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02/10/2026

Correnteza



7

Começa por procurar entre os meninos que jogam bola nas ruas do bairro. Os relatos indicavam que eles teriam visto Cid ser abordado e levado por policiais. Rita Preta segue de novo até a casa de dona Conceição, faz a mulher repetir o que já havia contado, tentando retirar alguma informação que pudesse ter passado despercebida. Mas tudo o que ela sabe já tinha sido dito: os meninos viram Cid ser parado por um grupo de policiais — Quantos? Dois? Três? Quatro? — e depois desaparecer. “Mas quem são esses meninos?”, Rita insiste. A mulher não os conhece. Confessa que vive sozinha naquela casa, evitando conversar com qualquer pessoa. Bastavam os vizinhos barulhentos com o aparelho de som nas alturas nos fins de semana.
“Só quero paz”, dona Conceição diz. “Recebo o benefício do meu marido. Sou viúva. Não conheço quase ninguém por aqui. É só bom dia e boa tarde para essa gente porque não quero intimidade. Conheço seu Aranha porque de vez em quando preciso de serviço de conserto de casa. Sabe como é.” Havia um certo exagero em sua recusa, uma distorção no que contava. Os vizinhos sabiam que dona Conceição é intrometida, espalha boatos, fala da vida alheia.
Rita sai pelas ruas do bairro. Ela veio viver na vila depois que o deslizamento de uma encosta condenou a casa onde morava, e a defesa civil da cidade interditou os imóveis situados na área de risco. Coube a ela procurar um aluguel que pudesse ser pago com o salário da loja de móveis, onde começou cuidando da limpeza e depois, como era curiosa e proativa, aprendeu a montar e desmontar armários. Só deixou esse emprego porque o proprietário ficou inválido após um acidente vascular e a família se desfez do negócio. Três filhos para criar e o imprestável do pai do Juca, Wilson, atormentando sua vida. Como ele não se mexia para resolver os problemas da casa, Rita Preta teve que se virar sozinha para encontrar outra casa. Em dias de chuva forte, a sirene tocava pedindo que os moradores se dirigissem a um local seguro — na comunidade onde morava era uma escola municipal —, mas Rita nunca deixou a casa, sempre com medo de perder para os bandidos o pouco que tinha. Não queria se sentir miserável em meio a colchões e cobertores mofados, uma multidão que gritava e se desesperava, enquanto outras pessoas aguardavam resilientes o tempo melhorar. Naquela hora, ela se apegava aos santos e encantados, pedia misericórdia por sua família. Não conseguia dormir e atravessava a noite em claro. Vez ou outra conseguia escutar o ruído da terra deslizando em pequenas porções, levando arbustos e mato e tudo que encontrava pelo caminho. Outras vezes as coisas permaneciam inalteradas, apenas a chuva caía sem interrupções, embora os sons ecoassem incessantes em seu corpo.
Então, ela se sentiu aliviada quando por fim encontrou a casa atual. Poderia pagar o aluguel, mesmo que o valor continuasse alto para seu orçamento. Estava muito longe de ter a dignidade das casas onde havia trabalhado ou mesmo da casa simples de sua avó na roça. Mofo em alguns pontos das paredes, o banheiro acessado depois de atravessar a cozinha, o teto baixo que tornava o ambiente ainda mais quente. A vizinhança barulhenta e o medo quando relatavam que o tráfico estava em guerra. Não era muito diferente da comunidade onde tinha morado, mas a constância da vida na casa anterior criara o hábito, e o fato de estar lá havia algum tempo a deixava segura. Quando olhava para Wilson deitado no sofá assistindo televisão, enquanto ela precisava sair com uma caixa de ferramentas para armar os móveis baratos de fibra de madeira — os recém-chegados e os vendidos —, além de limpar a loja, se enchia de raiva. Considerava que a exploração não estava apenas com os superiores, mas também habitava as quatro paredes de uma casa.
Rita conhecia de forma razoável o bairro, os pequenos comércios, boa parte das mudanças vividas nos últimos anos. Aquela era a quarta casa em que morava na comunidade — e quando contava as quase três décadas em Salvador, as casas onde residiu haviam passado de dez, sendo a primeira moradia a dependência de empregada no apartamento dos patrões.
Então ela anda por calçadas estreitas, desviando dos postes de energia elétrica instalados no meio do caminho, a rede elétrica sobrecarregada de fios, poluindo o horizonte daquela paisagem. Rita não consegue encontrar nenhuma criança capaz de responder à sua pergunta e que talvez estivesse brincando na rua quando Cid desapareceu. Somente mulheres carregando sacolas, estudantes passeando de uniforme escolar — matando aula —, bicicletas com cestos de pão, motocicletas, trabalhadores entrando e saindo do bairro, descendo e subindo dos poucos ônibus que fazem rotas nas vias estreitas.
Rita Preta precisa perguntar e parece não sentir vergonha, mesmo ciente de que as pessoas podem julgá-la. Retira a foto três por quatro da bolsa — não tem certeza de que era a mais recente, apesar de achar que, nela, Cid está sem as expressões do rosto quase adulto que tem agora. Ela entra num bar. O proprietário para de secar o balcão, fita a fotografia para repetir com paciência que não o vira. Rita entra numa mercearia, pergunta outra vez. A fotografia está levemente úmida, suas mãos estão suadas pela combinação de ansiedade e calor. Não, ninguém tinha visto. Ela aborda duas testemunhas de Jeová paradas na esquina ofertando publicações, com sombrinhas nas mãos para se proteger do sol. Também não tinham visto. Antes que a convidassem para um estudo bíblico, Rita se põe a caminhar sem encontrar sombra onde possa se proteger do calor difícil de suportar.
Encontra uma borracharia funcionando num barraco de madeira tão pequeno quanto uma cabine de banheiro químico. Faz a mesma pergunta ao homem de macacão azul-marinho sujo e puído. Ele não examina a foto, como Rita gostaria que tivesse feito. Está ocupado com a reparação de um pneu furado, mergulhando-o na água imunda armazenada numa banheira velha à procura de sinais de bolhas de ar para saber se a força foi feita. Ela espera mais um pouco e pergunta sobre os meninos que brincam de futebol. “É para o lado de lá”, o homem aponta sem olhar, na “travessa Maravilha.” Perto da casa de Daiane, Rita pensa, e agradece ao borracheiro pela informação.
Enxuga o suor que lhe escorre do rosto e se põe a caminhar. Naquela primeira hora não há crianças ou adolescentes brincando de futebol. Rita resolve voltar para casa por caminhos alternativos, adentrando áreas novas, becos, casebres, algumas casas melhores, perguntando a um e outro. Encontra carros abandonados, pequenos montes de lixo, vasos de plantas. Está disposta a perguntar a quem atravessar seu caminho, do pastor ao traficante. Rita verifica o celular: chamadas perdidas do supermercado — querem a justificativa de sua ausência naquele turno e, pelo número, deve ser da sala de recursos humanos; aviso de cobrança do novo cartão de crédito com fatura em atraso; nenhuma chamada dos filhos. Ela telefona de novo para o celular de Cid — a chamada é encaminhada para a caixa postal. Olha para a tela do aparelho com os olhos marcados pelas noites maldormidas, o semblante envelhecido. Guarda-o na bolsa e continua a caminhar.

Antes do pôr do sol, Rita sai outra vez. Anda de novo pelo bairro. Mesmo morando há anos naquela fração da cidade, sente-se agora conhecendo-a um pouco mais pela exploração realizada nos últimos dias, em particular nas últimas horas. Continua a mostrar a fotografia e tem certeza de que àquela altura todos sabem de quem ela está falando. Todos sabem que Cid, filho mais velho de Rita Preta, moradora da travessa Angélica, desapareceu. Todos têm repetido entre si que ele foi levado pela polícia, mas as mesmas pessoas têm sonegado informações reiteradas vezes a Rita por medo, e o medo parece servir à autoproteção. Não porque a conheçam bem. Eles não sabem de sua determinação. Os vizinhos mais próximos até a acham um tanto descuidada com os filhos por passar longos períodos do dia fora de casa, seja trabalhando, seja na companhia de seus amantes.
Ela se cansa daquela caminhada sem rumo. Cansada não é bem a palavra, mas o corpo pede que se deixe sentar no meio-fio quente de fim de tarde para recuperar a energia despendida entre o estado de tensão permanente, o calor, as caminhadas e as noites sem dormir. Rita reflete sobre o tempo passado naquela busca. Ansiosa por natureza, sente-se como se estivesse perto de gritar. Está magoada e com raiva do filho por fazê-la padecer de preocupação. Se a história da polícia for verdadeira, ela se sentirá ainda pior. Mas não quer supor nada que não seja encontrá-lo. As diferenças serão acertadas depois.
Levanta-se e segue adiante. Está vestida com uma blusa sem mangas para suportar a umidade e, com um pouco de dificuldade, volta a colocar o celular no bolso da bermuda jeans. Nos últimos meses seu corpo se tornou mais volumoso — gorda é a palavra que quer evitar por puro preconceito. Não se sente mal por isso, pelo contrário, acha que atrai olhares para suas formas, o que não é nada ruim para alguém que chegou aos quarenta anos.
Desviando do caminho mais curto para a entrada da vila, ela encontra crianças jogando futebol no asfalto, e espera com certa ingenuidade que sejam “os meninos” do relato de dona Conceição. As sandálias se transformaram em marcações das traves e eles correm descalços, sem camisa, colidindo uns com os outros na disputa pela bola. Rita espera paciente por uma interrupção do jogo. Quando por fim param para discutir uma penalidade, ela se aproxima sem cumprimentá-los, mostra a fotografia do filho.
Embora todos aparentem ter uma idade próxima à de Juca, alguns dizem que conhecem Cid — assim como conhecem o mais novo —, por estudarem na mesma escola. Os garotos se olham, como se não estivessem entendendo do que Rita fala. Ela compreende que não queiram dizer nada, a família deve ter incutido medo neles. Alguns daqueles meninos viviam com o pai e a mãe. Outros, apenas com as mães. Alguns, na ausência dos pais, moravam com as avós. Ela pergunta se viram um carro da polícia alguns dias atrás. Uns confirmam, outros não. Uns dizem que estavam presentes, outros permanecem em silêncio.
Rita percebe que o interrogatório dirigido aos garotos pode não resultar em nada. Resolve não insistir. Ela se despede pedindo que, se alguém souber de informações sobre Cid, por favor a avise, ela tem uma recompensa em dinheiro — mente, não tem um centavo no bolso, e o salário a ser creditado na conta bancária no começo da próxima semana está comprometido com pagamentos. Dois garotos se entreolham. A troca de olhares, depois de tantas horas de perguntas e buscas, soa como um sinal de esperança.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

29/09/2026

Correnteza




6

Passava já da meia-noite quando Rita saiu da delegacia. Ela havia pedido a Fátima que orientasse os filhos a manterem a casa trancada, e que, em qualquer emergência, a chamassem. Rita Preta também estaria com o telefone para monitorá-los à distância. Sentou-se no mesmo canto do dia anterior — próximo à porta — e, por horas, viu uma procissão de pessoas registrarem novas ocorrências. Num dia qualquer, estaria faminta e exausta. Mas, curiosamente, não sentia fome ou fraqueza. Tinha a energia infatigável das urgências, precisava encontrar o filho, saber o que havia acontecido e prosseguir com a vida já afetada por aquele grande problema. Por fim, Rita conseguiu concluir o boletim. Também pediu para assinalarem a informação de que o filho tinha sido levado numa abordagem policial, embora não tivesse qualquer prova — a escrivã usaria um código para pontuar a questão —, e perguntou se teria como saber se a entrada de Cid constava no sistema de segurança pública.
“Não temos como verificar”, disse a atendente, sem se dirigir em nenhum momento a Rita, apenas olhando para o terminal de computador. “A senhora precisa ir até este endereço aqui”, continuou, apontando para um pequeno cartão de papel com a unidade policial de destino.

Ao chegar em casa, Rita nota que a luz está acesa. Juca dorme, mas Cainho ainda está acordado. Quer saber se a mãe tem notícia do irmão e se os comentários sobre a polícia eram verdade. Rita confirma. Ela contou, durante o registro da ocorrência, sobre a abordagem, e a atendente resistiu a anotar. A mulher sugeriu que era um boato — e, por enquanto, era somente isso mesmo —, mas orientou Rita a procurar na unidade do cartão onde poderia obter mais notícias sobre a suposta abordagem e o recolhimento.
“Não levaram seu irmão para uma delegacia ou prisão. Recolheram ele para outro lugar. Ele é menor de idade.”
“Eu vou com a senhora.”
“Não. Prefiro que você cuide do Juca. Preciso de você em casa.”
Rita Preta entende que Cainho é apenas um adolescente de catorze anos. Desajeitado, imaturo, talvez o que menos soubesse lidar com a vida para além das paredes de casa. Passava o tempo com livros e caderno na mão escrevendo anotações sem serventia — era assim que pensava —, rabiscando, e por vezes pouco atento, a cabeça no mundo da imaginação. Rita não considerava o filho do meio um jovem estudioso. Ele tirava notas medianas na escola, suficientes para ser aprovado. Ainda assim se saía melhor que os irmãos. Nem sempre ela conseguia acompanhar, mas vez ou outra procurava pelos títulos e pelos textos das capas de livros para saber o que ele andava lendo. As leituras escolhidas não tinham relação com as matérias que ele estudava. Eram romances, livros de conhecimentos gerais, além de jornais velhos e folhetos religiosos talvez úteis para outras atividades, mas não para a escola. No entanto, apesar da aparente imaturidade, Rita Preta o considerava plenamente capaz de cuidar do irmão e da casa, e ajudá-la naquele momento. Afinal, ela não tinha começado a trabalhar para uma família ainda mais nova? Rita confiava que ele pudesse desenvolver habilidades para a vida resolvendo problemas cotidianos e tomando decisões sem sua intermediação. A partir daquele dia, ele seria muitas vezes convocado a assumir o posto de responsável pela casa em sua ausência.
Rita sai cedo de casa para continuar sua busca. Decide não ir ao supermercado onde trabalha, preferindo inventar uma desculpa. Se contasse a verdade, achariam que ela era mãe de um drogado ou arruaceiro, ou que seu filho estivesse envolvido com atividades ilícitas. Precisava manter o emprego — não se imaginava procurando trabalho outra vez por meses ou mesmo anos, como via acontecer com muita gente, de todas as idades. Mas, ao mesmo tempo, Rita precisava encontrar Cid, saber o que tinha acontecido, ajudá-lo a sair de onde estivesse, trazê-lo de volta para casa, desfazer as diferenças persistentes para se perdoarem mutuamente. Sobretudo, precisava ajudá-lo a reencontrar seu caminho na vida.

Nome completo. Data de nascimento. Número do documento de identidade. Rita tenta não parecer distraída, mãe relapsa, e procura informar tudo que lhe é solicitado. Não pode falhar. Fotografia atual? Não, só a do documento e mais algumas tiradas num celular de baixa qualidade. Numa delas, Cid aparece sem camisa e com uma corrente dourada de bijuteria escurecida. Ao fundo, um muro mal-acabado de tijolos cerâmicos vermelhos à mostra e alguns pontos de limo. Os dedos em “V”, o sinal da vitória. Em outra foto, Cid esconde o rosto, não quer aparecer. Está deitado no sofá, a capa de tecido sintético verde fluorescente está desajustada. O ambiente parece escuro, embora fosse dia, Rita recorda; mas sobretudo era um dia descontraído. Ela consegue vislumbrar o sorriso do filho por trás das mãos enquanto tenta esconder o rosto. Em outra imagem, ele está de costas, o cabelo recém-cortado, desenhos nas laterais feitos a navalha. A imagem está desfocada, mas Rita se reprime e decide não mostrá-la na delegacia. Poderiam pensar o pior. Ela mesma havia censurado o filho, externara o próprio preconceito dizendo que parecia corte de malandro, bandido. Quando ele fosse trabalhar — e não faltava muito tempo —, não poderia ostentar cortes de cabelo como aquele nem tatuagens no rosto, nas mãos, no pescoço. E o serviço obrigatório do Exército? Daqui a dois anos, Cid precisaria se alistar — quem sabe não é convocado? Pode ser um bom emprego. Enquanto aguarda o atendimento, Rita seleciona as fotografias que poderá mostrar como eventual fonte de reconhecimento, porém elas começam a retroceder no tempo e já não serão tão úteis. Fato inegável: Cid era o filho que mais havia mudado nos últimos dois anos. Cresceu, o rosto parecia o de um adulto, mesmo pontilhado de acne. Já retirava os pelos ao redor da boca. Explorando os arquivos do celular, das últimas imagens para as primeiras, Rita vê a vida em retrospectiva: uma selfie com Jorge na praia, ela com o corpo bronzeado, óculos escuros e tranças afro que sempre a deixavam mais jovem; em outra imagem ela surge de olhos fechados com os filhos à sua volta. Parecem felizes, mesmo quando Cainho se mostrava sério, sem achar graça das piadas e situações em que todos riam. Em outra imagem, Juca aparece menor, um menino engraçado com uma espada de plástico nas mãos e sentado nos ombros de Cid. O mais velho está sem camisa, seu corpo adolescente à mostra, a bermuda caída abaixo da cintura. Em outra fotografia, algo escuro num canto da parede e uma vassoura ao lado caída no chão. Rita aumenta a imagem e vê o que parece ser uma ratazana morta. Mais adiante, a foto de um vestido branco e decotado na vitrine de uma loja — talvez quisesse copiar o modelo para a costureira do bairro reproduzir um igual, para dançar numa noite de encontro e festa.
A primeira vez que Cid suga seu seio para se saciar da fome mais antiga, Rita o observa com verdadeira curiosidade e sente sua alma em estado de graça. Quando a criança caiu da escada e a fez correr para a emergência de um hospital. Cinco pontos no queixo. Quando se alfabetizou, Cid passou a ler as sílabas de trás para a frente. As horas de parto quando sofreu todo tipo de violência num hospital público; um enfermeiro se sentou na sua barriga para forçar a expulsão da criança, que, por fim, foi retirada a fórceps. A criança era um sobrevivente e sorriu e correu e brincou, resistindo à sentença que toda violência carrega. Cainho escorregou como um quiabo por entre as pernas de Rita no caminho para a sala de parto, e por pouco — muito pouco — não foi ao chão. O mais novo subiu na porta do forno do fogão e derrubou o almoço quente, que poderia tê-lo ferido com gravidade. Porém essas fotografias não estão materializadas e arquivadas em seu aparelho celular. São vistas em perspectiva na memória, sem a ajuda de uma máquina, mas com o sangue correndo como rio em suas veias.

Rita Preta responde com ênfase que Cid não tem envolvimento com atividade ilícita. É um adolescente como muitos, gosta de futebol, quer namorar, quer o tênis da moda e sonha com uma vida melhor. Ela retira da bolsa a camisa encontrada no dia anterior. Afirma que pode ser do filho e mostra para quem realiza o atendimento.
“Vocês não precisam examinar?”
“Não, senhora. Não é necessário.”
“Ele estava a caminho da casa da namorada. Deve ter saído com a camisa no ombro e outra vestida por baixo. Alguém o levou, porque ele não deixaria a camisa em qualquer lugar sabendo que eu ia ficar uma fera se descobrisse.”
A mulher não está interessada na história que Rita conta e assinala que falta pouco para finalizar o atendimento. Rita Preta guarda a camisa de volta na bolsa. Pergunta se terá logo o resultado da pesquisa do sistema de segurança, se o filho foi recolhido e se está em alguma unidade de correção. A atendente diz que não, o prazo é de setenta e duas horas. Ela precisará voltar ali para saber o resultado.
Registrado o desaparecimento e feita a solicitação para tentar localizar Cid — se ele tinha sido ou não abordado por policiais, como seu Aranha havia escutado —, Rita Preta caminha até o ponto de ônibus, procura organizar as ideias em meio ao caos daqueles dias. Não consegue pensar em nada que não seja encontrar o filho mais velho, e segue sua intuição sobre quais caminhos deve continuar a trilhar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem Medo

24/09/2026

Correnteza


5

“O pessoal está falando do menino, Rita.”
Rita Preta ouve a voz de Fátima. Emudece ao telefone. O mesmo arrepio que percorreu seu corpo dias antes a eletriza com intensidade. Quer saber o que aconteceu com o filho. “A polícia”, Fátima responde. Como de costume, escutou quando chegou do trabalho mais cedo. Ouviu o burburinho ao tentar encurtar o caminho passando pela rua de cima. Dona Conceição, uma senhora que mora perto da entrada da vila, ouviu de alguém, que por sua vez ouviu dos meninos que brincavam de futebol na rua. Quando seu Aranha passou pelo mesmo caminho uma hora depois, a mulher comentou com ele “à boca miúda”, para não causar alvoroço e ser chamada de X-9. De pronto, ele se dirigiu à casa de Rita Preta, mas não encontrou ninguém. Os filhos estavam na escola. Enquanto seu Aranha batia na porta de Rita, Fátima abria o portão de ferro para entrar em sua casa, com os cachorros festejando sua chegada. “É com Rita? É urgente?”, quis saber. O pedreiro se pôs a falar com reserva, receoso da lei que rege a comunidade. Tem as roupas sujas de cimento, está trabalhando na construção de um muro e, apesar da fama de bêbado, aparenta estar sóbrio. Mesmo sem querer se intrometer, decidiu procurar por Rita. Algo o toca naquela história: pensa nos próprios filhos e gostaria que lhe informassem se algo parecido acontecesse.
Procurou Rita porque ela era a mãe. Saberia o que fazer.
Fátima se certificou de que estava sozinha, com portão e porta fechados e de que ninguém a observava. Queria ter certeza de que não seria ouvida. Telefonou para Rita Preta, uma, duas, três vezes.
O telefone vibrou de forma insistente no bolso da calça. Rita está em seu turno no supermercado e registra item por item de uma compra. Depois de duas noites sem dormir, estava insustentável esconder dos colegas na loja seu cansaço e o tormento que a acompanha desde que o filho não voltou para casa. Ao finalizar aquela tarefa, equilibrando o inventário com a disposição dos itens em oito sacolas plásticas, ela retirou o telefone do bolso como se fosse se certificar da hora. Viu as chamadas de Fátima. “Deve ser urgente”, pensou, “ela quase não me telefona.” Precisa deixar o caixa para tentar falar com a comadre e saber do que se trata. Um fio de esperança indica que Cid voltou para casa. Ela pediu à supervisora para ir ao banheiro e aguarda por exatos quinze minutos para a plaquinha “caixa encerrado” ser colocada na esteira.
“Como assim a polícia? O que ele fez?”
Fátima fica muda, não sabe o que responder. Diz que seu Aranha não contou mais nada. Evoca os medos de Rita ao dizer que todos temem os “caras” e a polícia.
Contudo, apesar da aflição inicial, Rita Preta deixa crescer um sentimento de raiva pelo filho. Se pergunta sobre o que ele deve ter aprontado para ter sido levado à delegacia. Enumera seus problemas: faltar às aulas, o namoro, ficar de bobeira pela rua. Conclui que deve ter aprontado algo. Em meio ao turbilhão, desperta para o fato de que precisa deixar o supermercado naquele instante. Por vergonha, omitirá que Cid foi levado pela polícia e que precisa deixar o trabalho em busca de informações. Rita Preta então alega um mal súbito, enjoo e indisposição que só poderiam ser resolvidos num posto de saúde.
“Temos uma farmacinha no RH”, escuta da supervisora. Não resolveria nem uma fração de sua angústia no setor de recursos humanos — só se ganhasse na loteria dinheiro suficiente para ir até lá pedir demissão. Então, Rita finge tontura e esbarra de maneira proposital no extintor de incêndio. A supervisora é chamada de novo e a olha de cima a baixo. Rita Preta transpira mais que o normal, passa uma toalhinha no rosto. A supervisora decide liberá-la, fazendo contudo um breve histórico da falta de funcionários na equipe. Precisará encerrar o caixa que Rita opera naquele turno, já que não há substituto para o trabalho. Pede que Rita registre a saída antecipada no relógio de ponto e enfatiza que terá que voltar com um atestado médico.
Rita aparenta estar agradecida, mas em pensamento manda a mulher para um lugar sujo e lhe deseja o pior. Sai em disparada pelo salão do supermercado para pegar sua bolsa no armário individual. Não passa no vestiário para retirar o uniforme e deseja nunca mais voltar. Na portaria, abre a bolsa para que o segurança possa revistá-la e ter certeza de que não está levando algo da loja, enquanto ela própria observa ao seu lado uma pequena fila com três homens, o primeiro em posição de revista, braços abertos e pernas esticadas, sendo examinado por outro segurança.
Rita se dirige de imediato para o ponto de ônibus e, enquanto aguarda, decide telefonar para Jorge. Não faz ideia de onde ele esteja. Estiveram juntos há dois dias e recorda apenas que combinaram de se encontrar dali a uma semana. Sabe que se estiver com a mulher e os filhos não atenderá o telefone nem chamará de volta na hora. Se estiver dirigindo o caminhão na estrada, talvez atenda, mas pouco poderá fazer. Por sorte, ele atende. Está abastecendo o veículo.
“Levaram o menino.”
“Que menino?”
“Levaram Cid. Faz dois dias que ele não dorme em casa. Estão dizendo que foi a polícia.”
“O que ele aprontou?”
Rita se dá conta de que talvez tenha se precipitado ao telefonar para Jorge. Ele não pode fazer nada e ainda se acha no direito de duvidar de Cid — “O que ele aprontou?”. Ela é mãe e conhece bem cada um dos filhos — ou pelo menos acha que os conhece —, mas apenas ela poderia duvidar deles. Não admitiria que ninguém sugerisse algum desvio.
Uma hora e meia se passa no trajeto do supermercado até sua casa. Rita anda por ruas e vielas sem levantar a cabeça. Passa também por Fátima, que abre a porta no exato instante em que a comadre chega. Diz algo de que já não consegue se lembrar no segundo seguinte. Rita Preta entra em casa e encontra Juca escutando música no celular. Puxa os fones que ele tem no ouvido de forma abrupta, enquanto caminha para a cozinha. Pergunta se ele ouviu falar algo sobre o irmão. Não, foi a resposta. Vê a louça suja na pia, mas não consegue praguejar ou amaldiçoar a vida como faria num dia qualquer. Segue para o quarto sem janelas onde os filhos dormem e tudo está desarrumado, como sempre. Camas desfeitas, uniformes escolares dispostos numa cadeira de plástico branca ao lado da cama. Menos a de Cid. Rita Preta precisa pensar rápido por onde começar. Decide se dirigir à escola, ainda que não tenha certeza de que será atendida. Fátima continua na porta, à sua espera. Pergunta se ela precisa de ajuda e, mesmo sem resposta, se junta a Rita naquele início de busca.
“Se esse menino fez coisa errada, Fátima, ele vai me pagar.”

Em que momento — em que fração de tempo, em que ponto do espaço — o corpo de Rita foi atravessado por um arrepio? Talvez tenha sido caminhando pelos becos estreitos enquanto as sombras dos sobrados sem reboco se projetavam no chão. Ou ao chegar ao ponto de ônibus e ser tomada de assalto pela dúvida, se tinha ou não trancado a porta de casa para impedir um furto ou algo pior. Talvez tenha sido ao recordar que não passara no quarto sem janelas para se certificar de que os filhos dormiam e saber se haviam retornado para casa. Ou ainda foi quando disse sem motivo aparente, “Meu Deus”, distraída de tudo, mas surpreendida por um sopro carregado de sentidos capazes de fazer estremecer qualquer coisa viva.
A razão desse arrepio foi tragada pelas distrações de um dia comum: pelo barulho do velho motor do ônibus apinhado de gente, vencendo as lombadas no asfalto e fazendo com que os corpos se movimentassem mais do que deveriam; o telefonema que não foi atendido e a imaginação vagando à procura do que o amante estaria fazendo naquele instante; as contas das despesas domésticas que nunca fecham no fim do mês. A recordação desse leve tremor foi ofuscada pela velocidade da caminhada de Rita e pelo cartão de registro de ponto do supermercado. A memória do arrepio foi obliterada pelas máquinas registradoras e pela esteira rolante emperrada com as compras dos clientes. Pelos conflitos e queixas compartilhados com os outros trabalhadores. Pelos clientes que exigiam as compras ensacadas com zelo e rigor, e por sua supervisora pedindo mais celeridade no escaneamento dos alimentos. Pela repetição sem fim dos movimentos que a faziam se sentir distante da terra, um pássaro sem local para pousar.
Não saberia mais dizer se foi depois do arrepio que pediu para ir ao banheiro e esperou com paciência por minutos a fio. Se foi depois de lavar o rosto e escapar para a área de desembarque de mercadorias onde havia um telefone público sem uso. Com certeza, isso ocorreu antes de telefonar de volta para Fátima, e depois para Cainho, e, por fim, para o número de telefone de Cid que permanecia desligado.
Contudo, o mal-estar veio junto com a sensação de que o chão sob seus pés desmoronava. Rita já tinha experimentado aquela agitação outras vezes, uma combinação de aflição e de espanto. A primeira foi quando sua mãe saiu de casa dizendo que iria trabalhar na cidade e que voltaria quando encontrasse um lugar para abrigar os filhos. Nunca mais voltou. Aquela ausência fez Rita encontrar seu primeiro desamparo. Depois, o rio, a morte, e a vida se segurando numa ilha de mato, resistindo à correnteza brutal. A segunda foi quando uma mulher bem-vestida apareceu à porta da casa da fazenda, a casa perdida num grotão do campo vasto, onde o vento se transmutava em sons e as folhas dos juazeiros resistiam, formando uma sinfonia com os chocalhos das mirradas reses. Rita seria levada para trabalhar na cidade. Mas, por ironia, no dia em que ela deixou a casa onde havia morado desde o nascimento, o vento era uma aragem e as folhas das árvores permaneciam imóveis e o gado jazia morto e sem os sons de seus chocalhos. Semanas antes, sua avó Carmelita havia amaldiçoado o rio, e depois de sua partida salgaria a terra, deixando que o céu desabasse sobre sua existência.
A terceira vez era o agora, a memória se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo. Foi quando chegou a casa onde vivia, incrustada no apinhado de outras casas na cidade. Anos e anos separam o primeiro evento desse outro, mas o sentimento de que o chão sob seus pés continua instável permanece o mesmo.
Todas as vezes anteriores que o chão parecia ter ruído sob seus pés vagavam longe em sua memória. Converteram-se em pequenos abalos diante da magnitude dos novos eventos.

Na escola, ela busca por informações sobre os passos do filho. Precisa falar com algum responsável, no entanto não consegue encontrar ninguém. Em sua cabeça vagueiam mil situações sobre o que poderia ter acontecido a Cid. Em seu rosto ainda não há tristeza, tampouco revolta. Não há lágrima nem hesitação. Há apenas uma mãe querendo desfazer um mal-entendido e disposta a negociar com qualquer pessoa uma reparação pelo erro cometido. Depois ela mesma cuidaria da punição, exerceria ainda mais controle sobre os filhos, tentaria mantê-los no “rumo certo”, como as mães que conhece costumam se referir ao caminho de renúncia do que não se tem.
A inquietação se instaura no peito de Rita Preta, impedindo-a de esperar pelos funcionários da escola. Ela se exalta e reclama para o segurança. O homem continua imóvel, apenas escuta, mas parece concordar. Rita levanta a voz e diz que sempre que necessita de algo da escola é preciso esperar bastante tempo. Sai a passos firmes. Fátima apenas a segue. Ela se dá conta da companhia e pergunta de novo onde ele estava quando foi levado.
“Na saída da vila, antes de chegar ao largo.”
Rita saiu com tanta pressa que não tirou o uniforme amarelo do trabalho. Transpira, e por isso pega uma pequena toalha para enxugar o suor que tem no rosto. É uma noite sem vento e o céu está coberto de nuvens. Um estágio do tempo chamado de mormaço; umidade e calor intensos anunciando chuva nas próximas horas. É o momento de maior movimento diário na rua, quando os trabalhadores estão voltando para casa.
Dona Conceição deixa o interior da sua casa com telhado de amianto e um bom tanque de policarbonato para armazenar água. Encontra Rita e Fátima à sua porta. Repete o que foi dito por seu Aranha.
“A senhora se lembra quem eram os meninos que disseram que a polícia levou Cid?”
“Uns meninos que jogam bola na rua de baixo. Eles passam sempre por aqui, mas não sei o nome de ninguém.”
É como se cada passo, cada pergunta, cada rosto novo en­contrado fosse levá-la a uma revelação, que por sua vez a conduziria para mais perto ou mais longe do filho. Rita Preta continua sua caminhada disposta a perguntar sobre o ocorrido a quem encontrar durante o trajeto, antes de procurar de novo a delegacia para relatar o desaparecimento e a suposta abordagem. Acelera os passos e diz a Fátima para não se preocupar, ela pode voltar para casa. A comadre conhece bem as qualidades e os defeitos de Rita, por isso finge não escutar, apenas a acompanha. Elas passam por uma calçada rente a um muro que cerca uma casa desconhecida. Rita olha para um tecido branco em destaque, hasteado como uma bandeira na altura de seus olhos. Se afasta para não esbarrar no objeto, mas ao chegar mais perto descobre que é uma camisa de uniforme escolar. Como a da escola dos filhos.
Na camisa está uma nódoa conhecida, uma mancha de caneta que nenhum alvejante conseguiu retirar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

18/09/2026

Correnteza


4

Rita Preta abre a porta de casa e encontra Cid de pé, próximo à entrada do quarto. Ela não tem oportunidade de pensar no que precisa ser dito e se deixa guiar pelo instinto. Enquanto se aproxima, diz frases como “faz dois dias que te procuro” e “você quer me enlouquecer?”. A luz do dia não parece ser suficiente para dissipar a penumbra que envolve a casa e a imagem do filho. “Sabe aonde eu fui ontem?”, continua, “fui à delegacia registrar seu sumiço.” Rita está furiosa, mas se sente ao mesmo tempo aliviada. “Seus irmãos, os vizinhos, todos estão preocupados.” Em circunstâncias normais, ela reagiria com promessas de castigos e punições. Contudo, as horas de angústia só lhe permitem repreender com moderação. Cid permanece em silêncio e, estranhamente, aparenta ser menor do que de fato é. De início, não expressa qualquer emoção. Depois, apenas parece assustado. Rita caminha em sua direção, tenta alcançá-lo, mas tem a estranha impressão de que a sala se expande ao tentar se aproximar do filho. Por fim, ao chegar perto o suficiente para constatar se ele estava bem (corpo e olhos íntegros, pôde verificar num primeiro instante), lembra-se da sacola que segura nas mãos. “Tome”, Rita a estende para o filho. Ele levanta a mão direita para recebê-la. Ela afirma que é, sim, para ele, entre uma inspiração e uma expiração mais profunda.
Ele segura o volume e pergunta: “O que é isso?”.
“Gelo”, ela responde, sorrindo, como se portasse algo realmente valioso. “Eu trouxe do trabalho.”
Cid abre a sacola e percebe que está vazia. Não há indício de gelo ou de água ou de umidade. Um volume oco e sem conteúdo. Rita arregala os olhos com espanto, tenta compreender o que aconteceu, e o vazio começa a consumir tudo ao seu redor.
Rita Preta se levanta do sofá, assustada, o coração acelerado. Acende a luz do ambiente. Após uma noite em claro e avançando noutra, ela acabou por cochilar enquanto esperava por Cid. Dirige-se ao quarto dos filhos — ele passou por aqui? — e deixa que a luz da sala o ilumine o suficiente para que seja possível ver quem está dormindo. Juca está deitado, o lençol pendendo da cama ao chão. Cainho também dorme, e um livro emprestado — reconhece a marca da biblioteca da escola — repousa sobre seu peito, subindo e descendo com o movimento de sua respiração. A cama de cima do beliche permanece vazia. Rita recolhe e fecha o livro. Retira o lençol do chão para que nenhum inseto suba na cama do mais novo.
Estavam exaustos pelas horas de espera para registrar o desaparecimento. Rita tinha a sensação de que a energia de todos se esvaiu enquanto aguardavam atendimento, de pé ou sentados, acomodados por algum tempo nas poucas cadeiras que vagavam. Isso não se devia apenas à frustração por não ter conseguido fazer o registro, mas também à forma como fora recebida pela equipe na delegacia. Ela não teve contato direto nem com o delegado nem com o escrivão, apenas com colaboradores sentados em terminais de computadores, que registravam uma infinidade de problemas enfrentados pelos que vivem numa cidade grande. Por quase uma hora e meia repetiram que o sistema estava “fora do ar”. Ainda assim, Rita continuou a aguardar sua vez. Enquanto isso, ela percebia a maresia penetrando no ambiente sempre que a porta de vidro se abria e se fechava para aqueles que procuravam respostas às suas questões. Ameaças de morte. Roubos. Violência doméstica. Em algumas ocasiões, os envolvidos estavam presentes, juntos, e era necessário que alguém levantasse a voz para apaziguar os ânimos. Aquela pequena sala representava um microcosmo de diversos planos: uma comunidade, um bairro, uma cidade.
Do outro lado da avenida, o oceano e a escuridão prevaleciam onde nada se via, por causa da parca iluminação dos postes distantes. Rita Preta sabia com exatidão os traços daquela paisagem que costumava frequentar, embora nos últimos anos as idas tivessem se tornado mais escassas. O cheiro do mar estava mais acentuado, o que a fazia imaginar que talvez fosse o sargaço acumulado na beira da praia se misturando à água salgada. Foram muitas as vezes em que ela havia se banhado naquela praia, nos dias de genuína liberdade, com ou sem os filhos, nos braços dos amantes ou não, e, certamente, umas poucas vezes com Fátima.
A cabeça de Rita Preta estava realmente ocupada com o sumiço do filho rebelde, mas, se fosse um dia comum, ela poderia ter recordado a primeira vez que avistou o mar. Foi pouco depois de chegar à baía e num dia em que ela carregava como parte do trabalho diversos utensílios com os quais gostaria de brincar: baldes, regadores e pás de plástico dos filhos de seus patrões. Naquela época, Rita ainda não tinha atingido seu pleno crescimento, aumentaria mais doze centímetros nos dois anos seguintes. Ainda não era a Rita Preta, a alcunha surgiria algum tempo depois. Enquanto tentava equilibrar tudo de que precisava cuidar, enquanto o casal à frente se ocupava das crianças que corriam em direção às ondas, sua atenção estava focada nos brinquedos que tinha nos braços para não deixá-los cair. Com os pés e as sandálias afundando na areia, ela olhava para os objetos sob sua guarda, sem perceber que se aproximava do mar. De repente, uma espuma branca cobriu seus pés e, ao olhar para o horizonte vasto, o grande rio, se sentiu mortificada com sua imensidão e sonoridade. Mais uma onda veio e ela deixou tudo cair das mãos antes de correr de volta para a calçada.
“Que idiota”, teria ouvido da patroa se o som das ondas não tivesse abafado a voz dela. A mulher lamentou que ela própria tivesse de correr para tentar impedir que os brinquedos fossem levados pelas ondas. Uma das crianças, o menino, começou a gritar ao ver o mar engolir a pá e a peneira colorida, antes que a mãe pudesse alcançar os objetos. Rita tremia dos pés à cabeça, com um gosto amargo na boca, o medo conhecido. A mulher fazia gestos para que ela voltasse para a areia e a ajudasse com as crianças, que riam e choravam ao mesmo tempo, corriam e esperneavam. Ela também começou a temer as expressões severas da patroa e então se viu obrigada a retornar pé ante pé, atenta ao horizonte, para que, diante de qualquer perigo, pudesse voltar para a calçada acima do nível das águas.
“Começou bem”, teria dito a mulher, caso a memória de Rita não a traísse anos mais tarde — e completou dizendo que precisaria descontar o prejuízo com os brinquedos de seu salário. Mas isso realmente pouco importava a Rita. Meses antes tinha sobrevivido a uma tromba-d’água que devastou a vida de todos à sua volta. Ela continuava atenta ao mar, aflita, temerosa, mas também enfeitiçada, porque passaria a guardar essa experiência íntima como um recomeço. O início de sua vida naquela cidade, para onde sua mãe tinha migrado anos antes prometendo voltar; a vida que conheceria e desbravaria ainda muito nova; e também algo além e que não conseguia explicar, mas que talvez algum dia pudesse compreender: a pedra fundamental, a primeira onda, o prelúdio de algo maior. A história que não era apenas sua, mas de todos, e que não era apenas uma retórica, mas revelava quem exatamente ela era.
Rita Preta atende ao chamado e se senta diante da escrivã responsável pelo registro. Uma mulher de meia-idade, usando óculos e camisa polo azul, com os cabelos crespos tingidos que ainda refletem o brilho do creme para pentear. Ela não dirige o olhar a Rita; está concentrada, como se o próprio corpo fosse uma extensão da máquina, e faz perguntas enquanto percorre o teclado com alguma dificuldade. Pede que se identifique e informe por que se encontra numa delegacia. “Preciso registrar o desaparecimento do meu filho.” A partir daí, inicia uma série de outras perguntas para preencher o formulário à sua frente. Há quanto tempo ele desapareceu. Local. Filiação. Data de nascimento. “A senhora trouxe seu documento? O dele?” “Trouxe a certidão de nascimento”, explica, não havia encontrado a identidade. Acredita que está com ele. “A senhora não sabe nem mesmo o número?” Rita começa a revirar os papéis na bolsa em busca de anotações que possam ajudar, mas não encontra nada. Enquanto isso, a mulher continua as perguntas: onde mora; bairro; número; casa ou apartamento; raça; cor. “Moreno”, responde Rita, e a mulher que se afirma como negra desvia o olhar da tela para encarar Rita melhor. Ela contempla seu rosto por cima dos óculos antes de voltar à tela do computador.
“A senhora poderia descrever o que sabe sobre o desaparecimento? Ele estava em casa? Tinha saído?”
Rita tenta rememorar o que sabe. Explica que estava no trabalho e chegou no início da noite, mas não o encontrou em casa. Tentou telefonar, mas a chamada caía direto na caixa postal. A mulher pergunta se ela fizera buscas pela rua, pelo bairro. Se alguém poderia ter mais informações. Rita responde que não naquele momento. “Eu tinha um compromisso e precisei sair. Achei que ele estivesse com alguém, talvez com a namorada, e que voltaria para casa como sempre fazia.” “E ele estava?”, a escrivã questiona, mantendo uma postura distante, como uma atendente de telemarketing, voz robótica, digitando as informações lentamente. “Que horas a senhora deu pela falta dele?” Rita Preta tem medo de ser censurada pela escrivã e acaba mentindo. Afirma que voltou à meia-noite, quando na realidade eram duas da manhã. “E ele não estava lá”, deduz a mulher. “Não, ele não estava.” Relata que no dia seguinte foi trabalhar preocupada, e ainda assim continuou a acreditar que ele poderia ter chegado. Quando constatou que ele não chegou, decidiu ir até a casa da namorada dele. “Namorada não, a moça com quem ele está ficando”, se corrige, “é assim que eles dizem.”
A funcionária pergunta se ele frequentou a escola naquele dia, mas Rita não tem certeza da resposta. Ela menciona que Cid vinha faltando às aulas. Depois, a moça indaga se ele fazia uso de alguma droga ou estava envolvido em atividades ilegais. Rita responde, categórica: “Nunca. Nunca soube. É respondão. Rebelde. Gosta das coisas do jeito dele. Mas nunca usou nada não, senhora”. É questionada se as pessoas com quem ele andava eram usuários. Ela revela que conhece a maioria das mães e não tinha informações sobre nada ilícito. Contou que sabia que havia tráfico em sua comunidade — “Mas eles estão lá e a gente cá. Não mexem conosco”.
“A senhora tem algo mais a acrescentar?”
Sim. Rita tinha algumas perguntas: O que a senhora acha que deve ter acontecido? A polícia vai procurar por ele?
“O boletim será enviado ao setor competente. Abrirão um processo para realizar as diligências necessárias.”
Rita Preta quer perguntar mais, mas sabe que é bastante tarde. Tem os olhos secos de cansaço e aflição.
A atendente troca um olhar com outra próxima, como se quisesse dizer: “Olha como as coisas são. Não cuidam dos filhos e ainda esperam que a polícia os procure na hora que querem”. Rita mantém o olhar firme, determinada a concluir o registro, mas não vai suportar desdém de ninguém. Ela precisa aturar a indiferença, pelo menos naquele momento, para cumprir o que tinha ido fazer. No fundo, sua vontade era dizer à mulher que ela também poderia não viver num bom lugar e que poderia ter um sobrinho, um vizinho, ou mesmo um filho perdido e conhecer uma mãe passando pelo mesmo problema. Queria expressar — e talvez tenha feito isso, já que se espera que as mães sempre confessem seu irrenunciável altruísmo — que estava sem dormir direito havia mais de vinte e quatro horas, que não podia faltar ao trabalho para procurá-lo, pois isso significaria ter descontado do salário o dinheiro do aluguel e até da alimentação da família. Queria dizer que a atendente se demonstrava pouco solidária e que não se importava com sua fadiga nem com a má sorte que a levara àquela delegacia.
“Ah, não”, um homem que também fazia um registro e estava sentado três cadeiras à frente lamenta, “o sistema caiu.”
A mulher que atende Rita ajeita os óculos e ao mesmo tempo demonstra que está aliviada com a pausa que faria, afinal a recepção está apinhada de gente — “O sistema caiu. Se a senhora precisar do boletim e do número do seu processo, é preciso aguardar”.
“Vai demorar muito?”
“Não temos previsão.”
Rita olha para os filhos e os sente impacientes com a espera. Se levanta mais uma vez e se deixa envolver de novo pela maresia invadindo o ambiente quando a porta se abre para uma mulher que segura um pano ensopado de sangue próximo à testa.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

11/09/2026

Coração sem medo


3

“Dona Rita!”
Rita Preta se vira para identificar quem a chamara enquanto retirava o cadeado do portão. Ela reconhece a moça, que exibe a indiferença dos adolescentes. Pela primeira vez olha de frente para Daiane. Talvez já a tenha visto circulando pelo bairro com outras garotas, com Cid. Tinha traços quase infantis, como se tivesse acabado de chegar à adolescência.
“Minha mãe me contou que a senhora esteve lá em casa procurando por mim.”
Rita Preta segura o cadeado, deixa o portão entreaberto. Confirma que tinha ido atrás de informações. Cid não havia passado a noite em casa, por isso ela a procurou, mas a mãe lhe informou que ela estava dormindo.
“Eu não estava dormindo”, revelou sem nenhum constrangimento por desmentir a mãe, “estava acordada, mas minha mãe brigou comigo e me proibiu de falar com qualquer pessoa.” Daiane conta que esteve na casa de Rita querendo notícias de Cid, mas a encontrou fechada.
“Ele esteve com você?”
“Não. Sim.” Daiane responde, tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que tinha a dizer. Ele havia combinado de passar em sua casa.
Antes que consiga concluir a frase, Rita pergunta outra vez se ele tinha ido ao encontro da moça.
“Foi”, a garota responde, acrescentando que a mãe dissera que ela não estava. Cid foi embora e a garota continuou sem conseguir falar com ele. Ligou para o celular e as chamadas caíram todas na caixa postal. Continuou sem informar se eles flertavam ou namoravam. Manteve-se evasiva quanto ao relacionamento que tinham. “Minha mãe não quer que eu namore de jeito nenhum.”
No entanto, ela estava na casa de Rita movida pela mesma intenção que levou aquela mãe à sua: queria encontrar Cid.
O coração de Rita Preta se acelera. Uma corrente elétrica percorre seu corpo, da planta dos pés ao couro cabeludo. Ela termina de abrir o portão, convida a garota para entrar. Daiane recusa. A mãe não quer que ela entre na casa de estranhos. Rita, impaciente, percorre os poucos cômodos, abre a porta estreita do quintal, chama pelos filhos, um a um pelo nome. Somente Juca aparece.
“Seu irmão?”, pergunta, se referindo a Cid.
O menino faz sinal de que não, não tem notícias do irmão. Depois ele retorna à televisão para assistir a uma animação japonesa. Rita volta para o portão e responde. Agora são duas à procura de um rapaz, ambas contendo a frustração derivada da longa espera. Rita aproveita para perguntar se Daiane faz ideia de onde ele possa estar.
“Não”, responde, “mas se a senhora souber de algo, pede para ele falar comigo.”
Rita percebe uma verdadeira preocupação no semblante da jovem. Elas não se despedem. Enquanto Rita fecha o portão e fica pensando por onde deveria começar, Cainho atravessa a passagem, vindo para a casa. Pergunta se a mãe tem alguma notícia. Mais um dia, ele nunca ficou fora de casa por tanto tempo. Rita Preta pede a Cainho que tente ligar outra vez para o irmão.
Depois, sai em direção à casa de Fátima.
Fátima retirava as roupas penduradas num varal improvisado no pátio externo. Havia acabado de chegar, nem tinha tido tempo de abrir a casa.
“O menino sumiu”, Rita Preta dispara num tom de inquietação.
Ela deixa a vizinha a par de tudo o que fizera nas últimas horas: fala da briga que tiveram, das horas sem dormir, da descoberta da namorada, da falta de informação, do telefone que está desligado, das chamadas encaminhadas para a caixa postal, da cama intacta. Do silêncio crescente que promete enlouquecê-la.
“Não deve ter ido muito longe”, Fátima pondera. “Quando a fome apertar, ele volta correndo.”
“Eu preciso avisar à polícia sobre o desaparecimento.”
“É necessário?”, Fátima pergunta.
Ele nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa.
Rita se aproximou de Fátima quando os filhos ainda eram pequenos, e um pouco antes de se mudarem para o endereço atual. Residiam na mesma comunidade, em ruas próximas, onde havia esgoto a céu aberto e as casas alagavam com frequência na estação das chuvas. Apesar disso, como o local era mais próximo do ponto de ônibus, o aluguel continuava a aumentar, tornando-se incompatível com o salário que recebiam. Fátima encontrou uma casa onde passou a morar, fez a mudança primeiro. Em seguida, indicou para Rita um imóvel perto do lugar em que vivia, com um valor mais acessível. As duas tinham muito em comum: eram trabalhadoras e mães solteiras: Rita, mãe de três filhos; Fátima, de dois, um homem e uma mulher. As duas trabalharam como empregadas domésticas; Rita deixou a função, mas Fátima continua trabalhando para a mesma família. Com o passar dos anos, a amizade se firmou, e Fátima se tornou a pessoa mais próxima de Rita, com quem ela compartilha os altos e baixos vividos em seus relacionamentos. Foi a amiga que a ajudou a elaborar o plano para tirar o pai de Juca de casa. Da mesma maneira, Fátima dividiu com Rita as frustrações e humilhações passadas na casa onde trabalha. Compartilhavam também os problemas relacionados aos filhos, aos preços praticados pelas mercearias do bairro, às chuvas que transtornavam a vida de todos, aos vizinhos, às companhias de abastecimento de água e energia, ao tráfico e à polícia, que aparecia de tempos em tempos para espalhar o terror.
Fátima aconselha Rita Preta a esperar um pouco mais. Cid haveria de aparecer. Era jovem, estava magoado, quantos fugiam de casa depois de uma briga para assustar a família?, pergunta. Rita conta que pensa em telefonar para o pai dele. Reluta, é verdade, mas a gravidade do ocorrido a faria deixar de lado o próprio orgulho. Quem sabe ele não tinha ido procurá-lo para não ficar na rua? Ela sabia que o ex-marido não se interessava pelo filho. Nunca oferecera qualquer ajuda para atender a suas necessidades. Mas era possível que Cid tivesse procurado pelo pai e talvez estivesse com ele? Rita sabe que Evilásio se casou outra vez, que tem uma família.
Evilásio estranha a chamada telefônica da ex-mulher e, ciente da falta de cordialidade entre eles, ela vai direto ao assunto. Antes que terminasse de contar sobre o desaparecimento do filho, ele a interrompe para perguntar se o garoto estava implicado em algo errado, se estava usando drogas.
Rita considera a pergunta ofensiva. Não responde. Repete que o telefonema era para saber se Cid estava na casa do pai. O filho sabia onde ele morava — se é que ainda residia no mesmo lugar.
Evilásio então passa a acusar Rita de ser irresponsável e permissiva, por ter deixado o garoto se envolver com “coisas erradas”. Acusou-a de telefonar só para dizer que algo tinha dado errado; ele a interrompe antes que ela própria finalize o que gostaria de responder.
Rita está tomada pela raiva, mas decide ouvir o que Evilásio tem a dizer. Em seguida, desabafa: repete que ele, o pai, a abandonou antes que a criança completasse um ano. Que nunca se preocupou com o filho. Que durante quinze anos apareceu apenas três vezes: no primeiro ano após a separação, depois aos sete e finalmente quando o menino completou dez anos. Afirma que, se o filho cruzasse com ele na rua, não o reconheceria, assim como Evilásio também não o reconheceria. Grita, se revolta, cospe todos os xingamentos que estão engasgados.
Os filhos a observam, tentam descobrir com quem ela está falando, mas Rita está tão transtornada que nem percebe quando a ligação é interrompida.
Evilásio tinha desligado.
Rita diz que telefonou para saber se o filho estava lá, justifica para os outros.
Ela passa a mão pela cabeça, retira a faixa que segura o cabelo crespo e o mantém volumoso no topo. Dá alguns passos até a cozinha para depois voltar. Ordena aos dois que se vistam. Precisam acompanhá-la até a delegacia para registrar o desaparecimento do mais velho.
O mais novo desacredita que é hora de procurar ajuda. O do meio parece assustado com a palavra delegacia, com a palavra desaparecimento. Não compreendem muito bem a gravidade da situação. Rita também não explica que aquele era o protocolo. Apenas pega a bolsa de novo e repete que não quer voltar muito tarde para casa. Está determinada a encontrar Cid, mas também sabe que é preciso acordar cedo para trabalhar na manhã seguinte.
O relógio de registro de ponto não costuma perdoar os atrasos.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

06/09/2026

Correnteza




2

Cainho atravessa a porta do quarto para a sala e encontra a mãe desperta, uma caneca de café na mão e a face contra a luz da janela. O rosto está marcado de maquiagem — olhos pretos e delineados, as sobras de um batom vermelho — e, por trás da máscara, o semblante rígido, cansado, preocupado. O filho percebe, pela roupa, que a mãe saiu para encontrar o namorado da vez, alguém que ele ainda não conhece porque ela é muito reservada para comentar seus casos amorosos. Talvez ela nem tenha dormido. Deve ter voltado na hora em que ele escutou o cachorro da casa ao lado latir, noite alta ainda, e as grades do portão rangeram e a porta bateu sem cuidado e a luz do quarto se acendeu para Rita Preta se certificar de que todos estavam em casa. Cainho despertou com a movimentação, cobriu os olhos para se proteger da luz. A mãe recolheu o uniforme de Juca do chão, dobrou-o e o dispôs na cadeira ao lado da cama. O caçula tinha o sono profundo, a boca aberta, estava descoberto à mercê dos pernilongos. Ela estendeu o cobertor sobre o corpo dele. Rita então aproveitou o movimento do filho, Cainho, que se recobria, para perguntar por Cid. Ele não sabia.
“Seu irmão não voltou para casa”, Rita Preta diz enquanto o filho se aproxima da janela.
Então ela retira o celular da bolsa e verifica as mensagens. Depois, confere a hora e pergunta onde mora a garota com quem Cid tem se encontrado. Rita se banha no chuveiro com pressa, esfrega as mãos com força no rosto para retirar a maquiagem. Grita que está atrasada. Deveria ter saído para o trabalho, mas precisa saber onde o filho rebelde se encontra. Em minutos, veste a roupa limpa, arruma a bolsa e faz promessas mentais de castigos. Ensaia de maneira involuntária todo o desabafo que fará quando ele voltar.
Rita pede a Cainho que, caso Cid volte para casa enquanto ela estiver fora, lhe envie uma mensagem. Ela estará no trabalho, mas vai conferir o celular de vez em quando para se inteirar das notícias. Fala como uma pequena tirana, de forma intempestiva, conferindo ao mesmo tempo se o uniforme está na bolsa, sem olhar para o filho que se mostra entediado ao escutar a mãe.
Ele tenta dizer, durante o tempo que ela fala sem parar, que está sem crédito para enviar mensagens.
Então Rita pergunta de maneira genérica o que tanto eles faziam para esgotarem os créditos tão rápido. Lembra que poucos dias atrás tinha lhes dado dinheiro.

Ele contra-argumenta dizendo que já fazia dois meses que ela lhe dera dinheiro. O prazo dos créditos havia expirado.
Rita Preta sabe que pode estar errada sobre os poucos dias, mas não cede. Ela guarda aquela sensação superficial da velocidade do tempo, embora não a externe, pelo menos não naquele instante. Olha com ar de quem não acredita na desculpa e pede para Cainho ligar a cobrar, caso tenha notícias do irmão.
“E se ele não chegar?”
Se ele não chegar. Essa não parece ser uma possibilidade para Rita Preta. Ele chegará. E ela estará preparada, com o discurso pronto, para o desabafo e as punições que irá aplicar.
Uma hora qualquer ele chegará, pondera, e terá de explicar o que andou aprontando. Ela contesta com segurança, mas ao final já não se sente tão confiante. Se ele não chegar, Rita argumenta, não é preciso telefonar. A ausência de notícia é também uma resposta, retruca enquanto pega as chaves para sair de casa.
“Qual o nome dela mesmo?”
“Dela quem?”
“Da moça com quem seu irmão está ficando.”
Contudo, antes que Cainho termine de contar o que sabe, ela o instrui para que lave os pratos e reponha as garrafas de água na geladeira. Não havia água gelada, e o sol, muito cedo, já se exibe abrasador.

A casa onde a garota mora fica na base de uma ladeira íngreme, muito próxima a um córrego malcheiroso que corta o bairro, infestado de mosquitos. Rita Preta grita — ô de casa — para verificar se tem alguém.
Quando uma mulher surge na porta entreaberta, Rita pergunta se Daiane está em casa. Ela se posiciona do lado de fora, atrás do portão em uma varanda gradeada. A mulher parece irritada. Informa que é a mãe da garota e diz que a jovem está dormindo. Rita não se intimida com o mau humor e pergunta se ela poderia chamar a filha. “Sou a mãe do Cid, amigo dela”, diz, esperando assim uma boa recepção. A mulher não se demonstra muito disposta a atendê-la. Diz não conhecê-lo, mantém-se dentro da casa, respondendo à distância. Rita não quer prolongar a conversa, mas repete:
“Eles são amigos”, omitindo assim o que sabe sobre os dois. O filho não dormira em casa e por isso imaginou que pudesse estar com alguém conhecido.
“Quando ela acordar”, a mulher inicia a frase disposta a finalizar a importunação, “eu pergunto.” Quer saber se Rita mora nas redondezas e se compromete a deixar recado com alguém por lá.
Rita amaldiçoa a mulher enquanto se afasta da casa. Sente o peso da noite perdida nos olhos irritados, como se estivessem com grãos de areia. Está atrasada o suficiente para receber uma advertência da supervisora. Caminha até o ponto de ônibus sem disfarçar a preocupação, se deveria ou não faltar ao turno no supermercado para ir à escola ou buscar por mais notícias do filho junto aos colegas.

Enquanto espera pela condução, sente na boca o gosto da cerveja que bebeu à noite. Nem por isso o corpo parece mais leve, mesmo sem ter pisado no chão da seresta e ter repousado poucas horas nos braços de Jorge. Depois desses encontros, ela se vê tomada pelo vazio da solidão difícil de explicar — andar sozinha pela rua onde mora, a cama deserta —, mas dessa vez não lamenta a ausência do homem, pois o assunto “filho” domina quase todos os seus pensamentos. Dois dias antes, eles haviam discutido, os ânimos estavam exaltados quando Rita Preta ameaçou dar uma surra em Cid se ele não baixasse o tom de voz.
Ela tinha ficado sabendo que Cid estava faltando às aulas para passear na garupa das bicicletas com os companheiros de escola. Fátima, sua comadre e vizinha, o avistou ao voltar mais cedo do trabalho. Contou a Rita. Depois do expediente, ela se dirigiu à escola para verificar as ausências, e se enfureceu ao perceber que as faltas eram frequentes nos últimos meses.
A descoberta desencadeou mais uma briga entre os dois. Gritos. Portas batidas com violência. O choro sentido do filho mais novo, apavorado com a possibilidade de a mãe e o irmão se agredirem, preencheu os momentos de algum silêncio no diálogo exaltado. Rita Preta queria entender de onde Cid havia tirado aquele vocabulário chulo, enquanto ele disparava mais xingamentos contra todos. Com os olhos arregalados e visivelmente furiosa, ela se mostrava perplexa. Cid percorria a casa falando mais alto, demonstrando desdém. Para atingi-lo ainda mais, ela perguntou se ele estava usando algo.
“Quer saber se estou usando droga?”, ele disparou diante dos irmãos.
“Quero saber para te corrigir”, Rita retrucou, “para saber se você está se misturando com quem não presta.” Ela prestava atenção nos olhos indignados do filho e falava “olha seus olhos”, insistindo em saber por que estavam arregalados. Aquilo era fúria?
Os olhos dos dois estavam bem abertos, um tentando intimidar o outro com expressões carregadas de uma energia violenta, atestando que eram feitos da mesma natureza. Ela intuía que o filho não usava nenhuma substância. Era negligente com os estudos, parecia distante e pouco afetuoso com a mãe, mas Rita não considerava que usasse algo, nem mesmo álcool. Contudo, para machucar, ela trouxe de volta à discussão familiar o fantasma que assombra as comunidades por onde passou, sobretudo os pais e as mulheres chefes de família. Reavivou o estigma que recaía sobre todos como uma mancha, como se fosse um problema destinado a atingir apenas as pessoas de sua classe, as pessoas com as mesmas origens.
“E se tivesse?”, ele a desafia. “Pelo menos não iriam te apontar pela rua, como me apontam, por você sair com uns e outros.”
Rita gritou a palavra “repete” e procurou por um pedaço de corda guardado estrategicamente embaixo da pia da cozinha. Faria o malcriado engolir o que havia dito. Já fazia tempo desde a última surra, e por isso achava que era hora de puni-lo outra vez. Juca chorava, implorando à mãe que parasse, enquanto Cainho continuava deitado na cama no cômodo ao lado, com o travesseiro sobre a cabeça para abafar os sons da discussão.
Ela se aproximou segurando a corda grossa e, diferente das outras ocasiões, Cid não correu para se proteger. “Repete”, gritou Rita Preta. Ele olhou nos olhos da mãe e, para surpresa dela, repetiu o que havia dito. Ela fez um único movimento com a corda para trás e para a frente, fazendo-a vibrar como um chicote. Quando a corda atingiu o corpo de Cid, ele a agarrou e a transformou num cabo de guerra. Nenhum dos dois queria perder aquela batalha; lutavam arrastando os móveis, empurrando-os para longe até que Rita caiu no chão e Cid arremessou a corda no quintal. Mas ele sabia que não tinha vencido. Ela estava suada, cansada, prometeu se vingar. Não naquele momento, disse ela, mas Cid não teria vida fácil.
“Não quer estudar”, Rita gritou, “então vai ter que trabalhar para ajudar a pagar as contas, seu infeliz.” Disse isso enquanto Juca a ajudava a se levantar, apesar da recusa por puro orgulho — sentia-se humilhada de ter sido derrubada por um dos filhos.
Então, até que desse pela ausência do filho, dois dias se passaram sem que trocassem qualquer palavra, ou mesmo gesto ou expressão, evitando se olharem nos olhos ou permanecerem juntos no mesmo espaço diminuto da casa. Eles não poderiam saber — e talvez Cid até mesmo tenha desejado, num momento de grande raiva, não falar mais com a mãe —, mas essas seriam as últimas palavras que trocariam antes que ele desaparecesse.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

02/09/2026

Correnteza


1

Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus enquanto outras se reúnem debaixo da cober­tura de concreto — cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino, Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao super­mercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.

O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo, sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem, devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.

Um pedaço de lona para nos pés de Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir, deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos, ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro. Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico, aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus filhos.

Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta anos.
Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefone­mas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.

Detergente para louça, sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico, com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando — ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor. Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro; cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa, ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta as queixas, discute de maneira acalo­rada em defesa do filho. Mas em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem, no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos, reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo