02/09/2026

Correnteza


1

Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus enquanto outras se reúnem debaixo da cober­tura de concreto — cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino, Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao super­mercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.

O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo, sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem, devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.

Um pedaço de lona para nos pés de Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir, deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos, ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro. Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico, aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus filhos.

Rita Preta inicia as atividades do dia no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues. Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta anos.
Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefone­mas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.

Detergente para louça, sacos de feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga, Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior, Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico, com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando — ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor. Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro; cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa, ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta as queixas, discute de maneira acalo­rada em defesa do filho. Mas em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos, e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem, no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos, reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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