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14/02/2019

Efeito de um homem sem qualidades sobre um homem de qualidades

Enquanto Ulrich conversava com Clarisse, os dois não tinham notado que a música atrás deles cessara. Walter foi até à janela. Não podia ver os dois, mas sentia que estavam perto do seu campo de visão. O ciúme o atormentava. Mas a embriagues vulgar da música sensual o chamou de volta. O piano às suas costas estava aberto como uma cama desalinhada por alguém que não queria acordar para não ter de encarar a realidade. O ciúme de um paralítico que sente os homens sadios andando o atormentava, e ele não conseguiu ir juntar-se aos dois; pois sua dor não lhe dava oportunidade de defesa.
Quando Walter se levantava de manhã e tinha de correr ao escritório, quando falava com pessoas durante o dia, e quando à tarde ia para casa no meio delas, sentia que era um homem importante, com vocação para coisas especiais. Então pensava ver tudo de outro modo; impressionava-se com coisas pelas quais os outros passavam sem notar, e quando outros pegavam alguma coisa sem muita atenção, para ele o simples movimento do próprio braço estava cheio de aventura intelectual ou de uma contemplação narcisista. Era sensível, e sua alma estava sempre repleta de devaneios, depressões, vales e montanhas ondulantes; nunca estava indiferente, mas via em todas as coisas felicidade ou desgraça, e por isso sempre tinha motivo para ideias agitadas. Pessoas assim exercem uma atração especial sobre outras, porque o movimento moral no qual estão constantemente empenhadas se comunica aos demais; em suas conversas tudo assume um significado pessoal, e como no contato com elas podemos nos ocupar ininterruptamente com nós mesmos, elas nos dão um prazer que de outro modo só obtemos com um psicanalista ou psicólogo individualista, em troca de altos honorários, e ainda por cima com a diferença de que com eles nos sentimos enfermos, enquanto Walter ajudava as pessoas a se sentirem muito importantes, e por razões que até aí elas haviam ignorado. Com essa qualidade de instigar o interesse das pessoas por elas mesmas ele também conquistara Clarisse, e com o tempo tirara do caminho todos os concorrentes; como tudo se lhe tornava movimento ético, ele sabia falar persuasivamente sobre a imoralidade do ornamento, sobre a higiene das formas lisas e o bafo de cerveja da música wagneriana, segundo o novo gosto artístico, e até seu futuro sogro, que tinha o cérebro de pintor de uma cauda de pavão, se assustava com isso. Portanto, sem dúvida Walter tivera seus sucessos.
Apesar disso, assim que chegava em casa, cheio de impressões e planos que talvez estivessem maduros e novos como nunca antes, sofria uma transformação desanimadora. Bastava colocar uma tela num cavalete, ou deitar papel sobre a mesa, e começava uma terrível debandada em seu coração. Sua cabeça continuava clara, e o plano lá dentro pairava ainda no ar transparente e nítido, sim, o plano se dividia, se transformava em dois ou mais planos, podendo lutar entre si pelo primeiro lugar; mas a ligação entre a cabeça e os primeiros movimentos necessários para realizar o que pretendia parecia cortada. Walter não conseguia mover um dedo.
Simplesmente não se levantava do lugar onde estava sentado, e seus pensamentos escorregavam da tarefa que se propusera como se fossem neve que derrete ao cair. Ele não sabia como o tempo passava, mas antes que notasse chegava a noite. Como depois de algumas dessas experiências já viesse com medo para casa, começaram a alinhar-se semanas inteiras num desolado entressono.
Retardado em todas as suas decisões e movimentos pela falta de perspectivas, ele sofria de amarga tristeza, e sua incapacidade se tornava uma dor que se aninhava atrás de sua testa como uma hemorragia nasal, sempre que ele queria decidir-se a fazer alguma coisa. Walter era medroso, e os fenômenos que percebia em si mesmo não só o prejudicavam no trabalho, mas também o assustavam muito, pois aparentemente eram tão independentes de sua vontade que muitas vezes lhe davam a impressão de serem o começo de uma desagregação mental.
Mas, enquanto no último ano seu estado piorava sempre mais, ele encontrara uma maravilhosa ajuda num pensamento que outrora nunca apreciara muito. Esse pensamento era que a Europa, na qual era obrigado a viver, estava inapelavelmente degenerada. Em épocas em que as coisas vão muito bem externamente, enquanto por dentro sofrem aquele retrocesso que provavelmente todas as coisas sofrem — também a evolução intelectual quando não lhe dedicamos esforços especiais e novas ideias — a questão mais importante deveria ser: o que se pode fazer contra isso? Mas a confusão de inteligente, ignorante, vulgar e belo fica tão densa e enovelada nessas fases, que obviamente parece a muitas pessoas muito mais fácil acreditar num mistério, falando assim da decadência irrefreável de qualquer coisa que foge a um julgamento exato, e é de uma solene nebulosidade. E, no fundo, é indiferente se essa coisa é a raça, o vegetarianismo, ou a alma. Pois como em todo o pessimismo saudável, pretende-se apenas ter algo inelutável em que se agarrar. Também Walter, embora em anos melhores tivesse podido rir dessas ideias, logo compreendeu suas grandes vantagens quando começou a adotá-las pessoalmente. Se até ali fora ele o incapaz, sentindo-se mal, agora a época é que era incapaz, e ele saudável. Sua vida, que não levara a nada, de repente ficou inteiramente explicada, obteve uma justificativa de dimensões seculares, digna dele; sim, assumia até um ar de grande sacrifício quando pegava o lápis ou a caneta na mão, largando-os logo a seguir.
Mas Walter ainda lutava consigo mesmo, e Clarisse o torturava. Não queria participar de conversas criticando a sua época, e acreditava cegamente na genialidade. Não sabia o que era isso; mas todo o seu corpo começava a tremer e retesar-se quando se falava nela; é algo que se sente ou não se sente, era a sua única prova. Para Walter, cia continuava a menina cruel dos quinze anos. Nunca entendera inteiramente os sentimentos dele, nem ele a conseguira dominar. Mas por mais fria e dura que fosse, e em outras ocasiões tão entusiasmada, com sua vontade cheia de fervor sem substância, possuía uma misteriosa capacidade de influenciá-lo, como se através dela viessem golpes de algum lugar que não cabia nas três dimensões do espaço. Às vezes, isso era sinistro. Ele o sentia especialmente quando tocavam piano juntos. Clarisse tocava de maneira dura, inexpressiva, obedecendo a uma lei de excitação estranha a ele; quando os corpos ardiam até se perceber de fora o brilho das almas, aquilo passava dela para ele, c era assustador. Algo indefinível se desencadeava dentro dela, e ameaçava sair voando junto com a sua alma. Vinha de alguma caverna secreta do ser, que era preciso manter medrosamente trancada; ele não sabia do que se tratava, nem porque o sentia; mas a coisa o atormentava com um medo indizível e a necessidade de combatê-la, o que não conseguia, pois ninguém senão ele notava coisa alguma.
Vendo através da janela que Clarisse voltava, ele tinha vaga consciência de que mais uma vez não resistiria à necessidade de falar mal de Ulrich. Este voltara num momento errado. Prejudicava Clarisse. Piorava dentro dela aquilo de que Walter não se atrevia a chegar perto, a caverna do mal, aquela genialidade pobre, doente e maldita de Clarisse, o secreto espaço vazio onde aquela coisa sacudia as correntes que um dia poderiam ceder. Agora ela estava diante dele, cabeça descoberta, acabara de entrar e trazia na mão o chapéu de jardim, e ele a contemplou. Os olhos dela estavam irônicos, claros, ternos; talvez um pouco claros demais. Por vezes ele sentia que ela tinha uma força que lhe faltava. Como um espinho que não o deixava em paz: assim ele a sentira quando menina, e obviamente nunca a quisera de outro modo; talvez fosse esse o segredo da vida dele, que os outros dois não entendiam. “Profundas são nossas dores!” pensou. “Acho que não é frequente duas pessoas se amarem tanto como nós temos de nos amar.” E começou imediatamente a falar:
Não quero saber o que Ulo lhe contou, mas posso dizer que essa força que você tanto admira nele não é senão um vazio!
Clarisse olhou para o piano e sorriu; involuntariamente, ele voltara a sentar-se junto do piano de cauda aberto. E prosseguiu:
Deve ser fácil ter sentimentos heroicos quando por natureza se é insensível, e pensar em quilômetros quando não se sabe que plenitude pode ocultar-se em cada milímetro! — Às vezes o chamavam de Ulo, como tinham feito na infância, e ele gostava, como se conserva pela babá um respeito risonho.
Ele parou em ponto morto! — prosseguiu Walter. — Você não nota isso; mas não pense que eu não o conheço!
Clarisse duvidava. Walter disse, veemente:
Hoje em dia está tudo em ruínas! Um abismo de inteligência! Ele também tem inteligência, admito isso; mas nada sabe do poder de uma alma. O que Goethe chama de personalidade, o que Goethe chama de ordem móvel, disso ele não tem ideia: “Esse belo conceito de poder e limites, de arbitrariedade e lei, de liberdade e medida, de ordem móvel...”
Os versos brotavam em ondas de seus lábios. Clarisse olhou aqueles lábios com espanto amigável, como se tivessem feito voar algum lindo brinquedo. Depois caiu em si e interveio, como uma dona de casa:
Você quer cerveja?
Sim, por que não? Sempre tomo uma cerveja.
Mas não tenho nenhuma em casa.
Pena você ter me perguntado — suspirou Walter. — Talvez eu nem tivesse pensado nisso.
Com isso a questão estava encerrada para Clarisse. Mas Walter se descontrolara, não sabia mais como continuar.
Ainda se lembra da nossa conversa sobre o artista? — perguntou, inseguro.
Qual?
Faz alguns dias. Eu lhe expliquei o que significa um princípio vivo de forma numa pessoa. Não se lembra de como cheguei à conclusão de que antigamente, em vez de morte e mecanização lógica, devem ter reinado sangue e sabedoria?
Não.
Walter ficou inibido, procurou, hesitou. De repente, explodiu:
Ele é um homem sem qualidades!
O que é isso? — perguntou Clarisse, com uma risadinha.
Nada. Esse é que é o problema!
Mas Clarisse ficara curiosa com aquela expressão.
Hoje há milhões assim — afirmou Walter. — É essa a raça que nossa época produziu! — A expressão imprevista também lhe agradara; como se começasse um poema, ela o impelia adiante, antes mesmo de ele ter encontrado seu sentido.
Olhe só para ele! O que pensaria que é? Parece um médico, um comerciante, pintor, ou diplomata?
Mas ele não é nada disso — respondeu Clarisse, lúcida.
Bom, acaso ele parece um matemático?
Não sei, pois não sei como se parece um matemático!
Muito acertado! Um matemático não tem cara de nada; isto é, ele vai parecer tão inteligente, de modo tão geral, que isso não terá nenhum sentido determinado! Com exceção dos padres católicos romanos, hoje em dia ninguém mais parece como devia ser, pois usamos nossas cabeças de maneira ainda mais impessoal do que nossas mãos; mas a matemática é o ponto culminante, ela sabe tão pouco a respeito de si mesma como, quando um dia comerem pílulas em vez de carne e pão, as pessoas haverão de saber a respeito de campos, vitelas e galinhas! Entrementes, Clarisse colocara na mesa a frugal refeição da noite, e Walter comia com vontade; talvez isso lhe tivesse inspirado aquele exemplo. Clarisse ficou olhando os lábios dele. Lembravam os de sua falecida mãe, eram lábios femininos, fortes, que comiam como quem executa algum trabalho doméstico, encimados por um bigodinho aparado. Os olhos dele brilhavam como castanhas recém-descascadas, embora estivessem apenas procurando um pedaço de queijo na travessa. Apesar de pequeno, e de corpo antes mole do que delicado, Walter era daquelas pessoas que sempre parecem estar sob uma luz favorável. Ele continuou a falar.
Não se consegue adivinhar nenhuma profissão pela aparência dele, mas por outro lado também não parece um homem sem profissão. Pense um pouco em como ele é: sempre sabe o que deve fazer; sabe olhar nos olhos de uma mulher; sabe refletir bastante sobre qualquer coisa a qualquer momento; sabe lutar boxe. É talentoso, cheio de vontade, despreconceituoso, corajoso, resistente, destemido, prudente. Não quero examinar isso em detalhes, acho que ele tem todas essas qualidades. Mas também não as tem! Elas fizeram dele aquilo que ele é, e determinaram seu caminho, mas não lhe pertencem. Quando fica zangado, alguma coisa nele ri. Quando está triste, rumina alguma coisa. Quando algo o comove, ele o rejeita. Qualquer má ação lhe parecerá boa em algum aspecto. É um possível contexto que vai determinar o que ele pensa de um assunto. Para ele, nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo, de incontáveis todos, que provavelmente fazem parte de um supertodo, mas que ele absolutamente não conhece. Assim, todas as respostas dele são respostas parciais, cada um de seus sentimentos é apenas um ponto de vista, e para ele não importa o que a coisa é, e sim um secundário “como é”. Não sei se estou me fazendo entender.
Sim — disse Clarisse. — Mas acho isso tudo muito simpático nele.
Walter falara, manifestando involuntariamente cada vez maior aversão; o velho sentimento de infância de ser o amigo mais fraco aumentava o seu ciúme. Pois embora estivesse convencido de que Ulrich jamais realizara nada exceto algumas demonstrações de inteligência, não se livrava da secreta impressão de ter sido sempre inferior fisicamente. A imagem que agora dava do outro libertava-o, como se tivesse conseguido executar uma obra de arte; não era ele quem a criara de si mesmo; mas, ligadas à consumação misteriosa do início, as palavras se haviam enfileirado umas às outras, fora dele, e no seu interior libertava-se algo de que ele não tinha consciência. Quando terminara, reconhecera que Ulrich não significava senão essa substância dissolvida que hoje todos os fenômenos têm.
Você gosta disso? — indagou numa dolorosa surpresa. — Não pode falar a sério! Clarisse comia pão com requeijão; só conseguiu sorrir com os olhos.
Ora — disse Walter —, antigamente também pensávamos assim. Mas não se deve ver nisso senão um primeiro degrau! Uma pessoa assim não é pessoa! Clarisse terminara de comer.
Mas ele mesmo diz isso! — afirmou.
O que é que ele mesmo diz?
Ora, sei lá! Que hoje em dia tudo está dissolvido. Ele diz que agora tudo está em ponto morto, não só ele. Mas não acha isso tão ruim quanto você. Uma vez ele me contou uma longa história: se dissecássemos a natureza de mil pessoas, haveríamos de encontrar duas dúzias de qualidades, sentimentos, estruturas e assim por diante, que constituem todas essas pessoas. E se dissecarmos nosso corpo, encontraremos apenas água e algumas dúzias de substâncias nadando nela A água corre em nós como nas árvores, e forma os corpos dos animais como forma as nuvens. Acho isso muito bonito. Só não sabemos exatamente o que dizer de nós mesmos. Nem o que fazer — Clarisse deu uma risadinha.
Depois disso eu lhe contei que você passa dias pescando quando está de folga, deitado junto da água.
E daí? Eu gostaria de saber se ele aguentaria isso, ao menos dez minutos. Mas pessoas — disse Walter com firmeza — fazem isso há dezenas de milhares de anos, ficam olhando o céu, sentindo o calor da terra e não ficam analisando isso, como não ficamos dissecando nossa mãe!
Clarisse teve de rir novamente.
Ele diz que desde aqueles tempos as coisas se complicaram muito. Assim como na água, também nadamos num mar de fogo, numa tempestade elétrica, num céu de magnetismo, num pântano de calor e assim por diante. Mas tudo isso, sem sentir. Por fim restam apenas fórmulas. E não se pode expressar corretamente o que elas significam em termos humanos; só isso. Eu já esqueci o que aprendi no colégio, mas de alguma forma parece correto. E ele diz que se alguém hoje em dia quiser dizer “irmãos” aos pássaros, como São Francisco, ou você, não deveria pensar que é fácil, pois deveria também decidir-se a entrar num forno, saltar para a terra através do condutor de um bonde elétrico, ou escorrer para o canal através do esgoto!
Pois é! — interrompeu Walter. — Primeiro, os quatro elementos se tornam dúzias, e por fim simplesmente nadamos sobre relações, acontecimentos, fantasmas de acontecimentos e fórmulas, qualquer coisa que nem se sabe se é uma coisa, um fenômeno, um espectro de pensamento ou sabe-deus-o-quê! Então já não haverá diferença entre o sol e um fósforo, entre a boca e a outra extremidade do canal digestivo! A mesma coisa tem cem lados, o lado cem relações, cada uma com outros sentimentos anexos. O cérebro humano terá então dividido muito bem as coisas; as coisas, porém, dividiram o coração humano!
Ele se levantara de um salto mas continuava parado atrás da mesa.
Clarisse! — disse. — Ele é um perigo para você! Olhe, Clarisse, hoje em dia as pessoas precisam sobretudo de simplicidade, proximidade com a terra, saúde — e, sim, certamente, você pode dizer o que quiser — também de um filho, porque um filho nos liga à terra firme. O que Ulo anda lhe contando é desumano. Eu lhe asseguro, tenho coragem de, quando chego em casa, simplesmente tomar café com você, escutar os pássaros, passear um pouco, conversar com os vizinhos, deixar o dia terminar calmamente: isso é vida humana!
A ternura dessas imagens o aproximara lentamente dela; mas assim que instintos paternais começaram a se fazer ouvir de longe com sua doce voz de baixo, Clarisse ficou rígida. Seu rosto se fechou enquanto Walter se aproximava, e ela assumiu uma postura de defesa.
Quando ele chegou perto, irradiava uma cálida doçura, como um fogão de camponeses. Clarisse hesitou um momento naquele calor. Depois disse:
Nada feito, meu caro! — Pegou da mesa um pedaço de pão e queijo, e beijou Walter rapidamente na testa.
Vou dar uma olhada e ver se não há borboletas.
Mas Clarisse — pediu Walter —, nessa época do ano não há mais borboletas.
Ora, nunca se sabe!
Só o riso dela ficou no aposento. Ela se foi pelos campos com seu pedaço de pão e queijo; a região era segura, não se precisava de acompanhante. A ternura de Walter murchou como um suflê retirado prematuramente do forno. Ele deu um suspiro fundo. Depois, voltou a sentar-se ao piano, hesitante, e tocou algumas notas. Quisesse ou não, elas tornaram-se fantasias sobre motivos de óperas de Wagner, e no chapinhar dessa substância que jorrava descontroladamente, de que ele se privara nos tempos em que tinha orgulho, seus dedos rumorejavam e borbulhavam na torrente de sons. Não lhe importava que os ouvissem até longe! O narcótico da música paralisava sua medula e aliviava seu destino.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

