quinta-feira, 21 de maio de 2026
A arte de perder
A arte de perder não é nenhum
mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada
sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite,
austero,
A chave perdida, a hora gasta
bestamente.
A arte de perder não é nenhum
mistério.
Depois perca mais rápido, com mais
critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é
sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem
quero
Lembrar a perda de três casas
excelentes.
A arte de perder não é nenhum
mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um
império
Que era meu, dois rios, e mais um
continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada
sério.
Elizabeth Bishop, em Poemas escolhidos, tradução de Paulo Henriques Britto
4 – A perseguição
Os gritos histéricos das mulheres
silenciaram, os apitos da polícia pararam de martelar e duas
ambulâncias chegaram: uma levou o corpo decapitado e a cabeça
cortada para o necrotério, e a outra, a bela motorneira ferida pelos
estilhaços de vidro; varredores de aventais brancos limparam os
estilhaços de vidro e cobriram as poças de sangue com areia. Já
Ivan Nikoláievitch caiu no banco, sem alcançar a catraca, e do
jeito que caiu, ficou.
Tentou se levantar várias vezes, mas
as pernas não lhe obedeciam — algo parecido à paralisia havia
atingido Bezdômny.
O poeta pusera-se a correr até a
catraca assim que ouviu o primeiro berro e viu como a cabeça pulava
pela calçada. Ele ficou tão enlouquecido por causa disso que caiu
sentado no banco e mordeu sua mão até sangrar. É claro que já
tinha esquecido o alemão louco e tentava entender só uma coisa:
como era possível, agorinha mesmo ele estava falando com Berlioz e,
um minuto depois, a cabeça...
Pessoas passavam alvoroçadas,
correndo pela aleia diante do poeta, exclamando algo, mas Ivan
Nikoláievitch não assimilava suas palavras.
No entanto, ao lado dele duas mulheres
se chocaram, do nada, e uma delas, de nariz afilado e cabeça
descoberta, gritou assim para a outra mulher, bem no ouvido do poeta:
— Ánnuchka, foi a nossa Ánnuchka!
Da Sadôvaia! Foi obra dela! Comprou óleo de girassol na mercearia,
deixou cair e quebrou um litro sobre a catraca! Emporcalhou a saia
toda... E xingou, nossa, xingou tanto! E ele, coitado, deve ter
escorregado e caiu nos trilhos...
De tudo que a mulher gritou, só uma
palavra grudou no cérebro transtornado de Ivan Nikoláievitch:
“Ánnuchka”...
— Ánnuchka... Ánnuchka? —
balbuciou o poeta, olhando para os lados, aflito. — Espere, espere
aí...
À palavra “Ánnuchka” juntaram-se
as palavras “óleo de girassol” e então, sabe-se lá por quê,
“Pôncio Pilatos”. O poeta descartou Pilatos e passou a fazer as
conexões, passou pela palavra “Ánnuchka”. E essa rede de
conexões formou-se com rapidez e, no mesmo instante, levou ao
professor louco.
Espere aí. Mas foi ele mesmo que
disse que não haveria reunião porque Ánnuchka derramaria óleo. E,
façam-me o favor, não haverá reunião mesmo! Mas isso não é
nada: ele não disse com todas as letras que uma mulher cortaria a
cabeça de Berlioz?! Sim, sim, sim! A condutora era uma mulher! O que
é isso? Hein?
Não restava sombra de dúvida de que
o misterioso consultor sabia com antecedência de toda a cena da
terrível morte de Berlioz. Dois pensamentos atravessaram o cérebro
do poeta. O primeiro: “Ele não tem nada de louco! É tudo
bobagem.” E o segundo: “Será que não foi ele mesmo que armou
isso tudo?”
— Muito bem, mas me permitam
perguntar: como assim?
Ah, não! Isso é o que vamos
descobrir.
Fazendo um tremendo esforço, Ivan
Nikoláievitch levantou-se do banco e correu de volta, para onde
conversara com o professor. Felizmente, ele ainda não havia ido
embora.
As luzes na Brônnaia já estavam
acesas e sobre Patriarchi a lua dourada brilhava. À luz da lua, que
sempre engana, pareceu a Ivan Nikoláievitch que o professor estava
de pé segurando embaixo do braço não sua bengala, mas uma espada.
O regente aposentado e embromador
estava sentado no mesmíssimo lugar onde ainda há pouco estava o
próprio Ivan Nikoláievitch. Agora, o regente prendeu no nariz um
pincenê visivelmente desnecessário, já que faltava uma das lentes
e a outra estava rachada. Com isso, o cidadão de xadrez tornou-se
ainda mais torpe do que no momento em que indicou a Berlioz o caminho
para os trilhos.
Com o coração gelado, Ivan
aproximou-se do professor e, encarando-o bem de perto, convenceu-se
de que ali não havia nem houvera nenhum sinal de loucura.
— Confesse, quem é o senhor? —
perguntou Ivan, inaudível.
O estrangeiro franziu o cenho, lançou
um olhar como se estivesse vendo o poeta pela primeira vez e
respondeu com antipatia:
— Não entender... não falar
russo...
— Ele não entende! —
intrometeu-se o regente que estava sentado no banco, apesar de
ninguém ter lhe pedido para explicar as palavras do estrangeiro.
— Não finja! — disse Ivan
ameaçadoramente, e sentiu um frio na barriga. — Agora mesmo estava
falando russo perfeitamente. O senhor não é alemão e muito menos
professor! O senhor é um assassino e espião! Seus documentos! —
gritou Ivan furioso.
O enigmático professor entortou a
boca, que já era torta, com aversão, e deu de ombros.
— Cidadão! — de novo
intrometeu-se o abominável regente. — Por que é que o senhor está
incomodando o turista estrangeiro? Será severamente castigado por
isso! — E o suspeito professor fez cara de soberba, deu as costas
para Ivan e foi embora.
Ivan sentiu que estava confuso.
Sufocando, dirigiu-se para o regente:
— Ei, cidadão, ajude-me a prender o
criminoso! É sua obrigação!
Extremamente animado, o regente saltou
e vociferou:
— Que criminoso? Onde ele está? Um
criminoso estrangeiro? — Seus olhinhos faiscaram, radiantes. —
Este? Se ele for criminoso, em primeiro lugar deve-se gritar
“Socorro!”, senão ele vai embora. Então, vamos, juntos! De uma
vez! — nesse instante o falso regente escancarou a goela.
Perplexo, Ivan obedeceu ao regente
espertalhão e gritou “Socorro!”, mas este o enganou e nada
gritou.
O grito solitário e rouco de Ivan não
trouxe bons resultados. Duas moças se afastaram dele bruscamente,
saltando para o lado, e ele ouviu a palavra “bêbado”.
— Ah, então é isso, vocês estão
mancomunados! — gritou Ivan, afundando em ira. — O que há com
você, está me ridicularizando? Deixe-me em paz!
Ivan inclinou-se para a direita, e o
regente também foi para a direita. Ivan foi para a esquerda, e o
desgraçado o seguiu para o mesmo lado.
— Está no meu pé de propósito? —
gritou Ivan, virando bicho. — Eu mesmo vou entregar você à
polícia!
Ivan fez uma tentativa de agarrar o
canalha pela manga, mas errou o alvo e não pegou absolutamente nada.
O regente sumiu como que por encanto.
Ivan ficou boquiaberto, olhou para
longe e avistou o odioso desconhecido. Ele já estava na saída para
a travessa Patriarchi, e não estava só. O mais do que duvidoso
regente tinha conseguido se juntar a ele. Mas isso não era tudo: o
terceiro desse bando era um gato, enorme como um porco castrado,
preto como fuligem ou como uma gralha, que surgiu sabe-se lá de
onde, com arrojados bigodes de cavalaria. A troica marchava na
travessa Patriarchi e mais: o gato se movimentava nas duas patas
traseiras.
Ivan precipitou-se atrás dos
miseráveis e, no mesmo instante, convenceu-se de que seria muito
difícil alcançá-los.
