Mostrando postagens com marcador John Donne. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Donne. Mostrar todas as postagens

04/07/2013

Sonetos de Meditação - XIII

E se a última noite do mundo fosse agora?
Marca em meu coração, ó Alma, o ponto em que
A imagem de Jesus na cruz se fixa, e vê
Se o seu semblante, ali, por ventura, a apavora;
Lágrimas em seus olhos apagam toda a luz,
O sangue enche seus cílios, vindo da testa em chagas.
Pode essa língua dar-te, Alma, às infernais pragas,
Se disse aos inimigos: “Eu vos perdoo”, na cruz?
Não, Não! Mas como em minha idolatria
Disse às minhas amantes: - A beleza
É sinal de piedade, e de rudeza
É sinal o que é feio – assim podia
Dizer-te: Os maus espíritos têm formas horrorosas,
E esta forma, tão bela, tem ideias piedosas.
John Donne – Tradução de Afonso Felix de Sousa

09/04/2013

Soneto de meditação - XII

Por que somos servidos por todas as criaturas?
Por que os elementos, tão pródigos, me dão
Vida e alimento, se eles são substâncias mais puras
Que eu, e não se destinam, como eu, à corrupção?
Por que toleras tudo, estúpido cavalo?
Por que mostras fraqueza enquanto vais às cegas
E docilmente, touro, se o homem a quem te entregas
E que te mata, podes muito bem devorá-lo?
Sou mais fraco, ai de mim, e sou pior que vós,
Que não pecastes nunca, e assim nada temeis.
Milagre dos milagres, pois foram para nós
Subjugadas as coisas, conforme obscuras leis;
E o seu Criador, que nunca um erro cometeu,
Por nós, suas criaturas, e inimigos, morreu.
John Donne – Tradução de Afonso Felix de Sousa

08/10/2011

Elegia: indo para o leito


Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

John Donne - Tradução: Augusto de Campos

24/06/2011

Sonetos Sacros - VI

É minha última cena, aqui o céu demarca
A última milha para a última caminhada;
E eu sigo a esmo, e às pressas; na última polegada
A andar, o último instante, que o tempo vem e abarca;
E a morte, essa glutona, separará em breve
Meu corpo, e a alma, e vou dormir por longo espaço,
Mas o que não dorme em mim verá então, a um passo,
A face que já temo, e que ninguém descreve;
Então, como minha alma volta ao céu, que a conduz,
E o corpo, que é da terra, na terra vai ficar,
Caem meus pecados – todos a isso é que fazem jus –
No inferno onde os geraram, podendo me arrastar.
Considera-me um justo, limpo do mal imundo,
Que assim deixo o demônio, deixando a carne, o mundo.

John Donne

23/04/2011

                           “Toda morte não me diminui, porque eu sou uma parcela da humanidade; não me perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”. 
                                                     John Donne