tão cansativo. E com certeza está frio. É inegavelmente também um pouco grotesco. Dois animais estendidos, que se acariciam mutuamente e se beijam, se arranham e se beliscam. E cujos desejos se devem ao fato de pertencerem a diferentes variações da espécie humana.
Ainda assim, ela podia entendê-los perfeitamente. Ela mesma também já havia sido um indivíduo dessa espécie…

Jostein Gaarder, in O pássaro raro

09/11/2020

Diagnóstico (Asfalto)

            Chiar de freios, um automóvel buzina.
Mais uma vez, quando deu por si, estava parada na calçada. A sensação era a de acordar de um sonho. Ou de passar de um sonho a outro.
À sua volta, a multidão fervilha como num formigueiro. As pessoas parecem estar sendo todas guiadas por uma força invisível.
Apenas ela está quieta, apenas ela está parada. Apenas ela está realmente acordada.
Nunca seus sentidos estiveram tão aguçados como nesse dia. Sim, ela via, ouvia e percebia tudo. Mas nunca antes havia sentido o cheiro do ar e da fumaça dos automóveis e do asfalto úmido como hoje. Nunca havia sentido tão intensamente como agora: ela estava no mundo, ela existia.
Quando criança talvez? E agora de repente sua infância surgia tão viva diante de seus olhos. Onde é que ela havia se escondido todos esses anos?
Tinha cinco, oito, onze anos...
E agora estava com trinta e seis... De lá para cá, o tempo havia passado voando. Toda sua vida adulta era como uma longa viagem que ela mesma só conhecia em segunda mão.
Choveu a cântaros durante toda a manhã. Agora o céu está clareando. E a luz lhe parece impiedosamente penetrante.
Uma criança chama por sua mãe. Atrás dela transeuntes trocam palavras incompreensíveis. Um bêbado a empurra para o lado. As pesadas rodas do ônibus passam levantando a água, que espirra sobre a calçada.
Ela ainda fica um momento parada como se tivesse aderido ao asfalto. O único ponto inerte em todo o alvoroço. Depois ela volta a se movimentar em meio às outras pessoas.
Jenny vagueia pela cidade. Ela não tem pressa, nada urgente para fazer. Ela não faz mais parte dessa balbúrdia ensurdecedora.
Pela primeira vez na vida, ela estava entregue a si mesma. Ela se sentia uma estranha aqui na grande praça do mercado onde as pessoas se desencontravam em todas as direções, em movimentos mecânicos, como num antigo filme mudo. Ela sentia medo, medo…

Jostein Gaarder, in O Pássaro Raro

04/11/2020

O espírito absoluto

          1.

Quanto a mim, chegou o momento de dizer a que vim. Evidentemente, não sou um ser humano. Isso hoje ninguém mais é. Eu sou o espírito do mundo hegeliano. Eu sou Deus. Eu sou o pleroma.
Não somos mais indivíduos se não fazemos mais nada. O indivíduo é uma personalidade em ação. Um indivíduo é por definição algo limitado. Se todos estão em toda a parte e tudo sabem — então tudo é um só.
A história atingiu seu objetivo. O ciclo foi interrompido. Todos os rios desaguaram num grande oceano.
Tudo isso se passou há vários milênios. Agora, com certeza, já faz dez ou vinte mil anos que o scanner do tempo foi construído. Mas isso na verdade não tem nenhuma importância. Eu parei de contar os anos. Mas cruzei a história do mundo em todas as direções.

2.

Ser onisciente proporciona uma indescritível paz de espírito. A única coisa com que tenho que me preocupar em minha onisciência e onipresença é a solidão.
Estar em toda a parte leva à solidão. Não tenho ninguém com quem possa dividir minha onisciência. Não tenho a quem ensinar. Pois todos sabem tudo. Todos são idênticos a mim. Isto é, eu som todos.
O outro não existe, não existe uma incerteza lúdica, à qual eu pudesse acrescentar uma nesga de mim mesmo, na esperança de alguma espécie de confirmação da minha existência.

3.

Estou com dor de cabeça. Acho que estou dormindo. De qualquer forma, não escrevi nada disso. Talvez eu tenha sonhado. Mas acho que vi isso na tela. Ou fui visto.
Não sei se estou sonhando ou se eu mesmo sou o sonho. Não posso garantir que esteja vivo. Mas estou bastante certo de que vivi. Bem, na verdade, isso também já não tem muita importância.
Para que se deveria, em meio a grande ausência de limites, colocar a todo custo um limite qualquer?

Jostein Gaarder, in O pássaro raro

23/10/2020

O fim da história

 

O Grande Colisor de Hádrons

1.

Quando o scanner do tempo foi instalado em Genebra, em meio à euforia geral, especulou-se se acaso ele também não poderia mostrar o futuro. Bem, só mesmo leigos para ter ideias tão ingênuas. Afinal, como o pleroma poderia conhecer algo que ainda não foi criado? Saber algo sobre o futuro é tão difícil como escapulir para fora do Universo. O Universo está em expansão, assim como o tempo. Um condiciona o outro.
Todavia, podemos apontar para o fato de que o futuro não é mais o que era antigamente. Na verdade, a história teve seu fim no ano 2170. Desde meados do século XXII não aconteceu mais nada importante. Nenhum dos códigos vai além desse momento. E por quê?
É claro que continuaram a nascer novas pessoas, e que se continuou a comer, fazer a digestão, sentar diante da tela e assistir à história. Mas somente daí não surge uma nova história. Por isso, sempre se volta a reivindicar que a contagem do tempo seja abolida. Hoje em dia, tanto faz se contarmos os anos ou as contas do rosário, nenhum dos dois tem mais sentido.
Com o scanner do tempo, a história chegou a um fim. E talvez também se possa dizer o mesmo da vida. O mundo gira em falso. As pessoas grudam na cadeira e colhem a nata da história.

2.

Esse “dilema cultural” foi esboçado pela primeira vez por Nietzsche em seu ensaio “Da utilidade e da desvantagem da história para a vida” (1874, código “História da filosofia”, verbete 2916). Mais tarde Nietzsche deu a esse ensaio o título mais incisivo de “A doença histórica”, cf. verbete 2968). No prefácio, Nietzsche cita um depoimento de Goethe, no qual ele afirma abominar “tudo o que apenas me ensina sem ampliar minha atividade ou vivificá-la diretamente”. Nietzsche acrescenta que “todos nós sofremos de uma dilacerante febre histórica”.
Nietzsche, portanto, já reconhecia que a história pode representar uma ameaça à vida vivida. Em sua opinião, existe um “grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, que se dá em prejuízo do vivente e que ao final o leva à ruína, seja ele um homem ou um povo ou uma cultura”. Um excesso de história leva a que ao final a vida se corrompa e degenere, e nesse processo também a história acaba por se corromper.
Nietzsche queria combater o hegelianismo. Mas suas palavras, como crítica cultural, são bem mais atuais hoje do que em sua época. Hoje nos falta o que Nietzsche chamou de “força plástica de um indivíduo, um povo, uma cultura”.
A vida precisa de esquecimento. A saúde do homem depende de sua capacidade de esquecer. De cada ação e de cada momento de felicidade também faz parte o esquecimento. O conhecimento nunca deve se sobrepor à vida.
Há um trecho em que Nietzsche compara uma pessoa empanturrada de história a uma cobra que engoliu uma lebre e depois fica cochilando ao sol, sem conseguir se mexer.
O homem moderno, segundo Nietzsche, sofre de um enfraquecimento da personalidade. Ele se tornou um espectador lascivo e errante.
Nietzsche reporta-se a Hesíodo (700 a.C, “História da filosofia”, verbete 0017), que acreditava que a Idade de Ouro da humanidade já havia passado. Os homens estariam se tornando cada vez mais fracos. E um dia viriam ao mundo com cabelos brancos. Segundo Hesíodo, nesse momento Zeus extinguiria a humanidade.
Nietzsche via a “cultura histórica” como uma espécie de encanecimento inato. Para ele, damos a impressão de que a humanidade é velha e sua ocupação é a mesma dos anciãos: a retrospectiva. Seríamos, por assim dizer, “seres ociosos e mimados no jardim do saber”.
Podemos afirmar em sã consciência que nesse sentido o velho carrancudo foi quase um vidente. Desde sua época, muita coisa mudou. Nietzsche não viveu o desenvolvimento da tecnologia da comunicação que esbocei aqui, pois morreu em 1900, o ano em que tudo começou. Contudo, ele pressentiu o que iria acontecer.
No século XIX, ainda era comum fazer alguma coisa. Alguns poucos — devido a Nietzsche cada vez mais — subiram às tribunas desde então. Mas a maioria trabalhava. Hoje toda a humanidade está nas arquibancadas. Todos somos espectadores. E nem mais saímos para dar uma volta. Para nos deslocarmos, não precisamos nos movimentar fisicamente. E o que observamos não é o nosso presente. O que se passa nas telas de nossas casas aconteceu há milhares de anos lá fora sob o céu aberto.

3.

Foi a visão de Hegel do Espírito Absoluto que apontou para o futuro. O que Zaratustra temia aconteceu: Apoio venceu Dioniso, e hoje temos que ir a um antiquário se quisermos comprar gaze e esparadrapo.
Para Hegel, a história da humanidade era um processo no qual o espírito do mundo despertava para a consciência de si mesmo. Houve um tempo em que o espírito era uno e indivisível. O objetivo da história, porém, é o retorno do espírito a si mesmo.
Na verdade, esse retorno pode ser datado em 2120, o ano em que o scanner do tempo foi instalado. Hegel não caberia em si de alegria.

Jostein Gaarder, in O Pássaro Raro

17/10/2020

A consciência arbitrária

1.

Há muitos e muitos anos, a vida acontecia ao ar livre. Ia-se para casa apenas quando se tinha fome ou frio. Se alguém quisesse encontrar uma pessoa, ora preciso procurá-la fisicamente. Mas isso foi há muito tempo. Afinal, para que sairíamos, se toda a vida se passa entre nossas quatro paredes?

Uma pessoa vive apenas oitenta, noventa anos. Em certo sentido, porém, ela vive para sempre. É que ela não pode se esconder de seus descendentes. Daqui a mil anos, com certeza, vai haver alguém me observando aqui sentado diante da tela. De qualquer forma, o que vivenciamos não dura mais de oitenta, noventa anos. Portanto, por que deveríamos sair de casa? Mas o que se quer mesmo é ter o máximo possível de vivências. Nas últimas semanas, por exemplo, concentrei-me sobretudo na guerra do Vietnã. Uma história repugnante. Que além disso se repetiu alguns anos mais tarde no Afeganistão. Mas o Afeganistão pode esperar até o próximo mês.


2.

Tudo começou na primeira metade do século XX com os aparelhos de rádio. Fico comovido só de imaginar o dilema que devia ser a escolha de uma estação de rádio para as pessoas naquela época. De repente, era possível receber na própria sala sinais sonoros enviados de todas as partes do mundo. Mas se as pessoas soubessem de tudo o que ainda iria acontecer... Já naquele tempo a própria casa adquiria uma nova dimensão. Afinal, o que eram as novidades das quais se ficava sabendo no pub local ou no bar da esquina perto das notícias de Nova York ou Tóquio ouvidas em primeiríssima mão?

Mas disso todos já sabem. Mesmo assim, é preciso mostrar com toda a clareza as incríveis semelhanças que existem entre um aparelho de rádio e o atual scanner do tempo. Em princípio, era possível captar milhares de estações de rádio em centenas de países.

Algumas pessoas naquela época tornaram-se radioamadores.

Isto é, compravam ou montavam elas mesmas pequenas emissoras próprias, para com isso atrair para si a atenção do mundo. Um desdobramento dessas possibilidades foram as estações de rádio locais, que no começo da década de 80 se multiplicavam como coelhos.

Já com esse desenvolvimento, as distâncias geográficas perderam em muito sua importância. Ao lado do rádio, contudo, também foram fatores igualmente significativos o telefone e o telégrafo — que sofreram um desenvolvimento espantoso durante todo o século XX.


3.

Antes ainda que o rádio chegasse ao mercado, já haviam sido feitas experiências com imagens vivas.

Como se sabe, o filme representou uma forma estupenda de comunicação unilateral. As pessoas pagavam um tanto e sentavam-se na sala de cinema. A única possibilidade de escolha que lhes restava era sair da sala antes do fim da projeção. Será que ainda hoje é possível ter uma medida do entusiasmo com que o mundo acolheu o cinema?

Depois veio a televisão. Por volta de 1970, a rede de emissoras de televisão estendia-se sobre boa parte do mundo, e aí começou a morte do cinema. Do conforto de seus sofás, agora as famílias podiam ver na tela o que se passava no mundo.

No começo da década de 70, também chegaram ao mercado os primeiros aparelhos de vídeo. Assim como antes já se fazia com os sons, agora as imagens vivas eram armazenadas em fitas magnéticas.

O vídeo conquistou o mundo de forma arrebatadora. Muitos hotéis passaram a equipar seus quartos com a nova maravilha. Na vida privada, abriam-se possibilidades inteiramente novas para o uso do aparelho de televisão. A partir de agora, cada família podia decidir que filme queria ver. Fitas de vídeo podiam ser alugadas por um preço irrisório. E isso ainda não era tudo: depois de algumas décadas, a maioria das famílias modernas dispunha de sua própria câmara de vídeo.

Vidas e histórias humanas foram armazenadas em fitas magnéticas. As câmaras de vídeo podiam registrar mesmo os crimes mais abjetos que eram cometidos nas ruas, nas estações de metrô, nos bancos e em todos os lugares por onde transitassem pessoas. A casa passou a ser o lugar mais seguro para se estar. Naturalmente lá havia mais coisas para fazer do que antes.

Junto com os aparelhos de vídeo, difundiu-se também a chamada televisão a cabo. Mas mais importante ainda foi o cinturão cada vez mais denso de satélites de comunicação que circundava a Terra. A partir de meados da década de 90, quem possuísse um aparelho de televisão podia captar algumas dúzias de emissoras, a maioria das pessoas podia escolher entre centenas de canais. Após cinquenta anos, a televisão havia atingido o alcance intercontinental das ondas curtas.

Nessa altura, a produção de vídeos e de programas de televisão também havia aumentado significativamente. A qualquer momento, podia-se captar um número considerável de emissoras através do aparelho de televisão. Quem, apesar disso, não encontrasse nada interessante — e sei do que estou falando quando digo “apesar disso” — sempre dispunha de alguns metros de estante com filmes e gravações aos quais, aliás, nunca tinha tempo para assistir. Em alguns casos, essas coleções de registros audiovisuais alcançavam dimensões espantosas.

Os fervorosos colecionadores de fragmentos de realidade contavam com uma imensa oferta de possibilidades. Já nessa época as pessoas começaram a se retirar das ruas e das praças. E isso no fundo não era de se admirar. Afinal, o que as ruas ainda tinham a oferecer? No próprio quarto, tinha-se acesso a todas as formas imagináveis de entretenimento.


4.

As possibilidades dos aparelhos de televisão ampliaram-se ainda mais com a revolução da informação que o mundo viveu no final do século XX.

Na passagem do milênio, quase todos os aparelhos de televisão funcionavam simultaneamente como terminais de computador. A ampliação da rede de telecomunicações havia unido o mundo numa única rede de comunicação.

Por volta do ano 2030, o pagamento de serviços, qualquer tipo de transação monetária, bem como todas as encomendas de mercadorias eram realizados da sala de estar. As pessoas não dependiam mais de seus aparelhos particulares de vídeo ou de suas próprias fitas. Tampouco precisavam possuir livros, que ficavam empoeirando na estante. Tudo o que se quisesse ver, e tudo o que se quisesse saber, podia ser transferido diretamente dos bancos de dados para os aparelhos da sala ou da cozinha. Quem quisesse uma cópia de um artigo de jornal ou enciclopédia, de um poema ou de um romance, podia produzi-la por conta própria na impressora da família.

Todo mundo então tinha acesso a todos os noticiários, antigos e atuais, a todos os filmes, antigos e atuais; toda a história da arte estava disponível em produções de vídeo — em suma: boa parte dos atuais recursos já era utilizada cotidianamente na primeira metade do século XXI.

No começo do século XXI, o antigo telefone sonoro teve que ceder seu lugar ao videofone. Falar num fone não é a mesma coisa do que conversar face a face. Os gestos são uma parte importante da linguagem. É bom ver uma pessoa de quem se gosta — quase tão bom quanto tê-la nos braços. Assim, paradoxalmente, o videofone contribuiu para distanciar as pessoas umas das outras.

Além disso, é interessante mencionar que naquela época foram instaladas câmaras de vídeo em cerca de cinco mil locais centrais do mundo, que, sem nenhum texto ou comentário, mostravam o que se passava diante delas. Quem quisesse saber como estava o tempo em alguma parte do mundo, precisava apenas sintonizar a emissora correspondente. Do sofá, era possível dar uma olhada em todos os cantos do mundo.

Com o tempo — e este é o cerne da questão — lamentavelmente aconteciam cada vez menos coisas ao ar livre. Sair de casa significava limitar o horizonte de forma brutal.


5.

É possível escrever longos tratados sobre o desenvolvimento da comunicação antes do scanner, e é possível criar muitas expressões de busca e códigos sobre esse tema (“Do tambor ao scanner do tempo” é especialmente recomendável). Aqui neste caso, uma brevê exposição deve ser suficiente. De maneira resumida, podemos dizer o seguinte:

Todas as formas de comunicação mais antigas, inclusive a conversa e qualquer modo de transmissão de conhecimento, até meados do século XXI, funcionavam através do aparelho de televisão. Qualquer contato humano — de continente para continente, de geração para geração — tinha lugar diante da tela, que também era chamada de terminal.

Tudo se juntava numa única rede de dados. Uma ou mais telas em cada ambiente era a regra. Na maioria das casas, tinha-se, como hoje, uma tela grande na sala e diversas pequenas telas nos outros aposentos. Por volta do ano 2080, não era absolutamente incomum que se encontrasse uma tela em cada parede de cada cômodo. Hoje a opinião predominante é de que essas muitas telas de uma casa roubam-lhe toda a atmosfera. No entanto, quem estiver na cozinha cortando pão ou mesmo sentado no banheiro, certamente gostará de ter alguma coisa para ver. Afinal de contas, o tempo não pode ser desperdiçado. Tudo está ao alcance da mão, o mundo inteiro está sobre a mesa da cozinha. Não aproveitar todas essas possibilidades beiraria a apatia.

A partir do começo do século XXI, podemos falar de uma autêntica comunicação bilateral. A rede não possibilitou apenas trazer todas as formas de informação para as telas; ela também permitiu entrar em contato com qualquer pessoa sobre a face da terra. Em 2050, a probabilidade de encontrar alguém em casa era de 87%. (Hoje é de 97%.)

As pessoas tinham abandonado definitivamente as praças e as ruas. O terminal havia se tornado a praça. Quem quisesse fazer um passeio pela cidade para relaxar, precisaria, como ainda hoje, ir para casa para comprar tomates ou conversar com outra pessoa.

Jostein Gaarder, in O pássaro raro 

07/10/2020

O pássaro raro

Consta que o mundo tem muitos anos. Porém raramente ele dura mais de um século. Somos nós que envelhecemos.

Enquanto vierem pessoas ao mundo, ele terá o mesmo viço e frescor do sétimo dia, no qual Deus descansou.

Neste momento, somos testemunhas de uma criação. Ela desponta diante de nossos olhos, em plena luz do dia: um mundo surge do nada...

E ainda assim existem pessoas que ficam entediadas!

A maior parte do tempo o mundo desperdiça dormindo. A maior parte do espaço também.

Apenas de vez em quando, ele esfrega os olhos e desperta para a consciência de si mesmo.

Quem sou eu? — indaga o mundo.

De onde venho?

Por alguns segundos, o pássaro raro pousou em nosso ombro.

Jostein Gaarder, in O pássaro raro

19/05/2015

Somos um barco

Somos um planeta vivo, Sofia! Somos um grande barco navegando ao redor de um sol incandescente no universo. Mas cada um de nós é um barco em si mesmo, um barco carregado de genes navegando pela vida. Se conseguirmos levar esta carga ao porto mais próximo, nossa vida não terá sido em vão.”
Jostein Gaarder, in O mundo de Sofia