Mostrando postagens com marcador Liudmila Petruchévskaia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Liudmila Petruchévskaia. Mostrar todas as postagens

28/03/2022

Dois reinos

No começo eles voavam num paraíso absolutamente celestial, como deve ser, em meio a uma paisagem ofuscante e azul, sobre densas e volumosas nuvens. A aeromoça já não era conterrânea deles, era outra, vestia um maravilhoso uniforme branco de linho sem botões e oferecia principalmente bebidas de sabores estrangeiros.
Os passageiros estavam todos semiadormecidos, esgotados, e quando Lina percorreu todo o avião até a cauda, ficou surpresa com a cor amarela idêntica do rosto dos passageiros, os cabelos pretos com cortes idênticos. Ela até se assustou, era como se um regimento de soldados estivesse sendo transferido para um novo acampamento. Aqueles soldados dormiam de forma idêntica, as bocas escuras e ressecadas entreabertas e meio de lado, exaustas. Ou quem sabe era a embaixada inteira de um país distante do sul.
Depois caiu a noite. Lina nunca havia voado por tanto tempo e para tão longe, ela passou parte da noite no banheiro, olhando pela janela convexa. Ali se viam as estrelas acima, ao lado e embaixo, ao longe, onde realmente era possível confundir essas estrelas com as luzes dos povoados, de um brilho nebuloso. Correndo solitária na bruma noturna, entre a abundância de estrelas, aquela alma humana se encontrava em êxtase no centro do universo, entre astros grandes e aveludados que se moviam na mais completa e profunda escuridão. Sozinha no meio das estrelas!
Lina até começou a chorar. Com dificuldade agora se lembrava dos minutos de despedida da família, da sua terra, tudo isso se confundia dentro dela num só novelo cansativo, e ela não conseguia de jeito nenhum desemaranhar o que estava no começo e o que vinha depois. A aparição mágica de Vássia com as passagens e a licença para casar, umas formalidades complicadas, as lágrimas da mãe enquanto as enfermeiras vestiam Lina com o vestido branco e a desciam de cadeira de rodas, no elevador; lá, Vássia pegou Lina pelos braços e colocou-a no carro… Lina ou perdeu a consciência ou adormeceu embalada pelo carro — em todo caso, ela lembrava tudo o que havia acontecido como um sonho: a música boba, as pessoas surpresas, horrorizadas dos dois lados, os espelhos nos quais se refletiam Vássia de barba e ela, cinza, esgotada, toda vestida de renda branca e com olhos fundos. Vássia estava levando Lina de avião para se tratar.
Mesmo assim, antes da partida pelo visto haviam feito uma operação que já estava planejada, e Lina já não se lembrava de tudo o que aconteceu depois da operação. Um gemido da mãe, como se abafado por um travesseiro, o choro do filho assustado com a música, as flores e a cara de Lina, evidentemente; ele chorava como sempre choram as crianças assustadas quando batem em sua mãe ou quando as separam delas para levá-las embora: chorava alto, gritando como um endiabrado. Ele era pequeno demais, foi preciso deixá-lo com a avó, já que Lina tinha pela frente mais uma operação em outra cidade, em outro país e com um novo marido, esse Vássia de barba que tinha aparecido não se sabe de onde.
Esse Vássia era uma lenda. Ele aparecia uma vez por ano, surgia do meio da multidão, beijava a mão dela segurando-a com sua grande mão fria, prometia a Lina montanhas douradas e um futuro para o filho dela — mas não agora, em breve. Depois. Agora, justamente no momento do encontro, ainda era impossível. Mas depois ele prometeu levar Lina e o filhinho, e também a mãe, para um paraíso na terra em algum lugar distante à margem de um mar morno, entre colunas de mármore, quase com elfos voando; em suma, esperava por ela um futuro de Polegarzinha, como nos contos de fadas.
Depois, quando Lina ficou seriamente doente aos trinta e sete anos, esse Vássia começou a aparecer com mais frequência, consolando-a. Visitou-a depois da primeira operação — foi tão comovente, ele veio direto para a UTI , quando Lina já estava entregando a alma para Deus, com o soro, enxergando o braço esgotado e transparente… Ele passou com sua roupa branca como se usasse um avental de médico (ele adorava se vestir todo de branco), a única diferença era que estava descalço, mas ninguém notou. Ele queria levar Lina de lá imediatamente ao ver a aparência dela e os pontos que tinham dado. Porém, uma enfermeira veio correndo,esbaforida, mandou Vássia embora, aplicou mais uma injeção, chamou o médico e Vássia sumiu por muito tempo.
Da vez seguinte, ele veio diretamente para o hospital, explicou tudo, disse que a mãe dela estava de acordo e ela e a criança seriam levadas depois, ele deixaria todo o necessário para elas. Mas era preciso levar Lina naquele exato instante, porque não havia tempo a perder. No país onde agora morava aquele Vássia, tratavam da doença de Lina, haviam encontrado uma vacina e assim por diante. Para Lina, enfim, não fazia diferença, já que pela segunda vez ela já não estava se opondo nem à doença, nem à morte. Levaram-na sob o efeito de fortes narcóticos, e ela flutuava como se estivesse numa névoa.
Mesmo pensar no menino, em Seriojenka, não a torturava tanto.
E se eu morresse neste hospital”, Lina falava consigo, “seria melhor? Mas assim eu vou viver, e depois trago os dois para ficar comigo.”
Vássia, então, cumpriu todas as formalidades, ainda que os médicos insistissem em uma operação dizendo que sem ela a paciente não duraria mais um dia. Vássia esperou a operação, cumpriu as formalidades e apareceu para levar Lina mais uma vez, direto da UTI . Levaram-na cuidadosamente, trocaram a roupa dela, por causa disso ela parou de ver e escutar, depois voltou a si já voando diante de um céu azul e infinito, deserto, de um campo felpudo de nuvens abaixo do avião. Lina se surpreendeu muito ao ver que estava sentada ao lado de Vássia, e ainda por cima bebendo algum vinho leve, espumante, de uma taça. Depois ela até se levantou — Vássia estava dormindo, esgotado pelos afazeres — e andou com um passo surpreendentemente leve pelo avião. Nada lhe doía — pelo visto já haviam lhe aplicado algum analgésico.
O avião voava muito baixo sobre uma cidade maravilhosa que se estendia abaixo como uma grande maquete, com um rio resplandecente, pontes e uma enorme catedral de brinquedo. Parecia muito com Paris!
E então começou o estrondo da aterrissagem, e o avião, com seu nariz obtuso, largo como uma janela de hotel, literalmente parou, fazendo ruído como uma carroça e tremendo, num jardim silencioso. A janela tinha uma porta e dava num terraço, ao longe brilhava a curva do rio com pontes e algum arco do triunfo.
A Place Pigalle — por algum motivo Lina disse, e mostrou para Vássia. — Veja!
Vássia foi abrir a porta para o terraço, e teve início uma vida de conto de fadas.

* * *

Lina, no entanto, não podia se afastar do rio, mesmo que o tratamento tivesse começado e corresse bem. Vássia saía e não aparecia o dia inteiro. Ele não proibia Lina de nada, mas era claro que o rio e a catedral e aquela cidade maravilhosa ainda estavam muito distantes dela. Por enquanto ela começou a sair devagarzinho de casa, a vagar por uma só ruazinha, já que não tinha muita força.
Ali, ela notou, todos se vestiam como Vássia, como os melhores hippies que ela via nos filmes estrangeiros. Cabelos longos, lindos braços finos, roupas brancas, até coroas de flores. É verdade que nas lojas havia de tudo com o que era possível sonhar, mas, em primeiro lugar, Vássia não deixava dinheiro para Lina — pelo visto o tratamento consumia tudo, provavelmente era muito caro.
Em segundo lugar, não era possível mandar encomendas, e por algum motivo nem mesmo cartas. Aqui não era costume escrever! Não havia nem um pedacinho de papel em lugar nenhum, canetas em lugar nenhum. Não havia conexão — é possível que Lina estivesse numa espécie de quarentena, algo transitório.
Lá, depois do rio, ela via a verdadeira vida fervilhante da cidade estrangeira. Ali também havia de tudo: restaurantes, lojas. Mas não havia conexão. Lina por enquanto se movimentava apoiando-se com as duas mãos na parede, como uma recém-nascida, como um bebê que mal começou a andar. Quando Lina reclamou para Vássia que queria ir a uma loja, ele trouxe para ela um monte de roupas — de todo tipo, inclusive usadas, masculinas, femininas, infantis, e ainda por cima de diferentes tamanhos. Trouxe também uma mala de sapatos, recolhidos entre todos os seus conhecidos, como os amigos estrangeiros costumam trazer para os russos. Entre as roupas havia ceroulas masculinas cinza, Lina ficou um pouco sem graça por causa delas. Só Deus sabe que coisas eram aquelas e de quem eram! E onde ela iria guardar, Lina não sabia, porque ela mesma logo começou a vestir tudo de Vássia — algo como uma camisa branca e por cima um vestido branco de tecido fino. O tamanho das roupas dela e de Vássia eram iguais, a constituição de Vássia, uma pessoa saudável, era a mesma da exaurida Lina. Lina chorou um pouco com aquela roupa, à noite contou para Vássia que queria muito enviar uma encomenda para Serioja e a mãe, e mostrou dois montinhos. Vássia fechou a cara e ficou calado. De manhã todas as roupas haviam sumido.
Vássia, foi ficando claro, trabalhava ali mesmo, depois do rio, naquele povoado de acesso restrito, e não sentia a menor necessidade de atravessar a ponte e ir às catedrais e aos arcos; Lina teve que se adaptar à sua existência sossegada e comedida. É verdade, ela sabia que tudo poderia acontecer — o exemplo era sua própria vida anterior — , inclusive que o jovem Vássia, mais novo que ela, podia se apaixonar por alguém e ir embora. Ele não amava Lina, aquele Vássia barbudo, apesar de poupá-la de todo o trabalho. A comida aparecia sozinha, a roupa brilhava. Quando ele tinha tempo para fazer isso?
O quarto deles, que no delírio de Lina conservava traços do avião, tinha porta e janela voltadas para um terraço com colunas brancas, mas ali não se tinha nenhuma alegria. Lina suportava corajosamente sua separação de Serioja, da mãe, das amigas e do amigo Liev do instituto, ela entendia agora que a doença dela era incurável e só podia se esforçar para se manter no estado atual — sem dor, mas também sem forças; como ia ficar ali o barulhento Seriojenka com suas lágrimas tempestuosas e olhinhos vermelhos de choro! Em especial, como ficaria ali a mãe, venenosamente afável e também chorosa! Ali não havia mágoa nem choro, ali era outro país.
Aborrecida, sempre que podia Lina observava aquelas pessoas que pairavam de branco e suas danças de roda sobre o rio com uma música monótona da harpa (que atividade mais boba, aliás!) e suas sessões silenciosas em longas mesas conjuntas no restaurante, com taças do maravilhoso vinho local.
Lina gostaria muito de contar às amigas e à mãe o que ela pensava disso tudo, pelo menos escrever para elas que estava tudo bem, o tratamento corria normalmente, havia de tudo nas lojas, mas não se compravam coisas novas — primeiro, porque o preço era absurdo, e segundo, porque ali não se usavam aquelas coisas, e ela não estava acostumada com a comida, ainda que por enquanto não pudesse comer muito. E coisas assim. Que queria mandar uma encomendazinha para Serioja e para todos, mas por enquanto não havia oportunidade, não havia ligações postais entre os países
deles. Lina se arrastava pelas ruas, apoiando-se em tudo o que lhe caía nas mãos, e em pensamento escrevia cartas para casa.
Com o passar do tempo, porém, Lina começou a entender que a questão das cartas era impossível de ser resolvida. Vássia prometia com firmeza que mamãe e Seriojenka viriam, especialmente a mãe. Mas mamãe sem Seriojenka? Ou ele sem a avó? “Com o tempo”, dizia o barbudo Vássia, “com o tempo.”
Lina queria começar a comprar algo para a chegada da mãe, mas Vássia a fez entender que quando chegasse a hora tudo se resolveria.
Ali ninguém ficava agitado com o dia de amanhã, ali pelo visto estavam todos muito ocupados, mas em compensação a vida tinha uma organização ideal, estéril, confortável. Vássia trabalhava numa livraria dele, que herdara de uma tia, mas não levava livros para Lina, já que ela não entendia a língua estrangeira, e eles não tinham nada em russo. O próprio Vássia não sabia ler em russo.
Por fim, Lina aprendeu a andar flutuando como os nativos. No fim era muito simples. Era preciso subir para algum degrau mais alto e dar um passo muito largo no ar. O passo seguinte, o outro pé já executava pelo impulso, e cada pulo adiante era ainda mais livre e leve, como num sonho. O Vássia barbudo não disse nada, mas no momento certo desapareceu para sempre, pelo visto foi para além do rio, para a cidade rica, como calculou a solitária Lina, e a deixou completamente abastecida, como se verificou. No começo ela pensava, sem lágrimas e sem medo, que naquele momento a expulsariam do objeto voador deles e que a comida não ficaria para sempre na geladeira! Mas a geladeira se enchia regularmente, como se tivesse um elevador de cozinha, e Lina não comia nada, só bebia suco, e era saudável.
Chegou afinal o dia em que ela, pensativa e com saudades, deixou para trás os degraus de casa e correu a passos largos para a dança de roda na margem do rio; afastando as mãos de outras pessoas, incorporou-se à fileira geral e voou pelo círculo. Ela entendia, ela sabia, que havia algo de errado ali, e já não queria ver ali nem a mãe, nem o filhinho. Ela não queria nem encontrar ali aquele regimento de soldados e tinha esperança de não encontrar ninguém nunca mais, e se encontrasse, que não reconhecesse quem era, não distinguisse entre os rostos jovens, pálidos, tranquilos que voavam, como ela, livremente — e esperava não encontrar ali mais ninguém, naquele reino dos mortos, e nunca saber como sentiam saudades dela lá, no reino dos vivos.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

11/03/2022

A casa da fonte

Uma vez, uma menina foi morta, mas depois foi ressuscitada. A questão é que disseram aos parentes que a menina estava morta, mas não a entregaram (estavam todos viajando juntos num ônibus, mas na hora da explosão ela estava de pé na parte da frente, e os pais, sentados atrás). A menina era jovenzinha, tinha quinze anos, e a explosão a havia jogado longe.
Enquanto chamavam a ambulância, enquanto separaram os feridos e os mortos, o pai segurou a menina nos braços, apesar de estar claro que ela havia morrido, e de o médico ter constatado a morte. Depois foi preciso levar a menina embora, mas o pai e a mãe subiram na mesma ambulância e foram com a filha até o necrotério.
Ela estava deitada na maca como se estivesse viva, mas não tinha nem pulso, nem respiração. Disseram aos pais que fossem para casa, mas eles não queriam — ainda não era hora de entregar o corpo, tinham que esperar todos os trâmites da justiça e da medicina legal, isto é, a autópsia e o estabelecimento das causas.
Porém o pai, enlouquecido pela dor, e ainda por cima cristão praticante, decidiu roubar a filha. Ele levou a esposa para casa, ela já estava quase sem consciência, aguentou a conversa com a sogra, acordou a vizinha, que era da área médica, e pediu o avental branco dela; em seguida, depois de pegar todo o dinheiro que havia em casa, foi para o hospital mais próximo, ali alugou uma ambulância vazia (eram duas da madrugada) e, com uma maca e um auxiliar de enfermagem de uniforme branco, se infiltrou no hospital onde mantinham a filha; evitando o segurança, desceu pela escada rumo ao corredor no porão, entrou calmamente no necrotério. Não havia ninguém ali. Logo encontrou sua filha, colocou-a na maca com a ajuda do auxiliar de enfermagem e em seguida, depois de chamar o elevador de carga, subiu com o seu
fardo até o terceiro andar, para a unidade de terapia intensiva. Ele havia planejado tudo ali, enquanto esperavam a decisão da noite na sala de espera.
Ali ele deixou o auxiliar de enfermagem ir embora e depois de uma breve conversa com o médico da UTI , depois de entregar um maço de dinheiro para ele, deixou a filha nas mãos do médico na ala de terapia intensiva.
Como ela não tinha um prontuário, o médico pelo visto concluiu que o pai havia chamado a ambulância e trazido a paciente (morta pouco antes) para o hospital mais próximo. O médico da UTI via muito bem que a menina não estava viva, mas ele precisava muito do dinheiro, a mulher acabara de dar à luz uma criança (também menina), e todos os nervos daquele médico estavam no limite. A mãe dele não gostava da esposa, e as duas se revezavam no choro, a criancinha também chorava, e no hospital ele ainda cumpria o turno da noite. Precisava conseguir dinheiro e alugar um apartamento. O que o pai enlouquecido (claramente) daquela princesa morta havia oferecido a ele era o suficiente para viver seis meses num apartamento alugado.
Sem falar uma palavra, o médico se lançou à tarefa como se diante dele de fato houvesse uma pessoa viva, mas mandou o pai vestir o uniforme do hospital e o deitou na cama ao lado na mesma UTI , já que aquele doente estava absolutamente resolvido a não abandonar a filha.
A moça jazia branca como mármore, o rosto de uma incrível beleza, e o pai olhava para ela sentado em sua cama com olhar meio estranho. Uma pupila dele ia para o lado o tempo todo, e quando aquele louco piscava, as pálpebras se descolavam com grande dificuldade.
O médico, observando-o, pediu à enfermeira que o submetesse a um eletrocardiograma, e depois aplicou uma injeção naquele novo paciente. O pai apagou rapidamente. A menina ficou deitada como a bela adormecida, ligada aos aparelhos. O médico cuidava dos procedimentos dela, fazendo todo o possível, ainda que agora ninguém o controlasse com aquele olhar fugidio. Para falar a verdade, aquele jovem doutor era um fanático, para ele não existia nada mais importante no mundo do que um caso grave e interessante, do que um paciente, não importa quem, sem nome e individualidade, no limiar da morte.

O pai dormia, e no sono ele se encontrou com a filha. Quer dizer, ele foi visitá-la, como ia à colônia de férias fora da cidade. Ele pegou comida, por algum motivo só um sanduíche com recheio de almôndegas, só isso. Subiu no ônibus (de novo o ônibus) numa maravilhosa noite de verão, em algum canto perto da estação de metrô Sókol, e foi para aquele lugar paradisíaco. Nos campos, entre suaves colinas verdes havia uma enorme casa cinzenta com arcos que iam até o céu, e quando ele transpôs esse portão gigante e entrou no pátio, ali, no gramado de esmeralda, estava uma fonte do tamanho de uma casa, um fluxo de água firme que se desfazia no alto, com um penacho espumante. Havia um longo pôr do sol de verão, e o pai com satisfação passeou rumo à entrada à direita do arco e subiu para um andar alto. A menina o encontrou um pouco contrariada, como se ele a estivesse atrapalhando. Estava de pé, olhando para o lado. Como se ali transcorresse sua vida particular, própria, que já não dissesse respeito a ele. Eram os assuntos dela.
O aposento era enorme, com tetos altos e janelas muito largas, e dava para o sul, na sombra, para a fonte que ficava ao lado, iluminado pelo sol que se punha. A fonte era ainda mais alta que a janela.
Trouxe um sanduíche de almôndega, como você gosta — disse o pai.
Ele se aproximou da mesinha debaixo da janela, pôs seu pacote sobre ela, pensou e o desenrolou. Lá estava o estranho sanduíche, dois pedacinhos de pão preto barato. Para mostrar à filha que havia almôndegas dentro, ele abriu as fatias. Ali dentro havia (ele logo entendeu) um coração humano cru. O pai ficou inquieto porque o coração não estava cozido e não dava para comer o sanduíche. Enrolou-o de volta no pão e disse, sem jeito:
Eu me confundi com o sanduíche, vou trazer outro pra você.
Mas a filha se aproximou mais e olhou para o sanduíche com uma expressão estranha no rosto. O pai tentou esconder o pacote no bolso e apertou com a palma da mão, para que a menina não pegasse.
Ela estava de pé ao lado dele, de cabeça baixa, com a mão estendida:
Me dê, papai, estou com fome, estou com muita fome.
Você não vai comer essa porcaria.
Não, me dê — disse ela com dificuldade.
Ela estendia o braço flexível, muito flexível, para o bolso dele, mas o pai entendia que, se a filha pegasse aquele sanduíche e comesse, ela morreria.
E então, virando-se, ele puxou o pacote, abriu-o e começou a comer rapidamente o coração cru. Na mesma hora sua boca se encheu de sangue. Ele comeu aquele pão preto com sangue.
Agora eu também vou morrer”, pensou ele, “que bom que vou antes dela.”
Me escute, abra os olhos! — alguém disse.
Com dificuldade ele descolou as pálpebras e viu, como uma névoa, numa moldura que se desfazia, o rosto do jovem médico.
Estou ouvindo — respondeu o pai. — Qual é o seu tipo sanguíneo?
O mesmo da minha filha.
Tem certeza?
Sim, é isso mesmo.
Ali mesmo o levaram para algum lugar, amarraram um torniquete no braço esquerdo, puseram uma seringa na veia.
Como ela está? — perguntou o pai.
Como assim? — perguntou o médico, concentrado em sua tarefa.
Viva?
O que você acha? — resmungou o médico.
Está viva?
Deite-se, deite-se — exclamou o bom doutor. O pai se deitou, escutando alguém agonizar e chorar ao lado.

Em seguida já estavam atarefados cuidando dele, e ele de novo foi embora para algum lugar, de novo estava verde ao redor, mas então foi despertado por um barulho: a filha, deitada na cama ao lado, agonizava alto, como se lhe faltasse ar. O pai olhou para ela de lado. O rosto dela estava branco, a boca se entreabriu. Do braço do pai para o braço da filha corria sangue vivo. O pai se sentia leve, apressava a passagem do sangue, queria que todo ele corresse para a filha. Queria morrer para que ela ficasse viva.
Depois ele se viu ainda no mesmo apartamento, no enorme prédio cinza. A filha não estava. Ele foi procurá-la com calma, examinou todos os cantos daquele apartamento luxuoso com muitas janelas, mas não achou ninguém. Então ele sentou no sofá, depois deitou. Estava tranquilo, sereno, como se a filha já estivesse instalada em algum lugar, vivesse de forma alegre, e ele pudesse descansar. Ele (no sonho) começou a adormecer, e então a filha apareceu. Entrou no quarto como um turbilhão, logo parou ao lado dele como uma coluna de vento rodopiante, uivou, sacudiu tudo em volta, cravou as unhas na dobra do braço direito do pai, de tal forma que penetraram na pele. A pontada foi forte, e ele começou a gritar de terror e abriu os olhos. O médico acabara de introduzir uma agulha na veia do seu braço direito.
A menina estava deitada ao lado, respirando com dificuldade, mas já não agonizava tanto. O pai se soergueu, apoiando-se no cotovelo, viu que seu braço esquerdo já estava livre do torniquete e com curativo, e se dirigiu para o médico:
Doutor, preciso fazer uma ligação urgente.
Não me fale em ligação — retrucou o médico –, por enquanto não tem nada que ligar. Deite, senão você também vai… deslizar…
Mas antes de sair ele deu seu celular, e o pai ligou para a mulher, mas não havia ninguém em casa. A mulher e a sogra pelo visto haviam ido sozinhas, de manhã cedo, para o necrotério, e agora estavam enlouquecidas, sem entender onde estava o corpo da filha.

