111.
Todo o homem de hoje, em quem a
estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de
charro, ama, quando ama, com o amor romântico.
O amor romântico é um produto
extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto
quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu
desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba
comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação
fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o
espírito ache que lhes cabe.
Mas todo o traje, como não é eterno,
dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que
formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em
quem o vestimos.
O amor romântico, portanto, é um
caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite
desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer
constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que
constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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