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30/08/2014

Uma selfie com o velho marinheiro


Toninho Veludo entrou no bar do Carneiro mais saltitante e exibido que nunca – e ele sempre estava saltitante e exibido, era sua condição natural. Mostrou a todos a câmara digital nova que acabara de comprar, das mais modernas. Do nada, sem pedir licença, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, entre o Velho Marinheiro e Ananias. Colocou um braço sobre o ombro do nosso Lobo do Mar. E disparou:
- Vou fazer uma selfie com o senhor. Adoro o senhor. Depois, faço uma selfie com você Ananias. Por fim, farei uma selfie do nosso grupo…
- Fazer o quê?
- Uma sel-fi-eeee.
- Só não lhe dou uma garrafada na cabeça em respeito ao seu pai, que morre de vergonha de seus maneirismos. Você vai fazer isso com gente de sua laia, vagabundo – retrucou nosso Lobo do Mar.
- Nossa! Que agressividade! O senhor sabe o que é sel-fi-e?
- Não sei nem quero saber. Partindo de você só pode ser bandalheira.
Ananias resolveu intervir, na tentativa de serenar os ânimos do Velho Marinheiro:
- Selfie está na moda, é um autorretrato. As pessoas tiram fotos delas próprias, sozinhas ou acompanhadas, e divulgam pela internet, nas redes sociais. Não tem nada demais.
- Quer dizer que Veludo quer tirar uma fotografia me abraçando e ainda mostrar pra todo mundo? E você acha que não tem nada demais, Ananias? Não me faltava mais nada!
- Todo mundo faz  tentou justificar-se o autorretratista. Em vão.
- Pois fique sabendo de uma coisa, seu Veludo: o que você faz eu nunca fiz, não faço e jamais farei. Não ouse apertar botão algum. Tire um retrato com Ananias, pelo visto ele também gosta dessas coisas. Papo encerrado. Carneiro, mais tarde eu volto, pra pagar a conta.
E lá se foi o Velho Marinheiro, pisando duro, desconjurando o mundo moderno.
Orlando Silveira, in orlandosilveira1956.blogspot.com.br

19/10/2013

Pobre Ananias

Jornalista em fim de carreira, vivendo de bicos, Ananias é sujeito de hábitos prosaicos. Nem poderia ser diferente. Sempre trabalhou muito, sempre ganhou pouco. Seu único lazer, fora as leituras, é tomar um aperitivo em botecos populares. O dinheiro é curto. Mas não reclama, até gosta de conviver com pessoas simples, de não se desgarrar do mundo real. É seu lado repórter a desassossegá-lo. A desgraça é que, frequentemente, tem que mudar de boteco. E sempre pelas mesmas razões. Ninguém suporta ser motivo de chacota. Nem Ananias.
No início, os novos amigos lhe fazem festa. Apresentar-se como jornalista é coisa que costuma causar certo frisson na maioria das rodas. Mas, logo, logo, a admiração inicial, que beira a vassalagem, é substituída pelas gozações. É questão de semanas. Em poucas semanas, a porta do inferno estará aberta. É sempre assim.
“A” quer saber se ele já entrevistou Obama. “B” não se conforma que ele não tenha tido um encontro sequer com Fidel. Não adianta explicar que sua área é outra. “C” e “D” acham um absurdo que ele não saiba de cor e salteado os nomes dos mais de 5.000 municípios do país. “E” vai à loucura, quando ele admite não ter respostas para solucionar o trânsito de São Paulo nem para acabar com a corrupção no Brasil. E a coisa vai num crescer. Até que “X”, “Y” e “Z” lhe perguntam com a franqueza dos ignaros tocados pela uca: “Mas, que porra de jornalista é você? Onde comprou o diploma?”
Hora de mudar de boteco. Jornalista sofre. Ananias não foge à regra.
Orlando Silveira, in www.bestafubana.com.br