A menina já estava melhor, mas ainda não tinha recuperado a consciência. O pai tentava ficar perto dela na UTI, fingindo que estava morrendo. O médico da noite já
havia ido embora, e o infeliz pai já não tinha dinheiro, porém o haviam submetido a um eletrocardiograma, e por enquanto o deixavam ali, parece que o médico da noite havia combinado algo assim, ou o resultado do exame fora ruim.
O pai refletia sobre o que fazer — descer ele não podia, telefonar não permitiam, todos eram desconhecidos e estavam ocupados. Ele pensava no que deviam estar sentindo suas duas mulheres, suas “meninas”, como ele as chamava: a esposa e a sogra. O coração doía muito. Puseram uma sonda nele, como a da filha.
Depois ele adormeceu, e quando acordou a filha não estava ao seu lado.
Enfermeira, onde está a menina que estava deitada aqui?
Para que você quer saber?
Sou pai dela, por isso. Onde ela está?
Ela foi levada para a sala de operação. Não se preocupe e não se levante. O senhor não pode.
O que ela tem?
Não sei.
Querida enfermeira, chame o médico!
Estão todos ocupados.
Ao lado um velho gemia. Do outro lado da parede alguém, talvez o jovem médico, pelo visto executava algum procedimento com uma velha e conversava como se ela fosse uma simplória da roça, alto e em tom de brincadeira.
E aí… Vovó, quer sopa? — Pausa. — Que sopa você quer?
Hum — mugia de alguma forma não humana a velha, com uma voz metálica.
Quer sopa de cogumelos? — Pausa. — Quer com cogumelos? Comeu a sopa com cogumelos?
De repente a velha respondeu com seu grave metálico:
Cogumelos… com macarrão.
Ah, muito bem — gritou o médico.
O pai estava deitado e se preocupava, em algum lugar sua filha era operada, em algum lugar estava a esposa meio enlouquecida de dor, ao lado a sogra se contorcia… Um jovem médico o olhou, de novo aplicaram uma injeção e ele caiu no sono.

À noite ele se levantou em silêncio e como estava, descalço, só de camisola do hospital, saiu. Chegou até a escada sem ser percebido e desceu pelos degraus frios, como um fantasma. Foi até o corredor do porão, andou seguindo uma seta na qual estava escrito: ALA DE ANATOMIA PATOLÓGICA .
Ali ele chamou uma pessoa de avental branco:
Paciente, o que está fazendo aqui?
Sou do necrotério — respondeu o pai de repente — , eu me perdi.
Como assim do necrotério?
Saí mas deixei meus documentos lá. Quero voltar, mas não sei onde é.
Não estou entendendo nada — disse o de avental branco, pegou-o pelo braço e o levou pelo corredor. Depois, apesar de tudo, perguntou:
O que houve, você se levantou?
Eu voltei à vida, não havia ninguém, saí, depois decidi voltar mesmo assim para que percebessem.
Um milagre — respondeu seu acompanhante.
Eles chegaram à ala, mas ali o enfermeiro os recebeu com palavrões. O pai escutou todas as suas objeções e perguntou:
Minha filha também está aqui, ela devia dar entrada depois da operação.
Ele disse o sobrenome.
Não está, ela não está! Estão fazendo todos quebrarem a cabeça! Vieram procurar de manhã! Ela não está aqui! Puseram aqui todos os que têm câncer! E esse ainda é da psiquiatria! Fugiu do manicômio ou o quê? De onde ele veio?
Estava vagando pelos corredores — respondeu o de avental branco.
Então chame a segurança — o enfermeiro voltou a dizer palavrões.
Quero ligar para casa — pediu o pai. — Eu me lembrei, eu estava na UTI no
terceiro andar. Perdi a memória depois da explosão do ônibus na Varchavka, vim parar aqui.
Então os aventais brancos se calaram. A explosão na Varchavka havia acontecido dias antes. Levaram-no, tremendo, descalço, para uma mesa onde havia um telefone.
A esposa atendeu o telefone e ali mesmo começou a soluçar:
Você! Você! Onde você foi parar? Levaram o corpo dela, não sabemos para onde! E você andando por aí! E nem um copeque em casa! Nem para o táxi encontramos! Você pegou, não é?
Eu… eu estava sem consciência, vim parar no hospital, na UTI …
Onde, em qual?
No mesmo em que ela estava…
E onde ela está? Onde? — uivou a esposa.
Não sei, eu não sei. Estou sem roupa nenhuma, traga tudo para mim. Estou aqui no necrotério descalço. Qual o endereço do hospital?
O que te levou para aí? Não estou entendendo nada — continuou soluçando a mulher.
Ele deu o telefone para o avental branco. Este tranquilamente, como se não tivesse acontecido nada, informou o endereço e desligou o telefone. O enfermeiro trouxe um avental e uns chinelos gastos, tortos para ele. Pelo visto teve pena daquela pessoa viva, e o encaminhou para o posto do segurança.
A esposa e a sogra chegaram com o rosto inchado, parecendo velhas, vestiram-no, calçaram-no, abraçaram-no, finalmente o escutaram, chorando felizes, e todos juntos começaram a esperar no sofazinho, porque lhes disseram que haviam operado a filha deles, ela estava na UTI e a situação não era tão grave.
Duas semanas depois ela já começava a andar, o pai a levava para passear pelos corredores e repetia o tempo todo que ela estava viva depois da explosão, estava simplesmente em choque, em choque. Ninguém notou, mas para ele ficou claro na hora.
É verdade, ele ficava calado a respeito daquele coração humano cru que teve que comer para que ela não comesse. Mas isso havia sido no sonho, e no sonho não conta.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

19/02/2022

Eu te amo


Com o passar do tempo, todos os sonhos dele poderiam ter se realizado e ele poderia ter se unido à mulher amada, mas o caminho era longo e não levou a nada. A única coisa que o acompanhou por todo aquele caminho longo e estéril foi uma imagem de revista com a fotografia da mulher amada, e ainda por cima no trabalho dele só algumas pessoas sabiam quem era ela — um par de pernas, e só isso, bem roliças, sem meias, com sandálias de salto alto; ela mesma havia se reconhecido na hora, sua bolsinha e a barra do vestido. Como ela adivinhou que haviam fotografado sua metade inferior? O fotógrafo havia corrido na rua e clicado uma vez, outra, depois publicou só a saia e as pernas dela. Ele, a pessoa de quem estou falando, guardava essa foto em casa sobre a mesa, presa com tachinhas, e a esposa não o contradizia em nada, ainda que fosse uma mulher severa e mandasse em toda a família, até na mãe, e depois nos filhos, sem falar nos parentes distantes e nos alunos. Porém, era uma dona de casa boa, acolhedora, generosa, só que não dava sossego aos filhos, e a mãe vivia tranquila com ela, deitava na caminha, lia para os netinhos enquanto podia, aproveitava o calor, a calma, a televisão. Depois, passou muito tempo morrendo resignadamente, já quase não mexia a cabeça, e um dia se foi em silêncio.
Quanto a ele, depois de enterrar a sogra, ficou pacientemente esperando que a mulher morresse. Por algum motivo ele sabia que ela morreria e o libertaria, e ele se preparava para isso de forma muito ativa: levava uma vida esportiva e saudável, corria de manhã, até brincava com halteres, mantinha uma dieta rigorosa e com isso conseguia trabalhar muito e chegou a ser chefe do departamento, viajava para o exterior — e esperava. Sua escolhida, uma loira bonitinha e roliça, era o sonho de todos os homens e quase uma Marilyn Monroe, trabalhava bem ao lado dele e às vezes o acompanhava nas viagens a trabalho — e ali começava a verdadeira vida: restaurantes, hotéis, passeios e compras, simpósios e excursões. Que saudade ele sentia todas as noites, ao voltar do paraíso para o inferno, para o ninho pobre e quente onde turbilhonava a vida em família, atravancada, pesada, em que as crianças adoeciam, enlouquecidas e enfurecidas, atrapalhando a concentração, e eles precisavam acalmá-las; a situação chegava a ponto de ter que recorrer ao cinto, e depois o pai se sentia ainda mais humilhado e ofendido. A própria esposa gritava com as crianças, a esposa não tinha tempo para nada, mal conseguia dar a volta na casa inteira. Como em toda família que se preze, ali também moravam uma gata e um cachorro, e a gata dava miados roucos a noite toda quando estava no cio, e o cachorrinho latia cada vez que chegava o elevador, e justamente à noite aquela família era especialmente desagradável para o pai: ele ficava deitado na cama e, submergindo em sonhos saudosos, ansiava pelo corpo, pela tranquilidade, pelos encantos que emanavam daquela amiga ilícita durante as viagens. Quando não estavam juntos, a loira também era perseguida pela vida: o marido e a sogra subiam no pescoço dela, a sogra a obrigava a esfregar o apartamento inteiro aos sábados, a ponto de limpar os azulejos do banheiro com amônia! O marido bebia demais e não deixava a coitada ir às festas do trabalho, aniversários etc., sempre fazia escândalo antes das viagens a trabalho, desconfiava, ele e a sogra a pressionavam, como Cila e Caríbdis; além disso, eles ainda faziam escândalos entre si, o marido e a mãe. A sogra importunava a pobre loira, perguntava por que o marido dela nunca beliscava alguma coisa quando bebia, e comia pouco em geral, até disso ela era culpada! No trabalho a loira reclamava muito pouco, era discreta e não desabafava com ele diretamente, como fazia a esposa. Existem mulheres assim, ele pensava, esparramado na cama, o marido solitário, e atrás da parede choravam e se esgoelavam os filhos dele dormindo, um menino e uma menina, e a esposa cardíaca roncava, cada vez mais velha e cada vez mais amorosa. Para a mente é inconcebível que ela, uma velha de quarenta e tantos anos, o amasse e cuidasse tanto dele! Parece que ela nunca acreditou que ele a amava, que aquele homem chique, com as têmporas grisalhas, fosse marido dela, e sempre se apagava e se recusava a ir com ele para qualquer lugar. Ela costurava vestidos para si mesma, sempre com o mesmo corte simples, longos e folgados, para esconder a gordura e os remendos nas meias, para as quais sempre faltava dinheiro. Na língua dos inúmeros convidados e parentes, isso se chamava “vestir-se com bom gosto e discrição”; os convidados vinham em multidões em todas as festas, adoravam os salgadinhos dela, os pãezinhos e as saladas — eram todos convidados dela, amigos de escola, da mesma idade, parentes — eles se lembravam dela jovem, bonita, com covinhas, com uma trança grossa, e não reparavam que ela já não era mais a mesma, já tinha se apagado.
Na verdade, ela já havia descartado a trança e as covinhas fazia muito tempo, cuidava do marido e da mãe, tomava conta dos filhos, corria para comprar alimentos frescos na feira para ele, senhor da sua vida, e não tinha tempo de ir a lugar nenhum, mas por algum milagre sempre chegava na hora em todos os lugares, e assim tentava viver em ordem — e, naturalmente, à noite ficava muito tempo com os livros na cozinha, depois de pôr a família inteira para dormir, fazendo algum trabalho extra naquelas mesmas noites, na mesma cozinha, ou preparando as aulas. Ao chegar do trabalho, ela contava histórias sobre seus alunos e às vezes cozinhava um balde de almôndegas e um balde de mingau, e os alunos vinham visitá-la, traziam flores, faziam um barulho tímido, comiam tudo o que houvesse e distraíam a professora com canções absurdas e coletivas. Mas isso acontecia quando o senhor estava fora em suas viagens a trabalho, e só nessas horas.
Quando os filhos nasceram, o menino e a menina, o primeiro pensamento dela foi o marido: levá-lo ao trabalho depois do café da manhã, recebê-lo com jantar na mesa quando chegava do trabalho, escutar tudo o que ele queria dizer. Houve só um intervalo, quando a mãe dela começou a morrer e no curso de três anos morreu; nesse momento ela abandonou tudo, e as coisas de alguma forma andaram, não se sabe como, e o pai da família, no café da manhã, comia sozinho o que havia na mesa, e também jantava sozinho, ele mesmo ajeitava algo e ia para o quarto carrancudo, mas mesmo assim foi o primeiro a carregar o caixão, e não se diferenciava do resto em sua tristeza genuína. Depois do enterro o quarto da mãe ficou vazio, fechado, não havia forças e também a dona da casa em silêncio resistia, dormia na sala com os filhos, ou melhor, ficava sempre sentada do mesmo jeito na cozinha — tinha perdido o sono.
Para o marido também foi um período difícil; seu amor começara a se queixar e a exigir uma vida familiar completa, independente, recusava-se a se trancar com ele no apartamento vazio de conhecidos, como já se acostumara a levá-la no intervalo do almoço, e até ia mais longe: ela estava flertando nos escritórios vizinhos e no bufê, e os homens, farejando uma “defesa enfraquecida”, na expressão dos colegas, abriram uma trilha para o escritório dela, e o telefone tocava, e alguém passava para dar uma carona e por aí vai. Nosso marido estava comendo o pão que o diabo amassou, estava roído de amor e dívidas, e adotou uma postura inflexível e obstinada no tratamento de sua amiga, apesar de às vezes chorar aliviado no ombro dela, se conseguisse. O que podia fazer? A esposa, em todo o seu desespero, notava que o marido havia murchado, que seu olhar estava perdido e que ele parecia totalmente fora do ar. A esposa voltou a si, rapidamente fez uma reforminha no quarto da mãe e lá se instalou com os filhos, e a sala voltou a ser um lugar de encontro, conversas e pequenas festas, e para os convidados o marido parecia um pai de crianças maravilhosas e chefe da casa (e não um cachorro abandonado e sem lar), e amado, um marido idolatrado como um semideus (e não o antepenúltimo pretendente na fila de uma mulher sem dono). Agora davam o café da manhã a ele antes de todos, de repente até foram costurados alguns vestidos novos de lã barata, aos domingos a esposa começou a levar os filhos para longos passeios, às vezes no parque, às vezes no circo, às vezes no planetário. Mas no quarto do marido, sobre a mesa, ainda estavam penduradas as perninhas nuas roliças sob a saia, e de saltos: ele não se rendia.
Por fim ouviu-se um trovão, e o marido da loira — “nosso marido”, como o casal clandestino o chamava — perdeu as estribeiras, enfureceu-se, perseguiu a loira com um machado, ela se trancou no banheiro até a noite, de noite deu um jeito de escapar de casa, ligou para o nosso herói de um telefone público, ele foi correndo encontrar com ela, voltou quase de manhã, e de manhã novamente foi tirado da cama por uma ligação terrível, como sempre são as ligações ao amanhecer: o marido havia sido encontrado enforcado na porta pela mãe. Claro que a pobre viúva recente passou o mês seguinte com uma espécie de família de amigos condoída; nosso herói mesmo assim não tomava a decisão de propor casamento, e ali, naquela família amigável, a anfitriã de alguma forma reuniu forças e expulsou a triste loira, bonitinha demais com sua palidez de luto, o que era insuportável observar pelos cantos, ainda mais porque o dono da casa começou a experimentar sentimentos platônicos de amizade e compaixão pela loira, o que era bem mais perigoso do que uma simples sujeira humana, entra e sai e pronto.
Não foi logo, mas tudo se acalmou. A loira ganhou seu próprio apartamento, alguém gostou do apartamento devastado da velha sogra, convenceram-na a trocar aquele lugar terrível por algo perto da sobrinha. A loira ganhou um apartamento mais distante e pior, mas só dela, e então nosso marido, nosso herói, precisava tomar uma decisão definitiva, sim ou não, e começar a reforma — móveis, instalação elétrica, vedação das janelas — no novíssimo apartamento de sua escolhida. Em vez disso ele começou a trabalhar com muito empenho em sua própria casa, colou papel de parede na sala com os filhos, retomou os exercícios físicos, ducha e corrida, passou a mostrar uma dedicação redobrada pelas crianças e a discipliná-las, porque sua descendência tinha crescido um pouco e começava a atrapalhar, era essa a questão. Com a loira ele permaneceu no papel de conselheiro e visitante, ela cuidou de tudo sozinha, aquilo a ocupava, ela se aconselhava, mostrava uns projetos, e já havia alguém que levava para ela, de carro, os azulejos de Mettlach para o banheiro e os móveis da cozinha. A loira estava avaliando bem a situação e não perdia ninguém de vista, pois tinha diante de si a perspectiva da solidão.
A foto estava sobre a mesa como antes, e o marido tinha até um dia fixo para visitar a loira — aliás, ele agora havia sido transferido para outro instituto onde recebia um bom salário, e a relação com o antigo local de trabalho tinha se complicado muito quando a loira precisou ser promovida, e receberia um aumento, mas não recebeu por causa da raiva geral. Ele saiu em sinal de protesto e prometeu levá-la para o seu trabalho com o tempo; a esposa não entendeu nada e ficou radiante de alívio, e na casa houve uma festa, assaram salgadinhos porque finalmente o marido tinha largado Aquela. Mas a foto ainda estava pendurada.
Ele saiu e se instalou bem no novo local de trabalho, as crianças estavam crescendo, esportivas, disciplinadas, adestradas, como acontece quando a família é estável e se assenta no culto ao pai com uma adoração reforçada e na submissão voluntária da mãe abnegada. A palavra do pai era a lei, e eles andavam seguindo uma ordem: o pai na frente, as crianças lado a lado, e atrás a mãe, acabada, chefiando a família à distância. Era uma alegria olhar para eles, mas a fotografia das perninhas ainda assim estava presente.
A mãe da família esperou até que o menino, o mais novo, entrasse na faculdade, e então se rendeu por completo, como a mãe dela havia feito. De pé na cozinha, ela desabou diante de todos um dia, começou a agonizar e assim continuou por três dias no hospital. A família, disciplinada e trabalhadora, se reagrupou, estabeleceu um sistema de turnos e foram contatados velhos amigos e parentes, alunos antigos e ainda devotados, e o marido arrancou sua esposa da beira da cova, da morte e do esquecimento. Quando a levaram para casa, ela já era uma velhinha miúda, só mexia a mão direita um pouco, não se entendia o que falava, e volta e meia seus olhos vertiam lágrimas. Ela parecia se desculpar por sua aparência naquela situação, se desculpava por toda a vida passada, por não poder criar nada para o seu semideus e no fim das contas cair naquela história de paralisia e arrastá-lo. Com o passar do tempo os moradores da casa se acostumaram àquele peso, ainda que às vezes se irritassem e gritassem um pouco uns com os outros: mesmo com todas aquelas comadres, com as limpezas diárias, as escaras e os pensamentos involuntários, por quantos anos iria se estender aquele estado animalesco ou vegetativo — esses pensamentos os atormentavam. O pai pareceu se tranquilizar de repente, a alma dele estava como que estacionada, todos os movimentos dele em volta da esposa eram fluidos, pacientes, a voz era suave. Os filhos ainda gritavam um pouco uns com os outros e com a mãe, eles tinham seus momentos de instabilidade, sentiam-se destituídos de mãe, ou seja, de uma base e suporte, e se tornaram pais inexperientes da própria mãe, ainda fracos, sentiam que algo ali não estava certo, não havia perspectiva; ou melhor, havia, mas era terrível. Os filhos acusavam um ao outro, lavavam a roupa suja, que lástima, na frente da mãe! Mas o zelo deles não afrouxou, e a paciente continuava limpa, fresca, punham um radinho debaixo do ouvido e às vezes liam em voz alta para ela; mas mesmo assim ela sempre chorava e tentava dizer algo só com os sons das vogais, sem a língua.
Na noite em que ela morreu e foi levada, o marido caiu na cama e adormeceu, e de repente ouviu que ela estava ali, deitada com a cabeça junto à dele no travesseiro, e disse: “Eu te amo”. Ele dormiu mais, teve um sono feliz e estava tranquilo e orgulhoso no enterro, apesar de ter emagrecido muito, e era honesto e firme, e no memorial, já em casa, diante de todas as pessoas reunidas, disse a todos que ela havia dito a ele “Eu te amo”. Todos congelaram porque sabiam que era a pura verdade — e a foto já não estava lá. A foto havia desaparecido da vida dele, havia desabado, perdera o interesse naquele momento, e ele, inesperadamente, ali à mesa, começou a mostrar a todos pequenas fotos de família apagadas, da esposa e dos filhos — todos aqueles passeios dos quais ele não havia participado, todas aquelas distrações, pobres mas felizes, pelos parques e planetários que ela organizava para as crianças, todas as tentativas dela de construir uma vida no pouco que havia restado para ela, naquela ilhazinha onde mantinha os filhos protegidos e onde precisava sempre se interpor no espaço à frente de todos, para encobrir a maldita foto da revista — mas ela havia ido embora, tudo havia acabado bem, e ela de todo jeito tinha conseguido dizer para ele a frase “Eu te amo”: sem palavras, já morta, mas tinha conseguido.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

05/02/2022

O deus Posêidon

Foi num lugar à beira-mar que encontrei minha amiga Nina, uma mulher já não muito jovem e com um filho adolescente. Nina me levou até sua casa, e vi algo incomum. A portaria, por exemplo, era retumbante, alta, com escadaria de mármore, e depois vinha o próprio apartamento, atapetado com pelo de castor cinza, com predominância de madeira escura e feltro escarlate. Tudo isso tinha uma aparência magnífica, como uma imagem na revista da moda L’Art de la Décoration, a arte da decoração, e exatamente igual era o banheiro, novamente o chão atapetado em cor cinza, com lavabo de porcelana azul e espelhos — era simplesmente um sonho! Eu não acreditava nos meus próprios olhos, mas Nina tinha a mesma eterna aparência reticente e cansada, e me levou para o quarto com três portas escancaradas, meio escuro, mas também elegante, com uma quantidade inesperada de camas desfeitas. “Como é, você se casou?”, perguntei para Nina, e ela, com cara de dona de casa que arruma tudo, preocupada, mas sem tocar em nada, foi para uma das portas. Lembro do quarto luxuoso, como um hotel, com closets, uns quatro metros de cada lado, e vestidos pendurados nos cabides. Como essa riqueza e abundância foram concedidas à pobre Nina, que nunca havia tido uma roupa íntima razoável, e usava eter­namente o mesmo sobretudo no inverno e três vestidos, um mais velho que o outro? Havia se casado, mas aqui? Foi para aquele lugar selvagem, aquele vazio à beira-mar onde as pessoas não moram, e sim esperam o verão, quando será possível alugar quartos para estranhos. Mas e aquelas escadas, os corredores, as passagens; e além disso não saí do apartamento pela mesma porta, dei por mim na portaria vizinha, de mármore branco, onde já entravam alunos de escola com professoras numa excursão.
Bem, ela se casou, no fim das contas era isso. Nina havia trocado seu apartamento de um quarto em Moscou, onde vegetava com o filho, por aqueles aposentos, e ainda por cima com toda a mobília e até lençóis e roupas! Quer dizer, os donos da casa não
haviam tocado em nada, eles apenas se retiraram, e por isso Nina tinha o ar preocupado, porque havia duas camas a mais no quarto — eram camas da dona da casa e do filho, um jovem pescador calado com bochechas gorduchas. A dona da casa pelo visto cuidava de seus afazeres como antes, pelo visto cuidava da casa, e nos sentamos à mesa sob a supervisão dela; ela se comportava tal como uma sogra boa e tranquila, e como se Nina fosse sua nora querida, em nome da qual a sogra se desdobrava e se atarefava pela casa, mas na verdade mantendo todas as posições de mãe da família e principal pessoa da casa, sem permitir que a nora fizesse nada.
Acontece que a dona da casa havia feito uma troca com Nina. Nina largara seu trabalho no jornal da capital e se preparava para escrever sobre a região, sobre o mar, que ela sempre havia adorado — ela venerava tudo o que vinha do mar — , e enquanto isso ela circulava com o rosto preocupado por sua nova casa, da qual a antiga dona ainda não havia saído. Todas as formalidades foram cumpridas, Nina tinha os papéis, ela morava com o filho na casa, mas a senhoria idosa e o filho dela também estavam morando nessa casa por todo aquele inverno, e nem sombra de falar em mudança. Nina, que não era uma pessoa prática, era desleixada, habituada a deixar tudo seguir seu curso natural — por isso saiu do jornal para viver como autônoma e para supostamente desvendar toda a sua vida — , aceitou tudo o que estava acontecendo. Ela comia, bebia, ia até a praia, sentava lá, o filho dela ia para a escola local, bastante boa, não precisava de dinheiro, toda aquela família duplicada se alimentava com dádivas do mar que o jovem pescador trazia no barco.
Quem é ele? — perguntei, e Nina respondeu sem hesitar que ele era filho do deus do mar, Posêidon, podia viver e respirar debaixo da água, de lá trazia tudo, ia a pé para vários países pelo fundo do mar e trazia não só peixe, mas também conchas e pérolas, assim como tudo para a casa e para a família.
Com isso a antiga esposa de Posêidon, que não se sabe por que aceitara Nina completamente arrasada sob seus cuidados, se sentava na cadeira principal, sob uma janela alta, e nos dava de comer e nos dava de comer, e na minha memória sempre surgia da suíte de luxo digna de hotel, com lençóis magníficos como espuma do mar, e com quatro camas — e imaginava que é assim que é preciso ser, deixar tudo seguir seu curso, sem lutar, afrouxar os braços, e então você vai respirar debaixo daquela água, e o deus Posêidon vai te tomar e te instalar em condições nada ruins. Pois, ao voltar para casa em Moscou, fiquei sabendo que Nina não havia se mudado para lugar nenhum, e justo no ano anterior havia se afogado com o filho pequeno, estavam no famoso naufrágio de uma lancha de passeio perto daquela mesma costa onde eu acabara de passear, sem suspeitar de nada.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

26/01/2022

A menina-nariz

Numa certa cidade vivia uma menina muito bonita chamada Nina. Ela tinha cabelos dourados e encaracolados, olhos grandes e azuis como o mar, um nariz enorme e maravilhosos dentes brancos. Quando ela sorria, era como se o sol brilhasse. Quando ela chorava, era como se pérolas caíssem. A única coisa que a estragava era o nariz grande. Uma vez, Nina juntou todo o dinheiro que tinha e foi até o médico. Ela disse:
Não tenho ninguém nesta cidade, eu me sustento sozinha, meu pai e minha mãe moram longe e eu não posso pedir dinheiro, eles não são ricos. Aqui está todo o meu dinheiro. Faça um nariz pequeno para mim! Quando eu nasci, meus pais cometeram um erro e não convidaram um velho feiticeiro que vivia na floresta para a festa. Quando ele ficou sabendo que não tinha sido chamado, ficou muito ofendido e disse que me daria um presente muito importante e valioso. E desde então meu nariz começou a crescer. Quando meus pais foram perguntar para o feiticeiro, ele disse que, se eu tivesse um nariz pequeno e me tornasse uma bela mulher, qualquer cafajeste se apaixonaria por mim; já desse jeito, só uma pessoa no mundo se apaixonaria por mim. E depois ele disse para meus pais: “Vejam vocês! Vocês são pessoas normais, feias, nunca se preocuparam com seus narizes!”. Meus pais responderam: “Mas nossa filha seria linda, coitada!”. Mas o mago não fez nada por mim. Agora eu cresci, trabalho como cabeleireira, sou uma boa profissional, tenho fila de espera. Mas não sou feliz.
O médico disse para ela:
Aqui não posso fazer nada. Vá para outra cidade, lá mora um mago, talvez ele te ajude.
A moça foi para a outra cidade. Na sua cabine do trem estava um jovem com roupas muito pobres que lia um livro grosso. Ele não prestou a menor atenção em
Nina. Porém, à noite o trem deu um solavanco forte e no sono Nina caiu da cama de cima do beliche. Ela perdeu a consciência e acordou nos braços do jovem. Ele disse a ela:
Que bom que não dormi e consegui pegar a senhorita.
Muito obrigada, moço — disse Nina, levantando. — Se quiser, venha ao meu salão, trabalho na praça principal, corto seu cabelo e faço sua barba.
Não, eu mesmo corto o meu cabelo de seis em seis meses com uma grande tesoura de tosar ovelhas e também aparo minha barba. Obrigado.
Então — disse Nina — , venha só para tomar um chá.
Obrigado, gosto de tomar chá sozinho — respondeu o rapaz e voltou a ler o seu livro.
Então venha só por vir — disse Nina.
Ir só por ir eu não quero — respondeu o jovem — , não tenho tempo.
Enquanto isso o trem já havia chegado à outra cidade, e Nina foi visitar o mago. Ele se revelou um belo jovem com barba negra e óculos escuros muito bonitos. Disse que podia ajudar Nina, mas para isso exigia o dedão direito dela. Nina concordou, tornou-se uma mulher incrivelmente bonita, mas sem um dedo. Quando ela saiu na rua, os passantes começaram a parar, os carros começaram a buzinar, e os jovens corriam para acompanhar Nina à estação. No trem, cederam a ela uma cama na parte de baixo do beliche, trouxeram vários buquês de rosas, limonada e muitas caixas de bombons. Quando ela chegou à sua cidade, a mesma cena se repetiu. Atrás de Nina seguia o carro de um conde que, baixando o vidro, implorou pela janela que ela se casasse com ele. Mas Nina não entrou no carro dele. Agora ela vagava pela cidade dias inteiros, na esperança de encontrar o jovem do trem. Já não podia trabalhar como cabeleireira, porque lhe faltava o dedo principal da mão direita, mas ela tinha um pouco de dinheiro, e então ficou andando dias e dias pela cidade, e atrás dela seguia o carro do conde. Todo dia convidavam Nina para bailes, ela foi declarada a mulher mais bonita da cidade, e, alguns achavam, do mundo. Mas ninguém sabia que ela não tinha mais dinheiro e que só comia uma vez por dia — à noite, no baile, café com sorvete. Por fim, ela não aguentou e foi trabalhar como faxineira, juntou dinheiro e foi novamente ver o mago na outra cidade. Ela disse a ele:
Pegue todo o meu dinheiro, mas me diga onde encontrar meu amado, o homem do trem.
Certo — disse o mago — , devolva meu nariz e pegue o anterior, e aí eu digo.
Não — respondeu Nina — , peça tudo o que quiser, menos isso.
Certo — disse o mago — , vou ter que pegar mais um dedo da sua mão direita, dessa vez o indicador.
Está bem — respondeu a moça sem hesitar.
O endereço dele é o seguinte: ele vive na sua cidade, rua Mão Direita, casa dois, no sótão. Vá rápido!
Nina foi às pressas para a estação de trem, chegou à sua cidade e encontrou a casa. Ela entrou no sótão do seu amado e perguntou:
Está me reconhecendo?
Não — disse ele.
Lembra, você me pegou nos braços quando eu caí da cama de cima.
Não, não era você — respondeu o amado. — Aquela moça tinha um rosto completamente diferente. Ela era tão engraçada!
Nina não sabia mais o que dizer e saiu. Mas todo dia ela ia até a rua Mão Direita para olhar o jovem pela janelinha. Nina agora sempre usava luvas, só as tirava à noite para lavar as escadas. Ela era convidada para bailes, aniversários e festas da cidade como antes, o carro do conde ainda andava atrás dela, e duas vezes por mês o conde a pedia em casamento. Mas Nina não aceitava e respondia assim:
Já não basta você não parecer uma pessoa. Agora você está disposto a fazer de tudo por mim, mas depois vai ser ciumento ou pão-duro, vai me negar um pedaço de pão… Só faltava…
Mas eis que uma noite, depois de limpar a escada, Nina foi olhar a janela do rapaz e viu uma velha de preto mexendo a cortina. Fora de si de tanto medo, Nina correu para o quarto andar e tocou a campainha do sótão.
A própria velha de preto abriu a porta para ela.
O que você quer? — perguntou ela.
O que aconteceu com ele? — perguntou Nina.
Com quem?
Ora, com o rapaz, não sei o nome dele. Ele mora aqui.
E você é o que dele? — perguntou a velha.
Uma vez ele me salvou no trem — respondeu Nina.
Certo, entre. Ele está muito doente.
Nina entrou no quarto do sótão e viu seu amado, que estava deitado debaixo de um cobertor e respirava com dificuldade.
Quem é você? Eu não te conheço — ele disse. — Você não é quem diz ser.
O que você tem? — perguntou Nina.
Fiquei doente depois do estudo no porão da biblioteca. Pelo visto aprendi demais. Mas isso não é da sua conta. Logo vou morrer.
A velha acenou com a cabeça.
Nina saiu correndo, subiu no trem da noite e foi encontrar com o mago na outra cidade.
Não posso te ajudar em nada — disse o mago.
Eu lhe peço — Nina começou a chorar — , salve meu amado! Pegue o que quiser, pegue minha mão direita, posso lavar o chão com a esquerda.
Vou pegar meu nariz de volta — disse o mago.
Pegue e salve meu amado — respondeu Nina.
E naquele momento ela voltou a ser como era. Ao sair na rua, não recebeu nenhum olhar encantado, ninguém parou ao vê-la, ninguém a seguiu, não lhe deram uma única rosa. No trem, ela não recebeu nenhuma caixa de bombons. Quando ela chegou à sua cidade, viu o carro do conde, mas ele não reparou nela, apesar de estar vestida como sempre, com um vestido cinza, usando sapatos cinza e um chapéu cinza.
Nina correu para a rua Mão Direita, subiu voando para o quarto andar e entrou no quarto de seu amado. Ele estava sentado na cama bebendo cerveja.
Ah, é você! — exclamou ele. — Que bom te ver de novo. Vinha uma moça aqui e se fazia passar por você. Mas ninguém me engana. Nunca vi um rosto mais engraçado do que o seu. Não é tão fácil esquecer você.
Nina começou a rir e a chorar na hora. E no quarto o sol pareceu se acender de repente e as pérolas reluziram.
Por que você está chorando? — perguntou o jovem. — Não quer casar comigo?
Nina respondeu:
Eu não sou a mesma de antes.
E ela tirou a luva cinza da mão direita.
Isso? É uma bobagem — disse o rapaz. Eu me chamo Aníssim, sou médico. Li tudo o que há naquela biblioteca, até o último livrinho, no chão úmido do porão. Não gostaria de lê-lo de novo — acrescentou Aníssim e estendeu a mão para uma prateleira na qual havia poções, frasquinhos de gotas e garrafas com pílulas. — Aqui está, tome.
Nina tomou uma colherzinha do remédio, e a mão direita dela ficou como antes.
Eu só estou fazendo voltar ao que era — disse Aníssim alto —, nada mais.
Nina logo se casou com seu amado Aníssim e teve muitos filhos engraçados com ele.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

07/01/2022

Uma saudação materna

O jovem Olieg ficou sem pai nem mãe quando a mãe morreu. Só sobraram uma irmã e o pai, que, apesar de vivo, depois se descobriu não ser o pai de Olieg. O pai dele era um homem com quem a mãe saía quando já era casada. Isso foi descoberto por Olieg quando ele começou a remexer nos papéis da mãe morta, querendo saber um pouco mais sobre ela. Ali ele encontrou um documento, precisamente uma carta, na qual um homem desconhecido escrevia que ele tinha família e não tinha direito de abandonar os dois filhos por uma criança que não se sabia nem de quem era. Na carta havia uma data. Então, pouco tempo antes do parto a mãe queria largar o marido e casar com outra pessoa, ou seja, tudo havia acontecido como a irmã mais velha de Olieg havia insinuado numa conversa com ele, insinuou para se vingar e com raiva.
Ao descobrir essa carta, o jovem começou a remexer nos papéis e achou um pacote preto com fotografias nas quais a mãe era retratada em vários estágios de nudez, inclusive totalmente nua. Eram fotos posadas, como numa encenação, até quando estava nua a mãe usava uma longa echarpe, e tudo isso foi um grande choque para o jovem. Ele tinha escutado dos parentes que na juventude a mãe havia sido famosa pela beleza, mas nas fotos já era uma mulher de uns trinta e cinco anos, esbelta mas não especialmente bonita, só bem conservada.
Depois desse golpe, o jovem — ele tinha dezesseis anos — abandonou a escola, abandonou tudo e, nos dois anos que se passaram, até entrar no exército, não fez nada, não escutou ninguém, comia o que havia na geladeira, saía quando o pai e a irmã voltavam para casa, chegava quando eles estavam dormindo. Ele teve um esgotamento mental e físico, e o pai, com sua autoridade, conseguiu marcar uma perícia com uma junta de especialistas, médicos do trabalho, para que ele conseguisse uma pensão por esquizofrenia, mas no último minuto, pouco antes da reunião, o pai morreu à noite na sua cama, e tudo degringolou. A irmã rapidamente mudou para um apartamento próprio, e deixou Olieg sozinho no quarto.
Ele logo foi convocado para o exército.

No exército, Olieg se envolveu em um incidente: ele e outros soldados foram postos numa trilha nas montanhas, numa passagem pela qual devia passar um preso foragido. Esse preso ficou em liberdade por quase um mês, conseguira matar cinco pessoas no seu caminho, entre as quais uma menina, e estava se aproximando da única passagem da montanha para a Terra Grande, ou seja, a parte europeia da Rússia. Segundo todas as informações, o preso não devia aparecer logo, mas de antemão armaram uma emboscada na trilha, três dias antes, não se sabia que tipo de transporte o fugitivo usaria. A emboscada era composta por Olieg, um sargento e mais três soldados, eles estavam atrás de uma grande pedra na qual puseram as submetralhadoras. Eles se alternavam.
Justo no turno de Olieg surgiu na trilha o homem parecido com a fotografia que haviam mostrado. Olieg não resistiu e atirou nele, mas depois descobriu que era outra pessoa: um colono livre, que já havia cumprido a pena e estava abrindo caminho, também ilegalmente, é verdade, para ir para casa na Rússia. O verdadeiro criminoso foi capturado numa passagem vizinha.
Foram bons com Olieg, declararam insanidade temporária, meteram-no num hospital e depois o dispensaram de vez do exército como inapto para o serviço militar, e ele ainda se livrou barato, porque a mulher do colono livre, dizem, ficava procurando aquele soldado anormal que tinha matado o marido dela, que só ultrapassou um pouquinho o limite de seu povoado, alguns passos — e a passagem atravessava o limite administrativo do distrito.

Olieg voltou para casa. Já estava quase totalmente careca, os dentes haviam caído um após o outro, não havia o que comer, não havia o que fazer, e além do mais, como iria trabalhar, sem nenhuma formação? Mas então a irmã mais velha apareceu de repente na vida dele e encarregou-se de tudo, pôs Olieg na escola técnica, arrumou o quarto, trouxe produtos e dinheiro, apesar de não ser totalmente irmã de sangue e nunca antes ter sentido amor por ele.
Uma noite, quando ela se preparava para sair, falou de passagem:
Não acredite no que falei para você naquela época sobre a nossa mãe, isso era o que o nosso pai suspeitava, ele era uma pessoa difícil e deixava qualquer um louco.
E saiu.
Depois que a irmã foi embora, Olieg abriu a mala, começou a revolver os papéis entre os quais estava a carta, mas só encontrou um envelope, que continha uma fotografia do enterro da mãe. No mesmo pacote preto em que Olieg esperava ver as fotografias da mãe tirando a roupa havia apenas um papelzinho preto, muito velho e gasto, e quando Olieg começou a puxá-lo, ele se transformou em pó ali mesmo.
Olieg começou a examinar os papéis e em todo lugar lia cartas da mãe para o pai nas quais se falava de amor, de fidelidade, de Olieg e de como ele se parecia com o pai. Olieg passou a noite toda chorando, as lágrimas corriam dos olhos involuntariamente, e na manhã seguinte esperou a irmã para lhe contar que ele havia enlouquecido aos dezesseis anos e visto algo que não existia, e por isso até havia matado uma pessoa que não parecia de forma alguma com a que ele deveria ter identificado.
Mas ele não chegou a encontrar a irmã, pelo visto ela havia se esquecido dele, e ele também logo se esqueceu dela, estava ocupado com a vida. Ele terminou a escola técnica, depois a faculdade, se casou, teve filhos.
E o que era engraçado é que tanto ele quanto a esposa tinham olhos pretos e cabelos escuros, mas os dois filhos saíram louros e de olhos azuis — iguaizinhos aos da mãe morta, a avó deles.
Uma vez a esposa de repente propôs que fossem ver o túmulo da mãe de Olieg. Eles demoraram para encontrar o túmulo, estava muito escuro no velho cemitério, postaram-se na frente da lápide, e no túmulo da mãe de repente descobriram uma segunda lápide, um pouco menor.
Deve ser meu pai — disse Olieg, que não havia ido ao enterro do pai.
Não, leia, é a sua irmã — respondeu a esposa.
Horrorizado por ter esquecido a irmã daquele jeito, ele se inclinou sobre a laje e leu a inscrição. Era de fato sua irmã.
Só confundiram a data da morte — ele disse —, minha irmã vinha me ver bem depois dessa data de morte, quando voltei do exército. Eu te contei, ela me pôs de pé, ela me trouxe de volta à vida. Eu era jovem e ficava louco por umas besteiras.
Isso não acontece, eles não se enganam com as datas — respondeu a esposa. — Foi você que se confundiu. Em que ano você voltou do exército?
E eles começaram a brigar, ao pé do túmulo abandonado e coberto de mato, e a erva daninha, muito alta por causa do verão, ficou tocando seus joelhos até que eles se abaixaram e começaram a limpá-la.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores