sexta-feira, 1 de maio de 2026
Brinquedos
Amigos me têm perguntado sobre as razões da minha mudança de estilo. Eu só escrevia crônicas com princípio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, como estes. Acontece que a cabeça é uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamentos. Alguns deles são tranqueiras mesmo e os jogo fora. (Mas já me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que não eram tranqueiras...) Outros ficam lá dentro e vão ajuntando, enchendo minha canastra secreta. Não é possível transformá-los todos em peças literárias porque o tempo é curto e o espaço também. Mas não tenho coragem de me livrar deles. Resolvi então retirá-los da caixa em que estavam guardados e transformá-los em brinquedos.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
Canção de Mim Mesmo
Walt Whitman, em Folhas de Relva
Duas histórias a meu modo
Clarice Lispector, em Todos os contos
Capítulo 47 – O Recluso
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

