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01/02/2026

Escrever com sangue

De todo o escrito, só amo aquilo que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que o sangue é espírito.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

09/05/2025

De velhas e novas tábuas

11.

Esta é a minha compaixão por tudo que é passado: que eu o veja abandonado —
abandonado à mercê, ao espírito, à loucura de toda geração, que vem e reinterpreta tudo o que foi como uma ponte para si!
Um grande tirano poderia vir, um astucioso monstro que, com sua clemência ou inclemência, compelisse e espremesse tudo que é passado: até que este se tornasse uma ponte para ele, e prenúncio, arauto e canto de galo.
Mas este é o outro perigo, e minha outra compaixão: — a memória de quem é da plebe remonta até o avô — com o avô, porém, o tempo acaba.
Assim tudo passado é abandonado: pois poderia suceder que um dia a plebe se tornasse senhora e afogasse todo o tempo em águas rasas.
Por isso, ó meus irmãos, é necessário ter uma nova nobreza, que seja inimiga de toda plebe e toda tirania e novamente escreva a palavra “nobre” em novas tábuas.
Pois são necessários muitos e diferentes nobres para que haja nobreza! Ou, como um dia falei, em alegoria: “Justamente isso é divino, que haja deuses, mas nenhum Deus!”.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

02/05/2025

De velhas e novas tábuas

9.

Há uma velha ilusão chamada bem e mal. A roda dessa ilusão girou, até agora, em torno de videntes e astrólogos.
Outrora se acreditava em adivinhos e astrólogos: por isso acreditava-se: “Tudo é destino: tu deves, pois tens de!”.
Então se desconfiava de todos os adivinhos e astrólogos: por isso acreditava-se: “Tudo é liberdade: tu podes, pois queres!”.
Ó meus irmãos, sobre as estrelas e o futuro houve apenas ilusão e não conhecimento até agora: por isso, sobre bem e mal houve apenas ilusão e não conhecimento até agora!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

14/04/2025

De velhas e novas tábuas

8.

Quando há pranchas sobre a água, quando passarelas e parapeitos se erguem sobre a corrente: então ninguém acredita, em verdade, naquele que diz: “Tudo flui”.
Pelo contrário, até os imbecis o contradizem. “Como”, dizem eles, “tudo flui? Passarelas e parapeitos estão acima do que flui!”
Acima do que flui está tudo firme, todos os valores das coisas, pontes, conceitos, todo o ‘bem’ e o ‘mal’: tudo isso está firme!” —
Mas, quando vem o duro inverno, o domador de rios, até mesmo os mais espirituosos aprendem a desconfiar; e, em verdade, não apenas os imbecis falam então: “Não deveria tudo — ficar parado?”.
No fundo está tudo parado” — eis um verdadeiro ensinamento invernal, uma boa coisa para tempos infecundos, um bom consolo para os que hibernam e ficam junto à estufa.
No fundo está tudo parado” —: mas contra isso prega o vento do degelo!
O vento do degelo, um touro que não é boi de arado — um touro raivoso, um destruidor, que com chifres furiosos rompe o gelo! Mas o gelo — — rompe passarelas!
Ó meus irmãos, agora não se acha tudo a fluir? Não foram por água abaixo todos os corrimãos e passarelas? Quem ainda se agarraria a “bem” e “mal”?
Ai de nós! Viva nós! O vento do degelo sopra!” — Assim pregai, ó meus irmãos, por todas as ruas!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

09/04/2025

De velhas e novas tábuas

7.

Ser verdadeiro — poucos são capazes disso! E quem pode, não o quer ainda! Menos capazes de todos, porém, são os bons.
Oh, esses bons! Homens bons jamais dizem a verdade; para o espírito, ser bom de tal modo é uma doença.
Eles cedem, esses bons, eles concedem, seu coração repete as palavras, seu fundo obedece: mas quem obedece não escuta a si mesmo!
Tudo o que os bons chamam mau deve se juntar, para que nasça uma verdade: ó meus irmãos, sois também vós maus o bastante para essa verdade?
O temerário ousar, a demorada desconfiança, o cruel Não, o fastio, o cortar na carne viva — como é raro isso juntar-se! Mas dessa semente é — gerada a verdade!
Ao lado da má consciência cresceu até agora toda ciência! Destroçai, ó homens do conhecimento, destroçai as velhas tábuas!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

31/03/2025

De velhas e novas tábuas

6.

Ó meus irmãos, quem é primogênito sempre será sacrificado.124 Mas agora somos nós os primogênitos.
Todos nós sangramos em secretos altares de sacrifícios, todos nós assamos e ardemos em honra de velhos ídolos.
O que temos de melhor ainda é jovem: isso atrai os velhos paladares. Nossa carne é tenra, nossa pele é somente uma pele de cordeiro: — como não atrairíamos velhos sacerdotes de ídolos?
Dentro de nós mesmos ainda habita ele, o velho sacerdote de ídolos, que assa para banquete o que temos de melhor. Ah, meus irmãos, como não seriam vítimas os primogênitos?
Mas assim é nossa maneira; e eu amo aqueles que não querem preservar a si mesmos. Amo com todo o meu amor aqueles que declinam: pois eles passam para o outro lado. —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

20/03/2025

De velhas e novas tábuas

5.

Esta é a maneira das almas nobres: elas nada querem ter de graça, muito menos a vida.

Quem é da plebe quer viver de graça; mas nós, a quem a vida se deu, — nós sempre refletimos sobre o que de melhor podemos dar em troca!

E, em verdade, é falar nobremente dizer: “O que a vida promete a nós, isso vamos cumprir — com a vida!”.

Não se deve querer fruir quando não se dá fruição. E — não se deve querer fruir!

Pois fruição e inocência são as coisas mais vergonhosas: nenhuma das duas quer ser buscada. Deve-se tê-las — mas deve-se antes buscar a dor e a culpa! —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

18/03/2025

De velhas e novas tábuas

5.

Esta é a maneira das almas nobres: elas nada querem ter de graça, muito menos a vida.

Quem é da plebe quer viver de graça; mas nós, a quem a vida se deu, — nós sempre refletimos sobre o que de melhor podemos dar em troca!

E, em verdade, é falar nobremente dizer: “O que a vida promete a nós, isso vamos cumprir — com a vida!”.

Não se deve querer fruir quando não se dá fruição. E — não se deve querer fruir!

Pois fruição e inocência são as coisas mais vergonhosas: nenhuma das duas quer ser buscada. Deve-se tê-las — mas deve-se antes buscar a dor e a culpa! —

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

06/03/2025

De velhas e novas tábuas

4.

Olha, eis aqui uma nova tábua: mas onde estão meus irmãos, que a levem comigo ao vale e aos corações de carne? —
Assim exige meu grande amor aos mais distantes: não poupes teu próximo! O homem é algo que tem de ser superado.
Há muitos caminhos e modos de superação: deves tu cuidar disso! Mas somente um palhaço pensa: “O homem também pode ser saltado”.
Supera a ti mesmo também no teu próximo: e um direito que podes arrebatar, não deixes que te seja dado!
Aquilo que fazes, ninguém pode fazer a ti. Vê, não existe retribuição.
Quem não pode comandar a si mesmo, deve obedecer. E muitos podem comandar a si mesmos, mas ainda falta muito para que também obedeçam a si!

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

27/02/2025

De velhas e novas tábuas

1.

Aqui me acho sentado, esperando, com velhas tábuas partidas ao meu redor, e também novas tábuas inscritas pela metade. Quando chegará minha hora?
a hora de minha descida, meu declínio: pois ainda uma vez quero ir até os homens.
Por isso espero agora; pois primeiro devem me chegar os sinais de que é a minha hora — o leão rindo e o bando de pombas.
Entrementes falo comigo mesmo, como uma pessoa que tem tempo. Ninguém me conta algo novo: assim, conto-me a mim mesmo.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

17/01/2025

Fanatismo

O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

01/11/2024

De velhas e novas tábuas | 3.



Foi também lá que recolhi do caminho a palavra “super-homem”, e que o homem é algo que tem de ser superado,
que o homem é uma ponte e não um fim: declarando-se bem-aventurado por seu meio-dia e entardecer, como o caminho para novas auroras:
a palavra de Zaratustra do grande meio-dia, e o que mais suspendi sobre os homens, como segundas auroras purpúreas.
Em verdade, também novas estrelas os fiz ver, junto com novas noites; e sobre as nuvens, o dia e a noite estendi o riso, como uma tenda multicor.
Ensinei-lhes todo o meu engenho e esforço: compor e transformar em um o que no homem é pedaço, enigma e apavorante acaso, —
como poeta, decifrador de enigmas e redentor do acaso ensinei-lhes a criar com o futuro, a redimir criadoramente tudo aquilo que — foi.
Redimir o passado no homem e recriar todo “Foi assim”, até que a vontade diga: “Mas assim eu quis! Assim quererei —”.
a isso denominei redenção para eles, apenas isso lhes ensinei a denominar redenção. — —
Agora espero minha redenção —, que eu vá pela última vez até eles.
Pois ainda uma vez quero ir até os homens: entre eles quero declinar: morrendo quero lhes dar minha maior dádiva!
Do sol aprendi isso, quando ele se põe, o riquíssimo: derrama ouro sobre o mar, de sua inesgotável riqueza, —
de modo que até o mais pobre dos pescadores rema com remo de ouro! Pois isso vi certa vez, e minhas lágrimas não cessavam de correr enquanto meus olhos contemplavam. — —
Tal como o sol quer Zaratustra declinar: agora ele se acha aqui sentado, esperando, com velhas tábuas partidas ao seu redor e também novas tábuas — inscritas pela metade.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

25/10/2024

De velhas e novas tábuas


2.

Quando vim até os homens, encontrei-os sentados sobre uma velha presunção: todos eles presumiam, havia muito tempo, saber o que é bom e mau para o homem.
Toda conversa a respeito da virtude lhes parecia coisa velha e surrada; e quem queria dormir bem falava ainda de “bem” e “mal” antes de ir deitar-se.
Perturbei esta sonolência ao ensinar que ninguém sabe ainda o que é bom e mau — a não ser aquele que cria!
Mas esse é aquele que cria a meta para os homens e dá à terra seu sentido e seu futuro: apenas ele faz com que algo seja bom ou mau.
E disse-lhes para derrubar suas velhas cátedras e tudo aquilo em que se havia sentado aquela velha presunção; disse-lhes para rir de seus grandes mestres da virtude, santos, poetas e redentores do mundo.
De seus sombrios sábios também lhes disse para rir, e de quem alguma vez se sentara como negro espantalho, admoestando, na árvore da vida.
Sentei-me em sua grande avenida de túmulos e entre carcaças e abutres — e ri de todo o seu outrora e da cansada e arruinada magnificência deste.
Em verdade, como os pregadores e os loucos lancei gritos de raiva e lamento sobre todas as suas coisas grandes e pequenas, — o que têm de melhor é tão pequeno! o que têm de pior é tão pequeno! — desse modo eu ri.
Assim gritou e riu meu sábio anseio que nasceu nas montanhas, uma selvagem sabedoria, em verdade! — meu grande anseio com asas ruidosas.
E com frequência ele me arrastou consigo, para longe e para cima, em meio à risada: então voei trêmulo, uma flecha em êxtase embriagado de sol:
para distantes futuros que sonho nenhum viu, para Suis mais quentes do que jamais sonharam os artistas: lá onde os deuses dançantes se envergonham de toda vestimenta: —
pois falo por símiles e, como os poetas, claudico e gaguejo: e, em verdade, envergonho-me de ainda ter de ser poeta! —
Onde todo o vir-a-ser me parecia dança e exuberância de deuses, e o mundo, solto e desenfreado e fugindo de volta para si mesmo: —
como um eterno fugir e buscar novamente a si de muitos deuses, como o bem-aventurado contradizer-se, novamente escutar-se, novamente pertencer-se de muitos deuses: —
Onde todo o tempo me parecia uma bem-aventurada zombaria dos momentos, onde a necessidade era a própria liberdade, que venturosamente brincava com o aguilhão da liberdade: —
Onde reencontrei meu velho demônio e arqui-inimigo, o espírito de gravidade e tudo o que ele criou: coação, estatuto, necessidade, consequência, finalidade, vontade, bem e mal: —
Pois não tem de existir aquilo sobre o qual se dance e se ultrapasse dançando? Não têm de existir, em prol dos leves, levíssimos, toupeiras e pesados anões? — —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

06/10/2024

Do espírito de gravidade | 2


Quem um dia ensinar os homens a voar, deslocará todos os marcos de limites; os marcos mesmos voarão pelos ares, e esse alguém batizará de novo a terra — de “a Leve”.
A avestruz corre mais velozmente que o mais ligeiro cavalo, mas também enfia a cabeça pesadamente na terra pesada: assim também o homem que ainda não sabe voar.
Pesadas são, para ele, terra e vida; e assim quer o espírito de gravidade! Mas quem quiser ficar mais leve, tornando-se pássaro, tem de amar a si mesmo: — é o que ensino eu.
Não, decerto, com o amor dos enfermos e alquebrados: pois neles até o amor-próprio cheira mal!
Deve-se aprender a amar a si mesmo — é o que ensino — com um amor são e saudável: de modo a se tolerar estar consigo e não vaguear.
Esse vaguear batiza a si mesmo de “amor ao próximo”: foi com essa expressão que melhor mentiram e fingiram até hoje, especialmente aqueles que pesavam para todos.
E, em verdade, não é este um mandamento para hoje e amanhã, aprender a se amar. Entre todas as artes, é antes a mais sutil, mais astuciosa, a derradeira e mais paciente.
Pois tudo que é de si próprio se acha bem escondido do possuidor; de todas as cavernas de tesouros, a própria é a última a ser escavada — assim dispõe o espírito de gravidade.
Quase no berço já nos dão pesados valores e palavras: “bem” e “mal” — é como se chama esse dote. Por causa dele nos perdoam que vivamos.
E deixam que vão a si as criancinhas, a tempo de impedir que elas amem a si próprias: assim dispõe o espírito de gravidade.
E nós — carregamos fielmente o que nos dão em dote, em duros ombros e por ásperas montanhas! E, se suamos, nos dizem: “Sim, a vida é um fardo!”.
Mas apenas o homem é um fardo para si mesmo! Isso porque carrega nos ombros muitas coisas alheias. Tal como o camelo, põe-se de joelhos e deixa que o carreguem bastante.
Em especial o homem forte, resistente, no qual é inerente a veneração: demasiados valores e palavras pesados alheios põe ele sobre si — e então a vida lhe parece um deserto!
E, em verdade! Também muita coisa própria é difícil de carregar! E muito do interior do homem é como a ostra, ou seja, repugnante, escorregadio e difícil de agarrar —,
de maneira que uma casca nobre, com nobres adornos, precisa interceder a seu favor. Mas também essa arte se deve aprender, a de ter casca, aparência formosa e sagaz cegueira!
E engana sobre muita coisa no homem o fato de muitas cascas serem pobres, tristes, cascas demais. Muita força e bondade oculta não é jamais adivinhada; os mais deliciosos petiscos não acham apreciadores!
As mulheres sabem disso, as mais deliciosas: um pouco mais magra, um pouco mais gorda — oh, quanto destino se acha em tão pouco!
O homem é difícil de descobrir, e descobrir a si mesmo, o mais difícil de tudo; com frequência, o espírito mente acerca da alma. Assim dispõe o espírito de gravidade.
Mas descobriu a si mesmo quem diz: “Este é meu bem e meu mal”: com isso fez calar o anão e toupeira que diz “Bom para todos, mau para todos”.
Em verdade, também não gosto daqueles para quem cada coisa é boa e este mundo é inclusive o melhor. A esses denomino os contentes com tudo.
O contentamento com tudo, que sabe de tudo gostar: este não é o melhor gosto! Respeito os estômagos e línguas rebeldes e exigentes, que aprenderam a dizer “Eu”, “Sim” e “Não”.
Mas tudo mastigar e digerir — isso é uma autêntica maneira de porco! Sempre dizer “I-A” — isso apenas o asno aprendeu, e quem tem seu espírito! —
O amarelo profundo e o vermelho quente: é o que deseja o meu gosto — ele mistura sangue a todas as cores. Mas quem caia sua casa, esse revela uma alma caiada.
Uns enamorados de múmias, outros, de fantasmas; e todos igualmente hostis à carne e ao sangue — oh, como repugnam ao meu gosto! Pois eu amo o sangue.
E não quero viver e estar ali onde todo mundo cospe e escarra: pois esse é meu gosto — preferiria viver entre bandidos e perjuros. Ninguém tem ouro na boca.
Ainda mais repugnantes me são os puxa-sacos; e o mais repugnante animal que encontrei entre os homens denominei parasita: esse não queria amar e, no entanto, queria viver de amor.
Desventurados chamo a todos aqueles que têm uma só escolha: tornar-se maus animais ou maus domadores de animais: entre eles eu jamais levantaria tendas.
Desventurados também chamo aqueles que sempre devem esperar — eles repugnam ao meu gosto: todos os alfandegários, merceeiros, reis e outros guardiães de terras e de lojas.
Em verdade, aprendi também a esperar, e bastante — mas somente a esperar por mim. E sobretudo aprendi a ficar em pé, andar, correr, saltar, escalar e dançar.
Mas este é o meu ensinamento: quem um dia quiser aprender a voar, deve primeiramente aprender a ficar em pé, andar, correr, saltar, escalar e dançar: — não se aprende a voar voando!
Com escadas de corda aprendi a escalar muitas janelas, com pernas ágeis subi em altos mastros: estar sobre altos mastros do conhecimento não me pareceu bem-aventurança pequena, —
cintilar como pequenas flamas sobre altos mastros: uma luz pequena, decerto, mas um grande consolo para navegantes e náufragos perdidos! —
Por muitos caminhos e meios diferentes alcancei minha verdade; não apenas por uma escada subi às alturas de onde meu olho vagueia pelas distâncias que são minhas.
E somente com relutância perguntei pelos caminhos — isto sempre repugnou ao meu gosto! Preferi perguntar e tentear os próprios caminhos.
Um perguntar e tentear era todo o meu andar: — e, em verdade, deve-se aprender também a responder a tal perguntar! Mas este — é meu gosto:
não que seja bom ou seja ruim, mas meu gosto, de que não me envergonho nem escondo.
Este — é o meu caminho, — qual é o vosso?”, assim respondi aos que me perguntaram pelo “caminho”. Pois o caminho — não existe!
Assim falou Zaratustra.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

08/09/2024

Do espírito de gravidade

1.

Minha língua — é do povo: falo de modo grosseiro e franco demais para os delicados. E ainda mais estranhas soam minhas palavras para todos os borra-tintas escrevinhadores.
Minha mão — é uma mão de tolo: ai de todas as mesas e paredes e o que mais tiver lugar para rabiscos e arabescos de tolo!
Meu pé — é um pé de cavalo; com ele troto e galopo à rédea solta, para lá e para cá, alegre como o Diabo de tanto correr.
Meu estômago — será um estômago de águia? Pois gosta principalmente de carne de cordeiro. Sem dúvida, é um estômago de ave.
Nutrido de pouco, e de coisas inocentes, pronto e impaciente para voar, voar embora — eis agora a minha maneira: como não teria ela algo da maneira das aves?
E sobretudo que eu seja inimigo do espírito de gravidade, isso é maneira de ave: e, em verdade, inimigo de morte, arqui-inimigo, protoinimigo! Oh, para onde já não voou e se extraviou minha inimizade?
Sobre isso eu até poderia cantar uma canção — — e vou cantar: embora me encontre só na casa vazia e tenha de cantá-la para meus próprios ouvidos.
É certo que existem cantores que apenas com a casa cheia têm a garganta macia, a mão eloquente, o olhar expressivo, o coração alerta: — Não sou como eles. —

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

19/08/2024

Dos três males | 2.




Volúpia: aguilhão e estaca para todos os desprezadores do corpo que vestem cilício, e amaldiçoada como “mundo” por todos os trasmundanos: pois escarnece e ludibria todos os mestres da confusão e do erro.
Volúpia: para a gentalha, o fogo lento em que é consumida; para toda madeira carcomida, para todos os trapos malcheirosos, o forno aceso e fervoroso.
Volúpia: para os corações livres, inocência e liberdade, a felicidade edênica na terra, a transbordante gratidão de todo futuro ao presente.
Volúpia: apenas para o emurchecido um adocicado veneno, mas para os de vontade leonina o grande estimulador do coração e o veneravelmente reservado vinho dos vinhos.
Volúpia: a grande imagem de felicidade para superior felicidade e suprema esperança. Pois para muitos é prometido o casamento e mais que o casamento, —
para muitos que são mais estranhos a si mesmos que o homem à mulher: — e quem compreendeu totalmente quão estranhos um ao outro são o homem e a mulher?
Volúpia: — mas quero que haja cercas em volta de meus pensamentos e também de minhas palavras: para que os porcos e entusiastas não irrompam em meus jardins! —
Ânsia de domínio: tição e açoite dos mais duros entre os duros de coração; o horrendo martírio reservado ao mais cruel; a sombria chama das fogueiras que vivem.
Ânsia de domínio: o maldoso moscardo118 imposto aos povos mais vaidosos; a escarnecedora de toda virtude incerta; que monta cada cavalo e cada orgulho.
Ânsia de domínio: o terremoto que rompe e quebra tudo que é podre e cavo; a estrondeante, punitiva destruidora de sepulcros caiados; a coruscante interrogação junto a respostas prematuras.
Ânsia de domínio: ante seu olhar o homem rasteja, se curva, se submete e se torna mais baixo do que serpente e porco: — até que finalmente o grande desprezo grita de dentro dele —,
Ânsia de domínio: a terrível professora do grande desprezo, que prega na face de cidades e reinos: “Fora contigo!” — até que de dentro deles mesmos se grita: “Fora comigo!”.
Ânsia de domínio: que, no entanto, também sobe sedutoramente aos puros e solitários e até alturas que bastam a si mesmas, ardente como um amor que sedutoramente pinta purpúreas bem-aventuranças no céu da terra.
Ânsia de domínio: mas quem chamaria “ânsia” quando o que é alto desce, desejando o poder? Em verdade, nada há de malsão e sôfrego em tal desejar e descer!
Que a altura solitária não permaneça eternamente solitária e bastando a si mesma; que a montanha chegue ao vale e os ventos da altura cheguem às baixadas: —
Oh, quem encontraria o nome certo de virtude para batizar esta ânsia? “Virtude dadivosa” — assim denominou Zaratustra um dia o inominável.
E também aconteceu então — em verdade, pela primeira vez! — que sua palavra beatificasse o egoísmo, o sadio, inteiro egoísmo que brota de uma alma poderosa: —
de uma alma poderosa, a que pertence o corpo elevado, o corpo bonito, vitorioso, animador, em redor do qual tudo se torna espelho:
O corpo flexível e convincente, o dançarino cujo símbolo e epítome é a alma que se compraz em si. O prazer-consigo120 desses corpos e almas chama a si mesmo “virtude”.
Com suas palavras sobre o que é bom e ruim, esse prazer-consigo se protege como com bosques sagrados; com os nomes de sua felicidade, bane de sua presença tudo que é desprezível.
Bane para longe de si tudo que é covarde; diz: “Ruim — isso é covarde!”. Desprezível lhe parece quem sempre está a se preocupar, lamentar, suspirar, e quem recolhe até as mínimas vantagens.
Despreza também toda sabedoria lamuriante: pois, em verdade, há também a sabedoria que floresce na escuridão, uma sabedoria de sombras noturnas: a qual sempre suspira: “Tudo é vão!”.
A desconfiança timorata vale pouco para ele, assim como todo aquele que prefere juramentos a olhares e mãos: e também toda sabedoria desconfiada demais — pois tal é a maneira das almas covardes.
Menos ainda vale para ele o obsequioso fácil, o ser canino, que imediatamente se deita de costas, o humilde; e há também sabedoria que é humilde, canina, devota, e facilmente obsequiosa.
É-lhe odioso, e até mesmo nojento, quem jamais quer se defender, quem engole escarros venenosos e olhares maus, o ser demasiado paciente, com tudo tolerante, com tudo satisfeito: pois isso é maneira de servo.
Seja alguém servil ante os deuses e os pontapés divinos ou ante os homens e as estúpidas opiniões humanas: em toda maneira de servo ele cospe, esse bem-aventurado egoísmo!
Ruim: assim chama ele a tudo que se curva e é tacanho-servil, aos submissos olhos que pestanejam, aos corações oprimidos e àquela falsa maneira indulgente que beija com lábios amplos e covardes.
E pseudossabedoria: assim chama ele a tudo que gracejam os servos, idosos e cansados; e, em especial, toda a feia, delirante, demasiado engenhosa tolice dos sacerdotes!
Os pseudossábios, porém, todos os sacerdotes, os cansados do mundo e aqueles cuja alma tem a maneira da mulher e do servo — oh, que terríveis peças pregaram desde sempre no egoísmo!
E que precisamente isto fosse considerado e chamado virtude, pregar terríveis peças no egoísmo! E “sem-ego” — assim desejariam ser, com bom motivo, todos esses covardes e aranhas-de-cruz cansados do mundo!
Mas para todos eles está chegando o dia, a transformação, a espada da justiça, o grande meio-dia: muita coisa será então revelada!
E quem proclama o Eu sadio e sagrado e o egoísmo bem-aventurado, em verdade também proclama aquilo que sabe e profetiza: “Vê, ele está chegando, ele está próximo, o grande meio-dia!”.

Assim falou Zaratustra.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

02/08/2024

Dos três males


1.

Num sonho, no último sonho da manhã, eu estava hoje num promontório — além do mundo, eu segurava uma balança e pesava o mundo.
Oh, cedo demais chegou a aurora: acordou-me com seu ardor, a ciumenta! Sempre tem ciúmes de como ardem meus sonhos matinais.
Mensurável para aquele que tem tempo, sopesável para um bom pesador, sobrevoável para asas fortes, adivinhável para divinos quebra-nozes: assim meu sonho encontrou o mundo: —
Meu sonho, um audaz velejador, meio barco, meio ventania, silencioso como as borboletas, impaciente como os falcões: mas como teve hoje tempo e paciência para pesar o mundo!
Teria lhe falado em segredo minha sabedoria, minha risonha e alerta sabedoria diurna, que zomba de todos os “mundos infinitos”? Pois ela diz: “Onde há força, também o número se torna senhor: ele tem mais força”.
Com que segurança olhava meu sonho para esse mundo finito, não com anseio do novo ou do velho, não com temor ou com rogos: —
como se uma maçã inteira se ofertasse à minha mão, uma madura maçã de ouro, com pele fresca, suave e sedosa: — assim se me ofertava o mundo: —
como se uma árvore me acenasse, frondosa, voluntariosa, curvada para encosto e até para apoio do pé do caminhante cansado: assim se achava o mundo em meu promontório: —
como se mãos graciosas me trouxessem um relicário — um relicário aberto, para encanto de olhos pudicos e adoradores; assim vinha hoje o mundo ao meu encontro: —
não enigma bastante para afugentar o amor dos homens, não solução suficiente para adormecer a sabedoria dos homens: — uma coisa humanamente boa era hoje para mim o mundo, do qual tanta coisa ruim se fala!
Como agradeço a meu sonho matinal eu haver assim pesado o mundo hoje cedo! Como algo humanamente bom veio ele a mim, este sonho e consolador do coração!
E, para que eu faça como ele durante o dia, dele aprendendo e imitando o que é melhor: vou agora pôr na balança as três coisas mais ruins e sopesá-las humanamente bem. —
Quem ali ensinou a abençoar, também ensinou a amaldiçoar: quais são, no mundo, as três coisas mais bem amaldiçoadas? Essas eu porei na balança.
Volúpia, ânsia de domínio, egoísmo: essas três foram até agora as mais bem amaldiçoadas e mais terrivelmente caluniadas e aviltadas — essas três vou agora sopesar humanamente bem.
Pois bem! Aqui está meu promontório e ali o mar: esse rola até meus pés, peludo, lisonjeador, o velho, fiel monstro-cão de cem cabeças que eu amo.
Pois bem! Aqui vou segurar a balança sobre o mar que rola: e também uma testemunha escolho, para que observe — a ti, árvore solitária, a ti, de forte aroma e ampla copa, que eu amo! —
Por qual ponte vai o hoje para o algum dia? Sob qual coação o que é alto se obriga a descer ao que é baixo? E o que diz ao mais alto para ainda — crescer mais? —
Agora a balança está quieta e equilibrada: três difíceis questões eu lancei, três difíceis respostas estão no outro prato.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

26/07/2024

O regresso


Ó solidão! Solidão, pátria minha! Por tempo demais vivi selvagemente, em selvagens terras alheias, para não regressar a ti sem lágrimas!
Agora apenas me ameaça com o dedo, como fazem as mães, agora sorri para mim, como sorriem as mães, agora apenas fala: “E quem foi aquele que um dia, como um vendaval, escapou tempestuosamente de mim? —
que partindo exclamou: por tempo demais fiquei junto à solidão, então desaprendi de calar! Isso — aprendeste agora?
Ó Zaratustra, sei de tudo; e também que no meio de muitos homens estavas mais abandonado, único que és, do que jamais estiveste comigo!
Uma coisa é o abandono, outra é a solidão. Isso — aprendeste agora! E que sempre serás, entre os homens, selvagem e alheio:
selvagem e alheio ainda quando te amem: pois antes de tudo eles querem ser poupados!
Mas aqui estás contigo e em casa; aqui podes falar tudo e desabafar todas as razões; nada, aqui, se envergonha de sentimentos escondidos, empedernidos.
Aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam: pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade.
De forma direita e direta podes falar aqui a todas as coisas: e, em verdade, aos seus ouvidos soa-lhes como um louvor que alguém fale com todas as coisas sem rodeios!
Diferente, todavia, é ser abandonado. Pois ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando o teu pássaro gritou acima de ti, quando estavas na floresta, sem saber para onde ir, indeciso, próximo de um cadáver: —
quando falaste: que os meus animais me conduzam! Vi mais perigo entre os homens do que entre os animais: — Isso era abandono!
E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando estavas em tua ilha, uma fonte de vinho entre cântaros vazios, dando e dividindo, regalando e repartindo entre os sedentos:
até que finalmente eras o único sedento entre os bêbados e à noite lamentavas: ‘Não é mais venturoso receber do que dar? E ainda mais venturoso roubar do que receber?’ — Isso era abandono!
E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando chegou tua hora mais silenciosa e te arrastou para longe de ti mesmo, quando falou num malvado sussurro: ‘Fala e te despedaça!’ —
quando fez que te arrependesses de todo o teu esperar e silenciar e que esmorecesse tua humilde coragem: isso era abandono!” —
Ó solidão! Solidão, pátria minha! Quão terna e bem-aventurada me fala a tua voz!
Nós não interrogamos um ao outro, não reclamamos um ao outro, passamos, um ao outro aberto, por portas abertas.
Pois contigo é tudo aberto e claro; e mesmo as horas correm aqui com pés mais leves. De fato, no escuro o tempo é mais pesado que na luz.
Aqui se abrem para mim as palavras e arcas de palavras de todo o ser: todo o ser quer vir a ser palavra, todo vir-a-ser quer comigo aprender a falar.
Lá embaixo, porém — lá toda fala é em vão! A melhor sabedoria, lá, é esquecer e passar ao largo: isso — aprendi eu agora!
Quem quisesse tudo compreender nos homens, precisaria tudo acometer.115 Mas para isso tenho mãos demasiado limpas.
Nem seu hálito me agrada inalar; ah, como vivi tanto tempo em meio a seu ruído e mau hálito?
Oh, venturoso silêncio ao meu redor! Oh, puros odores ao meu redor! Oh, como este silêncio extrai ar puro do peito profundo! Oh, como escuta este venturoso silêncio!
Mas lá embaixo — ali tudo fala e nada é ouvido. Alguém pode anunciar sua verdade com sinos: os merceeiros do mercado lhe cobrirão o som com o tilintar dos níqueis!
Entre eles todos falam, e ninguém mais entende. Tudo vai por água abaixo, nada mais fica em poços profundos.
Entre eles todos falam, e nada mais vinga e chega ao fim. Todos cacarejam, mas quem fica sentado em silêncio no ninho, para chocar os ovos?
Entre eles todos falam, e tudo é estropiado com palavras. E aquilo que ontem ainda era duro demais para o tempo e seus dentes: hoje pende, roído e rasgado, das bocas dos homens de hoje.
Entre eles todos falam, tudo é revelado. E o que um dia era segredo e reserva de almas profundas, hoje pertence aos trombeteiros das ruas e outras borboletas.
Ó ser humano, singular criatura! Ruído em becos escuros! Agora te achas novamente detrás de mim: — meu maior perigo se acha detrás de mim!
Poupar e compadecer sempre foi meu maior perigo — e todo ser humano quer ser poupado e compadecido.
Com verdades contidas, com mãos de tolo e coração tolamente enamorado, e pródigo nas pequenas mentiras da compaixão: — assim sempre vivi entre os homens.
Disfarçado me sentava entre eles, disposto a me desconhecer para melhor suportar a eles, e de bom grado me dizendo: “Tolo, não conheces os homens!”.
Desaprende-se a conhecer os homens ao viver entre eles: há “fachada”116 em demasia em todos os homens — que têm a fazer, ali, olhos que veem longe, que desejam o longe?
E, quando me desconheciam: eu, tolo, poupava-os mais do que a mim mesmo por isso — habituado à dureza comigo e muitas vezes vingando-me em mim mesmo por poupá-los.
Picado por moscas venenosas e furado, como uma pedra, por muitas gotas de maldade, assim me sentava entre eles, ainda dizendo a mim mesmo: “Tudo pequeno é inocente de sua pequenez!”.
Especialmente os que se chamam “os bons” percebi como as moscas mais venenosas: eles picam com toda a inocência, mentem com toda a inocência; como conseguiriam, em relação a mim — ser justos?
Àquele que vive entre os bons a compaixão ensina a mentir. A compaixão torna bafiento o ar para todas as almas livres. Pois insondável é a estupidez dos bons.
Ocultar a mim mesmo e a minha riqueza — isso aprendi lá embaixo: pois todos me pareceram ainda pobres de espírito. Essa foi a mentira de minha compaixão, o fato de que em cada um eu sabia,
de que em cada um via e cheirava o que lhe era espírito suficiente e o que já lhe era espírito demais!
Seus rígidos sábios: eu os chamei sábios, não rígidos — assim aprendi a engolir palavras. Seus coveiros: eu os chamei pesquisadores e examinadores — assim aprendi a trocar palavras.
Os coveiros cavam doenças para si. Sob velhos escombros descansam vapores ruins. Não se deve revolver o lodaçal. Deve-se viver nas montanhas.
Com narinas venturosas respiro novamente a liberdade dos montes! Finalmente redimido se acha meu nariz do odor de seres humanos!
Por agudos ventos titilada, como que por espumantes vinhos, minha alma espirra — espirra e brinda a si mesma: Saúde!

Assim falou Zaratustra.

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra

10/07/2024

Dos apóstatas | 2.


Tornamo-nos novamente devotos” — admitem esses apóstatas; e alguns deles são demasiado covardes para admitir isso.
A esses eu olho nos olhos — a esses digo no rosto e no rubor das faces: sois daqueles que novamente rezam!
Mas é uma vergonha rezar! Não para todos, mas para ti, para mim e quem mais tenha consciência na cabeça. Para ti é uma vergonha rezar!
Bem o sabes: o covarde demônio em ti, que bem gostaria de juntar as mãos e pôr as mãos no colo e sentir-se mais cômodo: — é esse covarde demônio que te diz: “Existe um Deus!”.
Com isso, no entanto, pertences à espécie de homens que temem a luz, aos quais a luz nunca deixa em paz; todos os dias, agora, tens de enfiar a cabeça mais profundamente na noite e na névoa!
E, em verdade, escolheste bem a hora: pois justamente então saem de novo as aves noturnas. Chegou a hora para todos os seres que temem a luz, a hora festiva e de descanso, em que não se — “festeja”.
Já escuto e farejo: chegou sua hora de caçada e procissão, não uma caçada selvagem, é certo, mas mansa, claudicante, espreitante, de gente pisa-mansinho e reza-baixinho, —
uma caçada a sonsos cheios de alma: todas as ratoeiras do coração estão novamente armadas! E, onde quer que eu levante uma cortina, sai voando uma falenazinha noturna.
Estaria lá encolhida com outras falenazinhas? Pois em toda parte sinto cheiro de conventículos ocultos; e, onde há pequenos aposentos, neles se acham novos carolas e névoa de carolas.
Eles ficam longas noites sentados juntos e dizem: “Vamos voltar a ser como as criancinhas e invocar o bom Deus!” — com a boca e o estômago estragados pelos devotos confeiteiros.
Ou durante longas noites olham para uma astuta, expectante aranha-de-cruz, que prega sagacidade às próprias aranhas e ensina que “debaixo das cruzes pode-se tecer bem!”.
Ou ficam sentados o dia inteiro ao lado de pântanos, com varas de pescar, acreditando-se profundos por isso; mas quem pesca onde não há peixes, eu não chamaria sequer de superficial!
Ou aprendem, de maneira risonha-devota, a tocar harpa com um criador de canções que bem gostaria de falar ao coração de jovens mulheres com seus harpejos: — pois já se cansou das mulheres velhas e de seus louvores.
Ou aprendem a arrepiar-se com um semilouco erudito que aguarda, em escuros aposentos, que os espíritos o procurem — e o espírito escape inteiramente!
Ou escutam um velho e vagamundo gaiteiro resmungão, que aprendeu de ventos sombrios o tom sombrio dos sons; agora assovia conforme o vento e prega a aflição com tons aflitos.
E alguns deles se tornaram até mesmo vigias noturnos: agora sabem soprar cornetas e rondar pela noite e despertar velhas coisas que há muito adormeceram.
Cinco falas sobre velhas coisas ouvi, ontem à noite, junto ao muro do jardim: eram desses velhos, aflitos, secos vigias noturnos.
Como pai, não cuida o bastante dos filhos: pais humanos fazem isso melhor!” —
É muito velho! Já não se preocupa com os filhos” — respondeu o outro vigia noturno.
Mas ele tem filhos? Ninguém pode provar isso, se ele mesmo não provar! Há muito eu queria que ele o provasse totalmente.”
Provar? Como se ele tivesse alguma vez provado algo! Prova é algo difícil para ele; dá grande importância a que se creia nele.”
Sim, sim, a fé o torna bem-aventurado, a fé nele. São desse jeito as pessoas velhas. Conosco é assim também!” —
Assim falaram um ao outro os dois velhos vigias noturnos e tementes da luz, e em seguida tocaram suas cornetas, preocupados: foi o que aconteceu ontem à noite, junto ao muro do jardim.
Mas em mim o coração se torceu de rir, querendo explodir, mas não sabia onde, e afundou no diafragma.
Em verdade, isto ainda será minha morte, sufocar de risos quando vejo asnos embriagados e ouço vigias noturnos a duvidar assim de Deus.
Pois há muito não passou o tempo também para essas dúvidas? Quem ainda se permitiria despertar essas velhas coisas adormecidas e tementes da luz?
Há muito tempo tiveram fim os velhos deuses — e, em verdade, foi um bom fim, alegre, de deuses!
Eles não tiveram um “crepúsculo”: — isso é mentira! O que houve, isto sim, foi que um dia morreram de — rir!
Isso ocorreu quando as mais ímpias palavras saíram da própria boca de um deus: “Existe apenas um só Deus! Não deves ter nenhum outro deus além de mim!” —
um velho deus barbudo e raivoso, bastante ciumento, excedeu-se a esse ponto.
E todos os deuses caíram então na risada, mexeram-se nas suas cadeiras e exclamaram: “Justamente isso não é divino, que haja deuses, mas nenhum Deus?”.
Quem tem ouvidos, que ouça. —

Assim falou Zaratustra na cidade que amava e que chamam “A Vaca Malhada”. Dali ele ainda precisava caminhar mais dois dias, para chegar até sua caverna e seus animais; mas sua alma estava exultante com a proximidade do regresso. —

Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra