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16/09/2026

Balada do Festival — XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.

Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.
Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes

damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs…
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa…
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para.

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Hilda Hilst, em De amor tenho vivido  50 poemas

18/09/2025

Balada XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes
damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs...
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa...
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para. 

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Hilda Hilst, em Baladas

23/03/2025

Balada / XIX

Nada de novo tenho a dizer-vos.

E se tivesse também não vos diria.

Os versos são prodígios escondidos

da minha fantasia.

Hão de ficar assim. Solenes. Mudos.

E por que não?


Quem alguma vez os leu

com o mesmo amor

com que os escrevi

 

e na mesma solidão…

Hilda Hilst, em Baladas

15/03/2025

Balada XVII

a Luiz Hilst

O poema se desfaz. Bem sei.
E aos poucos morre.
Se o gênio do poeta conseguisse
a palavra com sabor de eternidade.
Dizer da amiga que se foi
e abria os olhos noturnos sem vontade.
Dizer do amante alguma coisa a mais
além da espera.
Dizer da mãe, ó amadíssima,
tudo o que a boca não diz
e que se perde.

Tão sós estão os homens e a palavra.
Por que não haverá um outro mundo
sem ruído nem boca,
mudo, esplendidamente mudo?

Hilda Hilst, em Baladas

18/04/2024

Balada do festival

Na verdade apareceu
vindo de terras distantes
um homem quase poeta
que me amou e que se deu
a mim e a outras também.
E dizia ao telefone
coisas tão ternas, tão tudo,
que só de ouvi-lo e esperá-lo
muita mulher se perdeu.
Muita mulher... também eu.
Amei-o naquela pressa
de horas marcadas e hotéis...
dentro de mim a promessa
de amá-lo ainda que fosse
na velha China, nos mares,
dentro de algum avião.
E quando ele me chamava
eu toda vagotonia
ia e vinha e pressentia
o homem que me fugia
de passaporte na mão.

Agora estou tão cansada
perdi-me na confusão
de ser amante e amada.
Se ainda vou procurá-lo
em Paris ou em Viena
não me perguntem, amigos,
que eu faço um olhar tão triste
tão triste de fazer pena...
Na verdade apareceu
vindo de terras distantes
um homem asas e Orfeu.

Hilda Hilst, in Baladas

11/01/2024

Cançãozinha triste

E fiz de tudo...
Fui autêntica, durante algum tempo.
Fui inquietude e fragilidade.
Brilhei em roda de amigos.
Pratiquei o esporte com violência
e uma vez (trágica melancolia!)
nadei com aparente desenvoltura
(peito arfante e dilacerado)
mil metros na butterfly...
Fui amante, amiga, irmã,
sorri quando ele me disse coisas amargas…

E nada o comove.
Nada o espanta.
E ele mente
e mente amor
como as crianças mentem.

Hilda Hilst, in Baladas

25/12/2023

Balada do festival | VII

Inadvertida rosa.
Quis avisar-te
do roteiro sem fim
das urzes e da ventania.
(Já era tarde quando
pensei em procurar-te.
De nada adiantaria.)

Deixaste a terra
que te alimentava
e o lírio. Te lembras?
Aquele que aos teus pés crescia.
Nada somos sem ti.
No entanto, espera.
Na tua volta
deixarão que eu fale
porque sou poeta. E te direi…

estrela inédita
na vastíssima escuridão
que me contorna. Surgiste.

Hilda Hilst, in Baladas

04/12/2023

Baladas do festival | VI

Nada mais tenho
na memória
rosa dos ventos
transitória
onde estarás
depois de todo
o meu tormento...

Hás de ficar
tão só, tão só
no pensamento
e depois dele
o que restar
sal e areia
esquecimento
há de voltar
para o teu sono
secular.

Rosa dos ventos
eu te imagino
viagem, navio.

Mas o que há
é o sofrimento
de ver o rio
o rio, o rio
(pobre de mim)
e nunca o mar…

Hilda Hilst, in Baladas

25/10/2023

Balada do festival | IV

a Vinicius de Moraes

Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens que mulheres.
Porque fui mais amante que amiga)
Sem dúvida dirão as coisas que não fui.
Ou então com grande generosidade:
Não era mau poeta a pequena Hilda.

Terei rosas no corpo, nas mãos, nos pés.
Sei disso porque fiz um pedido piegas
à minha mãe: “Quero ter rosas comigo
na hora da minha morte”.

E haverá rosas,
São todos tão delicados
tão delicados…

Na hora da minha morte
estarão ao meu lado mais homens
infinitamente mais homens que mulheres.
E um deles, dirá um poema sinistro
a jeito de balada em tom menor...

Tem tanto medo da terra
a moça que hoje se enterra.
Fez poema, fez soneto
muito mais meu do que dela.
Lá, lá, ri, lá, lá, lá, lá.

Hilda Hilst, in Baladas

19/09/2023

Balada do festival

Ao meu irmão
a Lygia e Goffredo

Não falemos.
E que as vontades primeiras
permaneçam
gigantescas e disformes
sem caminho nenhum
para o mundo dos homens.

I

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade

se te disserem
minha elegia
ser mais vaidade
do que homenagem.

Por que o seria?
Me adivinhaste
quando a palavra
nada dizia

e longo tempo
(quando se amava)
havia dias
em que choravas

e estremecias.

Falam de ti.
Da tua pouca
fidelidade.

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes
se toda vez
que te entregavas
extenuado

te perdias.
Ah, se a poesia
me permitisse
voos mais altos

mesmo na morte
as confidências
que eu te faria…

Ainda me tens.
E bem por isso
destila em mim
teu peso enorme.

E no poema
que te dedico

meu triste corpo
ainda uma vez
chora comigo
chora comigo.

Hilda Hilst, in Baladas

14/09/2023

Balada | XVI

O que nós vemos das coisas são as coisas.
(Fernando Pessoa)

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólica e suave

que fazemos das coisas.

A mesa de escrever é feita de amor
e de submissão.
No entanto
ninguém a vê
como eu a vejo.

Para os homens
é feita de madeira
e coberta de tinta.
Para mim também
mas a madeira
somente lhe protege o interior
e o interior é humano.

Os livros são criaturas.
Cada página um ano de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.

As coisas não existem.
A ideia, sim.

A ideia é infinita
igual ao sonho das crianças.

Hilda Hilst, in Baladas

27/02/2023

Balada XV

a Carlos Drummond de Andrade

A rosa do amor
perdi-a nas águas.

Manchei meus dedos de luta
naquela haste de espinho.
E no entanto a perdi.
Os tristes me perguntaram
se ela foi vida p’ra mim.
Os doidos nada disseram
pois sabiam que até hoje
os homens
dela jamais se apossaram.

Ficou um resto de queixa
na minha boca oprimida.
Ficou gemido de morte
na mão que a deixou cair.

A rosa do amor
perdi-a nas águas.
Depois me perdi
no coração de amigos.

Hilda Hilst, in Baladas 

20/11/2022

Balada | V

Acreditariam
se eu dissesse aos homens
que nascemos

tristemente humanos
e morremos flor?

Acreditariam
que a presença é ausente
quando o olhar se perde
nas alturas?

Acreditariam
ser a nossa vida
vontade consciente
de não ser?

E ser luz e estrela
água, flor.

Hilda Hilst, in Baladas

10/11/2022

Balada de Alzira | II

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco
(C. Drummond de Andrade)

O que ficou de mim
além de eu mesma
não o sei.
Nem o digas às crianças
porque no que ficou
a palavra de amor
está partida

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.

Nem o digas aos homens
Era o rio
e antes do rio havia areia.
Era praia
e depois da praia havia o mar.
Era amigo
ah! e se tivesse existido
quem sabe ficava eterno.

Nada ficou de mim
além de eu mesma.
Tênue vontade de poesia
e mesmo isso

imperceptível sombra
de flor no ramo frágil.

Hilda Hilst, in Baladas

09/09/2022

Balada | XVII

Todos irão sempre contra ti
porque tens pureza.

Porque o agitado de tuas mãos
é quase nostálgico.

Porque teus olhos
ficarão abertos
para quem os viu
uma única vez.

Todos irão sempre contra ti
porque hás de querer
um mundo novo e diferente.
Porque és estranho
e diferente para o nosso mundo.

És quase um louco
porque não dás atenção
a toda gente.

Dirão que és poeta.
Porque a poesia aparece nos teus gestos
como aparece fé na oração de um crente.
Amaste quase todas as mulheres.
Mas o amor agora é tão difícil.

Não existes para mim.
Mas agitado, febril,
quase doente, és vivo...

Vivo demais para viver conosco.

Hilda Hilst, in Baladas

18/08/2022

Balada | XVI

Tenho preguiça
pelos filhos que vão nascer.

Teremos que explicar
tanta cousa a tantos deles.
Um dia hão de me perguntar
tudo o que perguntei:
Mãe, por que não posso
ver Augusto quando quero?
Mãe, andei lendo muito esses dias
e estou quase chegando
a encontrar o que eu queria.

Inutilidade das palavras.

Tenho preguiça,
tanta preguiça
pelos filhos que vão nascer.
Dez, vinte, trinta anos
e estarão procurando alguma cousa.
Nunca se lembrarão
daqueles que já morreram
e procuraram tanto.
Vão custar (ó deuses)
a entender aqueles
que se mataram.

Os filhos que vão nascer,
coitados!
Hão de pensar que são eles
os destinados.
Hão de pensar que você
nunca passou o que eles estão passando.

Os filhos que vão nascer...

Insatisfeitos.
Incompreendidos.

Hilda Hilst, in Baladas

03/07/2022

Balada | XIV

Fui monja
vestida de negro
em labirinto azul.

Antes do Ser
havia um homem
consciente
destruindo o lirismo
descuidado
das minhas madrugadas.

Estava presente
nas conversas dos bares
solitárias histórias.
Estava presente
na fusão dos homens medíocres
e dos homens sem cor.

Em azul e negro
eu vi o esboço
de um caso triste,
aquele doido
procurando as mãos.
As mãos que deixara
sobre alguma mesa
de mármore azulado
em algum labirinto azul.

Andei tanto por corredores vazios
que nas minhas chagas
não existem pés.
Inconsciente monja vestida de negro,
teus cabelos eram feitos de conchas,
teu véu de redes do mar.
Entre os dedos tinhas contas coloridas.
Mas, havia um homem
consciente
destruindo o lirismo
das tuas madrugadas.

Morreu o mundo das monjas.
Morreu o mundo das mãos.
Sou doida desfigurada
procurando mãos
mergulhadas em azul.

Sou quase morta
no descanso estéril
da cor negra.

Hilda Hilst, in Baladas

24/06/2022

Balada | XIII

Me falaram de um deus.
Eu chorava na quietude
dos dias sós.

A irmã morta sorria
o riso pálido dos santos.

Me falaram de um deus.
Deus em branco.
Deus que faz de flores, pedras.
E de pedras, compreensão.

Deus amargurado.
Chora e geme
na quietude dos dias sós.

Consolo.

Hilda Hilst, in Baladas

15/06/2022

Balada | X

Olhamos eternamente
para as estrelas
como mendigos
que eternamente
olham para as mãos.

E imaginamos
cousas absurdas
de realização.
Cousas que não existem
e cujo valor
é o de consistirem
parte da ilusão.

E olhamos eternamente
para as estrelas
porque parecem diferentes.
E quando agrupadas
eu as revejo individualizadas.
Estrelas... só.
Quem sabe se naquela imensidão
elas sofrem o mal dissolvente,
passivo,
mas dissolvente ainda: solidão.

Brilham para o mundo.
No entanto estão sozinhas
na lúgubre fantasia de pontas.

Nunca, meditem,
nunca as encontraremos
pois elas olham
igualmente para nós
e nos desejam
porque estão sós.

Hilda Hilst, in Baladas

02/06/2022

Balada | IX

Colapso hibernal
das cousas ausentes.
Desfila diante de mim
o teu olhar parado.
Na minha frente
há figuras de mortos
tecendo roupas brancas,
e na tua vida
há qualquer cousa de triste
que não foi contado.

Coragem de viver os dias
sem falar de loucos
quando há qualquer louco
no infinito,
pedindo uma lembrança
e contei os seus dias de vida
nos meus sonhos.

Existe um deus qualquer
nas minhas entranhas.

Pobre loucura
atrofiando o amor da amada.
Teu pobre olhar
atrofiou minha vida inteira.

Hilda Hilst, in Baladas