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24/02/2026

O amigo

Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: — E eu com isso?

Mário Quintana, em Caderno H

10/08/2025

Amizade

. De madrugada o melhor amigo do homem é o cachorro-quente.
. Um grupo de amigos todo feito de inimigos.
. Amigo é o que quando você vai lá ele já vem vindo.
. Com a amizade já extremamente cansada os anfitriões esperavam que os últimos convidados fossem embora.
. Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta.
. A coisa mais comum do mundo é confundir convivência com amizade.
. Amizade é um amor que não foi pra cama. (Isto é, até que algumas vezes vai.)
. O ruim das amizades eternas são os rompimentos definitivos.
. Só existe um amigo verdadeiramente sincero – o amigo do alheio.

Millôr Fernandes, em Millôr Definitivo: A bíblia do caos

17/05/2024

O muro

E eis que, depois de longos, longos anos, encontrei o Amigo. E vi que ele, com esse mesmo material dos anos, havia construído a sua vida... No entanto, através daquele muro caiado e sólido, como descobrir agora a voz antiga, o sorriso bom do Emparedado?
Dele, só restava o nome como numa lápide.

Mário Quintana, in Caderno H

13/08/2022

O amigo

Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: — E eu com isso?

Mário Quintana, in Caderno H

15/01/2022

Dos amigos

Amici, nec multi, nec nulli.

[Amigos, nem muitos, nem nenhum]

Sidney Vieira, in 500 Provérbios em Latim

01/07/2018

Amigo íntimo

Perguntas-me qual foi o meu progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo.
Sêneca, in Cartas a Lucílio

14/02/2018

Acerca do amigo

O sábio, ainda que se baste a si mesmo, deseja ter um amigo, quanto mais não fosse para exercer a amizade, para não deixar definhar tão grande virtude. Ele não busca, como dizia Epicuro, “alguém que lhe vele à cabeceira em caso de doença, que o socorra quando esteja em grilhões ou na indigência”. Busca alguém a cuja cabeceira de doente possa velar; alguém que, quando implicado numa contenda, ele possa salvar dos cárceres inimigos. Pensar em si próprio, e empenhar-se numa amizade com esse pensamento preconcebido, é cometer um erro de cálculo. A empresa terminará como começou. Fulano arranjou um amigo para dispor, um dia, de um libertador que o preserve dos grilhões. Ao primeiro tinido de cadeias, lá se vai o amigo.
Tais são as amizades que o mundo chama de “ligações temporárias”. O homem a quem se escolhe para prestar serviços deixará de agradar no dia em que não sirva para mais nada. Daí a constelação de amigos ao redor das grandes fortunas. Vinda a ruína, faz-se, à volta, a solidão: os amigos esquivam-se dos lugares onde são postos à prova. Daí, todos esses escândalos: amigos abandonados, amigos traídos, sempre por medo! É inevitável que o fim concorde com o começo: o interesse fez de sicrano teu amigo; o interesse fará com que ele deixe de sê-lo. Ele se mostrará sensível às vantagens que lhe sejam oferecidas para que dessirva a amizade, se, nesta, mostrava-se sensível a qualquer vantagem fora dela mesma.
Qual, então, o meu objetivo ao fazer um amigo? O de ter alguém por quem possa morrer, a quem possa seguir no meu exílio, a quem possa proteger com a minha pessoa, a cuja salvação possa devotar os meus dias.
Sêneca, in O sábio e a amizade

03/10/2017

Acerca da amizade

O sábio, ainda que se baste a si mesmo, deseja ter um amigo, quanto mais não fosse para exercer a amizade, para não deixar definhar tão grande virtude. Ele não busca, como dizia Epicuro, “alguém que lhe vele à cabeceira em caso de doença, que o socorra quando esteja em grilhões ou na indigência”. Busca alguém a cuja cabeceira de doente possa velar; alguém que, quando implicado numa contenda, ele possa salvar dos cárceres inimigos. Pensar em si próprio, e empenhar-se numa amizade com esse pensamento preconcebido, é cometer um erro de cálculo. A empresa terminará como começou. Fulano arranjou um amigo para dispor, um dia, de um libertador que o preserve dos grilhões. Ao primeiro tinido de cadeias, lá se vai o amigo.
Tais são as amizades que o mundo chama de “ligações temporárias”. O homem a quem se escolhe para prestar serviços deixará de agradar no dia em que não sirva para mais nada. Daí a constelação de amigos ao redor das grandes fortunas. Vinda a ruína, faz-se, à volta, a solidão: os amigos esquivam-se dos lugares onde são postos à prova. Daí, todos esses escândalos: amigos abandonados, amigos traídos, sempre por medo! É inevitável que o fim concorde com o começo: o interesse fez de sicrano teu amigo; o interesse fará com que ele deixe de sê-lo. Ele se mostrará sensível às vantagens que lhe sejam oferecidas para que dessirva a amizade, se, nesta, mostrava-se sensível a qualquer vantagem fora dela mesma.
Qual, então, o meu objetivo ao fazer um amigo? O de ter alguém por quem possa morrer, a quem possa seguir no meu exílio, a quem possa proteger com a minha pessoa, a cuja salvação possa devotar os meus dias.
Sêneca, in O sábio e a amizade

11/07/2016

Amigos ausentes

Uma das alegrias da literatura está em que ela cria a possibilidade de estabelecer conversas mansas com pessoas ausentes e mesmo mortas. Muitos dos meus melhores amigos, pessoas com quem converso longamente, estão mortos há muito tempo. É o caso de Albert Camus. Ler Camus é um exercício de felicidade. Poderíamos até formar uma dupla... Seus pensamentos mais pessoais não se encontram em seus livros com princípio, meio e fim. Encontram-se nos seus diários, onde registrava os pensamentos que lhe ocorriam sem imaginar que um dia seriam transformados em livros. Muitas das suas experiências batem com as minhas. Num certo lugar ele escreve notas para um romance: “Infância pobre. Eu tinha vergonha da minha pobreza e da minha família. Só conheci essa vergonha quando me puseram no liceu. Antes, toda a gente era como eu e a pobreza parecia-me o próprio ar desse mundo. No liceu foi-me dado comparar”. Num outro lugar ele comenta: “Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um ócio ativo”. Foi exatamente essa a minha experiência. Minha infância foi vivida na pobreza. A princípio, grande pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos não tenho uma única memória infeliz. Tive dores, como toda criança tem: dor de dente, dor de tombo, dor de barriga, dor de queimadura. Mas não tive experiência de infelicidade. Minha infelicidade começou quando a vida melhorou e nos mudamos de uma cidade do interior de Minas para o Rio de Janeiro. Meu pai me matriculou num colégio de cariocas ricos. Foi então que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza e da minha família: eu era diferente, não pertencia ao mundo elegante dos meus colegas. Num outro lugar do seu diário, Camus registrou: “Atenção: Kierkegaard, a origem dos nossos males está na comparação”. Kierkegaard foi um solitário filósofo dinamarquês. Os desbravadores são sempre solitários. Veem coisas que os outros não veem. Como foi o caso de Nietzsche. Kierkegaard foi meu primeiro amigo filósofo. Com ele tive longas e mansas conversas. Sua filosofia é construída em meio a uma teia de sutis percepções psicológicas. O sofrimento da pobreza, quando não é miséria, se encontra na comparação. A miséria é diferente da pobreza. A pobreza está muito próxima da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que são essenciais. Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alças... A pobreza simples é uma pobreza feliz. Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade da comparação na escola. Mas hoje não é preciso ir à escola para sentir a sua maldição. Basta ligar a televisão. A televisão é uma máquina de infelicidade, na medida em que ela nos obriga a comparar. Os pobres, nos lugares mais distantes, ligam as novelas e sentem a sua desgraça. A comparação é um exercício dos olhos: vejo-me; estou feliz.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

20/03/2016

Amizade

Quando o meu amigo está infeliz, vou ao seu encontro; quando está feliz, espero por ele.”
Henri Amiel

29/01/2016

Redes sociais e a ilusão dos milhares de amigos



O que alguns já desconfiavam agora foi referendado por um estudo. As redes sociais não nos permitem ter mais amigos, revela trabalho publicado na revista da Royal Society Open Science. O amigo aí, claro, é o “aliado, concorde. Caro, complacente, dileto, favorável. Dedicado, afeiçoado”, como está no dicionário, porque “seguidor” se chega fácil aos milhares.
Por outro lado, as redes possibilitaram conhecer melhor algumas pessoas que nos pareciam simpáticas, pluralistas e democráticas e se apresentam online exatamente o contrário de tudo isso. Você custa a acreditar na mudança e fica sem saber muito bem o que fazer diante da nova situação.

Segundo o estudo, o número máximo de pessoas com as quais nós podemos ter relações sinceras e fortes gira em torno de 150. Eu acho esse número exagerado. Talvez 15 esteja mais próximo da realidade. E dentre esses uns dois, três com os quais você pode contar para o que der e vier.

charge

Há poucos dias eu tomava café com duas queridas amigas e falamos, entre tantas outras coisas, sobre a relação entre redes sociais, solidão e relacionamento afetivo. E eu lembrei e inclui na conversa, de raspão porque a conversa fluía leve e solta, referência à “sociedade líquida” do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Tenho dúvidas sobre se as redes são vilãs de tantas e variadas coisas como muita gente aponta. Inclusive Bauman. Uma das amigas levantou uma questão pertinente. A de que é preciso prudência com explicações e teorias sobre acontecimentos em curso. A Internet ainda é muita recente para conclusões cabais.
Solitários, intolerantes misantropos, neuróticos, agressivos e separações, encontros e desencontros sempre existiram. O que ocorreu é que as redes deram mais visibilidade a essas questões, que sempre rendem muitas “curtidas” e “compartilhamentos” e acabaram migrando para a vida real. Eu poderia citar como exemplo, ocorrido há pouco, a exibição de três peças teatrais na cidade (comentei-as aqui mesmo) que tratam de… relacionamentos amorosos.
Outro aspecto que alguns teóricos já estão levantando é se a essa altura ainda cabe separar os mundos real e virtual. Se já não são uma única coisa.
O mundo mudou muito e rapidamente e levou tudo de roldão. E o que estamos vivendo hoje não pode ser explicado sem levar em conta essas mudanças profundas. Nesse contexto eu destacaria pelos menos duas mudanças que alteraram significativamente a sociedade: o feminismo e as independências emocional e financeira das pessoas.
Homens e mulheres, até bem pouco tempo, em nome de valores e também devido à dependência financeira, suportavam durante anos e até para sempre relacionamentos completamente inviáveis e dolorosos, com consequências desastrosas no entorno. Essa era que você viveu acabou, viu mamãe! E não deixou saudade. Se essa mudança é parte da tal “sociedade líquida” então que seja bem vinda.
Nesse novo tempo que está sendo engendrado, as pessoas brutas, insensíveis, agressivas, neuróticas, homofóbicas, machistas etc terão de reinventar-se – terapia ajuda – ou ficarão falando sozinhas, no seu mundinho real/virtual.
Tácito Costa, in www.substantivoplural.com.br

09/09/2015

Os bons e os retos de coração


Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração reto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração reto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reivindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra.”
Pablo Neruda, in Nasci para Nascer

22/07/2015

Amigo

Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.
Miguel Unamuno

06/04/2015

Sabedoria no fazer amigos

Sê tardio no fazer amigos e constante no conservar a amizade. Os íntimos que escolheres sejam, não os que te podem dar maior prazer, mas maior proveito; não pessoas que falem o que é agradável, mas o que é devido; não que lisonjeiem, mas que digam a verdade. Se te acostumares a abrir os ouvidos à lisonja e a nela te compazeres, jamais ouvirás a verdade.”
Juan Luis Vives, in Introdução à Sabedoria

18/02/2015

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…

… Quando se vê não sabemos mais por onde andam nossos amigos…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casaca dourada e inútil das horas…
Eu seguraria todos os meus amigos, que já não sei como e onde eles estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim.

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana

02/02/2015

Amigos loucos e santos

Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero o meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria. Amigo que não ri conosco não sabe sofrer conosco. Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.
Oscar Wilde

22/09/2014