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Fazia muito tempo que Rita Preta não
recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e
assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à
sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno
riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias
distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água
arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos,
papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega
renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e
ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia
parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus
enquanto outras se reúnem debaixo da cobertura de concreto —
cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do
dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da
placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o
vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece
a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num
espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino,
Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia
subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao
supermercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se
não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada
por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua
a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da
infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de
um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos
moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.
O rio, caminho sinuoso por onde
percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo
dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse
contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita,
menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um
barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho,
depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de
destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e
terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio
como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e
Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O
reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a
avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se
certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a
menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo,
sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão
insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto
tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela
abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro
do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já
estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem,
devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não
ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar
encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os
pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A
tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que
ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante,
correm para sempre e sem destino.
Um pedaço de lona para nos pés de
Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o
pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir,
deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as
imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à
memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou
depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos,
ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em
definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para
viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas
o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito
interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem
desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro.
Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas
alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio
do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a
ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a
camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de
cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que
isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o
porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico,
aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus
filhos.
Rita Preta inicia as atividades do dia
no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que
recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham
numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam
o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues.
Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no
temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para
reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta
anos.
Quando a chuva desabou severa numa
manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas
que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia
que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente
violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter.
Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código
de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta
e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de
paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com
um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida,
mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que
a abala são as promessas não cumpridas, os telefonemas não
atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de
pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada,
viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma
família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que
sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à
casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em
hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e
destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se
conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um
peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos
anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance.
Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se
seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro,
que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e
depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para
o cafundó de onde ele tinha saído.
Detergente para louça, sacos de
feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água
sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo
isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir
ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da
impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais
desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga,
Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar
sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta
vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior,
Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua
exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete
sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa
lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de
sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava
namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela
creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas
obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores
informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e
o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele
desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos
últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico,
com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho
conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se
tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando —
ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de
fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai
ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor.
Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a
responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu
fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela
sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se
movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há
reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor
parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga
compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das
brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro;
cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa,
ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a
ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o
que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente
que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele
é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela
energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de
mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para
as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e
vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta
as queixas, discute de maneira acalorada em defesa do filho. Mas
em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é
impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as
coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a
supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um
campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que
coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que
adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na
cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente
mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu
lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa
registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao
celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador
enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um
passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se
dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como
ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que
precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de
pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa
naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um
segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da
vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos,
e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta
atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem,
no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando
precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais
encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa
viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da
humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os
homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis
de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta
horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se
demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal
descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a
mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos
se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência
dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na
superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos,
reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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