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30/04/2024

O sonhado

Careço de realidade, temo não interessar a ninguém. Sou um farrapo, um dependente, um fantasma. Vivo entre temores e desejos; temores e desejos que me dão vida e que me matam. Já disse que sou um farrapo.
Jazo nas sombras, em grandes e incompreensíveis esquecimentos. De repente me obrigam a sair à luz, uma luz cega que quase me assegura a realidade. Porém logo se ocupam deles mesmos e me esquecem. Novamente perco-me na sombra, gesticulando com ademanes cada vez mais imprecisos, reduzido ao nada, à esterilidade.
A noite é o meu próprio império. Em vão trata de afastar-me o esposo, crucificado em seu pesadelo. As vezes satisfaço vagamente, com agitação e torpeza, o desejo da mulher que se defende sonhando, encolhida, e que finalmente se entrega, grande e macia como um travesseiro.
Vivo uma vida precária, dividida entre estes dois seres que se odeiam e se amam, que me fazem nascer como um filho deformado. Não obstante, sou belo e terrível. Destruo a tranquilidade do casal, ou a inflamo com o mais cálido amor. As vezes me coloco entre os dois, e o abraço íntimo me faz recobrar, maravilhoso. Ele percebe a minha presença e se esforça para aniquilar-me, para tomar o meu lugar. Mas finalmente, derrotado, exausto, vira as costas para a mulher, devorado pelo rancor. Permaneço junto a ela, palpitante, e a cinjo com meus braços ausentes que pouco a pouco se dissolvem no sonho.
Deveria ter começado dizendo que ainda não acabei de nascer, que sou gerado lentamente, com angústia, em um processo longo e submerso. Eles maltratam com seu amor, inconscientes, minha existência de nonato.
Trabalham longamente a minha vida entre seus pensamentos, mãos torpes que se empenham em modelar-me, fazendo-me e desfazendo-me, sempre insatisfeitos.
Porém um dia, quando por acaso derem com minha forma definitiva, escaparei e poderei sonhar-me eu mesmo, vibrante de realidade. Afastar-se-ão eles, um do outro. E eu abandonarei a mulher e perseguirei o homem. E montarei guarda a porta da alcova brandindo uma espada flamejante.

Juan José Arreola, in Confabulário total

03/04/2024

Inferno V

Altas horas da noite despertei de repente na borda de um abismo anormal. Ao lado da minha cama, uma falha geológica cortada em pedra sombria despencou em semicírculos, borrada por um tênue vapor nauseabundo e uma revoada de aves escuras. De pé sobre sua cornija de escórias, quase suspenso na vertigem, uma personagem irrisória e coroada de louro estendeu-me a mão convidando-me a descer.
Recusei, amavelmente, invadido por um terror noturno, dizendo que todas as expedições dentro do homem terminam sempre em vão e em superficial palavreado.
Preferi acender a luz e me deixar cair outra vez na profunda monotonia dos tercetos, ali onde uma voz que fala e chora ao mesmo tempo, me repete que não há dor maior do que a de lembrar-se na miséria dos tempos que foram felizes.

Juan José Arreola, Confabulario total, in Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges