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01/10/2023

Piloto de Guerra | XXVII


Mas estraguei tudo. Dilapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de Homem.
Para salvar esse culto de um Príncipe contemplado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações humanas que esse culto fundava, minha civilização, no entanto, dispendeu uma energia e um talento consideráveis. Todos os esforços do “Humanismo” só tenderam a esse fim. O Humanismo se deu por missão exclusiva esclarecer e perpetuar a primazia do Homem sobre o indivíduo. O Humanismo pregou o Homem.
Mas quando se trata de falar sobre o Homem, a linguagem se torna incômoda. O Homem se distingue dos homens. Nada se diz de essencial sobre a catedral, se não se falar das pedras. Não se diz nada de essencial sobre o Homem, ao se tentar defini-lo por qualidades de homem. O Humanismo trabalhou assim numa direção já obstruída. Tentou captar a noção de Homem por uma argumentação lógica e moral, e a transportá-lo assim nas consciências.
Nenhuma explicação verbal jamais substitui a contemplação. A unidade do Ser não é transponível em palavras. Se eu desejasse ensinar aos homens, cuja civilização ignorasse, o amor por uma pátria ou por uma propriedade, não disporia de nenhum argumento para comovê-los. São os campos, os pastos e o gado que compõem uma propriedade. Cada um e, todos juntos, têm por papel enriquecer. Há, não obstante, na propriedade, alguma coisa que escapa à análise dos elementos, pois há proprietários que, por amor ao que é seu, arruinar-se-iam para salvá-lo. É, bem ao contrário, essa “alguma coisa” que enobrece os elementos com uma qualidade particular. Eles se tornam o gado de uma propriedade, as pradarias de uma propriedade, os campos de uma propriedade…
Assim nos tornamos homem de uma pátria, de uma profissão, de uma civilização, de uma religião. Mas para se proclamar de tais Seres, convém, primeiro, fundá-los em si. E, onde não existe o sentimento da pátria, nenhuma linguagem o transportará. Somente por atos é possível fundar-se o Ser a que se pretende pertencer. Um Ser não é o império da linguagem, mas o dos atos. Nosso Humanismo negligenciou os atos. Fracassou em sua tentativa.
O ato essencial aqui recebeu um nome. É o sacrifício.
Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um ato. É um dom de si mesmo ao Ser a que se almeja pertencer. Apenas este compreenderá o que é uma propriedade, pois terá sacrificado uma parte de si, lutado para salvá-la e sofrido para embelezá-la. Então lhe virá o amor pela propriedade. Uma propriedade não é a soma dos interesses, eis o erro. É a soma dos dons.
Enquanto minha civilização se apoiou em Deus, salvou essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do homem. O Humanismo negligenciou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o Homem pelas palavras e não pelos atos.
Só dispunha, para salvar a visão do Homem através dos homens, dessa mesma palavra enfeitada por uma maiúscula. Nós nos arriscávamos a derrapar numa ladeira perigosa e confundir, um dia, o Homem com o símbolo da média ou do conjunto dos homens. Nós arriscávamos confundir nossa catedral com a soma das pedras.
E, pouco a pouco, perdemos a herança.
Em vez de afirmar os direitos do Homem através dos indivíduos, começamos a falar dos direitos da Coletividade. Pudemos ver introduzir-se insensivelmente uma moral do Coletivo que negligencia o Homem. Essa moral explicará claramente por que cabe ao indivíduo sacrificar-se pela Comunidade. Ela não explicará mais, sem artifícios de linguagem, por que uma Comunidade deve se sacrificar por um só homem. Porque é íntegro que mil morram para libertar um único da prisão da injustiça. Nós nos lembramos disso ainda, mas estamos pouco a pouco esquecendo. E, no entanto, é nesse princípio, que nos distingue tão claramente do cupinzeiro, que reside, antes de tudo, nossa grandeza.
Por falta de um método eficaz, inserimos Humanidade — que se encontra no Homem — nesse cupinzeiro, que é a soma dos indivíduos.
O que tínhamos a opor às religiões do Estado ou da Massa? O que se tinha tornado nossa grande imagem do Homem nascido de Deus? Ela mal se reconhecia através de um vocabulário que estava vazio de sua substância.

Pouco a pouco, esquecendo o Homem, nós limitamos nossa moral aos problemas do indivíduo. Exigimos de cada um que não lesasse outro indivíduo. De cada pedra, que não lesasse outra pedra. E decerto elas não se lesam uma à outra, quando estão empilhadas num campo. Mas elas lesam a catedral que porventura tenham fundado, a qual, por sua vez, lhes teria fundado a própria significação.
Nós continuamos a pregar a igualdade dos homens. Mas, tendo esquecido o Homem, não entendemos mais nada do que falávamos. Por não sabermos sobre o que fundar a Igualdade, fizemos dela uma afirmação vaga, da qual não mais soubemos nos servir. Como definir a Igualdade, no plano dos indivíduos, entre o sábio e o bruto, o imbecil e o talentoso? A igualdade, no plano material, exige, se pretendermos definir e realizar, que ocupem todos um lugar idêntico e exerçam o mesmo papel. O que é absurdo. O princípio da Igualdade se abastarda, então, em princípio de identidade.
Continuamos a pregar a Liberdade do homem. Mas, tendo esquecido o Homem, definimos nossa Liberdade como uma licença vaga, exclusivamente limitada ao erro cometido contra outrem. O que é vazio de significado, pois não há ato que não engaje outrem. Se me mutilar, sendo soldado, sou fuzilado. Não há indivíduo sozinho. Quem se esquiva, lesa uma comunidade. Quem é triste, entristece os outros.
De nosso direito a uma liberdade assim entendida, não soubemos mais nos servir sem contradições intransponíveis. Sem saber definir em que caso nosso direito era válido, e em que caso não era mais, fechamos hipocritamente os olhos, a fim de salvar um princípio obscuro sobre os inumeráveis entraves que toda sociedade, necessariamente, trazia a nossas liberdades.
Quanto à Caridade, nem mesmo ousamos mais pregá-la. Com efeito, outrora o sacrifício que funda os Seres tomava o nome de Caridade quando honrava a Deus através de sua imagem humana. Através do indivíduo, doávamos a Deus ou ao Homem. Mas, tendo esquecido Deus ou o Homem, só doávamos ao indivíduo. Desde então, a Caridade tomava frequentemente a figura de ação inaceitável. É à Sociedade, e não ao temperamento individual, que cabe assegurar a equidade no compartilhamento das provisões. A dignidade do indivíduo exige que ele não seja reduzido à vassalagem pelas larguezas de outrem. Seria paradoxal ver os possuidores reivindicar, além da posse de seus bens, a gratidão daqueles que nada possuem.
Mas, acima de tudo, nossa caridade mal compreendida se voltava contra a sua finalidade. Exclusivamente fundada sobre os movimentos de piedade para com os indivíduos, ter-nos-ia proibido qualquer corretivo. Enquanto a Caridade verdadeira, sendo exercício de um culto ao Homem, para além do indivíduo, impunha combater o indivíduo para nele fazer crescer o Homem.

Assim, perdemos o Homem. E, perdendo o Homem, esvaziamos de calor essa fraternidade, logo a que nossa civilização nos pregava, pois que somos irmãos em alguma coisa e não simplesmente irmãos. O compartilhamento não garante a fraternidade. Esta se liga unicamente ao sacrifício. Liga-se ao dom comum ao que é mais vasto que nós mesmos. Mas, confundindo com um minguamento estéril essa raiz de toda existência verdadeira, nós reduzimos nossa fraternidade à mera tolerância mútua.
Cessamos de doar. Contudo, se pretendo não doar senão a mim mesmo, nada recebo, pois não construo nada do que me constitui e por isso não sou nada. Se vierem agora exigir que morra por interesses, eu me recusarei a morrer. O interesse manda primeiro viver. Qual é o impulso de amor que pagaria minha morte? Morre-se por uma casa. Não por objetos ou por paredes. Morre-se por uma catedral. Não por pedras. Morre-se por um povo. Não por uma multidão. Morre-se pelo amor do Homem, se ele for o ponto de sustentação do conjunto de uma Comunidade. Morre-se unicamente por aquilo por que se pode viver.
Nosso vocabulário parecia quase intacto, mas nossas palavras, esvaziadas de substância real, nos levariam, se pretendêssemos usá-las, a contradições sem saída. Éramos obrigados a fechar os olhos a esses litígios. Nós éramos obrigados, por não sabermos construir, a deixar as pedras amontoadas no campo, e a falar da Coletividade, com prudência, sem ousar precisar muito bem sobre o que falávamos, pois, de fato, não falávamos de nada. Coletividade é palavra vazia de significado, enquanto Coletividade não se ligar a alguma coisa. Uma soma não é um Ser.

Se a nossa Sociedade ainda parecia desejável, se nela o Homem ainda conservava algum prestígio, era na medida em que a civilização verdadeira, a qual traíamos por nossa ignorância, prolongava sobre nós seu brilho condenado e nos salvava, apesar de nós. Como nossos adversários compreenderiam o que não compreendíamos mais? Tudo o que viram de nós foram essas pedras amontoadas. Tentaram dar um sentido a uma Coletividade que nós não sabíamos mais definir, por não nos lembrarmos do Homem.
Alguns chegaram, de súbito, alegremente, às conclusões mais extremas da lógica. Dessa coleção, fizeram uma coleção absoluta. As pedras devem ser idênticas às pedras. E cada pedra reina soberana sobre si mesma. A anarquia se lembra do culto ao Homem, mas o aplica, com rigor, ao indivíduo. E as contradições que surgem desse rigor são piores do que as nossas.
Outros juntaram as pedras espalhadas em pilhas no campo. Pregaram os direitos da Massa. A fórmula tampouco satisfaz. Pois se é intolerável que um único homem tiranize uma Massa, é igualmente intolerável que uma Massa esmague um único homem.
Outros se apoderaram dessas pedras sem poder e, dessa soma, fizeram um Estado. Tal Estado tampouco transcende os homens. Também ele é expressão de uma soma. Ele é poder da Coletividade delegado às mãos de um indivíduo. Ele é reino de uma pedra, a qual pretende identificar-se às outras, no conjunto de pedras. Esse Estado prega claramente uma moral do Coletivo que recusamos ainda, mas para a qual caminhamos, nós mesmos, lentamente, por não nos lembrarmos do Homem, o único que justificaria nossa recusa.
Esses fiéis da nova religião opor-se-ão a que vários mineiros arrisquem sua vida para o salvamento de um único mineiro soterrado. Pois o monte de pedras, então, está lesado. Eles darão cabo do gravemente ferido, se ele atrapalhar o avanço de um exército. O bem da Comunidade, eles estudarão na aritmética — e a aritmética os governará. Nisso perderão de transcender a maiores do que si mesmos. Odiarão, por conseguinte, o que difere deles, pois não disporão de nada, acima de si mesmos, em que fundir-se. Qualquer costume, qualquer raça, qualquer pensamento diferente se tornará para eles uma afronta. Eles não disporão do poder de absorver, pois para converter o Homem em si, convém não amputá-lo, mas exprimi-lo a si mesmo, oferecer um objetivo a suas aspirações e um território a suas energias. Converter, sempre é libertar. A catedral pode absorver as pedras, que nela tomam um sentido. Mas o monte de pedras não absorve nada e, sem condições de absorver, esmaga. Assim é, mas de quem é a culpa?
Não mais me surpreende que o monte de pedras, que é pesado, tenha se sobreposto às pedras desordenadas.
Entretanto, sou eu o mais forte.

Sou o mais forte se me reencontro. Se nosso Humanismo restaurar o Homem. Se soubermos fundar nossa Comunidade e se, para fundá-la, usarmos de um só instrumento eficaz: o sacrifício. Nossa Comunidade, tal como nossa civilização a construiu, também não era a soma de nossos interesses — ela era a soma de nossos dons.
Eu sou o mais forte, porque a árvore é mais forte do que as matérias do solo. Ela as drena para si. Ela os transforma em árvore. A catedral é mais brilhante do que os amontoados de pedras. Eu sou o mais forte porque só minha civilização tem poder de amalgamar em sua unidade, sem amputar, as diversidades particulares. Ela vivifica a fonte de sua força, ao mesmo tempo que nela se sacia.

Eu quis, na hora da partida, receber antes de doar. Minha pretensão era vã. Foi como a triste aula de gramática. É preciso dar antes de receber… E construir antes de habitar.
Fundei meu amor pelos meus nesse longo dom do sangue, como a mãe funda o seu pelo dom do leite. Aí está o mistério. É preciso começar pelo sacrifício para fundar o amor. O amor, depois, pode solicitar outros sacrifícios e empregá-los em todas as vitórias. O homem deve sempre dar os primeiros passos. Deve nascer antes de existir.
Voltei da missão tendo fundado meu parentesco com a pequena fazendeira. Seu sorriso me foi transparente e, através dele, vi minha vila. Através da minha vila, meu país. Pois sou de uma civilização que escolheu o Homem como pilar. Sou do Grupo 2/33, que desejava combater pela Noruega.
Pode ser que Alias, amanhã, me designe para outra missão. Eu me vesti, hoje, para o serviço de um deus ao qual eu estava cego. O tiro de Arras trincou o casco e eu enxerguei. Todos os nossos enxergaram também. Se então eu decolar no amanhecer, saberei pelo que ainda estou combatendo.
Mas desejo me lembrar do que vi. Preciso de um Credo simples para me lembrar.

Eu combaterei pela primazia do Homem sobre o indivíduo — como do Universal sobre o particular.
Eu creio que o culto do Universal exalte e una as riquezas particulares e funde a única ordem verdadeira, que é a da vida. Uma árvore é uma ordem, apesar de suas raízes diferirem dos galhos.
Eu creio que o culto do particular acarrete somente a morte, pois funda a ordem na semelhança. E confunde a unidade do Ser com a identidade de suas partes. E devasta a catedral para alinhar as pedras. Eu combaterei então todo aquele que pretender impor um costume particular aos outros costumes, um povo particular aos outros povos, uma raça particular às outras raças, um pensamento particular aos outros pensamentos.

Eu creio que a primazia do Homem funde a única Igualdade e a única Liberdade que tenham significado. Eu creio na igualdade dos direitos do Homem através de cada indivíduo. E creio que a Liberdade é a da ascensão do Homem. Igualdade não é Identidade. A Liberdade não é a exaltação do indivíduo contra o Homem. Eu combaterei todo aquele que pretenda subjugar a um indivíduo — como a uma massa de indivíduos — a liberdade do Homem.

Eu creio que minha civilização denomine Caridade o sacrifício consentido ao Homem, a fim de estabelecer seu reino. A caridade é o dom do Homem, através da mediocridade do indivíduo. Ela funda o Homem. Eu combaterei todo aquele que, pretendendo que minha caridade honre a mediocridade, renegue o Homem e, assim, aprisione o indivíduo numa mediocridade definitiva. Eu combaterei pelo Homem. Contra seus inimigos. Mas também contra mim mesmo.

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

21/09/2023

Piloto de Guerra | XXVI


É fácil fundar a ordem de uma sociedade sobre a submissão de cada um a regras fixas. É fácil moldar um homem cego que aceite, sem protestar, um mestre ou um Alcorão. Mas o sucesso que consiste em, para libertar o homem, fazê-lo reinar sobre si mesmo, é maior.
Mas o que é libertar? Se eu liberto, no deserto, um homem que não sente nada, o que significa a sua liberdade? Só há liberdade de “alguém” que vai a algum lugar. Libertar para esse homem seria ensinar-lhe a sede e traçar-lhe uma rota até um poço. Somente assim se proporiam a ele passos aos quais não faltaria significado. Libertar uma pedra não significa nada se não houver peso. Pois a pedra, uma vez livre, não irá a lugar algum.
No entanto, minha civilização tentou fundar as relações humanas sobre o culto do Homem além do indivíduo, a fim de que o comportamento de cada um frente a si mesmo ou a outrem não fosse mais conformismo cego aos costumes do cupinzeiro, mas livre exercício do amor.
A tendência invisível do peso libera a pedra. As inclinações invisíveis do amor liberam o homem. Minha civilização tentou fazer de cada homem o Embaixador de um mesmo príncipe… Ela considerou o indivíduo como caminho ou mensagem de algo maior do que ele mesmo, ofereceu à liberdade de sua ascensão direções imantadas…
Conheço bem a origem desse campo de forças. Durante séculos, minha civilização contemplou Deus através dos homens. O homem era criado à imagem de Deus. Respeitava-se Deus no homem. Os homens eram irmãos em Deus. Esse reflexo de Deus conferia uma dignidade inalienável ao homem. As relações do homem com Deus fundavam com evidência os deveres de cada um frente a si mesmo ou a outrem.
Minha civilização é herdeira dos valores cristãos. Eu refletirei sobre a construção da catedral, a fim de compreender melhor a sua arquitetura.
A contemplação de Deus fundava os homens iguais, porque iguais em Deus. E essa igualdade tinha um significado claro. Pois só se pode ser igual em alguma coisa. O soldado e o capitão são iguais na nação. A igualdade não passa de uma palavra vazia de sentido se não houver nada a que ligar essa igualdade.

Entendo claramente por que essa igualdade, que era a igualdade dos direitos de Deus através dos indivíduos, proibia limitar a ascensão de um indivíduo: Deus podia decidir tomá-lo por caminho. Mas como se tratava também da igualdade dos direitos de Deus “sobre” os indivíduos, entendo por que os indivíduos, fossem quem fossem, eram submetidos aos mesmos deveres e ao mesmo respeito às leis. Exprimindo Deus, eles eram iguais em seus direitos. Servindo Deus, eram iguais em seus deveres.
Entendo por que uma igualdade estabelecida em Deus não acarretava nem contradição nem desordem. A demagogia intromete-se quando, por falta de denominador comum, o princípio de igualdade se abastarda em princípio de identidade. Então o soldado recusa a saudação do capitão, pois o soldado, saudando o capitão, honraria um indivíduo, e não a Nação.

Minha civilização, herdando de Deus, fez os homens iguais no Homem.

Entendo a origem do respeito dos homens, de uns para com os outros. O sábio devia respeito ao próprio taifeiro, pois, através do taifeiro, ele respeitava Deus, de quem o taifeiro também era Embaixador. Quaisquer que fossem o valor de um e a mediocridade do outro, nenhum homem podia pretender reduzir outro à escravidão. Não se humilha um Embaixador. Mas esse respeito pelo homem não levava à prosternação degradante diante da mediocridade do indivíduo, diante da estupidez ou da ignorância, já que primeiro honrava-se essa qualidade de Embaixador de Deus. Assim, o amor de Deus fundava, entre os homens, as relações nobres, tratando os negócios de Embaixador para Embaixador, acima da qualidade dos indivíduos.

Minha civilização, herdeira de Deus, fundou o respeito ao homem através dos indivíduos.

Entendo a origem da fraternidade dos homens. Os homens eram irmãos em Deus. Só se pode ser irmão em alguma coisa. Se não há nó que os una, os homens ficam justapostos e não ligados. Não se pode ser irmão simplesmente. Meus camaradas e eu somos irmãos “no” Grupo 2/33. Os franceses “na” França.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez os homens irmãos no Homem.

Entendo o significado dos deveres de caridade que me eram pregados. A caridade servia a Deus através do indivíduo. Era devida a Deus, qualquer que fosse a mediocridade do indivíduo. Essa caridade não humilhava o beneficiário, nem o atava pelas amarras da gratidão, pois não é a ele, mas a Deus, que a doação era feita. O exercício dessa caridade, entretanto, jamais foi homenagem à mediocridade, à estupidez ou à ignorância. O médico devia engajar sua vida nos cuidados com o mais vulgar dos pestilentos. Ele servia a Deus. Não era diminuído pela noite em claro, passada à cabeceira do ladrão.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez assim, da caridade, dom ao Homem através do indivíduo.

Entendo a significação profunda da Humildade exigida do indivíduo. Ela não se rebaixava. Ela se elevava. Ela o esclarecia sobre seu papel de Embaixador. Assim como o obrigava a respeitar Deus através de outrem, ela o obrigava a respeitar-se a si mesmo, a fazer-se mensageiro de Deus, no caminho para Deus. Ela lhe impunha esquecer-se para crescer, pois se o indivíduo se exalta sobre sua própria importância, o caminho logo se transforma em muralha.

Minha civilização, herdeira de Deus, pregou também o respeito de si mesmo, isto é, o respeito do Homem através de si mesmo.

Compreendo, enfim, por que o amor de Deus estabeleceu os homens responsáveis uns pelos outros e lhes impôs a Esperança como uma virtude. Pois, de cada um, ela fazia o Embaixador do mesmo Deus, nas mãos de cada um repousava a salvação de todos. Ninguém tinha o direito de se desesperar, pois era mensageiro de alguém superior. O desespero era a renegação do próprio Deus. O dever da Esperança poderia ter-se traduzido por: “Tu te julgas tão importante? Que fatuidade há em teu desespero!”.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez cada um responsável por todos os homens e todos os homens responsáveis por cada um. Um indivíduo deve se sacrificar pela salvação de uma coletividade, mas não se trata aqui de uma aritmética imbecil. Trata-se do respeito do Homem através do indivíduo. A grandeza, com efeito, de minha civilização, é que cem mineiros devem arriscar suas vidas pelo salvamento de um só mineiro soterrado. Eles salvam o Homem.

Entendo claramente, sob essa luz, o significado da liberdade. Ela é liberdade do crescimento de árvore no campo de força de seu grão. Ela é clima de ascensão do homem. É semelhante a um vento favorável. Pela simples graça do vento, os veleiros estão livres, no mar.

Um homem assim construído disporia do poder da árvore. Quanto espaço não cobriria com suas raízes! Que massa humana ela não absorveria para desabrochar ao sol!

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

17/09/2023

Piloto de Guerra | XXV


Quem vê nisso uma doutrina de fraco? O chefe é responsável por tudo. Ele diz: Fui vencido. Ele não diz: “Meus soldados foram vencidos”. O verdadeiro homem fala assim. Hochedé diria: Eu sou responsável.
Compreendo o sentido da humildade. Ela não é um aviltamento de si. É o próprio princípio da ação. Se, com o intuito de absolver-me, justifico meus infortúnios pela fatalidade, submeto-me à fatalidade. Se os justifico pela traição, submeto-me à traição. Mas se assumo o erro, reivindico meu poder de homem. Posso agir sobre aquilo que sou. Sou parte constituinte da comunidade dos homens.
Há, então, alguém em mim que combato para crescer. Foi necessária essa viagem difícil para que distinguisse em mim, de um jeito ou de outro, o indivíduo que eu combato do homem que amadurece. Não sei o que vale a imagem que me vem, mas penso: o indivíduo é apenas uma via. Só importa o Homem que a emprega.
Já não posso me satisfazer com verdades de polêmica. De nada serve acusar os indivíduos. Eles são apenas vias e passagens. Não posso mais justificar o enregelamento de minhas metralhadoras por negligências de funcionários, nem a ausência de povos amigos por seu egoísmo. A derrota, decerto, se exprime por falhas individuais. Mas uma civilização molda os homens. Se aquela a que julgo pertencer está ameaçada pela derrota dos indivíduos, tenho o direito de perguntar-me por que ela não os forjou diferentemente.
Uma civilização, assim como uma religião, acusa a si mesma se deplora a moleza dos fiéis. Cabe-lhe exaltá-los. O mesmo vale se deplora o ódio dos infiéis. Cabe-lhe convertê-los. Entretanto, a minha, que outrora passou suas provações, inflamou seus apóstolos, arrebentou os violentos, libertou povos escravos, não soube, hoje, nem exaltar nem converter. Se desejo arrancar a raiz das diversas causas de minha derrota, se tenho ambição de reviver, devo reencontrar primeiro o fermento que perdi.
Pois acontece numa civilização como para o trigo. O trigo nutre o homem, mas o homem, por sua vez, salva o trigo, cuja semente ele armazena. A reserva de grãos é respeitada, de geração de trigo para geração de trigo, como uma herança.
Não me basta saber qual trigo desejo para que ele germine. Se quero salvar um tipo de homem — e seu poder — devo salvar também os princípios que o fundam.
Todavia, se conservei a imagem da civilização que reivindico como minha, perdi as regras que a transportavam. Descubro esta noite que as palavras que usava não tocavam mais o essencial. Eu pregava assim a Democracia, sem suspeitar que enunciava, com isso, sobre as qualidades e a sorte do homem, não mais o conjunto de regras, mas um conjunto de aspirações. Desejava que os homens fossem fraternos, livres e felizes. Claro. Quem não concorda? Sabia expor “como” deve ser o homem. E não “quem” ele deve ser.
Falava, sem precisar as palavras, da comunidade dos homens. Como se o clima ao qual fazia alusão não fosse fruto de uma arquitetura particular. Parecia-me evocar uma evidência natural. Não há evidência natural. Uma tropa fascista, um mercado de escravos são, também, comunidades de homens.
Eu não habitava mais essa comunidade dos homens como arquiteto. Beneficiava-me de sua paz, sua tolerância, seu bem-estar. Não sabia nada a seu respeito, senão que estava instalado nela. Estava nela como sacristão ou como um papa-hóstias. Ou seja, parasita. Ou seja, vencido.
Assim são os passageiros de um navio. Usam o navio sem nada lhe dar. Ao abrigo dos salões, que eles tomam por cenário absoluto, prosseguem com seus jogos. Ignoram o trabalho das meias-naus sob o peso eterno do mar. Que direito reclamarão se a tempestade desmantelar seu navio?
Se os indivíduos se abastardaram, se fui vencido, do que vou reclamar?
Há um denominador comum com as qualidades que desejo aos homens de minha civilização. Há uma pedra angular na comunidade particular que eles devem fundar. Há um princípio de onde tudo saiu outrora, raízes, tronco, galhos e frutos. Qual é ele? Ele era grão potente no adubo dos homens. Só este me pode fazer vencedor.

Parece-me que compreendo muitas coisas na minha estranha noite de vila. O silêncio é de uma qualidade extraordinária. O mínimo ruído preenche o espaço inteiro, como um sino. Nada me é desconhecido. Nem esse lamento de gado, nem esse apelo longínquo, nem esse barulho de uma porta que se fecha. Tudo acontece como em mim mesmo. Não é preciso apressar-me em captar o sentido de um sentimento que pode esmaecer…
Eu penso: “É o tiro de Arras…”. O tiro rachou uma casca. Neste dia inteiro, eu certamente preparei em mim a morada. Eu era apenas um gerente resmungão. O indivíduo é isso. Mas o Homem surgiu. Ele se instalou em meu lugar, simplesmente. Olhou a multidão amontoada, e viu um povo. Seu povo. O Homem, denominador comum entre mim e esse povo. É por isso que, correndo para o Grupo, parecia-me correr a um grande fogo. O Homem olhava através dos meus olhos o homem denominador comum dos camaradas.

Seria um sinal? Estou a ponto de crer nos sinais… Tudo é, esta noite, entendimento tácito. Qualquer barulho me atinge como uma mensagem límpida e ao mesmo tempo obscura. Ouço um passo tranquilo preencher a noite:
Ei, boa noite, Capitão…
Boa noite!
Não o conheço. Foi entre nós como um “oi” de bateleiros, de uma barca a outra.
Ainda uma vez tive o sentimento de um miraculoso parentesco. O Homem que me habita esta noite não cessa de enumerar os seus. O Homem denominador comum dos povos e das raças…
Ele voltava, aquele ali, com sua provisão de preocupações, de pensamentos e de imagens. Com sua carga própria, encerrada dentro de si. Poderia tê-lo abordado e falado com ele. Na pureza de uma senda de vila, teríamos trocado algumas de nossas lembranças. Assim, os comerciantes trocam tesouros, caso se cruzem, retornando das ilhas.
Em minha civilização, aquele que difere de mim, longe de me lesar, enriquece-me. Nossa unidade, acima de nós, funda-se no Homem. Assim, nossas conversas à noite, no Grupo 2/33, longe de prejudicar nossa fraternidade, a apoiam, pois ninguém deseja ouvir seu próprio eco, nem olhar-se num espelho.
No Homem se encontram, também, os Franceses da França e os Noruegueses da Noruega. O Homem os liga em sua unidade, ao mesmo tempo que exalta, sem contradizer-se, seus costumes particulares. A árvore também se exprime, por galhos que não se parecem com as raízes. Se, então, lá, escrevem-se contos sobre a neve, se tulipas são cultivadas na Holanda, se flamencos se improvisam na Espanha, estamos todos enriquecidos no Homem. É talvez por isso que desejemos, nós do Grupo, combater pela Noruega…

E eis que me parece chegar ao termo de uma longa peregrinação. Não descubro nada, mas, como o despertar de um sono, revejo simplesmente o que eu não olhava mais.
Minha civilização repousa sobre o culto do Homem através dos indivíduos. Elaentou, por séculos, mostrar o Homem, como se tivesse ensinado a distinguir uma catedral através das pedras. Ela pregou esse Homem que dominava o indivíduo…
Pois o Homem de minha civilização não se define a partir dos homens. São os homens que se definem por ele. Há nele, como em todo Ser, alguma coisa que a matéria que o compõe não explica. Uma catedral é bem diferente de uma soma de pedras. É geometria e arquitetura. Não são as pedras que a definem, é ela que enriquece as pedras com seu próprio significado. Essas pedras são enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas contribuem para sua unidade. A catedral absorve até as carrancas mais careteiras em seu cântico.
Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Eu acreditei que o Homem resumia os homens, como a Pedra resume as pedras. Confundi a catedral e a soma de pedras e, pouco a pouco, a herança desvaneceu. É preciso restaurar o Homem. É ele a essência de minha cultura. É ele a chave de minha Comunidade. É ele o princípio da minha vitória.

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

12/09/2023

Piloto de Guerra | XXIV




Interroguei aquele fazendeiro sobre o número de instrumentos. E o fazendeiro respondeu:
Não entendo nada do seu trabalho.
Acredite, faltam alguns instrumentos: os que nos teriam feito ganhar a guerra…
O senhor quer cear conosco?
Já jantei.
Mas me acomodaram, à força, entre a sobrinha e a fazendeira:
Você, minha sobrinha, vá mais para lá… Dê um lugar ao capitão.
E não é somente aos camaradas que me percebo ligado. É, através deles, a todo o meu país. O amor, uma vez germinado, brota das raízes que não param mais de crescer.
Meu fazendeiro distribui o pão, em silêncio. As preocupações do dia o enobreceram de uma austera gravidade. Ele garante, pela última vez, quem sabe, como o exercício de um culto, essa partilha.
E penso nos campos nos arredores que formaram a matéria desse pão. O inimigo amanhã os invadirá. Que não esperem por um tumulto de homens armados! A terra é grande. A invasão por aqui só se mostraria, talvez, como uma sentinela solitária, perdida ao longe na imensidão dos campos, uma marca cinza nas margens dos campos de trigo. Nada terá mudado aparentemente, mas basta um sinal, em se tratando do homem, para que tudo seja diferente.
O pé de vento que circular sobre a plantação se parecerá sempre com o pé de vento sobre o mar. Mas o pé de vento na seara, se nos parece ainda mais amplo, é porque recenseia, desenrolando-o, um patrimônio. E assegura-se do futuro. Ele é carícia a uma esposa, mão pacífica numa cabeleira.
Esse trigo, amanhã, terá mudado. O trigo é mais do que um alimento carnal. Nutrir o homem não é engordar um gado. O pão desempenha tantos papéis! Aprendemos a reconhecer, no pão, um instrumento da comunidade dos homens, por causa do pão que se partilha. Nós aprendemos a reconhecer, no pão, a imagem da grandeza do trabalho, por causa do pão a ganhar com o suor do rosto. Aprendemos a reconhecer, no pão, o veículo essencial da piedade, em virtude do pão que se distribui nas horas de miséria. O sabor do pão compartilhado não tem igual. Entretanto, eis que todo o poder desse alimento espiritual, do pão espiritual que nascerá o campo de trigo, está em perigo. Meu fazendeiro, amanhã, rasgando o pão, não servirá mais, talvez, à mesma religião familiar. O pão, amanhã, talvez, não alimente mais a mesma luz dos olhares. O pão é como o óleo dos lampiões a óleo. Ele se transforma em luz.
Observo a sobrinha, que é muito bonita, e penso: o pão, através dela, se faz graça melancólica. Faz-se pudor. Faz-se doçura do silêncio. No entanto, o mesmo pão, por causa de uma simples mancha cinza à margem de um oceano de trigo, se nutrir amanhã o mesmo lampião, não formará talvez mais a mesma chama. O essencial do poder do pão terá mudado.
Lutei para preservar a qualidade de uma luz, mais ainda do que para salvar o alimento dos corpos. Lutei pelo brilho particular em que se transfigura o pão das casas da minha região. O que me sensibiliza primeiro, nessa jovenzinha secreta, é o revestimento imaterial. É não sei qual ligação entre as linhas de um rosto. É o poema lido na página e não a página.
Ela se sentiu observada. Levantou os olhos para mim. Parece-me que sorriu para mim. Foi apenas como um sopro sobre a fragilidade das águas. Essa aparição me perturba. Eu sinto, misteriosamente presente, a alma particular que é daqui e não de alhures. Experimento uma paz da qual digo: “É a paz dos reinos silenciosos”.
Vi luzir a luz do trigo.

O rosto da sobrinha se refez liso sobre o fundo de mistério. A fazendeira suspira, olha à sua volta e se cala. O fazendeiro, que medita sobre o dia a nascer, fecha-se em sua sabedoria. Há, no silêncio de todos eles, uma riqueza interior semelhante ao patrimônio de uma vila também ameaçada.

Uma estranha evidência me faz sentir responsável por essas provisões invisíveis. Eu deixo a minha fazenda. Vou a passos lentos. Levo essa carga que me é mais doce do que pesada, como seria uma criança adormecida contra meu peito.
Eu me prometera essa conversa com a minha vila. Mas eu não tenho nada a dizer. Sou parecido com o fruto bem atado à árvore na qual pensava, havia algumas horas, quando a angústia se apaziguou. Eu me sinto ligado àqueles da minha terra, simplesmente. Pertenço-lhes como eles me pertencem. Quando meu fazendeiro distribuiu o pão, ele nada deu. Ele compartilhou e trocou. O mesmo trigo, em nós, circulou. O fazendeiro não empobrecia. Ele enriquecia: ele se nutria de um pão melhor, porque transformado em pão de uma comunidade. Quando esta manhã decolei por eles em missão de guerra, eu também nada lhes dei. Não lhes damos nada, nós, do Grupo. Nós somos sua parte de sacrifício de guerra. Entendo por que Hochedé faz a guerra sem grandes palavras, como um ferreiro que forja para a vila. “Quem é o senhor?”
Sou o ferreiro da vila. E o ferreiro trabalha feliz.
Se agora tenho esperança, quando eles parecem se desesperar, também não me distingo deles. Sou simplesmente sua parte de esperança. É certo que já estamos vencidos. Tudo está em suspenso. Tudo desmorona. Mas eu continuo a sentir a tranquilidade de um vencedor. As palavras são contraditórias? Zombo das palavras. Sou semelhante a Pénicot, Hochedé, Alias, Gavoille. Não dispomos de nenhuma linguagem para justificar nosso sentimento de vitória. Mas nós nos sentimos responsáveis. Ninguém pode se sentir, ao mesmo tempo, responsável e desesperado.
Derrota… Vitória… Não sei muito bem usar essas fórmulas. Há vitórias que exaltam, outras que abastardam. Derrotas que assassinam, outras que despertam. A vida não é enunciável por estados, mas por iniciativas. A única vitória de que não posso duvidar é a que reside no poder dos grãos. Plantado o grão, ao longo das terras escuras, ei-lo já vitorioso. Mas é preciso transcorrer tempo para que se assista a seu triunfo no trigo.
Nada havia esta manhã, além de um exército desmantelado e uma multidão amontoada. Mas uma multidão amontoada, se há uma única consciência onde ela já se enlaça, não está mais amontoada. As pedras do canteiro só estão amontoadas aparentemente, se houver, perdido no canteiro, um homem, um único que seja, que pense catedral. Não me preocupo com o limão esparso se ele abriga uma semente. A semente o drenará para construir.
Quem chega à contemplação se torna semente. Quem descobre uma evidência puxa todo mundo pela manga para mostrá-la. Quem inventa, logo prega sua invenção. Não sei como um Hochedé se exprimirá ou agirá. Mas pouco me importa. Ele expandirá sua fé tranquila em torno de si. Entrevejo melhor o princípio das vitórias: aquele que se garante um lugar de sacristão ou de carola na catedral construída já está vencido. Mas quem traz no coração uma catedral a construir já é vencedor. A vitória é fruto do amor. Somente o amor reconhece o rosto a moldar. Somente o amor conduz ao amor. A inteligência só vale se a serviço do amor.
O escultor está carregado do peso de sua obra: pouco importa se ignora como a moldará. De toque em toque, de erro em erro, de contradição em contradição, ele irá direto através da argila, à sua criação. Nem a inteligência nem o julgamento são criadores. Se o escultor é apenas ciência e inteligência, faltará talento às suas mãos.
Enganamo-nos tempo demais sobre o papel da inteligência. Negligenciamos a substância do homem. Acreditamos que a virtuosidade das almas baixas pudesse ajudar no triunfo das causas nobres, que o egoísmo hábil podia exaltar o espírito de sacrifício, que a seca do coração podia, pelo sopro dos discursos, fundar a fraternidade ou o amor. Negligenciamos o Ser. A semente de cedro, de um jeito ou de outro, se tornará cedro. A semente de espinheiro se tornará espinheiro. Recusarei doravante julgar o homem sobre as fórmulas que justificam suas decisões. Enganamo-nos muito facilmente sobre a caução das palavras, como sobre a direção dos atos. Ignoro se aquele que segue em direção à sua casa vai em direção da querela ou do amor. Eu perguntaria: “Que homem é ele?”. Só então saberei ao que ele é propenso, e aonde irá. Vamos sempre, no fim das contas, ao que estamos propensos.
O germe, obcecado pelo sol, sempre encontra seu caminho através dos pedregulhos do solo. O lógico puro, se nenhum sol o puxar, afoga-se na confusão dos problemas. Eu me lembrarei da lição que me deu meu próprio inimigo. Em que direção da coluna blindada preciso seguir para investir contra o adversário pela retaguarda? Ele não sabe responder. O que é preciso que seja a coluna blindada? É preciso que ela seja o peso do mar contra o dique.
O que é preciso fazer? Isto. Ou o contrário. Ou outra coisa. Não há determinismo do futuro. Que é preciso ser? Eis a questão essencial, pois só o espírito fertiliza a inteligência. Ele a engravida da obra vindoura. A inteligência a conduzirá a termo. Que deve fazer o homem para criar o primeiro navio? A fórmula é complicada demais. Esse navio nascerá, ao final das contas, de mil tateios contraditórios. Mas esse homem, o que deve ser? Aqui tomo a criação pela raiz. Ele deve ser mercador ou soldado, pois, então, necessariamente, por amor das terras longínquas, suscitará os técnicos, fará transpirar os operários e lançará, um dia, seu navio! O que é preciso fazer para que toda uma floresta se acabe? Ah, é muito difícil… O que é preciso ser? É preciso ser incêndio!
Nós entraremos amanhã na noite. Que meu país ainda exista quando o dia nascer de novo! O que é preciso fazer para salvá-lo? Como enunciar uma solução simples? As necessidades são contraditórias. Importa salvar a herança espiritual, sem a qual a raça será privada de seu gênio. Importa salvar a raça, sem a qual a herança será perdida. Os lógicos, sem linguagem que concilie os dois salvamentos, ficarão tentados a sacrificar a alma ou o corpo. Mas zombo dos lógicos. Eu quero que meu país exista — em seu espírito e em sua carne — quando o dia nascer. Para agir pelo bem do meu país, será preciso inclinar-me, a cada instante, nessa direção, com todo o meu amor. Não há passagem que o mar não encontre, se ele forçar.
Nenhuma dúvida sobre a salvação me é possível. Compreendo melhor a minha imagem do fogo para o cego. Se o cego vai em direção ao fogo, é porque surgiu nele a necessidade do fogo. O fogo já o governa. Se o cego busca o fogo, é que já o encontrou. Assim o escultor já tem sua criação quando molda a argila. Nós também. Nós sentimos o calor de nossos laços: eis por que somos já vencedores.
Já somos sensíveis à nossa comunidade. Será preciso, decerto, exprimi-la, para se ligar a ela. Isto é esforço de consciência e linguagem. Mas será preciso também, para nada perder de sua substância, fazer-nos surdos às armadilhas das lógicas provisórias, das chantagens e das polêmicas. Nós devemos, antes de tudo, nada renegar do que somos.
E é por isso, que no silêncio da minha noite de vila, apoiado numa parede, começo, no retorno de minha missão sobre Arras — e esclarecido, parece-me, por minha missão — a me impor regras simples que não trairei jamais.

Como sou um deles, não renegarei jamais os meus, o que quer que eles façam. Não pregarei jamais contra eles diante de outrem. Se for possível tomar sua defesa, eu osfenderei. Se me cobrirem de vergonha, encerrarei tal vergonha no meu coração e me calarei. O que quer que eu pense então sobre eles, jamais servirei de testemunha de acusação. Um marido não vai de casa em casa instruir, ele mesmo, seus vizinhos de que sua mulher é uma desavergonhada. Ele não salvará assim sua honra. Pois sua mulher é de sua casa. Ele não pode enobrecer-se ficando contra ela. É dentro de casa que terá o direito de exprimir sua cólera. Assim, eu não me desaliarei de uma derrota que, muitas vezes, me humilhará. Sou da França. A França formava os Renoir, os Pascal, os Pasteur, os Guillaumet, os Hochedé. Ela formava também incapazes, políticos e trapaceiros. Mas me parece fácil demais evocar uns e negar qualquer parentesco com os outros.
A derrota divide. A derrota desfaz o que estava feito. Há, aí, ameaça de morte: eu não contribuirei com essas divisões, atribuindo a responsabilidade do desastre àqueles entre os meus que pensam diferente de mim. Não há nada a tirar desse processo sem juiz. Nós fomos todos vencidos. Eu fui vencido. Hochedé foi vencido. Hochedé não atribui a derrota a outros além dele. Ele pensa: “Eu, Hochedé, eu, da França, fui fraco. A França de Hochedé foi fraca. Eu fui fraco nela e ela fraca em mim”. Hochedé sabe muito bem que, se ele se apartar dos seus, só glorificará a si mesmo. E, desde então, não será mais o Hochedé de uma casa, de uma família, de um Grupo, de uma pátria. Ele não passará do Hochedé de um deserto.
Se eu aceitar ser humilhado pela minha casa, posso agir sobre minha casa. Ela me pertence, como lhe pertenço. Mas, se recusar a humilhação, a casa se desmantelará como quiser, e irei sozinho, todo glorioso, porém mais vazio do que um morto.

Para ser, importa primeiro responsabilizar-se. No entanto, há poucas horas, eu estava cego. Eu estava amargo. Mas estou julgando mais claramente. Do mesmo modo que recuso queixar-me dos outros franceses, desde que me sinto da França, não concebo mais que a França se queixe do mundo. A França era responsável pelo mundo. A França poderia ter oferecido ao mundo o denominador comum que o teria unido. A França poderia ter servido de referência ao mundo. Se a França tivesse tido sabor de França, brilho de França, o mundo inteiro far-se-ia resistência por meio da França. Renego doravante minhas recriminações ao mundo. A França devia servir-lhe de alma, caso lhe faltasse uma.
A França poderia ter reunido a seu redor. Meu Grupo 2/33 ofereceu-se sucessivamente como voluntário para a guerra da Noruega, depois da Finlândia. O que representavam a Noruega e a Finlândia para os soldados e os oficiais do meu país? Pareceu-me sempre que eles aceitavam, confusamente, morrer por um certo gosto das festas de Natal. A salvaguarda desse sabor, no mundo, parecia-lhes justificar o sacrifício de suas vidas. Se fôssemos o Natal do mundo, o mundo se salvaria através de nós.
A comunidade espiritual dos homens no mundo não jogou a nosso favor.
Mas, fundando essa comunidade de homens no mundo, teríamos salvo o mundo e nós mesmos. Nós falhamos nessa tarefa. Cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos. Eu entendo pela primeira vez um dos mistérios da religião originária da civilização que reivindico como minha: “Carregar os pecados dos homens…”. E cada um carrega todos os pecados de todos os homens.

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

06/09/2023

Piloto de Guerra | XXIII


Mudei bastante! Esses dias, comandante Alias, eu estava amargo. Esses dias, enquanto a invasão blindada não encontrava absolutamente nada, as missões sacrificadas custaram ao Grupo 2/33 dezessete de suas vinte e três tripulações. Nós aceitamos, e o senhor, primeiro que todos, bancar os mortos pelas necessidades da figuração. Ah! Comandante Alias, eu estava amargo, estava enganado!
Nós nos agarrávamos, o senhor em primeiro lugar, ao pé da letra de um dever cujo espírito se obscurecera. O senhor, primeiro, nos impelia por instinto, não a vencer, era impossível, mas a devir. O senhor sabia, como nós, que as informações adquiridas não seriam transmitidas a ninguém. Mas o senhor guardava ritos cujo poder estava escondido. O senhor nos interrogava gravemente, como se nossas respostas adiantassem de alguma coisa nos parques de blindados, nas lanchas, caminhões, estações, nos trens nas estações. O senhor até me pareceria de uma revoltante má-fé:
Sim, sim! Observamos muito bem do posto de piloto.
No entanto, o senhor tinha razão, comandante Alias.
Essa multidão que eu sobrevoo, levei-a em conta sobre Arras. Eu só sou ligado àqueles a quem doo. Só entendo a quem desposo. Só existo enquanto me saciam as fontes das minhas raízes. Sou dessa multidão. Essa multidão me pertence. A quinhentos e trinta quilômetros por hora e duzentos metros de altitude, agora que desembarquei sob minha nuvem, eu a desposo à noite como um pastor que, numa olhada, recenseia, ajunta e enlaça o rebanho. Essa multidão não é mais uma multidão: é um povo. Como eu poderia perder a esperança?
Apesar do apodrecimento da derrota, trago em mim, como ao fim de um sacramento, esse grave e durável júbilo. Estou imerso na incoerência, todavia, estou como um vencedor. Qual é o camarada de volta de uma missão que não traz esse vencedor em si? O capitão Pénicot me contou seu voo desta manhã: “Quando me parecia que uma das armas automáticas estava atirando muito de perto, eu bifurcava bem em cima dela, a toda a velocidade, rente ao chão, e largava uma rajada de metralhadora que apagava na hora aquela luz avermelhada, como um sopro à chama de uma vela. Um décimo de segundo depois eu passava feito turbilhão sobre a equipe… Era como se a arma tivesse explodido! Eu encontrava a equipe de servidores espalhada, revirada pela fuga. Tinha a impressão de estar jogando boliche”. Pénicot ria, Pénicot ria magnificamente. Pénicot, capitão vencedor!
Sei que a missão terá transfigurado até esse Gavoille artilheiro que, preso à noite na basílica erguida por oitenta projéteis de guerra, passou, como num casamento de soldados, sob a abóbada das espadas.

Pode pegar no noventa e quatro.
Dutertre acaba de se localizar sobre o Sena. Eu baixei para cem metros. A quinhentos e trinta quilômetros por hora, o solo carrega em nossa direção grandes retângulos de alfafa ou de trigo e de florestas triangulares. Sinto um prazer físico estranho ao observar esse desmoronamento de vidros, que divide incansavelmente minha proa. O Sena surge para mim. Quando o atravesso, em oblíquo, ele escapa como que rodopiando sobre si mesmo. O movimento me dá o mesmo prazer do toque suave de uma foice. Estou bem instalado. Sou patrão a bordo. Os reservatórios aguentam. Vou ganhar um trago de Pénicot, no pôquer de ás, depois vou bater Lacordaire no xadrez. É assim que eu sou, quando sou vencedor.
Capitão… Estão atirando… Estamos em zona proibida…
É ele quem calcula a navegação. Eu estou isento de qualquer recriminação.
Estão atirando muito?
Atiram como podem… Damos meia-volta?
Ah, não…
O tom é blasé. Nós conhecemos o dilúvio. O tiro antiaéreo para nós não passa de uma chuva de primavera.
Dutertre… sabe… é idiota deixar-se abater em casa!
Não abateremos nada… isso vai exercitá-los.
Dutertre está amargo.
Eu não estou amargo. Estou feliz. Gostaria de falar aos homens da minha região.
Hã… Sim, atiram como…
Olha, está vivo esse aí! Observo que meu artilheiro nunca manifestou espontaneamente sua existência. Ele dirigiu toda a aventura sem sentir necessidade de se comunicar. A menos que tenha sido ele a pronunciar “Ai ai ai” ao tiro mais forte do canhão. De todo modo, não foi uma abundância de confidências.
Mas se trata aqui de sua especialidade: a metralhadora. Quando se trata da especialidade, não dá mais para deter os especialistas.

Não consigo deixar de opor esses dois universos. O universo do avião e o do solo. Acabo de levar Dutertre e meu artilheiro para além dos limites permitidos. Vimos a França queimar em chamas. Vimos luzir o mar. Envelhecemos em grande altitude. Nós nos debruçamos sobre uma terra longínqua, como sobre vitrines de um museu. Brincamos ao sol com o rastro dos caças inimigos. Depois, descemos novamente. Nós somos jogados no incêndio. Sacrificamos tudo. E então, aprendemos mais sobre nós mesmos do que aprenderíamos em dez anos de meditação. Saímos enfim do retiro de dez anos…
E naquela estrada, que sobrevoávamos para atingir o céu de Arras, a caravana, quando a encontrarmos, talvez tenha progredido, no máximo quinhentos metros.
O tempo que eles levarem para empurrar um carro quebrado até o buraco, para trocar o pneu, que tamborilarem imóveis no volante, para deixar um atalho liquidar seus próprios destroços, teremos voltado à escala.

Nós pulamos por cima da derrota toda. Somos semelhantes àqueles peregrinos que, embora sofram, o deserto não os atormenta, porque já habitam de coração a cidade santa.
A noite que chega estacionará essa multidão amontoada em seu estábulo de infortúnio. O rebanho se amontoa. Por que ele gritaria? Mas podemos correr para os camaradas, e me parece que nos apressamos para uma festa. Assim, uma simples cabana iluminada ao longe torna a mais rude das noites de inverno uma noite de Natal. Lá, aonde vamos, seremos acolhidos. Lá, aonde vamos, comungaremos o pão do jantar.
Basta, por hoje, de aventura, estou feliz e cansado. Largarei com os mecânicos o avião enriquecido de buracos. Vou me despir de minhas pesadas vestes de voo e, como é tarde demais para apostar um trago contra Pénicot, vou simplesmente me sentar para o jantar entre os camaradas…
Estamos atrasados. Os camaradas que estão atrasados não voltam mais. Estão atrasados? Tarde demais. Azar deles! A noite os joga na eternidade. Na hora do jantar, o Grupo conta seus mortos.
Os desaparecidos embelezam-se na lembrança. Nós os vestimos para sempre com seu mais claro sorriso. Renunciaremos a essa vantagem. Surgiremos em fraude, à maneira de anjos maus e caçadores clandestinos. O comandante não morderá seu bocado de pão. Ele nos olhará. Talvez diga: “Ah! Aí estão vocês…”. Os camaradas se calarão. Apenas nos observarão.
Eu tinha pouca estima, outrora, pelos adultos. Estava errado. Jamais envelhecemos. Comandante Alias! Os homens são puros também na hora do retorno: “Aí está você, que é dos nossos…”. E o pudor faz o silêncio.
Comandante Alias, comandante Alias… Essa comunidade entre vocês, eu a experimentei como um fogo para o cego. O cego se senta e estende as mãos, ele não sabe de onde lhe vem o prazer. De nossas missões, voltamos prontos a uma recompensa de gosto desconhecido, que é simplesmente o amor.
Não reconhecemos nisso o amor. O amor no qual normalmente pensamos é de um patético mais tumultuoso. Mas se trata, aqui, do verdadeiro amor: uma rede de relações que nos faz devir.

Antoine de Sain-Exupéry, in Piloto de Guerra

24/08/2023

Piloto de Guerra | XXI


Inclinado sobre a terra, eu não percebera o espaço vazio que aos poucos aumentava entre mim e as nuvens. As traçantes jorravam uma luz de trigo: como saberia que no auge de sua ascensão, elas distribuíam aqueles materiais obscuros, um a um, como se enfiassem pregos? Eu os descubro acumulados, já em pirâmides vertiginosas que derivam para trás com a lentidão de banquisas. Na escala de tais perspectivas, tenho a sensação de estar imóvel.
Sei bem que essas construções, tão logo erguidas, já terão gasto o seu poder. Cada um desses flocos só dispôs de um centésimo de segundo do direito de vida ou de morte. Mas me cercaram sem que me apercebesse. Sua aparição pesou, de repente, sobre minha nuca, o peso de uma formidável reprovação.
Essa sucessão de explosões abafadas, cujo som é coberto pelo ronco dos motores, impõe-me a ilusão de um silêncio extraordinário. Eu não sinto nada. Abre-se em mim o vazio da espera, como se estivessem a deliberar.
Eu acho… Acho, todavia, que: “Estão atirando muito alto!”, e viro a cabeça para trás, meio contra a vontade, para ver balançar um bando de águias. Estas renunciam. Mas nada há a esperar.
As armas que nos erraram reajustam seus tiros. As muralhas de estouros se constroem em nosso patamar. Cada núcleo de fogo, em alguns segundos, ergue sua pirâmide de explosões, que logo abandona, extinta, para erguer alhures. O tiro não nos mira: ele nos encerra.
Dutertre, está longe ainda?
— … Se conseguíssemos aguentar mais três minutos, acabava. Mas…
Desistiremos, talvez…
Jamais!
Esse escuro cinzento é sinistro, esse escuro de farrapos amontoados. A planície era azul. Imensamente azul. Azul-marinho…

Que sobrevida posso esperar? Dez segundos? Vinte segundos? O estremecimento das explosões já me desgasta permanentemente. As que são próximas parecem, no avião, rochas sendo despejadas numa caçamba. Depois disso, o avião inteiro faz um barulho quase musical. Estranho suspiro… Mas são tiros perdidos. É como o raio. Quanto mais próximo, mais se simplifica. Alguns choques são elementares: é que a explosão nos marcou com seus estouros. A fera não esbarra no boi quando o mata. Crava suas garras de chumbo, sem derrapar. Apodera-se do boi. Assim, os tiros certeiros se incrustam simplesmente no avião, como num músculo.
Ferido?
Não!
Ei, Artilheiro, ferido?
Não!
Mas esses choques, que é preciso descrever bem, não valem. Eles tamborilam num casco, num tambor. Em vez de furar os reservatórios, poderiam muito bem ter-nos aberto o ventre. Mas o ventre em si é apenas um tambor. O corpo, dane-se! Não é ele que vale… Isso é extraordinário!
Sobre o corpo, tenho duas palavras a dizer. Mas, na vida cotidiana, ficamos cegos ao óbvio. É preciso, para que se mostre o óbvio, a urgência de tais condições. É preciso essa chuva de luzes ascendentes, é preciso esse ataque de golpes de lanças, é preciso enfim que seja erguido esse tribunal para o juízo final. Então, a gente compreende.
Eu não perguntava durante o aparelhamento: “Como se apresentam os últimos instantes?”. A vida sempre desmentiu os fantasmas que eu inventava. Mas se tratava, dessa vez, de andar nu sob o furor de punhos imbecis, sem nem mesmo um dobrar de cotovelos para proteger o rosto.
A provação, eu tinha uma provação na própria carne. Eu a imaginava em minha carne. O ponto de vista que adotava era necessariamente o do meu próprio corpo. Cuidamos tanto de nosso corpo. Tanto o vestimos, lavamos, tratamos, barbeamos, satisfizemos-lhe a sede e o nutrimos. Identificamo-nos com esse animal doméstico. Nós o conduzimos ao alfaiate, ao médico, ao cirurgião. Sofremos com ele. Gritamos com ele. Amamos com ele. Dizemos dele: sou eu. Eis que de repente essa ilusão desmorona. Zombamos do corpo! Nós o relegamos ao nível da criadagem. Basta que a cólera se avive um pouco, o amor se exalte, o ódio se enovele, então se quebra aquela famosa solidariedade.
Teu filho está preso no incêndio? Tu o salvarás! Não podemos deter-te! Estás queimando! Pouco te importas. Tu deixas esses farrapos de carne como garantia a quem os quiser. Descobres que não fazias questão do que tanto te valia. Venderias, se fosse um obstáculo, teu ombro pelo luxo de um tranco com os ombros! Habitas teu próprio ato. És o teu ato. Não te encontras mais alhures! Teu corpo é teu, não é tu. Vais bater? Ninguém te dominará ameaçando-te em teu corpo. Tu? És a morte do inimigo. Tu? És o salvamento do teu filho. Tu és troca. E não sentes o sentimento de perder na troca. Teus membros? Ferramentas. Pouco nos importamos com uma ferramenta que quebra quando estamos talhando. E tu te trocas contra a morte de teu rival, o salvamento de teu filho, a cura de teu doente, tua descoberta, se és o inventor! Esse camarada do Grupo está mortalmente ferido. A citação traz: “Disse a seu observador: estou perdido. Corra! Salve os documentos!”. Somente a salvaguarda dos documentos importa, ou da criança, a cura do doente, a morte do rival, a descoberta! Teu significado se mostra deslumbrante. É teu dever, é teu ódio, é teu amor, é tua fidelidade, é tua invenção. Não encontras nada mais em ti.
O fogo não arrancou apenas a carne, mas, no mesmo golpe, o culto da carne. O homem não se interessa mais por si. Somente impõe-se a ele aquilo de que é feito. Ele não se despedaça, se morre: ele se confunde. Ele não se perde, ele se encontra. Isto não é voto de moralista. É uma verdade usual, uma verdade de todos os dias, que uma ilusão de todos os dias cobre com uma máscara impenetrável. Como eu poderia prever, quando estava me vestindo, e temia por meu corpo, que estava me preocupando com ninharias? É somente no instante de entregar esse corpo que todos, sempre, descobrem, estupefatos, quão pouco fazem questão do corpo. Mas, decerto, durante a minha vida, quando nada de urgente me governa, quando meu significado não está em jogo, não concebo problemas mais graves do que os do meu corpo.
Meu corpo, estou me lixando para ti! Estou expulso para fora de ti, não tenho mais esperança e nada me falta! Eu renego tudo o que eu era até este segundo. Não era eu quem pensava, nem eu quem sentia. Era meu corpo. Tive de arrastá-lo, como pude, até aqui, onde descubro que ele não tem nenhuma importância.
Aprendi aos quinze anos a minha primeira lição: um irmão, mais novo do que eu, estava desenganado havia alguns dias. Numa manhã, por volta das quatro horas, sua enfermeira me acorda:
Seu irmão mandou chamá-lo.
Está se sentindo mal?
Ela nada responde. Eu me visto depressa e vou ver meu irmão.
Ele me diz com uma voz habitual:
Queria falar contigo antes de morrer. Eu vou morrer.
Uma crise nervosa o crispa e o faz calar-se.
Durante a crise, ele faz “não” com a mão. E não compreendo o gesto. Imagino que a criança recuse a morte. Mas, retomada a calmaria, ele me explica:
Não te assustes… Não estou sofrendo. Não sinto dor. Não consigo evitar, é meu corpo.
Seu corpo, território estrangeiro, já outro.
Mas esse irmão caçula que sucumbiria em vinte minutos, desejava ser sério. Ele sente a necessidade premente de delegar sua herança. E me diz: “Eu queria fazer meu testamento…”. Enrubesce, está orgulhoso, é claro, de agir como homem. Se fosse construtor de torres, ele me confiaria sua torre a construir. Se fosse pai, ele me confiaria seus filhos a instruir. Se fosse piloto de avião de guerra, ele me confiaria seus documentos de bordo. Mas ele é só uma criança. Só me confia um motor a vapor, uma bicicleta e uma carabina. A gente não morre. A gente imaginava temer a morte: tememos o inesperado, a explosão, tememos a nós mesmos. A morte? Não. Não há mais morte quando a encontramos. Meu irmão me disse: “Não te esqueças de escrever tudo isso…”. Quando o corpo se desfaz, o essencial se mostra. O homem não passa de um nó de relações. Só as relações valem para o homem.
O corpo, cavalo velho, nós abandonamos. Quem imagina a si mesmo na morte? Ainda não encontrei ninguém…
Capitão?
Que é?
Formidável!
Artilheiro…
Hã… Sim…
Qual…
Minha pergunta saltou com o choque.
Dutertre!
Capi…
Atingido?
Não.
Artilheiro…
Sim?
Tud…
É como se tivesse batido numa parede de bronze. Ouço:
Ai ai ai!!!
Levanto a cabeça para o céu a fim de medir a distância das nuvens. Obviamente, quanto mais obliquamente observo, mais os flocos negros parecem empilhados. Na vertical, eles parecem menos densos. É por isso que descubro, encravado acima de nossas frontes, esse diadema monumental de florões negros.
Os músculos das coxas são de uma potência surpreendente. Jogo o peso com toda força no pedal, como se arrombasse uma parede. Lancei o avião de través. Ele derrapa brutalmente para a esquerda, com vibrações quebradiças. O diadema deslizou à direita. Eu o fiz balançar acima de minha cabeça. Surpreendi o tiro disparado alhures. Eu vejo acumularem-se, à direita, inúteis grupos de explosões. Mas, antes que começasse, com a outra coxa, o movimento contrário, o diadema já se restabelecera acima de mim. Os do solo o reinstalaram. O avião com seus grunhidos afunda de novo em charcos. Mas todo o peso do meu corpo esmagou uma segunda vez os pedais. Eu lancei o avião numa viragem contrária, ou mais exatamente numa derrapagem contrária (para o inferno as viragens corretas!) e o diadema deslizou para a esquerda.
Durar? Esse jogo não pode durar! Por mais que dê gigantescas pezadas, o dilúvio de lanças se recompõe, ali, na minha frente. A coroa se restabelece. Os choques recomeçam na minha barriga. E, se eu olhar para baixo, vejo outra vez, bem centrada em mim, aquela ascensão de bolhas de uma vertiginosa lentidão. É inconcebível que estejamos ainda inteiros. E, no entanto, eu me descubro invulnerável. Sinto-me como vencedor! Sou, em cada segundo, vencedor!
Atingidos?
Não…
Eles não foram atingidos. São invulneráveis. São vencedores. Eu sou dono de uma tripulação de vencedores…
Doravante, cada explosão parece não nos ameaçar, mas nos endurecer. Cada vez, durante um décimo de segundo, imagino meu aparelho pulverizado. Mas ele ainda responde aos comandos, e eu o soergo, como a um cavalo, puxando duramente as rédeas. Então relaxo, e sou invadido por um júbilo surdo. Mal tive tempo de sentir medo senão como uma contração física, aquela que um barulhão provoca, e já me é concedido o suspiro da libertação. Eu deveria sentir o tranco do choque, depois o medo, depois o relaxamento. Que nada! Não dá tempo! Eu sinto o tranco, em seguida o relaxamento. Tranco, relaxamento. Falta uma etapa: o medo. E não vivo a expectativa de morrer no segundo seguinte, vivo a ressureição, ao findar do segundo anterior. Vivo numa espécie de rastro de alegria. Vivo na trilha de meu júbilo. E começo a sentir um prazer prodigiosamente inesperado… É como se minha vida me fosse, a cada segundo, ofertada. Como se minha vida me tornasse, a cada segundo, mais sensível. Eu vivo. Estou vivo. Estou ainda vivo. Continuo vivo. Não sou mais do que uma fonte de vida. A embriaguez da vida me toma. Diz-se “a embriaguez do combate…”. É a embriaguez da vida! É! Quem atira contra nós lá de baixo sabe que nos forja?

Reservatórios de óleo, reservatórios de gasolina, está tudo furado. Dutertre disse: “Acabou! Suba!”. Mais uma vez, meço com os olhos a distância que me separa das nuvens e cabro. Mais uma vez, jogo o avião para a esquerda, depois para a direita. Uma vez ainda, dou uma olhada na terra. Não esquecerei essa paisagem. A planície inteira crepita em curtas mechas luminosas. Sem dúvida, canhões de tiro rápido. A ascensão dos glóbulos prossegue no imenso aquário azulado. A chama de Arras brilha em vermelho-escuro, como um ferro sobre a bigorna, essa chama de Arras bem instalada nas reservas subterrâneas, por onde o suor dos homens, a invenção dos homens, a arte dos homens, as lembranças e o patrimônio dos homens, amarrando sua ascensão nessa cabeleira, transforma-se em queimada que o vento leva.
Já esbarro nos primeiros pacotes de bruma. Ainda há, à nossa volta, flechas de ouro ascendentes que perfuram por baixo o ventre da nuvem. A última imagem me é ofertada quando a nuvem já me encerra, por um último buraco. Durante um segundo, a chama de Arras surge, iluminada pela noite como um lampião a óleo de bojo profundo. Ela serve um culto, mas custa caro. Amanhã ela terá consumido e consumado tudo. Trago meu testemunho das chamas de Arras.
Tudo bem, Dutertre?
Tudo, Capitão. Duzentos e quarenta. Em vinte minutos, desceremos sob a nuvem. Vamos nos referenciar em algum lugar sobre o Sena…
Tudo bem, Artilheiro?
Hã… Sim… Capitão… Tudo bem.
Não sentiu muito calor?
Hã… Não… Sim.
Ele não sabe nada. Está contente. Penso no artilheiro de Gavoille. Uma noite, sobre o Reno, oitenta projéteis de guerra atingiram Gavoille com seus feixes. Ergueram à sua volta uma gigantesca basílica. E eis que o tiro se mistura ali. Gavoille ouve então seu artilheiro falar consigo mesmo, baixinho. (Os laringofones são indiscretos.) O artilheiro se faz suas próprias confidências: “Pois então, meu velho. Pois então, meu velho… Sempre se pode fugir e acabar achando a mesma coisa como civis!”. Estava contente o artilheiro.
Respiro com lentidão. Encho bem o peito. É maravilhoso respirar. Há um monte de coisas que vou compreender… Mas primeiro penso em Alias. Não. É primeiro naquele fazendeiro que eu penso. Eu o interrogarei sobre o número de instrumentos… Eh! O que o senhor acha! Eu sei muito bem aonde quero chegar. Cento e três. A propósito, é bom ficar de olho na pressão do óleo quando os reservatórios de gasolina estão furados, bom cuidar desses instrumentos! Eu cuido disso. Os revestimentos de borracha aguentam o tranco. Isso é um aperfeiçoamento maravilhoso! Eu verifico também os giroscópios: essa nuvem é pouco habitável. Uma nuvem de tempestade. Ela nos sacode muito.
O senhor não acha que poderíamos descer?
Dez minutos. Melhor esperarmos mais dez minutos.
Esperarei ainda dez minutos. Ah! Sim, eu estava pensando em Alias. Será que ele imagina nos rever? Outro dia estávamos atrasados uma meia hora. Meia hora, em geral, é grave… Corri para encontrar o grupo, que estava jantando. Empurro a porta, caio numa cadeira ao lado de Alias. Bem naquele instante, o comandante levantava seu garfo enrolado com macarrão. Apressava-se em devorá-lo. Mas sobressalta, interrompe-se na hora, e me fita, com a boca aberta. O macarrão pende imóvel.
Ah! Bem… Fico contente de vê-lo!
E devora o macarrão.
Para mim, o comandante tem um defeito grave. Obstina-se em interrogar o piloto sobre os aprendizados da missão. Ele me interrogará. Ele me olhará com uma paciência apavorante, esperando que eu lhe dite verdades primárias. Estará armado de uma folha de papel e de uma caneta esferográfica a fim de não perder uma só gota desse elixir. Isso me lembrará minha juventude: “Como o senhor integra, candidato Saint-Exupéry, as equações de Bernoulli?”.
Hã…
Bernoulli… Bernoulli… E ficamos assim, imóveis; sob aquele olhar, como um inseto transpassado por um grampo.
Cabe a Dutertre o aprendizado da missão. Ele observa na vertical, Dutertre. Ele vê um monte de coisas. Caminhões, lanchas, tanques, soldados, canhões, cavalos, estações, trens nas estações, chefes de estação. Eu observo muito em oblíquo. Eu vejo nuvens, o mar, rios, montanhas, o sol. Observo muito genericamente. Faço uma ideia do conjunto.
O senhor sabe, Comandante, que o piloto…
Ora, vejamos, a gente sempre vê alguma coisa.
Eu… Ah! Incêndios! Vi incêndios. É interessante.
Não é. Queima tudo. O que mais?
Por que Alias é tão cruel?

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra