Se
por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na
cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou
nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser
mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que
não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à
massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho,
se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis
passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães
Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés
deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as
musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser
um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço
os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns,
amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro
show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A
baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância.
Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um
show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28
anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos
conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica,
frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não
possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No
desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio
como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar
os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e
gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos
esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no
aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu
cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu
queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o
camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado
por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são
mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse
algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo
labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso
que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de
calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me
aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador
gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as
páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.
Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola
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