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27/05/2026

O lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
 
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
 
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
 
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
 
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras

em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
 
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade, em José

15/03/2025

Um hemisfério numa cabeleira


Deixa-me respirar demoradamente, demoradamente, o odor de teus cabelos, neles mergulhar meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como um lenço perfumado, para sacudir lembranças no ar.
Se pudesses saber tudo o que vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço em teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens na música.
Teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velames e mastreações; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas encantadores, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.
No oceano de tua cabeleira, entrevejo um porto fervilhante de cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se refestela o eterno calor.
Nas carícias em tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas num divã, no quarto de um belo navio, embaladas pelo balanço imperceptível do porto, entre vasos de flores e bilhas refrescantes.
Na ardente fornalha de tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado ao ópio e ao açúcar; na noite de tua cabeleira, vejo resplender o infinito do azul tropical; nas penugens que margeiam tua cabeleira embriago-me de odores combinados de alcatrão, almíscar e óleo de coco.
Deixa-me morder longamente tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou comendo lembranças.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

06/03/2025

O relógio


Os chineses veem a hora no olho dos gatos.
Um dia um missionário, passeando nos subúrbios de Nanquim, percebeu que havia esquecido seu relógio e perguntou a hora a um garoto.
O menino do Império celeste primeiro hesitou; depois, mudando de ideia, respondeu: “Vou dizer-lhe”. Poucos instantes depois reapareceu, tendo nos braços um gato muito gordo, e, olhando-o, como se diz, no branco dos olhos, afirmou sem hesitar: “Ainda não é exatamente meio-dia”. O que era verdade.
Quanto a mim, se me inclino para a bela Féline, cujo nome lhe cabe tão bem, e que é ao mesmo tempo honra de seu sexo, orgulho de meu coração e perfume de meu espírito, seja de noite, seja de dia, na luz plena ou na escuridão opaca, no fundo de seus olhos adoráveis sempre vejo a hora com clareza, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos — uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como uma espiadela.
E se alguém importuno viesse incomodar-me enquanto meu olhar repousa nesse delicioso quadrante, se algum Gênio desonesto e intolerante, algum Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que você está olhando aí com tanta atenção? O que você procura nos olhos dessa criatura? Mortal pródigo e preguiçoso, você está vendo a hora?”, eu responderia sem hesitar: “Sim, estou vendo a hora; é a Eternidade!”.Não lhe parece, senhora, que este é um madrigal verdadeiramente meritório, e tão enfático quanto a senhora mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio, que não lhe pedirei nada em troca.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

01/03/2025

O bolo


Eu estava viajando. A paisagem em que me encontrava era de uma grandeza e de uma nobreza irresistíveis. Sem dúvida nesse momento algo disso passou pela minha alma. Meus pensamentos volteavam com leveza igual à da atmosfera; as paixões usuais, tais como ódio e amor profano, pareciam-me agora tão afastadas quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia-me tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu pelo qual eu estava envolvido; a lembrança das coisas terrestres só chegava a meu coração enfraquecida e diminuída, como o som da campainha dos animais imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha. No pequeno lago imóvel, negro por sua imensa profundidade, passava às vezes a sombra de uma nuvem, como o reflexo do manto de um gigante aéreo voando pelo céu. E me lembro de que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento perfeitamente silencioso, me enchia de uma alegria misturada com medo. Em suma, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza que me circundava, em perfeita paz comigo mesmo e com o universo; creio até que, em minha perfeita beatitude e em meu total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não mais achar tão ridículos os jornais que pretendem que o homem nasceu bom; como então a matéria incurável renovava suas exigências, pensei em reparar o cansaço e aliviar o apetite causados por uma subida tão longa. Tirei do bolso um grande pedaço de pão, um copo de couro e um frasco de certo elixir que os farmacêuticos nessa época vendiam aos turistas para o misturarem, quando fosse o caso, com água de neve.
Cortava tranquilamente meu pão, quando um ruído muito leve fez-me erguer os olhos. Diante de mim estava um pequeno ser esfarrapado, negro, desgrenhado, cujos olhos encovados, ariscos e como que suplicantes, devoravam o pedaço de pão. Ouvi-o suspirar, com voz baixa e rouca, a palavra: bolo! Não pude deixar de rir ao ouvir a denominação com que queria honrar meu pão quase branco e cortei para ele uma bela fatia, que lhe ofereci. Lentamente ele se aproximou, sem que os olhos abandonassem o objeto de sua cobiça; depois, agarrando com a mão o pedaço, recuou abruptamente, como se tivesse medo de que meu oferecimento não fosse sincero ou de que eu já estivesse arrependido.
Todavia, no mesmo instante ele foi derrubado por outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente parecido com o primeiro que seria possível tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos rolaram pelo chão, disputando a preciosa presa, pois, sem dúvida, nenhum deles desejava sacrificar a metade para o irmão. O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este pegou-lhe a orelha com os dentes e cuspiu um pequeno pedaço sangrento com um esplêndido palavrão em dialeto. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas garras nos olhos do usurpador; este, por sua vez, aplicou todas as forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tentava enfiar em seu bolso o prêmio do combate. No entanto, reanimado pelo desespero, o vencido ergueu-se e fez com que o vencedor rolasse por terra com uma cabeçada no estômago. Para que descrever uma luta horrível que durou na verdade mais tempo que suas forças infantis pareciam prometer? O bolo viajava de mão em mão e mudava de bolso a todo momento; mas, infelizmente, mudava também de volume; e quando por fim, extenuados, ofegantes, ensanguentados, pararam pela impossibilidade de continuar, não havia mais, para dizer a verdade, nenhum objeto de batalha; o pedaço de pão tinha desaparecido, e estava desfeito em migalhas semelhantes aos grãos de areia com os quais estava misturado.
Esse espetáculo havia toldado para mim a paisagem, e a calma alegria em que minha alma se regozijava, antes de ter visto esses pequenos homens, tinha desaparecido por completo; fiquei bastante tempo triste com isso, repetindo-me constantemente: “Há, portanto, um país esplêndido onde pão se chama bolo, iguaria tão rara que basta para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!”.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

23/02/2025

O velho saltimbanco


Por toda parte, espalhavam-se, deleitavam-se pessoas em férias. Era uma dessas solenidades que os saltimbancos, os prestidigitadores, os expositores de animais e os vendedores ambulantes esperam por muito tempo, para compensar os maus períodos do ano.
Nesses dias, parece-me que o povo esquece tudo, a dor e o trabalho; torna-se parecido com as crianças. Para estas, é um dia de folga, é o horror à escola adiado por vinte e quatro horas. Para os adultos, é um armistício concluído com as potências maléficas da vida, uma trégua na tensão e na luta universais.
O próprio homem da classe alta e o homem ocupado com trabalhos espirituais dificilmente escapam à influência desse jubileu popular. Absorvem, sem querer, sua parte dessa atmosfera de despreocupação. Quanto a mim, nunca deixo, como autêntico parisiense, de passar em revista todas as barracas que se exibem nessas épocas solenes.
Na verdade, elas faziam concorrência formidável umas às outras: piavam, mugiam, urravam. Era uma mistura de gritos, estrondos de cobre e explosões de foguetes. Bufões e bobos convulsionavam os traços de seus rostos queimados, encarquilhados por vento, chuva e sol; com o porte de atores seguros de seus efeitos, lançavam frases espirituosas e pilhérias de uma comicidade sólida e pesada como a de Molière. Os Hércules, orgulhosos da enormidade de seus membros, sem testa e sem crânio, como os orangotangos, emproavam-se majestosamente nas malhas lavadas na véspera para a ocasião. As dançarinas, belas como fadas ou princesas, saltavam e cabriolavam sob a luz dos lampiões que enchiam de centelhas suas saias.
Tudo era só luz, poeira, gritos, alegria, tumulto; uns gastavam, outros ganhavam, uns e outros igualmente alegres. As crianças agarravam-se às saias das mães para conseguir um bastão de açúcar ou subiam nas costas dos pais para melhor ver um mágico resplandecente como um deus. E por toda parte, dominando todos os perfumes, circulava um cheiro de fritura que era como o incenso dessa festa.
No final, na extremidade final da fileira de barracas, como se, envergonhado, ele próprio se houvesse exilado de todos esses esplendores, vi um pobre saltimbanco, arqueado, derreado, decrépito, uma ruína de homem, encostado num dos postes de seu barracão; um barracão mais miserável que o do selvagem mais embrutecido, e cuja penúria era ainda bem iluminada por dois tocos de velas derretendo-se e esfumeando.
Por toda parte, a alegria, o ganho, o desregramento; por toda parte a certeza do pão para os dias seguintes; por toda parte a explosão frenética de vitalidade. Aqui, a miséria absoluta, a miséria revestida, para cúmulo do horror, de andrajos cômicos, tendo sido o contraste criado bem mais pela necessidade do que pela arte. Ele não ria, o pobre coitado! Não chorava, não dançava, não gesticulava, não gritava; não cantava nenhuma canção, nem alegre nem infeliz, não implorava. Ficava mudo e imóvel. Havia renunciado, havia abdicado. Seu destino estava traçado.
Mas que olhar profundo, inesquecível, ele passeava por sobre a multidão e as luzes, cuja vaga em movimento se detinha a alguns passos de sua repulsiva miséria! Senti minha garganta apertada pela mão terrível da histeria, e pareceu-me que meus olhares estavam ofuscados por essas lágrimas rebeldes que não querem cair.
Que fazer? Para que perguntar ao desafortunado qual curiosidade, qual maravilha ele tinha para mostrar nessas trevas fétidas, por trás de sua cortina rota? Na verdade, eu não ousava perguntar; e, mesmo se a razão de minha timidez os faz rir, confessarei que temia humilhá-lo. Enfim, eu acabava de me decidir a depositar, ao passar, algum dinheiro numa de suas tábuas, esperando que ele percebesse minha intenção, quando um grande refluxo de pessoas, causado por não sei qual confusão, me arrastou para longe dele.
E, enquanto ia embora, obsedado por essa visão, procurei analisar minha súbita dor, e me disse: Acabo de ver a imagem do velho literato que sobreviveu à geração que ele tão brilhantemente entreteve; do velho poeta sem amigos, sem família, sem filhos, degradado por sua miséria e pela ingratidão pública, e em cuja barraca as pessoas, sem memória, não querem mais entrar!

