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27/01/2025

Dicas para um casamento duradouro

Poucos ficam indiferentes quando numa cerimônia religiosa o padre pergunta: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando até que a morte os separe?”
Os homens se entreolham. Será que consegue?
As mulheres torcem.
As céticas abaixam a cabeça.
Parentes das duas famílias miram o altar, encaram os noivos, esperam a resposta zelando pelo seu.
Já houve caso de pessoas que tiveram ataque de risos diante do padre. No entanto, não se sabe se algum noivo pediu: “Defina ser fiel.”
E se a noiva respondeu: “Cala a boca, seu canalha, você sabe muito bem do que ele está falando.”
Ou se houve a réplica: “Tudo bem. Ser fiel na alegria e na tristeza. E no tédio, o que fazer?”
E a tréplica: “Esqueci de contar, amor, sabia que papai me deu de presente um AK-47 e farta munição, que ele ganhou graças a serviços prestados para as FARC?”

Há muito se discute se é possível manter um casamento seguindo os preceitos (ou a utopia) da fidelidade. Homens e mulheres se dizem incapazes de seguir o sermão à risca. Cada parte encontra justificativas darwinistas.
Dizem eles: a seleção natural contesta a fidelidade, já que o macho precisa espalhar seu sêmen pelo maior número de fêmeas, para garantir na reprodução a sobrevivência da espécie.
Dizem elas: a fêmea fica na moita, observa o comportamento dos machos e escolhe aquele mais forte, para aprimorar o gene do grupo, e se aparece outro mais forte, viril e galã da novela, ela tem que mudar de parceiro.
Bem, você está cansado de ouvir este papo furado. Mas foi no início da revolução sexual que se começou a elaborar os princípios do casamento aberto. Aquele em que não é preciso pular a cerca, basta atravessá-la calmamente, já que está escancarada.
A ideia foi amadurecendo, muitas verdades do casamento passaram a ser questionadas e novas fórmulas apresentadas, como as casas de swing e o ménage à trois.
Aponte uma mulher que não ouviu do marido após o ato: “Não me leve a mal, eu te amo, você é linda, mas… E se você chamar uma amiguinha para nos assistir? Nem vou encostar nela. Juro. Só para apimentar a nossa relação…”
O casal de filósofos franceses, Sartre e Simone de Beauvoir, é reconhecido como o primeiro a propagar que não havia trancas nem fechaduras nem arames no seu matrimônio.
Bem, alguns acreditam que Simone descobriu só depois do porre e do sim que Sartre não era exatamente um modelo de exuberância física, além de caolho, e teria proposto a novidade.
Outros afirmam que eles precisavam de estímulos externos, já que o sexo entre dois existencialistas nunca se completa. Um costuma parar no meio do ato e perguntar: “Mas se a essência vem antes da existência, nós não existimos, e nada faz sentido?” E ficam aterrorizados pela dúvida até alguém pegar no sono.

Imagine que um casal consiga enfim chegar a um consenso e estabelecer uma rotina madura em um saudável e bem resolvido casamento aberto. O diálogo entre eles causaria estranheza para quem vê de fora. Mas não internamente:
“Gato, vou jantar com o Mário. Sem piadinhas.”
“De novo?”
“Não. Será a primeira vez.”
“Na semana passada, você jantou com Mário, até dormiu com ele.”
“Aquele foi o Rômulo.”
“Que Rômulo, eu conheço?”
“Você ficou com a mulher dele no nosso réveillon da Costa do Sauípe.”
“Belas costas… Antes ou depois da meia-noite?”
“Antes. Depois você ficou comigo.”
“É mesmo… Que farra. Rasguei o seu vestido a dentadas.”
“Não, deve ter sido com a mulher do Rômulo.”
“Tem certeza?”
“Eu já estava pelada, não se lembra?”
“Por quê?”
“Porque vi os fogos no mar com o Arnaldo.”
“Arnaldo?”
“Cuja mulher você papou no Carnaval de Porto de Galinhas.”
“Galinha… Claro, como era o nome dela?”
“Você acha que eu devo ir pra cama hoje?”
“Com quem?”
“Com o Mário. Sem piadas. É nosso primeiro encontro. Se eu ficar com ele já no primeiro encontro, ele pode me achar uma vadia. Tem homem que gosta de charminho.”
“Se ele te chamar de vadia, eu processo ele.”
“Fico ou não fico?”
“Fica logo. A vida é uma só.”
“Estou gata?”
“Está linda.”
“Ele vai me achar atraente?”
“Se não achar, liga para o Rômulo.”
“Mas a calcinha está marcando?”
“Está uma delícia.”
“Com lenço ou sem?”
“Sem.”
“Com sutiã ou sem?”
“Sem.”
“Com batom ou sem?”
“Amor…”
“Que foi?”
“Sei lá, está me dando uma coisa agora…”
“Ciúme?! Ah, gato, nem vem! A gente combinou.”
“Não, isso não. É que você está tão linda sem batom, sutiã, lenço, com a calcinha marcando que…”
“Que…?”
“Que me deu uma vontade de… Nada não. Vai jantar com o Mário. Melhor dar logo. Tem também os caras que detestam mulheres enroladas.”
“Tem certeza? Se quiser…”
“Precisamos disso para manter a chama do nosso casamento.”
“Te amo tanto…”
“Olha, você já estava esquecendo a camisinha.”

Marcelo Rubens Paiva, em As verdades que ela não diz 

17/12/2023

Hora da sobremesa

Estou ainda em Marabá, participando da IV Feira de Livros. Tiram fotos. Costumo ser muito simpático em fotos. Repetem as fotos. Quando repetem, já não estou tão simpático. Meus leitores vão embora. Olho o relógio. Tenho ainda meia hora.
De volta à solidão, ela vem devagar, passos candentes, aproxima-se, e não pede autógrafo, fotos, nada. Entra sem ser convidada, a conhecida depressão. Abaixo a cabeça e tenho vontade de queimar tudo, de ter um ataque fulminante, de virar a mesa, gritar: “Para que serve esta merda toda, a tal literatura?! Vão embora!” Escreve-se para quem? Para alguém. Mas escreve-se para alguém ou para um só? Sempre me perguntam: “Você, quando escreve, pensa no público?” Não sei responder. Não sei por que escrevo. E daí que escrevo, grande coisa. Ninguém pergunta: “Você faz este macarrão pensando no seu público?” Escrevi, e minha vida mudou? Pari, e nasceu o quê? Por que gastar anos, suor, para isso?
Alguém me chama. Levanto a cabeça. Um repórter de rádio. Visto o disfarce, guardo a depressão no bolso e sorrio. “Marcelo, você me fez perder um jantar.” Jantar?! Será que o conheço e o deixei esperando em algum restaurante? Dei algum cano nele? Ante as minhas dúvidas, ele logo esclarece: “Fiquei lendo o seu livro e o jantar queimou.” Ah, um leitor estilo íntimo. Ri bem efusivamente para ser simpático. Ah, ah, ah... Que gracinha. Aponta para o livro Feliz Ano Velho e diz: “Assisti ao seriado.” Seriado?! Que seriado?! Virou filme, peça, camiseta, audiobook, bóton, anúncio de computador. Mas seriado?! Minha vida não vale tanto.
Me pergunto por que comecei a escrever, por que publiquei um livro e por que não fiquei quieto, no meu canto. Passo a invejar Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, que não dá entrevistas, não se deixa ser fotografado e mora numa montanha, aposentado, depois de ter escrito quatro livros. Passa o dia cortando lenha e nunca mais escreveu.
Leitores invasores; querem me retalhar! Consumam, consumam, consumam. “Vai ficar até quando?” “Você é de São Paulo?” “Te vi na televisão.” “Você, você, você, me dá um autógrafo, me dá uma foto, me dá um sorriso, me dá!”
Vou-me embora com a minha tiete dessas horas: a depressão. Recito o meu mantra preferido: “Eu vou parar, um dia paro, eu vou parar...”

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

02/12/2023

Amazônia, tucunarés e literatura

Costumo aceitar qualquer tipo de convite para participar de uma feira de livro de uma cidade da Amazônia. No início, ia por curiosidade e por uma neurótica obsessão de querer conhecer tudo e todos. Já passei por Paraopeba, Carajás, Altamira, São Félix do Xingu, Tucuruí, entre outras. Cheguei a escrever para a Folha, há mais de dois anos, sobre o encontro dos índios de Altamira, na condição de um suposto “especialista”. Lógico que tantas viagens acabaram resultando num livro: Ua:brari.
Sou doente pela Amazônia. Consumidor voraz de tucunarés, filhotes, cupuaçus etc. É o cenário ideal para grandes épicos. Extremo, o povo mais primitivo das Américas convive com as rotas dos vícios modernos: da cocaína aos computadores. A natureza luta em pé de igualdade com o homem. Ganhou das empreiteiras, erodindo a Transamazônica e a Perimetral Norte. Perdeu feio dos garimpeiros e dos projetos das mineradoras. Uma pena que a mídia brasileira tenha transformado o tema em suco. A floresta merecia mais respeito. Paciência.
Quando chegou o convite para participar da IV Feira de Livros de Marabá, nem hesitei. Fui correndo, mesmo ciente de que nove pessoas ouviram falar de mim nesse fim de mundo, e que dessas nove, seis, no máximo, leram meus livros; por vezes, tenho este ataque de humildade e vou ao encontro de leitores que não me conhecem, o que sugere meu fracasso profissional.
Sentei-me numa mesa, rodeado de livros, disposto a autografar minha “vasta obra”, mesmo sabendo que ninguém apareceria. Mentira. Meus seis leitores estavam a postos, me esperando no galpão da feira. Dei os autógrafos lentamente, para que os visitantes vissem a fila e se interessassem. Torci para que meus leitores não desaparecessem. Puxei assunto. Contei piadas. Inúteis. Assim que eu assinava, sumiam. Não demorou muito, fiquei jogado no canto, a sós, cercado pela minha “obra”. Muitos pensavam que eu fazia parte da organização ou que eu pertencia ao balcão de informações. Me perguntavam onde era o banheiro, onde estava exposto o livro do “fulano de tal”. Eu apontava para um lugar qualquer: “É lá!” Outros me perguntavam o preço do livro do “sicrano de tal”. Eu respondia qualquer preço. Já houve uma época em que eu me dedicava às complexas leis do mercado literário e, como um bom vendedor, respondia: “Não sei onde está o livro do ‘fulano’, mas sei onde está o do grande escritor Marcelo Paiva.” “Ele é bom?”, me perguntavam. “Lógico.” E fazia uma centena de elogios literários ao dito autor, analisando o foco narrativo, personagens esféricos etc. Hoje, não tenho mais saco para esse tipo de coisa; talvez por isso, empobreço vertiginosamente.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

21/11/2023

Às vezes o melhor é ficar no alambrado

Eu estudei num colégio que incentivava a competição. Mensalmente, as notas de todos os alunos eram afixadas num mural, tornando público o fracasso de cada um. Faziam-se comparações. Elogiavam-se os mais fortes, desprezavam-se os fracos.
Uma vez por ano, os alunos competiam numa espécie de Olimpíada esportiva, que reservava medalhinhas para os bons. Nunca as ganhei. Até que tentei. Mas percebi que meu lugar era no alambrado, aplaudindo. Lógico que isso me frustrava; o sucesso com as mulheres era diretamente proporcional ao número de medalhas conquistadas.
Como escritor, ganhei meus primeiros prêmios. Alguns, merecidos. Outros, exagero de quem me premiou. Recentemente fui convidado para entregar um prêmio aos alunos escritores da USP. Alguma coisa mudou. De premiado, passei a premiar; envelheço, caro teen. Li, em voz alta, na solenidade de entrega, a saga de um premiado.
Primeiro degrau. Um jovem escritor, incendiário, disposto a tudo, usa a intuição e escreve um livro num fôlego só, relatando com sinceridade sua desgraça. Surpreende-se com o bom resultado do livro. É premiado como autor revelação. Na entrega, diz que é o dia mais feliz da sua vida. Cita Don Leavy: “Escrever é transformar os seus piores momentos em dinheiro.”
Segundo degrau. É uma celebridade. A imprensa o procura, pedindo sua juvenil opinião a respeito dos mais variados assuntos. Está na hora de provar a que veio, se é um talento ou fruto do acaso. Escreve sobre alcoolismo. Ganha outro prêmio. Na entrega, diz que os prêmios não significam nada. E cita Gore Vidal: “Não basta ser bem-sucedido. Os outros têm que fracassar.”
Terceiro degrau. O sucesso o entedia. Passa a não receber a imprensa e a andar com poetas concretos. Escreve sobre o suicídio. É premiado. Despreza. Não vai na entrega porque diz que tem mais o que fazer. E não cita ninguém, preferindo a si mesmo.
Quarto degrau. É indicado para o prêmio mas não leva. Premiam o novo talento que surge. Ele fica um pouco preocupado.
Quinto. Não é nem indicado. Ele começa a achar que há um complô contra si.
Sexto. Cai no esquecimento. Começa a beber. Sua vida se transforma numa desgraça.
Sétimo. Após se suicidar, o prêmio passa a ter o seu nome. Na premiação, vira nome de escola pública.
Há casos em que é melhor não receber prêmios e continuar aplaudindo do alambrado.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

07/11/2023

O mundo desconhece os homens do sertão

É tão fácil enganar a mídia. Quando você ler que um artista brasileiro faz sucesso no exterior, não acredite; o boi ronca. Lá fora, somos uma massa anônima que, até há pouco tempo, se envergonhava de não poder sacar um cartão de crédito internacional. Na música, alguns fazem sucesso. Na literatura, Jorge Amado é conhecido, Márcio de Souza tem um público cativo e Machado de Assis tira o fôlego de alguns fãs; Warren Beatty é um deles. No mais... Enganei muito jornalista com três fotos que tenho abraçado a um prêmio Nobel, a um Oscar e a um Pulitzer. Hoje, confesso: pura armação.
1. Prêmio Nobel. Eu, Paulo Betti e uma atriz cubana (que eu não me lembro o nome) conversávamos amenidades latinas num parque, em Havana, quando vimos Gabriel García Márquez passar. Fomos atrás. “Gabo, espere por nós...” Nos apresentamos. Ele parou. Só parou para examinar de perto a atriz, morena charmosa que lhe deu toda a atenção.
Não me lembro de ter trocado uma palavra com o escritor colombiano. Tanto eu quanto Betti estávamos mais preocupados em registrar o fato para a posteridade, isto é, tirar uma foto. Demos a câmera para um pedestre e fizemos a pose: eu, abraçado ao Betti, abraçado ao Gabo, olhando encantado para a atriz, abraçada a ninguém. Olhando a foto, qualquer jornalista diria que sou íntimo do escritor. A atriz sim, já que foi passear com Gabo, enquanto eu e Betti corremos para revelar tal preciosidade.
2. Oscar. Eu estava numa livraria, em Roma, autografando Felice Anno Vecchio, como o nome bem diz, tradução do meu afamado livro. Devo ter dado, no máximo, cinco autógrafos, quando entrou por acaso, na livraria, Bernardo Bertolucci. Minha tradutora ficou histérica. Eu, pra falar a verdade, não o reconheci. Pobre coitado. Tirou fotos com meus cinco leitores, com o staff da editora e, lógico, comigo. Teve, ainda, de comprar um exemplar da minha obra, no qual autografei “Un abraccio”. Trocamos palavras. Me perguntou como andavam seus amigos do Cinema Novo. “Adeptos do roteiro”, respondi. Ele riu. Disse que também aderira ao roteiro, e se foi. Na foto, parecemos íntimos.
3. Pulitzer. Nem sei se Tom Wolf ganhou o Pulitzer; pelo menos mereceu. Estávamos em Frankfurt, na feira do livro. Eu, num hotel de quinta, há três meses longe de casa, sem dinheiro. Ele, no hotel de luxo. Nos encontramos no segundo, onde editores brasileiros me convidaram para um drinque. Alguém nos apresentou. Meu editor tirou a foto. Ele, um dândi. Eu, de tênis, com a roupa amassada, o terno rasgado, barba por fazer, rindo como uma besta do branco de sua roupa. “Estou lendo seu livro, não é uma coincidência?”, perguntei. Parei de rir e me lembrei que muitos, no Brasil, falam o mesmo quando me encontram, e que nunca acredito. Brasil. Tão longe; uma incógnita. “O sertão é o mundo”, mas o mundo desconhece o sertão.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

02/11/2023

Praça dos protestos vira palco de Tim Maia

1975. O jornalista Wladimir Herzog não resiste à tortura e morre nos porões do II Exército. Versão oficial: suicídio. A Igreja organiza uma missa de protesto na Catedral da Sé. Manifestações contra o regime eram proibidas. Mas como proibir uma missa? No entardecer, a polícia monta barreiras para congestionar a cidade e dificultar o acesso à catedral. A praça é cercada para intimidar os que chegam. Agentes do Dops fotografam e filmam os presentes. Havia algo no ar: protesto.
1977. Universitários organizam uma passeata no centro da cidade para pedir o fim da ditadura e a anistia aos presos políticos. Erasmo Dias ameaça: “A polícia vai agir contra esses baderneiros.” O governador Paulo Egídio, versão oficial, chama a imprensa e denuncia que os estudantes estão sendo manipulados por organizações “marxistas-leninistas”. A passeata acontece. O confronto é inevitável. Pancadaria no largo São Francisco, no viaduto do Chá e na praça da Sé. A polícia inova. Bombas de fumaça amarela, verde e vermelha. Lembram uma viagem de ácido. Havia algo no ar: rebeldia.
1984. Mais de 300 mil pessoas na praça da Sé participam de um dos primeiros comícios das “Diretas-Já”. No Jornal Nacional, versão oficial, um repórter entra ao vivo e, cínico, diz que aquelas pessoas comemoram o aniversário da cidade. Revoltada, a população passa a gritar: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!” Alguns carros da emissora são virados. Repórteres têm de esconder o logotipo da empresa. Havia algo no ar: futuro.
1991. Sábado. Vai atravessar a praça? Esconda o relógio e certifique-se de que a carteira está num lugar seguro. A polícia, agora, é aliada, fica ao seu lado. Algumas prostitutas, de 14 anos, se oferecem. Crentes pregam. Aleluia! Doentes por toda parte. Aleluia! Uma centena de desocupados. No espelho d’água, uma menina de 13 anos, moradora da praça, lava roupas. É linda, de olhos vivos. Muitos vão até ela e propõem uma rapidinha. Não. Ela tem de lavar a roupa do seu “marido”, Tim Maia, uma gorda que frita a banha no sol.
Fim da tarde. Enquanto ela borrifa a roupa com um desodorante barato, Tim Maia se levanta e decide assaltar mais um. A versão oficial pede para limpar a praça, aumentar o policiamento, proibir os marreteiros; quer, na verdade, esconder aquilo no que o país se transformou. Tentei traçar um paralelo entre a praça de antes e a de depois. Deve haver uma relação de causa e efeito. Alguma coisa deu errado. Não há nada no ar.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

15/10/2023

Vou largar tudo para tocar pandeiro no Titãs

Se por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho, se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns, amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância. Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28 anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica, frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

07/09/2023

Susan


Não existe prazo de validade. Ninguém sabe ao certo quando começa e por quê. Pode vir acompanhado de um grande trauma ou uma decepção irrevogável.
O imbroglio simplesmente aparece e desespera alguns casais. Não há lei que o impeça.
Foram alertados na cerimônia religiosa. Sede fecundos, prolíficos, crescei, multiplicai e enchei a Terra.
“Que o marido cumpra seu dever em relação à mulher, e igualmente a mulher em relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo, mas sim o marido. Igualmente o marido não dispõe do seu corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro. Coríntios sete”, alertou o padre.
No entanto, para alguns casais, surge uma indisposição noturna: os corpos não estão dispostos, um recusa o outro. Se a exceção vira rotina, a crise se instala.
Os primeiros informados são os amigos mais próximos. Com um questionamento aparentemente banal, entre o prato e a sobremesa:
“Qual a frequência para um casamento saudável?”
Depois do café, ao pedir a conta, vem o desabafo que põe os pingos nos is:
“Nós não transamos mais.”
Os amigos sempre partem para a defesa da transparência:
“Vocês já conversaram sobre isso?”

Sim, já conversaram, se perguntaram, procuraram explicações, deram até um Google em busca da cura, estatísticas e palavras de especialistas tarimbados de revistas online.
Já conversaram sobre isso antes de dormir, depois de acordar, durante o café da manhã, o jantar, no Natal, Carnaval, Páscoa, férias.
E já tentaram fantasias óbvias, como a de se pegarem em espaços públicos e espaços alternativos — debaixo do chuveiro, na escada de emergência, dentro do carro.
Já compraram apetrechos de todos os formatos em sex shops.
Já se escravizaram, algemando o outro na cama. Já se lambuzaram de mel, de sorvete. Tentaram outras posições. Chegaram a assistir a vídeos pornôs, com o pacto de imitarem tudo aquilo que era exibido na tela.
Ambos queriam solucionar o entrave. Queriam um casamento com sexo constante. Amavam-se mais do que tudo. Não entendiam por que de repente não conseguiam se concentrar. Ou por que riam quando deviam sentir prazer.
Pensaram até em procurar o padre que os casou. Mas como um homem celibatário, que segue as palavras de Deus, daria dicas que apimentassem a relação?
Seguiram o conselho número dois dos amigos: terapia de casal.

Ele não levou a sério quando se viu na primeira sessão ao lado da mulher diante de um cara com sotaque argentino numa mesa de escritório.
Pois enquanto ela falava sem parar da relação pai e filha, ele só pensava em perguntar se realmente o psicanalista acreditava que Maradona era melhor do que Pelé, ou seria Messi o melhor de todos?
Chegou a desconfiar que o profissional ria internamente das queixas do casal, e se dizia:
“Incompetente. Se fosse jo, com esta guapa…”
Não voltaram para a segunda sessão, a que começaria a ser paga.
“Casa de swing”, aconselhou um amigo mais rodado.

Demoraram semanas para ir. Ouviram experiências alheias. De casamentos que melhoraram e de outros que acabaram depois de uma visita.
Perguntaram-se como deviam se comportar. Se seriam apenas espectadores da proposta inusitada ou se mergulhariam fundo e visitariam todos os ambientes. Juntos ou separados? E o ciúme?
Foram.
Vestiram roupão.
Esperaram na sala principal.
Observaram casais mais atirados e os contidos, como eles.
Conversaram com um gerente de banco casado com uma operadora de telemarketing, piloto e copilota de avião, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas e um síndico. O síndico do condomínio deles, que agarrou todas as mulheres, bebeu cinco uísques e os intimidou.
Foram embora quando um sushiman elogiou as pernas de sua mulher e passou a analisá-las, como se fossem a tira de um salmão cru.
Riram muito na saída. Concordaram que casa de swing é mais brochante do que trepar em quarto de motel com muito botão para ser apertado. Chegaram em casa, e cada um dormiu no seu canto da cama, como de costume.

Decidiram relaxar.
Eles se amavam.
Não se importavam com as consequências daquela abstinência que, esperavam, torciam, seria temporário. Decidiram aproveitar o tempo de sobra e frequentar cinemas de arte, exposições de vanguarda e peças de teatro em locais não convencionais.
Jogaram sinuca, dançaram dança de salão, comeram sanduíche grego, se embebedaram, se perderam em estradas de terra, participaram de cultos africanos, se benzeram e nunca foram tão felizes, apesar da falta de sexo.
Falavam sobre isso com tranquilidade.
Há no mundo de hoje uma pressão forte para uma vida sexual intensa e, por isso, vazia, concluíram. O hedonismo tira o charme de um casamento, se justificavam, o da cumplicidade sem tamanho.

E viajaram para fora. Israel, Egito, Madagascar, Tailândia. Visitaram safáris, casas de massagem, exibições de técnicas de pompoarismo, daquelas em que se expelem dardos e se furam balões.
Em Las Vegas, depois de ganharem uns trocos num cassino, entraram numa casa de peep show. O cardápio oferecido: show com aeromoça, enfermeira, colegial, sadomasoquista, dona de casa.
Escolheram o último.
Foram encaminhados a uma saleta escura.
Enfiaram uma nota de 50 dólares na máquina.
Abriu-se a cortina.
O cenário, do outro lado do espelho falso, era uma cozinha simples.
Apareceu Susan, uma loirinha que parecia figurante de Baywatch. Que, animadinha, começou a cozinhar e a rebolar. A tirar a roupa e se esfregar em colheres de pau, pepinos e cenouras, se lambuzar com azeite e vinagre.
Até parar.
Estranhou o silêncio dos pagantes.
Olhou pela fresta do espelho.
E viu um casal se amando loucamente. Como se não se encostassem há anos. Como se o mundo fosse acabar em segundos. Foi Susan quem assistiu e se excitou, sem pagar.

Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

28/08/2023

Joelhos


Sexta-feira, fim de tarde. Campinas. Eu e Mauro costumávamos pegar o ônibus das seis. Passar o fim de semana em São Paulo: rever famílias, amigos, a cidade. Estudávamos na Unicamp, mas voltávamos em todos os finais de semana.
Sentamos.
Ele na janela, eu no corredor.
Ambos com cara de estudante, jeans surrados, cabelos longos, livros, apostilas, barbas malfeitas, abertos para experiências e ainda com crenças em utopias.
O ônibus estava para partir, quando ela entrou com o seu acompanhante bem mais velho, chapéu de vaqueiro, mal-encarado. Seria um posseiro ou um matador. Nela, um vestido de linho, cabelos bem tratados, morenos, escorridos. Pele bem cuidada.
Nossos olhares se uniram.
Sentaram na fileira detrás.
Não sei quem na janela, quem no corredor. E eu não tinha nenhum motivo para me virar e checar. Somente uma apostila para estudar.
Na estrada, bancos arriados, luzes apagadas, silêncio. Só eu lia. Já no primeiro pedágio a vista cansou. Dobrei a apostila. Apaguei a luz. Me acomodei melhor. Estiquei as pernas. Deitei as costas. Descansei os braços, deslizando o cotovelo pelo apoio do corredor, num movimento involuntário.
Quando senti a frieza da pele do joelho do passageiro de trás no meu cotovelo. Um esbarrão. Uma passageira. O dela.
Num ato instintivo, ela o retirou num susto, e corrigi a postura, o braço, para não invadir o espaço alheio.
Mas minha pele não se esquecia da dela. Queria conferir novamente a sua textura, temperatura, forma. Eu não podia, nem devia. Porém, todos dormiam ao redor.
O escuro do ônibus era eventualmente cortado por faróis de carros que vinham na direção contrária. Apenas o teto se iluminava. Eventualmente.
Escorreguei desta vez voluntariamente o meu braço para trás. Meu cotovelo invadiu a área destinada às pernas da passageira do banco traseiro. Deixei-o lá, solto no ar. Não era uma posição incômoda. Combinava com a postura de quem busca o descanso. Ofereci.
E o não virou sim.
Ela encostou de leve o seu joelho nele.
Senti novamente a temperatura, a textura. Não a forma. Pois encostou e tirou. Não bruscamente. Deu um cutucão simpático.
Deixei o cotovelo à espera de outra provocação.
Que veio.
Encostou e tirou. Encostou com mais força e tirou com menor rapidez. Um jogo?
Seu joelho se divertia com o meu cotovelo. Não brincava. Seduzia. Namorava. Sua pele também queria conhecer a minha textura e temperatura.
Ia e voltava. Esfregava e parava.
Eu precisava rever o seu rosto. Que desculpa inventar para me virar de repente? E se o seu acompanhante, posseiro ou assassino, de poucos amigos, estivesse acordado? E se outros passageiros notassem e me denunciassem?
Poderia pedir fogo. Naquela época, fumava-se em ônibus, e estávamos na fileira de fumantes. Mas Mauro fumou no caminho antes de escurecer. Saberiam que naquela fileira tinha fogo.
E tinha.
Poderia perguntar as horas. Mas teria antes que esconder, sem ninguém perceber, o meu relógio de pulso. Uma caneta?
Sim, um estudante, cuja tinta da caneta acabara, que se lembrou de um pensamento, com o balanço do ônibus e a escuridão dos elementos que desconcentram, que precisava ser anotado com urgência na apostila.
É, uma caneta.
Para um universitário, fundamental como uma arma para um soldado.
Ainda sentado, virei apenas a cabeça. Olhei o corredor vazio, os passageiros apagados. Olhei para o seu rosto. Ela sorriu ao me ver. Uma dúzia de malícias nos seus olhos. Não descobri se seu acompanhante, fora do campo de visão, dormia. Ela, há-há… Bem acordada, brilho no olhar.
“Você tem uma caneta para me emprestar?”
Nem se surpreendeu com a pergunta.
Provavelmente, esperava que eu me virasse e tomasse uma atitude, apenas para que nos víssemos e checássemos se estávamos bem alertas e conscientemente nos tocando através de um joelho desnudo e um cotovelo invasor.
“Hum-hum”, ela respondeu negativamente e sorriu, como se soubesse que eu não precisava de caneta.
Ainda grudei meus olhos nos seus por dois segundos, aqueles dois segundos que são mais significativos do que muitos séculos.
Voltei para a minha posição. Recoloquei o meu cotovelo no vazio do espaço das pernas de trás. E ela, nada. Nada. Nada. Até encostar o seu joelho nele e, desta vez, não tirar.
Escorreguei mais o braço, e agora era a pele do meu antebraço que roçava seu joelho, que passou a me apertar, acariciar.
Ela se acomodou, se largou, agora era a perna que se encostava em todo o meu braço. Eu o movia com movimentos circulares sutis, ainda apoiado no encosto, e ela esfregava sua perna nele, apoiava, pressionava, escorria.
Enfim, deixei cair meu braço para trás.
Ela abriu as pernas e o pressionou com os joelhos com força, como se o escondesse entre eles e o quisesse só para si. Minhas mãos passearam pela batata de sua perna, e ela se inclinou mais. Pele lisa, seda, linho, fria, que quando eu subia a mão, esquentava.
Estiquei o braço para trás. Ela o apertou com a força de suas pernas. Girei o braço e encaixei a minha mão dentro do seu vestido. Abandonei-a por ali, intrusa, aquecida por suas coxas.
Ela, em movimentos mínimos, a namorou.
Se consumiu.
Meus dedos passearam pela penugem rala.
Provocaram.
Tocaram.
Ela deixou.
Ela quis.
E ganhou, enquanto todos dormiam pesadamente.

Entramos na cidade. As luzes agora invadiam as janelas. Meu braço estava de volta. Cheirei a minha mão.
Rodoviária da Barra Funda. Todos despertos. Portas abertas. Deixei ela e o acompanhante passarem, e fui atrás com o amigo. Descemos do ônibus nos olhando discretamente.
Na fila do táxi, eles exatamente na nossa frente. Nos namoramos secretamente, sorrindo e em pânico. Algo indicava que nunca mais nos veríamos. Vi desta vez: seus joelhos eram os mais lindos de todos.
Seu acompanhante entrou no táxi primeiro. Ela se virou para mim e olhou um adeus triste. Desesperado. Sem desfecho.
E se foram.
Não comentei nada com Mauro, com quem rachei o táxi.
Pelo caminho, cheirei outras vezes a mão.
Nunca mais a vi. Por onde anda? O que será que fez da sua vida? E como estarão os seus joelhos? Desde então, concluí: são as partes mais lindas de uma mulher.

Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

12/08/2023

Separação


Atordoado.
Foi como ele ficou, porque ela saiu da sala de embarque e o cumprimentou com um beijo no rosto. Casados há sete anos. Beijo no rosto?
Que afronta.
Que falta de cuidado.
Que bandeira.
Não comentaram o assunto. Mas o olhar dela não procurou o carro, e sim o olhar dele. Portanto, é lógico que ela também se surpreendeu com a afronta, a bandeira, o gesto exageradamente burocrático.
Há uma semana viajando. Seu marido a busca no aeroporto. De surpresa. Espera na calçada. O carro em frente, o risco de ser multado. E como ela agradece? Com um beijo no rosto, seco e inaudível.
Caminharam para o carro resumindo as prioridades:
“Não esqueceu de nada?”
“Pagou o IPVA atrasado?”
“Tem bateria no seu celular?”
“Ligou para o seu pai no aniversário dele?”

Desceram a 23 de Maio em silêncio. Há nove anos eles se conhecerem. Há sete se casaram. Há meses eles mal se encostavam. Ela sempre dormia antes. Desde quando se conheceram, ela dormia antes. Um hábito que não levava em conta quem acordaria primeiro no dia seguinte.
Ultimamente, ele entrava no quarto, e ela já dormia de costas, com a cabeça longe.
No começo do namoro, iam para a cama com uma regularidade que irritava os amigos, quando as comparações eram trazidas à mesa.
Nas viagens para a casa alugada na praia, causava admiração constatar que os novos namorados não saíam do quarto. Nem para o pôquer com feijão.
Claro que com o casamento a frequência caiu.
Às vezes, uma semana sem transar.
Cíclico: havia semanas em que não se desgrudavam, meses em que não se tocavam, viagens em que dormiam em camas separadas, férias em que ficavam colados como um cometa e a cauda. Então, as estatísticas atolaram num pântano perigoso: duas vezes por mês; uma vez por mês. A quantidade reflete a qualidade de um casamento? Qual é o ideal, se é que existe?
Quando os encontros passaram para a média de uma vez por mês, o alarme tocou. Não conversaram sobre isso. Ela era a mesma linda sedutora de antes. Daquelas que envelhecem com metamorfismo: sai a casca juvenil, e se liberta a mulher feita.
Ele até emagreceu depois de muito esforço e de começar a correr junto com ela. Por que não transavam mais se eram os mesmos que se apaixonaram no primeiro encontro?
Porque não eram mais os mesmos.

Só na avenida Brasil ele voltou a falar. Perguntou como foi a viagem. Demorou tudo isso, porque temia a resposta. Se ela dissesse “foi ótima”, estava esclarecido o beijo no rosto; foi muito melhor do que ficar com você, naquela nossa rotina de merda, na nossa casa em que nem trepamos mais, até encontrei um pescador meio índio que me virou literalmente do avesso e me fodeu como um reprodutor sobe numa égua.
Mas ela não respondeu e acendeu um cigarro, olhou através da janela. Ele se irritou. A sua indiferença ante o tornado de pensamentos e ódio e medo e indecisões que se formava assustava. E depois ela fumava para irritá-lo. Ele tinha parado de fumar seguindo um pacto de ela o seguir, mas ela, que fumava só eventualmente, e não como ele, viciado compulsivo, não cumpriu o combinado.
De raiva, ele ligou o rádio na estação de rock e aumentou no punk dos Ramones, que dançou tanto na adolescência. E cantou:
“We’re a happy family, me mom and daddy, sitting here in Queens, eating refried beans…”
“Baixa um pouco, vai”, ela pediu.
“Por quê?”
“Abaixa…”, ela adocicou a voz.
Obedeceu.
Sempre a obedecia quando ela pedia docemente.
Ela deve estar pensando no nativo deitado sobre ela, pescando para ela, subindo em coqueiros para trazer um coco fresco, cabulando os seminários que sua empresa organizou, dançando lambada, agarrada num cara cuja cintura mexe mais do que um peixe tirado da água, enquanto o otário aqui…
Na avenida 9 de Julho, ele resolveu jogar duro:
“Não vai falar como foi a viagem?”
“Cansativa. Desculpe. Estou exausta.”
Ele esperava qualquer resposta. Menos cansativa. Cansativo é ficar neste inferno de cidade do caos. Ninguém se cansa num resort numa ilha baiana, a não ser que se envolva com um nativo e se canse de tanto sexo, sexo que já não pratica em casa.
“Você sabe há quanto tempo não trepamos?”, ele perguntou.
Ela assoprou a fumaça no rosto dele, jogou a bituca pela janela e respondeu ligeiramente blasé:
“Você fez as contas, é?”
“Fiz. Sabe?”
“Quanto?”
“Três.”
“Semanas?”
“Meses!”
“Três meses? E isso é muito ou pouco?”
“Muito.”
“Você quer parar naquela praça agora? Já!”
“A questão não é essa.”
“E qual é?”
“Por que não transamos mais como antigamente?”
“Não sei. Por quê?”
Devolver a pergunta foi a resposta mais eficaz.
“Isso mesmo, por quê?”
Afinal não era só dela a culpa, se é que culpa seja o termo a ser empregado. Cabulando… Ele riu de ter pensado neste verbo tão escolar. Precisa se lembrar de contar ao terapeuta que no meio de uma DR apareceu a expressão “cabulando os seminários”.
“Por que casais param de transar?”, ele perguntou.
“Não sei. Por quê?”
“Tesão acaba.”
“Acaba?”
“Acabou?”
“Não. Sei lá. Acho que não. Acabou?”
O carro parou no congestionamento. Ele pegou um cigarro da bolsa dela. Acendeu no acendedor do carro. E disse, sereno:
“Acho que o casamento acabou. E o tesão foi consequência. Tudo o que tinha de bom ficou no passado. Por isso a gente não transa mais. O presente é só ‘quem paga o IPVA’, ‘ligou para o seu pai?’. Rotina.”
“Você quer se separar.”
Ele tragou e a imitou devolvendo a pergunta:
“Você quer?”
“Porque a gente não trepa mais.”
“Não é um bom motivo?”
“É. Que chato. Acabar um casamento por causa de sexo.”
“Da falta de”, ele corrigiu.
“Sem sexo, não dá, né?”
“É um sintoma. O primeiro que aparece.”
“Sintoma?”
“De que as coisas não andam bem.”
“E se as coisas não andam bem, é melhor parar.”
“É. Acho que é. Não sei. É?”
Embicou na garagem. O portão se abriu. Entrou com o carro em marcha lenta, até encontrar uma vaga no final, no canto da lâmpada queimada há dias.
Ele desligou o carro.
Olhou para ela.
Escorria uma lágrima do seu rosto.
Ele a abraçou.
Beijaram-se.
Ela desatou o cinto e se sentou no colo dele.
Ele inclinou o encosto do banco para trás.
Não mais atordoado.

Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

05/08/2023

Três é bom

Anos atrás, eu e um amigo também escritor nos apaixonamos pela mesma mulher, uma atriz de teatro com voz marcante, um corpo perfeito, boêmia, culta, poeta nas horas vagas, que canta, dança, sapateia, faz mágica, joga pôquer, tranca e gamão, e tem um monótono figurino no armário, apenas minissaias e botas.
Era o tipo de mulher ideal para um escritor, pois sabia ser caseira e paciente na hora certa, e baladeira e inconveniente na incerta.
Ela estava no elenco de peças que ensaiávamos. Às tardes, comigo, às noites, com ele. Às madrugadas, íamos comer, beber, conversar, rir e nos fotografarmos abraçados.

Até confessarmos simultaneamente o nosso amor.
Nós dois descobrimos o quanto ela nos inspirara. O quanto aqueles ensaios giravam em torno dela, como ocorrera nas leituras. Talvez, até, como profetas, o quanto ela se encaixara nos nossos personagens, que pareciam ter sido escritos apenas para ela, antes de a escalarmos. Nenhuma outra atriz conseguiria fazê-los.
E, juntos, a pedimos em casamento.

Ela adorou. Mas, claro, profissionais que somos, sabemos que uma relação amorosa não pode se desenvolver numa pré-produção. Especialmente enquanto ela descobria os personagens. Talvez depois da estreia. Nossas atenções devem estar focadas apenas no propósito e na difícil missão de levantar um espetáculo.

Estrearíamos na mesma época. Na mesma cidade. Minha peça seria exibida aos fins de semana. A dele, no horário alternativo (terças e quartas).
Enquanto não estreávamos, bolamos os três uma forma de lidar com aquele impasse. Meu amigo propôs.
Depois de duas semanas de peça, tempo suficiente para ganhar voo próprio, alternaríamos nosso amor, dividiríamos a rotina sem culpa, ciúmes. Dia sim, dia não, ela moraria com um de nós. Dias pares com ele, dias ímpares comigo.
Mas ela reclamou que precisaria de um dia de folga, afinal, mulheres têm seus misteriosos afazeres e desejos, amigos gays, amigas tagarelas sempre em crise na relação e em busca de conselhos. E muitos ex para lidar.
Então decidimos. Segundas, quartas e sextas com ele. Terças, quintas e sábados comigo. Domingo era a folga dela. Que iria para a sua casinha viver o seu mundo paralelo e fazer sobrancelha, depilação, massagem linfática, pés e mãos.
Desenvolvemos melhor o projeto ambicioso. Não iríamos buscá-la na casa do outro, para evitar encontros desconfortáveis. Pagaríamos a sua condução. Faríamos um inventário dividindo nossos bares e restaurantes preferidos.
Metade para ele, metade para mim.
Mas o mais importante: as comparações estavam terminantemente proibidas.
Jamais ela revelaria detalhes da noite anterior, em que estava com o outro.
Não diria o que fizeram, o que comeram, a que assistiram, se ele prefere bem ou malpassado, balsâmico ou limão, com gelo ou sem, se ronca, dorme de conchinha, se é mais carinhoso ou mais estilo local de um forró de Trancoso, se gasta tempo com preliminares, dorme de pijama, sentiu frio ou calor na noite anterior, prepara o café da manhã, escreve de dia ou de noite, tem um Mac ou um PC, usa Aurélio ou Houaiss, prefere Beckett ou Brecht, jazz ou blues, Seinfeld ou Friends, Mad Men ou Californication, se assina um jornal ou lê pela internet, se twitta assim que acorda, quais blogs lê, se coloca despertador para acordar, escova os dentes após as refeições, usa cuecas, meias, anda pela casa de Havaianas legítimas ou não, ou descalço, se tem gato ou cachorro, rinite alérgica, colesterol alto, pressão baixa, qual o tipo sanguíneo, se adoça o café, lava a louça só no dia seguinte, arruma a cama, liga do fixo ou do celular, em qual banco tem conta, se compra DVD pirata ou é contra alimentar o crime organizado, se eles tomam banho juntos, lê quadrinhos, se também odeia axé, zapeia muito, ou nem ligam a TV, se ele tem insônia, frita na cama ou se levanta e vai fazer um chá de erva-cidreira, ou prefere camomila, se prefere dinheiro ou cartão com chip, quantos pontos tem na carteira, se usa iTunes ou Media Player, se passa fio dental todos os dias, põe a camisinha ou pede gentilmente que ela seja colocada, se a impressora é a laser ou jato de tinta, compra flores pra casa, quais móveis da Tok & Stock tem, carrinhos de brinquedos na estante, clássicos, que compra em sebos, cinzeiros roubados com o logo dos bares, se bebe água em copos de requeijão, prefere do filtro ou mineral, com gás ou sem, gelada ou sem gelo, se o refri é light ou zero, em garrafa ou lata, se prefere cerveja no copo, se tem manias, mau humor, se fala sacanagens na cama, se beija de olhos abertos.

E, por último, imprescindível, para que tudo desse certo. Jamais saberíamos o número de vezes que ela atingia o clímax com o outro.

Estreamos as peças.
Ela mandou bem.
Foi elogiadíssima por todos.
Nos emocionou.
Se entregou às personagens.
Fez de verdade.
E começou a namorar outro ator, de outra peça, que nem sabíamos que tinha estreado, de um teatro maior, que ficou muito mais tempo em cartaz e, detalhe irrelevante, fez muito mais sucesso do que as nossas. Galã que a tem todos os dias, exceto aos domingos, que é nosso na mesa de um bar, em que continuamos nos fotografando abraçados. E sonhando em repartir o indivisível.

Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz