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11/09/2026

Coração sem medo


3

“Dona Rita!”
Rita Preta se vira para identificar quem a chamara enquanto retirava o cadeado do portão. Ela reconhece a moça, que exibe a indiferença dos adolescentes. Pela primeira vez olha de frente para Daiane. Talvez já a tenha visto circulando pelo bairro com outras garotas, com Cid. Tinha traços quase infantis, como se tivesse acabado de chegar à adolescência.
“Minha mãe me contou que a senhora esteve lá em casa procurando por mim.”
Rita Preta segura o cadeado, deixa o portão entreaberto. Confirma que tinha ido atrás de informações. Cid não havia passado a noite em casa, por isso ela a procurou, mas a mãe lhe informou que ela estava dormindo.
“Eu não estava dormindo”, revelou sem nenhum constrangimento por desmentir a mãe, “estava acordada, mas minha mãe brigou comigo e me proibiu de falar com qualquer pessoa.” Daiane conta que esteve na casa de Rita querendo notícias de Cid, mas a encontrou fechada.
“Ele esteve com você?”
“Não. Sim.” Daiane responde, tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que tinha a dizer. Ele havia combinado de passar em sua casa.
Antes que consiga concluir a frase, Rita pergunta outra vez se ele tinha ido ao encontro da moça.
“Foi”, a garota responde, acrescentando que a mãe dissera que ela não estava. Cid foi embora e a garota continuou sem conseguir falar com ele. Ligou para o celular e as chamadas caíram todas na caixa postal. Continuou sem informar se eles flertavam ou namoravam. Manteve-se evasiva quanto ao relacionamento que tinham. “Minha mãe não quer que eu namore de jeito nenhum.”
No entanto, ela estava na casa de Rita movida pela mesma intenção que levou aquela mãe à sua: queria encontrar Cid.
O coração de Rita Preta se acelera. Uma corrente elétrica percorre seu corpo, da planta dos pés ao couro cabeludo. Ela termina de abrir o portão, convida a garota para entrar. Daiane recusa. A mãe não quer que ela entre na casa de estranhos. Rita, impaciente, percorre os poucos cômodos, abre a porta estreita do quintal, chama pelos filhos, um a um pelo nome. Somente Juca aparece.
“Seu irmão?”, pergunta, se referindo a Cid.
O menino faz sinal de que não, não tem notícias do irmão. Depois ele retorna à televisão para assistir a uma animação japonesa. Rita volta para o portão e responde. Agora são duas à procura de um rapaz, ambas contendo a frustração derivada da longa espera. Rita aproveita para perguntar se Daiane faz ideia de onde ele possa estar.
“Não”, responde, “mas se a senhora souber de algo, pede para ele falar comigo.”
Rita percebe uma verdadeira preocupação no semblante da jovem. Elas não se despedem. Enquanto Rita fecha o portão e fica pensando por onde deveria começar, Cainho atravessa a passagem, vindo para a casa. Pergunta se a mãe tem alguma notícia. Mais um dia, ele nunca ficou fora de casa por tanto tempo. Rita Preta pede a Cainho que tente ligar outra vez para o irmão.
Depois, sai em direção à casa de Fátima.
Fátima retirava as roupas penduradas num varal improvisado no pátio externo. Havia acabado de chegar, nem tinha tido tempo de abrir a casa.
“O menino sumiu”, Rita Preta dispara num tom de inquietação.
Ela deixa a vizinha a par de tudo o que fizera nas últimas horas: fala da briga que tiveram, das horas sem dormir, da descoberta da namorada, da falta de informação, do telefone que está desligado, das chamadas encaminhadas para a caixa postal, da cama intacta. Do silêncio crescente que promete enlouquecê-la.
“Não deve ter ido muito longe”, Fátima pondera. “Quando a fome apertar, ele volta correndo.”
“Eu preciso avisar à polícia sobre o desaparecimento.”
“É necessário?”, Fátima pergunta.
Ele nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa.
Rita se aproximou de Fátima quando os filhos ainda eram pequenos, e um pouco antes de se mudarem para o endereço atual. Residiam na mesma comunidade, em ruas próximas, onde havia esgoto a céu aberto e as casas alagavam com frequência na estação das chuvas. Apesar disso, como o local era mais próximo do ponto de ônibus, o aluguel continuava a aumentar, tornando-se incompatível com o salário que recebiam. Fátima encontrou uma casa onde passou a morar, fez a mudança primeiro. Em seguida, indicou para Rita um imóvel perto do lugar em que vivia, com um valor mais acessível. As duas tinham muito em comum: eram trabalhadoras e mães solteiras: Rita, mãe de três filhos; Fátima, de dois, um homem e uma mulher. As duas trabalharam como empregadas domésticas; Rita deixou a função, mas Fátima continua trabalhando para a mesma família. Com o passar dos anos, a amizade se firmou, e Fátima se tornou a pessoa mais próxima de Rita, com quem ela compartilha os altos e baixos vividos em seus relacionamentos. Foi a amiga que a ajudou a elaborar o plano para tirar o pai de Juca de casa. Da mesma maneira, Fátima dividiu com Rita as frustrações e humilhações passadas na casa onde trabalha. Compartilhavam também os problemas relacionados aos filhos, aos preços praticados pelas mercearias do bairro, às chuvas que transtornavam a vida de todos, aos vizinhos, às companhias de abastecimento de água e energia, ao tráfico e à polícia, que aparecia de tempos em tempos para espalhar o terror.
Fátima aconselha Rita Preta a esperar um pouco mais. Cid haveria de aparecer. Era jovem, estava magoado, quantos fugiam de casa depois de uma briga para assustar a família?, pergunta. Rita conta que pensa em telefonar para o pai dele. Reluta, é verdade, mas a gravidade do ocorrido a faria deixar de lado o próprio orgulho. Quem sabe ele não tinha ido procurá-lo para não ficar na rua? Ela sabia que o ex-marido não se interessava pelo filho. Nunca oferecera qualquer ajuda para atender a suas necessidades. Mas era possível que Cid tivesse procurado pelo pai e talvez estivesse com ele? Rita sabe que Evilásio se casou outra vez, que tem uma família.
Evilásio estranha a chamada telefônica da ex-mulher e, ciente da falta de cordialidade entre eles, ela vai direto ao assunto. Antes que terminasse de contar sobre o desaparecimento do filho, ele a interrompe para perguntar se o garoto estava implicado em algo errado, se estava usando drogas.
Rita considera a pergunta ofensiva. Não responde. Repete que o telefonema era para saber se Cid estava na casa do pai. O filho sabia onde ele morava — se é que ainda residia no mesmo lugar.
Evilásio então passa a acusar Rita de ser irresponsável e permissiva, por ter deixado o garoto se envolver com “coisas erradas”. Acusou-a de telefonar só para dizer que algo tinha dado errado; ele a interrompe antes que ela própria finalize o que gostaria de responder.
Rita está tomada pela raiva, mas decide ouvir o que Evilásio tem a dizer. Em seguida, desabafa: repete que ele, o pai, a abandonou antes que a criança completasse um ano. Que nunca se preocupou com o filho. Que durante quinze anos apareceu apenas três vezes: no primeiro ano após a separação, depois aos sete e finalmente quando o menino completou dez anos. Afirma que, se o filho cruzasse com ele na rua, não o reconheceria, assim como Evilásio também não o reconheceria. Grita, se revolta, cospe todos os xingamentos que estão engasgados.
Os filhos a observam, tentam descobrir com quem ela está falando, mas Rita está tão transtornada que nem percebe quando a ligação é interrompida.
Evilásio tinha desligado.
Rita diz que telefonou para saber se o filho estava lá, justifica para os outros.
Ela passa a mão pela cabeça, retira a faixa que segura o cabelo crespo e o mantém volumoso no topo. Dá alguns passos até a cozinha para depois voltar. Ordena aos dois que se vistam. Precisam acompanhá-la até a delegacia para registrar o desaparecimento do mais velho.
O mais novo desacredita que é hora de procurar ajuda. O do meio parece assustado com a palavra delegacia, com a palavra desaparecimento. Não compreendem muito bem a gravidade da situação. Rita também não explica que aquele era o protocolo. Apenas pega a bolsa de novo e repete que não quer voltar muito tarde para casa. Está determinada a encontrar Cid, mas também sabe que é preciso acordar cedo para trabalhar na manhã seguinte.
O relógio de registro de ponto não costuma perdoar os atrasos.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

06/09/2026

Correnteza




2

Cainho atravessa a porta do quarto para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem — olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta, estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho, Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”, Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa, sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.

Ele contra-argumenta dizendo que já fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará, pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol, muito cedo, já se exibe abrasador.

A casa onde a garota mora fica na base de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz, esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa, mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados, como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias do filho junto aos colegas.

Enquanto espera pela condução, sente na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros, ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar — andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente, ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”, ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”, Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos, um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo, para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia. “Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse, enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada, cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou, “então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra, ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele desaparecesse.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

02/09/2026

Correnteza


1

Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus enquanto outras se reúnem debaixo da cober­tura de concreto — cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino, Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao super­mercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.

O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo, sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem, devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.

Um pedaço de lona para nos pés de Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir, deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos, ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro. Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico, aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus filhos.

Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta anos.
Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefone­mas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.

Detergente para louça, sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico, com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando — ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor. Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro; cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa, ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta as queixas, discute de maneira acalo­rada em defesa do filho. Mas em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem, no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos, reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

10/02/2022

Rio de sangue | 14

Não pude mais conter a vontade de cavalgar pelos campos, de nadar pelos rios e deslizar sobre a terra com pés e corpo. Mirava a casa em ruína do outro lado da estrada, a parede onde esculpiram São Pedro com as chaves do céu, num dia, e noutro não mais existia, derrubada pela chuva que caía fina. Sentia saudade de um corpo se movimentando entre o povo nas noites de festa que já não existiam. Havia profundidade nos olhares, nas preces, nos encantados, índios, negros, brancos, santos católicos, caboclos das matas, chegando um após outro, e preenchendo o vazio dos campos da caatinga: sem deus, sem remédio, sem justiça, sem terra. Se esqueceram da encantada, seu nome talvez não seja mais lembrado, e a encantada vai se esquecendo de quem é, muito se aproxima a sua hora.
Deslizei para o leito de Bibiana como um sopro. Primeiro quis confortar sua dor, que crescia como a capoeira num campo abandonado. Adentrei seu fôlego para ocupar o vazio de seus olhos, para que a minha presença fosse tão intensa como se a envolvesse em abraços. Mas havia esquecido a energia de cavalgar um corpo, e como era bom estar de novo envolvida dos rios de sangue, da chama de um peito que pulsava vivo, dos olhos embotados, dos desejos e da liberdade. Levantei Bibiana da cama, andei de um lado a outro, ergui seus braços a cada volta que dava na sala, venerei com as pontas dos dedos cada fração da pele escura.
Caminhar pela casa no alto da madrugada se tornou pouco diante da vastidão do mundo e do que, juntas, poderíamos fazer. Cada mulher sabe a força da natureza que abriga na torrente que flui de sua vida. Deixei a casa para fazer o que mais gostava, para molhar meus pés na beira do rio. Levei Bibiana para caminhar no fundo da noite, ouvindo o pio da coruja, orvalhando seu corpo ao raiar do dia. Seus braços fortes estavam prontos para abater a caça. Enterrei a enxada num terreno acidentado para fazer o fojo. Arranquei um torrão de terra. Na escuridão os olhos eram dois faróis iluminando o horizonte. Bibiana havia sido levada para um dos muitos cantos de Água Negra e seu corpo guardava a voragem dos sobreviventes. A cada golpe soprava um mal que havia visto. Uma mulher que matou seu filho para que não fosse escravo. Um homem ofendido e pendurado num galho de jatobá. Cada golpe levantava uma grande quantidade de terra úmida da margem do rio. Outro golpe. Outro. A terra feito areia atravessa o espaço, volta ao rio, soterra um arbusto de melão-do-mato.
A cada noite atravesso os caminhos, vejo a ruína da casa em que reinavam os encantados. Deslizo, como uma semente encontrando a terra arada, para o corpo de Bibiana. Retomo seu fôlego. Retorno ao mesmo lugar onde vai surgindo um fojo. O lugar mais escuro de nossas noites. A enxada desce sobre a cova, que ganha contornos definidos. A terra pode ser uma armadilha. Vamos caçar um animal feroz que anda à solta, apavorando a gente de Água Negra. A onça que sua avó via, só ela via, e por isso pedia para terem cuidado. A onça era uma lembrança daquele passado tão distante e havia retornado para amedrontar os moradores. Não era a onça que havia protegido seu pai louco no meio da mata. A onça que passamos a caçar havia derramado sangue e estava disposta a rasgar a carne de mais gente, até conseguir o que queria.
São tantas noites cavando a terra para o fojo que as mãos de Bibiana estão laceradas. Quando deixo seu corpo pela manhã, ela cuida das palmas dormentes e castigadas com bolhas e feridas surgidas de nossa guerra.
Então, num dia qualquer, atravessei o terreiro e cheguei a Belonísia. Estava sozinha como Miúda. Selvagem, conhecia a terra como ninguém. Me uni ao seu corpo para vagar pela terra, para correr os marimbus, atravessar cercas, pelos rios, por casas e árvores mortas. Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força de seu corpo. A mulher que sentiu as dores do parto e deitou em silêncio, mordendo os lábios para parir mais um filho. A que enterrou dois maridos, e só não enterrou o último por que o sangrou como se sangra uma caça. Foi cavalgando seu corpo que senti que o passado nunca nos abandona. Belonísia era a fúria que havia cruzado o tempo. Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada. Gente que atravessou tudo suportando a crueldade que lhes foi imposta.
Foi na manhã fria, antes que o povo seguisse agasalhado para o trabalho, que seu corpo ardeu como uma labareda. Sabia que a onça fazia sua ronda pela estrada. Mas e se alguém a desafiasse e provocasse para que ela adentrasse a mata? Para que caísse no fojo que construímos com nossas mãos e com as forças dos ancestrais? E a sangrasse para encontrar o sossego? Para afastar o medo que sua presença emanava? O som do machado que nunca existiu desceu sobre a madeira. O som de um arado arranhando a carne. Os sons que a boca de Belonísia não era capaz de reproduzir, mas que, naquele instante, soaram forte como um trovão.
Vejo pelo interior de seus olhos.
A onça caiu sobre a borda do fojo, sustentando o corpo com as garras para não ser lançada em definitivo para o buraco. Assustou-se com a armadilha escondida no meio da mata, coberta de taboa seca e palha de buriti. Há quem jure que capatazes usaram as mesmas armadilhas de caça para capturar escravos fugidos no passado. A onça caiu com as presas enterradas no chão. Retirou uma porção de terra da boca. Não, era uma armadilha tola para capturar uma caça. Mas, antes que levantasse, se abateu sobre seu pescoço um único golpe carregado de uma emoção violenta, que até então desconhecia.
Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

04/02/2022

Rio de sangue | 13

Um grão de milho deslizou da mão de Belonísia para o solo arado. Com os próprios pés recobriu a semente, afofando com a necessária delicadeza para que o movimento do mundo se encarregasse do resto. É um campo maior que o do último plantio. Seus pés estavam de novo sobre a várzea do rio Utinga, moldando a terra escura e úmida nutrida pela cheia. As águas caíram generosas nas últimas semanas, recobriram todos os cantos e convidavam os moradores para cultivar suas roças com o que pudessem plantar. Havia peixes nas poças d’água ao longo das áreas que antes estavam secas. Outro grão de milho deixou sua mão para deitar a terra, formando uma trilha subterrânea de sementes douradas.
Há muitos anos, sentiu seu corpo vibrar como a terra úmida daquele campo. Vivendo entre as mulheres jovens da fazenda, era como se sua sina de ser mãe estivesse também sendo traçada. Mas, como a chuva, esse desejo foi abandonando seu corpo sem explicação aparente. E, depois dessa experiência, a cada vez que se entregava à semeadura conseguia sentir a natureza vibrando, como no passado. Quando estava sozinha e sabia que não a observariam com estranheza pelo seu ato, deitava no chão, como viu seu pai fazer inúmeras vezes. Tentava escutar os sons mais íntimos, dos lugares mais recônditos do interior da terra, para livrar o plantio da praga, para reparar as dificuldades e ajudar na colheita.
Fazia algum tempo que os moradores decidiram levantar suas casas com materiais duráveis. Aconteceu antes da morte de Salomão. Era um desejo antigo, sufocado pelos interditos. Queriam ter casas de alvenaria. Queriam moradas que não se desfizessem com o tempo e que demarcassem de forma duradoura a relação deles com Água Negra. Os filhos que trabalhavam fora passaram a enviar um pouco de dinheiro para as construções. Os mais velhos, que puderam se aposentar, começaram a comprar material à prestação na cidade. Chegavam na calada da noite com carregamentos em carrinhos de mão e carroças, para não chamar a atenção. O primeiro a assentar um tijolo foi o velho Saturnino, com a ajuda dos filhos e netos. Alguém passou pela frente da casa que estava sendo erguida e disse que faria o mesmo. Os gerentes passaram a reclamar, por ordem de Salomão, mas não adiantou. Aos poucos, a paisagem da fazenda foi se modificando como nunca antes havia ocorrido. Salu apenas disse para Zezé e Belonísia que queria levantar sua casa. Mas, se não tivesse dito, isso seria fácil de decifrar nas suas palavras soltas e nos bons gestos. Estava velha, queria ter sossego e não precisar se preocupar com o desgaste do barro. As chuvas eram esparsas, mas por vezes chegavam violentas, deixando avarias. Nunca teve nenhum bem e não abria mão de ter sua casa, era um sonho antigo que acalentou com seu marido. Queria uma com paredes caiadas e telhado de cerâmica. Nos finais de semanas, Zezé, Inácio e Belonísia foram erguendo a casa da família. Bibiana e Salu ajudavam, preparando o almoço. Havia um ar de recomeço naqueles dias, como recomeçavam seus trabalhos na roça depois da estiagem ou da cheia.
Talvez por entender que aquele movimento de desobediência ganhava contornos irrefreáveis, Salomão procurou a Justiça pedindo reintegração de posse de todas as áreas ocupadas da fazenda. A notícia foi recebida com comoção pelos moradores, que apenas imaginavam o que fariam se os tratores derrubassem suas casas e tivessem que se retirar da fazenda. Genivaldo foi o primeiro a falar mais alto, para que todos ouvissem, que ele não iria para a cidade “alisar passeio”. “Nasci nessa roça e só sei trabalhar com a mão na terra. Daqui não saio.” Sua decisão passou a ser encorajada. Reunidos com Bibiana, decidiram que se tivesse a ordem de um juiz – eles acreditavam que era possível pela influência que Salomão tinha entre os ilustres cidadãos da região –, deitariam no chão diante de suas casas para impedir os tratores de demolir. Que nenhuma família desampararia a mais próxima, independente das diferenças que guardavam no dia a dia. Juntos resistiriam até o fim.
Se prepararam para a guerra, como os coronéis fizeram no passado pelo controle dos garimpos. A diferença é que agora o conflito era pelo direito de morar. Mas a decisão da justiça parecia demorar a sair, e no meio da espera o homem apareceu morto. A suspeita de imediato recaiu sobre os moradores. Muitos foram conduzidos à delegacia. Até mesmo Bibiana foi levada, junto com o filho. Lá se recordou da morte do marido, que ainda não havia completado um ano. Questionaram sobre o papel dela na desordem que relatavam na fazenda. Disse que era professora, casada por muitos anos com um militante. Disse que era quilombola. Escutou que ninguém nunca havia falado sobre quilombo naquela região. “Mas a nossa história de sofrimento e luta diz que nós somos quilombolas”, disse, tranquila, diante do escrivão e do delegado.
Durante muito tempo, o temor de que iria surgir dentre eles um assassino perturbou suas vidas. Ao mesmo tempo, chegavam notícias de trabalhadores de outras fazendas de Salomão, relatando discórdias com empregados e vizinhos. Por onde ele havia passado deixou um rastro de descontentamento e desejo de revide. Isso só dificultou mais as investigações. O inquérito, depois de muitas oitivas e diligências, findou inconcluso.
Estela havia se mudado para a capital, mas continuava a administrar, de longe, as fazendas. Quem a conhecia dizia que havia enlouquecido. Via conspiração e tramas de vingança em todo o canto. Vivia sem sair de casa e impunha uma ordem de pavor aos filhos, com medo de que fossem alvos da mesma retaliação que vitimou o pai.
Meses depois, a notícia dos assassinatos trouxe funcionários de órgãos públicos, que ouviram moradores num processo de reintegração de posse. Aquela chegada foi celebrada com alívio. Tudo permanecia incerto, não havia prazos para a solução do problema, mas aquela movimentação indicava que a existência de Água Negra já era um fato. Não eram mais invisíveis, nem mesmo poderiam ser ignorados.
Em meio a todas as mudanças que chegavam, Inácio se preparou para deixar a casa da mãe. Iria estudar na cidade, se prepararia para os exames da universidade, queria ser professor. Queria participar de movimentos como o pai havia feito. Bibiana foi incentivadora da mudança, e em nenhum momento deixou transparecer o peso que a ausência do filho teria em seus dias. Tentava irradiar confiança. Diferente de Belonísia, que se quedou melancólica. A irmã amava os sobrinhos como filhos. Conviveu entre eles desde o retorno de Bibiana. O primeiro filho de Domingas estava a caminho, mas isso não a fazia cogitar se afastar de nenhum deles. Não queria ter que se separar de mais ninguém.
Imaginou que no dia da partida de Inácio teria que consolar Bibiana. Salu, as irmãs e as sobrinhas fizeram fila para abraçá-lo. Flora e Maria escreveram cartas dizendo que sentiriam saudade e que, se o irmão encontrasse trabalho, trouxesse presentes. Ana deu um desenho da família completa com o pai, Salu e os tios. Inácio abraçou cada uma, de forma mais detida a mãe, mas teve que enxugar as lágrimas de tia Belonísia. Pediu para que a madrinha não chorasse. Retornaria a cada final de ano. Guardaria tudo que ela havia lhe ensinado. Belonísia deu uma garrafa de mel e um terço com a imagem de Senhor dos Passos para que levasse consigo. Seria seu amuleto.
Mesmo muito depois de o carro ter deixado a fazenda e a família ter se recolhido aos seus afazeres, Belonísia permaneceu à porta mirando a estrada e tudo o mais que não podia ver de onde estava. Bibiana se levantou da mesa, onde iria iniciar a correção dos cadernos, e se dirigiu até a irmã. Envolveu-a por trás, enlaçando os braços em sua cintura, aninhando seu rosto entre o ombro e a orelha. Belonísia segurou suas mãos. Juntas fecharam os olhos e compartilharam a dádiva daquele instante. Entregaram-se àquele gesto por inteiro e experimentaram algo que poderiam chamar de perdão.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

29/01/2022

Rio de sangue | 12

Estela saiu desvairada pelo caminho que deixava a casa dos marimbus, como se corresse de um incêndio. Seus filhos choravam e foram amparados por Santa e a filha, que andavam pela mesma estrada carregando trouxas de roupa e peixes. O grito da mulher havia sido tão desesperador que mobilizou boa parte dos moradores das cercanias. Estava vestida com uma camisola branca feita de um tecido delicado e quase transparente. Era possível ver os mamilos de seus seios jovens, rijos, por trás do tecido, movimentando-se agitados ao sabor dos nervos abalados. Ninguém conseguia entender o que ela dizia e o choro das crianças havia se tornado mais nítido porque chamavam pela mãe. Chamavam para que retornasse ao seu lugar, que os amparasse. Os homens replicaram para as mulheres e a notícia correu de casa em casa e pela estrada, com a velocidade das más notícias. Salomão estava morto.
Salu se deslocou da curta distância de sua casa até a casa de Bibiana para relatar o que havia lhe chegado. A filha, que estava corrigindo os cadernos, continuou de cabeça baixa, mas depois retirou os óculos e pediu à mãe que sentasse. “A senhora está nervosa? Descanse um pouco, minha mãe”, serviu uma xícara de café e levou para a sala. “Ele tinha muitos inimigos, minha mãe”, disse retornando aos cadernos e baixando a cabeça novamente, “mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer”.
A mãe bebeu um gole do café, “tinha tanto lugar para acontecer, porque logo nesta fazenda, se ele tinha outras fazendas e vivia aqui e acolá?”. “Essas coisas não escolhem lugar, não, minha mãe, acontecem onde têm que acontecer.” Bibiana parecia falar no tom de voz conformado de uma viúva que ainda não havia completado seu primeiro ano de luto. “É bom que ela sinta na pele o que eu ainda sinto”, disse, sem olhar para a mãe.
O que é isso, Bibiana? Foi essa a educação que eu e seu pai lhe demos? Não se deseja mal a ninguém, por pior que possa lhe parecer.”
Deveriam ter queimado a casa com a mulher e as crianças dentro. Assim não haveria herdeiros para tentar retirar a gente daqui...”
Salu levantou de súbito e derrubou a cadeira na agitação. Bibiana ergueu a cabeça para olhar a mãe. Ainda teve tempo para dizer que poderia deixar a cadeira no chão, que ela mesma colocaria no lugar. A mãe, velha, que tanta dificuldade passou durante a vida, se sentiu indignada com a violência do desejo de sua filha. Desferiu um tapa no seu rosto. Aquela era a segunda vez que batia numa de suas filhas. Recordou da primeira vez, da surra em Belonísia por causa do beijo que Bibiana disse ter visto. Agora ela levava a mão à face que ardia do golpe. Seus olhos de imediato se encheram de lágrimas.
Não pensei nunca precisar fazer isso em você depois de velha, Bibiana, depois de você ter me dado netos. Mas não criei filhos para andarem pela terra fazendo o mal a ninguém. Não se deseja a morte de ninguém. Já não basta o que se abateu sobre esta casa? Você quer mais castigo sobre a gente?” Salu se dirigiu para a porta, enxugando com as costas das mãos as lágrimas que acabavam de deixar seus olhos. “Estou cansada, Bibiana. Essa não foi a vida que desejei, e temo pelos meus netos. Que mundo vamos deixar para eles?”, perguntou, enquanto ultrapassava o batente da porta.
Bibiana ficou de pé, mas não levantou a cadeira caída. Quando a mãe estava suficientemente longe, desabou num choro que só havia se permitido na noite em que o filho disse que cuidaria dela. Suas mãos doíam, feridas, e as deixou se agitarem no ar como se aquele movimento pudesse aliviar seu padecimento. Nem a notícia de que o homem que acreditava ser o mentor do crime contra Severo estava morto a deixou aliviada. A ausência que sentia parecia se dilatar à medida que o tempo passava. Continuava a abrir uma cova profunda em sua dor. A certeza mais difícil de constatar era que nada, nem mesmo a posse da terra, o traria de volta.
Belonísia, que havia saído antes de o sol nascer, retornou ao meio-dia. Trazia aipim, batata-doce e uma abóbora grande. Colocou tudo em cima da mesa da cozinha. Domingas, o marido e Zezé estavam na sala, sentados ao lado da mãe. Quando ouviu Salu dizer o que tinha ocorrido com Salomão, ficou parada por um tempo, mostrando-se surpresa com a notícia. Levantou o queixo para o irmão, interrogou com os movimentos dos lábios e das mãos, queria saber cada detalhe. Salomão havia aparecido quase degolado, caído numa vereda no meio da mata, mas não muito distante da margem do rio Santo Antônio. O cavalo que montava foi visto perto da casa de vidro, pastando as plantas que cresciam na beira dos marimbus. Disseram que, quando a mulher saiu e encontrou o cavalo perto de casa, achou estranho. Tião e Isidoro, que haviam saído para pescar, encontraram o corpo nesse lugar, na vereda, ao lado de uma cova grande. O grande mistério, sobre o qual discutiam no momento em que adentrou a casa: a cova. Uns disseram que surgiu do dia para a noite. Outros disseram que ela foi crescendo com o passar do tempo. Mas que não parecia feita por mãos de homem. Como se a terra estivesse cedendo, formando um poço largo e profundo.
Belonísia sentiu falta de Bibiana entre os irmãos e quis saber se ela já sabia. Sim, responderam. Salu estava amargurada pela reação de Bibiana, mas não quis contar a reação que ela teve. Sentia-se envergonhada pelo ódio da filha. Belonísia imaginou como deveria ter sido dolorido para a irmã ter que escutar tudo aquilo, enquanto procurava respostas para a morte do marido. Por isso, decidiu não procurá-la naquele instante.
Quando se afastou para desarrumar a sacola que havia deixado na cozinha, caiu dura e desacordada, como um pássaro abatido em pleno voo. No meio do alvoroço que se formou com o mal-estar súbito, o cunhado e o irmão a carregaram para o quarto de Salu. A mãe começou a rezar enquanto retirava o lenço que recobria o cabelo de Belonísia. Domingas descalçou a bota, e desabotoou a calça e a camisa de manga comprida sujas de terra. Ao despertar, ela não se lembrava de nada. Não se lembrava da morte de Salomão, nem como havia chegado ao quarto da mãe. Não recordava a exaustão do trabalho. Era como se este dia tivesse sumido de seu calendário. Agitou-se querendo levantar da cama. Salu pediu que continuasse deitada, precisava descansar. “Deve ter sido o calor”, disse a mãe, entregando-lhe um copo de água, “Se alimentou antes de sair, Belô?”, insistiu sem obter resposta, tentando descobrir a origem do mal-estar da filha. Belonísia parecia distante e cansada. Bebeu a metade do copo e tornou a deitar com os olhos fixos na palha do teto. Depois caiu num sono profundo e acordou apenas no dia seguinte.
No mesmo dia, vieram duas viaturas da polícia com investigadores. A fazenda ficou sitiada de homens armados colhendo depoimentos de todos os que haviam encontrado Salomão: dos que residiam pela estrada, embora ele tivesse sido encontrado numa área desabitada, de mata fechada. As chuvas dos últimos meses haviam sido regulares, o que contribuiu para que as folhas crescessem e sombreassem os caminhos. Lugares antes cercados de árvores secas e com boa visibilidade se tornaram mata fechada, onde os poucos habituados poderiam se perder com facilidade. As perguntas não cessavam. Queriam saber sobre possíveis ameaças que a vítima ou terceiros tivessem comentado com os subordinados, sobre desafetos entre os trabalhadores e Salomão, sobre movimentos suspeitos, carros, motocicletas, desconhecidos que tivessem passado pelas últimas semanas pela fazenda, que tivessem estudado seus hábitos. Suspeitos que sabiam qual a melhor hora para executar o crime. Os moradores de Água Negra começaram a se sentir desconfortáveis. Duvidavam que dentre eles alguém pudesse ter cometido aquela barbárie.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

23/01/2022

Rio de sangue | 11

Durante sua vida, desde o silêncio, você sentiu falta de poder cantar. Ainda muito pequena, nas noites de jarê, sentava na sala de casa, no colo de sua avó ou de sua mãe, e cantava o ponto de Santa Bárbara e do Velho Nagô. Ainda muito cedo seu canto se desfez. E você não conseguiu fazê-lo ecoar nem mesmo dentro de si. Quando pôde compreender o que lhe aconteceu, se perguntou: Por que sempre queremos as coisas que parecem estar mais distantes de nós?
Você andava atenta aos sons mais sutis. Conseguia saber quando o xanã estava fazendo seu ninho, ou quando a raposa estava se aproximando para comer os ovos do galinheiro. Escutava o chocalho da cascavel a uma distância considerável. Ouvia o canto monótono do rabo-mole-da-serra ou as unhas grandes do tatu cavando sua toca, mesmo quando ninguém conseguia. Você parava o que estivesse fazendo para ouvir o canto do tapaculo e o sentia ressonar, vibrando em seu próprio corpo. Foi assim que você aplacou o silêncio na solidão do terreiro quando sua irmã foi embora, ou na casa da beira do Santo Antônio, depois da morte de Tobias. Ou quando não pôde mais estar ao lado do seu pai e mestre. A mata a fez forte e sensível, ainda menina, para reconhecer o movimento do mundo. Uma vez escutou que o vento não sopra, é o próprio sopro”.
Pouco antes de você se calar para sempre, sua mãe chegou da roça e encontrou um prato de cuscuz pronto. Espantou-se, ao mesmo tempo em que perguntava quem o havia trazido. Ninguém. “Quem fez esse cuscuz?” “Eu que fiz.” “Mas você poderia se queimar.” Isso enterneceu sua mãe e seu pai cansados do trabalho, que agradeceram pela oferta. A terra era seu tesouro, parte do seu corpo, algo muito íntimo. Quando ia para a feira, quando caminhava até a cidade com o corpo acobreado de polpa de buriti sobre o negror da pele, não via a hora de tomar seu caminho de volta para a fazenda. Não sabia como a irmã pôde morar naquela desordem de carros, casas e gente. Para ter qualquer coisa precisava de dinheiro, qualquer coisa. Na terra tinha o que colher ao alcance das mãos. Se a seca ou a cheia levasse, comia-se o que sobrava. Comia a farinha de mandioca que faziam ou colhia as sementes de jatobá para preparar o beiju. Na cidade não havia terra para revirar, para sentir a ventura, a umidade avisando que a chuva estava por chegar.
Você, nesses dias em especial, recordava a sua breve vida com Tobias. O desconforto que sentiu naquela cama. O alívio ao saber que ele havia morrido. O túmulo que jazia em ruína, cercado de mato, onde você não teve desejo de pôr suas mãos uma única vez. Não por rancor, nem por descaso, mas por entender que aquele foi um erro que deveria ser suprimido de suas lembranças em definitivo, mesmo que a memória frustrasse seu querer.
A melhor coisa que Tobias lhe fez foi devolver, de maneira involuntária, o punhal de sua avó. Talvez aquele tenha sido o único propósito de seu erro. Você descobriu, mesmo passados muitos anos, que guardava igual fascinação pelo brilho da lâmina. Quando pôde tê-la nas mãos outra vez, se viu em seu reflexo, com o mesmo brilho nos olhos, a menina e a velha, a inocente e a culpada. O fio de corte dividiu sua vida a partir daquele ponto, nos tempos que se foram. E cada vez que o lustrava e observava a sua imagem refletida naquele espelho sabia que sua vida poderia ser dividida de novo. Como o umbuzeiro frondoso ou seco, no escasso período das águas ou em todo o resto do tempo. Como no dia em que, carregada de ódio, riscou a lâmina na pele do pescoço de Aparecido. A vida quase se dividiu. Quis proteger Maria Cabocla, a mulher que a tocou com as pontas dos dedos, que trançou seu cabelo e a fez deitar na cama para descansar como se fosse uma guerreira amada.
Sofrer, esse sentimento difícil de exprimir e rejeitado por todos, mas que a unia de forma irremediável a todo seu povo. O sofrimento era o sangue oculto a correr nas veias de Água Negra. E como você sofreu trepando em palmeira de buriti e dendê, estropiando os pés nos espinhos. Sofreu com seus braços, robustos como os de um soldado, revirando a terra para semear e colher, mesmo sabendo que nem sempre colheria e que, quando colhesse, poderia ser levado pelos donos da fazenda. Arrastando seu andar manco, vigiando a casa e a plantação dos animais e dos infortúnios. Cuidando do pai que se preparava para partir. A mágoa que não permitia perdoar a irmã por inteiro, como nas brincadeiras de infância. Os pesadelos recorrentes quando se sentia acuada e perseguida, onde o punhal de Donana era a lâmina que mais uma vez dividia o corpo, o mundo, a terra e nela fazia correr um rio de sangue.
Você recorda seu pai arrastando o arado antigo de ferro retorcido, pesado, rasgando a terra em linhas tortas. Aqueles sulcos onde lançava a semente do milho. Aquele arado sobre o qual ninguém falava, um objeto da paisagem, que chegou muito antes dos pioneiros, que ninguém sabia de onde tinha vindo, manejado pelas mãos dos trabalhadores mais antigos, dos que vieram de muito longe e sobre os quais não havia nenhuma história. Dos que abriram a mata muito antes e em suas mãos conduziram o arado para preparar o campo para a semeadura. Com suas mãos que talvez tivessem os mesmos nós, as mesmas feridas que o povo da fazenda escondia. Mãos que abriam a cova com a enxada, arrancando grandes pedaços de solo e ervas, para nela florescer a mandioca ou para enterrar um corpo. Mãos separando as folhas das rezas e dos remédios. A boca, a vela, os sons dos encantados agitando o ar, os peixes nadando contra a correnteza.
É quando você pressente e aceita que suas mãos, as mesmas que lavram a terra de onde se levanta a vida, poderiam ser o amparo ou o fracasso de toda uma luta. Se escavava por dentro com a ausência do primo na vida dos sobrinhos, dos pais, da irmã, na sua própria vida. Ele, como seu pai, que havia lhe dado tanto conhecimento sobre a história esquecida, sobre os direitos negados. Corroía-se pelo que lhe fizeram, pelo que poderiam fazer, pelo que queriam retirar de todos.
Correu os caminhos de Água Negra. Na mata, nos rios, nos marimbus, em cada palmo de terra, tentou reconhecer e recordar cada árvore. Sua memória se tornou um mapa das trilhas e caminhos que conformavam seu lugar. Precisava conhecer cada declive, cada cova aberta e fechada, cada movimento da terra, de partida e chegada, cada animal de casa ou da mata. Saía de manhã, se perdia na exploração de todos os cantos que alcançava. Voltava suja, exausta, com a roupa cada vez mais puída. Ninguém perguntava por onde havia andado, não adiantava, sabiam que não iria responder.
E os sons, os sons dos animais, das folhas ao vento, do rio correndo, os sons ecoavam perenes em seu interior. Fossem nas tarefas do dia ou no sono leve da noite.
Então sentiu que desde sempre o som do mundo havia sido a sua voz.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

13/01/2022

Rio de Sangue | 10

Mãe Salu dizia desde sempre que seu cabelo já tinha muitos fios brancos aos dezoito anos. Deixou de alisá-lo a ferro e o guardou sob os lenços que a maioria das mulheres camponesas usava. Você olha para si mesma no espelho que se apoia no chão contra a parede – porque o barro que a reveste não segura muita coisa – enquanto coloca os grampos que tira da boca e rumina sobre o quanto seu cabelo também lhe parece branco. É de família. Talvez tenha ficado mais branco nas últimas semanas. Foi perdendo a cor a cada pensamento que tinha com a intenção de compreender o que havia acontecido. A cada noite de vigília e medo que foi obrigada a atravessar com a ausência de seu marido. O companheiro que havia lhe dado muito do que continha em si.
Você atravessa a casa como uma assombração e por vezes não escuta quando lhe falam. Passa a madrugada acordada revirando na cama ao lado da filha Ana, trazida para preencher o vazio que o quarto tinha se tornado. Observa o sono da criança, os movimentos das pálpebras, talvez esteja sonhando, até que a mente a leva de novo para a ausência. Quando desiste de tentar dormir, abre a porta para sentir o sereno e a deixa aberta, ainda que a sombra do que lhe ocorreu persista a cada movimento da noite. Recorda a violência ao olhar para a motocicleta que está no terreiro de casa, ou a cada carro que atravessa a estrada da fazenda, porque pode carregar o perigo. O pensamento, embotado pelo desaparecimento abrupto, resiste em apagar aquelas horas de sua vida. Uma nuvem recobre o sol e a sombra que se projeta na casa é como um vulto atravessando os cômodos. O som de buzina de qualquer motocicleta, e que pode atravessar a estrada, comprime como uma mão a sua garganta. Aquele aperto que você seria incapaz de explicar para seus alunos. Ouvia aqueles ruídos como um aviso de que o marido iria retornar. Todos os lugares por onde ele se movimentava estão carregados de uma eletricidade que só você pode sentir. O cheiro das roupas intocadas no armário, o travesseiro que agora é o mesmo em que você deita, impregnado do perfume de seu corpo. Quando consegue dormir, acorda com a sensação de que despertou de um longo sonho e hesita em estender a mão para o lado da cama onde ele deveria estar. Suas lembranças são sabotadas pelo cheiro, pelo silvo sutil da respiração que julga ouvir, pelo calor que parece emanar ao seu lado. Quando finalmente resolve estender sua mão, sem coragem de abrir os olhos, encontra a filha dormindo. Mas sempre que o sono termina de forma abrupta, os olhos se arregalam e se sente só ao constatar que continua privada de sua presença. É quando as lágrimas vêm, incontroláveis.
Sua filha mais nova pergunta quando o pai irá voltar e você responde que não voltará. Sua filha chora e mesmo assim você resiste. Se fosse você que estivesse ausente, seu marido não deixaria as crianças fraquejarem. Ensinaria a prosseguir encontrando forças no trabalho, na luta que pode ser a vida todos os dias. Então você afaga a cabeça da menina, deita-a no colo, promete algo que esteja ao seu alcance, um sorvete ou um saco de pipoca quando for à cidade. Mas não pode dizer que ele irá voltar, seria cruel com qualquer um, e mesmo uma menina de pouca idade não poderia se agarrar a uma promessa que não será cumprida.
Ao amanhecer você se desloca para o quintal. Acende o fogão a lenha e pensa na caneca esmaltada que permanecerá no mesmo lugar do armário porque você não consegue retirá-la, nem mesmo os filhos ousam tocá-la. Também não sabe o que fazer com as repetições de pensamentos: e se não tivesse esquecido o documento? E se tivessem seguido para a cidade, o carro com os criminosos os teria alcançado na estrada? Se não tivesse retornado há dez anos para Água Negra? Se não tivessem se levantado contra o que consideravam injustiça com todos? Os muitos “ses” surgem a todo o momento e a enredam em lianas invisíveis das quais não se livra facilmente.
Você retornou para a escola, mas algo se rompeu definitivamente em seu interior. As crianças parecem descontroladas diante da sua apatia. Nem de longe lembra a professora que ensinava sobre a história do povo negro, que ensinava matemática, ciências e fazia as crianças se orgulharem de serem quilombolas. Que contava e recontava a história de Água Negra e de antes, muito antes, dos garimpos, das lavouras de cana, dos castigos, dos sequestros de suas aldeias natais, da travessia pelo oceano de um continente para outro. As crianças ficavam atentas, não sabiam que havia uma história tão antiga atrás daquelas vidas esquecidas. Uma história triste, mas bonita. E passavam a entender porque ainda sofriam com preconceito no posto de saúde, no mercado ou nos cartórios da cidade. Onde lhes apontavam dizendo “olha o povo do mato” ou “negrinhos da roça”. Compreendiam porque tudo aquilo não havia terminado. Você incutiu naquelas vidas um respeito grande por suas próprias histórias. Mas agora nem você conseguia mais se iluminar com a esperança de que a mudança fosse possível, muito menos acreditava que nada do que aprenderam pudesse fazer diferença para serenar a revolta que lhe incendiava.
Nas últimas semanas passou a sair de madrugada. Carregava consigo uma enxada. Não contou a ninguém para onde ia, nem o que faria. Talvez perambulasse por trilhas e rio procurando aplacar a dor que não diminuía e parecia corroer-lhe por inteiro. Retornava antes de o sol nascer, não conseguia nem constatar se os filhos estavam em casa e dormiam. Sentava numa cadeira, o cabelo recoberto de grama e terra, as mãos nodosas e grossas como as do pai, como as do povo que trabalhava na roça. Adormecia, e naquele breve instante parecia estar em paz com seu entorno. Acordava com alguma das meninas ou com Inácio perguntando por que estava coberta de terra. Queriam saber por que estava suja, tinha barro no rosto, no pescoço, nas mãos e roupa. “Fui mexer no quintal”, era a resposta. Mas no quintal, nenhuma mudança, nenhum plantio novo, algumas plantas inclusive morriam porque não estavam sendo aguadas, nem remexidas, nem fortificadas.
As suas mãos doíam. Latejavam pelo resto do dia. Colocava-as numa panela com água e gelo, as deixava submersas. A pele se esgarçava em suas palmas vermelhas, calosas. Suas mãos sangravam. Você as escondia, nada dizia. Como as chagas do Senhor dos Passos crucificado. Como as mãos do seu povo. Como as mãos dos antepassados. Mãos que os ajudaram a sobreviver, que forjaram o alimento e encantos ao manejar folhas e movimentá-las pelo corpo necessitado. Mãos que forjaram a defesa e a justiça quando possível. A mão que o curador deixou na cabeça de seus filhos.
Com a força de suas mãos dilaceradas você apenas abria um caminho.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

06/01/2022

Rio de sangue | 9

Donana roubou a faca do coldre esquecido no alpendre da casa sede da Fazenda Caxangá no começo da tarde. Havia viajantes em visita naquele dia. Aproveitou a breve confusão e o desleixo depois da cavalgada para surrupiar o objeto. Aproveitou que os vaqueiros, que acompanhavam os senhores, haviam baixado a guarda. Aproveitou seu caminho desviado pela estrada que dava na casa de seus senhores. Ao parar para se abrigar do sol que comia seu juízo, deu com o coldre pendurado no gradil. Retirou seu chapéu grande e o encolheu entre as mãos. Pensou que era uma faca bonita, feita uma relíquia da casa grande onde nunca pôde pôr os pés. Tinha um cabo com um material feito mármore, não sabia do que se tratava. Mas a lâmina era brilhosa como as coisas finas que os senhores carregavam. Parecia ser de prata. Devia valer um bom dinheiro. Foi quando se lembrou dos filhos que precisavam de calçados e roupas novas, porque não havia mais como cerzir os trapos esgarçados. “Eles tiram da gente e nós tiramos deles”, foi o que passou por seu pensamento. Pediria perdão a Deus e aos seus guias. Colocou o objeto no seu cesto de palha, em meio aos aipins colhidos naquela manhã, entre cansaço e desalento. No exato momento disse apenas “Deus me perdoe” e deixou a sombra que lhe serenou o corpo, levando consigo talvez um tesouro, sem ser notada.
Mas no caminho a certeza de que Deus a perdoaria foi crescendo. Afinal, aquela gente lhe devia muita coisa. O trabalho que não era remunerado, o sol que ardia impiedoso sobre sua cabeça na lavoura queimava inclemente, e seu chapéu, não poderia ser ingrata a esse ponto, de fato, era um refúgio, mas ainda assim incapaz de defendê-la da exposição pela longa jornada. Naquele inferno chamado Caxangá, o inferno de escravidão a que se acostumou como se fosse sua terra, não teve autorização para parir seu filho em casa. Zeca nasceu no meio da roça, dentro de um charco, com a ajuda das trabalhadoras da fazenda, debaixo deste mesmo sol que agora fervilhava seu juízo. Era sua por merecimento. Certamente, Deus a perdoaria.
Mas os propósitos iniciais de seu pequeno crime não se concretizaram. Donana se afeiçoou de tal forma ao objeto que o enterrou debaixo da própria cama. Temeu quando correu conversa entre os trabalhadores, procuravam pela faca de um visitante, convidado do senhor da Caxangá. Mas guardou aquele temor para si, sem comentar com ninguém. Qualquer passo em falso poderia significar a vergonha da exposição pública. Esses homens, que ameaçavam mandar seus capatazes entrar de casa em casa à procura da faca, poderiam castigar de forma exemplar quem fosse pego, despejando-o da fazenda sem as mãos. Depois, a notícia era de que o homem a tinha perdido na cavalgada que culminou naquela tarde, bem viva na lembrança de Donana. O povo foi convocado a procurar pelos milharais, pelas roças de aipim, cana e mamona. Mas nada foi encontrado e o tempo tratou de fazê-los esquecer do desaparecimento.
Primeiro Donana enterrou a faca para matutar, enquanto não terminasse a procura, onde poderia vender sua joia de caça. Não poderia ser na cidade, porque todos se conheciam. Iriam perguntar o que aquela mulher sem eira nem beira queria com uma faca rica e bem talhada. E as suspeitas voariam mais rápido que qualquer outra coisa. Foi quando cogitou a possibilidade de vender mais barato a um mascate ou cigano, desde que eles não tivessem relação com a casa grande. Desde que pudesse fazer alguma coisa pelos filhos com o que ganhasse. Mas esse dia foi sendo adiado, porque Donana não se animava a desenterrar o objeto, não sentia confiança em nenhum mascate que chegava à sua porta. Por último, pensou que poderia deixar como herança para alguns dos filhos.
Quando ninguém mais falava no desaparecimento da faca, e os trabalhadores não mais procuravam pelas moitas e roças, Donana a desenterrou, longe dos olhos de todos. Limpou a faca, poliu o metal com um tecido velho e a embrulhou ali mesmo. Era um troço bonito. A coisa mais rica em que havia posto as mãos, era assim que sentia ao admirar o objeto do engano. Guardava de novo para si, limpava, polia, devolvia ao buraco debaixo da cama. Para não ter que enterrar e desenterrar a cada vez que quisesse pôr as mãos e os olhos, colocou um tapete de couro de caititu recobrindo o buraco onde a escondia.
A faca não se prestou a nenhuma das destinações a que sua guardadora havia se proposto de início. Nem vendida a mascate, nem deixada de herança para a família. Bem, foi assim que ela pensou, depois de ver uma das netas perder a língua. Deus não havia perdoado. Pior, havia ferido a carne de sua carne, a neta por quem zelava, rezava contra quebranto e mau olhado. As netas a quem planejava ensinar os segredos dos encantados, como havia ensinado ao seu filho mais velho. Não para que fossem curadoras, queria antes que fossem livres, até mesmo das obrigações que a seguiram por toda a vida. Queria ensinar os mistérios dos feitiços e dos encantados para os problemas diversos. Queria ensinar para que se desenvolvessem sozinhas no mundo, para que ajudassem aos que precisassem, e mais ainda, para que procurassem pela liberdade que lhes foi negada desde os ancestrais. De fazenda em fazenda, de Caxangá à Água Negra, havia vivido uma vida cativa. Queria vê-las livres, senhoras do próprio destino.
Quando a faca serviu ao derradeiro fim em suas mãos, ao fim que nunca havia considerado, Donana se viu enredada numa trama de vida e morte para o resto de seus dias. Tudo ocorreu quando o filho mais velho já havia deixado a Fazenda Caxangá rumo a outra terra, onde pudesse ter trabalho e morada. Ela se viu de novo sozinha, sem o esteio de Zeca e com os filhos menores, que depois ganhariam o mundo, para criar. Chegou trabalhador novo. Um homem gentil que estendeu sua força para ajudar Donana na roça. Terminava o trabalho que lhe era destinado e ajudava a mulher que tinha o corpo doído de tanta labuta. Donana, na sua solidão, permitiu que se achegasse e se abrigasse em seu casebre, que se juntasse à sua luta e aquecesse sua cama, fazendo-a se sentir viva, apesar de toda fadiga. Foi assim que o homem ficou ao seu lado, o homem que Donana esqueceu o nome, impronunciável, o homem que nem o filho nem mais ninguém que não habitasse o casebre da Caxangá saberia da existência. Ele que havia chegado de onde haviam se esquecido, da mesma forma que se foi de um jeito que só a mulher que envelhecia saberia.
Quando Donana encontrou a filha Carmelita, moça há poucos anos, debaixo do corpo do seu homem, de calças arriadas, na cama onde se deitava do cansaço sem fim, se envergou no chão como um jumento que não quer seguir o caminho que lhe resta. Retesou todo o corpo como se nunca mais fosse deixar aquela posição. Gritou com grande cólera, pôs os meninos em prontidão, sua fúria era seu próprio desespero. Carmelita andava arredia, chorosa pelos cantos da casa, ela percebia, mas não passava por sua cabeça nada do que havia visto. Quase não olhava para a mãe. Donana pensou que era ciúme de filha que não aceitava o novo companheiro. Mas se passou um ano, dois. Adentrava o terceiro. Os machucados que a filha escondia, como se estivesse boba de atenção esbarrando em tudo, caindo em todo lugar. Tudo fazia sentido. Seu homem batia, maltratava, violava e ameaçava sua filha debaixo do seu teto com sua concordância? Carmelita implorou à mãe por perdão. A mãe que não conseguia mais olhar para a própria filha. A filha que agora queria ir embora de casa. Encontraria seu rumo como havia feito o irmão. E o homem não se redimiu: ficou mais forte, mandava em tudo, mandava na casa, tinha a mulher sob seu cabresto.
Foi numa noite em que a lua escureceu, por trás das nuvens que no dia seguinte lavariam a terra com a chuva, que tomou a decisão. As águas que ainda não tinham precipitado, mas que previa no cenário da noite, lavariam a terra de tal forma que não restaria vestígio de nada. Ele saiu para pescar levando uma garrafa de bebida. Era um hábito que o acompanhava desde a chegada. Donana, que seguiu em sua companhia algumas vezes, não pescou mais ao seu lado. Se sentou em casa e seu juízo foi sendo carcomido pelo rancor, o que havia visto, o que a machucava, o que destruía Carmelita. Quando chegou ao local onde ele estava viu que dormia, prosternado na beira do rio. Parecia morto antes mesmo de ser sangrado. Não havia luz, não havia candeeiro nas mãos de Donana. Não queria deixar rastros ou lembranças de seus passos e atos. Ninguém saberia de nada, diria apenas que ele havia partido sem deixar indicação do destino. Antes de pensar na justificativa que daria, sangrou o homem como se sangrasse um porco. Arrastou seu corpo com os bolsos cheios de pedras, que ela mesma colocou, para dentro do rio. Não temeu que viessem lhe perguntar pelo desaparecimento do companheiro nos dias que se seguiriam. Voltou para casa encharcada do esforço. As poucas horas desde que havia deixado sua morada para dar fim ao seu último erro nas terras de Caxangá foram suficientes para que sua filha fosse embora sem indicar o paradeiro. O resto da história foi vagar seus últimos anos vendo o rosto de Carmelita em todas as crianças que havia amado.
Na madrugada que se seguiu, teve apenas uma certeza: Deus jamais a perdoaria. Pior: devolveria o malfeito em dobro.
E o cheiro da chuva, que cairia nas primeiras horas da manhã, já podia ser sentido.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado