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17/11/2021

34 de março. Fevereiro, 349

Não, eu já não tenho forças para aguentar. Oh, Deus! O que eles estão fazendo comigo? Eles jogam água gelada na minha cabeça. Eles não se importam comigo e parecem não me ver ou ouvir. Por que eles me torturam? O que eles querem de alguém arruinado como eu? O que posso dar-lhes? Eu não possuo nada. Eu não consigo suportar as torturas; minha cabeça dói como se tudo estivesse girando ao meu redor. Salvem-me! Levem-me embora! Deem-me três montarias rápidas como o vento! Prepare a carruagem, cocheiro, toque os sinos, galope os cavalos e me carregue embora deste mundo. Para longe, sempre para longe, até não haver mais o que ver!
Ah! Os céus já se curvam sobre mim; uma estrela brilha distante; a floresta passa por nós com suas árvores escuras à luz da Lua; Uma névoa azulada flutua sob meus pés; música toca nas nuvens; de um lado está o mar, do outro, a Itália; além, eu vejo as casas dos camponeses russos. Não é a casa dos meus pais ali na distância? Não é a minha mãe sentada à janela? Oh mãe, mãe, salve seu infeliz filho! Deixe uma lágrima escorrer em sua cabeça machucada! Veja como eles o torturam! Segure este pobre órfão em seu colo! Ele não tem trégua neste mundo; eles o caçam em todos os lugares.
Mãe, mãe, tenha dó de seu filho doente! E você sabia que o Sultão da Algéria tem uma verruga sob seu nariz?

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

08/11/2021

Dia 25

Hoje o Inquisidor-Mor veio ao meu quarto; quando eu ouvi os seus passos à distância, me escondi sob a cadeira. Quando ele não me viu, passou a chamar. No começo ele chamou “Poprishchin!” e eu não respondi. Então ele chamou “Axanti Ivanovich! Conselheiro Titular! Nobre!” e eu mantive o silêncio. “Ferdinando VIII, Rei da Espanha!” e eu estava a ponto de colocar a cabeça para fora, mas pensei “não, meu caro, você não vai me enganar! Você não vai despejar água gelada na minha cabeça de novo!”
Mas ele já me havia visto e me empurrou para fora com seu bastão. O maldito bastão realmente machuca. Mas a seguinte descoberta me recompensou toda a dor: todos os galos tem uma Espanha sob as penas, e bem sob a cauda. O Inquisidor-Mor foi embora nervoso e ameaçou-me com castigos. Mas eu não me importo com o rancor dele, pois sei que ele não é mais que uma máquina, uma ferramenta nas mãos dos ingleses.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

21/10/2021

Madri, dia 30 de Fevereiro

Então eu estou na Espanha, finalmente! Aconteceu tão rápido que eu mal pude entender. Os dignitários espanhóis vieram esta manhã e eu fui com eles na carruagem. Essa prontidão inesperada me pareceu estranha. Nós guiamos tão rápido que em meia hora nós estávamos na fronteira da Espanha. Por toda a Europa há esses trilhos de ferro fundido e os trens são muito velozes. Um país maravilhoso, essa Espanha!
Conforme nós entramos no primeiro salão, eu vi diversas pessoas com as cabeças raspadas. Eu logo imaginei que eles devem ser nobres ou soldados, a julgar pelas cabeças raspadas.
O Chanceler de Estado que me levava pelas mãos parecia se portar de uma forma esquisita; ele me empurrou para um pequeno cômodo e disse “Fique aqui, e se você disser se chamar ‘Rei Ferdinando’ de novo, eu vou arrancar essas palavras de você.”
Eu sabia, contudo, que isso era apenas um teste, e eu repeti a minha convicção; ao que o Chanceler me deu dois golpes tão fortes com um bastão nas costas que eu poderia ter berrado de dor. Mas eu me contive, me lembrando que essa era uma cerimônia tradicional da nobreza para quando alguém era conduzido a um alto posto, e que na Espanha as tradições da nobreza perduram até o presente dia. Quando eu fiquei sozinho, me pus a estudar as questões de Estado; eu descobri que a Espanha e a China são o mesmo país, e é por ignorância que as pessoas acham que são reinos separados. Eu recomendo que todos logo escrevam a palavra “Espanha” em uma folha de papel; logo se verá que é o mesmo que escrever “China”.
Mas eu fiquei muito incomodado por um evento que acontecerá amanhã; às sete horas a Terra vai cair sobre a Lua. Isso foi previsto pelo famoso químico britânico Welington. Para dizer a verdade, eu costumo ficar inquieto quando penso na excessiva fragilidade da Lua. A Lua é geralmente consertada em Hamburgo, e de forma muito imperfeita. O serviço é feito por um péssimo artesão, um sujeito estúpido que não tem ideia do que está fazendo. Ele usa fios encerados com azeite – daí esse cheiro pungente sobre toda a Terra que faz as pessoas cobrirem o nariz. E isso deixa a Lua tão frágil que ninguém consegue morar nela. Logo, nós não conseguimos ver nossos próprios narizes, já que eles estão na Lua.
Quando eu imaginei comigo mesmo como a Terra, esse corpo maciço, esmagaria nossos narizes se caísse sobre a Lua eu fiquei tão inquieto que imediatamente vesti minhas meias e calcei meus sapatos e me apressei para o salão do Conselho para dar ordens à policia para evitar que a Terra caia sobre a Lua.
Os nobres de cabeça raspada, os quais eu encontrei em grande número no salão, eram pessoas inteligentes e quando eu gritei “Cavalheiros! Vamos salvar a Lua, pois a Terra cairá sobre ela!” todos trabalharam para cumprir a minha ordem imperial e muitos treparam nas paredes para puxar a Lua para baixo. Nessa hora o Chanceler Imperial entrou. Tão logo ele apareceu, todos se dispersaram, mas somente eu, como Rei, permaneci. Para minha surpresa, contudo, o Chanceler me bateu com o bastão e me enxotou para os meus aposentos. Como é forte o respeito à tradição na Espanha!

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

15/10/2021

Dia 86 de Marcembro. No meio do dia e da noite

Hoje o mensageiro do escritório veio me convocar, já que não estive lá em três semanas. Eu fui apenas por diversão. O Escriturário Chefe pensou que eu fosse cumprimentá-lo humildemente e inventar desculpas; mas eu o encarei com indiferença, nem bravo, nem calmo, e me sentei em meu lugar como se não tivesse notado ninguém. Eu olhei para aquela gentalha de escrivães e pensei “Se vocês apenas soubessem quem está entre vocês! Céus! Que bagunça vocês fariam. Até o Escriturário Chefe se curvaria até o chão na minha frente como ele faz com o Diretor”.
Uma pilha de relatórios foi colocada à minha frente, para que fossem feitos as ementas, mas eu não encostei um dedo sequer.
Após algum tempo houve uma agitação no escritório e se comentou que o Diretor estava chegando. Muitos dos funcionários competiam para chamar atenção; mas eu não me movi. Quando ele chegou à nossa sala, cada um correu a abotoar os casacos; mas eu nem pensei em fazer algo do tipo. O que é o Diretor para mim? Devo me levantar perante ele? Nunca. Que tipo de Diretor ele é? Ele é uma tampa de garrafa e não um diretor. Uma simples e comum tampa de garrafa – nada mais.
Eu me diverti quando me trouxeram um documento para assinar. Eles pensaram que eu simplesmente escreveria o meu nome – “fulano de tal, Conselheiro”. E por que não? Mas no topo da página, onde o Diretor geralmente escreve o seu nome, eu anotei, em letras grandes “Ferdinando VIII”. Você deveria ver o silêncio reverencial que se fez. Mas eu fiz um gesto e disse “Cavalheiros, nada de cerimônia, por favor!”. Então eu saí e tomei o rumo da casa do Diretor.
Ele não estava em casa. O mordomo não quis me deixar entrar, mas eu falei com ele de um jeito que o fez ceder.
Eu fui direto ao vestíbulo da Sophie. Ela estava sentada na frente do espelho. Quando ela me viu, pulou da cadeira e deu um passo para trás; mas eu não contei para ela que eu era o Rei da Espanha.
Mas eu contei para ela que a felicidade a aguardava, além do que ela poderia imaginar; e que apesar das tramas dos nossos adversários nós deveríamos nos unir. Isso era tudo o que eu queria lhe dizer, e eu saí. Oh, que criaturas astutas são as mulheres! Agora eu percebi o que a mulher realmente é. Até agora ninguém sabia quem uma mulher ama; eu sou o primeiro a descobrir – ela ama o demônio – e isso é tudo. Você vê uma mulher usando seus binóculos no teatro, de um camarote na primeira fila. Alguém pensaria que ela observa aquele cavalheiro ostentando suas medalhas. Nem um pouco! Ela está observando o demônio que fica atrás dele. Ele se esconde ali e acena para ela com o dedo. E ela se casa com ele – efetivamente – ela se casa com ele!
Essa é toda a sua ambição e o motivo é que sob a língua existe uma pequena bolha na qual há uma minhoquinha do tamanho da cabeça de um alfinete. E isso é preparado por um médico na Rua do Feijão; Eu não lembro o nome dele no momento, mas isso é tão certo que, juntamente com uma parteira, ele quer espalhar o islamismo pelo mundo todo, e em resposta um grande número de pessoas na França já adotou a crença de Maomé.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

11/10/2021

O ano 2000: Dia 43 de Abril

Hoje é um dia de esplêndido triunfo. A Espanha tem um Rei; ele foi encontrado, e eu sou ele. Eu descobri isso hoje; Do nada, isso me atingiu como um relâmpago.
Eu não entendo como eu pude imaginar que eu seria um Conselheiro Titular. Como pode uma ideia tola dessas entrar na minha cabeça? Foi sorte ninguém ter pensado em me enfiar em um hospício. Agora está claro como cristal. Antes – não sei por que – tudo parecia envolto em um tipo de névoa. E isso se deu, creio eu, pelo fato das pessoas pensarem que o cérebro fica na cabeça. Nada disso; ele é carregado pelo vento desde o Mar Cáspio.
Pela primeira vez eu contei à Mawra quem sou eu. Quando ela percebeu que estava diante do Rei da Espanha, ela levou as mãos à cabeça e quase morreu de preocupação. A estúpida nunca havia posto os olhos no Rei da Espanha antes!
Eu a acalmei, contudo, garantindo que não fiquei bravo com ela por ter limpado mal as minhas botas até hoje. As mulheres são umas coisinhas estúpidas; não se pode despertar nelas o interesse por assuntos majestosos. Ela ficou assustada por que pensou que todos os Reis da Espanha eram como Filipe II. Mas eu expliquei a ela que havia uma grande diferença entre eu e ele. Eu não fui ao escritório. Por que diabos eu deveria? Não, meus caros amigos, não me verão lá novamente! Não vou mais me preocupar com os seus documentos infernais.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

01/10/2021

Dia 12 de Novembro

Hoje lá pelas duas da tarde eu decidi, de um jeito ou de outro, encontrar a Fidel e questioná-la.
Eu não suporto o cheiro de chucrute que vem de todas as lojas da Rua do Cidadão e que me ataca os nervos olfativos. Ali também é exalado um odor por debaixo das portas de cada construção que se deve tampar o nariz e apertar o passo. Ali também sopra tanta fumaça e cinzas das oficinas dos artesãos que é quase impossível atravessar.
Quando eu subi até o sexto andar e toquei a campainha, uma garota até bem bonita com sardas no rosto saiu. Eu a reconheci como a acompanhante da senhora. Ela ficou um pouco vermelha e perguntou “O que você quer?”
Eu quero ter uma pequena conversa com a sua cadela.”
Ela era apenas uma garota simplória, como eu percebi imediatamente. A cadela veio correndo e latindo alto. Eu queria segurá-la, mas a besta abominável quase me pegou o nariz com os dentes. Mas no canto do cômodo eu vi a sua cesta de dormir. Ah! Era isso o que eu queria. Eu fui até ela, vasculhando na palha, e para minha grande satisfação encontrei um punhado de pedaços de papel. Quando a cadelinha horrível viu isso, primeiro ela me mordeu na panturrilha de uma perna, e então, assim que percebeu o meu furto, começou a choramingar e a se roçar em mim; mas eu disse “Não, sua pequena fera; Adeus!” e me apressei a sair.
Eu acredito que a garota me tomou por um louco; de qualquer forma ela ficou bastante assustada.
Quando eu cheguei no meu quarto eu quis passar ao trabalho de uma vez, e ler todas as cartas à luz do dia, já que eu não enxergo muito bem à luz de velas; mas a terrível Mawra teve a brilhante ideia de esfregar o chão. Essas mulheres finlandesas cabeças-duras estão sempre limpando onde não há necessidade.
Eu então fui dar uma caminhada e passei a refletir sobre o que ocorreu. Agora pelo menos eu poderia chegar à verdade dos fatos, ideias e intenções! Essas cartas explicariam tudo. Cães são sujeitos espertos; eles sabem tudo sobre política, e eu certamente encontrarei o que eu busco nas cartas, especialmente o caráter do Diretor e todos os seus relacionamentos. E por meio dessas cartas eu vou obter toda a informação sobre ela que – mas silêncio!
Mais a tarde eu cheguei em casa e me deitei por um bom tempo na cama.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

23/09/2021

Dia 11 de Novembro

Hoje eu me sentei na sala do Diretor, apontei vinte e três lápis para ele, e para ela – para Sua Excelência, Ela – apontei mais quatro.
O Diretor gosta de ver muitos lápis sobre a sua mesa. Que cabeça ele deve ter! Ele continuamente se envolve em silêncio, mas eu não acho que o menor detalhe lhe escape. Eu gostaria de saber o que ele pensa, o que lhe passa pelo cérebro; eu gostaria de conhecer todas as maneiras desses cavalheiros, e ter uma vista de perto da arte da astúcia na Corte, e todas as atividades desses círculos. Eu já pensei em perguntar para Sua Excelência algumas vezes; mas – Deus sabe o porquê – toda as vezes minha língua me falhou e eu não consegui nada além do relatório meteorológico.
Eu gostaria de dar uma olhada no gabinete do qual eu tanto vejo a porta se abrir. E um segundo aposento após o gabinete atiça a minha curiosidade. Que mobília esplêndida; que qualidade de espelhos e que escolha de porcelanas contém! Eu também gostaria de ver os aposentos que Sua Excelência, a filha, reside. Eu gostaria de ver como todos os vidros de perfume e caixas estão arrumados em seu vestíbulo, e as flores que exalam um perfume tão delicioso que me dariam receio de respirar. E as roupas dela caídas pelo lugar, que são tão etéreas que mal podem ser chamadas de roupas-mas silêncio!
Hoje me ocorreu o que pareceu uma inspiração divina. Eu me lembrei da conversa entre os dois cachorros que eu ouvi na Alameda
Nevsky. “Muito bem” eu pensei; “agora eu vejo claramente. Eu preciso obter a correspondência que aquelas cadelinhas trocaram entre si. Nela eu devo obter muitas explicações”.
Eu já tinha chamado a Meggy e dito para ela “Ouça, Meggy! Agora nós estamos sós, juntos; se você quiser, eu posso fechar a porta para que ninguém nos veja. Agora me conte tudo que você sabe sobre a sua dona. Eu juro para você que não contarei a ninguém.”
Mas a cadela astuta agitou a sua cauda no ar e andou em silêncio até a porta, como se não tivesse me ouvido.
Eu já era há tempos da opinião de que cães são mais espertos do que homens. Eu também acreditava que eles podiam falar, e que apenas uma certa obstinação os impedia. Eles são animais especialmente vigilantes e nada lhes escapa à observação. Agora, custe o que custar, amanhã eu vou ao prédio do Sverkoff para questionar a Fidel, e se eu tiver sorte, obter as cartas que a Meggy lhe escreveu.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

19/09/2021

Dia 6 de Novembro

Nosso Escriturário Chefe ficou louco. Quando eu cheguei hoje no escritório ele me chamou para a sua sala e disse o seguinte: “Olha aqui, meu amigo, o que você tem na cabeça?”
O que? Como? Nada demais”, eu respondi.
Pense bem. Você já passou dos quarenta; é hora de ser razoável. Está pensando o quê? Acha que eu não conheço todos os seus truques? Você está tentando cortejar a filha do Diretor? Olhe para si mesmo e veja o que você é! Um insignificante, nada mais. Eu não daria um tostão por você. Se olhe no espelho. Como você pode ter uma ideia dessas com um rosto de caricatura desses?”
Ele que vá para o Diabo! Só por que a cara dele parece um pote de remédios, por que ele tem uma moita crespa no lugar de cabelos na cabeça, e às vezes a penteia para cima, e às vezes a cola para baixo em vários penteados esquisitos, ele pensa que pode tudo. Eu sei bem, eu sei por que ele ficou bravo comigo. Ele tem inveja; talvez ele tenha percebido os favores que eu graciosamente tenho recebido. Mas por que eu me importaria com ele? Um mero escriturário! Que tipo de animal importante é esse? Ele usa uma corrente de ouro em seu relógio, compra para si botas de trinta rublos o par; para o diabo com ele! Seria eu o filho de um reles alfaiate ou de outra origem obscura? Eu sou um nobre! Eu também posso subir na vida. Eu tenho apenas quarenta e dois anos – uma idade em que a verdadeira carreira de um homem geralmente está começando. Espere um momento, meu amigo! Eu também posso chegar a um cargo de supervisor; ou talvez, com a graça de Deus, até mais alto. Eu terei um nome que superará em muito o seu. Você acha que não há outros homens capazes além de você? Eu só preciso encomendar um casaco da moda e usar uma gravata como a sua, e você será eclipsado.
Mas eu não tenho dinheiro – essa é a pior parte!

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

15/09/2021

Dia 4 de Outubro

Hoje é quinta-feira e como é usual estive no escritório. Cheguei cedo de propósito, me sentei e apontei todos os lápis.
Nosso Diretor deve ser um homem muito inteligente. A sala toda está repleta de estantes. Eu li o título de alguns dos livros; eles eram muito técnicos, além da compreensão de gente da minha classe, e todos em francês ou alemão. Eu olho em seu rosto e oh! quanta dignidade há em seus olhos. Eu nunca ouvi uma única palavra supérflua sair de sua boca, exceto quando ele me entrega os documentos e pergunta “Como está o tempo lá fora?”
Não, ele não é um homem da nossa classe; ele é um verdadeiro homem de Estado. Eu já percebi que sou um favorito dele. Agora se também o fosse de sua filha – ah! Que besteira – não direi mais sobre isso!
Eu li o Abelha do Norte. Que povo besta são os franceses! Céus! Eu gostaria de pegar todos eles e lhes dar uma bela surra. Eu também li uma bela descrição de um baile promovido por um proprietário de terras em Kursk. Os proprietários de terras em Kursk têm muito estilo.
Então eu percebi que já era meio dia e meio e o Diretor ainda não havia saído de seu gabinete. Mas lá pela uma e meia aconteceu algo que lápis algum pode descrever.
A porta se abriu. Eu pensei que fosse o Diretor; saltei do meu lugar com os documentos, e-então-ela-mesma-entrou-na-sala. Deuses! Como ela estava lindamente vestida. Suas vestes eram mais brancas que as penas de um cisne – oh, esplêndida! O brilho de um Sol, em verdade!
Ela me cumprimentou e perguntou “Meu pai ainda não saiu?”
Ah! Que voz. Um canário! Um verdadeiro rouxinol!
Sua Excelência” eu queria gritar “não mande que me executem, mas se deve ser feito, mate-me com suas mãos angelicais”. Mas, sabe Deus porque, eu não consegui falar. Então eu disse “Não, ele não saiu ainda”.
Ela me olhou de relance, olhou para os livros nas estantes e deixou cair o seu lenço. No mesmo instante eu pulei, mas escorreguei no chão infernalmente encerado e quase quebrei o meu nariz. Mesmo assim, consegui pegar o lenço. Pelos corais do paraíso, que lenço! Tão macio e suave, do melhor linho. Tinha um perfume digno de reis!
Ela me agradeceu, e sorriu tão amigavelmente que seus lábios de açúcar quase derreteram. Então ela saiu.
Depois que eu me sentei por quase uma hora, um serviçal entrou e me disse “Você pode ir para casa, Sr. Ivanovitch; o Diretor já foi embora!”
Eu não suporto esses serviçais! Eles perambulam pelos vestíbulos e mal se dignam a cumprimentar alguém com um aceno. Sim, às vezes é até pior; um desses patifes me ofereceu sua caixa de rapé sem nem mesmo se levantar. “Você não sabe, seu caipira simplório, que eu sou um oficial e nascido na aristocracia?”
Dessa vez, no entanto, eu peguei meu chapéu e meu casaco em silêncio; Essas pessoas naturalmente nunca pensam em ajudar os outros. Fui para a minha casa e fiquei um bom tempo deitado, e escrevi alguns versos no meu caderno:

Faz uma hora desde que te vi,
E parece um longo ano;
Se eu sofro com a minha própria existência,
Como posso seguir vivendo, minha querida?”

Acho que são de Pushkin.
Durante a noite eu me enrolei em minha capa e corri para a casa do Diretor, e esperei ali por muito tempo para ver se ela sairia e entraria na carruagem. Eu só queria vê-la uma vez, mas ela não veio.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco

10/09/2021

Dia 3 de Outubro

Ocorreu um fato estranho hoje. Eu me levantei bem tarde, e quando Mawra trouxe as minhas botas limpas, eu lhe perguntei quão tarde era. Quando escutei que já eram dez horas há tempos, me vesti o mais rápido possível.
Para dizer a verdade, eu preferiria nem ir ao escritório hoje, já sabendo que o nosso Escriturário Chefe estaria azedo como vinagre. Há algum tempo ele tem o hábito de me dizer, “Veja, amigo; há algo errado com a sua cabeça. Você vive correndo como um possuído. E você resume os documentos de uma forma tão confusa que nem o próprio diabo os entenderia; você escreve o título sem letras maiúsculas, e não coloca data ou o número da súmula.” Esse canalha de pernas finas! Certamente ele tem inveja de mim, por que eu me sento na mesma sala que o Diretor e aponto os lápis de Sua Excelência. Em resumo, eu não teria ido ao escritório senão na esperança de encontrar o contador e talvez espremer algum adiantamento do meu salário daquele mão de vaca.
Um homem terrível, esse contador! Se for para adiantar o salário de alguém vez ou outra – pode esperar o céu se abrir. Você pode implorar e suplicar para ele e estar à beira da ruína – esse canalha cinza não cede um centímetro. Enquanto isso, todo mundo sabe que ele toma uns sopapos da patroa em casa.
Eu realmente não entendo de que adianta servir no nosso departamento. Não há facilidades ali. Nos departamentos fiscal e judicial a coisa é bem diferente. Lá um sujeito deselegante senta-se em um canto e escreve e escreve; ele usa um casaco tão gasto e é tão feio que alguém cuspiria nos dois. Mas você precisa ver que casa de campo esplêndida que ele alugou. Ele não seria condescendente a ponto de aceitar uma xícara de porcelana trabalhada em ouro como um presente. “Você pode dar isso para o seu médico”, ele diria. Nada menos que um belo par de cavalos, uma fina carruagem ou um casaco de pele de castor de trezentos rublos seria bom o suficiente para ele. E mesmo assim pode se fazer de gentil e suave, pedindo amigavelmente “por favor, posso pegar seu estilete emprestado? Eu gostaria de apontar o meu lápis”. No entanto, ele sabe atormentar um cidadão até que mal lhe sobre a costura dos bolsos.
No nosso escritório tudo é feito da maneira apropriada e cavalheiresca; há mais limpeza e elegância do que jamais se verá em qualquer escritório do Governo. As mesas são de mogno e todos são tratados por “senhor”. E a bem dizer, não fosse por este maneirismo oficial, eu já teria entregado minha carta de demissão há tempos.
Eu vesti minha velha capa e peguei meu guarda-chuva, já que uma leve garoa estava caindo. Não havia ninguém na rua exceto umas mulheres cobrindo as cabeças com seus casacos. Aqui e ali se podia ver um cocheiro ou um vendedor com seu guarda-chuva. Da classe alta só havia um oficial aqui e ali. Um dos que eu vi em um cruzamento me fez pensar “Ah! Meu amigo, você não está indo ao trabalho, mas atrás dessa mocinha andando à sua frente. Você é como os outros oficiais que correm atrás de cada rabo de saia que veem”.
E enquanto eu seguia essa trilha de pensamentos, vi uma carruagem parar em frente a uma loja bem enquanto eu passava. Eu a reconheci imediatamente. Era a carruagem do nosso Diretor. “Ele não tem nada a fazer nessa loja”, eu disse para mim mesmo; “deve ser a filha dele”.
Encostei-me na parede. Um serviçal abriu a porta da carruagem, e, como eu esperava, ela saltitou para fora como um passarinho. Como ela olhou orgulha para a direita e para a esquerda; Como ela mexeu as sobrancelhas e atirou raios com os olhos – pelos céus! Eu estou perdido, desesperadamente perdido!
Mas por que ela teria que sair de casa com um clima tão abominável? E ainda dizem que as mulheres são loucas por manter a elegância!
Ela não me reconheceu. Eu tinha me enrolado em minha capa. Estava suja e era antiquada e eu não gostaria de ser visto por ela vestindo-a. Agora se usa capas com golas longas, mas a minha é uma dessas de colarinho duplo curto e o tecido é de qualidade inferior.
A cadelinha dela não pode entrar na loja e ficou do lado de fora. Eu conheço essa cadela; o nome dela é “Meggy”.
Antes que eu estivesse parado ali por um minuto, eu ouvi uma voz chamar “Bom dia, Meggy!”
Quem diabos disse isto? Eu olhei em volta e vi duas mulheres andando apressadas com guarda-chuvas – uma mais velha e a outra bem jovem. Elas já haviam passado por mim quando eu ouvi a mesma voz dizendo novamente “Que pena, Meggy!”
O que era isso? Eu vi a Meggy farejar uma outra cadela que foi atrás das mulheres. Diabos! Eu pensei “Será que eu estou bêbado? Pois acontece, às vezes.”
Não, Fidel, você está enganada” eu ouvi claramente a Meggy dizer. “Eu estava-au-au! Eu estava-au! au! au! muito doente.”
Mas que cadela extraordinária! Eu fiquei boquiaberto ao ouvir ela falar na linguagem humana. Mas após considerar melhor o fato, deixei de estar impressionado. Na verdade, essas coisas já ocorreram pelo mundo. Diz-se que na Inglaterra um peixe colocou a cabeça fora da água e disse uma palavra ou duas em uma linguagem tão extraordinária que homens estudados estão quebrando a cabeça há três anos e ainda não conseguiram interpretá-las. Eu também li no jornal que duas vacas entraram em uma loja e pediram meio quilo de chá.
Entretanto o que a Meggy disse em seguida me pareceu ainda mais notável. Ela continuou “Eu escrevi para você recentemente, Fidel; Talvez o Polkan não lhe tenha entregado as cartas.”
Ora, eu aposto um mês do meu salário se alguém já ouviu falar de cães escrevendo cartas antes. Eu certamente fiquei abismado. Durante esses momentos eu ouvi e vi coisas que nenhum outro homem ouviu ou viu.
Eu vou”, pensei, “seguir aquela cadela para chegar ao fundo disso”. Por conseguinte, abri o meu guarda-chuva e fui atrás das duas senhoras. Elas desceram a Rua do Feijão, viraram na Rua do Cidadão e na Rua do Carpinteiro, parando finalmente na Ponte do Cuco, de frente a um prédio. Eu conheço esse prédio; ele pertence ao Sverkoff. E que monstro ele é! Que tipo de gente vive ali! Cozinheiros e viajantes! Há também oficiais como eu, amontoados como sardinhas. E eu tenho um amigo morando ali, um ótimo tocador de corneta.
As senhoras subiram até o quinto andar. “Muito bem”, eu pensei; “Vou tomar nota do número da residência, para voltar e esclarecer a questão na primeira oportunidade”.

Nikolai Gogol, in Diário de um louco