07/02/2019

Uma misteriosa doença de época

Nem fazia tanto tempo que tinham sido rapazes — pensou Ulrich quando voltou a ficar sozinho —, que tinham as grandes ideias, não apenas antes de todo mundo, mas também simultaneamente, pois bastava um abrir a boca para dizer algo novo, e o outro acabava de fazer a mesma extraordinária descoberta. São singulares, essas amizades da juventude, são como um ovo que sente na gema seu magnífico futuro de pássaro, mas mostra ao mundo apenas aquela linha de ovo, inexpressiva, que não se distingue de nenhuma outra. Ele viu diante de si nitidamente o quarto de rapazes e estudantes, onde os dois se encontravam quando ele voltava por algumas semanas depois de suas primeiras incursões no mundo. A escrivaninha de Walter, coberta de desenhos, anotações e folhas pautadas, irradiando antecipadamente o brilho futuro de um homem famoso, e diante dela a estreita prateleira de livros, à frente da qual Walter se postava às vezes, cheio de fervor, como São Sebastião amarrado ao pilar, a luz da lâmpada sobre a bela cabeleira que Ulrich sempre admirara secretamente. Nietzsche, Altenberg, Dostoievski ou quem quer que estivessem lendo naquele momento, tinham de se conformar e ficar jogados no chão ou sobre a cama, quando não eram mais necessários ou quando a torrente dos diálogos não tolerava a mesquinha interrupção de os recolocar em seus lugares. A arrogância da juventude, para quem os grandes espíritos servem apenas para serem usados a bel-prazer, parecia singularmente bela naquele momento. Ele procurou recordar as conversas. Eram como um sonho quando, ao acordar, ainda pegamos os últimos pensamentos do sono. Pensou então, com leve espanto: “Se naquele tempo fazíamos afirmações, tinham outro objetivo além de serem corretas: simplesmente o de nos afirmarmos!”
O impulso de ser luz era na juventude mais forte do que o de ver as coisas na luz; a lembrança da juventude, como um voo sobre raios, lhe pareceu agora uma dolorosa perda.
Para Ulrich era como se no começo da idade viril tivesse entrado numa generalizada calmaria, que apesar de alguns redemoinhos eventuais, que rapidamente se amainavam, pulsava cada vez mais fraca e perturbada. Não se podia dizer direito de que constava aquela transformação. Haveria menos homens importantes, de repente? De modo algum! Além disso, nem se trata deles; o ápice de uma época não depende deles. Por exemplo, nem a falta de espiritualidade dos homens dos anos sessenta e oitenta conseguiu abafar o surgimento de um Nietzsche e um Hebbel, nem um deles conseguiu evitar a falta de espiritualidade de seus contemporâneos. Seria a vida, em geral, que marcava passo? Não: tornara-se mais poderosa ainda! Haveria mais paradoxos paralisantes do que antigamente? Era difícil! Não se teriam cometido enganos, antigamente? Muitos! Cá entre nós, naquele tempo as pessoas tomavam partido dos débeis e ignoravam os fortes, tolos chegavam a assumir o papel de líderes, e grandes talentos o papel de excêntricos. O alemão, imperturbado por aquela dor de parto que chamava de excessos decadentes e mórbidos, continuava lendo suas revistas para a família, e visitando, mais que as manifestações de arte independentes, os palácios de vidro e os salões de artistas conhecidos; a política, então, não dava qualquer atenção aos pontos de vista dos novos homens e a suas revistas, e as instituições oficiais defendiam-se das novidades como de uma doença.
Não se poderia dizer que desde então tudo melhorara? Pessoas antigamente dirigindo pequenas seitas eram hoje velhas celebridades; editores e marchands enriqueceram; coisas novas se inauguram a toda hora; todo mundo visita igualmente os palácios de vidro e as exposições dos independentes e suas secessões; nas revistas familiares aparecem mulheres de cabelo curto; estadistas gostam de se dizer versados em cultura e arte; jornais fazem literatura. Então, o que foi que se perdeu?
Algo imponderável. Um presságio. Uma ilusão. Como quando um ímã larga a limalha e esta se mistura toda outra vez. Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar. Não se poderiam provar detalhes que não tenham existido antigamente, mas todas as proporções tinham se deslocado um pouco. Ideias que antes possuíam magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suavizava, o separado se reunia, independentes faziam concessões, o gosto já formado sofria de inseguranças. As fronteiras nítidas se borravam, e uma nova capacidade indescritível de se agrupar produziu novas pessoas e novas concepções. Não eram ruins, certamente não; havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados. Parecia haver realmente uma porcentagem específica daquela mistura, à qual o mundo dava preferência; uma pequena, apenas suficiente dose de sucedâneo fazia o gênio ser genial e o talento ser uma esperança, assim como um pouco de café de figos ou chicória, na opinião de alguns, confere ao café a sua verdadeira qualidade de café; e de repente todos os lugares privilegiados e importantes do espírito estavam ocupados por esse tipo de gente, e todas as decisões eram tomadas em seu sentido. Não se pode responsabilizar nada por isso. Nem se pode dizer como tudo aconteceu. Nem se pode lutar contra determinadas pessoas ou ideias ou determinados fenômenos. Não falta talento nem boa vontade, nem mesmo faltam caracteres. Falta ao mesmo tempo tudo e nada; é como se o ar, ou o sangue, tivessem mudado; uma doença misteriosa devorou a pequena genialidade dos velhos tempos, mas tudo cintila de novidade, e por fim não se sabe mais se o mundo realmente ficou pior, ou se apenas nós ficamos mais velhos. Então, definitivamente chegou uma nova era.
Portanto, os tempos mudaram como um dia que começa azul e radiante e se cobre suavemente de nuvens, e nem tiveram a gentileza de esperar por Ulrich. Este pagava na mesma moeda e considerava simples burrice a causa daquela mudança misteriosa que deixava doente sua época, devorando a genialidade. E isso não no sentido pejorativo. Pois se, vista de dentro, a burrice não se parecesse com talento, a ponto de se confundir com ele, e se, vista de fora, não pudesse parecer progresso, genialidade, esperança, melhoria, ninguém quereria ser burro, e a burrice não existiria. Ou, ao menos, seria fácil de combater. Mas infelizmente há nela algo incrivelmente natural e sedutor. Se, por exemplo, se julga uma reprodução mais artística do que um quadro pintado a mão, existe nisso uma verdade mais fácil de provar do que provar que Van Gogh foi um grande artista. Assim, é muito fácil e compensador ser um dramaturgo mais forte do que Shakespeare e um narrador mais equilibrado do que Goethe: e um verdadeiro lugar- comum é sempre mais humano do que uma nova descoberta. Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez, e um só caminho, e está sempre em desvantagem.
Algum tempo depois, Ulrich teve uma idéia singular em relação a isso. Imaginou que o grande filósofo da Igreja Tomaz de Aquino, morto em 1274 depois de ter ordenado com indizível esforço os pensamentos de seu tempo, tivesse se aprofundado ainda mais, e acabasse nesse momento de concluir sua obra; permanecendo jovem por uma graça especial, ele apareceria saindo da porta em arco de sua casa, com muitos in-fólios debaixo do braço, e um bonde elétrico passaria disparando diante do seu nariz. O espanto e incompreensão do doctor universalis, como chamavam o famoso Tomaz no passado, divertiu Ulrich. Um motociclista veio pela rua vazia, braços e pernas em O, e passou trovejando. Seu rosto tinha a gravidade de uma criança a berrar por algo imensamente importante. Ulrich lembrou-se do retrato de uma famosa tenista, que vira há poucos dias numa revista; estava na ponta dos pés, expusera a perna até onde ficava a liga, a outra perna voava em direção da cabeça, enquanto ela brandia a raquete bem alto para pegar uma bola; e enquanto isso, tinha a cara de uma governanta inglesa. Na mesma revista mostrava-se uma nadadora, deixando-se massagear depois da competição; a seus pés e junto de sua cabeça havia duas mulheres sérias em traje de passeio, enquanto ela jazia nua na cama, joelhos puxados em posição de entrega, e o massagista ao lado pousava as mãos sobre ela, usava avental de médico e erguia o olhar para o fotógrafo como se aquela carne de mulher estivesse esfolada e pendurada num gancho. Naquele tempo começavam a se ver coisas desse gênero, e é preciso reconhecer que existem, assim como se reconhecem os altos edifícios e a eletricidade. “A gente não pode se zangar com seu tempo sem sair prejudicado”, pensou Ulrich. Estava sempre disposto a amar todas essas manifestações de vida. O que nunca conseguia era amá-las sem reservas, como exigia a sensação de bem- estar social; há muito pairava sobre tudo o que ele fazia e vivia um sopro de repulsa, uma sombra de impotência e solidão, uma náusea universal, para a qual não conseguia encontrar nenhuma inclinação compensadora. Por vezes, sentia-se como se tivesse nascido com um talento para o qual não havia objetivo no presente.
Robert Musil, in O Homem sem qualidades

25/11/2018

Revolução espiritual

Walter e ele tinham sido jovens naquela época esquecida, logo depois da virada do século, quando muitas pessoas imaginavam que o século também era jovem.
O que acabava de ser sepultado não se distinguira muito na sua segunda metade. Fora inteligente em técnicas, comércio e pesquisa, mas além desses focos de energia, quieto e enganoso como um pântano. Pintara como os antigos, fizera poemas como Goethe e Schiller, construíra casas em estilo gótico e renascentista. A exigência do ideal reinava como uma espécie de delegacia de polícia sobre todas as manifestações de vida. Mas, através daquela lei secreta que impede os homens de fazerem imitações sem colocar nelas algum exagero, tudo naquele tempo era feito com tamanha obediência às regras da arte como nem nos admirados modelos antigos se vira; era um método cujos resquícios ainda podemos ver em ruas e museus, e que, não sabemos se tendo relação com isso ou não, fazia as castas e tímidas mulheres usarem roupas que as cobriam das orelhas aos pés, mas apresentando seios grandes e traseiros abundantes. De resto, não há período passado do qual se saiba, por vários motivos, tão pouco quanto daquelas três a cinco décadas situadas entre nossos vinte anos e os vinte anos de nossos pais. Por isso, é bom lembrar que em tempos maus se fazem as piores casas e os piores poemas, seguindo princípios tão belos quanto os dos melhores tempos; todas as pessoas ocupadas em destruir os êxitos de um período positivo precedente pensam que os estão corrigindo; e os jovens pálidos dessa época têm tanta presunção, com seu sangue jovem, quanto os moços de todos os tempos.
E é sempre como um milagre, quando depois de um desses períodos de decadência de repente a alma se alteia um pouco, como aconteceu então. Do espírito estagnado das duas últimas décadas do século XIX surgira por toda a Europa, repentinamente, uma febre que dava asas a todos. Ninguém sabia exatamente o que acontecia; ninguém podia dizer se seria uma nova arte, um novo homem, uma nova moral, ou talvez uma alteração nas camadas sociais. Por isso, todos diziam o que lhes convinha melhor. Mas por toda parte pessoas erguiam-se para combater as coisas antigas. Aqui e ali aparecia de repente o homem certo no lugar certo; e, o que é tão importante, homens com senso prático e empreendedor encontravam-se com intelectuais empreendedores. Surgiam talentos antigamente sufocados ou que nem participavam da vida pública. Eram muito diversificados, e as contradições de seus objetivos eram insuperáveis. Amava-se o super-homem e também o subhomem; adoravam-se a saúde e o sol, adorava-se a fragilidade de mocinhas tuberculosas; havia entusiasmo pelo herói e pelo homem comum; havia a um só tempo crentes e céticos, naturalistas e sofisticados, robustos e mórbidos; sonhava-se com velhas alamedas de castelos, jardins outonais, lagos de vidro, pedras preciosas, haxixe, doença, demônios, mas também com prados, horizontes imensos, forjas e laminadoras, lutadores nus, rebeliões de operários escravizados, casais primitivos e destruição da sociedade. Eram realmente contradições e gritos de guerra muito diversos, mas tinham, todos juntos, um ritmo comum; se alguém dissecasse aquele tempo, a insensatez apareceria como um círculo quadrado que quer consistir de madeira de ferro, mas na verdade tudo se fundia num único significado cintilante.
Essa ilusão corporificada na data mágica da virada do século era tão forte que uns se precipitavam entusiasmados para o século novo, ainda intacto, e outros aproveitavam para se comportar no século velho como numa casa da qual vamos nos mudar, sem que essas duas atitudes parecessem muito diferentes entre si. Portanto, se não quisermos não precisaremos supervalorizar esse “movimento”. Aliás, ele não atingiu as massas, ficando circunscrito à tênue e frágil camada dos intelectuais, desprezada pela camada de pessoas que graças a Deus voltou a dominar, aquelas que têm uma cosmovisão indestrutível, apesar de todas as variantes. Mesmo assim, embora não tenha chegado a ser um acontecimento histórico, foi um acontecimentozinho, e os dois amigos, Walter e Ulrich, quando jovens tinham vivido um seu reflexo. Através daquela confusão de crenças perpassou alguma coisa, naquele tempo, como quando muitas árvores se dobram a um só vento; foi um espírito de seitas e de reformadores, a feliz consciência de uma irrupção e de um início, um pequeno renascimento e reforma, como só acontecem nos melhores períodos; e quando naquele tempo se entrava no mundo, já se sentia, na primeira esquina, o sopro do espírito no rosto.
Robert Musil, in O Homem Sem Qualidades

20/10/2018

Um cavalo de corrida genial faz amadurecer em Ulrich a ideia de ser um homem sem qualidades

Não era sem importância Ulrich poder dizer que realizara muitas coisas na ciência. Seus trabalhos lhe tinham granjeado reconhecimento alheio. Esperar admiração seria pedir demais, pois mesmo no reino da verdade só se admiram sábios mais velhos, dos quais depende conseguirmos ou não o mestrado ou a cátedra. Para ser exato, ele continuava sendo o que se chama de uma esperança, e, na república dos espíritos, consideram-se uma esperança aqueles republicanos, propriamente ditos, que imaginam ter de dedicar à causa todas as suas forças, em lugar de empregar a maior parte delas para fazer carreira; esquecem que as contribuições individuais são pouca coisa, enquanto a carreira é desejo de todos, e negligenciam o dever social de lutar para subir na vida, começando como carreirista, para, nos tempos de sucesso, poder ser apoio e instigação para outros tentarem subir.
Certo dia, Ulrich deixou de querer ser uma esperança. Naquela época já se começava a falar de gênios do futebol ou do boxe, mas para no mínimo dez inventores, tenores ou escritores geniais, os jornais não citavam mais do que, no máximo, um centro- médio genial, ou um grande tático de tênis. A nova mentalidade ainda não estava muito segura de si. Mas foi exatamente aí que Ulrich leu em alguma parte, como antecipação de verão, a expressão “cavalo de corrida genial”. Era uma notícia sobre um grande sucesso nas pistas de corrida, e o autor talvez nem tivesse consciência de toda a dimensão da sua idéia, que o espírito dos tempos lhe inspirara. Mas Ulrich compreendeu que ligação inevitável existia entre a sua vida e aquele cavalo de corrida genial. Pois o cavalo sempre fora o animal sagrado da cavalaria, e na sua juventude de militar Ulrich praticamente só ouvira falar de cavalos e mulheres, e fugira para se tornar um homem importante; e quando agora, depois de variados esforços, poderia sentir bem próximo o cume de suas aspirações, de lá o saudava o cavalo, que a ele se antecipara.
Isso se justifica cronologicamente, pois não faz muito imaginava-se, como espírito viril digno de admiração, uma criatura cuja coragem fosse ética, cuja força fosse persuasão, cuja firmeza fosse a do coração e da virtude; julgava-se a velocidade coisa de adolescentes, a trapaça coisa proibida, e a agilidade e o ímpeto eram considerados indignos. Por fim, essa criatura existia apenas no corpo docente de algum ginásio e em expressões escritas; tornara-se um espectro ideológico, e a vida teve de construir uma nova imagem de homem. Olhando em torno, ela descobriu porém que os golpes e manhas que uma cabeça inventiva aplica num cálculo lógico não se distinguem muito dos ataques de um corpo bem treinado, e que há uma força de combate espiritual geral que as dificuldades e improbabilidades tornam fria e sábia, quer adivinhe o ponto fraco de um problema, ou de um inimigo físico. Se analisássemos, do ponto de vista psicotécnico, um grande intelecto ou um campeão de boxe, a esperteza, coragem, exatidão e capacidade de estabelecer associações bem como a rapidez de reações num terreno que lhes é importante serão provavelmente as mesmas nos dois; nas virtudes e capacidades que lhes significam um êxito especial, os dois não se distinguiriam de um cavalo de salto famoso, pois não se deve menosprezar as muitas qualidades em jogo quando se salta uma sebe. Mas um cavalo e um campeão de boxe têm vantagem sobre um intelecto, pois sua importância e suas realizações se podem medir diretamente, e se reconhece o melhor entre eles como sendo realmente o melhor; dessa forma, o esporte e a objetividade se adiantaram merecidamente, substituindo os conceitos antiquados de gênio e grandeza humana.
Quanto a Ulrich, deve-se dizer que ele nesse ponto estava bastante à frente de seu tempo. Pois fora exatamente assim, melhorando o próprio recorde em uma vitória, um centímetro ou quilo, que trabalhara quando se dedicava à ciência. Provara ter espírito forte e aguçado, e realizara trabalho de fortes. Esse prazer na força do espírito era uma expectativa, um jogo belicoso, uma espécie de indefinido mas imperioso direito sobre o futuro. Ele não sabia bem o que faria com essa força; podia-se fazer tudo ou nada, ser um salvador do mundo ou um criminoso. E provavelmente essa é a condição psíquica geral da qual se originam novos reforços para o mundo das máquinas e descobertas. Ulrich encarava a ciência como preparação e endurecimento, uma espécie de treinamento. Se visse que esse pensamento científico era demasiadamente seco, áspero e limitado, sem maior campo de visão, aceitá-lo-ia como se aceita a expressão de tensão e privações nos rostos durante grandes realizações do corpo e da vontade. Anos a fio ele amara o ascetismo espiritual. Odiava pessoas que não seguem a expressão de Nietzsche: “passar fome na alma, por amor à verdade”; os que recuam, fracassam, os moles que se consolam com doces palavras sobre a alma, e a alimentam com sentimentos religiosos, filosóficos e poéticos que são como pãezinhos desmanchados no leite, por recearem que a razão lhes dê pedras em vez de pão.
Ele pensava que neste século toda a humanidade se encontrava numa expedição, e o orgulho exigia que a todas as perguntas inúteis se respondesse “ainda não” e que se vivesse uma vida baseada em conceitos provisórios mas consciente de um objetivo que seus descendentes atingiriam. A verdade é que a ciência desenvolveu um conceito de força espiritual dura e lúcida, que torna insuportáveis todos os antigos conceitos metafísicos e morais da humanidade, embora em seu lugar só possa colocar a esperança de que haverá um dia longínquo, em que descerá aos vales da fertilidade espiritual uma raça de conquistadores espirituais.
Mas isso só funciona enquanto não somos forçados a afastar o olhar das distâncias visionárias para a proximidade atual, lendo que um cavalo acaba de se tornar genial. Na manhã seguinte Ulrich levantou de pé esquerdo, e com o direito tentou pescar, indeciso, o chinelo. Fora numa cidade e rua diferentes daquela onde morava agora, mas não fazia mais que algumas semanas. Já passavam automóveis disparando no asfalto marrom sob sua janela; a pureza do ar matinal começava a encher-se com o azedume do dia, e naquela luz luminosa que entrava pelas cortinas, pareceu-lhe indizivelmente insensato fazer como de costume, movendo seu corpo nu para frente e para trás, erguendo-o do solo com os músculos da barriga, deitando-se de novo, e por fim batendo os punhos contra um punching ball, como fazem tantas pessoas à mesma hora antes de irem ao escritório. Uma hora por dia, é um doze avôs da vida consciente, e basta para manter um corpo treinado como o de uma pantera, capaz de enfrentar qualquer aventura; mas é desperdiçada numa expectativa insensata, pois nunca chegam aventuras dignas de tal preparativo. O mesmo acontece com o amor, para o qual o ser humano é preparado da maneira mais monstruosa.
Por fim, Ulrich ainda descobriu que também na ciência parecia um homem que escalou uma montanha após a outra sem avistar seu objetivo. Possuía fragmentos de uma nova maneira de pensar e sentir, mas a nova visão, inicialmente tão forte, perdera-se em detalhes cada vez mais abundantes; e se ele acreditara estar bebendo da fonte da vida, esgotara agora quase todas as suas expectativas.
Foi então que interrompeu pela metade um grande e promissor trabalho. Seus colegas lhe pareciam em parte furiosos e implacáveis promotores públicos e chefes-de-segurança da Lógica, e em parte viciados em ópio ou alguma droga rara, que povoava seu mundo com visões de cifras e equações abstratas. “Meu Deus!”, pensou, “nunca tive intenção de ser matemático durante a vida inteira.”
Mas que intenção tivera, afinal? Naquele momento, só poderia se voltar para a filosofia. Mas a filosofia, no estado em que então estava, lembrava-lhe a história de Dido, na qual se corta um couro em tiras sem saber ao certo se estas poderão rodear um reino; e o que se fazia de novo parecia-se com aquilo que ele próprio fizera, e não o conseguia atrair. Ele só sabia que se sentia mais distante daquilo que desejara ser do que se sentia quando jovem, se é que uma vez soubera o que desejava. À exceção da capacidade de ganhar dinheiro, de que não precisava, via em si próprio com incrível nitidez todas as capacidades e qualidades que seu tempo prestigiava. Mas a capacidade de aplicá-las perdera-se; e como, finalmente, agora que jogadores de futebol e cavalos de corrida têm gênio, apenas o uso que dele se fizer nos resta para salvarmos nossa singularidade, decidiu tirar um ano de férias da sua vida, e procurar uma aplicação adequada para suas capacidades.
Robert Musil, in O homem sem qualidade

31/05/2018

Casa e moradia do homem sem qualidades

A rua em que acontecera o pequeno acidente era um daqueles longos e sinuosos rios de trânsito que brotam como raios do coração da cidade, varam os bairros afastados e acabam nos subúrbios. Se o elegante casal seguisse por ela mais um pouco, teria visto algo que certamente lhe agradaria. Era um jardim do século XVIII, ou até XVII, ainda parcialmente conservado; passando diante de suas grades de ferro batido, via-se entre as árvores, sobre relvados cuidadosamente aparados, algo que parecia um castelinho de alas curtas, um castelinho de caça ou de amor, de tempos passados. Para ser exato, as abóbadas de sustentação eram do século XVII, o parque e o andar superior pareciam do século XVIII, as fachadas tinham sido renovadas e um pouco prejudicadas no século XIX; portanto o todo estava um tanto confuso, como em retratos fotografados uns por cima dos outros; mas acabava-se parando ali, infalivelmente, e dizendo: “Ah!” E quando aquela coisa alva, graciosa e bela estava de janelas abertas, avistavam-se as paredes de livros, nobres e silenciosas, da casa de um homem de cultura.
A moradia e a casa pertenciam ao homem sem qualidades.
Ele estava postado atrás de uma janela, e através do filtro verde-pálido do ar do jardim contemplava a rua pardacenta; há dez minutos contava com o relógio os automóveis, carruagens, bondes e os rostos de transeuntes embaciados pela distância, que cobriam a retina com um rápido redemoinho; avaliava as velocidades, os ângulos, as forças vivas das massas que passavam, que atraíam o olhar com a rapidez de um raio, prendiam-no, soltavam-no e, durante um tempo para o qual não existe medida, forçavam a atenção a resistir-lhes, desprender-se, saltar para o que viesse em seguida e jogar-se atrás dele; em suma, depois de calcular mentalmente por um momento, ele meteu o relógio no bolso, rindo, e constatou que estivera fazendo uma tolice.
Se se pudessem medir esses saltos da atenção, a atividade dos músculos dos olhos, os movimentos pendulares da alma, e todos os esforços que um ser humano precisa executar para se manter em pé na torrente de uma rua, resultaria presumivelmente — fora isso que ele pensara, tentando, por uma brincadeira, calcular o impossível — uma grandeza comparada à qual a força de que Atlas necessita para sustentar o mundo é insignificante; e poder-se-ia avaliar que gigantesca façanha realiza hoje em dia uma pessoa que não faz coisa alguma.
Pois nesse momento o homem sem qualidades era uma dessas pessoas. E alguém que faz?
Podem-se deduzir duas coisas”, disse ele para si mesmo.
A atividade muscular de um cidadão que segue calmamente seu caminho um dia inteiro é muito maior do que a de um atleta que sustenta uma vez ao dia um peso enorme; isso foi comprovado fisiologicamente, e é provável também que as pequenas atividades cotidianas, na sua soma social e nessa capacidade de serem somadas, ponham muito mais energia no mundo do que as ações heroicas; sim, o heroico parece minúsculo como um grão de areia colocado sobre uma montanha com extraordinária ilusão. Essa ideia lhe agradou.
Deve-se acrescentar, porém, que ela não lhe agradava por ele amar a vida burguesa; ao contrário, gostava apenas de contrariar suas inclinações, que outrora tinham sido diferentes. Talvez seja exatamente o pequeno-burguês quem prevê o começo de um heroísmo coletivo, de formigueiro, extraordinariamente novo. Vão chamá-lo de heroísmo racionalizado, e achar tudo muito bonito. Hoje em dia, quem pode saber?! Mas naquele tempo havia centenas de indagações irrespondidas desse tipo, da maior importância. Pairavam no ar, ardiam sob os pés. O tempo corria. Pessoas que ainda não viviam então não hão de querer acreditar, mas já então o tempo se movia com a rapidez de um camelo de montaria; isso não é de hoje. Apenas não se sabia para onde corria. Nem se podia distinguir direito o que estava em cima ou embaixo, o que ia para diante ou para trás.
A gente pode fazer o que quiser”, disse o homem sem qualidades para si mesmo, dando de ombros, “que isso não tem a menor importância nesse emaranhado de forças!” Depois afastou-se, como uma pessoa que aprendeu a renunciar, quase mesmo como um enfermo que teme qualquer contato forte; e quando, atravessando o quarto de vestir anexo, passou por um punching ball ali pendurado, deu-lhe um soco rápido e forte, que não é propriamente comum em momentos de resignação ou estados de fraqueza.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

26/03/2018

A dama cujo amor Ulrich conquistou depois de uma conversa sobre esporte e mística

Afinal, também Bonadéia aspirava às grandes ideias. Bonadéia era a dama que salvara Ulrich naquela sua infeliz noite de boxeador, e na manhã seguinte o visitara, coberta de espessos véus. Ele a batizara Bonadéia, a boa deusa, por ter entrado daquele modo em sua vida, e também segundo o nome de uma deusa da castidade que tivera, na velha Roma, um templo que, por uma bizarra inversão, se tornara centro de todos os excessos. Aquele nome sonoro que Ulrich lhe dera agradou à dama, e ela o usava nas suas visitas, como um traje luxuosamente bordado.
Então eu sou a sua boa deusa — perguntou —, a sua bona dea? — E para pronunciar corretamente essas duas palavras passava os braços pelo pescoço dele e o encarava, emocionada, a cabeça levemente inclinada para trás.
Era esposa de um homem importante, e mãe carinhosa de dois belos meninos. Sua expressão preferida era “decentíssimo”, e aplicava-a a pessoas, criados, negócios e sentimentos, sempre que queria fazer-lhes um elogio. Era capaz de dizer “o que é verdadeiro, bom e belo” com a mesma frequência e naturalidade com que as outras pessoas dizem “quinta-feira”. O que mais satisfazia à sua necessidade de ideias era imaginar uma vida sossegada e idealizada no círculo do marido e dos filhos, e, muito abaixo, o mundo sombrio do “não me deixes cair em tentação”, com seu horror enevoando aquela felicidade radiante, transformando-a em fraca luz de lâmpada. Ela só tinha um defeito: a simples visão de um homem a excitava de maneira incrível. Não que fosse lasciva; era sensual, como outras pessoas têm lá seus problemas, por exemplo, transpirar nas mãos ou corar com facilidade. Aparentemente nascera assim, e não o conseguia evitar. Quando conhecera Ulrich, em condições tão romanescas que lhe excitavam a fantasia, tornara-se no mesmo momento vítima de uma paixão que começara como piedade, mas depois de breve e intensa luta transformou-se em emoções secretas e proibidas, continuando então como alternantes acessos de pecado e remorso.
Ulrich era mais um dos incontáveis casos em sua vida. Os homens, percebendo uma tal situação, costumam tratar essas mulheres sedentas de amor como tratariam idiotas a quem se engana com os truques mais tolos, fazendo-os cair sempre no mesmo tropeço. Pois os mais delicados sentimentos masculinos são mais ou menos como o rosnado de um tigre diante de um naco de carne, e qualquer coisa que os perturba os irrita imensamente. Assim, muitas vezes Bonadéia levava uma vida dupla, como qualquer cidadão respeitável que nas fiestas mais sombrias da consciência é um assaltante de trens; portanto, sempre que não estava nos braços de um homem, aquela dama tranquila e majestosa sentia-se sufocar de autodesprezo devido às mentiras e humilhações a que se expunha para ser abraçada. Quando excitada, era melancólica e bondosa, numa mescla de fervor e lágrimas, brutal naturalidade e inevitável remorso.
Quando seu fervor se retraía à depressão iminente, ela adquiria um encanto excitante como o rufar de um tambor envolto em panos negros.
Mas no intervalo entre duas crises, no remorso entre duas fraquezas, quando sentia sua impotência, ela assumia muitas pretensões à respeitabilidade, que tornavam o convívio complicado. Queria que todos fossem bons e verdadeiros, compassivos para com as desgraças, amantes da família imperial, respeitando tudo o que era respeitável e tão delicados em assuntos morais como quem estivesse à cabeceira de um doente.
Mas mesmo que isso não acontecesse, nada mudava no curso dos fatos. Para desculpar-se, inventara a lenda de que, nos primeiros inocentes anos de casados, o marido é que a deixara naquele triste estado. O marido, muito mais velho e fisicamente maior que ela, parecia então um monstro de brutalidade, e já nas primeiras horas do novo amor ela mencionara isso a Ulrich, com uma tristeza ambígua. Só mais tarde ele descobriria que o marido era um jurista respeitado e conhecido, eficiente na profissão, um inofensivo aficcionado de caçadas, visitante muito querido de várias rodas de caçadores e de juristas, onde se debatiam questões masculinas em vez de arte e amor. O único erro desse homem bondoso e alegre, um tanto ingênuo, era ser casado com aquela esposa, e por isso mais frequentemente do que outros homens manter com ela aquela relação que em linguagem jurídica se chama de “relação de circunstância”. O efeito moral de submeter-se anos a fio a uma pessoa com que se casara mais por esperteza do que por afeto formara em Bonadéia a ilusão de ser fisicamente superexcitável, tornando essa ideia quase que independente de sua consciência. Uma força interior, que ela mesma não entendia, ligava-a àquele homem favorecido pelas circunstâncias; desprezava-o por sua própria fraqueza de vontade, e sentia-se fraca demais para o poder desprezar; traía-o para fugir dele, mas nos momentos mais inadequados falava dele e dos filhos que tivera com ele, e nunca conseguia libertar-se dele inteiramente. Por fim, como muitas mulheres infelizes, num espaço oscilante, apoiava-se exatamente naquela repulsa pelo sólido esposo, e transferia seu conflito com ele para cada nova experiência que a deveria dele livrar.
Praticamente, nada restava para acalmar suas dores do que lançar-se rapidamente da depressão para o fervor. Mas aos homens que isso concretizavam e se aproveitavam de sua fraqueza, ela negava ao mesmo tempo qualquer intenção nobre; e quando se “inclinava” para esse novo homem, como costumava dizer com objetividade científica, o sofrimento cobria seus olhos com um véu de úmida ternura.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

11/01/2018

A tentativa mais importante

Pensando naquele tempo, Ulrich poderia hoje sacudir a cabeça, como se lhe falassem da transmigração de sua alma; sua terceira tentativa era diferente. Entende-se que um engenheiro se deixe absorver por sua especialidade, em vez de entregar-se à liberdade e amplidão do mundo dos pensamentos, embora suas máquinas sejam entregues até nos confins do mundo; pois precisa tão pouco ser capaz de transportar para sua alma particular o que há de audacioso e novo na alma de sua técnica, quanto uma máquina é capaz de aplicar a si mesma as equações infinitesimais que serviram para a sua criação. Mas da matemática não se pode dizer isso; nela reside a nova lógica, o próprio espírito, nela estão as fontes do tempo e a origem de uma extraordinária transformação.
Se for a concretização de sonhos ancestrais voar e viajar com os peixes, atravessar montanhas gigantescas, enviar mensagens com velocidade de deuses, ver o invisível a distância e ouvi-lo falar, ouvir falarem os mortos, deixar-se mergulhar em miraculosos sonos terapêuticos, poder ver como pareceremos vinte anos após nossa morte, saber em noites estreladas que há milhares de coisas acima e debaixo desta terra, das quais ninguém outrora tinha conhecimento; se luz, calor, força, prazer, conforto, forem sonhos ancestrais do homem — então a pesquisa atual não é apenas ciência mas magia, uma cerimônia de altíssima força emocional e cerebral diante da qual Deus desdobra uma a uma as pregas do seu manto, uma religião, cujo dogma é repassado e impelido pela dura, corajosa e flexível lógica matemática, fria e afiada como um bisturi.
Na verdade, não se pode negar que esses sonhos ancestrais, na opinião dos não-matemáticos, se concretizaram de repente de um modo bem diverso do que se imaginara. A cometa do postilhão de Munchhausen era mais bela do que a voz em conserva, industrial; a bota de sete léguas, mais bela do que um caminhão; o reino de Larino, mais belo do que um túnel de ferrovia; a mandrágora, mais bela do que um foto-telegrama; comer o coração da própria mãe para compreender os pássaros era mais belo do que estudar psicologia animal sobre a expressividade dos pios. Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; também não devemos passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho. Realmente não é preciso falar muito a respeito; a maioria das pessoas sabe perfeitamente, hoje, que a matemática entrou em todos os campos de nossa vida, como um demônio. Talvez nem todas essas pessoas acreditem na história do Diabo a quem se pode vender a alma; mas todas as pessoas que entendem alguma coisa de alma, por serem sacerdotes, historiadores e artistas, e tirarem boas vantagens disso, testemunham que foi a matemática que arruinou a alma, que a matemática é a fonte de uma inteligência perversa que faz do homem senhor da terra mas escravo da máquina. A secura interior, a monstruosa mistura de sensibilidade para os detalhes e indiferença para o todo, o enorme desamparo do ser humano num deserto de minúcias, sua inquietação, maldade, a incrível frieza do coração, cobiça, crueldade e violência que caracterizam nossa era, seriam, segundo esses relatos, resultado dos prejuízos que um aguçado pensamento lógico traz à alma! E assim, já no tempo em que Ulrich se tomou matemático, havia pessoas que profetizavam a derrocada da cultura europeia, porque nenhuma crença, nenhum amor, nenhuma candura restavam no ser humano; e significativamente todos foram maus matemáticos na juventude e nos anos escolares. Isso provou para eles, mais tarde, que a matemática, mãe da ciência natural exata, avó da técnica, também é mãe ancestral daquele espírito do qual finalmente brotaram os gases venenosos e os pilotos de guerra.
Só os próprios matemáticos e seus discípulos, os cientistas naturais, que sentiam em suas almas tão pouco disso tudo quanto os corredores de bicicleta, que pisam no pedal e nada veem do mundo senão a roda traseira do concorrente diante deles, viviam na ignorância desses perigos. Ulrich, porém, com certeza amava a matemática, por causa das pessoas que não a suportavam. Era menos um cientista do que alguém humanamente apaixonado pela ciência. Via que em todas as questões que esta julga de sua competência, cultiva um pensamento diverso do das pessoas comuns. Se colocássemos, em lugar de ideias científicas, ideias filosóficas, em vez de hipótese, experiência, e em vez de verdade, ação, não haveria obra de cientista natural ou matemático respeitável que, por sua coragem e força revolucionária, não superasse em muito as maiores façanhas da história. Ainda não nasceu o homem capaz de dizer aos seus discípulos: Roubem, matem, sejam lascivos... nossa doutrina é tão forte que transforma o estrume desses pecados em claros e espumantes riachos de montanha; mas na ciência acontece periodicamente que algo que até então era considerado erro, de repente inverte todas as ideias, ou quê um pensamento insignificante e desprezado começa a dominar todo um novo reino de ideias; e esses fatos não são apenas revoluções, mas constituem um caminho ascendente, como uma escada para o céu. Na ciência as coisas são tão fortes, superiores e magníficas como num conto de fadas. E Ulrich sentia: as pessoas apenas não sabem disso; não têm ideia de como se pode pensar; se pudéssemos ensiná-las a pensar diferente, também viveriam de modo diferente.
Certamente há de se perguntar se o mundo é tão errado que se precise mudá-lo a toda hora. Mas o próprio mundo já deu duas respostas. Pois desde que ele existe a maior parte das pessoas foi favorável à mudança, na juventude. Acharam ridículo que os mais velhos se prendessem às coisas permanentes e pensassem com seu coração, aquele pedacinho de carne, em vez de pensarem com o cérebro. Esses jovens sempre perceberam que a ignorância moral dos mais velhos é uma falta de capacidade para estabelecer novas ligações, como a habitual ignorância intelectual, e que a sua própria moral natural é uma moral de realizações, heroísmo e transformação. Contudo, assim que chegavam à idade de concretizar, não sabiam mais nada de tudo aquilo, nem queriam saber. Por isso, muitas pessoas para quem a matemática ou a ciência natural são profissões julgariam abusivo decidir-se pela ciência por motivos como os de Ulrich.
Apesar disso, na opinião dos especialistas não foi pouco o que ele fez nessa terceira profissão, desde que a abraçou, há anos.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

10/12/2017

Segunda tentativa - Inícios de uma moral do homem sem qualidades

Mas, ao passar da cavalaria para a técnica, Ulrich apenas trocou de cavalo; o novo tinha membros de aço, e corria dez vezes mais depressa. No mundo de Goethe, o ruído dos teares ainda perturbava, mas no tempo de Ulrich começava-se a descobrir a canção das salas de maquinas, martelos de arrebite e sirenes de fábrica. Não se acredite com isso que as pessoas tenham imediatamente notado que um arranha-céu é maior do que um homem a cavalo; ao contrário, ainda hoje, quando se querem dar importância, não se sentam sobre um arranha-céu e sim sobre um cavalo alto, são rápidas como o vento e têm visão aguçada, mas não como um telescópio gigante, e sim como uma águia. Sua emoção não aprendeu ainda a servir-se da razão, e entre as duas há uma diferença de evolução tão grande como entre o apêndice e o córtex cerebral. Portanto, não é uma grande sorte descobrir, como Ulrich logo depois da adolescência, que em tudo o que considera superior o homem é bem mais antiquado do que suas máquinas.
No momento em que iniciou o estudo de mecânica, Ulrich sentiu um entusiasmo febril. Para que se precisa do Apolo del Belvedere, se temos diante dos olhos novas formas de um turbo-dínamo ou o jogo de pistões de uma máquina a vapor? Quem se encantaria com a milenar conversa sobre o bem e o mal depois de constatar que não são “constantes”, mas “valores funcionais”, de forma que o valor das obras depende das circunstâncias históricas, e o valor das pessoas depende da habilidade psicotécnica com que avaliamos suas qualidades? O mundo é realmente cômico, analisado do ponto de vista da técnica; nada prático nas relações humanas, altamente antieconômico e inexato em seus métodos; e quem estiver habituado a resolver seus problemas com a régua de cálculo, simplesmente não pode mais levar a sério metade das afirmações dos homens. A régua de cálculo consta de dois sistemas de cifras e traços combinados com inaudita argúcia, de duas varetas laqueadas de branco, que deslizam uma sobre a outra, dois recortes em forma de trapézio, com ajuda dos quais se resolvem num instante as tarefas mais complicadas, sem desperdiçar nem um pensamento; a régua de cálculo é um pequeno símbolo que se carrega no bolso interno do casaco, e se sente sobre o coração como um traço branco e duro: quem possui uma régua de cálculo, e encontra alguém que faz afirmações grandiosas ou tem sentimentos grandiosos, diz: um momento, primeiro vamos calcular as margens de erro e o valor mais provável de tudo isso!
Era sem dúvida uma concepção vigorosa da engenharia. Formava a moldura de um belo futuro auto-retrato, mostrando um homem com traços decididos, cachimbo entre os dentes, gorro de esporte na cabeça, movendo-se entre a Cidade do Cabo e o Canadá em magníficas botas de montaria, concretizando grandes projetos para a sua empresa. Entrementes, ainda há tempo para extrair do pensamento técnico algum conselho para a organização e governo do mundo, ou formular ditos como o de Emerson, que se devia pendurar em todas as oficinas: “As pessoas andam pelo mundo como profecias do futuro, e todos os seus atos são tentativas e experiências, pois cada ação pode ser superada pela ação seguinte!”
Para ser exato, essa frase fora fabricada por Ulrich, com várias frases de Emerson.
É difícil dizer por que engenheiros não correspondem exatamente a essa imagem. Por que, por exemplo, usam tão frequentemente a corrente de relógio subindo numa curva vertical do bolsinho do colete até um botão mais alto, ou a deixam cair sobre o ventre formando uma sílaba longa e duas curtas, como num poema? Por que gostam de usar alfinetes de lapela com dentes de cervo, ou colocar pequenas ferraduras nas gravatas? Por que seus ternos são feitos como os primeiros automóveis? E, finalmente, por que é raro falarem de outra coisa além da sua profissão? E, quando o fazem, por que têm essa maneira de falar especial, rígida, indiferente, alheada, apenas da boca para fora? Naturalmente isso não vale para todos, mas para muitos, e os que Ulrich conheceu ao começar o trabalho num escritório de fábrica eram assim, e no seu segundo emprego também eram. Mostravam-se estreitamente ligados às pranchetas de desenho, amantes da sua profissão, com uma admirável eficiência; mas, se lhes sugerissem aplicar a si próprios e não às suas máquinas aquelas ideias audaciosas, achariam isso tão antinatural quanto usar um martelo para matar.
Assim, terminou depressa a segunda tentativa, mais madura, de Ulrich tornar-se um homem extraordinário, usando o caminho da técnica.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

27/11/2017

Primeira tentativa de três de tornar-se um homem importante

Esse homem que voltara para casa não conseguia lembrar nenhum período de sua vida que não tivesse sido animado pela vontade de se tornar uma pessoa importante; Ulrich parecia ter nascido com esse desejo. É verdade que nesse desejo também se podem esconder vaidade e ignorância; apesar disso, não é menos verdade que é um desejo belo e correto, sem o qual provavelmente não haveria muitas pessoas importantes.
O fatal era apenas que ele não sabia como a gente se torna importante, nem o que é um homem importante. Nos seus tempos de escola, pensava que Napoleão o fosse, em parte devido à natural admiração dos jovens pelo crime, em parte porque os professores apontavam esse tirano, que tentou colocar a Europa de cabeça para baixo, como sendo o pior criminoso da história. O resultado foi que, assim que escapou da escola, Ulrich se tornou alferes de um regimento de cavalaria. Naquela época, se indagassem dos motivos dessa escolha, ele provavelmente não teria mais respondido: para me tornar um tirano; mas esses desejos são jesuíticos; o gênio de Napoleão apenas começou a se desenvolver depois que ele se tornara general, e como é que Ulrich, simples alferes, teria podido convencer seu comandante da necessidade de chegar a essa condição?! Já nos exercícios de esquadrão, via-se não raro que o comandante pensava de outro modo. Apesar disso, Ulrich não teria amaldiçoado a praça de exercícios, em cujo pacífico relvado não se distingue presunção de vocação, se não fosse tão ambicioso. Naquele tempo, não dava o mínimo valor a expressões pacifistas como “educação armada do povo”, mas recordava com paixão os tempos heróicos de feudalismo, violência e orgulho. Participava de corridas de cavalo, duelava, e distinguia apenas três espécies de pessoas: oficiais, mulheres e civis; os últimos eram uma classe fisicamente não desenvolvida e espiritualmente desprezível, cujas mulheres e filhas eram arrebatadas pelos oficiais. Entregou-se a um pessimismo sublime: parecia-lhe que se a profissão de soldado é um instrumento aguçado e ardente, era preciso queimar e cortar o mundo com esse instrumento, para seu próprio bem.
Teve sorte de mesmo assim não lhe acontecer nada de mal naquele tempo, mas certo dia passou por uma experiência. Sofreu, numa reunião, uma pequena desavença com um conhecido financista, e quis resolver tudo à sua maneira grandiosa, verificando então que também entre os civis há homens que sabem defender os membros femininos de suas famílias. O financista teve uma conversa com o Ministro da Guerra, a quem conhecia pessoalmente, e o resultado foi que Ulrich teve um longo encontro com seu superior, no qual lhe explicaram a diferença entre um arquiduque e um simples oficial. A partir dali, a profissão militar não lhe agradou mais. Esperara encontrar-se num palco de aventuras que abalassem o mundo, cujo herói seria ele próprio, e de repente via um jovem embriagado fazendo desordem numa grande praça vazia, onde só as pedras lhe respondiam. Percebendo isso, despediu-se daquela carreira ingrata, na qual acabara de chegar a tenente, e deixou o serviço militar.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

01/11/2017

Kakânia

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Na idade em que ainda se levam a sério coisas como alfaiate e barbeiro e se gosta de olhar no espelho, muitas vezes nos imaginamos em algum lugar onde gostaríamos de passar a vida, ou pelo menos um lugar onde é elegante viver, mesmo sentindo que, pessoalmente, não seria tão bom estar lá. Uma dessas obsessões é há muito tempo uma espécie de cidade superamericana, onde todo mundo corre ou pára com cronômetro na mão. Céu e terra formam um formigueiro varado pelos diversos andares de ruas sobrepostas. Trens aéreos, trens terrestres, trens subterrâneos, pessoas transportadas por correio pneumático, comboios de automóveis disparam na horizontal, ascensores rápidos bombeiam verticalmente massas humanas de um nível de trânsito a outro; salta-se de um meio locomotor a outro nos pontos de junção, sem pensar, sugado e arrebatado pelo ritmo dos veículos, que entre duas corridas trovejantes fazem uma síncope, uma pausa, uma pequena brecha de vinte segundos; trocam-se algumas palavras nos intervalos desse ritmo geral. Perguntas e respostas articulam-se como peças de máquina, cada pessoa tem apenas tarefas bem determinadas, as profissões estão agrupadas em lugares certos, come-se em pleno movimento, as diversões estão reunidas noutras partes da cidade, e em outros locais encontram-se as torres onde ficam esposa, família, gramofone e alma. Tensão e distensão, atividade e amor são minuciosamente separadas no tempo, e equilibradas segundo experiências de laboratório. Caso haja alguma dificuldade em qualquer dessas ações, simplesmente se larga tudo; pois encontra-se outra coisa, ou eventualmente algum caminho melhor, ou outro encontrará o caminho que nós não achamos; não tem nenhuma importância, uma vez que nada causa tanto desperdício da força comum quanto presumir que se tem missão de não largar determinado objetivo pessoal. Numa comunidade através da qual correm energias, todo caminho leva a um bom objetivo, desde que não se hesite nem reflita demais. Os objetivos são a curto prazo; mas também a vida é curta, e assim conseguimos arrancar dela um máximo de realização. A pessoa não precisa mais que isso para ser feliz, pois aquilo que se obtém modela a alma, enquanto aquilo que se deseja, sem conseguir, apenas a deforma; para a felicidade importa muito pouco o que se deseja, mas apenas que seja obtido. Além disso, a zoologia ensina que de uma soma de indivíduos reduzidos pode resultar um todo genial.
Não é certo que tudo tenha de acontecer dessa maneira, mas esse tipo de ideias faz parte dos sonhos de viagem, nos quais se espelha a impressão de movimento incessante que nos arrebata. São superficiais, inquietas e breves. Sabe Deus o que virá. A cada minuto pensamos ter na mão um começo, e achamos que deveríamos traçar um plano para todos nós. Se as velocidades não nos agradam, inventemos outra coisa! Por exemplo, algo bem lento, uma felicidade nevoenta como uma serpente marinha misteriosa e com o profundo olhar bovino com que já os gregos sonhavam. Mas não é nada disso. A marcha do tempo nos domina. Andamos com ela dia e noite, e fazemos dentro dela todo o resto; nos barbeamos, comemos, amamos, lemos livros, exercemos nossa profissão, como se as quatro paredes estivessem imóveis; e o inquietante é saber que as paredes se movem, sem notarmos nada, lançam seus trilhos à frente como longos fios sinuosos, tateiam, sem que se saiba para onde. Além disso queremos se possível fazer parte das forças que determinam o curso do tempo. É um papel obscuro, e acontece, quando olhamos para fora após um intervalo mais longo, que a paisagem mudou; o que passa voando o faz porque só pode ser assim, mas apesar da resignação cresce a sensação incômoda de que seguimos além de nossa meta ou entramos por um caminho errado. E um dia, surge a necessidade urgente: desembarcar! Saltar! Ânsia de parar, de não avançar mais, de ficar atolado, de voltar a um ponto antes daquela encruzilhada falsa! Nos bons velhos tempos do Império Austríaco podia-se saltar do trem do tempo, entrar num trem comum e voltar à terra natal.
Na Kakânia, esse país desaparecido, incompreendido, em tantas coisas exemplar mas não reconhecido, havia dinamismo, mas não demais. Sempre que, indo para o exterior, se pensava naquela terra, pairava diante dos olhos a imagem das estradas alvas, largas e nobres do tempo das caminhadas e diligências, cortando o país em todas as direções como rios ordenados, claras fitas de tecido riscado, rodeando as terras com o alvo braço de papel da administração. Que províncias aquelas! Havia geleira e mar, aluvião e trigais da Boêmia, noites do Adriático cricrilando com a inquietação dos grilos, aldeias eslovacas onde a fumaça sobe de chaminés como de narinas arrebitadas e a aldeia se agacha entre duas colinas baixas como se a terra abrisse os lábios para soprar calor em sua filha. Naturalmente também corriam automóveis nessas estradas, mas não muitos; também ali se preparavam para conquistar os ares, mas não com muita ênfase. Aqui e ali mandava-se um navio para a América do Sul ou Ásia Oriental, mas não muito seguidamente. Não se tinham ambições de economia mundial nem potência mundial; estávamos instalados no centro da Europa onde se cruzam os velhos eixos do mundo; as palavras “colônia” e “além-mar” pareciam algo novo e remoto. Apreciava-se o luxo, mas nem de longe tão sofisticado como o dos franceses. Praticavam- se esportes, mas não com a loucura dos anglo-saxões. Gastavam-se imensas somas com o exército, mas só o suficiente para continuar sendo a penúltima das grandes potências. Também a capital era um pouquinho menor do que todas as demais maiores cidades do mundo, mas um pouquinho maior do que são as meras grandes cidades. Esse país era governado de maneira esclarecida, quase imperceptível, limando prudentemente toda as arestas, pela melhor burocracia da Europa, que só se podia acusar de um erro: o gênio e o espírito genial de iniciativa em indivíduos particulares, que não tinham por nascimento aristocrático ou missão oficial esse privilégio, eram considerados por ela um comportamento petulante e presunçoso. Mas quem gosta de deixar que incompetentes se metam em sua vida? E na Kakânia só se tomava um gênio por patife, nunca se tomava um patife por gênio, como acontecia em outras partes.
Aliás, quanta coisa singular se podia dizer sobre essa Kakânia submersa! Por exemplo, ela era kaiserlich-königlich e kaiserlich und königlich, ou seja, imperial e real; um dos dois sinais, K.K. ou K. e K., marcava cada pessoa e coisa, mas mesmo assim era preciso uma sabedoria secreta para poder distinguir sempre com segurança que instituição ou pessoa se devia chamar K.K. ou K. e K. Por extenso, chamava-se Monarquia Austro- Húngara, mas popularmente era chamada Áustria, com um nome, portanto, a que havia renunciado com um solene juramento de estado, mas que mantinha em todos os assuntos sentimentais, para mostrar que sentimentos são tão importantes quanto o direito público, e que regulamentos não são a coisa realmente séria da vida. A constituição era liberal, mas o regime era clerical. O regime era clerical, mas se vivia de forma liberal. Todos os cidadãos eram iguais diante da lei, mas nem todos eram cidadãos. Havia um parlamento que fazia tamanho uso de sua liberdade, que habitualmente o mantinham fechado; mas também havia um parágrafo de exceção com ajuda do qual passavam sem o Parlamento, e quando todos já estavam contentes com o absolutismo, a Coroa invariavelmente determinava a volta do regime parlamentar. Havia muitas dessas singularidades naquele país, e entre elas estavam as brigas nacionais, que chamavam justamente a atenção da Europa, e hoje são descritas de maneira tão errada. Eram tão fortes, que por sua causa a máquina do estado parava várias vezes ao ano, mas nos intervalos e pausas de governo todos se davam magnificamente bem, fazendo de conta que nada acontecera. E não acontecera mesmo nada de real. Apenas a resistência de todo ser humano contra os esforços de outro ser humano, que hoje é geral, tinha naquele país já muito cedo se desenvolvido; podemos mesmo dizer que se tornara um cerimonial sublimado, que poderia ter consequências bem maiores se sua evolução não tivesse sido interrompida antes do tempo por uma catástrofe.
Pois não apenas a repulsa aos concidadãos ascendera ali à condição de sentimento comunitário: também a desconfiança com relação à própria pessoa e destino assumira caráter de profunda convicção. Naquele país, sempre se pensava uma coisa e fazia outra — e isso até mesmo de forma extremamente apaixonada, sem medir consequências — ou se fazia uma coisa e pensava outra. Observadores desinformados julgavam isso cortesia, ou até fraqueza do que pensavam ser o caráter austríaco. Mas era falso; e sempre é falso explicar os fenômenos de um país através do caráter de seus habitantes. Pois um habitante tem no mínimo nove caráteres, o profissional, o nacional, o estatal, o de classe, o geográfico, o sexual, o consciente e o inconsciente, e talvez ainda um caráter particular: reúne todos em si, mas eles o desagregam; na verdade, ele não passa de uma pequena cova lavada por muitos riachinhos, que desaparecem nela, para depois voltarem a brotar e, junto com outros riachinhos, encherem outra cova. Por isso, todo habitante da terra tem ainda um décimo caráter, que não é senão a fantasia passiva de espaços não preenchidos; este permite tudo ao ser humano, menos uma coisa: levar a sério aquilo que seus outros nove — no mínimo — caráteres fazem, e o que acontece com eles; em outras palavras, exatamente aquilo que o deveria preencher. Esse espaço que, como se vê, é de difícil descrição, varia na cor e na forma, por exemplo da Itália para a Inglaterra, na medida em que variam a cor e a forma daquilo que dele se destaca, mas, de fato, é sempre idêntico, um aposento vazio e invisível, no qual se posta a realidade como uma cidadezinha de blocos, de brinquedo, que a fantasia tenha abandonado.
Na medida em que possa ser visível aos olhos de todos, isso acontecera na Kakânia, e nesse ponto, sem que o mundo soubesse, a Kakânia era o estado mais adiantado; era o estado que de alguma forma ia apenas se levando; nele, as pessoas eram negativamente livres, constantemente envoltas na consciência dos motivos insuficientes da própria existência, e banhadas pela grande fantasia do não-acontecido, ou do ainda-não- definitivamente-acontecido, como pelo sopro dos oceanos dos quais surgiu a humanidade.
Passou-se”, diziam lá, quando outras pessoas, de outros lugares, acreditavam ter acontecido não se sabe que milagre; era uma expressão singular, que não aparece em nenhum outro lugar de língua alemã, nem em outros idiomas; em seu sopro, fatos e golpes do destino se tornavam leves como plumas e pensamentos. Sim, apesar de muita coisa que depõe em contrário, a Kakânia talvez ainda fosse um país para gênios; e provavelmente foi isso que a arruinou.
Robert Musil, in O homem sem qualidade