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19/03/2026

Da infinita solidão

Mas só Deus — que é único, que não tem par — poderia dizer o que é a solidão.

Mário Quintana, em Caderno H

26/11/2025

Na solidão da noite

Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas. Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte: — reflexos? ou reflexões?

Mário Quintana, em Caderno H

04/01/2025

Desespero

Não há nada mais triste do que o grito de um trem no silêncio noturno. É a queixa de um estranho animal perdido, único sobrevivente de alguma espécie extinta, e que corre, corre, desesperado, noite em fora, como para escapar à sua orfandade e solidão de monstro.

Mário Quintana, em Sapato Florido

15/04/2024

O presente

... amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

26/08/2022

Da infinita solidão

Mas só Deus — que é único, que não tem par — poderia dizer o que é a solidão.

Mário Quintana, in Caderno H

24/08/2022

A comunicação muda

O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

11/01/2022

Solidão e falsa solidão

Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: “Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.”
E mais adiante: “A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade como para o indivíduo que, quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre. A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.
Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes do bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta a todos os homens.
Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.”

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

12/12/2021

A solidão

Há um momento na vida das crianças em que o que elas mais desejam é ficar livres dos olhos dos adultos. Por isso procuram a solidão. Para os adolescentes e os adultos, a solidão é o espaço do abandono. Estar sozinho em casa, numa noite de sábado, é estar abandonado, esquecido por todos. Para mim era diferente. A solidão era o espaço da minha liberdade. Na solidão eu podia entregar-me às minhas fantasias, sem que ninguém me perturbasse.
Bachelard foi um dos poucos a perceber que as crianças gostam da solidão. “A solidão da criança é mais secreta que a solidão do adulto. É no último quartel da vida que compreendemos as solidões do primeiro quartel, quando as solidões da idade provecta repercutem sobre as solidões esquecidas da infância.” Se os pais, psicólogos e professores, na ânsia de educar bem, deixassem de lado por um momento os saberes científicos da psicologia e da pedagogia e se dedicassem a uma leitura vagarosa do capítulo “Os devaneios voltados para a infância”, é certo que ficariam mais próximos das crianças... (Gaston Bachelard, A poética do devaneio, São Paulo, Martins Fontes, 1988, p. 102).
São dois os espaços da solidão infantil. Primeiro, os pequenos espaços, simbolizados pelo sonho de uma casinha no alto de uma árvore. Depois, os grandes espaços, simbolizados pela criança correndo sozinha pela campina.
No sonho da casinha no alto de uma árvore os adultos jamais entram. Nunca tive uma casinha no alto de uma árvore. Mas tive muitos “altos de árvore” que eram a minha casinha. No alto de uma jabuticabeira ninguém me achava. E havia também, no quintal, um forno de barro na forma de iglu. Eu me esgueirava pela entrada apertada e ficava lá dentro. Lá dentro não havia nada que pudesse me interessar. Havia apenas o sentimento de que eu me encontrava num lugar onde os grandes não entrariam. Lembro-me da menininha que não tinha um único lugar que fosse só seu no pequeno apartamento escuro em que vivia. Todos os espaços eram vigiados pelos olhos implacáveis da mãe. Aí ela descobriu, num canto do corredor, um taco solto. Ela transformou o espaço entre o cimento e o taco no seu refúgio secreto. Ali guardava os seus tesouros.
Guimarães Rosa amava a solidão pequena. Só se sentiu feliz quando conseguiu uma chave para o seu quarto. Mas ele amava também a solidão grande, a solidão do sertão. “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador... O sertão está em toda parte...” No sertão mora a solidão forte, sem cercas, solidão do vazio, do desconhecido. O homem só pode contar com a sua força. Gritar é inútil. Não há quem responda. Minha solidão grande, o pomar com suas árvores e sombras, os campos de capim-gordura floridos no horizonte, os pastos, os matos, os riachos, a mina borbulhante que descobri na casa humilde de um casal de negros. Ficamos amigos. Eles se alegravam quando eu aparecia. Eu ia até a mina não para beber água, mas para ver a água saindo da terra. É uma memória inesquecível. Ainda bem que as professoras não enchiam o meu tempo com lições de casa. Foi nesse tempo livre de deveres escolares que explorei a grande solidão.

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

31/05/2019

Da solidão

Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à ideia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu “O corvo”: o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do “nunca mais”.
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes, in Prosa

12/02/2019

A solidão

Disse-me um jornalista filantropo que a solidão é prejudicial ao homem. E, em apoio de sua tese, citou-me, como todos os incrédulos, palavras dos Pais da Igreja.
Eu sei que o Demônio gosta de frequentar os lugares áridos e que o Espírito do crime e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas, é possível que essa solidão só seja perigosa para as almas indolentes e extravagantes que a povoam com suas paixões e quimeras.
É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, estaria bastante arriscado a ficar louco furioso na ilha de Robinson. Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço-lhe que não condene os amantes da solidão e do mistério.
Há, em nossas raças palradoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo, se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma arenga interminável, sem recear que os tambores de Santerre lhes cortasse intempestivamente a palavra.
Não os lastimo, porque percebo que suas efusões oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento. Mas os desprezo.
Desejo, sobretudo, que o meu maldito jornalista me deixe divertir-me à vontade.
Então, — perguntou-me num tom fanhoso e muito apostólico, — jamais experimenta você a necessidade de partilhar suas alegrias? Sutil invejoso! Como sabe que desprezo as dele, vem insinuar-se nas minhas! Hediondo desmancha-prazeres! “A grande felicidade de não poder estar só!” — diz algures La Bruyère, como para envergonhar todos aqueles que procuram esquecer-se na multidão, decerto com receio de não poderem suportar a si mesmos.
Quase todas as nossas desgraças provêm de não termos sabido ficar em nosso quarto”, — diz outro sábio, Pascal, parece, evocando assim, na cela do recolhimento, todos os alucinados que buscam a felicidade no movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar a bela língua do meu século.
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

17/12/2018

Solidão individual e solidão cósmica

Podemos conceber duas formar de experimentar a solidão: sentir-se só no mundo ou sentir a solidão do mundo. Quem se sente só vive um drama puramente individual - o sentimento do abandono pode advir na mais esplêndida situação. Ser jogado neste mundo, incapaz de adaptar-se, destruído por suas próprias deficiências ou exaltações, indiferente aos aspectos exteriores - sejam eles sombrios ou brilhantes - para permanecer pregado a seu drama interior, eis o que significa a solidão individual. Mas o sentimento da solidão cósmica procede menos de um tormento puramente subjetivo do que da sensação do abandono deste mundo, de um vazio objetivo. Como se o mundo tivesse perdido subitamente todo o brilho para evocar a monotonia essencial de um cemitério. Muitos são torturados pela visão de um universo abandonado, irremediavelmente consagrado a uma solidão glacial, que mesmo os fracos reflexos de um luar do crepúsculo não saberiam atingir. Quais são, então, os mais infelizes: aqueles que sentem a solidão em si mesmos ou aqueles que a sentem no exterior? Impossível de responder. E depois, por que me constrangeria a estabelecer uma hierarquia na solidão? Já não é o bastante estar só? 
 
***

Afirmo aqui, na intenção de todos aqueles que me sucederão, que eu não tenho nada em que posso crer na terra e que a salvação reside no esquecimento. Eu adoraria poder esquecer tudo, esquecer-me de mim mesmo e do mundo inteiro. As verdadeiras confissões escrevem-se com lágrimas. Mas as minhas bastariam para afogar este mundo, assim como meu fogo interior seria o suficiente para incendiá-lo. Eu não preciso de nenhum apoio, de nenhum encorajamento, nem de qualquer compaixão, pois, por mais caído que eu seja, sinto-me poderoso, duro, feroz! Eu sou, com efeito, o único homem a viver sem esperança. Eis o ápice do heroísmo, seu paroxismo e seu paradoxo. A loucura suprema! Eu deveria canalizar a paixão caótica e informe que me habita, a fim de tudo esquecer, de não ser mais nada, de me liberar do saber e da consciência. Se eu devo ter uma esperança, esta seria a do esquecimento absoluto. Mas não se trata antes de um desespero? Esta “esperança” não constitui a sua própria negação? Eu não quero mais saber de nada, nem mesmo do fato de nada saber. Por que tantos problemas, discussões e arrebatamentos? Por que uma tal consciência da morte? Alto à filosofia e ao pensamento!
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

22/11/2017

Sozinho

[Quando no aeroporto me deram a notícia de que havia ganhado o prêmio Nobel] senti, por um lado, uma enorme felicidade, uma enorme alegria, mas me dei conta de que a alegria, se se está sozinho, é nada.
Quando abandonei a sala de embarque em direção à saída, encontrei uma espécie de recolhimento e uma serenidade estranhíssima. Tive de percorrer um corredor imenso, completamente deserto. E, então eu, o prêmio Nobel, o pobre senhor que ali ia completamente sozinho, levando a sua mala na mão e a sua gabardina debaixo do braço, dizendo: “Pois parece que sou o prêmio Nobel”, e ali a solidão daquele corredor imenso. Não me senti no pináculo do mundo, pelo contrário. Senti-me sozinho com muita pena que a minha mulher [Pilar del Río] não estivesse comigo.
José Saramago, in As palavras de Saramago

13/09/2017

Se o só não terá quem o levante, também não terá quem o derrube. E maior felicidade é carecer do perigo de quem me derrube, que haver mister o socorro de quem me levante.”
Padre Antônio Vieira

04/09/2017

Solidão é

solidão é no caixa eletrônico
esquecer a senha
solidão é planta
sentir falta d’água
ver Muribeca indo embora
solidão é você partindo
sem ninguém na rodoviária
as lágrimas caindo
e você com esperança
de que a chuva molhe o chão.
Miró da Muribeca

24/07/2017

Solidão e falsa solidão

Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: ‘Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.” E mais adiante: “A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade quanto para o indivíduo que quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre.
A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.
Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes de bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta para todos os homens.
Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.”
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

12/07/2017

Solidão

Há uma solidão ontológica — o ser está aí — que nos diz que somos ilhas, talvez num arquipélago, mas ilhas de todo modo. Nas ilhas de um arquipélago podem-se estabelecer comunicação, fontes, correios, mas a ilha está ali, diante de outra ilha. Talvez a comparação seja fácil, banal. As pessoas vivem essa solidão sem se dar conta, ou dando-se conta dela de vez em quando.
José Saramago, in As palavras de Saramago

28/08/2016

O sonhador atado, em sua solidão, na obra de Dostoiévski

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Em Noites Brancas, obra de Dostoiévski que se permite ser chamada de romântica, o personagem principal, o Sonhador, desfaz-se das costuras que o amarram ao isolamento e, ao trilhar pela cidade, resolve viver uma realidade no mundo externo, apaixonando-se. E o tempo que dura pode, ao menos, satisfazer suas melhores recordações.
Depois de anos devaneando por Crime e castigo, Os irmãos Karamazov, Recordações da casa dos mortos, O jogador, O Idiota, tendo sido todas essas obras esgotadas em falatório e adoração, já era tempo de voltar à aurora do brilhante Fiódor Dostoiévski e buscar algo mais concreto, porém inusitado: a novela Noites Brancas.
Diante de fortes pitadas de romantismo, é possível descortinar todas as páginas (ou as quatro noites) de uma só tacada, sem intervalos para se aprumar na poltrona, tomar um café ou se incomodar com a tragédia existencial e os extremismos em palavras do personagem principal. Pelo menos, não é durante a narrativa que o desconforto povoa a leitura.
O leitor sequioso por novidades pode até presumir que se trata de um romance. Pode entender a cidade em que se desenrola a história como personagem principal. Pode superar os excessos das confissões e justificativas contidas nos diálogos e estabelecer o amor e a devoção amorosa (ah, o amor) como tema central. Entretanto é inevitável enxergar que a solidão de cada um, clamada ou sonegada, é o que guia a memória do narrador, do começo ao fim.
Intitula-se de o Sonhador o protagonista. Seu nome, de fato, é desconsiderado em todo o romance. Ele vive sua rotina de trabalho sem questionamentos, deixando para viver a vida ao final do dia, quando aparece a noite branca, expressão essa que faz referência ao fenômeno climático das noites do início do verão, em que o sol não se põe, permanecendo abaixo da linha do horizonte e, portanto, não anoitece. Isso gera um atmosfera quase delirante em que a escuridão dá lugar a um manto diáfano, mas suficientemente claro, para que os arredores sejam consumidos por ele.
É nesse momento que ele traz alma e sentido à cidade em que mora (São Petersburgo) e a tudo que o rodeia, como, por exemplo, as casas em seu caminho, que ganham vida, diálogos entre si e um certo tom de resignação. E julga, dessa forma, conhecer melhor aqueles com quem esbarra ou cruzam os seus passos, ficando sempre num quase sorriso, num quase cumprimento, numa quase troca de palavras, a um fio de estabelecer alguma relação com alguém de carne e osso, voz, toque e desafio. O Sonhador cria, então, intimidades mentais com a cidade e com os moradores, sendo ele mesmo uma sombra pouco notada ou lembrada, já que mantém seu habitat unicamente dentro de si mesmo. “(...) como se todos tivessem me esquecido, como se eu fosse, de fato, um estranho para eles!” E são, justamente, essa mesmice e o gosto pelo conhecido que trazem a segurança de não sair do lugar, mesmo quando muitos já estão partindo.
Porém, Dostoiévski traz o amor, a paixão repentina vivida intensamente por meio da linguagem, do escambo de palavras e entendimento mútuo (ao menos no pensamento fantasioso e enclausurado do personagem central) em quatro noites. Ela, Nástienka, menina ingênua, armada de sonhos, já que tem sua liberdade tolhida, passa os dias atada à saia da avó, tendo ainda como companheira uma criada surda. E ele, o Sonhador, segue igualmente atado a sua solidão sem costura. E tudo o que os aproximam são lágrimas e alguns gritos, suficientes para dar início a longos instantes de conversas, banhadas pela claridade das horas e iluminadas pela brancura da noite.
Leia a matéria completa na obvious acessando aqui.

21/07/2016

Solidão

Quando se vive só não se fala muito alto, não se escreve também muito alto: receia-se o eco, o vazio do eco, a crítica da ninfa Eco. A solidão modifica as vozes.”
Friedrich Nietzsche

11/02/2016

Solidão

No passado, quando eu queria a companhia dos outros, pedia o que eles não iam dar, ou melhor, não podiam. Aí sim, vi o que era solidão. Vi muito bem. Não precisar de ninguém é nunca estar só.”
Irvin D. Yalom, in A cura de Schopenhauer