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09/11/2025

Teimosia

Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.
O que sustenta meu corpo
são as minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.
Se me proibirem de andar sobra a água,
nado sobre a terra.

Sérgio Vaz, em Flores da Batalha

07/11/2025

Flores de Alvenaria

Dá-me tua mão, amor
a madrugada tem olhos que machucam
e as ruas estão cobertas de pequenas estrelas
anunciando que o passado sombrio
caminha contra a liberdade do futuro.
A neblina tem olhos que delatam
e noites sem pão nem flores
querem de novo sentar à nossa mesa
já tão farta de antigas dores.
Corpos negros sangram nas calçadas
e enquanto o asfalto trama o fim da paz,
o sangue dos famintos escorre surdo
no rap triste e nas filas dos hospitais.
No calendário os dias marcham com velhas botinas
é inverno em plena primavera, e o outono não tem fim
deixando marcas profundas em nossos corações
que sonharam ser orquídea com a mesma força do capim.
Não te larga de mim, amor
entre cegos e tiranos modernos,
entre rosas e espinhos
de mãos dadas tenho força pra caminhar.
O vento sopra os fantasmas para as praças
o ódio com gás é servido nas mesas dos bares
os lobos clamam a carne da desgraça,
e sorrir já não é permitido em nossos lares.
Chama teu amigo, amor
a irmã do teu irmão
a amiga do teu amigo
do prédios altos às flores de alvenaria
chama todo mundo
seja lá quem for.
Eles não sabem que de tanto sangrar
nessa pele dura de mãos calejadas
escorre vinho em nossas veias
e se servem na taça que a vida está por um triz.
Cantemos em nossa festa:
bora lutar,
bora ser feliz.

Sérgio Vaz, em Flores de Alvenaria 

09/09/2025

Resistência

Resistir ao lado das pessoas
que a gente gosta,
deixa a luta mais suave,
a gente não quebra, entorta.

As lágrimas ficam filtradas,
o suor mais doce
e o sangue mais quente.

E sem que a gente percebe, percebendo,
as coisas começam a mudar à nossa volta.

E aquele sonho que parecia impossível,
acaba virando festa,
enquanto a gente revolta.

Sérgio Vaz, em Flores de Alvenaria

06/01/2025

O milagre da poesia

Sou poeta
e como poeta posso ser engenheiro,
e como engenheiro
posso construir pontes com versos
para que pessoas possam passar sobre rios
ou apenas servir de abrigo aos indigentes.

Sou poeta
e como poeta posso ser médico,
e como médico
posso fazer transplantes de coração
para que pessoas amem novamente
ou simplesmente receitar poemas
para tristezas com alergias
e alegrias sem satisfação.

Sou poeta
e como poeta posso ser operário,
e como operário
posso acordar antes do sol e dar corda no dia,
e quando a noite chegar, serena e calma,
descansar a ferramenta do corpo
no consolo da família –
autopeças de minha alma.

Sou poeta
e como poeta posso ser assassino,
e como assassino posso esfaquear os tiranos
com o aço das minhas palavras
e disparar versos de grosso calibre
na cabeça da multidão
sem me preocupar com padre, juiz ou prisão.

Sou poeta
e como poeta posso ser Jesus,
e como Jesus
posso descrucificar-me
e sem os pregos nas mãos e os fanáticos nos pés
andar livremente sobre terra e mar
recitando poesia em vez de sermão.
Onde não tiver milagres,
ensinar o pão.
Onde faltar a palavra,
repartir a ação.

Sérgio Vaz, em Colecionador de pedras 

30/12/2024

Um sonho

Ontem
eu sonhei o teu sonho.
Sonhei que os soldados,
cantando e dançando,
libertando-se de todo mal,
surgiam de todos os lugares
para velar o funeral
de todo arsenal
das ogivas nucleares.
No sonho,
os homens não eram escravos
nem de si, nem dos outros,
tampouco das cores,
pois o dinheiro
havia sido morto
no combate com o amor.
As crianças,
cravo e canela,
dançavam com as flores,
como não tinham fome
caçavam estrelas
e quando cansadas
tornavam­-se nelas!
Sonhei
que as mulheres e os homens
não tinham coisas, mas sentimentos,
e em sinal de alegria,
plantavam suas orações
não de mãos espalmadas,
mas de braços dados
com o milagre do dia.
E Deus – todo pequeno gesto de amor –
não frequentava igrejas,
livros ou estátuas,
apenas corações…

Ontem,
sonhei o teu sonho
sem saber que também era o meu.

Sérgio Vaz, em Colecionador de pedras 

08/08/2024

A vida é loka

Imagem do Facebook de Sérgio Vaz

Esses dias tinha um moleque na quebrada
com uma arma de quase 400 páginas na mão.
Umas mina cheirando prosa, uns acendendo poesia.
Um cara sem nike no pé indo para o trampo com
o zóio vermelho de tanto ler no ônibus.
Uns tiozinho e umas tiazinha no sarau enchendo a cara de poemas.
Depois saíram vomitando versos na calçada.
O tráfico de informação não para,
uns estão saindo algemado aos diplomas
depois de experimentarem umas pílulas de sabedoria.
As famílias, coniventes, estão em êxtase.
Esses vidas mansas estão esvaziando as cadeias e
desempregando os Datenas.
A Vida não é mesmo loka?

Sergio Vaz, em Flores de Alvenaria

19/03/2022

Teimosia

Não adianta
quebrarem minhas pernas,
furar meus olhos
ou falar pelas costas.
O que sustenta meu corpo
são as minhas ideias.
Braços descruzados,
tenho um cérebro com asas
e sou todo coração.
Se me proibirem de andar sobre a água,
nado sobre a terra.

Sérgio Vaz

27/06/2013

Rindo

Sabia que de vez em quando eu fico rindo sem saber por quê.
Deve ser riso represado.
Rir é da hora.
Sérgio Vaz