domingo, 15 de outubro de 2023

Vou largar tudo para tocar pandeiro no Titãs

Se por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho, se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns, amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância. Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28 anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica, frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

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