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

08/02/2025

As viúvas


Vauvenargues diz que nos jardins públicos há aleias frequentadas principalmente pela ambição decepcionada, pelos inventores infelizes, pelas glórias abortadas, pelos corações partidos, por todas essas almas tumultuosas e fechadas, em que retumbam ainda os últimos suspiros de uma tempestade e que recuam para longe do olhar insolente dos alegres e dos ociosos. Esses retiros umbrosos são os pontos de encontro dos aleijados da vida.
É sobretudo para esses lugares que o poeta e o filósofo gostam de dirigir suas ávidas conjecturas. Há aí alimento certo. Pois se há lugar que desprezam visitar, como eu insinuava há pouco, é sobretudo a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio nada tem que os atraia. Ao contrário, sentem-se irresistivelmente arrastados para tudo o que é fraco, arruinado, contristado, órfão.
Um olho experiente não se engana nunca com isso. Em traços rígidos ou abatidos, em olhos cavos e opacos, ou que brilham com os últimos lampejos da luta, em rugas profundas e numerosas, em passos tão lentos ou tão bruscos, ele decifra de imediato as inumeráveis lendas do amor enganado, do devotamento ignorado, dos esforços não recompensados, da fome e do frio humildemente, silenciosamente suportados.
Você alguma vez já viu viúvas nesses solitários bancos, viúvas pobres? Que estejam ou não de luto, é fácil reconhecê-las. De resto, há sempre no luto do pobre alguma coisa que falta, uma ausência de harmonia que o torna mais penoso. Ele é obrigado a economizar em relação a sua dor. O rico traz a sua conforme o figurino.
Qual é a viúva mais triste e mais entristecedora, a que arrasta pela mão uma criança com quem não pode partilhar seu devaneio ou a que está inteiramente só? Não sei… Aconteceu-me certa vez de seguir por longas horas uma velha afligida desse tipo; dura, ereta, sob um pequeno xale gasto, ela trazia em todo o seu ser um orgulho estoico.
Estava evidentemente condenada, pela solidão absoluta, a hábitos de velho solteiro, e o caráter masculino de seus hábitos acrescentava algo provocante e misterioso a sua austeridade. Não sei em que miserável café e de que modo ela almoçou. Segui-a ao gabinete de leitura; e a espiei por muito tempo enquanto ela procurava nas gazetas, com olhos ativos, outrora queimados por lágrimas, notícias de forte interesse pessoal.
Enfim, à tarde, sob um céu de outono encantador, um desses céus de onde descem em multidão pesares e lembranças, sentou-se, isolada, num jardim, para ouvir, longe da multidão, um desses concertos cuja música de regimentos gratifica o povo parisiense.
Era aquele sem dúvida o pequeno desregramento dessa velha inocente (ou dessa velha purificada), o consolo merecido de um desses pesados dias sem amigo, sem conversa, sem alegria, sem confidente, que Deus deixava cair sobre ela, havia uns bons anos talvez! trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
Outra ainda:
Nunca posso deixar de lançar um olhar, se não de universal simpatia, pelo menos curioso, à multidão de párias que se amontoam em torno do local de um concerto público. A orquestra lança pela noite cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. Os vestidos arrastam-se rebrilhando; os olhares cruzam-se; os ociosos, cansados de nada terem feito, se balançam, fingindo degustar indolentemente a música. Aqui, só há riqueza e felicidade; nada que não respire e não inspire despreocupação e o prazer de se deixar viver; nada, exceto o aspecto dessa turba que se apoia na cerca exterior, agarrando grátis, ao sabor do vento, um farrapo de música, e olhando a cintilante fornalha interior.
É sempre interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do olho do pobre. Todavia, nesse dia, em meio ao povo vestido de batas e chita, entrevi uma criatura cuja nobreza contrastava gritantemente com toda a trivialidade circundante.
Era uma mulher alta, majestosa, e tão nobre em todo o seu porte, que não tenho lembrança de ter visto uma igual nas coleções das aristocráticas belezas do passado. Um perfume de altiva virtude emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto, triste e emagrecido, estava em perfeita concordância com o luto pesado de que se cobria. Como a plebe a que estava misturada, e que ela não via, também ela olhava o mundo luminoso com um olhar profundo e escutava oscilando suavemente a cabeça.
Singular visão! “Sem dúvida”, pensei, “essa pobreza, se é que se trata de pobreza, não deve admitir a economia sórdida; é o que me diz um rosto tão nobre. Por que então ela fica, por sua vontade, num meio de que evidentemente se distingue?”
Todavia, ao passar com curiosidade perto dela, julguei perceber a razão disso. A imponente viúva trazia pela mão uma criança vestida de preto, tal como ela; por mais módico que fosse o preço da entrada, esse preço era suficiente talvez para pagar algo de que a pequena criatura necessitasse ou, melhor ainda, algo supérfluo, um brinquedo.
E ela terá voltado a pé, meditando e sonhando, sozinha, sempre sozinha; pois uma criança é turbulenta, egoísta, sem doçura e sem paciência; e não pode, como o puro animal, como o cão e o gato, servir de confidente para as dores solitárias.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

30/01/2025

As multidões


Nem a todo mundo é dado poder tomar um banho de multidão: usufruir da multidão é uma arte; só pode ter uma farra de vitalidade, às expensas do gênero humano, aquele em quem uma fada insuflou já no berço o gosto pelo disfarce e pela máscara, o ódio ao domicílio e a paixão pela viagem.
Multidão, solidão: termos iguais e permutáveis para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão, não sabe também ficar sozinho numa multidão azafamada.
O poeta usufrui do incomparável privilégio de poder ser, à sua vontade, ele próprio e outrem. Como essas almas errantes que buscam um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de cada um. Apenas para ele tudo está desocupado; e se certos lugares parecem estar-lhe fechados, é que a seus olhos não valem a pena de ser visitados.
O passeante solitário e pensativo extrai uma singular ebriez dessa comunhão universal. Aquele que desposa facilmente a multidão conhece prazeres febris, de que serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso, aprisionado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta.
O que os homens chamam amor é algo bem pequeno, bem restrito e bem fraco, comparado a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma que se dá por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
Mesmo que apenas para humilhar por um momento seu tolo orgulho, é bom algumas vezes ensinar aos felizes deste mundo que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais refinadas. Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas embriaguezes; e, no seio da vasta família que o gênio deles formou para si, devem rir algumas vezes daqueles que os lamentam por seu destino tão agitado e por sua vida tão casta.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

18/01/2025

A mulher selvagem e a pedante


Minha cara, você na verdade me cansa sem medida e sem piedade; dir-se-ia, ao ouvi-la suspirar, que você sofre mais do que as respigadoras sexagenárias e do que as velhas mendigas que recolhem restos de pão na porta das tabernas.
Se ao menos os seus suspiros exprimissem remorso, teriam algo de honroso; mas só traduzem a saciedade do bem-estar e a sobrecarga do repouso. E, depois, você não para de se alastrar em palavras inúteis: ‘Amem-me bem! tenho tanta necessidade disso! Consolem-me aqui, acariciem-me ali!’. Veja, vou tentar curá-la; encontraremos talvez o método para tal, por uma ninharia, no meio de uma festa, e sem ir muito longe.
Consideremos bem, eu lhe peço, esta sólida jaula de ferro por trás da qual se agita, urrando como um condenado, sacudindo as barras como um orangotango exasperado pelo exílio, imitando, à perfeição, ora os saltos circulares do tigre, ora os bamboleios estúpidos do urso-branco, esse monstro peludo cuja forma imita bastante vagamente a sua.
Esse monstro é um desses animais que em geral são chamados de ‘meu anjo!’, ou seja, uma mulher. O outro monstro, o que grita a toda, com um bastão na mão, é um marido. Acorrentou sua mulher legítima, como se fosse um animal, e a exibe pelos arrabaldes, nos dias de feira, com permissão dos magistrados, nem é preciso dizer.
Preste bem atenção! Veja com que voracidade (não simulada talvez!) ela lacera coelhos vivos e aves a piar que seu condutor lhe joga. ‘Vamos’, diz ele, ‘não é preciso comer num só dia tudo o que se tem’, e com esse sábio comentário ele lhe arranca cruelmente a presa, cujas tripas esvaziadas ficam por um instante agarradas nos dentes do animal feroz, da mulher, quero dizer.
Vamos! Uma boa bordoada para acalmá-la! pois os terríveis olhos de avidez dardejam em direção ao alimento retirado. Meu Deus! o bastão não é um bastão de comédia, você ouviu ressoar a carne dela, apesar do pelame postiço? Também os olhos agora lhe saem da cabeça, ela urra mais naturalmente. Em sua fúria, ela faísca por inteiro, como o ferro quando é batido.
Esses são os costumes conjugais desses dois descendentes de Eva e Adão, essas obras de vossas mãos, ó meu Deus! Essa mulher é incontestavelmente infeliz, embora talvez não lhe sejam desconhecidos, afinal, os titilantes prazeres da glória. Há desditas mais irremediáveis, e sem compensação. Todavia, no mundo em que foi jogada, nunca pôde acreditar que a mulher merecesse outro destino.
Agora, é conosco, querida pedante! Quando vemos os infernos de que o mundo está povoado, que quer você que eu pense de seu bonito inferno, você que só descansa sobre tecidos tão suaves quanto sua pele, que só come carne cozida e para quem um hábil empregado cuida de cortar os pedaços?
E que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que incham seu peito perfumado, minha robusta coquete? E todas essas afetações aprendidas nos livros, e essa incansável melancolia, destinada a inspirar ao espectador um sentimento muito diferente da piedade? Na verdade, às vezes tenho vontade de lhe ensinar o que é a verdadeira infelicidade.
Ao vê-la assim, minha bela delicada, os pés na lama e os olhos voltados vaporosamente para o céu, como que para lhe pedir um rei, dir-se-ia verossimilmente que se trataria de uma jovem rã a invocar o ideal. Se você despreza o tíbio (o que sou agora, como você sabe muito bem), preste atenção no grou que a mastigará, a devorará e a matará a seu bel-prazer!
Por mais poeta que eu seja, não sou tão tolo como você gostaria de me considerar, e se você me cansa, muito frequentemente, com suas lamúrias preciosas, eu a tratarei como mulher selvagem, ou a jogarei pela janela, como uma garrafa vazia.”

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

18/12/2024

À uma da madrugada


Enfim! sozinho! Só se ouve o rolar de alguns fiacres atrasados e derreados. Durante algumas horas possuiremos o silêncio, quando não o repouso. Enfim! a tirania da face humana desapareceu, e só sofrerei graças a mim mesmo.
Enfim! é-me permitido então relaxar num banho de trevas! Primeiro, uma volta dupla na fechadura. Parece-me que essa volta da chave aumentará minha solidão e fortalecerá as barricadas que me separam atualmente do mundo.
Horrível vida! Horrível cidade! Recapitulemos o dia: ter visto vários homens de letras, um dos quais me perguntou se se podia ir à Rússia por via terrestre (sem dúvida tomava a Rússia por uma ilha); ter discutido generosamente com o diretor de uma revista, que a cada objeção respondia: “Este é o partido dos cavalheiros”, o que implica que todos os outros jornais são redigidos por tratantes; ter cumprimentado umas vinte pessoas, das quais quinze me são desconhecidas; ter distribuído apertos de mão na mesma proporção, e isso sem ter tomado a precaução de comprar luvas; para matar o tempo durante uma chuvarada, ter subido até a morada de uma dançarina que me pediu para lhe desenhar um traje de Vénustre; ter cortejado um diretor de teatro, que me disse ao se despedir de mim: “O senhor talvez faça bem de se dirigir a Z.; é o mais pesado, o mais tolo e o mais célebre de todos os meus autores, com ele o senhor poderia talvez chegar a alguma coisa. Encontre-o, e depois veremos”; ter me gabado (por quê?) de várias baixas ações que nunca cometi e ter covardemente negado alguns outros malfeitos que realizei com alegria — delito de fanfarronada, crime de respeito humano; ter recusado a um amigo um favor fácil e dado uma recomendação escrita a um perfeito inescrupuloso; ufa! Acabou?
Insatisfeito com todos e insatisfeito comigo, eu queria redimir-me e orgulhar-me um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que cantei, fortaleçam-me, apoiem-me, afastem de mim a mentira e os vapores corruptores do mundo, e vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo!

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

09/12/2024

O mau vidraceiro


Há tipos naturalmente contemplativos e que não são feitos para agir. Levados, entretanto, por um impulso misterioso e desconhecido, são capazes de agir com uma rapidez da qual eles próprios não se acreditariam capazes.
Um tipo que, temendo receber do porteiro uma má notícia, hesita por uma hora diante da própria porta sem ousar entrar, um tipo que guarda consigo uma carta por quinze dias sem abrir o envelope, um tipo que leva ainda seis meses para tomar uma iniciativa aguardada há anos: todos esses, em algum momento, sentem-se irresistivelmente levados à ação por uma força brusca, como a flecha lançada de um arco. O moralista e o médico, que pretendem tudo saber, não podem explicar de onde irrompe tamanha energia em almas preguiçosas e lânguidas, e como, incapazes de realizar as coisas mais simples e necessárias, elas encontram em certas ocasiões aquele excedente de coragem que lhes permite executar os atos mais absurdos e muitas vezes os mais temerários.
Um dos meus amigos, o sonhador mais inofensivo que já existiu, incendiou uma vez uma floresta apenas para ver, defendia-se ele, se o fogo se alastrava mesmo com a facilidade que geralmente se afirma. Por dez vezes seguidas o experimento falhou, mas na décima primeira tentativa o resultado foi tremendo.
Haverá quem acenda um charuto ao lado de um barril de pólvora apenas para ver, para tentar a sorte ou por curiosidade, exigindo de si mesmo uma prova de ousadia, bancando o espertalhão que se dá ao luxo de alguma ansiedade, de um capricho despropositado, de uma loucura.
Esse é um tipo de energia que surge do tédio e da fantasia; aqueles em que ela se manifesta de forma tão determinada são, em geral, como disse, os indivíduos mais indolentes e sonhadores. Um outro, tímido a ponto de que até o olhar das pessoas o incomoda, daqueles que precisam reunir todas as suas parcas forças para entrar em um café ou teatro, porque os coletores de bilhetes lhe parecem mais majestosos que Minos, Eaco e Radamante – esse por pouco não estrangula o velhinho que lhe passa ao lado, tal é o entusiasmo com que o abraça diante da multidão espantada.
Por quê? Porque... porque não conseguiu resistir à simpatia daquele semblante? Talvez, mas faz mais sentido pensar que nem ele saiba o porquê.
Mais de uma vez fui vítima desses acessos, desses arrebatamentos repentinos, que nos autorizam a pensar que demônios maliciosos se insinuam em nós, obrigando-nos a dar vazão, sem nem mesmo percebermos, aos seus impulsos mais absurdos.
Uma manhã, mal-humorado e triste, cansado da mesmice, levantei-me aparentemente disposto a realizar um grande feito. Um feito tremendo, estrondoso! Foi assim que abri a janela.
(Peço que considerem que o talento mistificador, que em algumas pessoas não resulta de um trabalho ou estratégia, mas da inspiração fortuita, é um elemento-chave, pelo menos quanto à força do desejo, dessa disposição, histérica segundo os médicos, satânica segundo aqueles que pensam um pouco melhor que os médicos, a qual nos impele automaticamente a uma série de ações perigosas e inconvenientes.)
A primeira pessoa que vi na rua foi um vidraceiro, cujo grito estridente e horroroso subiu até mim atravessando a pesada e suja atmosfera parisiense. Parece-me agora impossível dizer por que fui tomado, contra esse homem, de uma raiva tão repentina quanto despótica.
Ei, ei! – gritei a fim de chamá-lo.
Meu quarto ficava no sexto andar, e a escada era bem estreita, foi o que refleti. E não pude deixar de sorrir diante da imagem do homem tendo de desviar, a todo o momento, ao subir, os cantos da sua frágil mercadoria.
Quando ele por fim apareceu, examinei curiosamente todos os vidros e disse:
Mas como! O senhor não tem vidros coloridos? Nenhum vidro rosa, vermelho, azul? Nenhum vidro mágico, que abra a janela do paraíso? Mas que impertinência! O senhor vem passear no bairro dos pobres e não traz consigo nada que faça ver a beleza da vida?
E então empurrei-o com força em direção à escada, onde ele tropeçou resmungando.
Aproximei-me do parapeito, peguei um vasinho de flor e, logo que o homem reapareceu saindo pela porta, deixei cair perpendicularmente a minha máquina de guerra sobre a quina posterior dos seus cavaletes; o choque desequilibrou-o, e o homem terminou de quebrar sob as costas toda aquela sua miserável fortuna ambulante, que produziu o estrondo de um palácio de cristal atingido por um raio.
Exaltado com o meu feito, eu lhe gritava furioso:
A beleza da vida! A beleza da vida!
Essas peças que os nervos nos pregam são muitas vezes perigosas, e podem custar caro. Mas o que importa a danação eterna a quem descobriu no espaço de um segundo a volúpia infinita?

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

02/12/2024

O cachorro e o frasco


Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.
E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

21/11/2024

O Louco e a Vênus


Que dia maravilhoso! O vasto parque se deleita sob o irradiar intenso do sol, assim como a juventude sob o domínio do Amor.
O êxtase universal das coisas não se trai por nenhum ruído; os próprios córregos parecem dormir. Diferentemente das festas humanas, a orgia aqui é silenciosa.
Uma luz cada vez mais ardente faz brilhar e brilhar os objetos; as flores excitadas queimam do desejo de rivalizar com o azul do céu pela energia das suas cores; o calor, tornando visíveis os perfumes, soergue-os até o astro, como vapores.
Entretanto, em meio a essa universal alegria, pude distinguir um ser aflito.
Aos pés de uma Vênus colossal, via-se um desses falsos loucos, um desses bufões que se prestam a divertir os reis quando o Remorso ou o Tédio os obseda; ataviado em um traje berrante e ridículo, coroado de cornos e de guizos, acachapado de encontro ao pedestal, dirigia ele os olhos cheios de lágrimas à divina Deusa.
Os olhos diziam:
Sou o último e o mais solitário dos humanos, privado de amor e de amizade, e nisso muito inferior ao mais imperfeito dos animais. Fui criado, entretanto, também eu, para admirar e sentir a Beleza imortal! Ah, Deusa! Tenha piedade da minha tristeza e do meu delírio!
Mas a Vênus, implacável, mirava sabe-se lá o que no horizonte, com seus olhos de mármore.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

16/11/2024

A cada um sua Quimera


Sob um pesado céu cinzento, numa planície ampla e empoeirada, sem caminhos, sem gramado, sem sequer um cardo, sem uma única urtiga, encontrei vários homens que marchavam encurvados.
Cada qual trazia nas costas uma enorme Quimera, pesada como um saco de farinha ou de carvão, ou como o equipamento de um soldado romano.
Mas a monstruosa besta não ficava um centímetro parada; ao contrário, ela cobria e oprimia o homem com seus músculos elásticos e vigorosos; ela se cravava com suas enormes garras ao tórax da sua montaria; e sua cabeça fabulosa coroava a fronte do homem, como um desses elmos horríveis usados por antigos guerreiros a fim de aumentar o terror dos inimigos.
Dirigi-me a um desses homens e perguntei aonde iam dessa forma. Ele me respondeu que nada sabia, nem ele e nem os outros; mas que iam evidentemente a algum lugar, pois eram levados por uma invencível necessidade de marchar.
Coisa curiosa: nenhum desses viajantes parecia incomodado com a besta feroz que trazia nas costas, agarrada ao seu pescoço; dir-se-ia que a consideravam como uma parte deles mesmos. Todos esses semblantes carregados e sérios não testemunhavam nenhum desespero; sob a cúpula do céu melancólico, com os pés chafurdados na poeira de um chão não menos desolado que o céu, eles avançavam com o olhar resignado daqueles cuja condenação é esperar sempre.
E o cortejo passou por mim e desapareceu na atmosfera do horizonte, aquele lugar em que a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.
E durante alguns instantes, não pude deixar de cismar com aquele mistério; mas logo a irresistível Indiferença caiu sobre mim, prostrando-me de tal maneira que a eles não os prostravam as suas debilitantes Quimeras.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

11/11/2024

O quarto duplo


Um quarto que parece fruto de um devaneio, um quarto realmente espiritual, no qual a atmosfera estagnada se pinta de suaves tons de rosa e azul.
A alma aí toma um banho de preguiça, aromatizada pelo arrependimento e o desejo. É qualquer coisa de crepuscular, de azulado e de rosáceo; um sonho voluptuoso durante um eclipse.
Os móveis têm formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis dão a impressão de sonhar; dir-se-ia que são dotados de uma vida sonambúlica, como o vegetal e o mineral. As almofadas falam um idioma mudo, assim como as flores, assim como os céus, assim como os sóis que se põem.
Nas paredes, nenhuma abominação artística. Comparada ao sonho em estado puro, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui, tudo tem a clareza suficiente da harmonia e sua deliciosa obscuridade.
Uma fragrância infinitesimal da escolha mais sofisticada, à qual se mistura uma muito sutil umidade, flutua nessa atmosfera onde o espírito, dormente, é embalado por sensações de estufa aquecida.
A musseline cai em abundância diante das janelas e diante da cama; ela se expande como uma espumosa cascata. Sobre o leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como veio parar aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico a instalou nesse trono de devaneio e de luxúria? Mas o que importa? Está aqui, e a reconheço!
Eis inconfundíveis seus olhos cuja chama atravessa o crepúsculo; sutis e terríveis espelhos cuja assustadora malícia reconheço! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram o olhar do imprudente que os contempla. Muitas vezes os estudei, admirado e curioso como diante de um sol negro.
A que demônio bem-intencionado devo essa atmosfera envolvente de mistério, de paz e de perfumes? Oh beatitude! Aquilo que costumamos chamar de vida, mesmo nos momentos mais felizes de expansão, não tem nada de comum com essa vida suprema que agora experimento e saboreio a cada minuto, a cada segundo!
Não! Que minutos, que segundos? O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias!
Mas uma batida terrível, pesada, fez estremecer a porta e, como em um pesadelo infernal, senti ter levado uma agulhada na boca do estômago.
E em seguida um Espectro entrou. Um funcionário que vem me torturar em nome da lei; uma concubina infame que vem chorar misérias e acrescentar as trivialidades da sua vida às dores da minha; ou ainda o faz-tudo enviado pelo diretor do jornal a exigir a entrega do manuscrito.
O quarto paradisíaco, o ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda essa magia desapareceu com a batida brutal do Espectro.
Que horror! Agora lembro, lembro! Sim! Esse pardieiro, residência do tédio eterno, é bem o meu. Aí está a mobília vulgar, coberta de pó, lascada; a lareira sem chama e sem brasa, imunda de escarros: as melancólicas janelas em que a chuva cavou sulcos na poeira; os manuscritos, riscados ou incompletos; o calendário onde o lápis ressaltou as datas fatídicas!
E esse perfume de outro mundo, no qual eu me embriagava com uma refinada sensibilidade, ai de mim! Foi substituído pelo cheiro fedorento de tabaco misturado a sabe-se lá que tipo de mofo. Respira-se já aqui o ranço da desolação.
Nesse mundinho pequeno, mas farto de desgosto, só um objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; velha e espantosa amiga; como todas as amigas, aliás! Fértil em carícias e traições.
Ah, sim! O Tempo está de volta, o Tempo reina agora soberano; e junto com o velho repugnante retornou o seu cortejo demoníaco de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras, de Neuroses.
Eu lhes asseguro que todos os segundos são agora forte e solenemente acentuados, e cada um deles, brotando do pêndulo, diz:
Sou a Vida, insuportável, implacável!
Não há senão um segundo na vida humana cuja missão é anunciar uma boa nova, a boa nova que faz eclodir em todos esse medo inexplicável.
Sim! Reina o Tempo, em sua brutal ditadura. Ele me conduz, como se um boi eu fosse, com seu duplo aguilhão:
Anda! Puxa, burrico! Força, escravo! Vai, maldito!

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

05/11/2024

Um tipo divertido



Era a explosão do ano-novo: um caos de barro e de neve, atravessado por mil carroças, cintilando de brinquedos e doces, fervilhando de cobiças e desesperos, delírio oficial de uma cidade grande feito sob medida para perturbar o cérebro do solitário mais arredio.
Em meio a essa zoeira e barafunda, um asno trotava alerta, fustigado por um campônio armado de chicote.
Quando o animal estava prestes a fazer a curva numa esquina, um belo senhor de luvas, sapatos reluzentes, cruelmente engravatado e que mal se mexia no seu traje todo novo inclinou-se solene diante da humilde besta e lhe disse, tirando o chapéu:
Feliz ano-novo!
Em seguida virou-se na direção de sabe-se quem, pleno de satisfação, como para colher os cumprimentos que lhe seriam prestados pelos amigos.
O asno passou reto pelo belo tipo, e continuou a correr zeloso conforme lhe era exigido pelo dever.
Quanto a mim, fui tomado de uma raiva inexprimível daquele magnífico imbecil, que me pareceu concentrar em si o verdadeiro espírito da França.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

31/10/2024

O confiteor do artista


Como são prementes os dias de outono! Ah! Prementes a ponto de machucar! Pois há certas sensações deliciosas cuja indefinição não exclui a intensidade; e não há nada mais pungente que a ponta do Infinito.
Que delícia indizível ter o olhar disperso na imensidão do céu e do mar! Solidão, silêncio, inocência incomparável do azul! A vela de uma pequena embarcação que vibra no horizonte, e que pelo seu tamanho diminuto e isolamento imita minha existência irremediável, melodia monótona do marulho; todas essas coisas pensam através de mim, ou eu penso através delas (pois, na desmesura do devaneio, o eu se perde depressa!); essas coisas pensam, eu digo, mas musicalmente e de forma pitoresca, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções.
Em todo o caso, esses pensamentos, saiam eles de mim ou se lancem das coisas, cedo se tornam intensos. A energia que há na volúpia cria um mal-estar e um suspense positivos. Meus nervos retesados não proporcionam senão sensações gritantes e dolorosas.
E eis que a vastidão do céu me oprime, sua translucidez me exaspera. A falta de sensibilidade do mar, o caráter imutável do espetáculo me revoltam... Ah! Deve-se sofrer eternamente, ou eternamente fugir do belo? Natureza, feiticeira sem piedade, rival sempre vitoriosa, larga-me! Chega de provocar os meus desejos e o meu orgulho! O estudo do belo é um duelo no qual o artista grita de susto antes de ser vencido.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

27/10/2024

O desespero da velha



Diante do menino, por todos festejado, por todos paparicado, a velhinha enrugada deteve-se faceira: bela criatura, tão frágil quanto a velha e, como ela, sem dentes nem cabelos.
E dele a velhinha também se aproximou, querendo agradá-lo com gestos e sorrisos. Mas o menino horrorizado se debatia debaixo das carícias da boa senhora decrépita, e fazia a casa toda ressoar com seu alarido.
A boa velha então se recolheu à solidão que desde sempre a aguardava. Em um canto, repetia a si mesma entre lágrimas:
Ah! Para nós, mulheres infelizes e velhas, passou a época de ser agradável, mesmo aos inocentes; e aos pequenos que desejamos amar, a esses apavoramos.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

22/10/2024

O estrangeiro

Diga-me, homem enigmático, a quem você mais ama? Seu pai, sua mãe, sua irmã ou seu irmão?
Nem pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão eu tenho.
Amigos?
O senhor se vale de uma palavra cujo sentido até hoje me é desconhecido.
Sua pátria?
Não sei em que latitude ela se situaria.
A beleza?
De boa vontade eu a amava, deusa e imortal.
O ouro?
Eu o odeio tanto quanto o senhor odeia Deus.
Estrangeiro fora do comum! Afinal, você não gosta de nada?
Gosto das nuvens... das nuvens que passam longe... Das nuvens inacreditáveis!

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa