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29/05/2026

Natureza e Arte

Nenhuma natureza é inferior à arte, pois as artes imitam as naturezas das coisas. Sendo assim, a natureza mais perfeita e abrangente não pode carecer da maestria artística. Agora, todas as artes criam o inferior em prol do superior. Portanto, a natureza universal também o faz.
Nisso está a origem da justiça, e nela as outras virtudes se fundamentam. Afinal, não é possível ser justo ao valorizar as coisas indiferentes, ao ser facilmente iludido e ao ser descuidado e instável.

Marco Aurélio, em Meditações

20/12/2025

Natureza viva

A vida brota. E é toda olhos. Cada gota contém a luz do mundo. E cada cálice é uma boca ávida. A tua mão — fechada em maldição — abre-se em concha, agora…

Mário Quintana, em Caderno H

18/12/2025

Obediência e satisfação

À natureza que concede e remove, o homem instruído e modesto diz sem orgulho, com obediência e satisfação: “Atribui e retira o que tu desejares.”

Marco Aurélio, em Meditações

02/12/2024

No espelho da natureza

— Um homem não se acha descrito com exatidão, quando ouvimos que ele gosta de andar por altos campos de trigo amarelo, que prefere as cores das florestas e das flores do outono amarelecido e caduco, por elas insinuarem coisas mais belas do que a natureza jamais alcançou, que ele se sente em casa sob grandes nogueiras de espessas folhas, como entre parentes próximos, que a sua maior alegria, estando nas montanhas, é encontrar os pequenos lagos afastados, dos quais a solidão mesma parece contemplá-lo, que ele ama a cinzenta paz do nevoento crepúsculo que em noites de outono e princípio de inverno se aproxima das janelas e envolve, como cortina de veludo, todo ruído inanimado, que ele sente as rochas brutas como testemunhos do passado desejosos de falar e as venera desde criança, e, por fim, que o mar, com sua movediça pele de serpente e sua beleza de fera, é e sempre lhe será estranho? — Sim, alguma coisa desse homem foi descrita, certamente; mas o espelho da natureza nada diz sobre o fato de que o mesmo homem, com toda a sua idílica sensibilidade (e não “apesar dela”), poderia ser bastante frio, mesquinho e presunçoso. Horácio, que entendia de tais coisas, pôs o mais delicado sentimento pelo campo na boca de um agiota romano, no famoso verso “beatus ille qui procul negotiis” [feliz aquele que, longe das ocupações...].

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

12/07/2024

Natureza viva

Há trovões arrastando pesados móveis, enormes cômodos pelo céu. Há outros que trabalhar não é com eles e ficam resmungando, num desvão. Por fim atracam-se. As lâmpadas, lá-alto, queimam-se em sucessivos relâmpagos, enquanto o poeta descarrega os nervos. Até que tudo vasa e se extravasa sobre o desespero dos guarda-chuvas em fuga e a verde alegria das árvores.

Mário Quintana, em Porta giratória

06/07/2024

Acerca das naturezas

Toda natureza se contenta consigo mesma quando segue bem seu caminho. A natureza racional caminha bem quando não consente com falsidades ou incertezas; quando dirige seus impulsos unicamente para o bem social; quando restringe desejos e repulsões ao que depende dela; quando se satisfaz com o que lhe é atribuído pela natureza comum.
As naturezas particulares compõem a natureza universal, assim como a da folha pertence à da planta. A diferença é que a natureza da folha é parte de uma que é desprovida de percepção ou razão e está sujeita a impedimentos. A natureza do homem, por outro lado, participa de uma que não pode ser impedida e que é inteligente e justa por atribuir a tudo porções equivalentes e proporcionais ao seu valor, ao seu tempo, à sua substância, à sua causa, à sua atividade e ao seu incidente.
Não examine para descobrir que qualquer coisa comparada com outra é idêntica em todos os aspectos. Analise juntando as partes de uma e comparando-as com as partes juntas de outra.

Marco Aurélio, em Meditações

18/12/2023

Manejo

A natureza do universo maneja a substância universal como se fosse cera para formar um cavalo. Em seguida, quando o fragmenta, usa o material para uma árvore, para um homem e depois para outro objeto. Todos esses subsistem por pouco tempo. Não é difícil fragmentar um vaso, pois não havia nada o fixando.

Marco Aurélio, in Meditações

13/03/2023

Todas as opiniões

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das coisas
Nunca foi coisa em que pudesse pegar como nas coisas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das coisas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

07/09/2021

Quando a Natureza nos ensina a sermos mais humanos

Todo mundo já teve alguma experiência assustadora com o clima: uma tempestade devastadora, rios em cheia, desabamentos, ressacas violentas... No Brasil, até que temos sorte, já que não precisamos nos preocupar com terremotos, furacões ou vulcões. Mesmo assim, por experiência própria ou por notícias de outros países, cansamos de ver que, quando a Natureza resolve demonstrar seus poderes, nossos recursos e ingenuidade, mesmo que úteis, raramente são suficientes.
Claro, estamos longe da situação precária de nossos ancestrais das cavernas, estes sim completamente à mercê dos elementos. Mas é só chegar a tempestade, o furacão, o maremoto, o terremoto ou a erupção vulcânica para nos sentirmos como formigas pisoteadas por uma criança de 3 anos. A ordem natural obedece a uma hierarquia rígida, e quem acha que estamos no seu ápice comete um grave erro. Seres humanos são produto de circunstâncias específicas, que combinam a aleatoriedade das mutações genéticas e o ambiente em que nossos antepassados evoluíram.
Após milhões de anos, uma série de transformações em nossos primos hominídeos acabaram por gerar a nossa espécie, não muito mais do que cerca de 200 mil anos atrás. O que é praticamente nada, quando comparados aos 4,5 bilhões de anos da Terra. Em termos de história planetária, acabamos de chegar. A operação dos nossos sentidos (por exemplo, nossos olhos, que enxergam do vermelho ao violeta e não radiação infravermelha ou ondas de rádio), nossos músculos e ossos, a funcionalidade dos nossos corpos são otimizados para este planeta, dentro de condições climáticas que, apesar de flutuações de temperatura, não mudaram tanto nos últimos 20 mil anos.
Casacos e aparelhos de ar-condicionado ajudam, mas têm seus limites. Se saímos do nosso ambiente normal, logo nos deparamos com sérias limitações. Basta subir uma montanha de mais de 2.500 metros para ver como fica difícil respirar. No topo do Monte Everest, nossa funcionalidade metabólica cai para 30%. Ondas de calor ou frio afetam nosso comportamento e podem ser fatais. Não temos pelos espessos ou grandes reservas de gordura, nem chifres, garras e dentes afiados, ferrões venenosos ou um exoesqueleto para nos proteger.
Nossas vantagens evolucionárias são outras: a oposição do polegar, glândulas que nos permitem suar (e, portanto, correr por muito tempo) e um córtex frontal de tamanho desproporcional ao volume do nosso cérebro. Graças a essas vantagens, conseguimos transformar o planeta, ou, ao menos, parte de sua superfície e atmosfera. Infelizmente, nossos pequenos sucessos em adaptabilidade e controle da Natureza nos cegaram, criando a ilusão de que podemos dominar o planeta que habitamos com impunidade. No entanto, basta ocorrer um desastre natural para nos remeter às nossas condições primordiais: sem abrigo, eletricidade, comida ou água potável, uma longa lista de confortos da vida moderna, que achamos que estarão sempre aqui para nós, acessíveis. E agora?
Nessas situações, doenças se espalham com facilidade e temos poucas estratégias para nos proteger ou nos medicar. O que podemos – e devemos – fazer é criar um espírito de cooperação mútua para nos reagrupar e reconstruir, usando recursos disponíveis para restabelecer um senso de comunidade. Como sabemos bem, existirão sempre aqueles que usarão o caos da situação para se beneficiar individualmente, sem qualquer preocupação com os que estão ao lado. (Infelizmente, essas pessoas existem mesmo sem crises naturais).
Por outro lado, é, também, nesse tipo de situação, quando atingimos o fundo do poço, que o que temos de melhor vem à tona, indivíduos que se transformam em heróis, muitas vezes arriscando suas vidas por pessoas que nem conhecem. Nessa hora, a Natureza nos dá uma lição de vida, e somos obrigados a resgatar nossa humanidade, quando a sobrevivência do grupo é mais importante do que a do indivíduo, e o espírito social triunfa sobre a ganância pessoal. Nas próximas décadas, à medida que o aquecimento global mudar cada vez mais o planeta, vivenciaremos eventos climáticos com severidade crescente, no Brasil e no resto do mundo. Essas crises irão desafiar nossa capacidade de se adaptar a condições ambientais extremas.
Se iremos ou não sobrepujá-las, dependerá, em grande parte, da habilidade que temos de preservar o nosso senso de comunidade e de resgatar nossas melhores qualidades, passando por cima das tantas diferenças culturais que nos separam. Os testes serão difíceis, especialmente hoje, quando nosso equilíbrio social é já precário. Sendo um otimista, acredito que, quando as várias crises futuras desafiarem a nossa sobrevivência, teremos mais heróis do que oportunistas definindo nosso futuro.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

22/03/2020

Sou uma parte do todo governado pela natureza

Quer se trate de átomos, quer se trate de natureza, firmemos primeiro que sou uma parte do todo governado pela natureza; depois, que estou relacionado intimamente com as partes do mesmo gênero que eu. Lembrando-me disso, enquanto sou uma parte não estarei descontente com coisa alguma das que me foram designadas pelo todo; nada do que beneficia o todo é prejudicial à parte. Não há coisa alguma no todo que não o beneficie, tendo todas as naturezas isso em comum; mas com a natureza do mundo ainda ocorre que não pode ser compelida por nenhuma causa exterior a gerar coisa alguma que lhe seja prejudicial. Recordando-me, então, de que sou parte de um todo assim, estarei contente com tudo que acontecer. Mas enquanto estou ligado intimamente, de certo modo, com as partes do mesmo gênero que eu, nada farei de contrário à vida comunitária; ao invés, terei em vista os que forem do mesmo gênero que eu e dirigirei todos os meus esforços no sentido do bem comum e evitarei tudo que lhe for contrário. Tudo sendo feito assim, a vida correrá necessariamente bem, como se imaginaria o curso feliz da vida de um cidadão que, à proporção que avançasse, praticasse uma sequência de ações proveitosas a seus concidadãos e se contentasse com o que a comunidade lhe concedesse.
Marco Aurélio, in Meditações

27/10/2019

A natureza transforma e cria

Um pepino é amargo? Joga-o fora. Há espinheiros no caminho? Evita-os. Isso basta. Não acrescentes: ‘Por que, então, existem essas coisas no universo?’ Farias rir o homem que estuda a natureza, como farias rir o carpinteiro e o sapateiro se achasses merecedor de reparos o fato de veres em suas oficinas raspas e tiras, resíduos dos materiais com que trabalham. Todavia eles têm onde lançar esses resíduos. A natureza universal, ao contrário, nada tem de exterior a ela. Mas a maravilha de sua indústria é que, tendo traçado ela mesma seus próprios limites, tudo que parece desgostar-se e envelhecer e tornar-se inútil em seu interior, ela faz reentrar em si mesma e transforma e cria, com esses resíduos mesmos, coisas novas, de tal forma que não necessita de materiais estranhos nem carece de um lugar onde possa jogar coisas podres. Ela contenta-se, pois, com o lugar que é seu e com o material que é seu e com a sua própria indústria.”
Marco Aurélio, in Meditações

Natureza

Para estar em solidão, um homem necessita apartar-se tanto da sociedade como de seu próprio quarto. Eu não estou só quando leio e escrevo, ainda que ninguém esteja comigo. Se o homem há de estar só, que olhe as estrelas.
Os raios que vêm desses mundos celestiais se interporão entre ele e o que o toca. Diria-se que a atmosfera teria sido feita transparente com esta intenção: brindar ao homem, nos corpos celestes, com a presença perpétua do sublime.
Vistos os astros desde as ruas da cidade, quanta é a sua grandeza! Se as estrelas aparecessem apenas uma noite em mil anos, como creriam nelas os homens e as adorariam, e preservariam por muitas gerações a lembrança da cidade de Deus que lhes foi mostrada! Sem embargo, esses emissários da beleza chegam noite após noite e alumbram o universo com seu sorriso admonitório.
Os astros despertam certa reverência, pois ainda que sempre estejam presentes, são inacessíveis; mas todos os objetos naturais exercem análoga impressão quando a mente está aberta a seu influxo. A natureza nunca mostra uma aparência vulgar. Nem o mais sábio dos homens pode lhe arrancar seu segredo, nem é capaz de acalmar sua curiosidade descobrindo toda sua perfeição. Para os espíritos sábios, a natureza jamais foi um brinquedo; as flores, os animais, as montanhas refletiram a sabedoria de seus melhores anos, tal como haviam deleitado a simplicidade de sua infância.
Quando falamos da natureza deste modo, temos em mente um sentido diverso, sobretudo poético. Queremos significar a impressão global que causam os múltiplos objetos naturais. Isso é o que distingue o pedaço de pau, que tem diante de si o lenhador, da árvore do poeta. A encantadora paisagem que contemplei esta manhã é composta indubitavelmente de umas vinte ou trinta fazendas. Miller é o dono daquele campo, Locke daquele, e Manning do arvoredo mais adiante. Porém, nenhum deles possui a paisagem. Há uma qualidade no horizonte, da qual nenhum homem é dono; só o é aquele cuja visão pode integrar todas as partes, vale dizer, o poeta. É a melhor parte das fazendas desses homens e, no entanto, seus títulos de propriedade não lhes dão direito sobre isso.
Para falar francamente, poucos adultos são capazes de ver a natureza. A maioria das pessoas não vê o sol.
Ao menos, têm uma visão muito superficial dele. O sol ilumina unicamente o olho do homem, mas resplandece em contrapartida no olho e no coração do menino. O amante da natureza é aquele cujos sentidos interiores e exteriores ainda seguem amoldados verdadeiramente um ao outro; aquele que conservou em sua maturidade o espírito da infância. Seu relacionamento com o céu e com a terra se torna parte de seu sustento diário. Em presença da natureza, um deleite selvagem flui através do homem, a despeito dos seus infortúnios reais. A natureza diz: Eis aqui a minha criatura, e apesar de suas impertinentes aflições, comigo estará contente. Não só o sol e o verão, senão cada hora e cada estação do ano rendem seu tributo de prazer; cada hora e cada mudança correspondem um distinto estado mental, desde o meio-dia sufocante até a tenebrosa meia-noite. A natureza é um cenário que se adapta igualmente bem a uma peça cômica ou trágica.
Quando alguém está são, o ar é um licor de incríveis virtudes. Cruzando sobre a neve fresca um campo despovoado, sob um céu nublado e crepuscular, e sem que me venha à mente nenhum augúrio particularmente bom, senti uma satisfação perfeita. Estou contente à beira do temor. Na mata, um homem também se desprende de seus anos, como uma serpente de sua pele, e em qualquer etapa de sua vida é sempre um menino. Na mata, está a perpétua juventude. Nessas plantações de Deus reinam a santidade e o decoro, luzem as galas e atavios de um festival perene, e o visitante não vê como poderia se cansar de tudo aquilo nem em mil anos. Na mata, retornamos à razão e à fé. Ali sinto que nada haverá de acontecer-me na vida – nenhuma desgraça, nenhuma calamidade (que não danifique minha vista) – sem que a natureza o possa curar. De pé sobre a terra nua, banhada minha fronte pelo ar leve e erguido ao espaço infinito, todo mesquinho egoísmo se dilui. Me converto em um globo ocular transparente; nada sou: tudo vejo; as correntes do Ser Universal me circulam; sou uma porção de Deus. O nome do meu amigo mais íntimo me soa então estranho e acidental; o sermos irmãos, o sermos conhecidos, o ser amo ou ser servo é uma minúcia e uma moléstia. Sou o amante de uma beleza incontível e imortal. Nos lugares silvestres, encontro algo mais caro e próximo a mim do que nas ruas ou povoados. Na paisagem tranquila e, especialmente, na distante linha do horizonte, o homem contempla algo tão belo como sua própria natureza.
O maior deleite que os campos e os bosques comunicam é a sugestão de uma oculta relação entre o homem e os vegetais. Não estou só, nem ignorado. Fazem-me sinais e eu lhes respondo. O balanço das ramas em meio a tormenta é para mim novo e antigo. Toma-me de surpresa e, apesar disso, não me é desconhecido. Seu efeito é semelhante ao do alto pensamento ou à emoção sublime que me invade quando julgo que estou raciocinando com acerto ou que estou trabalhando corretamente.
Mas o poder de produzir esse encanto não reside na natureza, sem dúvida, senão no homem ou na harmonia de ambos. É preciso fazer uso desses prazeres com grande moderação; pois a natureza nem sempre se disfarça com roupa de festa, e a mesma cena que ontem perfumava e reluzia como para que dançassem as ninfas, hoje está coberta de melancolia. A natureza tem sempre as cores do espírito. Para um homem acometido pela calamidade, o calor de sua própria lareira seria em si mesmo triste.
Há também uma espécie de desprezo pela paisagem, o que sente aquele que acaba de perder um amigo querido, e então o céu já não é tão vasto e nem tão valiosa é a população sobre a qual se estende.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza – A Bíblia do Naturalismo

24/10/2019

Bens Materiais

Quem quer que examine a causa final do mundo discernirá uma multiplicidade de usos que chegam a fazer parte desse resultado. Todos eles admitem ser incorporados a algumas das seguintes classes: Bens Materiais, Beleza, Linguagem e Disciplina.
Sob o nome geral de Bens Materiais, incluo todas as vantagens que nossos sentidos devem à natureza. O que, é claro, trata-se de um benefício temporário e mediato, tal qual seus serviços para a alma. Ainda que módico, é perfeito em seu gênero, e a única utilidade da natureza que todos os homens apreendem. A miséria do homem parece uma petulância infantil quando exploramos a firme e pródiga provisão que tem sido feita para seu suporte e delícia nessa bola verde que o faz flutuar através dos céus.
Que anjos inventaram estes esplêndidos ornamentos, estas ricas conveniências, este oceano de ar acima, este oceano de água abaixo, este firmamento de terra entre os dois?
Este zodíaco de luzes, esta tenda de nuvens respingantes, esta malha listrada de climas, este quádruplo ano? Feras, fogo, água, pedras e milho o servem. O campo é a um só tempo o seu piso, sua oficina, seu jardim e sua cama.
Mais servos esperam ao homem Do que ele tomará conhecimento.”
A natureza, em sua cooperação com o homem, é não só o material, mas também o processo e o resultado. Todas as partes trabalham incessantemente nas mãos umas das outras para o proveito do homem. O vento espalha a semente; o sol evapora o mar; o vento sopra o vapor para o campo; o gelo, do outro lado do planeta, condensa neste a chuva; a chuva sustenta a planta; a planta sustenta o animal; e, assim, as contínuas circulações de caridade divina nutrem o homem.
As artes práticas são reproduções ou novas combinações criadas pelo engenho do homem, a partir dos mesmos benfeitores naturais. Este já não precisa esperar as brisas favoráveis: graças à máquina a vapor, torna realidade a fábula do saco de Éolo e transporta os duzentos e trinta ventos na caldeira de seu barco. Para reduzir a fricção, pavimenta o caminho com barras de ferro, e, subindo a um vagão carregado de homens, animais e mercadorias, lança-se a percorrer o país de povo em povo, como uma águia ou uma andorinha pelo ar. E, tudo somado, como chegou a mudar a face da Terra desde a era de Noé até a de Napoleão! O homem pobre tem cidades, barcos, canais, pontes. Vai ao correio, e a raça humana leva seus recados; à livraria, e a raça humana lê e escreve para ele acerca de tudo o que acontece; aos tribunais, e as nações reparam seus agravos pessoais. Levanta sua casa no caminho, e a raça humana vai todas as manhãs, de pá na mão, retirar a neve para lhe dar passagem.
Mas não há necessidade de elementos específicos nessa categoria de usos. O catálogo é interminável, e os exemplos tão óbvios, que eu devo deixá-los para a reflexão do leitor, com a observação geral de que este benefício venal diz respeito a um bem adicional. Um homem é alimentado, não por poder ser alimentado, mas por poder trabalhar.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza - A Bíblia do Naturalismo

19/10/2019

Beleza

A mais nobre necessidade do homem é servida pela natureza, nomeadamente: o amor à Beleza.
Os antigos gregos chamavam ao mundo kosmos, beleza.
A constituição de todas as coisas ou o poder plástico do olho humano são tais, que as formas primordiais como o céu, a montanha, a árvore e o animal nos provocam deleite em si e por si mesmas. Um gozo que surge de seu perfil, cor, movimento e maneira de agrupá-las. Isso parece dever-se em parte ao olho mesmo, que é o melhor dos artistas. Mediante a ação recíproca de sua estrutura e das leis da luz, produz-se a perspectiva, que integra cada massa de objetos – qualquer que seja seu caráter em um colorido e bem sombreado globo, de tal modo que ali onde os objetos individuais são vulgares e anódinos, a paisagem que eles compõem é bem acabada e simétrica.
E, assim como o olho é o melhor dos compositores, a luz é a primeira entre os pintores. Não há objeto tão execrável que não se torne bonito sob a luz intensa. E o estímulo que esta oferece aos sentidos, e uma espécie de infinitude que possui, como o espaço e o tempo, fazem com que toda a matéria se alvoroce. Até um cadáver tem sua beleza peculiar. Mas, aparte essa graça geral difundida pela natureza, quase todas e cada uma das formas são agradáveis aos olhos, como provam nossas intermináveis imitações de algumas delas: a bolota, a uva, a pinha, a espiga de trigo, o ovo, as asas e o corpo da maioria dos pássaros, a garra do leão, a serpente, a borboleta, as conchas marinhas, as chamas, as nuvens, os brotos, as folhas e as formas de numerosas árvores, como a palmeira.
Para um melhor exame, podemos distribuir em três partes os aspectos da Beleza:

1. Em primeiro lugar, a mera percepção das formas naturais é um gozo. Tanto necessita o homem do influxo das formas e ações da natureza que, em suas funções inferiores, parecem jazer dentro dos confins dos bens materiais e da beleza. Ao corpo e a mente viciados por uma tarefa ou uma companhia perniciosas, a natureza os cura e lhes devolve seu templo. O comerciante ou o letrado que se aparta do estrépito e do tumulto das ruas e olha o céu e os bosques, volta a ser um homem. Em sua calma eterna, reencontra-se consigo mesmo. O olho parece exigir para sua saúde um horizonte. Nunca nos cansamos, contanto que possamos ver longe o bastante.
Porém, em outras horas, a Natureza satisfaz apenas com seu encanto, sem mescla alguma de benefício corpóreo.
Contemplo desde o cume da colina que se instala detrás da minha casa o espetáculo do amanhecer, desde a aurora até o pôr-do-sol, e sinto o que um anjo sentiria. As largas, esbeltas franjas de nuvens flutuam como peixes no mar de luz purpúrea. Desde a terra, como se fosse uma praia, observo esse mar silente. Imagino-me participando de suas rápidas transformações; o ativo encantamento move minha poeira, e eu me dilato e inspiro, em uníssono com a brisa matinal. Como nos diviniza a natureza com uns poucos e baratos elementos! Dá-me a saúde e o dia, e toda a pompa dos imperadores se me tornará ridícula. A aurora é minha Assíria, o crepúsculo e o claro da lua são minha Pafos e inimagináveis reinos de fantasia; o largo meio-dia será a Inglaterra dos meus sentidos e entendimento; a noite, minha Alemanha da filosofia mística e sonhos.
Não menos excelso – salvo pelo fato de que nossa suscetibilidade é menor de tarde – foi o delicioso crepúsculo de ontem. No poente, as nuvens se dividiam e voltavam a se dividir em flocos rosados com tons de indizível maciez, e o ar de janeiro era tão vivo e suave que entrar em casa causaria um pesar. O que é que queria nos dizer a natureza? Acaso não tinha nenhum significado o vívido repouso do vale detrás do moinho, que nem Homero nem Shakespeare haviam podido recriar em palavras para mim? As árvores desfolhadas se tornam flamejantes espirais no ocaso, sobre a tela de fundo do Leste azulado, e as estrelas dos mortos cálices das flores, e cada tronco seco e cada restolho queimado de geada contribuem em algo com a muda música.
Os habitantes das cidades supõem que a paisagem do campo só é amável durante metade do ano. Eu me comprazo com a graça da cena invernal e creio que nos chega tanto como as influências cordiais do verão. Para o olho atento, cada momento do ano tem sua própria beleza, e em um mesmo lugar do campo contempla-se hora após hora um quadro que não se viu jamais e que jamais se voltará a ver. Os céus mudam a cada instante e refletem sua glória ou sua desdita pelas planícies abaixo.
De uma semana para outra, o estágio das plantações nas fazendas vizinhas altera a expressão da terra. A sucessão das plantas locais nos pastos e caminhos, silencioso relógio mediante o qual o tempo marca as horas estivais, faria perceptíveis até as divisões do dia a um fino observador.
Revoadas de pássaros e insetos, pontuais como as plantas, seguem-se umas às outras, e em um ano cabem todos. Nas águas correntes, a variedade é ainda maior. Em julho, nos baixios de nosso amável rio, florescem em grandes leitos as pontederias azuis, frequentadas por borboletas amarelas em contínuo movimento. A arte não pode rivalizar com esta pompa de ouro e púrpura. O rio está, em verdade, perpetuamente engalanado, e enverga a cada mês um novo adorno.
Mas esta beleza da natureza que se vê e sente como tal é a menor de suas partes. Os espetáculos do dia, a orvalhada manhã, o arco-íris, montanhas, hortos floridos, estrelas, o claro da lua, as sombras na água quieta e assim sucessivamente, se perseguidos com demasiado afinco, tornam-se meros espetáculos e zombam de nós com sua irrealidade. Saia de sua casa para ver a lua, e não passa de lantejoula; não será tão agradável como quando sua luz alumbra a sua viagem indispensável. Quem pode capturar a beleza que tremeluz nas amarelas tardes de outubro? Tente pegá-la, e já se foi; é apenas uma miragem vista pelas janelas da diligência.

2. A presença de um elemento superior, a saber, o elemento espiritual, é essencial para sua perfeição. A alta e divina beleza que pode ser amada sem enlanguescimento é aquela que se encontra combinada com a humana vontade. A beleza é o selo que Deus põe sobre a virtude.
Toda ação natural é graciosa; o é também todo ato heroico, que faz resplandecer o lugar e sua audiência. As grandes ações nos ensinam que o universo é propriedade de todos e de cada um dos indivíduos que nele habitam. Cada ser racional tem por dote e herança a natureza inteira. É sua, se assim o deseja. Pode desfazer-se dela, fugir a algum rincão e abdicar de seu reino, como o faz a maioria dos homens, mas sua própria constituição lhe confere direitos intrínsecos sobre aquele mundo, e o levará em seu interior em proporção à energia de seu pensamento e de sua vontade.
Todas as coisas pelas quais os homens aram, constroem ou navegam obedecem à virtude”, disse Salústio.
Os ventos e as ondas...” – diz Gibbon – “...acompanham sempre os mais hábeis marinheiros.”
O mesmo ocorre com o sol e a lua e todas as estrelas.
Quando se leva a cabo um ato nobre – talvez, por sorte, em um cenário de grande beleza natural; quando Leônidas e seus trezentos mártires levam todo um dia para morrer, e primeiro o sol e logo a lua vêm vê-los naquele íngreme desfiladeiro das Termópilas; quando Arnold Winkelried, nos altos Alpes, sob a sombra da avalanche, reúne ao seu lado um feixe de lanças austríacas para dar passagem a seus camaradas; não têm direito esses heróis a ornar com a beleza do lugar a beleza de suas façanhas? Quando a caravela de Colombo se aproxima das costas da América – tendo adiante os selvagens alinhados na praia, saídos de suas cabanas de juncos; por trás o mar, e de ambos os lados as montanhas arroxeadas do arquipélago das Bahamas –, cabe separar o homem desse quadro vívido?
Não está revestido pelas formas do Novo Mundo, com suas filas de palmeiras e suas matas como cortinas legítimas? A beleza natural sempre se filtra furtiva como o ar, e envolve as grandes ações. Quando Sir Harry Vane era arrastrado pelas ladeiras de Tower Hill, sentado em um trenó a caminho da morte, como o grande defensor das leis inglesas, alguém na multidão gritou para ele “Jamais te sentastes em um trono mais glorioso!”. Charles II, para intimidar os cidadãos de Londres, ordenou que o patriota Lord Russell fosse conduzido à forca em um carro aberto, passando pelas ruas principais da cidade. “No entanto,” agrega seu biógrafo, “a multidão imaginava ver a liberdade e a virtude sentadas ao seu lado.” Na vida privada, em meio a sórdidos objetivos, um ato de verdade ou heroísmo parece atrair para si simultaneamente o céu como templo e o sol como vela. A natureza estende seus braços para acolher o homem, bastando apenas que seus pensamentos sejam de igual grandeza. Voluntariamente, ela segue os seus passos com o rosa e o violeta, e cede suas linhas de graça e imponência para adornar sua criança querida. Basta deixar que seus pensamentos sejam de igual abrangência, e a moldura se ajustará ao quadro. Um homem virtuoso vive em uníssono com as obras da natureza e se converte na figura central da esfera visível. Homero, Píndaro, Sócrates, Fócion, se associam apropriadamente em nossa memória com a geografia e o clima da Grécia. O céu e a terra visíveis simpatizavam com Jesus. E na vida comum, quem quer que haja visto uma pessoa de caráter forte e gênio feliz, terá notado o quão facilmente arrasta consigo todas as coisas – os seres humanos, as opiniões, a época – e a natureza se subordina a um homem.

3. Ainda há outro aspecto sobre o qual a beleza do mundo pode ser vista, nomeadamente, quando se transforma em um objeto do intelecto. Além da relação das coisas com a virtude, elas têm uma relação com o pensamento. O intelecto busca a ordem absoluta das coisas, tal como se estivessem na mente de Deus, sem as cores da afeição. As faculdades intelectual e ativa parecem suceder-se uma a outra, e a ação exclusiva de uma gera a ação exclusiva da outra. Há algo mutuamente hostil entre ambas, que é como os períodos alternados de alimentação e trabalho nos animais; cada qual preparando e sendo seguido pelo outro. Assim faz a beleza, que, quanto às ações, como temos visto, vem sem que a busquemos, e vem porque não a buscamos, permanecendo para a apreensão e busca do intelecto; e então, por sua vez, do poder ativo. Nada divino morre. Tudo o que é bom se reproduz eternamente. A beleza da natureza reforma a si mesma na mente, e não para a contemplação estéril, mas para uma nova criação.
Todos os homens são em algum grau impressionados pela face do mundo; alguns homens até o deleite. Este amor pela beleza é o Gosto. Outros têm esse amor em tal excesso que, não satisfeitos em admirar, procuram incorporá-lo em novas formas. A criação de beleza é a Arte.
A produção de uma obra de arte lança alguma luz sobre o mistério da humanidade. Uma obra de arte é uma síntese ou epítome do mundo. É, em miniatura, o resultado ou expressão da natureza; pois ainda que as obras da natureza sejam inumeráveis e todas distintas entre si, o resultado ou expressão de todas elas é similar e único. A natureza é um mar de formas fundamentalmente semelhantes e até unitárias. Uma folha, um raio de sol, uma paisagem, o oceano, exercem um efeito análogo sobre o espírito. O comum a todos eles, essa perfeição e harmonia, é a beleza. O padrão da beleza está dado pelo circuito inteiro de formas naturais, pela totalidade da natureza; os italianos expressaram isso ao definir a beleza como “il piú nell’uno.” Nada é suficientemente belo por si só: o belo somente o é como um todo. Um objeto qualquer é belo unicamente na medida em que sugere esta graça universal. O poeta, o pintor, o escultor, o músico, o arquiteto procuram concentrar esta radiação do mundo em um só ponto, e em seus diversos trabalhos cada qual trata de satisfazer o amor à beleza que o estimula a criar. Assim é a Arte, uma natureza passada através do alambique do homem. Assim, na arte, a natureza opera através da vontade de um homem pleno da beleza das primeiras obras daquela. O mundo existe, portanto, para a alma, com o fim de satisfazer o anseio de beleza. Este elemento chamo de um fim último. Com respeito ao motivo pelo qual a alma busca a beleza, nada se pode indagar nem responder. Em seu sentido mais amplo e profundo, a beleza é uma das expressões do universo. Deus é a suma justiça; a verdade, a bondade e a beleza são diferentes rostos dessa mesma totalidade. Mas a beleza da natureza não é um fim último.
É a arauta de uma beleza interior e eterna, e em si mesma não constitui um bem sólido e satisfatório. Deve ficar como uma parte, e todavia não como a última ou mais alta expressão da causa final da Natureza.
Ralph Waldo Emerson, in Natureza - A Bíblia do Naturalismo

11/06/2018

Árvores, sinal de atraso

Google Imagens

Isso que vou contar foi um goiano que me contou... Aconteceu numa cidadezinha, no interior do estado. Ficava num vale que terminava numa serra no meio de uma verdadeira floresta de mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras e árvores nativas, seculares... As árvores eram tantas que o viajante, no alto da serra, quase não percebia a cidade, no vale. Foi então que um prefeito moderno e dinâmico fez uma campanha entre os moradores para que cortassem as árvores dos seus quintais para que a cidade fosse vista pelos viajantes. E argumentava: “Todo mundo sabe que árvore é sinal de atraso...”.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

02/09/2017

O poder da Natureza

Fonte: BBC Brasil

Esta imagem de Sergio Tapiro Velasco ganhou o concurso da Fotografia de Viagem do Ano de 2017, da National Geographic. Ele fotografa o vulcão Colima, do México, há mais de uma década. Para o registro, ele rastreou cuidadosamente sua atividade - e diz não ter acreditado no que havia conseguido fazer. "É uma fotografia impossível e um registro único que mostra o poder da natureza.”

30/12/2016

A natureza sonha

Penso que a natureza sonha. Montanhas, florestas, mares, ares, rios, lagos, nuvens, cachoeiras, animais, flores – todos sonham um mesmo sonho. Sonham que chegará o dia em que os seres humanos desaparecerão da face da Terra. Pois os dinossauros não desapareceram? Quando isso acontecer será a felicidade! A natureza estará, finalmente, livre dos demônios que a destroem. A natureza, então, tranquilamente, sem pressa, se curará das feridas que lhe causamos.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

03/06/2016

Relação pacífica com a natureza

A sabedoria consiste, no fundo, em ter uma relação pacífica com o que está fora de nós, com a natureza. Para meu avô, bastava saber o nome das árvores, dos animais e ter uma ideia aproximada do tempo. Com quatrocentas ou quinhentas palavras se vivia. Pode ser que tenhamos de reconhecer que a sabedoria cabe nessas poucas palavras e que, quando começamos a entrar nos matizes, tudo se diversifica. Às vezes, as palavras fazem que nos detenhamos nelas.
José Saramago, in As palavras de Saramago

13/05/2016

O processo

Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
E depois?
Depois vem a Natureza.
Você está chamando a morte de natureza?
Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
Será que todas as vidas foram isso?
Acho que sim.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

15/04/2016

Lugares incríveis: a Natureza caprichou nesses locais

 
Antelope Canyon, nos EUA

 
Montanhas Tianzi, na China

 
Monte Roraima, entre Brasil, Venezuela e Guiana

 
Hitachi Seaside Park, no Japão

 
Mina Naica, no México 

Wisteria, o túnel de flores no Japão

 
Zhangye Danxia Landform, na China 

Veja mais aqui.