Num átimo, a troica cruzou a travessa
e apareceu na Spiridônovka. Por mais que Ivan acelerasse o passo,
não diminuía em nada a distância entre ele e os perseguidos. E,
antes que o poeta pudesse cair em si, logo depois da silenciosa
Spiridônovka, já se encontrava em Nikítskie Vorotá, onde sua
situação se agravou. Ali havia uma multidão, Ivan esbarrou em um
transeunte, foi xingado. Ainda por cima, a quadrilha de facínoras
resolveu aplicar o método preferido dos bandidos: separar-se durante
a fuga.
Com muita astúcia, o regente pegou um
ônibus em movimento, que voava para a praça Arbat, e desapareceu.
Depois de perder de vista um dos perseguidos, Ivan concentrou sua
atenção no gato e viu como esse estranho animal aproximou-se do
estribo do bonde “A”, parado em um ponto. Afugentou de forma
insolente uma mulher que gritava, agarrou-se ao corrimão e fez até
mesmo uma tentativa de enfiar uma moeda de dez copeques na mão da
condutora pela janela aberta.
O comportamento do gato impressionou
tanto Ivan que ele ficou paralisado perto da mercearia da esquina. E
se impressionou ainda mais com a reação da condutora. A mulher,
assim que avistou o gato se metendo no bonde, gritou com uma
perversidade que a fazia até mesmo tremer:
— Proibido para gatos! Proibido
entrar com gatos! Chispa! Desça, senão vou chamar a polícia!
Nem a condutora nem os passageiros
ficaram impressionados com o ponto crucial da questão: o fato de que
um gato estivesse subindo num bonde não era nada, mas sim que ele
tivesse a intenção de pagar a passagem!
O gato revelou não só ter dinheiro,
mas também ser um animal disciplinado. Ao primeiro grito da
condutora, ele cessou a ofensiva, desceu do estribo, sentou-se no
ponto e pôs-se a alisar os bigodes com a moeda. Mas, assim que a
condutora puxou a corda e o bonde arrancou, o gato agiu como qualquer
outra pessoa que era expulsa do bonde, mas tinha de fazer a viagem de
qualquer jeito. Depois de deixar passar na sua frente todos os três
vagões, o gato saltou no aro traseiro do último, agarrou-se com a
pata num cano que saía de uma das janelas e deu o fora,
economizando, assim, dez copeques.
Ocupado com o gato asqueroso, Ivan
quase perdeu o principal dos três, o professor. Mas, felizmente, ele
não havia conseguido escapar. Ivan avistou a boina cinza bem no
meio, no início da rua Bolcháia Nikítskaia, ou rua Hertzen. Num
abrir e fechar de olhos, o próprio Ivan estava lá. No entanto, não
teve sorte. O poeta apressava o passo, corria a trote, empurrando os
transeuntes, mas não se aproximava um centímetro sequer do
professor.
Por mais que Ivan estivesse
transtornado, mesmo assim ficava impressionado com a velocidade
sobrenatural com a qual a perseguição transcorria. Não haviam
passado nem vinte segundos após deixar Nikítskie Vorotá, e Ivan
Nikoláievitch já era ofuscado pelas luzes da praça Arbat. Mais
alguns segundos, e lá estava uma travessa escura com calçadas
tortuosas, onde Ivan Nikoláievitch levou um tombo e arrebentou o
joelho. De novo uma via iluminada — a rua Kropôtkin, depois uma
travessa, depois a Ostôjenka e mais uma travessa desalentada,
nojenta e mal iluminada. E foi ali que Ivan Nikoláievitch perdeu
definitivamente aquele de quem tanto precisava. O professor
desaparecera.
Ivan Nikoláievitch ficou perturbado,
mas por pouco tempo, pois de repente percebeu que o professor deveria
estar, sem dúvida, no edifício n° 13, com certeza no apartamento
47.
Ivan Nikoláievitch irrompeu na
entrada, voou para o segundo andar, sem demora encontrou o
apartamento e tocou a campainha, impaciente. Não precisou esperar
muito: uma menina de uns cinco anos abriu-lhe a porta e, sem
perguntar nada ao visitante, foi embora para algum lugar, sem demora.
A entrada, enorme e extremamente
negligenciada, estava fracamente iluminada por uma lâmpada
minúscula, sob um teto alto, negro de sujeira. Na parede havia uma
bicicleta sem rodas pendurada, além de um enorme baú revestido de
ferro e, em uma prateleira, em cima do cabideiro, um chapéu de
inverno com seus longos tapa-orelhas pendentes. Por trás de uma das
portas, uma voz masculina altissonante gritava algo em versos pelo
rádio, enfurecida.
Ivan Nikoláievitch não ficou nem um
pouco perplexo de estar naquele ambiente desconhecido e precipitou-se
direto para o corredor, raciocinando: “É claro que ele se escondeu
no banheiro.” O corredor estava escuro. Trombando na parede algumas
vezes, Ivan avistou um feixe fraquinho de luz debaixo de uma porta,
encontrou a maçaneta às apalpadelas e a puxou de leve. O trinco
saltou e Ivan se viu exatamente no banheiro, pensando que havia tido
sorte.
No entanto, a sorte não foi bem a que
deveria ser! Um cheiro de calor úmido soprou na cara de Ivan e, sob
a luz do carvão que ardia no aquecedor, ele discerniu grandes bacias
penduradas na parede e uma banheira, toda coberta de terríveis
manchas negras de esmalte descascado. Muito bem, nessa banheira havia
uma cidadã nua, toda ensaboada e com uma esponja nas mãos. Ela
apertou os olhos, míope, para o recém-chegado Ivan e, pelo visto,
confundindo-se por causa da iluminação infernal, disse baixinho e
alegre:
— Kiriúcha! Chega de tagarelar! O
que há com você, ficou maluco? Fiódor Ivánovitch voltará já,
já. Saia já daqui! — E sacudiu a esponja em direção a Ivan.
Estávamos diante de um mal-entendido
e o culpado era, é claro, Ivan Nikoláievitch. Mas, sem querer
reconhecer isso, ele exclamou em tom de censura: “Ah, sua
pervertida!...” — e na mesma hora foi parar na cozinha, sabe-se
lá para quê. Lá não havia ninguém, e sobre o fogão havia quase
uma dezena de fogareiros portáteis apagados, mudos, sob a penumbra.
Um único raio de lua penetrou através da janela empoeirada, que não
era limpa havia anos, e iluminou parcamente aquele canto onde, no
meio da poeira e de uma teia de aranha, estava pendurado um ícone
esquecido, as pontas de duas velas nupciais assomando atrás de seu
caixilho. Debaixo do ícone grande, preso por alfinetes, estava
pendurado outro menor, de papel.
Ninguém sabe qual foi o pensamento
que dominou Ivan naquele instante, mas só que, antes de sair
correndo para a porta dos fundos, ele se apoderou de uma das velas e
também do ícone de papel. Com esses objetos, ele deixou o
apartamento desconhecido, balbuciando algo, confuso com pensamentos
sobre o que tinha acabado de presenciar no banheiro, tentando
adivinhar involuntariamente quem era esse insolente Kiriúcha e se o
repugnante chapéu com tapa-orelhas não lhe pertencia.
Na travessa deserta e desolada o poeta
olhou ao redor, procurando o fugitivo, mas este não estava em lugar
algum. Então, Ivan disse para si mesmo com firmeza:
— Mas é claro, ele está no rio
Moscou! Avante!
Seria bom, pelo visto, perguntar a
Ivan Nikoláievitch por que ele supunha que o professor estava
exatamente no rio Moscou, e não em qualquer outro lugar. Mas o
problema era esse, não havia ninguém para perguntar. A travessa
repulsiva estava completamente vazia.
Após um curtíssimo espaço de tempo,
podia-se avistar Ivan Nikoláievitch nos degraus de granito do
anfiteatro do rio Moscou.
Ivan tirou a roupa e confiou-a a um
simpático barbudo, que fumava um cigarro enrolado a mão, de camisa
típica branca rasgada e botinas gastas, desamarradas. Batendo os
braços, para se aquecer, Ivan deu um salto de anjo. Ficou sem fôlego
porque a água estava gelada e até chegou a pensar que pelo visto
não conseguiria voltar à superfície. No entanto, conseguiu emergir
e, resfolegando, bufando, com os olhos arregalados de terror, Ivan
Nikoláievitch começou a nadar na água negra que cheirava a
petróleo, entre os zigue-zagues entrecortados dos postes de
iluminação das margens.
Quando o encharcado Ivan, pulando os
degraus, chegou ao local em que deixara suas roupas sob os cuidados
do barbudo, descobriu que não só elas haviam sido roubadas, mas
também ele, ou seja, o próprio barbudo. Naquele exato local onde
deixara o amontoado de roupas, restavam ceroulas listradas, a camisa
rasgada, a vela, o pequeno ícone e uma caixa de fósforos. Ameaçando
alguém ao longe com os punhos cerrados numa perversidade desastrada,
Ivan se enrolou no que restava.
Então, duas considerações
despertaram sua preocupação: a primeira era o desaparecimento da
carteirinha da Massolit, da qual ele nunca se separava, e a segunda,
será que ele conseguiria atravessar Moscou naqueles trajes? Afinal,
estava de ceroulas... Na verdade, ninguém tinha nada a ver com isso,
mas melhor não dar motivo para críticas ou embaraço.
Ivan arrancou os botões das ceroulas
que abotoavam no tornozelo, partindo da premissa de que, quem sabe,
daquele jeito poderiam passar por calças de verão, pegou o ícone,
a vela, os fósforos e começou a se mexer, dizendo para si mesmo:
— Para Griboiêdov! Sem dúvida
alguma, ele está lá.
A cidade já vivia a vida noturna.
Caminhões passavam voando, tilintando correntes, em meio à poeira,
e em suas caçambas alguns homens estavam deitados sobre sacos,
estirados com as barrigas para cima. Todas as janelas estavam
abertas. Em cada uma delas ardia uma luzinha sob um abajur laranja, e
de todas as janelas, de todas as portas, de todas as entradas, dos
telhados e sótãos, dos porões e pátios escapava o rouco lamento
da polonesa da ópera Ievguêni Oniêguin.
Os temores de Ivan Nikoláievitch se
concretizaram por completo: os transeuntes prestavam atenção nele e
riam, virando-se. Em função disso, ele resolveu deixar as ruas
largas e caminhar pelas travessas, onde as pessoas não eram tão
indiscretas, e havia menos chance de repararem em um homem descalço,
cobrindo-o de perguntas sobre as ceroulas, que obstinadamente não
desejavam ficar parecidas com calças.
E foi isso que Ivan fez. Aprofundou-se
na rede misteriosa de travessas da Arbat e começou a caminhar perto
dos muros, olhando assustado ao redor, de soslaio, virando-se a cada
minuto, escondendo-se vez ou outra nas entradas dos prédios e
fugindo dos cruzamentos com semáforos e das portas chiques das
mansões das embaixadas.
E durante todo esse seu difícil
caminho, sabe-se lá por quê, era indescritivelmente perturbado por
uma orquestra onipresente, que acompanhava o baixo pesaroso que
cantava sobre seu amor por Tatiana.
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida
Quem nunca
Ambiente de trabalho. Três
mulheres estão sentadas, cada uma em seu computador. Marta puxa
papo.
MARTA Gente, eu sou uma pessoa
péssima.
TELMA Eu te garanto que eu sou uma
pessoa pior que você.
MARTA Não é, não. Meu vizinho ficou
fazendo barulho de madrugada. Aí hoje eu acordei e liguei o som no
volume máximo. Falamansa: rararará mas eu tô rindo à toa. E vim
trabalhar. Deve estar rolando agora.
TATI Você é péssima!
MARTA Ué, qual é o problema? A lei
do silêncio só vai até as oito da manhã!
Elas riem.
TELMA Amiga, e eu que criei um perfil
falso só pra trollar a nova namorada do meu ex no Instagram.
MARTA Mentira!
TELMA Fico o dia inteiro lá: Feia.
Tornozelo grosso. Não vestiu bem. Seu cabelo tá seco.
MARTA Boa! Sua escrota.
TELMA Quem nunca?
Elas riem.
TATI E eu, que roubo?
MARTA Oi?
TATI E eu, que roubo coisas que eu não
preciso só pras pessoas não terem mais as coisas?
TELMA Você faz isso?
TATI Vai dizer que sou só eu? Agora
vai dizer que eu sou a única que roubo coisas de mendigos que estão
dormindo?
MARTA Você rouba de mendigo?
TELMA É a única coisa que eles têm!
JULIA Exatamente!
TATI Eles ficam desesperados!
MARTA Por isso é que não pode.
TATI Por isso é que tem graça!
O clima pesa.
MARTA Você é meio louca.
TATI Obrigada!
TELMA Não, louca ruim. Desculpa dizer
isso, mas você é uma pessoa ruim.
TATI Gente, agora lá vêm as
moralistas! Vão dizer que nunca roubaram o dinheiro da caixinha do
pessoal do almoxarifado?
TELMA Nunca.
TATI Tá bom. E da academia?
MARTA Não.
TATI Aquelas moças só guardam tua
bolsa. Pra que tanta caixinha? Aquilo é feito pra pessoa roubar!
TELMA Tati, é o dinheiro deles.
TATI Eles já ganham salário! Décimo
terceiro, FGTS, a porra toda. Caixinha é pra quê? Pra roubar.
MARTA Isso é muito errado, Tati.
TATI Gente, se envolver com a milícia
e pedir pra matar uma pessoa que falou mal de você na internet
também é errado e todo o mundo faz.
TELMA Você fez isso?
MARTA Você é uma pessoa podre.
TATI Uou. Desculpa! Não sabia que eu
estava lidando com a Comissão de Ética! Desculpa, Joaquim Barbosa!
MARTA Tati, tudo tem limites.
TATI A que ponto chegou essa patrulha
do politicamente correto? Os Trapalhões faziam piada de preto! Hoje
em dia você bate numa velha e toca uma sirene.
TELMA Você bate em velha?
TATI Gente, amiga não julga.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
A morte do pai II
Minha mãe morrera um ano antes. Uma
semana após a morte de meu pai, eu estava na casa dele, sozinho. Era
em Arcadia, e o mais perto que eu chegara daquela casa em algum tempo
fora ao passar pela autoestrada a caminho de Santa Anita.
Eu era desconhecido para os vizinhos.
O funeral acabara, e eu me dirigi à pia, enchi um copo d’água,
bebi-o, depois saí.
Sem saber que outra coisa fazer,
peguei a mangueira, abri a água e comecei a aguar os arbustos.
Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente.
Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro
lado da rua.
– Você é Henry? – ela me
perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
– Conhecíamos seu pai há anos.
Aí o marido aproximou-se.
– Conhecemos sua mãe também –
ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
– Não querem entrar? – perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie
Miller, e entramos em casa.
– Você é a cara do seu pai.
– É, é o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para
os outros.
– Oh – disse a mulher –, ele
tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
– É, gostava, né?
– Eu adoro aquele quadro do moinho
no pôr do sol.
– Pode ficar com ele.
– Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons.
Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante
anos.
– Você é a cara do seu pai –
disse a Sra. Gibson.
– Henry nos deu o quadro do moinho.
– Isso é ótimo. Eu adoro
aquele quadro do cavalo azul.
– Pode ficar com ele, Sra. Gibson.
– Oh, não está falando sério.
– Sim, está tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro
casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a
cabeça.
– Eu sou Doug Hudson. Minha esposa
está no cabeleireiro.
– Entre, Sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares.
Começaram a circular pela casa.
– Vai vender a casa?
– Acho que vou.
– É um bairro adorável.
– Estou vendo.
– Oh, eu adoro aquela
moldura, mas não gosto do quadro.
– Leve a moldura.
– Mas que vou fazer com o quadro?
– Jogue no lixo. – Olhei em volta.
– Se alguém vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam
nuas.
– Você precisa dessas cadeiras?
– Não, na verdade, não.
Passantes entravam da rua, e nem todos
se davam o trabalho de apresentar-se.
– E o sofá? – perguntou alguém
em voz muito alta. – Você quer?
– Não quero o sofá – eu disse.
Levaram o sofá, depois a mesa do café
da manhã e as cadeiras.
– Tem uma torradeira aí, não tem,
Henry?
Levaram a torradeira.
– Não precisa dos pratos, precisa?
– Não.
– E a prataria?
– Não.
– E a chaleira e o liquidificador?
– Levem.
Uma das senhoras abriu um armário na
varanda dos fundos.
– E todas essas frutas em conserva?
Você jamais vai poder comer tudo isso.
– Tudo bem, peguem todos um pouco.
Mas tentem dividir igualmente.
– Oh, eu quero os morangos!
– Oh, eu quero os figos!
– Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saíam e voltavam, trazendo
outras consigo.
– Escuta, tem uma garrafa de uísque
aqui no armário! Você bebe, Henry?
– Deixe o uísque.
A casa estava ficando lotada. A
descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e
quebrou-o.
– É melhor ficar com esse
aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
– Tudo bem, vou ficar.
– Ele tinha umas ferramentas de
jardinagem na garagem. E elas?
– Não, é melhor eu ficar com
essas.
– Dou quinze dólares pelas
ferramentas de jardinagem.
– Tudo bem.
Ele me deu quinze dólares e eu lhe
dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador
de grama para sua casa no outro lado da rua.
– Você não devia ter vendido todo
aquele equipamento a ele por quinze dólares, Henry. Valia muito
mais.
Não respondi.
– E o carro? Já tem quatro anos.
– Acho que vou ficar com o carro.
– Dou cinquenta dólares por ele.
– Acho que vou ficar com o carro.
Alguém enrolou o tapete da sala da
frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve
restavam apenas três ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a
mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogão, e um rolo de
papel higiênico.
Saí e fechei a porta da garagem. Dois
meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da
garagem.
– Está vendo aquele cara?
– Estou.
– O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a
mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.
Charles Bukowski, em Numa Fria
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Capítulo 52 — O Embrulho Misterioso
Foi o caso que, alguns dias depois,
indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não
digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não
grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo,
uma coisa que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé,
assim por experiência, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os
olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos
brincavam, — um pescador curava as redes ainda mais longe, —
ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o
embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser
uma pulha de rapazes. Tive ideia de devolver o achado à praia, mas
apalpei-o e rejeitei a ideia. Um pouco adiante, desandei o caminho e
guiei para casa.
— Vejamos, disse eu ao entrar no
gabinete.
E hesitei um instante, creio que por
vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. E certo que não
havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim
mesmo um garoto, que havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear,
apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e
achar dentro uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas
verdes. Era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a
do leitor; desfiz o embrulho, e vi… achei... contei... recontei
nada menos de cinco contos de réis.
Nada menos. Talvez uns dez mil-réis
mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo asseadinho e
arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar
pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos.
Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e concluí que
não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro,
e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos,
— eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquilo fui de
noite à casa do Lobo Neves, que instara muito comigo não deixasse
de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de
polícia; fui-lhe apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia
dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso.
Virgília pareceu saborear o meu
procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota
análoga, que eu ouvi com impaciência de mulher histérica.
De noite, no dia seguinte, em toda
aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até
confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária.
Gostava de falar de todas as coisas, menos de dinheiro, e
principalmente de dinheiro achado; todavia não era crime achar
dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da
Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco
contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com
trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos
de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim
tolamente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia
ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o
caráter de um homem.
Era um achado, um acerto feliz, como a
sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo
honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu
não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.
— Estes cinco contos, dizia eu
comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação
boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim...
hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do
Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da
meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do
meu conhecimento; respondi enfadado que a coisa não valia a pena de
tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia — e porque eu me
encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Folhinha
A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da
terra.
Muitas coisas me valem quando Deus
fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a
enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
— nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha
garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na
folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA
AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Definições
O teste é o chopinho. O chopinho é
definitivo. Quem sentaria aqui com a gente pra tomar um chopinho,
quem não sentaria. Vale para todas as épocas, todos os povos, todas
as categorias.
— Por exemplo?
— Revolução Francesa. Danton
sentaria para tomar um chopinho.
— Robespierre, nem pensar.
— Exato.
— Lenin sentaria?
— Nunca. Já o Trotski, sim.
— E o Stalin?
— Sentaria, mas ficaria um clima
ruim.
— De Gaulle, não.
— Churchill sim.
— Hitler?
— Hmmm, os alemães são um
problema. Em tese, nenhum alemão recusa um chope, e todos tomam com
o mesmo gosto. Seja Bismark, Goethe, Nietzsche, Marx ou Marlene
Dietrich.
— Com alemão, então, o chopinho
não prova nada.
— O chopinho sozinho, não. É
preciso acrescentar outro elemento definidor. Outro teste de
tolerância, bom humor e simpatia.
— Qual?
— O bolinho de bacalhau.
— No carnaval, sou Salgueiro.
— Certo.
— No futebol, Botafogo.
— Sim. Continue.
— Como, continue?
— Água mineral. Com ou sem gás?
— Com.
— No cafezinho: açúcar ou
adoçante?
— Adoçante.
— Prossiga.
— Bom. Deixa ver. Heterossexual.
Destro. Não fumante. Prefiro o inverno ao verão... Que mais?
— Acende o fósforo para lá ou para
cá?
— Nunca notei. Acho que para lá.
— Abotoa a camisa de cima para baixo
ou de baixo para cima?
— De cima para... Não. De baixo
para cima. Não! Não sei.
— Como, não sabe? É a hora das
definições. Melhor Papa.
— Melhor Papa?! Sei lá. João Vinte
e Três.
— Melhor Robin Hood.
— Errol Flynn, disparado.
— Gil ou Caetano?
— Os dois.
— Não pode. Tem que ser um ou
outro.
— Por quê? Eu não estou preparado.
Preciso pensar!
— Foi você que começou. Freud ou
Jung? Bach ou Mozart? Sautées, cozidas ou fritas?
— Espere, eu...
— Com fivela ou sem fivela? Rápido!
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
Adulto
Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que ganha.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Sétimo capítulo — Mãos sonhando mulheres
A chuva timbilava no tecto do
machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele
tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo
que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
— Charra, faz frio. Agora, nem se
pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a
ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a
tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio,
sinal de bons tempos batendo à porta do destino.
— Te falta é uma mulher, disse o
velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser
bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram
tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é
esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a
pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não
pomos nunca o coração. E prossegue:
— Você, miúdo, não conhece meu
caso com Jorogina?
Então, o velho relata seu encontro
com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia
burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas,
adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que
Deus lhes confiou.
— Me enganei dessa mulher,
Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos
arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho
se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a
lembrança.
— Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo
dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o
miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando
a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras
iniciações.
— Espera, miúdo. Deixa eu sentar
perto.
Se arruma na beira no assento de
Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai
desapertando a breguilha.
— Agora pensa nas meninas.
— Tio! Não faça isso...
— Não experimenta me negar,
ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.
— Mas, tio: assim eu não
consigo...
— É por causa você está pensar
só com a cabeça. Pensa com todo corpo!
— Não vai dar, tio.
— Com certeza você está pensar
Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é
lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as
próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma
casca.
— Não é questão de pele, nem
tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.
— É motivo da pele, eu sei. Você
já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a
mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só
de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz,
eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados.
Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com
a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu
perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre
disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio.
Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
— Mas nós bebemos, tio?
— Isso é bebida que estava
dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a
urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito.
Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter
líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da
explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se
inquieta:
— Não é perigoso barulharmos
assim?
— Se rir muito alto você afasta
os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já
não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.
— Ria, miúdo. Rindo as alegrias
acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as
danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.
— Você tem razão, miúdo: cada
vez vamos chamar atenções.
Ficam por um enquanto a respirar
tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por
que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê
o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido,
mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
— Aprendi tudo de novidade:
andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não
esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado.
Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo
tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo
fosse retirado da cabeça dele.
— Pedi isso por causa é melhor
não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a
doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse
peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de
Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses
impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia,
estoriazinha que se conta para fazer de conta.
— Sabe, miúdo, o que vamos
fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
— Mas ler agora, com esse escuro?
— Acendes o fogo lá fora.
— Mas, com a chuva, a lenha toda
se molhou.
— Então vamos acender o fogo
dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
— Podemos, tio? Não há
problema?
— Problema é deixar este escuro
entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então
vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula
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