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05/10/2013

Velho macho

Seu Antônio Feitosa, cabra sertanejo dos Inhamuns, virado na gota serena, mais grosso do que papel de enrolar prego fez uma viagem pra Fortaleza, que era pru mode fazer uma visitinha pros parentes.
- Pura invencionice do diabo decha muié! Por mim, eu ficava aqui mermo no meu sertão! Dizia o cabra visivelmente emburrado com a idéia de ter que se ausentar da fazenda.
Por muita insistência da muié, dona Esmeralda, que quis aproveitar a dita viagem, levou ele pro médico, pra fazer um xecápi. Foi outro estrupício! O homem quase morre de raiva!
- O diacho deche hômi nunca foi no dotô!
- Ô muié pra inventar coisa! Que diabo é que vô fazê lá? Num tô doente!
Mesmo assim, muito a contragosto, esperneando feito um sapo, resmungando, amaldiçoando o diabo a quatro, encabulado que só vendo, sentou assim meio atravessado na cadeira em frente ao médico, já pronto pra ir simbora.
O médico pegou aqui e ali, mediu a pressão, auscultou, mandou tossir, examinou a garganta, os dentes, mandou que ele tirasse a roupa, e algum tempo depois, muito sorridente, querendo amansar o chucro, fala em tom bem cordial:
- Então, seu Antônio, pelo visto, o senhor está em muito boa forma para seus quarenta anos.
- E eu disse ter quarenta anos? – disse ríspido.
- Quantos anos o senhor tem? – pergunta o médico já um pouco assustado com a bruteza do indivíduo.
- Já fiz cinquenta e dois. – responde bruto.
- Puxa! Não aparenta nada. E quantos anos tinha seu pai quando morreu? – pergunta o doutor querendo quebrar o gelo.
- E eu disse que meu pai morreu?
- Oh, desculpe! E quantos anos tem seu pai?
- O véi já tá beirando os oitenta.
- Oitenta? Nossa, que bom! E quantos anos tinha seu avô quando morreu?
- E eu disse que ele morreu?
- Sinto muito. E quantos anos ele tem?
- Cento e quatro anos e anda de bicicleta até hoje.
- Fico feliz em saber que a sua família é longeva. E seu bisavô? Morreu de quê?
- E eu disse que ele tinha morrido? Ele está com cento e vinte cinco anos e vai casar na semana que vem.
- Agora já é demais! – Diz o médico revoltado, já se levantando exaltado. – Por que um homem de cento e vinte cinco anos iria querer se casar?
- E eu disse que ele queria se casar?
O médico estupefato ficou em silêncio esperando mais uma resposta…
- Queria nada, seu dotô! Agora ele engravidou a moça e vai tê que casar, sim sinhô!
Newton Silva, calamus-scribae.blogspot.com.br

16/11/2012

10 curiosidades sobre a proclamação da República

Charge de Angelo Agostini, o melhor caricaturista da época e sua vítima predileta D. Pedro II “derrubado do trono”

1. Nada de Marechal Deodoro da Fonseca. O primeiro a dar o grito da República (e também da Independência) foi o sargento-mor e vereador de Olinda (Pernambuco) Bernardo Vieira de Melo. O militar lançou a proposta em 10 de novembro de 1710 porque estava insatisfeito com a exploração abusiva do país pelos monarcas portugueses. A Câmara da capital pernambucana rejeitou o pedido. A Independência do Brasil, de fato, só viria a se concretizar depois de 112 anos, e a formação da República, 179 anos mais tarde.
2. Ao proclamar a República, no dia 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca estava com um ataque de dispneia. Foi tirado da cama no meio da noite para comandar o cerco ao Ministério. Foi sem a espada, porque seu ventre estava muito dolorido. O cavalo baio número 6 que usou não foi mais montado até a sua morte, em 1906.
3. Deodoro havia decidido apoiar os republicanos quatro dias antes. “Eu queria acompanhar o caixão do imperador, que está idoso e a quem respeito muito. Mas o velho já não regula bem, Portanto, já que não há outro remédio, leve à breca a Monarquia. Nada mais temos a esperar dela. Que venha, pois, a República”, disse.
4. Quando passou pelo portão do Ministério da Guerra, o marechal acenou com o quepe e ordenou às tropas que se apresentassem. As tropas se perfilaram e ouviram-se os acordes do Hino Nacional. Estava proclamada a República. Não houve derramamento de sangue. O único que se feriu foi o Ministro da Marinha, José da Costa Azevedo, que reagiu à voz de prisão.
5. Dom Pedro II ficou sabendo da movimentação de tropas no Rio de Janeiro quando estava numa casa de banhos em Petrópolis.
6. Mesmo depois de proclamada a República, ninguém quis levar o telegrama com a notícia para D. Pedro II, que estava em seu palácio em Petrópolis. No meio da noite, o major Sólon Ribeiro foi ao encontro do Imperador, que teve que ser acordado. Na verdade, com medo de manifestações a favor da monarquia, os líderes do movimento pediam que D. Pedro II e sua família partissem naquela mesma madrugada. Dizem os relatos que a Imperatriz Tereza Cristina chorou, que Isabel ficou muda e que o Imperador apenas soltou um brado retumbante: “Deodoro está metido nisso?”. Paciente, Mallet disse que o marechal Deodoro era o chefe do governo provisório. “Então estão todos malucos”, resmungou o soberano, para irritar-se em seguida: “Não sou negro fugido, não embarco a esta hora”.
7. Antes de viajar, no dia 17 de novembro, Pedro II escreveu uma mensagem para o povo brasileiro: “Cedendo ao império das circunstâncias, resolvo partir com toda a minha família para a Europa amanhã, deixando esta pátria de nós estremecida, à qual me esforcei por dar constantes testemunhos de entranhado amor e dedicação durante quase meio século, em que desempenhei o cargo de chefe de Estado. Ausentando-me, eu com todas as pessoas de minha família, conservarei do Brasil a mais saudosa lembrança, fazendo votos por sua grandeza e prosperidade.”
8. No momento de embarcar, o imperador recebeu um convite de seu sobrinho, dom Carlos, rei de Portugal, colocando à sua disposição um dos seus palácios em Lisboa. Pedro agradeceu, mas não aceitou a oferta.
9. No dia 5 de dezembro de 1889, o navio Alagoas chegou a Lisboa. A viagem da família real durou 18 dias. Apesar de ter sido recebido com honras, ele preferiu se hospedar com a imperatriz Teresa Maria num hotel na cidade do Porto. Depois de 23 dias, Teresa Maria faleceu no quarto do hotel.
10. Pedro II morreu em 5 de dezembro de 1891 deitado num travesseiro que ele encheu com terra brasileira.
Newton Silva, in www.newtonsilva.com

14/09/2012

Essa é do Caralho!


Segundo a Academia Portuguesa de Letras, CARALHO é a palavra com que se denominava aquela pequena cesta no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias perscrutavam o horizonte em busca de sinais de terra.
O CARALHO por ficar no alto do mastro era um local incômodo, que causava enjoos por causa do movimento incessante do mar. Por causa disso, também era considerado um lugar de castigo e punição para aqueles marinheiros que cometiam alguma infração a bordo.
O castigado era enviado para cumprir horas a fio, sem direito praticamente ao convívio dos outros tripulantes, até por dias inteiros no CARALHO e quando descia, ficava tão enjoado que se mantinha tranquilo por um bom par de dias. Daí surgiu a expressão: MANDAR PRO CARALHO.
Hoje em dia a palavra CARALHO é a palavra que define toda a gama de sentimentos humanos e todos os estados de ânimos.
Ao apreciarmos algo de nosso agrado, costumamos dizer: ISTO É BOM PRA CARALHO!
Se alguém fala conosco e não entendemos, perguntamos: MAS QUE CARALHO TU TÁ DIZENDO?
Se nos aborrecemos com alguém ou algo, rapidamente dizemos VAI PRO CARALHO!
Se algo não nos interessa dizemos: NÃO QUERO SABER NEM PELO CARALHO!
Se, pelo contrário, algo chama a nossa atenção, então dizemos: ISSO ME INTERESSA PRA CARALHO.
Quando a mulher é gostosa, dizemos: ESSA MULHER É BOA PRA CARALHO!
Quando a mulher é um canhão, a frase com certeza é essa: EITA MULHER FEIA DO CARALHO!
Se uma coisa é do tempo do Dom Bunda, diz-se: ESSE FILME É VELHO PRA CARALHO!
Se o problema é distância: ESSE CABRA MORA LONGE PRA CARALHO!
Se alguma coisa é digna de nossa admiração, diremos: ESSE JBF É DO CARALHO!
Se os negócios não vão bem, não se diz estou falido, e sim: ESTOU INDO PRO CARALHO!
Se encontrarmos um amigo que não vemos há tempos: PORRA, CARA POR ONDE CARALHO TU TEM ANDADO?
Não há nada que não se possa definir, explicar ou enfatizar sem botar um CARALHO no meio.
É por isso que envio para os companheiros fubânicos este tratado sobre o CARALHO e espero que tenha sido do agrado de todos.  A partir deste momento poderemos dizer CARALHO ou mandar alguém PRO CARALHO com um pouco mais de cultura e autoridade acadêmica.
Newton Silva, in www.bestafubana.com.br, Coluna Aí Dento!

11/05/2012

No dia em que o bode Iôiô virou gente


Iôiô foi um bode mestiço com forte predominância da raça parda alpina que viveu na cidade de Fortaleza no início do século XX. Em 1915 um retirante da seca vendeu o dito cujo para José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, localizada na Praia de Iracema.
O bode perambulava, sem ser molestado pelos fiscais da prefeitura, pelas ruas centrais da cidade, na companhia de boêmios e escritores que frequentavam os bares e cafés ao redor da Praça do Ferreira, centro cultural da capital. Bebia cerveja e cachaça, fumava charuto e gostava de ouvir música e muitas vezes, acompanhava os seresteiros pelas madrugadas. O bicho parecia gente. Era sempre visto no meio das conversas dos boêmios, poetas e intelectuais. Esse nome Iôiô foi lhe dado por ele sempre percorrer o mesmo trajeto, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema, num vai-e-vem danado.
Quem visita Fortaleza poderá ver o bode Iôiô imortalizado como peça de museu. Logo após sua morte, em 1931, foi empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará.
Conta-se que o bode Iôiô era a reencarnação de Paulo de Castro Laranjeira, engenheiro fiscal das obras do Estado e poeta e seresteiro. Laranjeira se apaixonou perdidamente, quando por acaso, na Praça do Ferreira, cruzou o olhar com uma donzela de traços finos, esnobe, esbelta de olhos verdes como o mar de Fortaleza. Nunca mais foi o mesmo! Enlouqueceu. Seu sonho de cortejá-la e casar com ela era impossível. A família da moça jamais permitiria tal consorte. Um boêmio cachaceiro? Nunca, jamais! Teria dito um dia o pai dela.
Destroçado pela paixão suicidou-se bem debaixo do sobrado da moça, no dia 14 de fevereiro de 1897, com um tiro de pistola no ouvido, embriagado pelo champanhe e dizimado pelo fogo da paixão bem logo após cantar em serenata a modinha “Teu Desprezo” que tinha escrito especialmente para ela, cujos versos assim falavam:

“Teu desprezo me arrasta lentamente
 Para a campa solitária vou partir
 E a morte será minha vingança
 Para que serve, ó mulher, eu existir.”

 Se fitares meu sepulcro esquecido
 Ó tu, a quem tanto idolatrei,
Deita sobre meu túmulo uma saudade
Em troca do amor que te jurei.”

Dezoito anos depois do suicídio de Laranjeira, o bode Iôiô vinha calmamente de suas andanças caprinas, quando se aproximou como de costume, de uma roda de seresteiros. Naquele momento falavam da morte trágica do Paulo Laranjeira. Em homenagem póstuma, um boêmio chamado Fetinga então começou a cantar a modinha “Teu Desprezo”. Ao ouvir a música, o bode Iôiô que estava atento à conversa, começou a tremer e desabou no chão, em convulsão epilética, espumando.
O espanto foi grande e o desespero foi geral. O bode estava morrendo, com certeza. Alguns minutos depois, o caprino se levantou incólume, refeito. Tinha sobrevivido àquela terrível e estranha síncope, mas notaram uma evidente e melancólica tristeza no olhar. Passado o susto, os seresteiros voltaram então a cantar a modinha de Paulo Laranjeira. De repente, outra vez, ato contínuo, o bode Iôiô repetiu a cena grotesca e caiu em estado epilético, se estrebuchando no chão.
Os boêmios então não tiveram dúvida, o bode Iôiô era o Laranjeira reencarnado. O boato então se espalhou pelos quatro cantos da cidade e até a Igreja interveio, proibindo que se contasse a tal história, pois intentava contra os princípios sagrados da Igreja.
Mas que o bode parecia ser gente, parecia, dizia o povo. O mistério aumentou ainda mais quando em 1966, misteriosamente o rabo do bode sumiu. Dizem que foi roubado por um turista estrangeiro. Para que alguém iria querer o rabo do bode? Vai ver foi levado pra fazer algum feitiço, afinal o bode era o mesmo que tá vendo uma pessoa.
O bode Iôiô participou de atos políticos em coretos,  praças e saraus literários, foi o segundo mais votado vereador de Fortaleza, comeu a fita inaugural do Cine Moderno, assistiu peça no Theatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal. Segundo o historiador Raimundo Girão, autor do livro “Geografia da Estética Cearense”, o bode Iôiô era um cidadão cearense como outro qualquer.
Newton Silva, in www.bestafubana.com.br

04/03/2012

A Morte prega peças


A morte é a única certeza para todos nós, pode ser uma bênção mas às vezes pode ser uma maldição. Veja agora como a morte pode vir quando menos se espera.

COMEU DEMAIS EM UM BANQUETE EM SUA HOMENAGEM
O filósofo francês Julien Offray de La Mettrie morreu em 1751 no meio de um banquete que o embaixador Francês Tirconnel ofereceu em sua homenagem. Além de ser pensador, La Mettrie também era médico e teria curado uma grave doença de Tirconnel. Comenta-se que La Mettrie quis mostrar a sua potência estomacal comendo um monte de patê de trufas. Resultado: desenvolveu uma forte febre que levou-lhe ao delírio e faleceu em seguida.
Ainda existe outro caso: John Kendrick, respeitado capitão da Marinha americana, morreu em 1794 depois de ter vencido a Batalha de Kalauao, no Havaí. Quiseram fazer uma salva de tiros de canhão para comemorar. Um dos tiros acertou o deck do capitão. Triste história.

ENCHENTE DE CERVEJA
Nadar em cerveja pode ser o sonho de muito beberrão, mas a Enchente de Cerveja de Londres (1814) fez estrago. Vários tonéis de cerveja da Meux and Company Brewery estouraram e mais de 1.470.000 litros da bebida formaram uma enxurrada que destruiu duas casas e ainda derrubou uma parede do pub Tavistock Arms, que veio a esmagar a funcionária Eleanor Cooper. Coitada!
Outro caso em 1919 aconteceu em Boston. Um desastre parecido, mas envolvendo melaço – um tanque estourou e um tsunami de melaço vindo a 56 km/h matou 21 pessoas e feriu mais 150. Dizem que até hoje dá para sentir um cheiro de açúcar no ar quando o dia fica mais quente!

UM TIRO EM SI MESMO COMO PROVA
O democrata Clement Vallandigham lutou na Guerra Civil Americana e mesmo assim parece que não levava muito jeito com as armas (ou levava jeito demais, sei lá). Em 1871, aos 50 anos, Clement pegou um caso jurídico no qual defendia um homem acusado de atirar em um rapaz numa briga de bar. Sua alegação dizia que era possível a vítima ter atirado em si mesma por acidente enquanto tentava tirar a pistola do bolso – e quis fazer uma demonstração ao júri. Resultado: Clement realmente provou o seu ponto de vista, mas a que preço! A arma estava carregada e ele não resistiu ao ferimento. o acusado foi inocentado por Clement ter provado que a vítima realmente havia se suicidado por acidente.

DURO DE MORRER
Esta história é mais trágica do que realmente inusitada. Mas vale, porque ninguém gostava mesmo desse cara. O místico russo Grigori Rasputin era odiado entre o povo e entre a nobreza. Em 1916, ele foi vítima de uma trama de parlamentares e aristocratas: envenenaram o coitado num jantar. Mas a úlcera de Rasputin o fez expelir todo o veneno. Então, o suposto bruxo foi fuzilado com onze tiros e não morreu. Foi castrado e continuou vivo. Daí, resolveram espancá-lo e atirá-lo insconsciente em um rio, até que ele morreu – afogado.

OVERDOSE DE SUCO DE CENOURA
Dizem que cenoura faz bem para os olhos. Mas a sabedoria popular também fala que todo excesso faz mal, né? O arqueólogo Basil Brown que o diga! A história conta que lá pelos idos de 1974 o homem virou um viciado em vida saudável e decidiu fazer uma dieta louca para limpar o organismo: beber um galão de suco de cenoura por dia durante dez dias seguidos. Ele até terminou a meta, mas morreu dias depois, vítima de falência renal. Overdose de vitamina A.

ENVENENADO POR UM GUARDA-CHUVA
A história do escritor búlgaro Georgi Markov é muito bizarra. Seus textos que saíam nos jornais não agradaram o governo da época e ele começou a ser perseguido pela polícia secreta da Bulgária e pela KGB em 1978. Tentaram matar o coitado duas vezes, mas só conseguiram na terceira vez. Markov estava atravessando a ponte de Waterloo para pegar o ônibus para a BBC quando sentiu uma dor aguda na coxa, como se fosse uma picada de inseto. Olhou para trás e viu um homem pegando um guarda-chuva do chão, saindo correndo e entrando em um táxi. Horas depois ele começou a ter febre e foi para o hospital passando muito mal, vindo a falecer três dias depois. Causa da morte? Envenenamento por ricina. O assassino? Francesco “Piccadilly” Gullino. A arma do crime? Um guarda-chuva envenenado.

O VIDRO INQUEBRÁVEL
Advogado adora razão. Em 1993, Gary Hoy quis provar a todos os seus colegas de escritório que o vidro da janela do Toronto-Dominion Centre era impossível de ser quebrado. E provou, mas do jeito errado. O homem bateu tanto no vidro que ele pulou (inteiro) para fora da armação da janela. Resultado: Hoy foi junto, despencando do 24º andar. Sua morte foi tão nada a ver que levou um Darwin Award, prêmio concedido àqueles que contribuem para a evolução humana de maneira excepcionalmente negativa.

BOMBA FEITA COM UM BARALHO
William Kogut pode não ter sido esperto na hora de cometer seu crime – ele foi preso em 1930 pelo assassinato de Mayme Guthrie -, mas foi bem inteligente na hora de tomar as rédeas do seu destino. Kogut não queria passar o resto da vida preso na penitenciária San Quentin, então decidiu se matar de modo bem engenhoso. Pegou as cartas vermelhas do baralho e picotou tudo, colocando os pedacinhos em um cano de metal junto com água e madeira. O cano foi colocado no aquecedor da cela e eis a bomba de William – ele sabia que a tinta vermelha das cartas era inflamável. Genial!
Newton Silva, na coluna Aí Dento!, do Besta Fubana

11/02/2012

Corruptos malditos


Certo dia, recebi um telefonema de um vereador aqui de Fortaleza.
- Um vereador? Pensei – Vixe! – Fiquei imaginando se eu tinha feito alguma charge sobre a atuação pífia de algum vereador ou se tinha criticado a administração falida da prefeita de Fortaleza.
Nem uma coisa nem outra. Logo de cara, o sujeito, do outro lado da linha, começou logo a elogiar as charges, dizendo que eu era um gênio do traço, que já era meu fã desde os tempos em que eu publicava no Diário do Nordeste, que já acompanhava a evolução do meu trabalho agora na internet e que queria encomendar umas cartilhas.
- Tu num é chargista?  Tu faz cartilhas? Aquelas revistinhas…
- Sei o que é. – retruquei. – Faço. – completei.
- É que eu queria distribuir umas cartilhas com os meus eleitores… eu tava pensando em fazer umas cartilhas sobre a camada de ozônio…será que é um tema legal? Quanto é que tu cobra? Dá pra passar aqui na Câmara amanhã? Tá bom às oito horas, antes da sessão?
No dia seguinte cheguei lá na Câmara. O dito cujo me recebeu no gabinete que estava entupetado de gente de todo tipo. Depois de intermináveis abraços e apertos de mão, o vereador me chamou reservadamente no gabinete.
- Cara, tô precisando urgente fazer umas cartilhas pros meus eleitores. – inicou logo a conversa pegando uma garrafa de café e botando em cima do birô. – Eu convidei aquele outro chargista, mas aquele fela da puta me disse que não trabalha pra nenhum político. Que cara chato! Até pensei que tu nem vinha. Pelas charges dá pra ver que vocês não gostam muito de vereador. Quer um cafezinho?
- Pelo contrário, vocês vereadores é que não gostam da gente! – retruquei e ele riu amarelo. Tomou o café goela abaixo e me trouxe uma pasta abarrotada.
- Taqui, ó. Essa é a ideia que eu quero colocar nas cartilhas. – Um monte de papeis impressos da internet, com as mais diversos tipos de cartilhas.
- Eu quero essa aqui! – apontou pra uma cartilha impressa, de outro Estado. – É só a gente apagar o nome do Estado e o nome do vereador e mudar umas coisinhas…
- Só que essa não pode. Tem direitos autorais. A não ser que o senhor peça a permissão do autor. – Ele olhou pra mim com os olhos vagos. Tomou outro café. Coçou a cabeça. Estava ofegante.
- E o que é que tem, macho? – Esbravejou – Ninguém vai saber mesmo! Já tá toda pronta!  É que eu tô com pressa!
- Eu acho melhor a gente criar uma cartilha mais regionalizada, com termos usados aqui no Ceará. Com problemas da Cidade. Essa aí é lá do Rio Grande do Sul. Não tem nada a ver com o Nordeste.
- É mesmo, né? – pois faça lá desse jeito aí que você falou. – refestelou-se na cadeira e tomou outro café. – Ainda bem que eu te chamei. Aquele outro chargista num sabe de nada, não! Aquilo é um baitola!
Confesso que eu não sabia a qual chargista ele se referia, nem perguntei. Tinha minhas suspeitas. Mas o fato é que o cara deixou o vereador puto da vida. Coloquei a pasta em cima da mesa. Ele já estava engolindo mais um café, falou no celular com alguém e se dirigiu a mim já mais calmo. Falou em tom conspiratório:
- E por quanto é que tu faz esse negócio? – sussurrou – Faça um preço camarada pro seu amigo véi! A gente já se deu bem de cara. Vai aparecer outras coisas pra gente fazer e já, já, começa a campanha. Quero que você faça a minha campanha! Gostei de você, cabra! – engolia já o décimo café.
- Eu trouxe a minha tabela de preço. – passei o papel. Ele olhou interessado. Demorou uns minutos. Tomou mais um café.
- Gostei dos preços! – falou guardando a tabela no bolso do paletó. – Agora tem só um detalhezinho de nada. Dá pra gente fazer um esquema?
- Esquema? Tipo o quê? – perguntei. Ele se acomodou na cadeira, engoliu outro café, passou a mão pela careca suada. Levantou-se e conferiu se a porta estava fechada. Voltou-se e servindo-se de outro café, falou:
- Você sabe, né? Tenho que justificar uns gastos do gabinete. Tava pensando se num dá pra tu me passar uma notinha fiscal de serviço com um valorzinho maior, sabe como é. Eu pago o teu valor integral e a gente faz esse esqueminha. Nem precisa imprimir as cartilhas, não. É só de agá. Todo mundo faz isso aqui. Num tem problema não. É normal. O telefone tocou. Era a secretária avisando que a sessão já ia começar. Tomou mais um café e ajeitando o paletó, falou, botando a mão no meu ombro.
- Vou ter que marcar presença lá no plenário. Num sai daí, não. Vamos almoçar comigo hoje? A gente combina o nosso esqueminha no almoço. Pode ficar tranquilo! Vamos fazer uma parceria!
Fiquei alguns minutos na sala. Era tentador. Eu tava liso e a oportunidade de pegar numa grana estava ali, à minha frente. Lembrei de uma frase de Sêneca que meu pai Nemésio Silva, que era também jornalista, sempre me dizia: “Para a ganância, toda a natureza é insuficiente”.
Saí, fui lá fora e não voltei mais.
Newton Silva, na coluna Ai Dento!, do Besta Fubana

04/02/2012

O Gentileza


No início dos anos oitenta eu trabalhava em um antigo prédio comercial na Rua Guilherme Rocha, próximo a Praça do boticário Ferreira, bem no Centro de Fortaleza.
Embora meu horário de entrada fosse às oito horas, eu chegava lá pontualmente às sete, pois assim dava tempo de tomar um café no Azteca, ponto de encontro obrigatório de jornalistas, publicitários,  políticos e madrugadores daqueles tempos.
Na entrada do prédio, sentado junto ao batente, quase que invisível aos transeuntes, trabalhava um distinto senhor, já grisalho, sereno, em uma pequena banca de madeira. Ele vendia cigarros, isqueiros, caixa de fósforos, canetas, ficha de telefone público, guarda-chuvas, baterias para relógios, envelopes e uma variedade enorme de outras coisas.
Esse distinto senhor passaria despercebido não fosse a sua extrema gentileza para com todos os que passavam na calçada e que entravam e saíam do prédio, num vai-e-vem ininterrupto, dia após dia, chovesse ou fizesse sol.
Tratava a todos invariavelmente por “Bom dia, senhores! – Tenham um ótimo dia! – Olá, como vai? Como tem passado? – Boa tarde, senhora, senhorita! – Que belo terno, senhor! Alguma reunião importante? Desejo-lhe sucesso! Olá, jovem! Que chuva, não? Boa noite! Tenha uma ótima noite, senhor! Até amanhã, se Deus quiser! Bom final de semana! Bom descanso, senhora! Até segunda, se Deus permitir!”
Era assim o dia todo, o ano todo. Ouvia-se a sua voz firme cumprimentando incansavelmente a todos e desejando melhoras, sucesso e feliz isso, feliz aquilo, bom dia, boa tarde, boa noite.
Durante todo o tempo em que eu trabalhei naquele prédio, não houve sequer um dia em que eu não o cumprimentasse na entrada do prédio. Não recordo quantas canetas, envelopes e fichas de telefone comprei dele, sempre acompanhado de um “obrigado”, “volte sempre”, “Que Deus o abençoe!”.
Nunca soube o nome dele ou de onde viera. Ninguém nunca soube. Apesar da eloquencia diária de seus cumprimentos, era pessoa de poucas palavras e não conversava sobre nada com quem quer que fosse. A única pessoa que ele ainda trocava algumas poucas palavras era uma senhora, também já idosa, que pontualmente às onze horas levava-lhe a marmita com o almoço, coberta por um pano de prato e uma garrafa de água. “Os melhores homens são os de poucas palavras”.
Em 1987 fui trabalhar em outro local e deixei de frequentar aquele prédio por um período de um ano. Os anos passam, as coisas mudam, as fotos desvanecem. Todo dia chega.
No Natal de 1987, a cidade vestida de enfeites, a alegria no ar saltava aos olhos, os sinos anunciavam. Precisei ir até o Centro da Cidade e passei no Azteca para tomar um café com palavras, quando me lembrei também de cumprimentar o distinto e gentil senhor.
Que decepção não encontrá-lo mais lá! No local onde ele ficava tinham colocado um enorme jarro com uma palmeira. Saí em busca de informações sobre ele. Perguntei ao porteiro, ao ascensorista, ao zelador, se o tinham visto, se sabiam dele. Vi com espanto que vagamente se lembravam de que ali tinha um homem distinto que por anos a fio cumprimentava a todos. Mal lembravam! Consegui depois de muito esforço, a informação de que simplesmente ele tinha sumido. Deixou de ir trabalhar, sem mais nem menos!  Nunca mais apareceu! Soube ainda, para meu espanto, que a mulher que lhe levava o almoço pontualmente às onze, também o procurou por vários dias. Disseram-me ainda, que dois rapazes também o procuraram, por vários dias, aflitos. Nunca mais o viram.
Sentei-me em um banco na Praça do Ferreira. O céu estava imensamente  azul e o azul enchia a tarde toda. Aquele gentil senhor, com certeza, havia sido abduzido por um anjo.
Newton Silva, in Besta Fubana