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08/03/2024

O Azarão | 14


Onde fui parar? O que fiz? Como as coisas acabaram? Bem, este é basicamente o fim, então, as respostas devem estar nas próximas páginas. Duvido que surpreendam você, mas nunca se sabe. Não sei se você é inteligente ou burro. E, até onde sei, você podia ser Albert Einstein ou um vencedor de prêmios literários, ou talvez só alguém medíocre como eu.
Então, poderíamos também passar logo para a perseguição. Vou contar para você agora como foi que as coisas acabaram no inverno da minha vida. O fim começa assim: Deprimido.
Passei assim o domingo todo, depois, a segunda-feira, na escola. Alguma coisa se revoltava dentro de mim, começando no estômago e subindo até esticar os braços para arrancar minha pele por dentro. Ardia.
Na quarta-feira, na escola, conversei um pouco com Greg, sobretudo, porque ele tinha uma expressão abatida.
O que aconteceu? — perguntei, quando passei por ele num dos corredores.
Ah, deixa pra lá — respondeu. — Nada.
Mas nós dois sabíamos que, na verdade, era bastante óbvio que os caras para quem ele tinha comprado a heroína não ficaram muito impressionados com o esforço dele, nem mesmo depois de aparecer com o dinheiro.
Eles pegaram você, não é? — perguntei. Dei um sorriso cheio de pesar quando falei isso, e Greg sorriu também.
É, me pegaram. — Fez que sim com a cabeça. O sorriso dele era irônico, de quem sabe das coisas. — Decidiram me bater pelo inconveniente que causei... O cara da heroína não tinha mais nada, e eles tiveram que procurar outro cara. Não se comoveram.
Parece justo. — Foi a minha conclusão.
É. Acho que sim.
Nos separamos uns minutos depois, e eu me virei, olhei para o Greg e tentei rezar por ele, como todas aquelas orações que eu fazia antes nessa história. Mas não consegui. Simplesmente não consegui. Não me pergunte por quê. Torcia para ele ficar bem, mas não conseguia reunir forças para rezar para isso.
E para que serviam as orações? Elas não tinham ajudado nem um pouco no meu caso. Mas lembra? Eu nunca saí por aí rezando por mim, não é? Talvez fosse isso por trás de tudo. Eu. Talvez a única razão para eu rezar pelos outros, para começo de conversa, era para ter boa sorte. Era verdade? Era? Não. De jeito nenhum. Não era.
Talvez as orações funcionassem mesmo.
É bem provável, se você parar pra pensar, porque, quando voltei para casa, Sarah tinha começado a falar no telefone para substituir as sessões de amasso intenso no sofá. Steve aos poucos voltava a andar, Rube havia tomado algum jeito, mamãe e papai pareciam felizes e, sem dúvida, Rebecca Conlon estava feliz, fantasiando com Dale Perry...
Parecia que tudo estava dando certo para todo mundo.
Menos para mim.
Com frequência, eu me pegava entoando a palavra infelicidade, feito a criatura lamentável que era.
Resmungava para mim mesmo.
Choramingava.
Me queixava.
Me coçava por dentro.
Aí eu ria.
De mim.
Aconteceu quando eu estava do lado de fora de casa, à noite, depois do jantar.
As salsichas e os cogumelos, mas, principalmente, a angústia que eu carregava, estavam se ajeitando no meu estômago, quando uma gargalhada muito esquisita irrompeu de dentro de mim. Quando ergui os pés do chão, sorri e, então, coloquei minha mão num poste para descansar.
De pé ali, deixei a gargalhada sair, e os passantes devem ter pensado que eu era louco, drogado ou algo assim. Olhavam para mim como se dissessem: “Do que você está rindo?" Mas andavam rápido, para as próprias vidas, enquanto eu ficava ali, dando uma pausa na minha.
Foi aí que decidi que precisava decidir uma coisa.
Precisava decidir o que ia fazer e o que ia ser.
Estava de pé ali, esperando que alguém fizesse alguma coisa, até perceber que a pessoa que eu estava esperando era eu mesmo.
Tudo dentro de mim estava dormente, vagamente vivo, quase como se não ousasse se mover, esperando a minha decisão.
Respirei e disse: — Muito bem.
Foi tudo de que precisei.
Duas palavras e, ao correr para casa, sabia que o que eu ia fazer era voltar, me limpar um pouco e correr os cinco quilômetros até a casa de Rebecca Conlon para perguntar se ela queria fazer alguma coisa no fim de semana. Quem ligava para o que os outros pensavam? Eu não ligava para o que mamãe ou papai iam dizer, o que Rube ou Steve iam dizer, o que Sarah ia dizer, ou o que você ia dizer. Simplesmente sabia que era isso que eu precisava fazer.
Agora mesmo — enfatizei enquanto corria, jogando os ombros para a frente e seguindo como se estivesse atrás de um coelho de mentira. Fiquei enjoado enquanto corria, como se a comida estivesse se transformando em ácido. Mesmo assim, corri mais forte, pulei para o portão da frente e para dentro de casa, e vi.
Sarah ao telefone.
Telefone.
Isso, telefone pensei. Claro. Correr até lá e falar com ela cara a cara parecia muito assustador agora, então o novo plano era ir até um telefone público em algum lugar. Peguei uns trocados da gaveta, anotei numa das mãos o número dos Conlon, que estava na caderneta do meu pai e corri para o telefone público mais próximo.
Ei! — Uma voz me acompanhou na calçada. Era Steve, gritando da varanda. Eu nem o vira quando entrei correndo em casa. — Aonde você vai? Parei, mas não respondi à pergunta. Voltei rapidamente, me lembrando de súbito o que ele havia me dito da última vez que falara comigo na varanda, na noite que Rube e eu devolvemos a placa de "dê a preferência".
Vocês são uns perdedores.” Foi isso que ele disse, e agora eu subia os degraus, apontando um dedo para ele, enquanto ele se inclinava na grade e se esticava.
Apontei para ele e falei: — Se você voltar a me chamar de perdedor, vou quebrar a sua cara. — Falei sério, e pude perceber pela expressão em seu rosto que ele sabia que eu estava falando sério. Ele até sorriu, como se soubesse de alguma coisa. — Eu sou um lutador — concluí. — Não um perdedor. Tem diferença.
Meus olhos se fixaram nos dele apenas por mais um segundo. Falei sério. Falei sério cada palavra. Steve gostou. Eu gostei mais ainda.
O telefone público.
Saí de novo, obcecado.
O único problema com o plano do telefone público agora era que eu não encontrava um. Pensei que havia um num certo lugar na rua Elizabeth, mas tinham tirado de lá. Só consegui continuar correndo, dessa vez, na direção da casa dos Conlon, até, mais ou menos, uns três quilômetros adiante, encontrar um. Se tivesse corrido mais dois quilômetros, poderia ter falado pessoalmente.
Ai, cara. — Apoiei as mãos nos joelhos quando cheguei ao telefone. — Cara. — Percebi, de repente, que correr tinha sido a parte mais fácil. Agora eu precisava discar o número e falar.
Meus dedos pareciam garras no disco do telefone pré-histórico enquanto eu ligava para o número e...
Esperei...
... ando.
Estava tocando...
Toc-ando.
Toc-ando.
Toc-ando.
Não foi ela quem atendeu, e tive que explicar à pessoa quem eu era.
Cameron.
Cameron?
Cameron Wolfe, vaca estúpida!” Eu queria gritar, mas me controlei. Em vez disso, falei com voz tranquila e digna: — Cameron Wolfe. Trabalho com o encanador.
Percebi, após dizer essas palavras, que ainda estava sem fôlego. Estava ofegante ao telefone, mesmo quando Rebecca Conlon finalmente atendeu do outro lado da linha.
Rebecca?
Sim?
A voz, a voz.
Dela.
Gaguejei, mas não perdi a fala. Me concentrei e fiz tudo com um objetivo, com desejo, quase com um orgulho severo, sereno. Minha voz rastejava para ela. Pedia. Apertando o telefone. Vai em frente. Anda. Pergunta.
Pois é, eu estava imaginando... Minha garganta doía. — Fiquei imaginando se... Sábado.
Esse seria o dia.
Não.
Não?
Sim, não. Você me ouviu.
Embora Rebecca Conlon não tivesse dito a palavra não quando me rejeitou num tipo de encontro entre nós dois, no sábado. Ela falou: "Não posso", e, olhando para trás agora, fico imaginando se a decepção na voz dela era de verdade.
Claro que fico imaginando, porque ela continuou falando e dizendo que não podia fazer nada no domingo nem no fim de semana seguinte por causa de alguma coisa de família ou outra coisa de algum tipo. Não adiantava fingir. Ela estava dando a si mesma um terreno seguro longe de mim. Eu nem tinha perguntado sobre o domingo ainda, entende? Nem sobre o fim de semana seguinte! A dor no meu ouvido tomou conta de mim. Parecia que o céu negro acima ia desabar. Senti como se estivesse inspirando as nuvens acinzentadas acima da minha cabeça, e muito devagar a ligação foi sumindo.
Bem, talvez outro dia. — Dei um sorriso malicioso ao telefone. Minha voz, porém, ainda parecia simpática e digna.
Claro, será ótimo, sim. — Voz ótima, simpática. A última vez que a ouviria? Provavelmente, a menos que ela fosse burra o bastante para ficar em casa no fim de semana seguinte, quando papai e eu íamos terminar o serviço.
Sim, a voz dela e, por alguma razão, eu não tinha certeza se ela ainda era tão real para mim. Estava longe demais agora para ser real.
Então tá, nos falamos depois — terminei, mas não ia falar com ninguém depois.
Então tá, tchauziiinho. — Acrescentou raiva à mágoa.
Ouvir Rebecca desligar foi uma coisa violenta. Prestei atenção, e o som, de algum modo, estava partindo minha cabeça. Muito devagar, soltei o fone e o deixei pendurado ali, quase morto.
Capturado.
Julgado.
Enforcado.
Saí, deixando o fone pendurado ali, e fui embora, para casa.
A volta não foi tão ruim quanto você poderia imaginar, porque uns pensamentos que brigavam na minha cabeça fizeram o tempo voar. Cada passo deixou uma marca invisível na calçada, que só eu podia farejar no meu caminho para o futuro. Boa sorte.
Voltando pra casa, percebi outro telefone público em um lado da rua e me sentei ali, fazendo piada comigo mesmo e rindo.
Hum — foi tudo que disse para mim mesmo quando continuei andando e aliviei a coceira no ombro com minha mão cansada, que se esticava na ponta de um cotovelo dobrado e torcido.
Dessa vez, vacilei na frente do portão, fiquei parado ali por um tempo e fui para a cama às dez e meia.
Não dormi.
Suei, estremeci, sozinho.
Vi coisas coladas nos meus olhos. Jogadas dentro deles.
Vi tudo. Cada detalhe. Desde um taco de beisebol e um bastão de críquete, tratamento de flúor, um poste sem placa, sonhos, pais, irmãos, mãe, irmã, Bruce, amigo, garota, voz, sumindo, indo para dentro. De mim.
Minha vida esmagava a cama.
Senti lágrimas que pareciam martelos descendo pelo meu rosto.
E me vi indo até o telefone.
Falando.
Cambaleando para casa.
Então, lá para uma da manhã, eu me pus de pé, vesti o jeans e saí descalço para o quintal.
Para fora do nosso quarto.
Corredor afora.
Pela porta dos fundos.
Noite fria.
Passando pelo concreto e indo para o gramado, até parar.
Fiquei parado ali e fitei o céu e a cidade ao meu redor. Fiquei parado, com as mãos na cintura, e vi o que tinha acontecido comigo, quem eu era e o modo como as coisas sempre haviam sido para mim. Verdade. Não havia mais desejo, nem interrogações. Eu sabia quem era e o que sempre seria. E acreditei quando meus dentes se tocaram e meus olhos foram inundados.
Minha boca se abriu.
Aconteceu.
Sim, com a cabeça erguida para o céu, comecei a uivar.
Com os braços esticados junto ao corpo, uivei, e tudo saiu de mim. Visões jorraram da minha garganta, e vozes antigas me cercaram. O céu ouviu. A cidade, não. Não me importava. Tudo que me importava é que eu estava uivando para ouvir minha voz, e então eu ia me lembrar de que o garoto tinha intensidade e alguma coisa para oferecer. Uivei, ah, tão alto e desesperado, dizendo ao mundo que eu estava aqui e não ia me deitar.
Nem hoje.
Nem nunca mais.
Sim, uivei, e, sem que eu soubesse, minha família estava parada no vão da porta dos fundos, me observando e se perguntando o que eu estava fazendo.

Primeiro, tudo está em preto e branco.
Branco no preto.
É onde caminho, através das páginas.
Destas páginas.
As vezes, tenho um pé nas páginas e nas palavras e outro nas coisas de que elas falam. As vezes, estou lá de novo, fazendo planos com o Rube, brigando com ele, trabalhando com papai, sendo xingado de animal selvagem pela minha mãe, vendo a vida da Sarah cair das mãos do Bruce, e dizendo a Steve que vou quebrar a cara dele se ele me chamar de novo de perdedor. Vejo até a heroína comprada pelo Greg, subindo pela chaminé, entorpecendo o ar acima do telhado. Um pé anda na direção da casa de Rebecca Conlon e trabalha lá, e telefona para lá. Outro pé fica parado na imagem na qual pende morto o telefone público estrangulado, só com os restos da minha voz dentro dele.
As vezes, quando estou mergulhado nas páginas, as letras de cada palavra são como os imensos edifícios da cidade. Fico de pé embaixo deles, olhando para cima.
Algumas vezes, corro.
Rastejo.
Através.
De cada página.
As vezes, os sonhos me cobrem; outras, arrancam a carne da minha alma ou levam embora meu cobertor, me deixando sozinho, com frio.
Dedos tocam as páginas.
E me viram.
Sigo em frente.
Sigo sempre.
Tudo é grande.
As páginas e as palavras são o meu mundo, que se estende diante dos seus olhos e das suas mãos, para serem tocados. De modo vago, posso ver seu rosto me fitando, quando olho de volta. Você consegue ver meus olhos Mesmo assim, continuo andando, através de um sonho que me conduz por estas páginas.
Chego ao ponto em que me vejo sair para o quintal no frio congelante. Vejo cidade e céu, e sinto o frio. Fico parado a meu lado.
Jeans.
Pés descalços.
Sem camisa, tremendo.
Braços de garoto.
Bem retos, esticados.
O vento aumenta, e as folhas de papel voam e caem ao nosso redor, quando estamos parados ali. O som de uivos se embaralhava desesperadamente nos meus ouvidos, e eu o ouço.
Insisto nesse desespero, porque. Preciso dele. Quero ele. Sorrio.
Os cães latem, muito longe, mas se aproximando. A meu lado, me ouço uivar. Esse é um sonho bom.
Uivar. Alto. Intenso.
As últimas folhas de papel ainda caem. Estou vivo.
Nunca estive tão...
Olho para baixo. As palavras são minha vida. Os uivos continuam.
Fico ali, com páginas espalhadas até os tornozelos e o uivo nos ouvidos.

Markus Zusak, in O Azarão

27/02/2024

O Azarão | 13


Como de costume, papai e eu fomos para o trabalho no sábado, na casa dos Conlon.
Em vez de manter você em suspense (se é que você ainda liga para isso), eu podia muito bem dizer que, dessa vez, ela estava lá, linda como sempre.
Eu ainda estava trabalhando debaixo da casa, quando ela veio.
Ei, senti sua falta na semana passada — falei quando ela apareceu, e na mesma hora dei um tapa na cabeça, a frase era muito ambígua. Quero dizer, será que significava senti sua falta, como em “eu não vi você” (que era a mensagem pretendida) ou significava você partiu meu coração por não estar aqui, vaca idiota? Não tinha certeza de qual mensagem estava transmitindo. No fim das contas, só podia torcer para que ela pensasse que eu estava dizendo apenas que não nos vimos. Você não pode parecer muito desesperado em uma situação assim, mesmo que seu coração esteja acabando com você por dentro.
Ela falou: — Bem... — Meu Deus, ela disse isso com aquela voz que a tornava real. — Eu não fiquei aqui de propósito.
Que diabos queria dizer isso? — Como é que é? — Arrisquei perguntar.
Você ouviu. — Deu um sorriso. — Eu não fiquei aqui...
Por minha causa? Fez que sim com a cabeça.
Isso era ruim ou bom? Parecia ruim. Muito ruim.
Mas, então, também parecia bom, de um jeito doendo e distorcido. Será que ela estava gozando com a minha cara? Não.
Não queria ficar aqui porque tive... — Ela engoliu em seco. — ... medo de fazer papel de boba, como da última vez.
Da última vez? — perguntei confuso. — Não fui eu quem falou uma besteira? Fui eu, sim, quem disse “Gosto de trabalhar aqui”. — Lembrei e me encolhi.
Estávamos agachados, debaixo da casa, e as vigas de madeira, suspensas acima de nós, nos avisando de que perder a concentração nos deixaria com um belo machucado na cabeça. Fiz um esforço para não ficar ereto.
Pelo menos, você disse alguma coisa. — Ela insistiu no argumento.
De repente, uma coisa saiu de mim. Falei: — Não magoaria você. Bem, pelo menos, eu ia me esforçar pra caramba pra não magoar. Prometo.
Como é que é? — Ela deu um passo para trás. — O que você quer dizer?
Quero dizer, se... O fim de semana foi bom na semana passada? Jogar fora. Jogar conversa fora.
Foi. — Ela assentiu e ficou onde estava. — Fiquei na casa de uma amiga. — Então, voltou para mais perto. — Depois fomos até a casa de um cara, Dale.
Dale.
Por que o nome era tão familiar? Ah, não.
Ah, ótimo.
Dale Perry?
Dale Perry.
O colega de Greg.
Típico.
Um tremendo herói.
Podia ver que ela realmente gostava do cara.
Mais do que de mim.
Ele era um vencedor.
As pessoas gostavam dele.
Greg gostava.
Embora pudesse confiar em mim.
É. Dale Perry — respondeu ela (confirmando meus piores temores), balançando a cabeça e sorrindo. — Você conhece ele, não é? — É. Conheço. — Percebi, então, que Rebecca Conlon provavelmente era uma das garotas no grupo do Lumsden Oval, naquele dia que parecia ter acontecido décadas atrás.
Havia umas garotas parecidas com ela. O mesmo cabelo real. As mesmas pernas reais. O mesmo... Tudo fazia sentido. Ela era próxima, bonita e real.
Dale Perry.
Por pouco eu não disse que ele quase tinha queimado minha orelha havia pouco mais de um ano, mas me calei. Não queria que ela pensasse que eu era um desses caras totalmente ciumentos, que odiavam todo mundo que era melhor que eles, o que, na verdade, era exatamente o tipo de cara que eu era.
Minha melhor amiga diz que ele gosta de mim, mas eu não sei...
Ela continuou falando, mas eu não conseguia ouvir. Simplesmente, não podia. Por que diabos ela estava me contando aquilo? Era porque eu era apenas o filho do encanador e ia pra uma escola estadual caindo aos pedaços, enquanto ela, provavelmente, frequentava um colégio São qualquer coisa ou algo do tipo? Ou porque eu era um tipo de cara inofensivo e incapaz de morder? Bem, faltou pouco.
Quase a interrompi para dizer: “Ora, vá embora daqui com o seu Dale Perry”, mas não fiz isso. Eu a amava demais e não ia magoá-la, por mais que estivesse magoado.
Em vez disso, perguntei se conhecia Greg.
Greg Fiennes ou coisa parecida?
Fienni.
Conheço, sim. Como é que você o conhece? E, por alguma razão, um monte de lágrimas começou a se acumular nos meus olhos.
Ah — falei. — Já fomos amigos. — E me virei para continuar trabalhando e esconder meus olhos.
Bons amigos?
Droga de garota! — Meu melhor amigo — admiti.
Ah. — Ela fitava minhas costas. Eu podia sentir. Fiquei imaginando se ela estava entendendo o que se passava aqui. Talvez. Provavelmente. Sim, era provável, pois ela foi embora com um “Então, tá. Tchauziiinho” muito simpático. Será que já tinha ouvido isso antes? Claro que tinha, e senti uma pontada de realidade na garganta.
Toda aquela discussão não me ocupou durante o dia como a decepção da semana passada. Não. Dessa vez, me arrastei para fora daquilo.
Senti uma coisa horrível dentro de mim.
Me arrastando.
Papai me viu e me deu uma bronca por ser tão lento, mas eu não conseguiria seguir adiante. Você nem ia acreditar o quanto eu tentei, mas minhas costas estavam quebradas.
Meu espírito estava esmagado.
Tive a chance de acabar com ela.
Eu podia ter magoado ela.
Não magoei.
Não era consolo.
Durante o trabalho, muitas vezes precisei me acalmar, e era uma luta enorme. Era como se cada passo quisesse me prejudicar. As bolhas nas minhas mãos começaram a abrir, e o sentimento continuava a brotar dos meus olhos. Comecei a farejar o ar para encher meus pulmões, e, quando o dia acabou, fiz um esforço para sair da parte de baixo da casa e fiquei parado ali, esperando. Realmente queria me jogar no chão, mas me mantive de pé.
Me sentia ansioso, sujo, doente, só por ser eu. Qual era o problema comigo? Me sentia como o cachorro que tem raiva no livro que estava lendo para a escola, O sol é para todos. O cachorro manca e baba pela estrada, e o pai, Atticus, ele surpreende o filho ao atirar no animal.

Estou caminhando sobre uma cerca que parece se estender por uma eternidade. No entanto, por alguma razão, sei que ela vai parar em algum ponto. Sei que vai durar o tempo da minha vida.
Continue andando — digo para mim mesmo. Meus braços estão esticados para manter o equilíbrio.
De cada lado, tem ar e chão, tentando me forçar a pular para eles.
Pra que lado eu pulo? É de manhã, muito, muito cedo. É aquela hora em que ainda está escuro, mas você sabe que vai amanhecer. O azul escorre pelo preto. As estrelas estão morrendo.
A cerca.
A cerca, é de pedra, às vezes, é de madeira, e, às vezes, é de arame farpado.
Caminho nela e, ainda assim, sou tentado pelos lados que a acompanham.
Pula. — Ouço cada lado cochichar. — Pula aqui. Distância.
Lá fora, em algum lugar, ouço cães latindo, embora as vozes deles pareçam humanas. Latem, e, quando olho à minha volta, não posso vê-las. Posso apenas ouvir o latido que forma o público da minha jornada ao longo da cerca.
Violeta no céu.
Pernas pinicando.
Arrepios no lado direito.
Pensamentos em choque.
Passos.
Sozinho.
Dou um após o outro.
Agora, arame farpado.
Onde pulo.
A quem ouvir? Sol amarelo, céu avermelhado.
Primeira parte do sol. Franzindo a testa.
Última parte do sol. Um sorriso.
Dia escuro.
Ideias cobrem o céu.
Ideias são o céu.
Pés na cerca.
Um lado da cerca é vitória...
O... outro lado, derrota.
Caminho.
Sigo, caminhando.
Decidindo.
O suor domina.
Desce sobre mim, controlado, e escorre no meu rosto.
Vitória, de um lado.
Derrota, do outro.
As nuvens são incertas.
Palpitam no céu como rufos de tambor, como pulsação.
Tomo a decisão...
Pulo.
Alto. Alto.
O vento me pega, e, lá no alto, sei que me fará descer do lado da cerca que ele quiser.
Não importa onde desça: logo depois, sei que terá que voltar a escalar e continuar andando, mas, por enquanto, ainda estou no ar.

Markus Zusak, in O Azarão

16/02/2024

O Azarão | 12


Se você está se perguntando se fomos atrás do nosso amigo Bruce Patterson, bem, não fomos. Planejamos tudo, mas simplesmente não levamos adiante. Havia coisas mais importantes para resolver em casa, como a frieza com que mamãe e papai tratavam Rube e eu. Sem dúvida, estavam muito infelizes com o tipo de vida que levávamos e com o talento que tínhamos para envergonhá-los. Você também pode achar que essa frieza pode ter diminuído nosso entusiasmo para nos vingarmos, de alguma forma, do Bruce por causa da Sarah, mas não foi isso. Não, de verdade. Steve também nos disse pra deixar pra lá. Ele tinha voltado à rotina de “Eu sou melhor que vocês” e nos chamou de idiotas. Tudo isso me intimidou um pouco, mas não ao Rube. Ele estava animado como sempre e realmente acreditava que não éramos responsáveis pelo ataque cardíaco do cachorro do vizinho. Me explicou que não tínhamos culpa se o cachorro idiota era frágil feito papel.
Droga, não é proibido jogar futebol no próprio quintal, é? — perguntou ele.
Acho que não.
Você sabe que não.
Imagino que sim.
Pensamos naquilo por uns dias, e Rube finalmente entrou em nosso quarto e me contou o plano e seu significado. Falou: — Cam, esse vai ser meu último trabalho. — Dava até pra pensar que o cara era o Al Capone ou coisa que o valha. — Sabe, depois desse último esforço, vou parar com essa brincadeira de assaltos, roubos e vandalismo.
Mas como é que você vai se aposentar se nem chegou a fazer carreira?
Ah, cala a boca. Confesso que tive meus altos e baixos, mas isso tem que parar por aqui. Não acredito no que estou dizendo, mas eu tenho que crescer.
Pensei um pouco, sem querer acreditar, e então perguntei: — E o que vamos fazer? — Fácil. — Foi a resposta dele. — Ovos.
Ah, fala sério. — Reclamei. — Podemos fazer coisa muito melhor que uns ovos nojentos.
Não podemos, não. — Pela primeira vez na vida, eu ouvia o Rube falar sobre o assunto com um tom de realidade na voz. — A verdade, cara, é que somos casos perdidos.
Só pude assentir ao ouvir isso. Então, falei: — Tá bem. — E ficou decidido que, na sexta à noite, iríamos até a casa de Bruce Patterson para jogar ovos no belo carro vermelho dele. Talvez, na porta da frente e nas janelas da casa também. Fiquei feliz de verdade por ser a última vez, porque já estava ficando enjoado disso.
Outro fato inevitável fez a história toda mais difícil do que devia ser. Era o fato de que eu ainda não conseguia parar de pensar em Rebecca Conlon. Simplesmente não conseguia, por mais que tentasse. Pensei nela e fiquei imaginando se ela estaria lá essa semana, ou se teria saído de novo, seguindo a vida sem mim. De vez em quando, isso me magoava; outras vezes, me convencia de que tudo isso era muito arriscado. Basta olhar para o Bruce e a Sarah, falei para mim mesmo. Aposto como o cara estava tão obcecado com a Sarah quanto eu com essa outra garota, e aposto que ele prometeu a si mesmo nunca magoá-la, assim como andei fazendo. E olha o que ele fez com a Sarah. Ele a deixou completamente perdida, deitada na cama o tempo todo.
Quando chegou a sexta à noite, acho que Rube e eu estávamos muito cansados para continuar com aquela história toda. Estávamos cansados de nós mesmos e, com duas caixas de ovos guardadas no nosso quarto, resolvemos não ir.
Ah, bem, é isso então — falou Rube. — Se você tem que pensar tanto tempo sobre isso, não vale a pena.
E o que vamos fazer com os ovos?
Comer, acho.
O quê? Doze, cada?
É o que parece.
Por um tempo, deixamos os ovos debaixo da cama do Rube, mas ainda fui sozinho até a casa do Bruce.
Fui lá depois do jantar e passei pelo carro dele, imaginando que tinha jogado os ovos nele. A ideia era, no mínimo, ridícula.
Acabei rindo enquanto batia na porta, embora o sorriso tenha sumido do meu rosto quando uma garota, que imaginei ser a substituta da Sarah, atendeu. Ela abriu a porta e ficou olhando para mim através da porta de tela.
O Bruce está por aí? — perguntei.
Ela fez que sim com a cabeça. — Quer entrar?
Não, estou bem aqui. — Esperei do lado de fora, na varanda.
Quando Bruce me viu, pareceu bastante confuso. Não éramos amigos nem nada. E também não tínhamos uma piscina para ele me empurrar nela, nem jogávamos bola juntos por aí. Não. A gente nem se falava direito, e eu podia ver que ele tinha medo que eu fosse aprontar alguma. Eu não ia.
Tudo que fiz foi esperar ele sair de casa para podermos conversar. Só uma pergunta. Era tudo que eu tinha, quando nos inclinamos na grade, fitando a rua.
Fiz a pergunta.
Quando você viu minha irmã pela primeira vez... você prometeu a si mesmo que nunca iria magoá-la?
O silêncio durou um tempo; então, ele respondeu. Falou: — Prometi, sim.
Depois de uns instantes, saí. Ele gritou: — Ei, Cameron.
Virei.
Como ela está?
Sorri, de cabeça em pé, decidido.
Bem. Ela está bem.
Ele assentiu, e falei: — Nos vemos depois.
Claro. Nos vemos depois, cara.
Em casa, a noite não tinha acabado. O que aconteceu não foi um ato de vandalismo, mas de simbolismo.
Por volta das oito e meia, Rube entrou no quarto e estava diferente. O que era? A barba se fora.
Quando ele apresentou ao restante da família o rosto pós-selvagem, ouviram-se palmas e suspiros de alívio. Sem rosto selvagem. Sem mais comportamento selvagem.
Continuei ouvindo Bruce Patterson me dizer que prometera nunca magoar a minha irmã. Isso me perseguiu, mesmo quando eu assistia a um filme extremamente violento na tevê. Continuei ouvindo a voz dele e fiquei imaginando se ia magoar Rebecca Conlon, se, primeiro, ela me deixasse chegar perto dela. Me perseguiu a noite toda.

Eu e ela estamos na selva. Não vejo seu rosto, mas sei que estou com Rebeca Conlon. Eu a puxo pela mão, e estamos correndo muito rápido, nos abaixando ao passar por árvores contorcidas, com dedos que eram galhos e que se espalhavam feito um teto radiado sob o céu cinza.
Mais rápido — digo para ela.
Por quê — É a pergunta que faz.
Porque ele está vindo.
Quem está vindo? Não respondo porque não sei. A única coisa de que tenho certeza é que posso ouvir os passos atrás de nós na floresta. Posso ouvir alguém que se curva para a frente enquanto corre, vindo atrás de nós.
Vamos — falo mais uma vez para ela.
Chegamos a um rio e mergulhamos, avançando apressados, na água gelada.
Continuamos. Sem palavras. Nenhum "por aqui".
Ela sorri, aliviada.
Não vejo.
Eu sei.
Sentamos bem no fundo de uma caverna, e ouvimos a água pensativa do rio, no lado de fora, descendo, descendo. Lenta. Real. Consciente.
Ela cai.
No sono.
Está tudo bem — digo, e eu a sinto nos meus braços. Meus próprios olhos também tentam dormir, mas não conseguem. Ficam bem abertos enquanto o tempo gira e o silêncio desce, feito pensamento medido. Nem consigo mais ouvir o rio.
Quando.
O vulto aparece na caverna.
Entra e para.
É leve.
Nós.
Tem uma arma.
Observa.
Sorri.
Embora não possa ver seu rosto, sei que sorri.
O que você quer? — pergunto, com medo, mas baixinho para não acordar a garota nos meus braços.
O vulto não diz nada. Continua andando. Lento. Hesitante. Não.
Um som, como se algo se partisse. Da arma que o vulto segura, sobe a fumaça. Sobe até o rosto dele e o envolve. Ele me diz que uma coisa horrível aconteceu, e Rebecca Conlon se mexe um pouco no meu colo.
Acende um fósforo.
Luz.
Olho para ela.
Sei!
Isso.
Ela está ferida, sem dúvida, porque vejo sangue pingando do coração dela. Lento. Real.
Olho para a frente. O vulto segura o fósforo aceso, e vejo o rosto dele. Os olhos, os lábios e a expressão são meus.
Mas você prometeu — digo, e grito, tentando acordar. Preciso acordar e saber que nunca a magoaria.

Markus Zusak, in O Azarão

05/02/2024

O azarão | 11


Nosso plano era ir atrás dele rápido. Não adiantava esperar uma semana ou duas. Se esperássemos, a vontade de tirar a limpo aquela história com o cara ia passar.
Sem chance de isso acontecer.
Descobrimos que o tal Bruce Patterson estava saindo com outra garota havia cerca de um mês e enganava minha irmã, aparecendo por aqui. Era um tapa na cara de todos nós, que o deixávamos entrar em casa, enquanto ele andava por aí com alguma vagabunda.
Será que devemos acabar com ele? — perguntei a Rube, mas ele só olhou para mim, com ar de riso.
Tá falando sério? Olhe o seu tamanho. Você é tipo um chihuahua e o Patterson é uma porra de um armário. Você tem ideia do que aquele cara faria a você? — Bem, pensei que talvez nós dois.
Também não sou grande coisa. — Foi a resposta curta de Rube ao meu comentário. — Claro, tenho uma porra de uma barba no rosto, mas Bruce pode matar nós dois.
É. Você tem razão.
O que aconteceu em seguida foi inesperado.
Ouvimos uma batida à porta que era mais como se a estivessem arranhando, e, quando a abri, meu ex-melhor amigo Greg estava parado lá.
Posso entrar? — perguntou.
O que é que você acha? Abri a porta de tela, e ele entrou em casa, pouco depois de lançar um olhar ao Steve, que, como sempre, estava sentado de cara amarrada na varanda.
Ei, lobisomem! — Greg cumprimentou Rube dentro de casa, e Rube respondeu ameaçando jogá-lo para fora.
Desculpe — falou, e eu o levei para o quarto. Ele sentou debaixo da janela, apoiado na parede.
Em silêncio.
Bem — falei, sentando na cama —, se não se importa, o que diabos traz você aqui? — Preciso de ajuda. — Foi a resposta rápida e sincera. Passou a mão pelo cabelo e pude ver a caspa caindo. Greg sempre teve um pouco de caspa. Ele se divertia quando deixava cair na carteira da escola.
Ajuda com o quê? — continuei perguntando.
Dinheiro.
Quanto? Trezentos.
Trezentos! Caramba, mas que diabos você andou fazendo ultimamente? — Ah, nem pergunte. Só... — Contorceu um pouco o rosto. — Você tem? — Cara... trezentos... sei lá.
Fui até o meu pedaço do tapete e tirei o que estava escondido debaixo dele. Oitenta contos.
Bem, tenho oitenta aqui. — Peguei o caderno onde anotava minhas economias e vi que tinha cento e trinta lá. — Então, tenho duzentos e dez ao todo. É só o que posso fazer.
Ah, droga, cara.
Sentei ao lado dele no chão, apoiado na cama, e disse: — Só me diga para o que é, tá bem? Ele hesitou.
Se não disser, não dou o dinheiro. — Era mentira, e nós dois sabíamos disso. Nós dois sabíamos que eu ia dar o dinheiro a Greg e nem ia pedir de volta. Era assim que funcionava. Mas ele me devia, pelo menos, isso. Tinha que me dizer onde meu dinheiro ia parar.
Ah. — Desistiu. — É pra um dos meus colegas, Dale. Conhece? Dale Perry.
Sim, eu o conhecia bem. Era o tipo de cara que eu odiava porque andava por aí se achando o fodão aonde quer que fosse, e eu odiava esse cara. Na aula de relações comerciais, no ano passado (uma matéria que eu nunca deveria ter escolhido), ele levou a régua de metal, aqueceu-a no aquecedor e então a encostou na minha orelha, me deixando com uma queimadura horrorosa. Esse era Dale Perry. Também estava naquele grupo grande que batia papo com as garotas bonitas no futebol, no outro dia.
Sim, conheço o cara — falei com calma.
Então, bem, alguns dos colegas mais velhos dele precisavam de alguém pra pegar heroína pra eles. Valia trezentos contos.
Heroína? Claro que eu sabia o que era heroína, mas pensei em tornar a coisa toda um pouco mais difícil pro Greg. Afinal, estava dando pro cara cada centavo que eu tinha.
Agora não ia ter dinheiro para comprar um aparelho de som ou coisa assim. Não ia ter mais o dinheiro que ganhei trabalhando duro com meu pai, nas últimas semanas. Tudo aquilo ia pela descarga porque um ex-melhor amigo me procurou, sabendo que eu era o único cara que não ia deixá-lo na mão. Nenhum dos novos amigos ia ajudar, mas o antigo ia.
É esquisito.
Você não acha? Não que as antigas amizades sejam melhores. É só que você conhece melhor a pessoa e sabe que ela não se importa se você estiver agindo feito um perfeito idiota puxa-saco.
Sabe que você faria o mesmo por ela. Eu sabia que Greg faria o mesmo por mim, se fosse o contrário.
Então, sim.
Heroína? — perguntei. — Do que você está falando? — Você sabe — respondeu ele. Deixei ele escapar com essa.
É. Eu sei.
De leve — continuou ele —, mas um bocado dela. Eram uns dez caras e todos deram a grana, mas eram preguiçosos demais pra ir lá e pegar o negócio. — Ele escorregou um pouco mais na parede. — Peguei o troço sem problemas, mas as coisas pioraram porque tive que esconder durante a noite.
Aah. -Joguei a cabeça para trás e comecei a rir. Tinha certeza de que sabia agora exatamente o que havia acontecido.
É, isso mesmo. — Assentiu Greg. — A coroa achou tudo debaixo da cama e o coroa jogou no fogo. Estavam assinando minha sentença de morte... não consigo acreditar que o coroa jogou tudo no fogo, caramba.
Agora eu quase chorava de tanto rir, porque podia ver o coroa do Greg: um grosseirão magro e baixinho, com cabelos cacheados, xingando feito louco e jogando tudo no fogo. Para falar a verdade, Greg também riu, ainda que ficasse repetindo: — Não tem graça, Cam. Não tem graça.
Tinha. E foi por isso que ele conseguiu o dinheiro.
O que o salvou foi que contei a história pro Rube, e ele desencavou os outros noventa contos de que Greg precisava, embora ameaçasse acabar com ele, se não devolvesse rápido. No fim, a solução foi eu pagar pro Rube o dinheiro que ganharia com papai no mês seguinte, e todo mundo ficaria satisfeito. Depois, Greg ia devolver tudo para mim.
Quanto a Greg, dava para ver que o rosto dele estava menos tenso. Já não parecia tão exausto quando o dinheiro foi parar em sua mão.
No quarto ao lado, Sarah estava deitada na cama, na pior.
Passamos por ela ao voltar para o quintal, onde Rube, Greg e eu chutamos para o gol contra a cerca. Nós nos revezávamos no gol. Foi minha ideia (sobretudo, por causa do sonho da noite anterior), e, na verdade, eu só torcia para não acabar com o nariz sangrando. Mas Rebecca Conlon não estava no quintal, estava? Eu achava que estava bastante seguro.
Claro, o cachorro do vizinho começou a latir e os papagaios enlouqueceram.
Para completar, Rube ligou para os colegas.
E a conversa foi: — Alô?
Alô, Simon? É o Rube.
Ruben. E aí?
Tudo bem. Quer vir pra cá?
Por que não? Parece boa ideia.
Chama o Cheese e o Jeff.
Tá certo.
Tchau.
Tchau.
Quando chegaram, jogamos pra valer.
Sem parar, chutamos a bola contra a cerca, aproveitando todo o tempo antes de mamãe e papai voltarem para casa. Você devia ter visto. Bam. Bam. A bola acertava em cheio dos dois lados, e o som ecoava por toda parte, seguido de gritos e palavrões.
Meu time era Jeff, Greg e eu, e, na verdade, estávamos ganhando, embora fôssemos menores e mais fracos que o time do Rube. Era a nossa fome de bola.
Estava quatro a dois, quando o cachorro do vizinho parou de latir.
Para! Para! — gritei, quando percebi. — Vocês ouviram isso?
Isso o quê?
O cachorro.
É. Ele parou de latir.
Subi na cerca e olhei para o outro lado. Você não vai acreditar no que vi.
O cachorro estava morto.
Caramba! Acho que ele morreu — falei, virando o rosto para olhar os outros.
O quê?!
Estou falando sério. Venham dar uma olhada.
Rube subiu na cerca, perto de mim, e teve que concordar.
Caramba, acho que ele está certo. — Riu para os outros. — Acho que fizemos o pobrezinho ter um ataque cardíaco.
Tem certeza?
Ou um derrame.
Ah, não — lamentei. — O que foi que fizemos?
Que tipo de cachorro é esse?
Rube já tinha aguentado o suficiente.
E eu que vou saber?! — gritou para Cheese. — Acho que é um... um...
Lulu da Pomerânia— respondi por ele.
O que diabos é um Lulu da Pomerânia?
Você sabe — explicou Cheese para os outros —, é uma dessas coisinhas fofas com cara de rato... acho que ele latiu até não aguentar mais.
Até os papagaios na gaiola lançaram um olhar de tristeza ao cachorro.
A gente tem que fazer alguma coisa — falei pro Rube.
O quê? Boca a boca nele?
Olhe, ele está tremendo.
Ah, que lindo, hein? Pulei a cerca, tirei a camisa de flanela e enrolei o cachorro. Rube também pulou e os outros caras olhavam por cima da cerca enquanto dávamos tapinhas no cachorro fofinho com cara de rato, imaginando se ele realmente ia morrer.
Depois de uns quinze minutos, o vizinho voltou para casa. Era um cara de uns 50 anos com um bafo pior do que o de todos nós juntos. Para falar a verdade, ele até que se controlou, pois correu, nos xingou um pouco, pegou o Lulu da Pomerânia (que, por sinal, se chamava Miffy) e o levou para o veterinário.
Você acha que ele vai sobreviver? — Foi o que nos perguntamos ao voltar para casa.
Cara, não sei.
Aos poucos, todos foram embora. Greg foi o último.
Caramba. — Balançou a cabeça na saída. — Tinha me esquecido de como eram as coisas por aqui.
Os velhos tempos, hein?
É. — Fez que sim com a cabeça. — O caos.
Com certeza.
Tinha sido realmente como nos velhos tempos, mas eu sabia que não adiantava achar que ia continuar assim. Nós dois sabíamos que, da próxima vez que ele viesse, seria para devolver uma parte ou todo o dinheiro. Era assim que as coisas funcionavam.
A noite, algo que eu sabia que viria veio.
Veio para dizer à mamãe e ao papai que eles não podiam controlar a mim e ao Rube, e como o Rube era o único que tinha dinheiro sobrando, foi ele quem pagou a conta do veterinário do cara.
Por sinal, Miffy, o Lulu da Pomerânia, estava passando bem. Só teve um ataque cardíaco fraquinho. Pobre cachorrinho com cara de rato.
Mas isso foi a gota d'água para a nossa mãe.
Ela nos fez sentar à mesa da cozinha — e deu voltas ao nosso redor, gritando e dizendo coisas nas quais você não ia acreditar. Até esfregou a colher de pau debaixo do nosso nariz, apesar de não bater na gente desde que eu tinha dez anos. Para ser sincero, parecia que ia esfregar aquela coisa na nossa cabeça.
Por que vocês insistem em fazer isso?! — gritou para nós. — Deixando um ao outro de olho roxo, fazendo a droga do cachorro do vizinho enfartar. E uma desgraça... Tenho vergonha de vocês. De novo!
E papai só ficou sentado num canto, em silêncio total. Ele não ousava falar nada com medo de apanhar também.
No fim, ela ficou maluca de verdade, pegou o lixo orgânico da pia da cozinha e, em vez de levar lá para fora e jogar na lixeira correta, jogou tudo no chão, catou e jogou de novo, dessa vez, nos meus pés.
Vocês são uns animais! — gritou ainda mais alto que antes. Então, falou o que sempre parecia magoar mais: — Cresçam!
Não preciso nem dizer que o Rube e eu limpamos a bagunça, levamos para fora e ficamos por lá. Não ousávamos entrar.
Da janela do quarto, Sarah olhou para nós e sorriu, balançando a cabeça em meio ao sofrimento. Deu uma risada, o que nos fez rir um pouco também. E fez Rube voltar à sua decisão, dizendo: — Ainda vamos pegar o Patterson. Não tenha dúvida disso.
Temos que pegar — concordei.
Depois de um tempo, pensei sobre o que acontecera durante o dia, porque agora eu devia ao Rube metade da conta do veterinário também. As coisas estavam indo de mal a pior, falando sério.
Maldito Lulu da Pomerânia— falei.
Hum. — Rube bufou. — Um Lulu da Pomerânia com coração fraco. Isso só podia acontecer com a gente, hein?

Tem um cara na minha frente, numa estrada poeirenta, ao nascer do sol.
Ele olha para mim.
Eu olho para ele.
Estamos de pé, separados por uns dez metros, talvez, até que, enfim, resolvo quebrar o silêncio.
Digo: — E aí?
E aí, o quê? — É a resposta dele. Ele veste uma túnica, coça a barba e tenta tirar uma pedra de uma das sandálias.
Bem, não sei. — Penso para responder. — E quem diabos é você, pra começo de conversa?
Ele sorri.
Dá uma gargalhada.
De pé.
Depois de se ajeitar, repete a pergunta e responde: — Quem diabos sou eu? — Um risinho curto. — Sou Cristo.
Cristo? Você existe mesmo?
Claro que existo, porra.
Decido testá-lo. — Então, quem sou eu?
Não me interessa quem você é. — Ele caminha pela estrada até mim, ainda tentando tirar a pedrinha da sandália. — Droga de sandália. — Arrasta o pé; então, contínua. — Na verdade, me interessa o que você é.
E o que eu sou?
Infeliz.
É. — Encolho os ombros, concordando com ele.
Eu posso ajudar.
Continua falando, e fico esperando Ele citar o versículo tradicional que todos os professores de religião citam na peregrinação anual à nossa escola. Não é o que Ele faz.
Em vez disso, estende uma garrafa com líquido vermelho e move a mão dizendo “Beba tudo” para que eu beba.
O que é isso? — pergunto.
Vinho.
Sério?
Não. Na verdade, é groselha. Você é muito novo para beber.
Aah, seu estraga-prazeres.
Ei, não ponha a culpa em mim. Não tenho nada a ver com isso, falando sério. Foi o coroa quem não me deixou lhe dar bebida de verdade. Ponha a culpa Nele.
Está bem, está bem... E, por falar nisso, qual é o problema Dele?
Ah, anda sob muita pressão ultimamente.
Por causa do Oriente Médio?
É, voltaram a brigar. — Ele chega mais perto e cochicha. — E, cá entre nós, faltou pouco pra Ele acabar com tudo na semana passada.
Com o quê? O mundo?
É.
Cristo Todo-Poderoso!
A expressão no rosto de Cristo é de decepção, ao ouvir as minhas palavras.
Ah, claro. Foi mal — digo. — Não é legal falar assim, não é?
Sem problema.
Preste atenção. — Jesus decide que é hora de falar sério. — Vim, na verdade, para lhe dar isto.
Tira alguma coisa do bolso da túnica e eu pergunto: — O que é?
Ora, é só uma pomada. — Ele a entrega para mim. — Para o sangramento no nariz.
Ah, legal. Obrigado.

Markus Zusac, in O Azarão