Mostrando postagens com marcador Fabrício Carpinejar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fabrício Carpinejar. Mostrar todas as postagens

13/06/2018

A mulher é um figo


Figo. Assim que eu vejo o amor. Como um figo. Assim que vejo a mulher. Como um figo. O figo não tem o caroço apartado do sumo como a maioria das frutas.
Pode-se engolir a semente sem perceber. A semente é também polpa. Não existe o medo de mordê-lo e trincar os dentes. O figo é servido para a língua, para o beijo. Figo é para ser lambido em vez de mastigado. Com a pressão do céu da boca, ele se desmancha.
Figo não desperdiça o sumo. É úmido como um pão quente. Ele hidrata sem escorrer. Goteja pássaros. Não apodrece; amadurece.
Não me lembro de figo que fique sozinho no chão. O sol o transforma imediatamente em terra. Ele somente deita aos lábios, ninguém mais. No solo, cai de pé, pronto a germinar.
O figo tem os galhos e as raízes em si. É o coração da romã. Vidraça para o vento desenhar. Como a mulher, não há alas separando os quartos, paredes separando as sombras, gomos separando o gosto. O figo é inteiro, quase um fogo.
A alma é corpo, o corpo é alma; ambos se defendem e se revezam. Suas cores são casadas. Por fora, um verde com azul, tal rio manso. Dentro, o vermelho se abre generoso ao amarelo. A casca é um vestido fino, um tecido suave, que deveria ser roçado com o rosto. Não poderia ser chamada de casca, mas de pele. A casca já é parte interna da fruta. O começo tem a lentidão doce do fim. A pele é saborosa como o seu sumo. Não se usa faca para desenrolar a casca, mas sim a unha. Um pouco de cuidado, e ela se despe.
Figo não é destinado aos afoitos. É fio de riacho a se recolher da pedra com a concha das mãos. É passar da esperança, reparando na beleza. Figo não é o pecado, é o pecador. Fruta para ser apanhada direto da árvore, posta junto da camisa. Não mancha, lava o dia.
Nunca é tarde para o figo. Nele, os turnos estão acumulados. Perfume da manhã quando a manhã ainda é noite. Não atende a passatempos e urgências. Exige dedicação.
Quem se aproxima do figo não volta cedo. O figo oferece a intimidade da espera entre as cortinas. O figo são os pelos loiros dos telhados. Como o amor, é macio. Como a mulher, é sensível. Completa o ouvido do ramo com a independência de um brinco. Não se dispersa a exemplo do colar.
O figo é o chapéu, não a esmola. Tem pescoço de um violino. O caule o mantém aceso entre os dois mundos.
O figo não mente o seu desejo; mente a sua idade. Em nenhum momento se arrepende de ter sido.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

06/06/2018

Desejo não é carência

O desejo tem suas leis. Precisa de regras até para perder as regras. Não se adota de qualquer jeito. O desejo não pode ser humilhado e ofendido, não é passageiro e involuntário.
O desejo investiga seu amor como se fosse sua morte. O desejo tem responsabilidade, por mais que isso pareça despropositado.
O desejo apresenta ética, princípios, caráter. Não é inconsequente, como se convencionou chamá-lo. O desejo não apela para golpes baixos. O desejo não suporta quem aproveita a carência de outro para se aproveitar, quem finge amizade para seduzir. Quem é educado apenas para agradar, quem se julga melhor do que o seu próprio desejo. Quem escuta confidências para avançar o corpo.
Quem envenena para se aproximar. Quem dá um ombro cobiçando a perna. Quem mexe nos cabelos para tapar os olhos. Quem não respeita a fragilidade, as dúvidas e as inquietações de uma crise.
Quem se esbalda no medo para oferecer proteção. Quem apressa a mulher para esquecê-la, quem não se afasta um passo, um pouco, para lembrá-la. Quem invade a intimidade para expô-la ainda mais. Quem é dedicado na véspera e brusco na despedida. Quem não observa o quarto para recolher as roupas. Quem culpa o desejo pela posterior falta de desejo. Quem diz sim já antecipando o não. Quem afoba para destruir, quem não estará depois da espuma para alinhar o mar. Quem espanta as aves de perto para não ser contrariado. Quem encontra desculpas para se esconder. Quem não paga o insulto de viver. Quem mutila o braço do rio por não saber segui-lo.
O verdadeiro desejo espera a mulher se recompor, espera a serenidade, que ela fique mais forte e possa escolher uma nudez que não seja tolerância e fraqueza. É devagar e denso, raiz carregada do visco e das sombras, quietude amadurecida do sumo e da nata.
O verdadeiro desejo não teme, inclusive, o risco de ser recusado. Não é uma circunstância, é linguagem. Como uma foto, o desejo não será dobrado. Como uma foto, o escrito vai no verso, não sobre a imagem.
O verdadeiro desejo não é predatório, não é egoísta; é generoso, preocupa-se em chegar ao final, obediente ao início; em chegar ao início, obediente ao final. Não se rebaixa. Não significa um alívio, mas a contenção, a alegria alta da corda de um sino.
É, muitas vezes, prender o prazer para se conhecer mais.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

19/05/2018

Abraço de Judas

Todo presidiário tem dez minutinhos de sol, um recreio para banhar o rosto com a luminosidade da manhã. Já quem é livre talvez passe 24 horas longe de um pátio, desprovido de um mísero contato com a luz do dia. Talvez não abra a janela, sequer levante as persianas, para espiar o azul do horizonte e criticar a temperatura dos relógios da rua.
Quem é livre age com culpa. Encarna-se na profissão como um condenado, debruçado a atender os múltiplos sinais do celular, laptop, iPad, televisão.
Sempre encontra um tempo para adiantar uma tarefa, mesmo que seja necessário abdicar do almoço, mas nunca abre frestas para se sentir no mundo.
Suas frases mais comuns são que não tem escolha; precisa se sustentar; há muito a fazer.
Aparentemente solto, está confinado na solitária do seu trabalho — e não percebe o valor de respirar a cerração, espirrar quando surge um vento mais gelado e descascar tangerinas no meio-fio solar, fugindo do lado das sombras.
Esquece que o centro tem praças, que as praças têm bancos, que nos bancos caem máscaras de oxigênio das árvores.
Esquece o livre-arbítrio, envolvido na onipotência de desdenhar da vida.
Se fôssemos samambaias, estaríamos mortos. Secos. Murchos. Somos vasos e demoramos a rachar. A longevidade não é saúde.
Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade. Com sinceridade de velório.
Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço.
Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida.
É pelo abraço que testo o caráter do outro. Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura.
Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar.
Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.
Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho.
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho.
Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro.
Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços.
O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo; os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto.
Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir. Abraço é confissão.
Dez minutinhos de sol e de liberdade.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

14/05/2018

Natureza viva


Eu reservo para comer o que mais gosto no final. Não sei como começou esse ritual. Pensando bem, foi desde que me ensinaram que não se fala na mesa. É evidente que não obedeci o mandamento do silêncio. Falo com a boca cheia, bem melhor do que morrer de monotonia.
Inicio com a salada, pouco inspirado, parto para o arroz e feijão e, depois, diminuo a velocidade da garfada com o bife à milanesa e a batata frita. Não significa que como esse prato todo dia, mas batata frita ficará para o final em qualquer cardápio. É o meu desfecho predileto.
Engulo o verde por obrigação e, aos poucos, amanso o hábito para uma fisgada contemplativa. Minha respiração muda de acordo com a intensidade e expectativa das etapas, do sopro ao suspiro. Dificilmente vou rir de alguma piada durante a salada. É muito esforço e concentração e não posso me dispersar um segundo para não fazer careta.
Já posso rir até do que não tem graça com o bife à milanesa. É impressionante como o apetite abre a guarda e as defesas. O estômago é a região mais sensível dos olhos.
Será que a ordem altera a natureza das coisas?
Raciocinava que era um crime morrer idoso, distanciado da infância, desprotegido e abandonado de seus contemporâneos, que foram fechando as malas em breves obituários. Defendia a teoria de que se deveria nascer velho e rejuvenescer em sentido anti-horário: maduro, quarentão, adolescente e, por final, criança. Seria muito melhor para cada uma das fases. Por exemplo, não podia ser permitido cair na adolescência sem preparação. Assim como não faríamos tantos erros de relacionamento com uma imaginação experiente e uma memória prodigiosa, de trás para diante. E o asilo seria uma creche e a creche seria um asilo. Ninguém faria também cirurgia plástica para esticar a pele e ficar novo em folha, porque todos desembocariam fatalmente para a juventude. Mas encontrei um ponto negativo que destruiu minha tese: eu iria morrer tão passarinho. Odeio a possibilidade de morte na infância. Argola de caixão pequeno é trinco da porta do inferno.
A ordem dos fatores não altera em nada o resultado, porém confunde, confunde. Fui educado para namorar, noivar, casar. Acabei casando, namorando e agora estou noivo de minha mulher. Dá para entender? Sou feliz desajeitado. De certeza, apenas que guardo a batata frita por último.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

06/05/2018

Quanto tempo?

Ninguém aguenta ser amante muito tempo.
O trauma dos amantes é que eles não querem ser amantes. Não curtem. É como um torcedor declarar que adora ver seu time de coração na série B; não cabe, não dá. O desejo é retornar à série A. Mas o que está errado é o sentimento diante da história, não a história.
Porque ser amante não significa segunda divisão, assim como ser casado não expressa uma elite do amor. Ai, que nó.
É como um engenheiro trabalhando como balconista: confessa que é passageiro; é como uma advogada trabalhando como manicure: alega que é provisório. Mas exercer os papéis de balconista e manicure não são depreciativos, é a comparação social que os torna inferiores. Incorporamos a convenção de que a engenharia e a advocacia são melhores ao exigir esforço, estudo e dinheiro.
Infelizmente, amante guarda um apelo de rejeição, de transitoriedade: se é ou se exerce a condição na ausência de uma situação duradoura e estável. Amante é passagem para uma história completa. Uma transição. Experimentar a catacumba dos motéis e horários quebrados para retornar à claridade. Responde a um sacrifício para conquistar definitivamente uma pessoa.
Não somos treinados a suportar um amor sem alarde. O problema dos amantes não é a falta de amor, é a falta de manchete do amor, a impossibilidade de contar aos outros que se está amando, já que os envolvidos são casados.
Pares terminam separados pela ausência de visibilidade e reconhecimento social, nunca em função de uma redução do amor. É como deixar de torcer pelo time, pois ele não ganhou nenhum título.
Um casal de amantes pode ser — mal ou bem — a história completa. E se a aventura é o máximo que cada um pode chegar ou atingir de entrega? Casando, será que os amantes não voltarão a dedilhar o tédio que escaparam ao criar um caso?
O amante se define como um constrangimento. Um vexame. Deveria se orgulhar de sua liberdade, da graça da insuficiência, mas insiste em fixar os pés na antessala nupcial e aceitar a dependência externa.
Somos ainda institucionalistas, confia-se que o casamento cura ou converte algo negativo (o amante) em algo bom (marido ou esposa). O que mudará com o casamento é somente a exposição oficial do que ocorria em surdina. Por isso, tantos amantes lamentam que o outro não “assume a relação”. Assumir a relação é casar. O que eles procuram é uma promoção. O ambiente amoroso permanece carregado de um jargão profissional.
De modo paradoxal, o que um amante mais deseja é dormir de conchinha ou que seu parceiro perca a hora e não vá de madrugada depois de transar. Que permaneça na cama a oferecer um colo muito próximo do concedido no matrimônio. Não é intrigante que a prova de confiança pretendida pelo amante seja andar de mãos dadas nas vias mais expressas ou beijar em público? Afirmação ao amante é negar sua natureza proibida para se aproximar da visibilidade marital.
Os amantes são os monogâmicos ocultos. Os monogâmicos tímidos. Não sobrevivem ao jogo instável, dispersivo e intenso do sigilo. Entram num caso para legitimar e regulamentar a relação.
O canalha nasceu para perpetuar a crise. Para mostrar que o amante não é o subdesenvolvido do afeto, como se acredita, ou que o casado é o civilizado da paixão, como se imagina.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

01/05/2018

Mandrake!

Não existe preparação para amar. Mesmo que eu decore as posições do Kama Sutra, na hora a minha perna vai faltar com a palavra.
Não existe roteiro.
Não compreendi por que guardo manuais de instruções de geladeira, carro, liquidificador, som. São totalmente dispensáveis.
A primeira vez que peguei uma ave com as mãos, levei um tremendo susto. Fiquei em pânico, com medo de apertar demais e machucar o bicho ou afrouxar as asas e ele voar.
Na vida, fala-se do meio-termo. Conseguir o meio-termo é uma bronca.
Nas corridas da escola, eu dava um pique desgraçado no início, dominava a corrida até a metade e depois via os colegas me abanando em cada ultrapassagem.
Controlar, suportar e esperar não combinam comigo. Sempre dormi ao fazer ioga. É muito confortável o vazio espiritual.
Se careço de um parafuso a menos, deve ser justamente o ponto de equilíbrio.
Ao perguntarem se desejo primeiro a boa ou a má notícia, peço a boa. Na segunda, já não estou mais ali.
O amor é a arte da hesitação mais do que da excitação.
Cama é carma.
Algumas regras de amantes:
Descobrir a parte do corpo dela em que exala o perfume mais forte. Serão os pontos de maior excitação. Não precisa perguntar.
Usar a respiração como voz.
Não atalhar, abreviar e resolver. Mas avançar e recuar. Fazer o que mais quer, para em seguida mudar de ideia. Voltar atrás como quem extraviou alguma coisa importante.
Não pensar muito, mas pensar o suficiente para não ser refém do corpo. Assistir a si mais do que atuar.
Namorar as regiões de que ela tem vergonha. A vergonha é discreta vaidade.
Não atacar, conversar com as mãos, conversar pelas mãos, conservar a atmosfera sem as mãos, apenas com a proximidade da nudez.
Defender-se para mostrar a sua vulnerabilidade.
Escutar o que ela não disse. Se ela falar, perdeu a graça.
Não ter pudor. Fome é desejo. Expor-se à confissão.
Procurar movimentos repetitivos e circulares. O gesto não termina de começar.
Acariciar as costas com a cabeça e o rosto.
Concentrar-se na dispersão.
Não confundir preliminares com massagem. Não banque o sério, pois entedia. Combinar tranquilidade (estar à vontade) com insegurança (não saber o que vai acontecer). Despistar a sua movimentação.
Quanto maior a espera, maior será a eletricidade. Não aguarde respostas rápidas. Desprendimento é diferente de descompromisso. Desprendimento é doação.
Não dormir depois. Não se afastar com pressa. Continuar se beijando mansamente.
Não questione se ela gozou. Ela vai detestar ou mentir.
Esquecer qualquer regra no momento.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

29/04/2018

O amor perdoa tudo

Fotos de amor são ridículas, mas ainda mais ridículo é nunca tirar fotos de amor. Não há como esnobar certas aparições, manter pose de intelectual e prometer que dessa máquina não beberei.
Existem fotografias obrigatórias na nossa existência, fiascos essenciais que continuaremos reproduzindo até o Juízo Final. Representam estreias, nascimento, inaugurações, onde é impossível rejeitar o clique. Guarde a reclamação e a timidez no estojo, ficará condicionado a tolerar o xis, olhar o passarinho, arrumar um lugar na barreira e aceitar as ordens de incentivo do fotógrafo.
São imagens que partilham o mistério da música brega: ninguém conhece, todos sabem a letra.
Referem-se às cenas fundamentais do ciclo da vida, espécie de cartões-postais familiares. Sem eles, a sensação é de que não nascemos, de que não tivemos família, de que não pertencemos à normalidade fotogênica do mundo.
É o mesmo que visitar o Egito e não posar na frente das pirâmides, visitar Paris e não ostentar a Torre Eiffel ao fundo do plano, passar pela China e desdenhar as curvas da Muralha.
De que flagrantes estou falando?
Daqueles de que não podemos fugir, senão demonstraremos indiferença, frieza, falta de emoção.
Daqueles de que debochamos ao encontrar na gaveta dos outros e que ocupam a maior parte de nossos porta-retratos.
Um deles é a troca de cálices no casamento. Quando o noivo e a noiva embaralham os braços. Apesar do desconforto tentacular, o casal tem que sorrir. Qual o menos pior: este brinde de espumante ou o corte a dois do bolo do casamento? Trata-se de uma disputadíssima concorrência para abrir o álbum.
Lembro também do clássico beijo do pai na barriga da gestante. A grávida sempre está nua, o que é involuntariamente engraçado. O homem surge agachado com roupa social diante de sua companheira pelada. Se não fosse a criança por vir, estaria na parede de uma borracharia.
Não dá para esquecer a grande angular do baile de debutantes: as adolescentes como time de futebol, posicionadas em diferentes degraus. E a nossa foto tomando o primeiro banho, usada pela mãe para nos envergonhar na adolescência. E sem os dentes da frente, e lambuzado de chocolate e sendo lambido pelo cachorro.
Fotos ridículas e inesquecíveis, adequadas para chantagem e suborno, mas que se tornam — por vias tortas — recompensas do amor.
São justamente as fotos que vamos procurar para sentir saudade. E, ao lado dos filhos, rir e chorar ao mesmo tempo.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

24/04/2018

Casal problema

Na discussão de relacionamento, as aparências enganam. Quem grita muito não deseja brigar. Quem fala baixo gosta de brigar. Mariano é do segundo grupo, adepto silencioso da rinha: suplica para a mulher se recompor e baixar o volume. Seu jogo é psicológico. Põe fogo no circo e senta para assistir ao espetáculo da plateia.
A impressão é de que Selma grita sozinha: a voz dele nem aparece.
A falsa calma de Mariano irrita Selma. Mas a irritação de Selma passa da conta e apavora Mariano. Não há santo naquele lar. Ambos sabem que não estão certos, mas tramam um jeito de convencer o parceiro de que ele é que está errado.
Ele não descansa sem fazer as pazes. Ela odeia paz forçada. Nenhum cederá: os vizinhos é que sofrem.
Formam o famoso casal-problema do prédio. Todo edifício tem um. A reunião de condomínio é dedicada às últimas peripécias do apartamento 201.
No início do ano, a vizinha de cima bateu à porta da dupla. Antes fosse para pedir sal ou açúcar.
Desculpe incomodar, tenho uma filha pequena, não estamos dormindo de noite, vocês podem gemer mais baixo?
Como? — Mariano atendeu.
Dá para ouvir tudo pela nossa janela.
O que sugere? Que use travesseiro no rosto? — ele ironizou.
Não sei mais como explicar à minha filha, avisei que eram gatos no telhado.
Episódio mais grave ocorreu em maio. Mariano e Selma não são mesmo calmos. O que esperar do encontro de orgulhosos, ciumentos, temperamentais?
Óbvio que uma carta de notificação da imobiliária, ordem para se comportar senão seriam obrigados a pagar multa.
Pô, Selma, não podemos transar nem brigar na própria casa.
É o fim da liberdade, amor. E o síndico desrespeita a lei do silêncio no domingo para apressar a reforma do corredor, né?
E se abraçaram e viveram em paz mais três meses.
Na última semana, após troca de insultos, o interfone do 201 apita:
Soldado Amauri, Brigada Militar…
Vizinhos desgraçados… — desabafou Selma.
Duas viaturas estavam estacionadas na entrada do prédio.
Eles pararam de discutir na hora, cheios de cumplicidade.
Quando roubaram o nosso carro na garagem, à mão armada, nenhum carro da Brigada Militar surgiu, Selma. Nenhum!
Mas para apartar uma briguinha, a corporação envia não somente um veículo, mas dois, Mariano.
Querem nos separar.
Nunca vão nos separar!
Nada melhor do que uma injustiça para desencadear a reconciliação.
O casal desceu de mãos dadas, envolvido em longos e acalorados beijos. Os policiais ficaram constrangidos diante de tanto amor e se retiraram.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

15/04/2018

Medo de se apaixonar

Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Medo de não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos nem Deus aguentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve.
Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que havia desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que a criou para aquecer suas mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar.
Você tem medo de se apaixonar e não prever o que poderá sumir, o que poderá desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer — talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue.
Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio; afinal, você e o tédio, enfim, se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira reparti-lo com mais ninguém, nem com o passado dele. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que as suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar, mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele acorde ao escutar a sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz.
Medo de ser destruída, aniquilada, devastada, e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender a atenção dele. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto com a sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la.
Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou.
Medo de faltar às aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar.
Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha.
Você tem medo de já estar apaixonada.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

10/04/2018

Quer namorar?

A melhor agência de namoro é comprar uma passagem para bem longe.
Quanto mais longe, maior a chance de ser feliz. Não precisa usar o bilhete, é adquirir, pôr no bolso e andar com aquele olhar irresistível de janela redonda de avião.
Sempre repercute: todo mundo sente que vamos embora e ganhamos importância amorosa. Mais imbatível do que usar aliança, do que borrifar perfume de boto, do que afogar estátua de Santo Antônio.
Quer se apaixonar? Invente uma viagem. Mas tem que pagar para fazer efeito. O destino confere os depósitos bancários.
A despedida é um afrodisíaco veemente. Ficamos abertos e receptivos ao acaso.
Durante os veraneios da adolescência, em Rainha do Mar, eu me ligava na menina no último dia de férias, quando era condenado a voltar para a capital. Amiga do interior confessava que me amava um pouco antes de entrar no carro cheio de malas e tralhas. Dava um selinho, corria em direção aos pais e trocávamos cartas ansiosas pelo reencontro ao longo do ano.
É ter um compromisso certo e inadiável para arrumar uma paixão. Sem antítese, não há dialética, não se chega à síntese.
Adoramos uma encruzilhada, confusão, dúvidas. Adoramos a ambiguidade do aceno, que pode ser um oi e um tchau.
Ao tomar um caminho, surge outra opção até então invisível. É programar um intercâmbio no exterior que nos envolveremos na noite anterior ao embarque. É realizar sonho profissional de trabalhar na Europa que antigo amor vem suplicar reconciliação. O aeroporto e a rodoviária são altares, cupidos, balcões de suspiros.
Se você é solteiro, não entre em chats, não crie perfis falsos, não perca tempo.
As mulheres são alucinadas por homens com malas. Os homens são alucinados por mulheres atravessando o detector de metais.
Se não consegue namorado/namorada, gire o globo, pare um país com o dedo e arrebate passagens.
A distância influencia a longevidade da relação. Menos de 200 quilômetros não traz cócegas. O arrebatamento é proporcional à quilometragem. Viajar a Espumoso produzirá um rápido olhar 43, Santo Ângelo resultará em flerte, Rio de Janeiro ocasionará um caso, Natal renderá breve namoro, deslocamento ao Acre talvez pinte noivado.
Mas, para casar com véu e grinalda, aposte alto e compre passagem de ida (somente de ida!) a Bangladesh.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

07/04/2018

Franqueza para machucar

Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam, com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça.
Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apague a grosseria, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades.
Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa.
Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise.
Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça.
Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte.
Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo.
Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que ela gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado.
Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira.
Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de autoescola.
Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos:
Ainda tem uma barriguinha.
Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão.
Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.
O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.
Melhor ficar parado, ela diz, categórica.
Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar.
Os casais não necessitam simular quando não se tem vontade. Mas é sadomasoquismo reprovar de modo permanente quem amamos.
Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

31/03/2018

Por que amo minha mulher?

Não é nenhum grande ato que desperta o amor, não é um heroísmo, uma atitude exemplar, um feito impressionante.
O que faz um homem amar uma mulher e uma mulher amar um homem é tão pessoal que é possível passar uma vida inteira sem desvendar o motivo. Não é necessário ter consciência para ser feliz. Não é fundamental entender para amar. Mas é mais bonito.
Fico me perguntando o que inspirou minha confiança na Cínthya. Qual foi a delicadeza que ela cometeu a ponto de me viciar no convívio? O que realizou no começo do relacionamento que mexeu comigo e não quis mais abandoná-la?
O que ela aprontou de errado que deu tão certo? O que me pôs a repeti-la um dia atrás do outro sem cansar? O que me seduziu de tal forma que entrei uma vez em sua casa com uma mochila e voltei com uma mala?
Talvez tenha sido sua simplicidade. Eu me impressiono com o que é espontâneo. Não havia quadros em suas paredes, nem estantes. A única coisa que estava de pé era o violão.
Aquilo me emocionou: a música de sentinela. Ela brincou:
O violão é meu confidente, meu melhor amigo.
Inventei de dedilhar as cordas para descobrir logo seus segredos, só que desafinei e ri envergonhado. Não estava maduro para o mistério, não merecia ainda suas lembranças, dependia de mais cumplicidade.
Mas não foi isso, ou somente isso; sempre tem algo que se soma.
Acho que ela travou meu olhar na hora em que passeávamos de carro pela orla do Guaíba. Estreava na rádio a canção “Janta”, de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.
Eu ando em frente por sentir vontade...”
Cínthya cantava sem conhecer a letra. Aprendia a letra enquanto cantava. Longe do medo da gafe. Em voz alta, errando, tropeçando, gravando o refrão. Completava os trechos que não entendia com melodia e dirigia as rimas até o fim. Descobri que ela tinha coragem. Não iria temer um desafio. Mesmo que fosse complicado como eu.
Pensando bem, me rendi no café da manhã. Quando ela me ofereceu um saco de bolachas doces do bairro da Liberdade. Eu peguei as redondas, perfeitas, para explodi-las com exclusividade em meus dentes.
Ela não; ciscou os farelos. Optou pelas bolachas partidas. Do fundo, recolhia os pequenos retângulos, triângulos, quadrados desiguais. Compadecida do pouco, enamorada da miudeza.
Um gesto silencioso que me cativou. Cuidava de mim já na primeira manhã juntos. Comia as quebradas para me deixar as inteiras. Havia cinco ou seis bolachas intactas:
Toma, por favor...
Reprisando nossa vida, ela avisou, naquele momento, que nunca partiria meu coração.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

22/03/2018

Antes das fotografias

Fonte: Google Imagens

Sofri com a separação dos pais. Carregava a sensação de que tinha sido difícil, percebo agora que foi um desastre. Ao mexer no baú da família para catar flagrantes da infância, encontrei o álbum de casamento dos dois. Capa dura, nomes dos noivos em relevo dourado, livro grosso para eternidade mesmo, resistente às traças e porões.
Fiquei intrigado no momento de folheá-lo. Tive que sentar e interromper a pressa.
Voltei no tempo. No papel vegetal entre as páginas, havia desenhado o contorno das fotografias. Copiei à mão cada imagem, colorindo depois. São mais de 50 folhas transparentes preenchidas, duplicando pai e mãe no altar, reproduzindo convidados e bastidores da festa.
Na época (mentalidade de criança ferida), fiz uma cópia reserva das cenas. Raciocinei que os dois não seriam mais amigos, jogariam duas décadas de casados no lixo e providenciei um backup primitivo com o lápis Faber Castell HB2. Ansiei preservar a história usando as armas do estojo de 1a série. Aproveitei meu conhecimento de copista do Pernalonga.
Lembro que não dei mole na separação: briguei com os irmãos, esperneei no sofá, chantageei no carro, planejei greve de fome, renunciei futebol, peguei recuperação, chorei no mercado, passei recreio no SOE, ia de um lado para outro da sala ao quarto para diminuir a distância das palavras. Olha, coitados de Carlos Nejar e Maria Carpi, criei um inferno para reconciliá-los, demorei a constatar que o paraíso deles também não era o meu.
Diante do flashback, eu me pus a comparar o que fui com o que sou. Todos, quando pequenos, sofrem com o divórcio dos pais, indicativo de trauma, término da idealização e receio de parar num orfanato. E todos, quando maduros, consideram a separação necessária e natural.
É impressionante o quanto nos esforçamos para manter os pais juntos e não realizamos quase nada pelo nosso casamento na vida adulta.
E se lutássemos para entender nossa esposa como defendemos nossa mãe? Se realizássemos metade da birra feita com o pai durante a despedida de nossa mulher? Se trocássemos o orgulho da cobrança pela cumplicidade emocionada do erro? Se desejássemos falar menos e ouvir a voz dela mais um pouco?
Se fôssemos meninos para sempre, nenhuma separação seria fácil. O amor não morreria fácil. O papel vegetal protegeria as fotos.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus