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22/03/2012
24/11/2011
Flores Novíssimas
Revolução em Pintura é pintar um novo jarro de flores.
A Pintura é uma arte extremamente difícil que se deve fazer com muita facilidade.
Pretensiosa pretensão. Desvairada arte.
São apenas jarros de flores, de flores apenas.
Síntese: Fazer de tudo, de tudo fazer, para depois só flores pintar.
Prefiro os jarros que não são flores, as flores de arte e a arte que cria as flores. Nada mais justo, nada melhor que uma “natureza morta”, bem vivida e pintada.
Falasse eu de flores. Mas não. Falo de borboletas. As flores não valem nada. Farfalhas, papalotes, papillons, mariposas, butterflies, borboletas são farfalas, papalotes, papillons, mariposas, butterflies. Psyche. Nada mais.
Olhai, amados senhores, estas novas toalhas de mesa. Vejam este vermelho de fogo, este dourado digno da tenda de Saladino. Este preto de pó preto, que mal vejo, e que é feito de osso cremado. Azul. Azul é obra do amarelo, grande senhor do Sol, o melhor amigo de meus ombros. Balas de Laranja. Lembrança, sabor. Infância, rosa-de-meninice. Frutas, flores nos quintais dos gozos repostos.
Receber com flores. Nada melhor.
Nada maior.
Olho o jardim do céu e pinto flores- flores são mais flores quando já não o são.
Pintor, ouso diser: - as cores não existem. Existe a arte e a arte faz a vida e a vida as cores. Sem vida não é cor; é tinta. Cores, tintas... Umas não existem, outras não valem nada.
Olhar a natureza, fechar os olhos, e pintar.
Por pintura na inteligência. Amo o talento que corrige a regra e a emoção.
A Pintura é o silêncio. Palavras podem vir depois, nunca antes, raramente durante. Maior que o silêncio da natureza só o silêncio de um bom quadro.
A linha é libertária; deve-se desenhar pintando. Tanto quanto a cor, a linha revela o pintor. Não sou moderno. Muito menos contemporâneo. Sou pessoal, fora do centro, talvez arcaico.
Pinto na Horizontal, num cavalete horizontal, bem perto da tela-, ando em volta da pintura, mas sem recear pisá-la. Preciso de um só pincel, algumas tintas e o Sol.
O verdadeiro dinheiro é a pintura. Status é ter e cuidar de um jardim. Quanto mais poesia, mais poder.
Veloz como a vida numa pintura.
Eu pinto flores para viver de cores e morrer alegre.
Oscar Araripe, pintor e escritor carioca
13/11/2011
Maria enfim em mansíssima
Maria, então, é encontro, assim como eu, no extremo correto de nossas idades. Veio magra magríssima em mansíssima. E digo-lhe:
Teu ar
É de linho.
Aragem em tuas mãos.
Ar de aragem,
No ar,
No linho de tuas mãos.
Sorri, então, falsa magra, simula os contornos do corpo então nu e diz que me ama, assim sem versos e nos eletrodos de seu linho corpo. Pego-lhe as mãos, tateio-lhe a aragem, sorvo dela, engulo-a e digo-lhe que amar é tatear e beijo-lhe com firmeza como que só a mim coubesse terminar o beijo. Depois cheiro-lhe o corpo pela nuca, seio, coxa, saliva e gozo. Vejo que tem olhos de boneca antiga, penso em compor-lhe um bolero profundamente medíocre, que fosse só dela, em segredo anonimato. Vejo também que lhe digo amor e penso em permanência nos linhos de suas mãos. Sinto-me confortável e digo-lhe estar em paz, repito tudo, amor e paz, aferindo o que vejo, o que digo, o que cheiro, o que gosto, o que ouço.
Amar nos extremos dos sentidos.
Amar então é mudar, o corpo em linho, o ar em mãos, a aragem em linhos, o linho em mãos.
Oscar Araripe, pintor e escritor carioca, in Maria na terra de meus olhos
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