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19/05/2026

Curto Prazo Final



Quando lhe mostraram um epigrama de uma linha e meia, Nicolas de Chamfort (1741-94), mestre da brevidade mordaz, comentou que ele demonstraria mais espírito se fosse mais curto. O epigrama, o aforismo, a máxima são o haicai do pensamento. Procuram condensar a percepção mais aguçada no menor número possível de palavras. Quase por definição, e mesmo quando se prende estritamente a uma prosa coloquial, o aforismo está próximo da poesia. Sua economia formal pretende surpreender num clarão de autoridade; pretende ser singularmente memorável, como um poema. De fato, máximas ou apotegmas famosos oscilam frequentemente entre a grande poesia ou drama e o anonimato do provérbio. Por um instante, não conseguimos lembrar a fonte pessoal e exata. Quem nos ensinou pela primeira vez que “a discrição é a melhor parte da coragem” ou que “Deus dá o frio conforme o cobertor”? Em que texto encontramos o dito, que ajudou a deflagrar uma revolução inteira na história da forma e da percepção, de que “a natureza imita a arte”? Essas sintéticas revelações de Shakespeare, Laurence Sterne e Oscar Wilde passaram para a glória da linguagem comum.
Na literatura francesa, o aforismático e o epigramático têm um papel excepcional. A composição de pensées, formuladas com a máxima brevidade possível, é uma tradição tipicamente gaulesa. Em Pascal — e isso é uma proeza rara em qualquer língua ou literatura — a estratégia aforismática se estende aos campos mais complexos e sublimes da teologia e da metafísica. Em Paul Valéry, ela permite uma elegância soberbamente concisa a uma longa meditação sobre a natureza da poesia e das artes. As máximas de La Rochefoucauld, de Vauvenargues, de Chamfort são com grande probabilidade as mais eloquentes da tradição ocidental. Um poeta contemporâneo, René Char, anulou deliberadamente a distinção entre a sententia (termo latino para o dito ou proposição de uma frase só) e o poema curto. Em seus melhores momentos, Char, como Valéry, enuncia um instante musical do pensamento.
Por que essa predileção francesa pelo aforismo? (Em alemão, o estilo aforismático de Lichtenberg e de Nietzsche é claramente devedor do precedente francês.) Uma das respostas reside numa orgulhosa latinidade explícita. A literatura e o pensamento franceses se orgulham de suas afinidades com a fonte romana. Os costumes romanos, tanto na esfera do poder político quanto na do discurso, atribuíam valor eminente à concisão. A brevidade era não só a alma do espírito, mas também uma convenção de controle e autocontrole viril mesmo sob extrema pressão de perigos pessoais ou cívicos. O costume francês das máximas e pensées parece em boa parte remontar diretamente à concisão lapidar e à autoridade pétrea das inscrições romanas. “Ci gît Gide”, “aqui jaz Gide”, foi a recomendação de André Gide para seu epitáfio. É da herança latina que a língua francesa extrai seu ideal de la litote. Em inglês, “understatement” é uma tradução claudicante. A litotes, como vemos constantemente no maior escritor francês, Racine, é a expressão densa, cerrada, de alguma enormidade fundamental nas emoções e reconhecimentos humanos. Em seus traços mais característicos, ela é aquela torrente de silêncio que dizem os pilotos existir no olho de um furacão.
Como afirmei, a tradição francesa abarca no terreno aforismático áreas tão diversas como religião e estética, psicologia e política. Mas o foco predominante é o dos moralistes. Aqui também a tradução é falha. Um moraliste, especialmente na forma como floresceu nos séculos XVII e XVIII, aplica valores e princípios universais a problemas de conduta social. Ele observa com agudeza, ele “disseca” as convenções mundanas à luz implícita da eternidade. O verdadeiro moraliste moraliza apenas de maneira indireta, isolando laconicamente, dando formulação monumental a algum gesto, rito ou lugar-comum efêmero, mas sintomático, da sociedade de sua época. O gênio de La Rochefoucauld ou de Vauvenargues consiste na exata riqueza da conduta humana observada que sustenta a escassez, a aparente generalidade de suas anotações. Por trás da serena observação de La Rochefoucauld, radical como nenhuma outra nos anais da percepção, de que há algo que não nos desagrada nos infortúnios de um bom amigo, encontra-se não só o fulgor de um escrutínio individual, mas o conhecimento prático dos modos da corte e do beau monde tão amplo quanto o de Saint-Simon ou de Proust.
Tendo emigrado de Bucareste para Paris às vésperas da Segunda Guerra Mundial, E. M. Cioran criou para si, nos últimos quarenta anos, uma fama esotérica mas incontestada de ensaísta e aforista do desespero histórico-cultural. Drawn and Quartered [Arrastados e esquartejados] (Seaver Books, 1983) é a tradução de um texto publicado em francês como Ecartèlement [Esquartejamento], em 1971. As máximas e reflexões que constituem o principal de Drawn and Quartered são precedidas por um prólogo apocalíptico. Olhando os imigrantes, os híbridos, os destroços soltos de humanidade que agora flutuam por nossas cidades anônimas, Cioran conclui que agora é de fato — como proclamou Cyril Connolly — o “horário de fechamento nos jardins do Ocidente”. Somos Roma em seu declínio febril e macabro: “Tendo governado dois hemisférios, o Ocidente agora se torna seu alvo de risadas: espectros sutis, final da linha em sentido literal, condenados à condição de párias, de escravos trôpegos e balofos, condição à qual talvez escapem os russos, estes últimos brancos”. Mas a dinâmica da inevitável degradação vai muito além da situação específica do hemisfério ocidental capitalista e tecnológico. É a própria história que degringola:

Em todo caso, é evidente que o homem deu o melhor de si e que, mesmo se fôssemos presenciar o surgimento de outras civilizações, certamente não valeriam as antigas, nem mesmo as modernas, sem contar que não poderiam evitar o contágio do fim, que se tornou uma espécie de obrigação e programa para nós. Da pré-história até nós, e de nós à pós-história, esta é a rota para um fiasco gigantesco, preparado e anunciado em todos os períodos, inclusive as épocas de apogeu. Mesmo os utopistas veem o futuro como um fracasso, já que inventam um regime para escapar a qualquer espécie de devir: concebem outro tempo dentro do tempo […] algo como um inesgotável fracasso, não atravessado pela temporalidade e superior a ela. Mas a história, da qual Ahriman é o mestre, pisoteia tais divagações.

A espécie humana, entoa Cioran em sua ladainha, está começando a ficar ultrapassada. O único interesse que um moraliste e profeta do fim pode sentir pelo homem nasce do fato de ele ser “perseguido e acuado, afundando-se cada vez mais”. Se prossegue em seu caminho sórdido e fatídico, é porque lhe faltam as forças necessárias para capitular, para cometer um suicídio racional. Existe apenas uma coisa absolutamente certa em relação ao homem: “Está ferido no mais fundo de si […] está podre até a raiz”. (Vem-nos irresistivelmente à lembrança a cançoneta plangente, mas trocista, do “rotten to the core, Maude”.)
Então o que há pela frente? Cioran responde:

Avançamos en masse para um tumulto sem igual, vamos nos erguer uns contra os outros como aleijados em convulsões, como bonecos alucinados, porque, como tudo se tornou impossível e irrespirável para todos nós, ninguém se dignará a viver, exceto para liquidar e liquidar a si mesmo. O único frenesi de que ainda somos capazes é o frenesi do fim.

A soma da história é “uma vã odisseia” e é legítimo — na verdade, necessário — “imaginar se a humanidade, tal como está, não faria melhor eliminando a si mesma em vez de definhar e se afundar na expectativa, expondo-se a uma era de agonia na qual corre o risco de perder todas as ambições, até mesmo a ambição de desaparecer”. Depois de tal ruminação, Cioran se inclina numa pequena pirueta de ironia caçoando de si mesmo: “Renunciemos pois a todas as profecias, aquelas hipóteses frenéticas, não nos deixemos mais enganar pela imagem de um futuro remoto e improvável; conformemo-nos a nossas certezas, a nossos abismos indubitáveis”.
O problema com esse tipo de escrita e de pseudopensamento não é a comprovação. O século de Auschwitz e da corrida armamentista, da fome em escala mundial e da loucura totalitária realmente pode estar se precipitando para um final suicida. É concebível que a ganância humana, as enigmáticas necessidades de ódio mútuo que alimentam a política interna e externa, a tremenda complexidade dos problemas econômico-políticos possam gerar conflitos internacionais catastróficos, guerras civis calamitosas e o desmoronamento interno das sociedades, sejam as imaturas, sejam as mais velhas. Todos nós sabemos disso. E esse conhecimento é o que está sob o pensamento político sério, sob os debates filosóficos sobre a história, desde 1914-18 e o modelo de Spengler da decadência do Ocidente. E tampouco é possível negar uma sensação intuitiva, uma sugestão persuasiva de que há uma espécie de esgotamento nervoso, de entropia nas fontes interiores da cultura ocidental. Parece que somos governados por anões e charlatães mais ou menos mentirosos. Nossas respostas às crises mostram certo automatismo de sonâmbulos. Nossas artes e letras são provavelmente epigônicas. Em si, o sermão fúnebre de Cioran (que já foi proferido por muitos outros antes dele) pode se revelar correto. Na verdade, meu próprio instinto não aponta para direções muito mais animadoras.
Não, as objeções a serem levantadas são de dupla ordem. As passagens citadas demonstram um excesso de simplificação maciça e brutal. O teor dos assuntos humanos é e sempre foi tragicômico. Daí a importância central de Shakespeare, com sua recusa das trevas absolutas. Fortinbrás, como ser, é menor do que Hamlet; muito provavelmente, governará melhor. Birnam Wood reflorirá depois que avançar sobre Dunsinane. A história e a vida das políticas e das sociedades são variegadas demais para ser subsumidas a qualquer padrão único grandiloquente. As bestialidades de nossos tempos, seu potencial de autodestruição, são evidentes por si sós; mas igualmente evidente é o puro e simples fato de que nunca na história deste planeta foi tão grande a quantidade de pessoas que começam a ter moradia, alimentação e tratamento médico adequado. Nossas políticas se regem pelo assassinato em massa, é verdade, mas é a primeira vez na história social documentada que se começa a expressar e praticar a ideia de que a espécie humana tem responsabilidades positivas concretas em relação aos deficientes e aos doentes mentais, em relação aos animais e ao meio ambiente. Tenho escrito bastante sobre o veneno que é o nacionalismo atual, sobre o vírus da fúria étnica e regional que leva os homens a massacrar seus vizinhos e a reduzir suas próprias comunidades a cinzas (no Oriente Médio, na África, na América Central, na Índia). No entanto, estão começando a surgir contracorrentes sutis, mas poderosas. Empresas e organizações multinacionais, a comunidade de interesses das ciências naturais e aplicadas, as culturas da juventude, a revolução na disseminação da informação, as artes populares estão gerando oportunidades e imperativos de coexistência totalmente novos. Estão eliminando as fronteiras. As chances continuam pequenas; mas pode ser que, com o tempo, venham a reduzir o cenário do Armagedão. Seria arrogância e presunção decretar de outra maneira. Colocando em termos anedóticos, lembro um seminário dado por C. S. Lewis. Sabendo da profunda nostalgia de Lewis pelo que chamava de “imagem unitária” do cosmo durante a Idade Média e o início do Renascimento, sabendo do desagrado de Lewis pelas vulgaridades e indistinções morais do espírito do século xx, um estudante de pós-graduação se pôs a desfiar louvores aos tempos de outrora. Lewis ouviu por alguns instantes, com a cabeçorra enfiada entre as mãos. Então se virou ríspido para o expositor e exclamou: “Pare com essa bobagem fácil! Feche os olhos e concentre sua alma sensível no que seria exatamente sua vida antes do clorofórmio!”.
A palavra-chave aqui é “fácil”. Há em toda a lamentação de Cioran uma facilidade sinistra. Não se requer nenhum pensamento analítico sólido, nenhum conhecimento ou clareza argumentativa para pontificar sobre a “podridão”, a “gangrena” do homem, o câncer terminal da história. As páginas de onde extraí as citações não só são fáceis de escrever, como deleitam o escritor com o tenebroso incenso do oracular. Basta ver a obra de Tocqueville, de Henry Adams ou de Schopenhauer para sentir a drástica diferença. Estes são mestres de uma tristeza clarividente não menos ampla do que a de Cioran. Suas leituras da história não são mais róseas. Mas o que apresentam é meticulosamente argumentado, não declamado; suas posições são moldadas, em cada conexão e cada articulação do que é proposto, por um justo senso da complexidade e ambiguidade dos fatos históricos. As dúvidas que esses pensadores manifestam, as ressalvas que fazem a suas próprias certezas, honram o leitor. Pedem não a anuência indiferente ou o eco complacente, mas o reexame e a crítica. A pergunta que se mantém é a seguinte: as convicções apocalípticas, a náusea e o pessimismo mortal de Cioran são percepções originais e radicais? Os pensées, os aforismos e máximas que constituem seu título à fama pertencem realmente à linhagem de Pascal, de La Rochefoucauld ou de seu modelo mais próximo, Nietzsche?
Drawn and Quartered traz muitos aforismos sobre a morte. Esse é um tema sempre caro aos aforistas pois, de fato, existe muito a se dizer sobre a morte? “A morte é um estado de perfeição, o único ao alcance de um mortal” (o ponto implícito é um trocadilho fraco e batido com o sentido de “perfeição” em latim)*. “Não existe ninguém cuja morte não desejei em algum momento” (ecoando La Rochefoucauld). “Morte, que desonra! De repente virar um objeto” — a que se segue a asserção absolutamente inconvincente de que “nada nos faz modestos, nem mesmo a visão de um cadáver”. O tom se eleva a um macabro chique: “O que está isento do funéreo é necessariamente vulgar”. E a portentosa asneira atinge o clímax com “A morte é a coisa mais sólida que a vida inventou até agora”.
Experimentemos outro tópico, a atividade de escrever e pensar. “Um livro deve abrir velhas chagas, e até infligir novas. Um livro deve ser um perigo.” Isso mesmo — e Franz Kafka já o disse muito tempo atrás, quase nos mesmos termos. “Escreve-se não porque se tem alguma coisa a dizer, mas porque se quer dizer alguma coisa.” Correto. “Existir é plágio.” Pista espirituosa e sugestiva. “Quando sabemos o que valem as palavras, o surpreendente é que tentemos dizer alguma coisa, e consigamos. Isso requer, de fato, uma coragem sobrenatural.” Verdade; e já professada com muita frequência e autoridade irrefutável por Kafka, Karl Kraus, Wittgenstein e Beckett. “Os únicos pensadores profundos são os que não têm senso de ridículo.” Cf. Rousseau e Nietzsche, que chegaram à mesma descoberta, mas com uma força circunstancial muito maior. (A essa objeção Cioran poderia responder: “Não invento nada, sou apenas o secretário de minhas sensações”.) “Um autor que diz escrever para a posteridade deve ser ruim. Nunca devemos saber para quem escrevemos.” A advertência pode ser irrepreensível; mas basta pensar um instante em Horácio, Ovídio, Dante, Shakespeare ou Stendhal e logo se revela sua superficialidade.
Cioran é o autor de um ensaio interessante sobre De Maistre, o grande pensador da contrarrevolução e do pessimismo antidemocrático. Vários aforismos — e estão entre os mais substanciais — apontam para essa propensão na política soturna do próprio Cioran: “Nunca esqueçam que as plebes prantearam Nero”. “Todas essas pessoas na rua me fazem pensar em gorilas exaustos, todas elas cansadas de imitar o homem!” “A base da sociedade, de qualquer sociedade, é um certo orgulho na obediência. Quando esse orgulho deixa de existir, a sociedade se desmorona.” “Quem fala a linguagem da Utopia me é mais estranho do que um réptil de outra era geológica.” “Torquemada era sincero, portanto inflexível, desumano. Os papas corruptos eram caridosos, como todos os que podem ser comprados.” Até acredito que o elitismo estoico de Cioran, seu repúdio do progresso à l’américaine, traz mais verdade em si do que a maioria dos modismos atuais do liberalismo ecumênico. Mas aqui não se acrescenta nada de muito novo ou interessante à defesa do obscurantismo que temos em De Maistre, em Nietzsche ou na política visionária de Dostoiévski. O aforismo sobre Torquemada, por exemplo, com seu frisson de moda, sai diretamente do poderoso tratado de De Maistre em favor do carrasco.
Os aforismos mais reveladores são aqueles nos quais Cioran atesta sua própria esterilidade e cansaço: “Todas as minhas ideias se resumem a desconfortos reduzidos a generalidades”; “Só me sinto ativo, competente, capaz de fazer algo positivo quando me deito e me entrego a divagações sem objeto nem finalidade”. Há um páthos de lucidez em Cioran quando ele confessa que lhe seria mais fácil fundar um império do que formar uma família, e sente-se uma força persuasiva imediata em seu comentário de que apenas quem não teve filhos duvidaria do pecado original. Instintivamente acreditamos e refletimos na proposição: “Não luto contra o mundo, luto contra uma força maior, contra meu cansaço do mundo”. Como diz uma máxima britânica, um pouco de tédio faz bem. Só que 180 páginas, culminando na (ridícula) exclamação “O homem é inaceitável”, nos deixam um tanto recalcitrantes.
O problema pode estar no dito de Cioran segundo o qual nos aforismos, como nos poemas, o que reina é a palavra sozinha. Talvez isso seja verdade em relação a alguns tipos de poesia, sobretudo a lírica. Não é verdade em relação aos grandes aforistas, para os quais a sententia é soberana, e soberana justamente porque traz à mente do leitor toda uma riqueza interiorizada e recôndita de antecedentes históricos, sociais, filosóficos. O mais belo texto aforismático das últimas décadas, Minima moralia, de Theodor W. Adorno, transborda com a autoridade de uma autêntica taquigrafia, de um roteiro cuja concisão se retraduz, obriga a se retraduzir, numa psicologia e sociologia completa da consciência histórica atenta. Qualquer comparação honesta com Drawn and Quartered é demolidora. Sem dúvida existem exemplos melhores da obra de Cioran, sobretudo antes que seus textos se reduzissem a meras repetições de si mesmos. Porém uma coletânea dessa ordem, fielmente traduzida por Richard Howard, de fato nos faz perguntar não se o rei está nu, mas se afinal há algum rei.
16 de abril de 1984

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

07/10/2019

O non-sense do vir-a-ser

Na tranquilidade da contemplação, quando pesa sobre você o peso da eternidade, quando você escuta o tic-tac de um relógio ou a batida dos segundos, como não sentir a inutilidade da progressão no tempo e o non-sense do vir-a-ser? Para quê ir mais longe, para quê continuar? A revelação súbita do tempo, conferindo-lhe uma esmagadora proeminência que não tem nada de ordinária, é o fruto de um desgosto com a vida, com a incapacidade de continuar a conduzir a mesma comédia. Quando esta revelação se produz de noite, o absurdo das horas que passam dobra-se numa sensação de solidão aniquilante, pois - à parte do mundo e dos homens - você encontra-se só face ao tempo, numa irredutível relação de dualidade. No seio do abandono noturno, o tempo não é mais, com efeito, enfeitado com atos nem objetos: ele evoca um nada crescente, um vazio em plena dilatação, comparável a uma ameaça do além. No silêncio da contemplação ressoa então um som lúgubre e insistente, como um gongo que dissociou existência e tempo: fugindo da primeira, eis que ele acabou esmagado pelo segundo. E ele sente o avanço do tempo como o avanço da morte.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

01/10/2019

A arte da duplicação

A arte de ser psicólogo não se aprende - vive-se e experimenta-se, pois não se pode encontrar nenhuma teoria que forneça a chave dos mistérios psíquicos. Ninguém é um bom psicólogo se não for ele mesmo um objeto de estudo, se sua substância psíquica não oferecer constantemente um espetáculo inédito e complexo próprio a suscitar a curiosidade. Não pode penetrar o mistério do outro aquele que está desprovido do próprio. Para ser psicólogo, deve-se conhecer suficientemente a tristeza para compreender a alegria e ter refinamento o bastante para poder se tornar um bárbaro; precisa-se de um desespero profundo o bastante para que não mais se distinga a vida no deserto da vida nas chamas. Proteiforme, tão centrípeto quanto centrífugo, o êxtase deverá ser estético, sexual, religioso e perverso.
O senso psicológico é a expressão de uma vida que se contempla a cada instante e que, nas outras vidas, vê espelhos; enquanto psicólogo, enxerga-se os outros homens como fragmentos do seu próprio ser. O desprezo que todo psicólogo sente pelo outro envolve uma auto-ironia tão secreta quanto ilimitada. Ninguém faz psicologia por amor: mas antes por uma vontade sádica de exibir a nulidade do outro, tomando consciência do seu fundo íntimo, desprovendo-lhe da sua aura de mistério. Este processo exaurindo rapidamente os conteúdos limitados dos indivíduos, o psicólogo cansar-se-á brevemente dos homens: falta-lhe inocência demais para que tenha amigos e inconsciência para ter amantes. Nenhum psicólogo começa pelo ceticismo, mas todos chegam a ele. Este fim constitui o castigo da natureza ao profanador de mistérios, ao supremo indiscreto que, tendo fundado ainda poucas ilusões sobre o conhecimento, conhecerá a desilusão.
O conhecimento em pequenas doses encanta; em grandes doses, decepciona. Quanto mais se sabe, menos se quer saber. Pois aquele que não sofreu do conhecimento não terá conhecido nada.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

22/09/2019

Face ao silêncio

Chegar a não apreciar nada mais do que o silêncio - isto é realizar a expressão essencial do fato de viver à margem da vida. Nos grandes solitários e nos fundadores de religiões, o elogio do silêncio tem raízes muito mais profundas do que se imagina. Para isto é preciso que a presença dos homens já tenha exasperado, que a complexidade dos problemas tenha repugnado a tal ponto, que nada mais tem interesse, à exceção do silêncio e dos gritos.
A lassitude conduz a um amor ilimitado do silêncio, pois ela priva as palavras de seu significado para fazer delas sonoridades vazias; os conceitos diluem-se, o poder das expressões atenua-se, toda palavra dita ou escutada afasta-se, estéril. Tudo o que vai ao exterior, ou que vem dele, permanece um murmúrio monocórdio e longínquo, incapaz de despertar o interesse ou a curiosidade. Parece então inútil dar um parecer, tomar uma posição ou impressionar alguém; os ruídos antes renunciados juntam-se ao tormento da alma. No momento da solução suprema, depois de ter empregado uma louca energia para resolver todos os problemas e afrontado a vertigem dos cumes, encontra-se no silêncio a única realidade, a única forma de expressão.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

06/09/2019

Capitulação

O processo pelo qual nos tornamos desiludidos? Um indivíduo dotado de elan consegue viver um grande número de depressões a cada instante. Uma fatalidade orgânica provoca depressões permanentes sem determinantes exteriores, mas que emergem de uma profunda perturbação interna; estas sufocam o elan, atacam as raízes da vida. Dizer que alguém se torna desiludido em razão de alguma deficiência orgânica ou de instintos empobrecidos é totalmente errôneo. Na realidade, somente perde suas ilusões aquele que desejou a vida com ardor, ainda que inconscientemente. O processo de desvitalização não tarda, vindo logo após as depressões. Somente junto a um indivíduo cheio de elan, de aspirações e paixões, que as depressões atingem esta capacidade de erosão, que circunda a vida como ondas a terra firme. Junto ao simples deficiente, elas não produzem nenhuma tensão, nenhum paroxismo ou excesso; elas conduzem a um estado de apatia, de lenta extinção. O pessimista apresenta um paradoxo orgânico, cujas contradições insuperáveis engendram uma profunda efervescência. Não há, com efeito, um paradoxo nesta mistura de depressões repetidas e de persistente elan? Que as depressões acabam por consumir o elan e comprometer sua vitalidade, isto vai de si. Ninguém poderia combatê-las definitivamente: pode-se, no máximo, substituí-las temporariamente por uma ocupação ou distração. Apenas uma vitalidade inquieta é suscetível de favorecer o paradoxo orgânico da negação. Somente é possível tornar-se pessimista - um pessimista demoníaco, elemental, bestial e orgânico - uma vez que a vida tenha perdido sua batalha desesperada contra as depressões. O destino aparece então à consciência como uma versão do irreparável.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

28/08/2019

Inconsistência do homem

Por que os homens teimam tanto em realizar alguma coisa? Não estariam eles muito melhor imóveis sob o céu, numa calma serena? O que se há, então, de fazer? Por que tantos esforços e ambições? O homem perdeu o sentido do silêncio. Ainda que a consciência seja o fruto de uma deficiência vital, ela não opera em cada indivíduo como fator de inadaptação; em alguns, ela engendra, ao contrário, um aumento das inclinações vitais. Não podendo mais viver no presente, o homem acumula um excedente que lhe pesa e escraviza; o sentimento do porvir é para ele uma calamidade. O processo segundo o qual a consciência dividiu os homens em duas grandes categorias é dos mais estranhos. Ele explica por que o homem é um ser tão pouco consistente, incapaz de encontrar seu centro de energia e equilíbrio. Aqueles cuja consciência levou à interiorização, ao suplício e à tragédia, assim como aqueles que ela lançou no imperialismo ilimitado do desejo de adquirir e possuir são, cada um à sua maneira, infelizes e desequilibrados. A consciência fez do animal um homem e do homem um demônio, mas ela ainda não transformou ninguém em Deus, ainda que o mundo orgulhe-se de ter despachado um numa cruz.
Evitem os indivíduos impermeáveis ao vício, pois sua presença insípida somente sabe chatear. Sobre o quê vocês conversariam senão sobre moral? Quem não ultrapassou a moral não pôde aprofundar nenhuma experiência, nem transfigurar os seus colapsos. A verdadeira existência começa onde a moral acaba, pois somente a partir deste ponto ela pode tentar tudo, e tudo arriscar, ainda que obstáculos oponham-se às suas conquistas reais. Precisa-se de infinitas transfigurações para atingir a região em que tudo é permitido, onde a alma pode lançar-se sem remorsos na vulgaridade, no sublime ou no grotesco, até alcançar uma tal complexidade que nenhuma direção ou forma de vida escapam ao seu alcance. A tirania que reina sobre as existências ordinárias deixa lugar à espontaneidade absoluta de uma existência única que traz em si a sua própria lei. Como a moral ainda valeria para um ser assim formado - o mais generoso possível, absurdo a ponto de lhe fazer renunciar ao mundo, oferecendo tudo o que possui? A generosidade é incompatível com a moral, esta racionalidade dos hábitos da consciência, esta mecanização da vida. Todo ato generoso é insensato, testemunha de uma renúncia impensável para o homem ordinário, que se envolve na moral para esconder sua vulgar nulidade. Tudo o que é realmente moral somente começa uma vez que a moral tenha sido evacuada. A mesquinharia de suas normas racionais não se mostra em nenhum lugar com mais evidência do que na condenação do vício - esta expressão do trágico carnal proveniente da presença do espírito na carne. Pois o vício implica sempre um surto da carne para além da sua fatalidade, uma tentativa de romper as barreiras que aprisionam os elans passionais. Um tédio orgânico leva então os nervos e a carne a um desespero do qual eles somente podem escapar tentando todas as formas possíveis da volúpia. No vício, o atrativo de outras formas, que não as normais, produz uma inquietude perturbadora: o espírito parece então transformar-se em sangue, para se mover como uma força imanente à carne. A exploração do possível não pode ser realizada, com efeito, sem o concurso do espírito nem a intervenção da consciência. O vício é uma forma de triunfo do individual; enquanto isto, como a carne poderia representar o individual sem um apoio exterior? Esta mistura de carne e de espírito, de consciência e de sangue, cria uma efervescência extremamente fecunda para o indivíduo refém dos charmes do vício. Nada repugna mais do que o vício aprendido, tomado de outrem e incorporado; também o elogio ao vício é completamente injustificado: além do mais, pode-se constatar a fecundidade para aqueles que sabem transfigurá-lo, desviar o próprio desvio. Para vivê-lo de maneira bruta e vulgar, explora-se apenas sua escandalosa materialidade, negligencia-se o frisson imaterial que faz sua excelência. Para atingir certas alturas, a vida íntima não pode dispensar-se das inquietudes do vício. E nenhum viciado há de ser condenado uma vez que, ao invés de considerar o vício como um pretexto, ele o transforma em finalidade.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

11/08/2019

Prestidigitações da beleza

A sensibilidade à beleza é tanto mais viva quanto maior for a proximidade da felicidade. Tudo encontra no Belo a sua própria razão de ser, seu equilíbrio interno e sua justificação. Concebe-se um belo objeto somente como ele é. A beleza de um quadro ou de uma paisagem encantar-nos-ão ao ponto de não podermos, contemplando-os, representá-los perante nós de forma diversa da que eles já nos aparecem. Colocar o mundo sob o signo da beleza equivale a afirmar que ele é exatamente como deveria ser. Numa tal visão, tudo não passa de esplendor e harmonia e os aspectos negativos da existência apenas acentuam seu charme e brilho. A beleza não salvará o mundo, mas ela pode aproximar-nos da felicidade. Num mundo de antinomias, pode ela mesmo, acaso, ser salva? O Belo - e eis o seu atrativo e sua natureza particular - somente constitui um paradoxo de um ponto de vista objetivo. O fenômeno estético expressa este prodígio: representar o absoluto pela forma, objetivar o infinito por meio de figuras finitas. O absoluto-na-forma - incarnado numa expressão finita - apenas pode aparecer àquele que foi invadido pela emoção estética; mas de qualquer outra perspectiva, que não a do Belo, ele torna-se uma contradictio in adjecto. Todo ideal de beleza comporta assim uma quantidade de ilusão impossível de avaliar. E ainda mais grave: o postulado fundamental deste ideal, segundo o qual este mundo é tal como deveria ser, não resiste à mais elemental das análises. O mundo deveria ser qualquer outra coisa, menos o que ele é.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

27/07/2019

As fontes do mal

Como combater a infelicidade? Combatendo nós mesmos: compreendendo que a fonte do mal encontra-se em nós. Se pudéssemos nos dar conta a cada instante de que tudo é função de uma imagem refletida em nossa consciência, de amplificações subjetivas e da acuidade de nossa sensibilidade, nós alcançaríamos o estado de lucidez em que a realidade retoma suas verdadeiras proporções. Não reivindico aqui a alegria, mas um grau menor de infelicidade.
É um sinal de resistência permanecer firme no desespero, bem como o é de deficiência cair na imbecilidade após uma infelicidade prolongada. Precisa-se, para diminuir a sua intensidade, de uma verdadeira educação e de um grande esforço interior. Apesar disso, todo o esforço está fadado ao fracasso se seu objetivo for atingir a felicidade. O que quer que se faça, somente há de ser feliz aquele que escolher a via da infelicidade. Pode-se passar da alegria à tristeza, mas este é um caminho sem volta. Isto significa dizer que a felicidade pode reservar surpresas muito mais dolorosas do que as que reserva a sua contraparte. Aquela faz com que consideremos perfeito o mundo tal como se apresenta; esta nos faz desejar que ele seja, antes de tudo, diferente do que é. E, ainda que tenhamos consciência de que a infelicidade encontre em nós mesmos a sua origem, nós transformamos fatalmente um defeito subjetivo em deficiência metafísica.
A infelicidade nunca será suficientemente generosa para reconhecer suas próprias trevas e as improváveis luzes do mundo. Tomando nossa miséria subjetiva por um mal objetivo, cremos poder alegar nosso fardo e dispensar-nos das censuras que nos deveríamos fazer. Na realidade, esta objetivação acentua nossa infelicidade, e, apresentando-a como uma fatalidade cósmica, interdita-nos todo o poder de diminuí-la ou de torná-la mais suportável.
A disciplina da infelicidade reduz as inquietudes e as surpresas dolorosas, atenua o suplício e controla o sofrimento. Acontece aí uma dissimulação do drama interior, uma discrição da agonia.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

21/07/2019

O que importa!

Tudo é possível e nada o é; tanto tudo é permitido quanto nada. Qualquer que seja a direção escolhida, ela não será melhor do que as outras. Percebam algo ou absolutamente nada, creiam ou não, tudo isto é igual, bem como dá no mesmo gritar ou se calar. Pode-se encontrar uma justificativa para tudo, bem como nenhuma. Tudo é ao mesmo tempo real e irreal, lógico e absurdo, glorioso e insípido. Nada vale mais do que nada, da mesma forma que nenhuma ideia é melhor do que outra. Por que entristecer-se com a tristeza ou alegrar-se com a alegria? Que importa que nossas lágrimas sejam de prazer ou de dor? Amem a infelicidade e detestem a alegria, misturem tudo, confundam tudo! Sejam como um floco de neve levado pelo vento ou como uma flor embalada nas ondas. Resistam quando não se deve e sejam covardes quando se deve resistir. Quem sabe - vocês ganharão talvez. E, de toda forma, o que importa se perderem? Existe alguma coisa a ganhar ou a perder no mundo? Todo ganho é uma perda, assim como toda perda é um ganho. Por que esperar sempre uma atitude clara, ideias precisas e palavras sensatas? Eu sinto que deveria cuspir fogo a título de resposta para todas as questões que me foram - ou não foram - feitas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

16/07/2019

O amor em resumo

O amor da humanidade, quando nasce do sofrimento, é como a sabedoria vinda do infortúnio. Nos dois casos, as raízes são podres e a fonte contaminada. Só um amor espontâneo proveniente de uma abnegação sincera e de um elan irresistível pode fecundar a alma dos outros. O amor que vem do sofrimento traz lágrimas e suspiros demais para que seus raios não sejam banhados por uma amarga claridade. Ele contém tanta renúncia, tormento e inquietude que não pode significar outra coisa que não um imenso retiro. Ele perdoa tudo, admite tudo e tudo justifica; é isto ainda amor? Como pode amar aquele que se sente desvinculado de tudo? Este tipo de amor revela o vazio de uma alma pega entre o nada e o tudo, da mesma forma que, para um coração quebrado, o donjuanismo permanece o único recurso. Quanto ao cristianismo, ele ignora o amor: ele conhece apenas a indulgência, que é mais uma alusão ao amor do que amor propriamente dito.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

07/07/2019

Subjetivismo

O excesso de subjetivismo somente pode conduzir aqueles que não têm fé à megalomania ou à autodifamação. Quando lançamo-nos sobre nós mesmos, chegamos necessariamente a nos amar ou a nos odiar de maneira desmesurada. E, num ou noutro caso, esgotamo-nos antes do tempo. O subjetivismo torna-nos Deus ou Satã.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

28/06/2019

A verdade impossível

Quando pode começar nossa felicidade? Assim que nós tivermos conquistado a certeza de que a verdade não pode existir. Todas as modalidades de salvação são possíveis à partir disto, mesmo a salvação pelo nada. Àquele que não crê na impossibilidade da verdade, ou que não se alegra com ela, resta apenas uma via de salvação - uma via que ele jamais encontrará!
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

24/06/2019

O animal indireto

Todos os homens têm o mesmo defeito: esperar pela vida, devido à falta de coragem para viver cada segundo. Por que não implementar a todo instante paixão e ardor bastantes para criar uma eternidade? Todos nós aprendemos a viver apenas no momento em que não temos nada mais a esperar; enquanto esperamos, não podemos aprender nada, pois não habitamos um presente concreto e vivo, mas um porvir longínquo e insípido. Não deveríamos esperar por nada, à exceção das sugestões imediatas do instante; esperar por nada sem a consciência do tempo. Fora do imediato não há salvação. Pois o homem é uma criatura que perdeu o imediato. Assim sendo, ele é um animal indireto.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

18/06/2019

O princípio satânico do sofrimento

Se existem homens felizes nesta terra, por que eles não gritam, por que eles não descem para as ruas a fim de proclamar sua alegria? Por que tanta discrição, tanta reserva? Se eu sentisse em mim uma alegria permanente, uma irresistível propensão à serenidade, eu faria com que todos os homens conhecessem-na, eu daria vazão a toda esta euforia.
Se a felicidade existe, devemos comunicá-la. Mas talvez os indivíduos verdadeiramente felizes não tenham consciência disto. Se assim for, nós poderíamos oferecer-lhes uma parte da nossa consciência em troca de uma parte da inconsciência deles. Por que a dor tem somente lágrimas e gritos, enquanto o prazer apenas frissons? Se o homem tomasse tanto consciência do prazer quanto da dor, ele não teria que compensar suas alegrias. A repartição das dores e dos prazeres não seria incomparavelmente mais justa?
Se as dores não se deixam esquecer, é porque elas invadem desmesuradamente a consciência. Assim, aqueles que têm muito a esquecer não são outros senão os mesmos que muito sofreram. Somente as pessoas normais não têm nada a esquecer.
Enquanto as dores têm um peso e uma individualidade, os prazeres desfazem-se e fundem como formas de contornos mal definidos. Evocar um prazer e suas circunstâncias é, com efeito, extremamente difícil para nós, pois mesmo a sua mais tênue lembrança vem reforçar a das dores. Certamente, os prazeres não são esquecidos por completo - de uma vida de prazeres, guardar-se-á apenas uma leve desilusão, enquanto o homem que muito sofreu chega, na melhor das hipóteses, a uma resignação amarga.
É um vergonhoso preconceito afirmar tanto que os prazeres são egoístas e apartam o homem da vida, quanto pretender que as dores prendem-nos ao mundo. A frivolidade destes preconceitos revolta e sua origem livresca revela a nulidade de todas as bibliotecas aos olhos de uma experiência vivida até o fim.
A concepção cristã que faz do sofrimento um caminho para o amor, senão sua principal porta de acesso, é fundamentalmente errônea. Mas seria este o único campo em que o cristianismo engana-se? Fazendo do sofrimento o caminho para o amor, ignora-se toda a sua essência satânica. Os degraus do sofrimento não se elevam - eles descem; eles não conduzem ao céu, mas ao inferno.
O sofrimento separa, dissocia; força centrífuga, ele nos desliga do nó da vida, do centro de atração do mundo, lugar em que todas as coisas tendem à unidade. O princípio divino caracteriza-se por um esforço de síntese e de participação na essência do todo. De maneira contrária, um princípio satânico habita o sofrimento - produzindo desarticulação e trágica dualidade.
As diversas formas de alegria fazem-nos participar inocentemente do ritmo da vida; nós o fazemos, ainda que de maneira inconsciente, em contato com o dinamismo da existência, cada uma das nossas fibras ligada às pulsações irracionais do Todo. Isto vale não somente para a alegria espiritual, mas também para todas as formas de prazer.
O distanciamento do mundo, responsável pelo sofrimento, conduz a uma interiorização excessiva e, paradoxalmente, aumenta o grau de consciência - tanto que o mundo inteiro, com seus esplendores e trevas, torna-se exterior e transcendente. Neste ponto de separação, assim que, irremediavelmente só, tem-se o mundo diante de si, como poder-se-ia esquecer o que quer que seja? Sente-se então a necessidade de esquecer somente as experiências que fizeram sofrer. Ou, devido a um paradoxo dos mais impiedosos, desaparecem as lembranças daqueles que gostariam de se lembrar, enquanto fixam-se as reminiscências dos que gostariam de tudo esquecer.
Os homens dividem-se em duas categorias: aqueles a quem o mundo oferece ocasiões de interiorização e aqueles para quem ele permanece exterior e objetivo. Para a interiorização, a existência objetiva não é nada mais do que um pretexto . Assim, somente ela pode tomar uma significação, pois uma teleologia objetiva funda-se e justifica-se em meio a certas ilusões, que têm por defeito o fato de que um olhar penetrante pode desmascará-las facilmente. Todos os homens veem fogos, tempestades, desmoronamentos ou paisagens; mas quantos veem chamas, relâmpagos, vertigens ou harmonias? Quantos, vendo um incêndio, pensam na graça e na morte? Quantos trazem em si uma beleza longínqua que tinge sua melancolia? Para os indiferentes, a quem a natureza não oferece nada além de uma imagem insossa e glacial, a vida é, ainda que ela os preencha, uma soma de ocasiões perdidas.
Independentemente de quão profundos tenham sido meus tormentos, ou de quão grande tenha sido minha solidão, a distância que me separou do mundo somente fez com que este se tornasse mais acessível para mim. Ainda que eu não possa encontrar-lhe nem sentido objetivo, nem finalidade transcendente, a multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento. Conheci momentos em que a beleza de uma flor justificou a meus olhos a ideia de uma finalidade universal, assim como a menor das nuvens soube clarear momentaneamente minha visão sombria das coisas. Os fanáticos da interiorização são capazes de extrair, do aspecto mais insignificante da natureza, uma revelação simbólica.
É possível que eu arraste atrás de mim tudo aquilo que nunca vi? Assusto-me com a ideia de que tantas paisagens, livros, horrores e visões sublimes possam ter se concentrado num pobre cérebro. Tenho a impressão de que eles se transpuseram em mim como realidades e de que eles pesam em meus ombros. Eis, talvez, o motivo para que eu me sinta às vezes oprimido até o ponto de querer tudo esquecer. A interiorização conduz ao colapso, pois o mundo penetra-nos e mói-nos com uma força irresistível. O que há de surpreendente, assim sendo, que as pessoas tentem recorrer a qualquer coisa - desde à vulgaridade até à arte - com o único fim de tudo esquecer?

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Eu não tenho ideias - mas obsessões. Ideias, todos podem tê-las. Mas ideias nunca provocaram o colapso do que quer que seja.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

14/06/2019

O sentido do derradeiro

Sei falar apenas de alegrias e tristezas derradeiras. Adoro somente o que se revela sem reserva, sem compromisso ou reticência. Acaso podemos encontrar isto fora das tensões e convulsões supremas, da loucura do fim, da embriaguez e excitação dos últimos momentos? Tudo isto não é derradeiro? O que é então a ansiedade do nada senão a alegria perversa das últimas tristezas, o amor exaltado da eternidade do vazio e do provisório da existência? Esta existência seria para nós somente um exilo e o vazio uma pátria?
Devo combater-me, voltar-me contra o meu destino, destruir todos os obstáculos à minha transfiguração. Somente deve subsistir meu desejo extremo de trevas e de luz. Que cada um dos meus passos seja um triunfo ou um colapso, um surto ou um fracasso. Que a vida cresça e morra em mim numa alternância relampejante. Que nada do cálculo mesquinho nem da visão racional das existências ordinárias venha comprometer as volúpias e os suplícios do meu caos, as trágicas delícias das minhas alegrias e desesperos derradeiros.
Sobreviver às tensões orgânicas e aos estados de alma dos confins, eis um signo de imbecilidade - não de resistência. Para quê serve um retorno à insipidez da existência? Não é somente após a experiência do nada que a sobrevida aparece-me como um non-sense, mas também após o paroxismo da volúpia. Eu jamais entenderei por que ninguém se suicida em pleno orgasmo ou por que a sobrevida não lhe parece insípida e vulgar. Este frisson tão intenso, ainda que bastante breve, deveria consumir nosso ser numa fração de segundo. Ou ainda, uma vez que ele não nos mata, por que nós mesmos não nos matamos? Existem tantas formas de morrer... Ninguém teve, entretanto, coragem bastante - ou originalidade - para escolher um fim que, sem ser menos radical do que os outros, teria a vantagem de nos lançar no nada em pleno regozijo. Por que evitar tais vias? Uma mera fagulha de assustadora lucidez seria o suficiente, no auge do inevitável desmaio, para que a morte, nestes momentos, não aparecesse mais como ilusão.
Se os homens chegassem um dia a não mais suportar a monotonia ou a vulgaridade da existência, toda experiência extrema tornar-se-ia um motivo para o suicídio. A impossibilidade de sobreviver a uma exaltação excepcional esvaziará a existência. Ninguém mais surpreender-se-á que se possa questionar sobre a possibilidade de continuar ou não a viver após ter escutado certas sinfonias ou contemplado uma paisagem única.
A tragédia do homem, animal exilado na existência, detém-se no fato de que ele não pode se satisfazer com os dados e valores da vida. Para o animal, a vida é tudo; para o homem, ela é um ponto de interrogação. Ponto de interrogação definitivo, pois o homem nunca recebeu (nem receberá) uma resposta para as suas perguntas. Não somente a vida não tem qualquer sentido, mas ela não pode ter um.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

08/06/2019

Gravidade da tristeza

Existe outra tristeza além da que vem da morte? Certamente não, uma vez que a verdadeira tristeza é negra, desprovida de charme. Ela comunica uma lassitude incomparavelmente maior que a da melancolia - uma lassitude que conduz a um desgosto para com a vida, a uma depressão irremediável. A tristeza difere da dor, pois nela predomina a reflexão, enquanto a outra submete-se à materialidade fatal das sensações. A tristeza e a dor podem conduzir à morte - jamais ao amor ou à exaltação. Os valores do Eros fazem viver sem mediação, no imediato e na necessidade secreta da vida que - vista a inocência essencial de toda experiência erótica - aparece como liberdade. Estar triste e sofrer, isto significa, ao contrário, ser incapaz de um ato organicamente associado ao fluxo da vida. A tristeza e o sofrimento revelam-nos a existência, pois nelas nós tomamos consciência de nosso isolamento; elas provocam-nos uma angústia em que se enraíza o sentimento trágico da existência.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

02/06/2019

Transfiguração da banalidade

Uma vez que eu não posso apagar-me aqui e agora, ou atingir novamente a ingenuidade, é uma loucura continuar a praticar os gestos ordinários de todos os dias. Deve-se a cada instante superar a banalidade, a fim de ter acesso à transfiguração, à expressividade absoluta. Que tristeza ver os homens passarem ao lado de si mesmos, negligenciarem seus destinos ao invés de avivar permanentemente as luzes que portam em si ou de se embriagarem nas tenebrosas profundezas! Por que não extrair da dor tudo o que ela possa oferecer ou cultivar um sorriso até a profundidade da qual ele brota? Nós todos temos mãos e, apesar disso, ninguém pensa em utilizá-las, torná-las expressivas o máximo possível. Nós admiramo-las de boa vontade em pinturas e amamos falar de seu significado, mas não sabemos fazer com que as nossas sejam intérpretes de nossos dramas interiores. Ter uma mão espectral, transparente, como um reflexo imaterial, uma mão nervosa, como que tensa pela última crispação... Ou então uma mão pesada, ameaçadora, terrível. Que a presença e o aspecto destas mãos digam mais do que uma palavra, um lamento, um sorriso ou uma oração. A expressividade total, fruto de uma transfiguração contínua, fará da nossa presença um lar de luz se nosso semblante e, de maneira geral, tudo o que nos individualiza transfigurar-se igualmente. Encontramos seres cuja mera presença significa para o outro agitação, lassitude, ou ainda, iluminação. Sua presença é fecunda e decisiva: fluida, indefinível, parece que ela nos capta num filete imaterial. Eles ignoram o vazio e a descontinuidade; conhecem somente a comunhão e a participação que produzem esta transfiguração permanente cujos cumes são tanto vertigens quanto volúpias.

***

Sinto uma estranha ansiedade que se insinua em todo o meu corpo; seria acaso medo do futuro de minha problemática existência, ou antes, perturbação provocada por minha própria inquietude? Poderei continuar a viver com tais obsessões? O que experimento é vida ou algum sonho tolo? Parece-me que surge em mim a grotesca fantasia de um demônio. Não é, acaso, minha ansiedade uma flor brotando no jardim de uma criatura apocalíptica? O demonismo deste mundo parece estar concentrado inteiramente em minha inquietude - mistura de pesares, visões crepusculares, tristezas e irrealidades. E ele não me faz derramar nenhuma fragrância primaveril no universo, mas a fumaça e a poeira de um desabamento total.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

27/05/2019

O culto ao infinito

Não posso falar do infinito sem sentir uma dupla vertigem, interior e exterior - como se, deixando uma existência ordenada, eu me lançasse num redemoinho, movendo-me na imensidão à velocidade do pensamento. Este trajeto tende a um ponto eterno inacessível. Quanto mais se foge para esta incalculável distância, mais a vertigem parece intensa. Seus meandros, sempre estranhos à destreza da graça, desenham contornos tão complicados quanto aos das chamas cósmicas. Tudo não passa de choque e trepidação; o mundo inteiro parece agitar-se numa louca cadência, como se às vésperas do apocalipse. Não há sentimento profundo do infinito sem esta sensação estranha, vertiginosa, da iminência do Fim. O infinito dá, paradoxalmente, tanto a sensação de um fim acessível, quanto a certeza de não se poder aproximar dele. Pois o infinito - no espaço e no tempo - não conduz a nada. Como poderíamos alcançar o que quer que seja no futuro, enquanto temos atrás de nós uma eternidade de fracassos? Se o mundo tivesse sentido, nós receberíamos, no mesmo instante, a revelação. Mas o mundo não tem sentido; irracional em sua essência, ele é, além disso, infinito. O sentido só pode ser concebido, com efeito, num mundo finito, no qual se pode alcançar alguma coisa; um mundo que não tolera o retrocesso, um mundo de referências certas e bem definidas, um mundo assimilável a uma história convergente, tal como quer a teoria do progresso. O infinito não conduz a lugar nenhum, pois tudo nele é provisório e caduco; nada é suficiente para o ilimitado. Ninguém pode provar o infinito sem uma perturbação profunda e única. Como não ficar perturbado, com efeito, se todas as direções se equivalem?
O infinito enfraquece qualquer tentativa de resolver o problema do sentido. Esta impossibilidade concede-me uma volúpia demoníaca e regozijo-me mesmo da ausência de sentido. Para quê ele serviria em definitivo? Não podemos verdadeiramente viver sem ele? O non-sense não se perfaz na embriaguez do irracional, numa orgia ininterrupta? Vivamos, então, já que o mundo é desprovido de sentido! Enquanto não temos nenhum objetivo preciso, nenhum ideal acessível, lancemo-nos sem reservas na terrível vertigem do infinito, sigamos seus meandros no espaço, consumamo-nos em suas chamas, amemo-lo por sua loucura cósmica e sua total anarquia! Esta que faz parte da experiência do infinito - uma anarquia orgânica e irremediável. Não se pode representar a anarquia cósmica quem já não traz em si os germes dela. Viver a infinitude, bem como refleti-la longamente, é receber a mais terrível das lições de revolta. O infinito desorganiza-nos e atormenta - ele compromete as fundações do nosso ser, mas também nos faz negligenciar tudo o que é insignificante, contingente.
Que alívio poder, tendo perdido toda esperança, lançar-se no infinito, mergulhar com todas as forças no ilimitado, participar da anarquia universal e das tensões desta vertigem! Percorrer, como que levado numa corrida extenuante, toda a demência de um movimento ininterrupto, consumir-se no mais dramático elan, pensando menos na morte do que na sua própria loucura, realizar plenamente um sonho de barbárie universal e de exaltação sem limites!
Que ao fim desta vertigem nossa queda não seja uma extinção progressiva, mas que nós continuemos esta frenética agonia no caos do turbilhão inicial. Possa o páthos do infinito abrasar-nos outra vez na solidão da morte, a fim de que nossa passagem para o nada pareça uma iluminação, amplificando ainda o mistério e a falta de sentido deste mundo! Na surpreendente complexidade do infinito, reencontramos, como elemento constitutivo, a negação categórica da forma, de um plano determinado. Processo absoluto, o infinito anula tudo o que é consistente, cristalizado, concluído. A arte que melhor expressa o infinito, afinal, não é a música?, que funde as formas numa fluidez de charme inefável? A forma tende incessantemente a cristalizar o menor fragmento, a eliminar a perspectiva do infinito e do universal; as formas somente existem para subtrair do caos e da anarquia os conteúdos da vida. Toda visão profunda revela a que ponto tal consistência é ilusória aos olhos da vertigem do ilimitado, pois, para além das cristalizações efêmeras, a realidade aparece como uma intensa pulsação. O gosto das formas resulta de um abandono a tudo o que é findo e às seduções inconsistentes da limitação, que distanciam para sempre as revelações metafísicas. Com efeito, assim como a música, a metafísica surge da experiência do infinito. Tanto uma quanto a outra prosperam nas alturas e são portadoras de vertigens. Nunca pude entender que os responsáveis por criar obras capitais em seus domínios não fossem loucos. Ainda mais que todas as artes, a música exige uma tensão tão grande que se deveria, depois de tais momentos, cair num entorpecimento. Se o mundo obedecesse a uma coerência imanente e necessária, os grandes compositores deveriam, no ápice de sua arte, suicidar-se ou perder a razão. Todos aqueles fascinados pelo infinito não se encontram, acaso, na trilha do delírio? Nós temos apenas que fazer a normalidade ou a anormalidade. Vivamos no êxtase do ilimitado, amemos tudo o que não conhece fronteiras, destruamos as formas e criemos o único culto que pode isentar-se: o culto ao infinito.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

23/05/2019

A deserção do Cristo

Não admiro os profetas, bem como os fanáticos religiosos, que nunca duvidaram de sua missão ou de sua fé. Eu meço o valor dos profetas de acordo com sua capacidade de duvidar, com a frequência de seus momentos de lucidez. Ainda que somente a dúvida lhes torne verdadeiramente humanos, ela é, neles, mais perturbadora do que nos outros homens. O resto não passa de intransigência, sermão, moral e pedagogia. Eles pretendem instruir aos outros, conceder-lhes salvação, revelar-lhes a via da verdade e mudar seu destino, como se suas certezas valessem mais do que as de seus discípulos. O critério da dúvida só permite distinguir os profetas dos maníacos. Entretanto, quando eles duvidam, não é acaso um pouco tarde? Aquele que se sabia filho de Deus somente duvidou nos últimos instantes: pois o Cristo hesitou verdadeiramente apenas uma vez, não na montanha, mas preso na cruz. Estou persuadido de que Jesus então invejou o destino do mais anônimo dos homens e que, se pudera, ele teria se retirado para o canto mais obscuro da terra, onde ninguém mais poderia exigir-lhe esperança ou redenção. Pode-se imaginar que, deixado sozinho com os soldados romanos, ele lhes tenha implorado para retirar os pregos e descê-lo, a fim de poder fugir para longe, onde o eco dos sofrimentos humanos não mais o atingiria. Não que o Cristo tenha subitamente cessado de acreditar em sua missão - ele sustentava muito de iluminado para se tornar cético -, mas é muito mais difícil morrer pelos outros do que por si mesmo. Jesus suportou a crucificação, consciente de que somente o sacrifício de si faria sua mensagem triunfar.
Assim são os homens: para que eles acreditem em nós, devemos renunciar a tudo o que nos pertence, e depois a nós mesmos. Eles exigem nossa morte como garantia da autenticidade de nossa fé. Mas por que eles admiram as obras escritas com sangue? Porque esta distancia-lhes do sofrimento, ou ainda, concede-lhes uma ilusão. Eles querem encontrar sangue e lágrimas atrás de nossos ditos. A admiração do povo é feita de sadismo.
Se Jesus não tivesse sido morto na cruz, o cristianismo jamais poderia ter triunfado. Os mortais duvidam de tudo - à exceção da morte. A do Cristo constituiu, então, a seus olhos, a suprema certeza, a prova-mestra da validez dos princípios cristãos. Jesus poderia ter facilmente escapado da crucificação, ou sucumbido às sedutoras tentações do diabo. Quem não pactua com o diabo não tem nenhuma razão para viver, pois ele exprime simbolicamente a vida melhor do que o próprio Deus. Se eu lamento algo, é que o diabo tenha tão pouco me tentado... Mas Deus também não se preocupou particularmente comigo. Os cristãos nunca entenderam que Deus está mais longe dos homens do que eles mesmos estão de Deus. Imagino perfeitamente um Deus exasperado pela trivialidade da sua Criação, aborrecido da terra e dos céus. Vejo-o lançar-se em direção ao nada, assim como Jesus deixando sua cruz...
O que teria acontecido, então, se os soldados romanos tivessem dado ouvidos à súplica de Jesus, se eles o tivessem des-crucificado e o deixado partir? Não seria certamente para pregar sua fé que ele teria ido ao outro lado do mundo, mas para morrer sozinho, longe das lágrimas e da compaixão dos homens. Ainda que, por acaso, Jesus não tenha implorado aos soldados sua liberação, não posso deixar de pensar que esta ideia lhe tenha aflorado. Ele se cria seguramente o filho de Deus, mas isto não o impediu, uma vez confrontado pelo sacrifício, de duvidar e de temer a morte. Durante a crucificação, ele deve ter conhecido momentos em que, se ele não duvidou de ser o filho de Deus, ele ao menos lamentou sê-lo.
É bastante possível que o Cristo tenha sido na realidade um personagem bem menos complicado do que nós o imaginamos - que ele tenha tido menos dúvidas e menos pesares. Pois ele somente as teve, quanto à sua ascendência divina, no limiar da morte. Nós temos, nós humanos, tantas dúvidas e pesares que nenhum de nós poderia mais se acreditar o filho de Deus. Eu detesto em Jesus tudo o que é sermão, moral, promessa e certeza. O que eu admiro nele são seus momentos de hesitação - os instantes realmente trágicos da sua existência, que não me parecem, ainda assim, nem os mais importantes, nem os mais os mais dolorosos que se possa imaginar. Pois, se o sofrimento devia servir como critério, quantos não teriam o direito de se considerar, ainda mais do que Jesus, o filho de Deus?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

15/05/2019

Sobre a miséria

Convencido de que a miséria está intimamente ligada à existência, não posso aderir a nenhuma doutrina humanitária. Elas me parecem, em sua totalidade, igualmente ilusórias e quiméricas. O próprio silêncio me parece um grito. Os animais - que vivem de seus próprios esforços - não conhecem a miséria, pois eles ignoram a hierarquia e a exploração. Este fenômeno somente aparece junto ao homem, o único que submeteu o seu igual; e somente o homem é capaz de tanto desprezo por si.
Toda a caridade do mundo não faz nada mais do que destacar a miséria, e rendê-la ainda mais revoltante do que a angústia absoluta. Frente à miséria, assim como frente às ruínas, nós deploramos uma ausência de humanidade, nós lamentamos que os homens não mudem radicalmente o que está em seu poder de mudança. Este sentimento mistura-se ao da eternidade da miséria, de seu caráter inelutável. Mesmo sabendo que os homens poderiam suprimir a miséria, nós estamos conscientes da sua permanência e acabamos por provar uma inabitual e amarga inquietude, um estado de alma perturbado e paradoxal, no qual o homem aparece em toda a sua inconsistência e pequenez. A miséria objetiva da vida social é, com efeito, apenas o pálido reflexo de uma miséria interior. E, só de pensar nisso, perco a vontade de viver. Eu deveria lançar minha pluma para chegar a um casebre em ruínas. Um desespero mortal me toma assim que evoco a terrível miséria do homem, sua decrepitude e gangrena. Em vez de elaborar teorias e de se apaixonar pelas ideologias, este animal racional faria melhor oferecendo tudo ao outro, até sua camisa - gesto de compreensão e de comunhão. A presença da miséria aqui embaixo compromete o homem mais do que tudo e faz compreender que este animal megalomaníaco é devotado a um fim catastrófico. Frente à miséria, tenho vergonha até da existência da música. A injustiça constitui a essência da vida social. Como aderir, sabendo disso, a qualquer doutrina?
A miséria destrói tudo na vida; rende-a infecciosa, hedionda e espectral. Existe a palidez aristocrática e a palidez da miséria: a primeira vem de um refinamento, a segunda de uma mumificação. Pois a miséria faz de todos um fantasma, ela cria sombras da vida e aparições estranhas, formas crepusculares como se saídas de um incêndio cósmico. Não há o menor traço de purificação em suas convulsões; somente o ódio, o desgosto e o azedume da carne. A miséria não concebe nada mais do que a doença numa alma inocente e angelical - e sua humildade não é imaculada; ela é venenosa, cruel e vingativa, e o compromisso ao que ela conduz esconde chagas e sofrimentos aguçados.
Não quero uma revolta relativa contra a injustiça. Admito apenas a revolta eterna, pois eterna é a miséria da humanidade.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero