Margie ia sair com um sujeito, mas, no
caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de
couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e
mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse
que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo
um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com
esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em
casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um
café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só
beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas no caminho para me
encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o
sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito
vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa
e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse
Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o
banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou
cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco
ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado
pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada.
Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não
consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever
todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a
fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com
um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo –
ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por
todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar
dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita
no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde
foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as
coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei.
Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto
quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me
liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma
ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou
por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão...
preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos
você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de
repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida,
falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga
garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você
está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda
mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de
festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não
entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar
tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a
noite.
– O único jeito de você morrer é
numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais
forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big
Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de
Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos
esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas vestirei meus sapatos e
descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego
decente?
– Não existem empregos decentes. Se
um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem
bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação.
Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um
dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a
sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha
avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra
da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty
ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira
entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está
acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não
consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever
uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você
parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora.
Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a
escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do
subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos
inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra.
Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos
se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte...
as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você
estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na
Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado
para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de
cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg
ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos
oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os
detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí
não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os
estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos
esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a
máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então
observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar
pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas,
no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de
couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e
mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse
que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo
um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom
voltar a escrever.
Charles Bukowski, em Ao Sul de Lugar Nenhum





