Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
Mostrando postagens com marcador Liudmila Petruchévskaia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Liudmila Petruchévskaia. Mostrar todas as postagens
28/03/2022
Dois reinos
No
começo eles voavam num paraíso absolutamente celestial, como deve
ser, em meio a uma paisagem ofuscante e azul, sobre densas e
volumosas nuvens. A aeromoça já não era conterrânea deles, era
outra, vestia um maravilhoso uniforme branco de linho sem botões e
oferecia principalmente bebidas de sabores estrangeiros.
Os
passageiros estavam todos semiadormecidos, esgotados, e quando Lina
percorreu todo o avião até a cauda, ficou surpresa com a cor
amarela idêntica do rosto dos passageiros, os cabelos pretos com
cortes idênticos. Ela até se assustou, era como se um regimento de
soldados estivesse sendo transferido para um novo acampamento.
Aqueles soldados dormiam de forma idêntica, as bocas escuras e
ressecadas entreabertas e meio de lado, exaustas. Ou quem sabe era a
embaixada inteira de um país distante do sul.
Depois
caiu a noite. Lina nunca havia voado por tanto tempo e para tão
longe, ela passou parte da noite no banheiro, olhando pela janela
convexa. Ali se viam as estrelas acima, ao lado e embaixo, ao longe,
onde realmente era possível confundir essas estrelas com as luzes
dos povoados, de um brilho nebuloso. Correndo solitária na bruma
noturna, entre a abundância de estrelas, aquela alma humana se
encontrava em êxtase no centro do universo, entre astros grandes e
aveludados que se moviam na mais completa e profunda escuridão.
Sozinha no meio das estrelas!
Lina
até começou a chorar. Com dificuldade agora se lembrava dos minutos
de despedida da família, da sua terra, tudo isso se confundia dentro
dela num só novelo cansativo, e ela não conseguia de jeito nenhum
desemaranhar o que estava no começo e o que vinha depois. A aparição
mágica de Vássia com as passagens e a licença para casar, umas
formalidades complicadas, as lágrimas da mãe enquanto as
enfermeiras vestiam Lina com o vestido branco e a desciam de cadeira
de rodas, no elevador; lá, Vássia pegou Lina pelos braços e
colocou-a no carro… Lina ou perdeu a consciência ou adormeceu
embalada pelo carro — em todo caso, ela lembrava tudo o que havia
acontecido como um sonho: a música boba, as pessoas surpresas,
horrorizadas dos dois lados, os espelhos nos quais se refletiam
Vássia de barba e ela, cinza, esgotada, toda vestida de renda branca
e com olhos fundos. Vássia estava levando Lina de avião para se
tratar.
Mesmo
assim, antes da partida pelo visto haviam feito uma operação que já
estava planejada, e Lina já não se lembrava de tudo o que aconteceu
depois da operação. Um gemido da mãe, como se abafado por um
travesseiro, o choro do filho assustado com a música, as flores e a
cara de Lina, evidentemente; ele chorava como sempre choram as
crianças assustadas quando batem em sua mãe ou quando as separam
delas para levá-las embora: chorava alto, gritando como um
endiabrado. Ele era pequeno demais, foi preciso deixá-lo com a avó,
já que Lina tinha pela frente mais uma operação em outra cidade,
em outro país e com um novo marido, esse Vássia de barba que tinha
aparecido não se sabe de onde.
Esse
Vássia era uma lenda. Ele aparecia uma vez por ano, surgia do meio
da multidão, beijava a mão dela segurando-a com sua grande mão
fria, prometia a Lina montanhas douradas e um futuro para o filho
dela — mas não agora, em breve. Depois. Agora, justamente no
momento do encontro, ainda era impossível. Mas depois ele prometeu
levar Lina e o filhinho, e também a mãe, para um paraíso na terra
em algum lugar distante à margem de um mar morno, entre colunas de
mármore, quase com elfos voando; em suma, esperava por ela um futuro
de Polegarzinha, como nos contos de fadas.
Depois,
quando Lina ficou seriamente doente aos trinta e sete anos, esse
Vássia começou a aparecer com mais frequência, consolando-a.
Visitou-a depois da primeira operação — foi tão comovente, ele
veio direto para a UTI , quando Lina já estava entregando a alma
para Deus, com o soro, enxergando o braço esgotado e transparente…
Ele passou com sua roupa branca como se usasse um avental de médico
(ele adorava se vestir todo de branco), a única diferença era que
estava descalço, mas ninguém notou. Ele queria levar Lina de lá
imediatamente ao ver a aparência dela e os pontos que tinham dado.
Porém, uma enfermeira veio correndo,esbaforida, mandou Vássia
embora, aplicou mais uma injeção, chamou o médico e Vássia sumiu
por muito tempo.
Da
vez seguinte, ele veio diretamente para o hospital, explicou tudo,
disse que a mãe dela estava de acordo e ela e a criança seriam
levadas depois, ele deixaria todo o necessário para elas. Mas era
preciso levar Lina naquele exato instante, porque não havia tempo a
perder. No país onde agora morava aquele Vássia, tratavam da doença
de Lina, haviam encontrado uma vacina e assim por diante. Para Lina,
enfim, não fazia diferença, já que pela segunda vez ela já não
estava se opondo nem à doença, nem à morte. Levaram-na sob o
efeito de fortes narcóticos, e ela flutuava como se estivesse numa
névoa.
Mesmo
pensar no menino, em Seriojenka, não a torturava tanto.
“E
se eu morresse neste hospital”, Lina falava consigo, “seria
melhor? Mas assim eu vou viver, e depois trago os dois para ficar
comigo.”
Vássia,
então, cumpriu todas as formalidades, ainda que os médicos
insistissem em uma operação dizendo que sem ela a paciente não
duraria mais um dia. Vássia esperou a operação, cumpriu as
formalidades e apareceu para levar Lina mais uma vez, direto da UTI .
Levaram-na cuidadosamente, trocaram a roupa dela, por causa disso ela
parou de ver e escutar, depois voltou a si já voando diante de um
céu azul e infinito, deserto, de um campo felpudo de nuvens abaixo
do avião. Lina se surpreendeu muito ao ver que estava sentada ao
lado de Vássia, e ainda por cima bebendo algum vinho leve,
espumante, de uma taça. Depois ela até se levantou — Vássia
estava dormindo, esgotado pelos afazeres — e andou com um passo
surpreendentemente leve pelo avião. Nada lhe doía — pelo visto já
haviam lhe aplicado algum analgésico.
O
avião voava muito baixo sobre uma cidade maravilhosa que se estendia
abaixo como uma grande maquete, com um rio resplandecente, pontes e
uma enorme catedral de brinquedo. Parecia muito com Paris!
E
então começou o estrondo da aterrissagem, e o avião, com seu nariz
obtuso, largo como uma janela de hotel, literalmente parou, fazendo
ruído como uma carroça e tremendo, num jardim silencioso. A janela
tinha uma porta e dava num terraço, ao longe brilhava a curva do rio
com pontes e algum arco do triunfo.
— A
Place Pigalle — por algum motivo Lina disse, e mostrou para Vássia.
— Veja!
Vássia
foi abrir a porta para o terraço, e teve início uma vida de conto
de fadas.
*
* *
Lina,
no entanto, não podia se afastar do rio, mesmo que o tratamento
tivesse começado e corresse bem. Vássia saía e não aparecia o dia
inteiro. Ele não proibia Lina de nada, mas era claro que o rio e a
catedral e aquela cidade maravilhosa ainda estavam muito distantes
dela. Por enquanto ela começou a sair devagarzinho de casa, a vagar
por uma só ruazinha, já que não tinha muita força.
Ali,
ela notou, todos se vestiam como Vássia, como os melhores hippies
que ela via nos filmes estrangeiros. Cabelos longos, lindos braços
finos, roupas brancas, até coroas de flores. É verdade que nas
lojas havia de tudo com o que era possível sonhar, mas, em primeiro
lugar, Vássia não deixava dinheiro para Lina — pelo visto o
tratamento consumia tudo, provavelmente era muito caro.
Em
segundo lugar, não era possível mandar encomendas, e por algum
motivo nem mesmo cartas. Aqui não era costume escrever! Não havia
nem um pedacinho de papel em lugar nenhum, canetas em lugar nenhum.
Não havia conexão — é possível que Lina estivesse numa espécie
de quarentena, algo transitório.
Lá,
depois do rio, ela via a verdadeira vida fervilhante da cidade
estrangeira. Ali também havia de tudo: restaurantes, lojas. Mas não
havia conexão. Lina por enquanto se movimentava apoiando-se com as
duas mãos na parede, como uma recém-nascida, como um bebê que mal
começou a andar. Quando Lina reclamou para Vássia que queria ir a
uma loja, ele trouxe para ela um monte de roupas — de todo tipo,
inclusive usadas, masculinas, femininas, infantis, e ainda por cima
de diferentes tamanhos. Trouxe também uma mala de sapatos,
recolhidos entre todos os seus conhecidos, como os amigos
estrangeiros costumam trazer para os russos. Entre as roupas havia
ceroulas masculinas cinza, Lina ficou um pouco sem graça por causa
delas. Só Deus sabe que coisas eram aquelas e de quem eram! E onde
ela iria guardar, Lina não sabia, porque ela mesma logo começou a
vestir tudo de Vássia — algo como uma camisa branca e por cima um
vestido branco de tecido fino. O tamanho das roupas dela e de Vássia
eram iguais, a constituição de Vássia, uma pessoa saudável, era a
mesma da exaurida Lina. Lina chorou um pouco com aquela roupa, à
noite contou para Vássia que queria muito enviar uma encomenda para
Serioja e a mãe, e mostrou dois montinhos. Vássia fechou a cara e
ficou calado. De manhã todas as roupas haviam sumido.
Vássia,
foi ficando claro, trabalhava ali mesmo, depois do rio, naquele
povoado de acesso restrito, e não sentia a menor necessidade de
atravessar a ponte e ir às catedrais e aos arcos; Lina teve que se
adaptar à sua existência sossegada e comedida. É verdade, ela
sabia que tudo poderia acontecer — o exemplo era sua própria vida
anterior — , inclusive que o jovem Vássia, mais novo que ela,
podia se apaixonar por alguém e ir embora. Ele não amava Lina,
aquele Vássia barbudo, apesar de poupá-la de todo o trabalho. A
comida aparecia sozinha, a roupa brilhava. Quando ele tinha tempo
para fazer isso?
O
quarto deles, que no delírio de Lina conservava traços do avião,
tinha porta e janela voltadas para um terraço com colunas brancas,
mas ali não se tinha nenhuma alegria. Lina suportava corajosamente
sua separação de Serioja, da mãe, das amigas e do amigo Liev do
instituto, ela entendia agora que a doença dela era incurável e só
podia se esforçar para se manter no estado atual — sem dor, mas
também sem forças; como ia ficar ali o barulhento Seriojenka com
suas lágrimas tempestuosas e olhinhos vermelhos de choro! Em
especial, como ficaria ali a mãe, venenosamente afável e também
chorosa! Ali não havia mágoa nem choro, ali era outro país.
Aborrecida,
sempre que podia Lina observava aquelas pessoas que pairavam de
branco e suas danças de roda sobre o rio com uma música monótona
da harpa (que atividade mais boba, aliás!) e suas sessões
silenciosas em longas mesas conjuntas no restaurante, com taças do
maravilhoso vinho local.
Lina
gostaria muito de contar às amigas e à mãe o que ela pensava disso
tudo, pelo menos escrever para elas que estava tudo bem, o tratamento
corria normalmente, havia de tudo nas lojas, mas não se compravam
coisas novas — primeiro, porque o preço era absurdo, e segundo,
porque ali não se usavam aquelas coisas, e ela não estava
acostumada com a comida, ainda que por enquanto não pudesse comer
muito. E coisas assim. Que queria mandar uma encomendazinha para
Serioja e para todos, mas por enquanto não havia oportunidade, não
havia ligações postais entre os países
deles.
Lina se arrastava pelas ruas, apoiando-se em tudo o que lhe caía nas
mãos, e em pensamento escrevia cartas para casa.
Com
o passar do tempo, porém, Lina começou a entender que a questão
das cartas era impossível de ser resolvida. Vássia prometia com
firmeza que mamãe e Seriojenka viriam, especialmente a mãe. Mas
mamãe sem Seriojenka? Ou ele sem a avó? “Com o tempo”, dizia o
barbudo Vássia, “com o tempo.”
Lina
queria começar a comprar algo para a chegada da mãe, mas Vássia a
fez entender que quando chegasse a hora tudo se resolveria.
Ali
ninguém ficava agitado com o dia de amanhã, ali pelo visto estavam
todos muito ocupados, mas em compensação a vida tinha uma
organização ideal, estéril, confortável. Vássia trabalhava numa
livraria dele, que herdara de uma tia, mas não levava livros para
Lina, já que ela não entendia a língua estrangeira, e eles não
tinham nada em russo. O próprio Vássia não sabia ler em russo.
Por
fim, Lina aprendeu a andar flutuando como os nativos. No fim era
muito simples. Era preciso subir para algum degrau mais alto e dar um
passo muito largo no ar. O passo seguinte, o outro pé já executava
pelo impulso, e cada pulo adiante era ainda mais livre e leve, como
num sonho. O Vássia barbudo não disse nada, mas no momento certo
desapareceu para sempre, pelo visto foi para além do rio, para a
cidade rica, como calculou a solitária Lina, e a deixou
completamente abastecida, como se verificou. No começo ela pensava,
sem lágrimas e sem medo, que naquele momento a expulsariam do objeto
voador deles e que a comida não ficaria para sempre na geladeira!
Mas a geladeira se enchia regularmente, como se tivesse um elevador
de cozinha, e Lina não comia nada, só bebia suco, e era saudável.
Chegou
afinal o dia em que ela, pensativa e com saudades, deixou para trás
os degraus de casa e correu a passos largos para a dança de roda na
margem do rio; afastando as mãos de outras pessoas, incorporou-se à
fileira geral e voou pelo círculo. Ela entendia, ela sabia, que
havia algo de errado ali, e já não queria ver ali nem a mãe, nem o
filhinho. Ela não queria nem encontrar ali aquele regimento de
soldados e tinha esperança de não encontrar ninguém nunca mais, e
se encontrasse, que não reconhecesse quem era, não distinguisse
entre os rostos jovens, pálidos, tranquilos que voavam, como ela,
livremente — e esperava não encontrar ali mais ninguém, naquele
reino dos mortos, e nunca saber como sentiam saudades dela lá, no
reino dos vivos.
11/03/2022
A casa da fonte
Uma
vez, uma menina foi morta, mas depois foi ressuscitada. A questão é
que disseram aos parentes que a menina estava morta, mas não a
entregaram (estavam todos viajando juntos num ônibus, mas na hora da
explosão ela estava de pé na parte da frente, e os pais, sentados
atrás). A menina era jovenzinha, tinha quinze anos, e a explosão a
havia jogado longe.
Enquanto
chamavam a ambulância, enquanto separaram os feridos e os mortos, o
pai segurou a menina nos braços, apesar de estar claro que ela havia
morrido, e de o médico ter constatado a morte. Depois foi preciso
levar a menina embora, mas o pai e a mãe subiram na mesma ambulância
e foram com a filha até o necrotério.
Ela
estava deitada na maca como se estivesse viva, mas não tinha nem
pulso, nem respiração. Disseram aos pais que fossem para casa, mas
eles não queriam — ainda não era hora de entregar o corpo, tinham
que esperar todos os trâmites da justiça e da medicina legal, isto
é, a autópsia e o estabelecimento das causas.
Porém
o pai, enlouquecido pela dor, e ainda por cima cristão praticante,
decidiu roubar a filha. Ele levou a esposa para casa, ela já estava
quase sem consciência, aguentou a conversa com a sogra, acordou a
vizinha, que era da área médica, e pediu o avental branco dela; em
seguida, depois de pegar todo o dinheiro que havia em casa, foi para
o hospital mais próximo, ali alugou uma ambulância vazia (eram duas
da madrugada) e, com uma maca e um auxiliar de enfermagem de uniforme
branco, se infiltrou no hospital onde mantinham a filha; evitando o
segurança, desceu pela escada rumo ao corredor no porão, entrou
calmamente no necrotério. Não havia ninguém ali. Logo encontrou
sua filha, colocou-a na maca com a ajuda do auxiliar de enfermagem e
em seguida, depois de chamar o elevador de carga, subiu com o seu
fardo
até o terceiro andar, para a unidade de terapia intensiva. Ele havia
planejado tudo ali, enquanto esperavam a decisão da noite na sala de
espera.
Ali
ele deixou o auxiliar de enfermagem ir embora e depois de uma breve
conversa com o médico da UTI , depois de entregar um maço de
dinheiro para ele, deixou a filha nas mãos do médico na ala de
terapia intensiva.
Como
ela não tinha um prontuário, o médico pelo visto concluiu que o
pai havia chamado a ambulância e trazido a paciente (morta pouco
antes) para o hospital mais próximo. O médico da UTI via muito bem
que a menina não estava viva, mas ele precisava muito do dinheiro, a
mulher acabara de dar à luz uma criança (também menina), e todos
os nervos daquele médico estavam no limite. A mãe dele não gostava
da esposa, e as duas se revezavam no choro, a criancinha também
chorava, e no hospital ele ainda cumpria o turno da noite. Precisava
conseguir dinheiro e alugar um apartamento. O que o pai enlouquecido
(claramente) daquela princesa morta havia oferecido a ele era o
suficiente para viver seis meses num apartamento alugado.
Sem
falar uma palavra, o médico se lançou à tarefa como se diante dele
de fato houvesse uma pessoa viva, mas mandou o pai vestir o uniforme
do hospital e o deitou na cama ao lado na mesma UTI , já que aquele
doente estava absolutamente resolvido a não abandonar a filha.
A
moça jazia branca como mármore, o rosto de uma incrível beleza, e
o pai olhava para ela sentado em sua cama com olhar meio estranho.
Uma pupila dele ia para o lado o tempo todo, e quando aquele louco
piscava, as pálpebras se descolavam com grande dificuldade.
O
médico, observando-o, pediu à enfermeira que o submetesse a um
eletrocardiograma, e depois aplicou uma injeção naquele novo
paciente. O pai apagou rapidamente. A menina ficou deitada como a
bela adormecida, ligada aos aparelhos. O médico cuidava dos
procedimentos dela, fazendo todo o possível, ainda que agora ninguém
o controlasse com aquele olhar fugidio. Para falar a verdade, aquele
jovem doutor era um fanático, para ele não existia nada mais
importante no mundo do que um caso grave e interessante, do que um
paciente, não importa quem, sem nome e individualidade, no limiar da
morte.
O
pai dormia, e no sono ele se encontrou com a filha. Quer dizer, ele
foi visitá-la, como ia à colônia de férias fora da cidade. Ele
pegou comida, por algum motivo só um sanduíche com recheio de
almôndegas, só isso. Subiu no ônibus (de novo o ônibus) numa
maravilhosa noite de verão, em algum canto perto da estação de
metrô Sókol, e foi para aquele lugar paradisíaco. Nos campos,
entre suaves colinas verdes havia uma enorme casa cinzenta com arcos
que iam até o céu, e quando ele transpôs esse portão gigante e
entrou no pátio, ali, no gramado de esmeralda, estava uma fonte do
tamanho de uma casa, um fluxo de água firme que se desfazia no alto,
com um penacho espumante. Havia um longo pôr do sol de verão, e o
pai com satisfação passeou rumo à entrada à direita do arco e
subiu para um andar alto. A menina o encontrou um pouco contrariada,
como se ele a estivesse atrapalhando. Estava de pé, olhando para o
lado. Como se ali transcorresse sua vida particular, própria, que já
não dissesse respeito a ele. Eram os assuntos dela.
O
aposento era enorme, com tetos altos e janelas muito largas, e dava
para o sul, na sombra, para a fonte que ficava ao lado, iluminado
pelo sol que se punha. A fonte era ainda mais alta que a janela.
— Trouxe
um sanduíche de almôndega, como você gosta — disse o pai.
Ele
se aproximou da mesinha debaixo da janela, pôs seu pacote sobre ela,
pensou e o desenrolou. Lá estava o estranho sanduíche, dois
pedacinhos de pão preto barato. Para mostrar à filha que havia
almôndegas dentro, ele abriu as fatias. Ali dentro havia (ele logo
entendeu) um coração humano cru. O pai ficou inquieto porque o
coração não estava cozido e não dava para comer o sanduíche.
Enrolou-o de volta no pão e disse, sem jeito:
— Eu
me confundi com o sanduíche, vou trazer outro pra você.
Mas
a filha se aproximou mais e olhou para o sanduíche com uma expressão
estranha no rosto. O pai tentou esconder o pacote no bolso e apertou
com a palma da mão, para que a menina não pegasse.
Ela
estava de pé ao lado dele, de cabeça baixa, com a mão estendida:
— Me
dê, papai, estou com fome, estou com muita fome.
— Você
não vai comer essa porcaria.
— Não,
me dê — disse ela com dificuldade.
Ela
estendia o braço flexível, muito flexível, para o bolso dele, mas
o pai entendia que, se a filha pegasse aquele sanduíche e comesse,
ela morreria.
E
então, virando-se, ele puxou o pacote, abriu-o e começou a comer
rapidamente o coração cru. Na mesma hora sua boca se encheu de
sangue. Ele comeu aquele pão preto com sangue.
“Agora
eu também vou morrer”, pensou ele, “que bom que vou antes dela.”
— Me
escute, abra os olhos! — alguém disse.
Com
dificuldade ele descolou as pálpebras e viu, como uma névoa, numa
moldura que se desfazia, o rosto do jovem médico.
— Estou
ouvindo — respondeu o pai. — Qual é o seu tipo sanguíneo?
— O
mesmo da minha filha.
— Tem
certeza?
— Sim,
é isso mesmo.
Ali
mesmo o levaram para algum lugar, amarraram um torniquete no braço
esquerdo, puseram uma seringa na veia.
— Como
ela está? — perguntou o pai.
— Como
assim? — perguntou o médico, concentrado em sua tarefa.
— Viva?
— O
que você acha? — resmungou o médico.
— Está
viva?
— Deite-se,
deite-se — exclamou o bom doutor. O pai se deitou, escutando alguém
agonizar e chorar ao lado.
Em
seguida já estavam atarefados cuidando dele, e ele de novo foi
embora para algum lugar, de novo estava verde ao redor, mas então
foi despertado por um barulho: a filha, deitada na cama ao lado,
agonizava alto, como se lhe faltasse ar. O pai olhou para ela de
lado. O rosto dela estava branco, a boca se entreabriu. Do braço do
pai para o braço da filha corria sangue vivo. O pai se sentia leve,
apressava a passagem do sangue, queria que todo ele corresse para a
filha. Queria morrer para que ela ficasse viva.
Depois
ele se viu ainda no mesmo apartamento, no enorme prédio cinza. A
filha não estava. Ele foi procurá-la com calma, examinou todos os
cantos daquele apartamento luxuoso com muitas janelas, mas não achou
ninguém. Então ele sentou no sofá, depois deitou. Estava
tranquilo, sereno, como se a filha já estivesse instalada em algum
lugar, vivesse de forma alegre, e ele pudesse descansar. Ele (no
sonho) começou a adormecer, e então a filha apareceu. Entrou no
quarto como um turbilhão, logo parou ao lado dele como uma coluna de
vento rodopiante, uivou, sacudiu tudo em volta, cravou as unhas na
dobra do braço direito do pai, de tal forma que penetraram na pele.
A pontada foi forte, e ele começou a gritar de terror e abriu os
olhos. O médico acabara de introduzir uma agulha na veia do seu
braço direito.
A
menina estava deitada ao lado, respirando com dificuldade, mas já
não agonizava tanto. O pai se soergueu, apoiando-se no cotovelo, viu
que seu braço esquerdo já estava livre do torniquete e com
curativo, e se dirigiu para o médico:
— Doutor,
preciso fazer uma ligação urgente.
— Não
me fale em ligação — retrucou o médico –, por enquanto não
tem nada que ligar. Deite, senão você também vai… deslizar…
Mas
antes de sair ele deu seu celular, e o pai ligou para a mulher, mas
não havia ninguém em casa. A mulher e a sogra pelo visto haviam ido
sozinhas, de manhã cedo, para o necrotério, e agora estavam
enlouquecidas, sem entender onde estava o corpo da filha.
A
menina já estava melhor, mas ainda não tinha recuperado a
consciência. O pai tentava ficar perto dela na UTI, fingindo que
estava morrendo. O médico da noite já
havia
ido embora, e o infeliz pai já não tinha dinheiro, porém o haviam
submetido a um eletrocardiograma, e por enquanto o deixavam ali,
parece que o médico da noite havia combinado algo assim, ou o
resultado do exame fora ruim.
O
pai refletia sobre o que fazer — descer ele não podia, telefonar
não permitiam, todos eram desconhecidos e estavam ocupados. Ele
pensava no que deviam estar sentindo suas duas mulheres, suas
“meninas”, como ele as chamava: a esposa e a sogra. O coração
doía muito. Puseram uma sonda nele, como a da filha.
Depois
ele adormeceu, e quando acordou a filha não estava ao seu lado.
— Enfermeira,
onde está a menina que estava deitada aqui?
— Para
que você quer saber?
— Sou
pai dela, por isso. Onde ela está?
— Ela
foi levada para a sala de operação. Não se preocupe e não se
levante. O senhor não pode.
— O
que ela tem?
— Não
sei.
— Querida
enfermeira, chame o médico!
— Estão
todos ocupados.
Ao
lado um velho gemia. Do outro lado da parede alguém, talvez o jovem
médico, pelo visto executava algum procedimento com uma velha e
conversava como se ela fosse uma simplória da roça, alto e em tom
de brincadeira.
— E
aí… Vovó, quer sopa? — Pausa. — Que sopa você quer?
— Hum
— mugia de alguma forma não humana a velha, com uma voz metálica.
— Quer
sopa de cogumelos? — Pausa. — Quer com cogumelos? Comeu a sopa
com cogumelos?
De
repente a velha respondeu com seu grave metálico:
— Cogumelos…
com macarrão.
— Ah,
muito bem — gritou o médico.
O
pai estava deitado e se preocupava, em algum lugar sua filha era
operada, em algum lugar estava a esposa meio enlouquecida de dor, ao
lado a sogra se contorcia… Um jovem médico o olhou, de novo
aplicaram uma injeção e ele caiu no sono.
À
noite ele se levantou em silêncio e como estava, descalço, só de
camisola do hospital, saiu. Chegou até a escada sem ser percebido e
desceu pelos degraus frios, como um fantasma. Foi até o corredor do
porão, andou seguindo uma seta na qual estava escrito: ALA DE
ANATOMIA PATOLÓGICA .
Ali
ele chamou uma pessoa de avental branco:
— Paciente,
o que está fazendo aqui?
— Sou
do necrotério — respondeu o pai de repente — , eu me perdi.
— Como
assim do necrotério?
— Saí
mas deixei meus documentos lá. Quero voltar, mas não sei onde é.
— Não
estou entendendo nada — disse o de avental branco, pegou-o pelo
braço e o levou pelo corredor. Depois, apesar de tudo, perguntou:
— O
que houve, você se levantou?
— Eu
voltei à vida, não havia ninguém, saí, depois decidi voltar mesmo
assim para que percebessem.
— Um
milagre — respondeu seu acompanhante.
Eles
chegaram à ala, mas ali o enfermeiro os recebeu com palavrões. O
pai escutou todas as suas objeções e perguntou:
— Minha
filha também está aqui, ela devia dar entrada depois da operação.
Ele
disse o sobrenome.
— Não
está, ela não está! Estão fazendo todos quebrarem a cabeça!
Vieram procurar de manhã! Ela não está aqui! Puseram aqui todos os
que têm câncer! E esse ainda é da psiquiatria! Fugiu do manicômio
ou o quê? De onde ele veio?
— Estava
vagando pelos corredores — respondeu o de avental branco.
— Então
chame a segurança — o enfermeiro voltou a dizer palavrões.
— Quero
ligar para casa — pediu o pai. — Eu me lembrei, eu estava na UTI
no
terceiro
andar. Perdi a memória depois da explosão do ônibus na Varchavka,
vim parar aqui.
Então
os aventais brancos se calaram. A explosão na Varchavka havia
acontecido dias antes. Levaram-no, tremendo, descalço, para uma mesa
onde havia um telefone.
A
esposa atendeu o telefone e ali mesmo começou a soluçar:
— Você!
Você! Onde você foi parar? Levaram o corpo dela, não sabemos para
onde! E você andando por aí! E nem um copeque em casa! Nem para o
táxi encontramos! Você pegou, não é?
— Eu…
eu estava sem consciência, vim parar no hospital, na UTI …
— Onde,
em qual?
— No
mesmo em que ela estava…
— E
onde ela está? Onde? — uivou a esposa.
— Não
sei, eu não sei. Estou sem roupa nenhuma, traga tudo para mim. Estou
aqui no necrotério descalço. Qual o endereço do hospital?
— O
que te levou para aí? Não estou entendendo nada — continuou
soluçando a mulher.
Ele
deu o telefone para o avental branco. Este tranquilamente, como se
não tivesse acontecido nada, informou o endereço e desligou o
telefone. O enfermeiro trouxe um avental e uns chinelos gastos,
tortos para ele. Pelo visto teve pena daquela pessoa viva, e o
encaminhou para o posto do segurança.
A
esposa e a sogra chegaram com o rosto inchado, parecendo velhas,
vestiram-no, calçaram-no, abraçaram-no, finalmente o escutaram,
chorando felizes, e todos juntos começaram a esperar no sofazinho,
porque lhes disseram que haviam operado a filha deles, ela estava na
UTI e a situação não era tão grave.
Duas
semanas depois ela já começava a andar, o pai a levava para passear
pelos corredores e repetia o tempo todo que ela estava viva depois da
explosão, estava simplesmente em choque, em choque. Ninguém notou,
mas para ele ficou claro na hora.
É
verdade, ele ficava calado a respeito daquele coração humano cru
que teve que comer para que ela não comesse. Mas isso havia sido no
sonho, e no sonho não conta.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
19/02/2022
Eu te amo
Com
o passar do tempo, todos os sonhos dele poderiam ter se realizado e
ele poderia ter se unido à mulher amada, mas o caminho era longo e
não levou a nada. A única coisa que o acompanhou por todo aquele
caminho longo e estéril foi uma imagem de revista com a fotografia
da mulher amada, e ainda por cima no trabalho dele só algumas
pessoas sabiam quem era ela — um par de pernas, e só isso, bem
roliças, sem meias, com sandálias de salto alto; ela mesma havia se
reconhecido na hora, sua bolsinha e a barra do vestido. Como ela
adivinhou que haviam fotografado sua metade inferior? O fotógrafo
havia corrido na rua e clicado uma vez, outra, depois publicou só a
saia e as pernas dela. Ele, a pessoa de quem estou falando, guardava
essa foto em casa sobre a mesa, presa com tachinhas, e a esposa não
o contradizia em nada, ainda que fosse uma mulher severa e mandasse
em toda a família, até na mãe, e depois nos filhos, sem falar nos
parentes distantes e nos alunos. Porém, era uma dona de casa boa,
acolhedora, generosa, só que não dava sossego aos filhos, e a mãe
vivia tranquila com ela, deitava na caminha, lia para os netinhos
enquanto podia, aproveitava o calor, a calma, a televisão. Depois,
passou muito tempo morrendo resignadamente, já quase não mexia a
cabeça, e um dia se foi em silêncio.
Quanto
a ele, depois de enterrar a sogra, ficou pacientemente esperando que
a mulher morresse. Por algum motivo ele sabia que ela morreria e o
libertaria, e ele se preparava para isso de forma muito ativa: levava
uma vida esportiva e saudável, corria de manhã, até brincava com
halteres, mantinha uma dieta rigorosa e com isso conseguia trabalhar
muito e chegou a ser chefe do departamento, viajava para o exterior —
e esperava. Sua escolhida, uma loira bonitinha e roliça, era o sonho
de todos os homens e quase uma Marilyn Monroe, trabalhava bem ao lado
dele e às vezes o acompanhava nas viagens a trabalho — e ali
começava a verdadeira vida: restaurantes, hotéis, passeios e
compras, simpósios e excursões. Que saudade ele sentia todas as
noites, ao voltar do paraíso para o inferno, para o ninho pobre e
quente onde turbilhonava a vida em família, atravancada, pesada, em
que as crianças adoeciam, enlouquecidas e enfurecidas, atrapalhando
a concentração, e eles precisavam acalmá-las; a situação chegava
a ponto de ter que recorrer ao cinto, e depois o pai se sentia ainda
mais humilhado e ofendido. A própria esposa gritava com as crianças,
a esposa não tinha tempo para nada, mal conseguia dar a volta na
casa inteira. Como em toda família que se preze, ali também moravam
uma gata e um cachorro, e a gata dava miados roucos a noite toda
quando estava no cio, e o cachorrinho latia cada vez que chegava o
elevador, e justamente à noite aquela família era especialmente
desagradável para o pai: ele ficava deitado na cama e, submergindo
em sonhos saudosos, ansiava pelo corpo, pela tranquilidade, pelos
encantos que emanavam daquela amiga ilícita durante as viagens.
Quando não estavam juntos, a loira também era perseguida pela vida:
o marido e a sogra subiam no pescoço dela, a sogra a obrigava a
esfregar o apartamento inteiro aos sábados, a ponto de limpar os
azulejos do banheiro com amônia! O marido bebia demais e não
deixava a coitada ir às festas do trabalho, aniversários etc.,
sempre fazia escândalo antes das viagens a trabalho, desconfiava,
ele e a sogra a pressionavam, como Cila e Caríbdis; além disso,
eles ainda faziam escândalos entre si, o marido e a mãe. A sogra
importunava a pobre loira, perguntava por que o marido dela nunca
beliscava alguma coisa quando bebia, e comia pouco em geral, até
disso ela era culpada! No trabalho a loira reclamava muito pouco, era
discreta e não desabafava com ele diretamente, como fazia a esposa.
Existem mulheres assim, ele pensava, esparramado na cama, o marido
solitário, e atrás da parede choravam e se esgoelavam os filhos
dele dormindo, um menino e uma menina, e a esposa cardíaca roncava,
cada vez mais velha e cada vez mais amorosa. Para a mente é
inconcebível que ela, uma velha de quarenta e tantos anos, o amasse
e cuidasse tanto dele! Parece que ela nunca acreditou que ele a
amava, que aquele homem chique, com as têmporas grisalhas, fosse
marido dela, e sempre se apagava e se recusava a ir com ele para
qualquer lugar. Ela costurava vestidos para si mesma, sempre com o
mesmo corte simples, longos e folgados, para esconder a gordura e os
remendos nas meias, para as quais sempre faltava dinheiro. Na língua
dos inúmeros convidados e parentes, isso se chamava “vestir-se com
bom gosto e discrição”; os convidados vinham em multidões em
todas as festas, adoravam os salgadinhos dela, os pãezinhos e as
saladas — eram todos convidados dela, amigos de escola, da mesma
idade, parentes — eles se lembravam dela jovem, bonita, com
covinhas, com uma trança grossa, e não reparavam que ela já não
era mais a mesma, já tinha se apagado.
Na
verdade, ela já havia descartado a trança e as covinhas fazia muito
tempo, cuidava do marido e da mãe, tomava conta dos filhos, corria
para comprar alimentos frescos na feira para ele, senhor da sua vida,
e não tinha tempo de ir a lugar nenhum, mas por algum milagre sempre
chegava na hora em todos os lugares, e assim tentava viver em ordem —
e, naturalmente, à noite ficava muito tempo com os livros na
cozinha, depois de pôr a família inteira para dormir, fazendo algum
trabalho extra naquelas mesmas noites, na mesma cozinha, ou
preparando as aulas. Ao chegar do trabalho, ela contava histórias
sobre seus alunos e às vezes cozinhava um balde de almôndegas e um
balde de mingau, e os alunos vinham visitá-la, traziam flores,
faziam um barulho tímido, comiam tudo o que houvesse e distraíam a
professora com canções absurdas e coletivas. Mas isso acontecia
quando o senhor estava fora em suas viagens a trabalho, e só nessas
horas.
Quando
os filhos nasceram, o menino e a menina, o primeiro pensamento dela
foi o marido: levá-lo ao trabalho depois do café da manhã,
recebê-lo com jantar na mesa quando chegava do trabalho, escutar
tudo o que ele queria dizer. Houve só um intervalo, quando a mãe
dela começou a morrer e no curso de três anos morreu; nesse momento
ela abandonou tudo, e as coisas de alguma forma andaram, não se sabe
como, e o pai da família, no café da manhã, comia sozinho o que
havia na mesa, e também jantava sozinho, ele mesmo ajeitava algo e
ia para o quarto carrancudo, mas mesmo assim foi o primeiro a
carregar o caixão, e não se diferenciava do resto em sua tristeza
genuína. Depois do enterro o quarto da mãe ficou vazio, fechado,
não havia forças e também a dona da casa em silêncio resistia,
dormia na sala com os filhos, ou melhor, ficava sempre sentada do
mesmo jeito na cozinha — tinha perdido o sono.
Para
o marido também foi um período difícil; seu amor começara a se
queixar e a exigir uma vida familiar completa, independente,
recusava-se a se trancar com ele no apartamento vazio de conhecidos,
como já se acostumara a levá-la no intervalo do almoço, e até ia
mais longe: ela estava flertando nos escritórios vizinhos e no bufê,
e os homens, farejando uma “defesa enfraquecida”, na expressão
dos colegas, abriram uma trilha para o escritório dela, e o telefone
tocava, e alguém passava para dar uma carona e por aí vai. Nosso
marido estava comendo o pão que o diabo amassou, estava roído de
amor e dívidas, e adotou uma postura inflexível e obstinada no
tratamento de sua amiga, apesar de às vezes chorar aliviado no ombro
dela, se conseguisse. O que podia fazer? A esposa, em todo o seu
desespero, notava que o marido havia murchado, que seu olhar estava
perdido e que ele parecia totalmente fora do ar. A esposa voltou a
si, rapidamente fez uma reforminha no quarto da mãe e lá se
instalou com os filhos, e a sala voltou a ser um lugar de encontro,
conversas e pequenas festas, e para os convidados o marido parecia um
pai de crianças maravilhosas e chefe da casa (e não um cachorro
abandonado e sem lar), e amado, um marido idolatrado como um semideus
(e não o antepenúltimo pretendente na fila de uma mulher sem dono).
Agora davam o café da manhã a ele antes de todos, de repente até
foram costurados alguns vestidos novos de lã barata, aos domingos a
esposa começou a levar os filhos para longos passeios, às vezes no
parque, às vezes no circo, às vezes no planetário. Mas no quarto
do marido, sobre a mesa, ainda estavam penduradas as perninhas nuas
roliças sob a saia, e de saltos: ele não se rendia.
Por
fim ouviu-se um trovão, e o marido da loira — “nosso marido”,
como o casal clandestino o chamava — perdeu as estribeiras,
enfureceu-se, perseguiu a loira com um machado, ela se trancou no
banheiro até a noite, de noite deu um jeito de escapar de casa,
ligou para o nosso herói de um telefone público, ele foi correndo
encontrar com ela, voltou quase de manhã, e de manhã novamente foi
tirado da cama por uma ligação terrível, como sempre são as
ligações ao amanhecer: o marido havia sido encontrado enforcado na
porta pela mãe. Claro que a pobre viúva recente passou o mês
seguinte com uma espécie de família de amigos condoída; nosso
herói mesmo assim não tomava a decisão de propor casamento, e ali,
naquela família amigável, a anfitriã de alguma forma reuniu forças
e expulsou a triste loira, bonitinha demais com sua palidez de luto,
o que era insuportável observar pelos cantos, ainda mais porque o
dono da casa começou a experimentar sentimentos platônicos de
amizade e compaixão pela loira, o que era bem mais perigoso do que
uma simples sujeira humana, entra e sai e pronto.
Não
foi logo, mas tudo se acalmou. A loira ganhou seu próprio
apartamento, alguém gostou do apartamento devastado da velha sogra,
convenceram-na a trocar aquele lugar terrível por algo perto da
sobrinha. A loira ganhou um apartamento mais distante e pior, mas só
dela, e então nosso marido, nosso herói, precisava tomar uma
decisão definitiva, sim ou não, e começar a reforma — móveis,
instalação elétrica, vedação das janelas — no novíssimo
apartamento de sua escolhida. Em vez disso ele começou a trabalhar
com muito empenho em sua própria casa, colou papel de parede na sala
com os filhos, retomou os exercícios físicos, ducha e corrida,
passou a mostrar uma dedicação redobrada pelas crianças e a
discipliná-las, porque sua descendência tinha crescido um pouco e
começava a atrapalhar, era essa a questão. Com a loira ele
permaneceu no papel de conselheiro e visitante, ela cuidou de tudo
sozinha, aquilo a ocupava, ela se aconselhava, mostrava uns projetos,
e já havia alguém que levava para ela, de carro, os azulejos de
Mettlach para o banheiro e os móveis da cozinha. A loira estava
avaliando bem a situação e não perdia ninguém de vista, pois
tinha diante de si a perspectiva da solidão.
A
foto estava sobre a mesa como antes, e o marido tinha até um dia
fixo para visitar a loira — aliás, ele agora havia sido
transferido para outro instituto onde recebia um bom salário, e a
relação com o antigo local de trabalho tinha se complicado muito
quando a loira precisou ser promovida, e receberia um aumento, mas
não recebeu por causa da raiva geral. Ele saiu em sinal de protesto
e prometeu levá-la para o seu trabalho com o tempo; a esposa não
entendeu nada e ficou radiante de alívio, e na casa houve uma festa,
assaram salgadinhos porque finalmente o marido tinha largado Aquela.
Mas a foto ainda estava pendurada.
Ele
saiu e se instalou bem no novo local de trabalho, as crianças
estavam crescendo, esportivas, disciplinadas, adestradas, como
acontece quando a família é estável e se assenta no culto ao pai
com uma adoração reforçada e na submissão voluntária da mãe
abnegada. A palavra do pai era a lei, e eles andavam seguindo uma
ordem: o pai na frente, as crianças lado a lado, e atrás a mãe,
acabada, chefiando a família à distância. Era uma alegria olhar
para eles, mas a fotografia das perninhas ainda assim estava
presente.
A
mãe da família esperou até que o menino, o mais novo, entrasse na
faculdade, e então se rendeu por completo, como a mãe dela havia
feito. De pé na cozinha, ela desabou diante de todos um dia, começou
a agonizar e assim continuou por três dias no hospital. A família,
disciplinada e trabalhadora, se reagrupou, estabeleceu um sistema de
turnos e foram contatados velhos amigos e parentes, alunos antigos e
ainda devotados, e o marido arrancou sua esposa da beira da cova, da
morte e do esquecimento. Quando a levaram para casa, ela já era uma
velhinha miúda, só mexia a mão direita um pouco, não se entendia
o que falava, e volta e meia seus olhos vertiam lágrimas. Ela
parecia se desculpar por sua aparência naquela situação, se
desculpava por toda a vida passada, por não poder criar nada para o
seu semideus e no fim das contas cair naquela história de paralisia
e arrastá-lo. Com o passar do tempo os moradores da casa se
acostumaram àquele peso, ainda que às vezes se irritassem e
gritassem um pouco uns com os outros: mesmo com todas aquelas
comadres, com as limpezas diárias, as escaras e os pensamentos
involuntários, por quantos anos iria se estender aquele estado
animalesco ou vegetativo — esses pensamentos os atormentavam. O pai
pareceu se tranquilizar de repente, a alma dele estava como que
estacionada, todos os movimentos dele em volta da esposa eram
fluidos, pacientes, a voz era suave. Os filhos ainda gritavam um
pouco uns com os outros e com a mãe, eles tinham seus momentos de
instabilidade, sentiam-se destituídos de mãe, ou seja, de uma base
e suporte, e se tornaram pais inexperientes da própria mãe, ainda
fracos, sentiam que algo ali não estava certo, não havia
perspectiva; ou melhor, havia, mas era terrível. Os filhos acusavam
um ao outro, lavavam a roupa suja, que lástima, na frente da mãe!
Mas o zelo deles não afrouxou, e a paciente continuava limpa,
fresca, punham um radinho debaixo do ouvido e às vezes liam em voz
alta para ela; mas mesmo assim ela sempre chorava e tentava dizer
algo só com os sons das vogais, sem a língua.
Na
noite em que ela morreu e foi levada, o marido caiu na cama e
adormeceu, e de repente ouviu que ela estava ali, deitada com a
cabeça junto à dele no travesseiro, e disse: “Eu te amo”. Ele
dormiu mais, teve um sono feliz e estava tranquilo e orgulhoso no
enterro, apesar de ter emagrecido muito, e era honesto e firme, e no
memorial, já em casa, diante de todas as pessoas reunidas, disse a
todos que ela havia dito a ele “Eu te amo”. Todos congelaram
porque sabiam que era a pura verdade — e a foto já não estava lá.
A foto havia desaparecido da vida dele, havia desabado, perdera o
interesse naquele momento, e ele, inesperadamente, ali à mesa,
começou a mostrar a todos pequenas fotos de família apagadas, da
esposa e dos filhos — todos aqueles passeios dos quais ele não
havia participado, todas aquelas distrações, pobres mas felizes,
pelos parques e planetários que ela organizava para as crianças,
todas as tentativas dela de construir uma vida no pouco que havia
restado para ela, naquela ilhazinha onde mantinha os filhos
protegidos e onde precisava sempre se interpor no espaço à frente
de todos, para encobrir a maldita foto da revista — mas ela havia
ido embora, tudo havia acabado bem, e ela de todo jeito tinha
conseguido dizer para ele a frase “Eu te amo”: sem palavras, já
morta, mas tinha conseguido.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
05/02/2022
O deus Posêidon
Foi
num lugar à beira-mar que encontrei minha amiga Nina, uma mulher já
não muito jovem e com um filho adolescente. Nina me levou até sua
casa, e vi algo incomum. A portaria, por exemplo, era retumbante,
alta, com escadaria de mármore, e depois vinha o próprio
apartamento, atapetado com pelo de castor cinza, com predominância
de madeira escura e feltro escarlate. Tudo isso tinha uma aparência
magnífica, como uma imagem na revista da moda L’Art de la
Décoration, a arte da decoração, e exatamente igual era o
banheiro, novamente o chão atapetado em cor cinza, com lavabo de
porcelana azul e espelhos — era simplesmente um sonho! Eu não
acreditava nos meus próprios olhos, mas Nina tinha a mesma eterna
aparência reticente e cansada, e me levou para o quarto com três
portas escancaradas, meio escuro, mas também elegante, com uma
quantidade inesperada de camas desfeitas. “Como é, você se
casou?”, perguntei para Nina, e ela, com cara de dona de casa que
arruma tudo, preocupada, mas sem tocar em nada, foi para uma das
portas. Lembro do quarto luxuoso, como um hotel, com closets, uns
quatro metros de cada lado, e vestidos pendurados nos cabides. Como
essa riqueza e abundância foram concedidas à pobre Nina, que nunca
havia tido uma roupa íntima razoável, e usava eternamente o
mesmo sobretudo no inverno e três vestidos, um mais velho que o
outro? Havia se casado, mas aqui? Foi para aquele lugar selvagem,
aquele vazio à beira-mar onde as pessoas não moram, e sim esperam o
verão, quando será possível alugar quartos para estranhos. Mas e
aquelas escadas, os corredores, as passagens; e além disso não saí
do apartamento pela mesma porta, dei por mim na portaria vizinha, de
mármore branco, onde já entravam alunos de escola com professoras
numa excursão.
Bem,
ela se casou, no fim das contas era isso. Nina havia trocado seu
apartamento de um quarto em Moscou, onde vegetava com o filho, por
aqueles aposentos, e ainda por cima com toda a mobília e até
lençóis e roupas! Quer dizer, os donos da casa não
haviam
tocado em nada, eles apenas se retiraram, e por isso Nina tinha o ar
preocupado, porque havia duas camas a mais no quarto — eram camas
da dona da casa e do filho, um jovem pescador calado com bochechas
gorduchas. A dona da casa pelo visto cuidava de seus afazeres como
antes, pelo visto cuidava da casa, e nos sentamos à mesa sob a
supervisão dela; ela se comportava tal como uma sogra boa e
tranquila, e como se Nina fosse sua nora querida, em nome da qual a
sogra se desdobrava e se atarefava pela casa, mas na verdade mantendo
todas as posições de mãe da família e principal pessoa da casa,
sem permitir que a nora fizesse nada.
Acontece
que a dona da casa havia feito uma troca com Nina. Nina largara seu
trabalho no jornal da capital e se preparava para escrever sobre a
região, sobre o mar, que ela sempre havia adorado — ela venerava
tudo o que vinha do mar — , e enquanto isso ela circulava com o
rosto preocupado por sua nova casa, da qual a antiga dona ainda não
havia saído. Todas as formalidades foram cumpridas, Nina tinha os
papéis, ela morava com o filho na casa, mas a senhoria idosa e o
filho dela também estavam morando nessa casa por todo aquele
inverno, e nem sombra de falar em mudança. Nina, que não era uma
pessoa prática, era desleixada, habituada a deixar tudo seguir seu
curso natural — por isso saiu do jornal para viver como autônoma e
para supostamente desvendar toda a sua vida — , aceitou tudo o que
estava acontecendo. Ela comia, bebia, ia até a praia, sentava lá, o
filho dela ia para a escola local, bastante boa, não precisava de
dinheiro, toda aquela família duplicada se alimentava com dádivas
do mar que o jovem pescador trazia no barco.
— Quem
é ele? — perguntei, e Nina respondeu sem hesitar que ele era filho
do deus do mar, Posêidon, podia viver e respirar debaixo da água,
de lá trazia tudo, ia a pé para vários países pelo fundo do mar e
trazia não só peixe, mas também conchas e pérolas, assim como
tudo para a casa e para a família.
Com
isso a antiga esposa de Posêidon, que não se sabe por que aceitara
Nina completamente arrasada sob seus cuidados, se sentava na cadeira
principal, sob uma janela alta, e nos dava de comer e nos dava de
comer, e na minha memória sempre surgia da suíte de luxo digna de
hotel, com lençóis magníficos como espuma do mar, e com quatro
camas — e imaginava que é assim que é preciso ser, deixar tudo
seguir seu curso, sem lutar, afrouxar os braços, e então você vai
respirar debaixo daquela água, e o deus Posêidon vai te tomar e te
instalar em condições nada ruins. Pois, ao voltar para casa em
Moscou, fiquei sabendo que Nina não havia se mudado para lugar
nenhum, e justo no ano anterior havia se afogado com o filho pequeno,
estavam no famoso naufrágio de uma lancha de passeio perto daquela
mesma costa onde eu acabara de passear, sem suspeitar de nada.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
26/01/2022
A menina-nariz
Numa
certa cidade vivia uma menina muito bonita chamada Nina. Ela tinha
cabelos dourados e encaracolados, olhos grandes e azuis como o mar,
um nariz enorme e maravilhosos dentes brancos. Quando ela sorria, era
como se o sol brilhasse. Quando ela chorava, era como se pérolas
caíssem. A única coisa que a estragava era o nariz grande. Uma vez,
Nina juntou todo o dinheiro que tinha e foi até o médico. Ela
disse:
— Não
tenho ninguém nesta cidade, eu me sustento sozinha, meu pai e minha
mãe moram longe e eu não posso pedir dinheiro, eles não são
ricos. Aqui está todo o meu dinheiro. Faça um nariz pequeno para
mim! Quando eu nasci, meus pais cometeram um erro e não convidaram
um velho feiticeiro que vivia na floresta para a festa. Quando ele
ficou sabendo que não tinha sido chamado, ficou muito ofendido e
disse que me daria um presente muito importante e valioso. E desde
então meu nariz começou a crescer. Quando meus pais foram perguntar
para o feiticeiro, ele disse que, se eu tivesse um nariz pequeno e me
tornasse uma bela mulher, qualquer cafajeste se apaixonaria por mim;
já desse jeito, só uma pessoa no mundo se apaixonaria por mim. E
depois ele disse para meus pais: “Vejam vocês! Vocês são pessoas
normais, feias, nunca se preocuparam com seus narizes!”. Meus pais
responderam: “Mas nossa filha seria linda, coitada!”. Mas o mago
não fez nada por mim. Agora eu cresci, trabalho como cabeleireira,
sou uma boa profissional, tenho fila de espera. Mas não sou feliz.
O
médico disse para ela:
— Aqui
não posso fazer nada. Vá para outra cidade, lá mora um mago,
talvez ele te ajude.
A
moça foi para a outra cidade. Na sua cabine do trem estava um jovem
com roupas muito pobres que lia um livro grosso. Ele não prestou a
menor atenção em
Nina.
Porém, à noite o trem deu um solavanco forte e no sono Nina caiu da
cama de cima do beliche. Ela perdeu a consciência e acordou nos
braços do jovem. Ele disse a ela:
— Que
bom que não dormi e consegui pegar a senhorita.
— Muito
obrigada, moço — disse Nina, levantando. — Se quiser, venha ao
meu salão, trabalho na praça principal, corto seu cabelo e faço
sua barba.
— Não,
eu mesmo corto o meu cabelo de seis em seis meses com uma grande
tesoura de tosar ovelhas e também aparo minha barba. Obrigado.
— Então
— disse Nina — , venha só para tomar um chá.
— Obrigado,
gosto de tomar chá sozinho — respondeu o rapaz e voltou a ler o
seu livro.
— Então
venha só por vir — disse Nina.
— Ir
só por ir eu não quero — respondeu o jovem — , não tenho
tempo.
Enquanto
isso o trem já havia chegado à outra cidade, e Nina foi visitar o
mago. Ele se revelou um belo jovem com barba negra e óculos escuros
muito bonitos. Disse que podia ajudar Nina, mas para isso exigia o
dedão direito dela. Nina concordou, tornou-se uma mulher
incrivelmente bonita, mas sem um dedo. Quando ela saiu na rua, os
passantes começaram a parar, os carros começaram a buzinar, e os
jovens corriam para acompanhar Nina à estação. No trem, cederam a
ela uma cama na parte de baixo do beliche, trouxeram vários buquês
de rosas, limonada e muitas caixas de bombons. Quando ela chegou à
sua cidade, a mesma cena se repetiu. Atrás de Nina seguia o carro de
um conde que, baixando o vidro, implorou pela janela que ela se
casasse com ele. Mas Nina não entrou no carro dele. Agora ela vagava
pela cidade dias inteiros, na esperança de encontrar o jovem do
trem. Já não podia trabalhar como cabeleireira, porque lhe faltava
o dedo principal da mão direita, mas ela tinha um pouco de dinheiro,
e então ficou andando dias e dias pela cidade, e atrás dela seguia
o carro do conde. Todo dia convidavam Nina para bailes, ela foi
declarada a mulher mais bonita da cidade, e, alguns achavam, do
mundo. Mas ninguém sabia que ela não tinha mais dinheiro e que só
comia uma vez por dia — à noite, no baile, café com sorvete. Por
fim, ela não aguentou e foi trabalhar como faxineira, juntou
dinheiro e foi novamente ver o mago na outra cidade. Ela disse a ele:
— Pegue
todo o meu dinheiro, mas me diga onde encontrar meu amado, o homem do
trem.
— Certo
— disse o mago — , devolva meu nariz e pegue o anterior, e aí eu
digo.
— Não
— respondeu Nina — , peça tudo o que quiser, menos isso.
— Certo
— disse o mago — , vou ter que pegar mais um dedo da sua mão
direita, dessa vez o indicador.
— Está
bem — respondeu a moça sem hesitar.
— O
endereço dele é o seguinte: ele vive na sua cidade, rua Mão
Direita, casa dois, no sótão. Vá rápido!
Nina
foi às pressas para a estação de trem, chegou à sua cidade e
encontrou a casa. Ela entrou no sótão do seu amado e perguntou:
— Está
me reconhecendo?
— Não
— disse ele.
— Lembra,
você me pegou nos braços quando eu caí da cama de cima.
— Não,
não era você — respondeu o amado. — Aquela moça tinha um rosto
completamente diferente. Ela era tão engraçada!
Nina
não sabia mais o que dizer e saiu. Mas todo dia ela ia até a rua
Mão Direita para olhar o jovem pela janelinha. Nina agora sempre
usava luvas, só as tirava à noite para lavar as escadas. Ela era
convidada para bailes, aniversários e festas da cidade como antes, o
carro do conde ainda andava atrás dela, e duas vezes por mês o
conde a pedia em casamento. Mas Nina não aceitava e respondia assim:
— Já
não basta você não parecer uma pessoa. Agora você está disposto
a fazer de tudo por mim, mas depois vai ser ciumento ou pão-duro,
vai me negar um pedaço de pão… Só faltava…
Mas
eis que uma noite, depois de limpar a escada, Nina foi olhar a janela
do rapaz e viu uma velha de preto mexendo a cortina. Fora de si de
tanto medo, Nina correu para o quarto andar e tocou a campainha do
sótão.
A
própria velha de preto abriu a porta para ela.
— O
que você quer? — perguntou ela.
— O
que aconteceu com ele? — perguntou Nina.
— Com
quem?
— Ora,
com o rapaz, não sei o nome dele. Ele mora aqui.
— E
você é o que dele? — perguntou a velha.
— Uma
vez ele me salvou no trem — respondeu Nina.
— Certo,
entre. Ele está muito doente.
Nina
entrou no quarto do sótão e viu seu amado, que estava deitado
debaixo de um cobertor e respirava com dificuldade.
— Quem
é você? Eu não te conheço — ele disse. — Você não é quem
diz ser.
— O
que você tem? — perguntou Nina.
— Fiquei
doente depois do estudo no porão da biblioteca. Pelo visto aprendi
demais. Mas isso não é da sua conta. Logo vou morrer.
A
velha acenou com a cabeça.
Nina
saiu correndo, subiu no trem da noite e foi encontrar com o mago na
outra cidade.
— Não
posso te ajudar em nada — disse o mago.
— Eu
lhe peço — Nina começou a chorar — , salve meu amado! Pegue o
que quiser, pegue minha mão direita, posso lavar o chão com a
esquerda.
— Vou
pegar meu nariz de volta — disse o mago.
— Pegue
e salve meu amado — respondeu Nina.
E
naquele momento ela voltou a ser como era. Ao sair na rua, não
recebeu nenhum olhar encantado, ninguém parou ao vê-la, ninguém a
seguiu, não lhe deram uma única rosa. No trem, ela não recebeu
nenhuma caixa de bombons. Quando ela chegou à sua cidade, viu o
carro do conde, mas ele não reparou nela, apesar de estar vestida
como sempre, com um vestido cinza, usando sapatos cinza e um chapéu
cinza.
Nina
correu para a rua Mão Direita, subiu voando para o quarto andar e
entrou no quarto de seu amado. Ele estava sentado na cama bebendo
cerveja.
— Ah,
é você! — exclamou ele. — Que bom te ver de novo. Vinha uma
moça aqui e se fazia passar por você. Mas ninguém me engana. Nunca
vi um rosto mais engraçado do que o seu. Não é tão fácil
esquecer você.
Nina
começou a rir e a chorar na hora. E no quarto o sol pareceu se
acender de repente e as pérolas reluziram.
— Por
que você está chorando? — perguntou o jovem. — Não quer casar
comigo?
Nina
respondeu:
— Eu
não sou a mesma de antes.
E
ela tirou a luva cinza da mão direita.
— Isso?
É uma bobagem — disse o rapaz. Eu me chamo Aníssim, sou médico.
Li tudo o que há naquela biblioteca, até o último livrinho, no
chão úmido do porão. Não gostaria de lê-lo de novo —
acrescentou Aníssim e estendeu a mão para uma prateleira na qual
havia poções, frasquinhos de gotas e garrafas com pílulas. —
Aqui está, tome.
Nina
tomou uma colherzinha do remédio, e a mão direita dela ficou como
antes.
— Eu
só estou fazendo voltar ao que era — disse Aníssim alto —, nada
mais.
Nina
logo se casou com seu amado Aníssim e teve muitos filhos engraçados
com ele.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
07/01/2022
Uma saudação materna
O jovem Olieg ficou sem pai nem mãe
quando a mãe morreu. Só sobraram uma irmã e o pai, que, apesar de
vivo, depois se descobriu não ser o pai de Olieg. O pai dele era um
homem com quem a mãe saía quando já era casada. Isso foi
descoberto por Olieg quando ele começou a remexer nos papéis da mãe
morta, querendo saber um pouco mais sobre ela. Ali ele encontrou um
documento, precisamente uma carta, na qual um homem desconhecido
escrevia que ele tinha família e não tinha direito de abandonar os
dois filhos por uma criança que não se sabia nem de quem era. Na
carta havia uma data. Então, pouco tempo antes do parto a mãe
queria largar o marido e casar com outra pessoa, ou seja, tudo havia
acontecido como a irmã mais velha de Olieg havia insinuado numa
conversa com ele, insinuou para se vingar e com raiva.
Ao descobrir essa carta, o jovem começou
a remexer nos papéis e achou um pacote preto com fotografias nas
quais a mãe era retratada em vários estágios de nudez, inclusive
totalmente nua. Eram fotos posadas, como numa encenação, até
quando estava nua a mãe usava uma longa echarpe, e tudo isso foi um
grande choque para o jovem. Ele tinha escutado dos parentes que na
juventude a mãe havia sido famosa pela beleza, mas nas fotos já era
uma mulher de uns trinta e cinco anos, esbelta mas não especialmente
bonita, só bem conservada.
Depois desse golpe, o jovem — ele tinha
dezesseis anos — abandonou a escola, abandonou tudo e, nos dois
anos que se passaram, até entrar no exército, não fez nada, não
escutou ninguém, comia o que havia na geladeira, saía quando o pai
e a irmã voltavam para casa, chegava quando eles estavam dormindo.
Ele teve um esgotamento mental e físico, e o pai, com sua
autoridade, conseguiu marcar uma perícia com uma junta de
especialistas, médicos do trabalho, para que ele conseguisse uma
pensão por esquizofrenia, mas no último minuto, pouco antes da
reunião, o pai morreu à noite na sua cama, e tudo degringolou. A
irmã rapidamente mudou para um apartamento próprio, e deixou Olieg
sozinho no quarto.
Ele logo foi convocado para o exército.
No exército, Olieg se envolveu em um
incidente: ele e outros soldados foram postos numa trilha nas
montanhas, numa passagem pela qual devia passar um preso foragido.
Esse preso ficou em liberdade por quase um mês, conseguira matar
cinco pessoas no seu caminho, entre as quais uma menina, e estava se
aproximando da única passagem da montanha para a Terra Grande, ou
seja, a parte europeia da Rússia. Segundo todas as informações, o
preso não devia aparecer logo, mas de antemão armaram uma emboscada
na trilha, três dias antes, não se sabia que tipo de transporte o
fugitivo usaria. A emboscada era composta por Olieg, um sargento e
mais três soldados, eles estavam atrás de uma grande pedra na qual
puseram as submetralhadoras. Eles se alternavam.
Justo no turno de Olieg surgiu na trilha
o homem parecido com a fotografia que haviam mostrado. Olieg não
resistiu e atirou nele, mas depois descobriu que era outra pessoa: um
colono livre, que já havia cumprido a pena e estava abrindo caminho,
também ilegalmente, é verdade, para ir para casa na Rússia. O
verdadeiro criminoso foi capturado numa passagem vizinha.
Foram bons com Olieg, declararam
insanidade temporária, meteram-no num hospital e depois o
dispensaram de vez do exército como inapto para o serviço militar,
e ele ainda se livrou barato, porque a mulher do colono livre, dizem,
ficava procurando aquele soldado anormal que tinha matado o marido
dela, que só ultrapassou um pouquinho o limite de seu povoado,
alguns passos — e a passagem atravessava o limite administrativo do
distrito.
Olieg voltou para casa. Já estava quase
totalmente careca, os dentes haviam caído um após o outro, não
havia o que comer, não havia o que fazer, e além do mais, como iria
trabalhar, sem nenhuma formação? Mas então a irmã mais velha
apareceu de repente na vida dele e encarregou-se de tudo, pôs Olieg
na escola técnica, arrumou o quarto, trouxe produtos e dinheiro,
apesar de não ser totalmente irmã de sangue e nunca antes ter
sentido amor por ele.
Uma noite, quando ela se preparava para
sair, falou de passagem:
— Não acredite no que falei para você
naquela época sobre a nossa mãe, isso era o que o nosso pai
suspeitava, ele era uma pessoa difícil e deixava qualquer um louco.
E saiu.
Depois que a irmã foi embora, Olieg
abriu a mala, começou a revolver os papéis entre os quais estava a
carta, mas só encontrou um envelope, que continha uma fotografia do
enterro da mãe. No mesmo pacote preto em que Olieg esperava ver as
fotografias da mãe tirando a roupa havia apenas um papelzinho preto,
muito velho e gasto, e quando Olieg começou a puxá-lo, ele se
transformou em pó ali mesmo.
Olieg começou a examinar os papéis e em
todo lugar lia cartas da mãe para o pai nas quais se falava de amor,
de fidelidade, de Olieg e de como ele se parecia com o pai. Olieg
passou a noite toda chorando, as lágrimas corriam dos olhos
involuntariamente, e na manhã seguinte esperou a irmã para lhe
contar que ele havia enlouquecido aos dezesseis anos e visto algo que
não existia, e por isso até havia matado uma pessoa que não
parecia de forma alguma com a que ele deveria ter identificado.
Mas ele não chegou a encontrar a irmã,
pelo visto ela havia se esquecido dele, e ele também logo se
esqueceu dela, estava ocupado com a vida. Ele terminou a escola
técnica, depois a faculdade, se casou, teve filhos.
E o que era engraçado é que tanto ele
quanto a esposa tinham olhos pretos e cabelos escuros, mas os dois
filhos saíram louros e de olhos azuis — iguaizinhos aos da mãe
morta, a avó deles.
Uma vez a esposa de repente propôs que
fossem ver o túmulo da mãe de Olieg. Eles demoraram para encontrar
o túmulo, estava muito escuro no velho cemitério, postaram-se na
frente da lápide, e no túmulo da mãe de repente descobriram uma
segunda lápide, um pouco menor.
— Deve ser meu pai — disse Olieg, que
não havia ido ao enterro do pai.
— Não, leia, é a sua irmã —
respondeu a esposa.
Horrorizado por ter esquecido a irmã
daquele jeito, ele se inclinou sobre a laje e leu a inscrição. Era
de fato sua irmã.
— Só confundiram a data da morte —
ele disse —, minha irmã vinha me ver bem depois dessa data de
morte, quando voltei do exército. Eu te contei, ela me pôs de pé,
ela me trouxe de volta à vida. Eu era jovem e ficava louco por umas
besteiras.
— Isso não acontece, eles não se
enganam com as datas — respondeu a esposa. — Foi você que se
confundiu. Em que ano você voltou do exército?
E eles começaram a brigar, ao pé do
túmulo abandonado e coberto de mato, e a erva daninha, muito alta
por causa do verão, ficou tocando seus joelhos até que eles se
abaixaram e começaram a limpá-la.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
Assinar:
Postagens (Atom)