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09/03/2016

Velhos amigos


Eram dois amigos. Um mais velho, outro menos velho. Velhos amigos velhos é o que eram um do outro. O mais velho se dizia cansado. O menos velho era um eterno apaixonado. Pelo amor. Certo dia, o menos velho ficou conhecendo Ariane, razão de viver do mais velho. Logo o menos velho tirou o sossego de Ariane – tirou outras coisas também - e destruiu sua virtude. O mais velho passou a sentir uma angústia, assim, sem explicação. Ariane, uns enjoos que sabia muito bem explicar. E o mais velho, enjoou de Ariane, o que era previsível e de fácil explicação.
Paulo Ferreira, 65, securitário aposentado, de Brasília - DF, revisor de texto em atividade, escrevinhador das madrugadas por teimosia.

12/03/2015

A palavra do cavalo


O vizinho Edilberto veio falar com Letícia. Queria emprestado o nosso cavalo para ir à feira. E ela disse que não, sentia muito. Nem livro nem cavalo se empresta! Edilberto insistiu. Então a Nuvem deu a desculpa de ter ele saído comigo. E Alecrim, o cavalo, relinchou, lá da porteira, onde estávamos. O vizinho se empertigou:
- Posso escutá-lo! – disse.
E Letícia, com delicada altivez, falou:
- Se preferes acreditar na palavra do cavalo a acreditar na minha, não mereces que lhe seja emprestada coisa alguma!”.
Carlos Nejar, in A engenhosa Letícia do Ponta

21/03/2014

A costureira da loja da esquina


A costureira da loja da esquina é profissional prendada. Esmera-se em atender aos pedidos de pronto. Claro, nos tempos dos espartilhos e dos colarinhos duros, demorava-se mais. Hoje, entretanto, de fios tão fúteis, e com a experiência acumulada, não se demora um minuto, mesmo considerando o tremor das mãos e a catarata nos olhos.
A costureira da loja da esquina especializara-se em reparar a nudez. 
Da mãe aprendera a arte de descoser fios.
Bonito é ver a clientela tornar à rua vestida da verdade do corpo.
A costureira da loja da esquina não deveria morrer nunca.
Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Leciona no Instituto Federal de Santa Catarina e é cronista do Jornal de Santa Catarina. Reside em Blumenau – SC.

06/02/2014

Cem Palavras - Contos


Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.
Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo.  Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.
Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára?  Nem ele.
Dalton Trevisan, in Ah, é? (ministórias)

22/01/2014

Um conto vazio


Pensava a mil por hora e por isso andava sempre cansada...
Achava ter a vida uma beleza exaustiva e alinhar os pensamentos dava-lhe muito trabalho.
Costumava costurá-los como uma colcha de retalhos, mas não suportava cobrir-se com ela.
Foi quando, em um dia estranhamente verde, um gato entrou por sua janela, e, ao puxar um fio, desfez toda a colcha que estava sobre a cômoda, emaranhou-se em linhas e desapareceu no horizonte.
E ela então, obtendo alguns instantes de pausa ao perder os pensamentos, encontrou-se em sua essência e sorriu sinceramente.
Ana Carolina Paegle tem 29 anos e mora em Barcelona

14/01/2014

Gatos


Era dia de visitas na casa de Seu Antônio. Vivia solitário há anos, mas todo domingo recebia a companhia de seus netos, João e Pedrinho. Ele sempre aproveitava a ocasião para relembrar seus dias heroicos de fazendeiro no sertão de Pernambuco. Assim, contava histórias de como pegou o ladrão de galinhas, ou daquela vez em que recuperou seu cavalo fugitivo. Os meninos ouviam com interesse, e Pedrinho fez uma observação:
- Se tem algo de que não gosto, é de gato!
Surpreso, replicou:
- Gato? Mas eu falava de gado!
Mas tampouco deu importância para aquilo e continuou sua narrativa...
Fabiano Costa, 21 anos, natural de Campina Grande - PB, estudante de Letras na IFPB

02/12/2013

Ministória - 02


Rataplã é o gato siamês. Olho todo azul. Magro de tão libidinoso.  Pior que um piá de mão no bolso. Vive no colo, se esfrega e ronrona.
— Você não acredita. Se eu ralho, sai lágrima azul daquele olho.
Hora de sua volta do colégio, ele trepa na cadeira e salta na janela.  Ali à espera, batendo o rabinho na vidraça.
Doente incurável. O veterinário propõe sacrificá-lo. A moça deita-o no colo. Ela mesma enfia a agulha na patinha. E ficam se olhando até o último suspiro nos seus braços. Nem quando o pai se foi ela sentiu tanto.
Dalton Trevisan, in Ah, é?. Transcrito especialmente para o Projeto Cem Palavras - Contos

25/11/2013

Duelos


O bom e o mau no centro do vilarejo. Caminham para se encontrarem e decidirem o duelo. Poucos afoitos observam a cena. O mocinho está ensanguentado; o outro, o fazendeiro que domina a região, confiante e destemido. O silêncio é quebrado pelo vento, que traz sufocante poeira.
Mais que o destino em uma bala, o confronto emblemático simboliza os eternos embates humanos.
A imagem é nítida. Posso vê-los cada vez mais próximos. Decididos, andares firmes e olhares penetrantes, ambos. Mãos próximas aos colts. Mas o fazendeiro sacou primeiro e...
Clic.
- Bem, vou ver se começou a novela.
Outro duelo.
Elilson José Batista. Potiguar de Pau dos Ferros. Editor do blog Rapadura Cult. Especial para o Projeto Cem Palavras – Contos.

19/11/2013

Jantar frio


Bião levantou-se e repetiu: “Tá pensando mesmo em mudar de curso, é minha filha?” Novamente calado como resposta. A colher permanecia suspensa, a sopa esfriava, o pão era da mosca. Cláudia mantinha-se logada ao aparelhinho. Bião buscou o olhar da esposa. Fracassou. Havia meia hora Carlinda falava ao celular, o leite virando gelo. Procurou o filho. Carlinhos jantava na sala. Jantava, vírgula. Imitava a irmã.
Bião riu, ficou nu, subiu na cadeira, esbravejou: “Pelo amor de Deus. Quem tá falando com você, Cláudia?”
“A doidinha de minha namorada, pai”.
Cláudia respondeu, mas não tirou a vista do aparelhinho.
Tião Carneiro, potiguar de Extremoz, editor do blog www.pocilgadeouro.com. Mininarrativa especial para o Projeto Cem Palavras - Contos.

12/11/2013

Testemunho


Pintei a cabeça de alguém. Aquilo que fazia o encaixe dos olhos, do nariz e da boca não estava direito. Onde dei um tiro, todos procuravam arte. Logo chegam, vão perguntar pelos porquês e eu me farei poeta. Pra que nomes? Era vermelho e estava no chão. Explodo a cabeça de mais dois, seis. No nono reconheço a forma que dou à galeria que monto. Sob a minha curadoria, eles caíam. Não havia quem entendesse como eu continuava. Artistas de minha geração, perdão, se onde me fiz massacre não queriam vanguarda. A arte da vida ao esquecer da morte.
Rodrigo Gonzatto, 27, Paranaense, escreve no Juventudo. Especialmente para o Projeto Cem Palavras - Contos