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29/07/2015

Sobre mulheres, ácaros e formigas

A cultura patrimonial e a linguagem de divulgação são os álibis da nossa hegemonia, considerando que o dinossauro morreu porque era um dinossauro e as formigas nos sobreviverão, mas escravas de uma lógica cavernícola que as impedirá de lutar contra os ácaros e contra as mulheres. Vão ganhar os ácaros. Sinto muito pela formiga e pelas mulheres, mas as duas alternativas avançam prepotentes numa ausência de vontade de poder, as formigas, ou numa denúncia da masculina vontade de poder, as mulheres. Sarcástica mentira, principalmente para o velho catedrático que testemunhou cinquenta anos de ascensão de suas colegas femininas, com uma capacidade de dentadas e rasteiras perfeitamente masculina, quando não usaram os peitos ou as bocetas, de que também carecem quase todos os homens. Sinto muito, sou misógino. Mas as mulheres não vão conseguir derrotar os ácaros. Os ácaros suportam até a bomba de nêutrons e não precisam se fantasiar de outra coisa para permanecer no ar ou nos nossos pulmões. Estão em toda parte. São Deus. Repetem o poder do invisível para criar ou desfazer o visível.”

Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

07/07/2015

Somos umas formigas

A senhora vê? Somos umas formigas e tudo o que podemos almejar é a piedade da sola do pé dos deuses, para que adiem o nosso pisoteamento o máximo possível. Chore. Chore. Desespere-se. Mas a senhora é uma mulher bonita, muito bonita, e seu próprio corpo, como as gardênias, em contato com o meio vai encontrar motivos para sobreviver.”
Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

13/04/2015

Provas

“– Vocês são católicos? – perguntou Diderot.
Não.
Eu também não. Mas precisamos dizer algumas coisas pelos nossos companheiros (jesuítas assassinados).
Levou Diderot a mão ao peito e olhou para um céu quase encoberto pelas copas das árvores mais altas.
Senhor Deus dos nossos companheiros Iriondo e Blázquez, acolhe-os num dos melhores lugares destinados aos teus santos e teus mártires, porque eles não só deram provas de que acreditavam em Ti, mas sobretudo de que acreditavam em todos nós.”
Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

06/04/2015

Catástrofes

Porque penso que se cada qual é dono de suas próprias catástrofes, as catástrofes deixam de ser catástrofes.”
Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

31/03/2015

Narcisista

“– Você deve estar imensamente feliz.
Por quê?
A homenagem. Na certa vai receber até um telegrama do rei. Você é muito narciso e essas coisas o engrandecem, você gosta.
Em termos de narcisismo não tenho nada a ensinar a uma mulher.
Errado. Em nós é uma obrigação imposta pelo papel de chamariz. Em vocês muda muito a segunda pessoa. Você, por exemplo, é narcisista porque só tem a si mesmo. Desconfia afetivamente de todos os que estão à sua volta.”
Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

23/03/2015

Cumprir o protocolo

“–Todos nós pensamos de duas maneiras diferentes, Marta. Primeiro pensamos para cumprir o protocolo e dizer bom-dia ou me dá esse vestido ou o que vamos fazer neste verão. E depois pensamos de verdade que os nossos pensamentos habituais falsificam o que sentimos ou o que deveríamos sentir com sinceridade. Pedro e a mulher dele viram o outro lado dessa trama de pequenas misérias, disso que chamamos de viver corretamente. Quase tudo aquilo em que acreditamos ou fingimos acreditar, e não me refiro ao aspecto religioso, é uma merda.
Nossa.
Digamos uma porcaria.
Não melhora muito a realidade.”

Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide

17/03/2015

Os condenados da Terra

“– Mas que horror de homem! – me escapou, e os olhos claros da mulher loura me censuraram antes de seus lábios explicarem.
Perdeu as estribeiras. Ele não é assim. Ultimamente as coisas não andam bem para o seu lado e está com uma paranoia gravíssima. Alguém disse que o pior que pode acontecer com um paranoico é ser perseguido de verdade. De qualquer modo, o problema é meu e muito obrigada.
Você é enfermeira?
Como percebeu?
Pelas meias brancas.
Tenho o título e faço algumas substituições, como agora. É duro lutar por uma vaga. São milhares de candidatos para cada emprego e isso numa sociedade com expectativa de vida de mais de setenta anos.
Acha que é expectativa demais?
Depende da vida que você levar.
A conversa era entre eles dois e eu estava alucinada porque tinha acabado de descobrir que Pedro era um homem que podia sentir-se atraído por uma garota loura, de olhos claros e lábios rosados. Ela tinha projetos. Inscrever-se nos Médicos Sem Fronteiras e tentar melhorar o nível de vida dos condenados da Terra, expressão que repetiu três vezes. Gostava dela. Era bonita e me emocionou. Os condenados da Terra! Havia superado a comoção do desagradável encontro e, estimulada por nossas perguntas, Myriam disse coisas brilhantes e muito instigantes. Por exemplo, que sua liberdade sem a dos outros não era liberdade e que isso deveria se estender à satisfação das necessidades, até mesmo dos prazeres.
Isso é muito bonito. Muito cristão – exclamei entusiasmada.
Procuro praticar o que digo sem necessidade de ser cristã. O cristianismo é um mero hábito cultural.”
Manuel Vázquez Montalbán, in Erec e Enide