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26/02/2016

Leitura literária

Andei pensando muito antes de fazer o Movimento por um Brasil Literário. Conversava muito com o pessoal da Fundação Nacional do Livro sobre como a escola não pode ser a única responsável pela formação do leitor. A escola não pode e nem dá conta disso. Se a criança chega em casa e não encontra nem o pai, nem a mãe, nem avó lendo, como é que a escola quer que ela leia? Ela não vê isso acontecendo na vida. Achei que era preciso mobilizar toda uma sociedade em função da leitura literária. Não deixar exclusivamente na mão da escola uma tarefa que não pode ser somente dela. Precisamos de uma sociedade inteira envolvida nesse trabalho de formação de leitor. Não quis chamar de plano de leitura, projeto de leitura. Eu queria um movimento de leitura, com pessoas que acreditam que a literatura é boa, faz bem, com quem possa ajudar, indicar um livro, fazer um grupo de leitura. Quem pode fazer isso pode entrar no nosso movimento, pode entrar no site (www.brasilliterario.org.br). Temos contatos que vão informando o que está acontecendo. É todo mundo que acredita nisso. Não há cobrança nem avaliação. Não quis nada disso, quis um movimento livre. O movimento é uma coisa organizada, tem uma organização interna, um fluxo. Todo mundo que estiver embalado nessa confiança na literatura, que a literatura pode fazer uma sociedade mais bonita, menos corrupta, mais reflexiva, mais crítica. Pode fazer uma sociedade mais cheia de compaixão, de respeito mútuo. Acho que a literatura tem a função de tornar a sensibilidade mais aguçada. As pessoas mais intuitivas, mais prontas para as minúcias, para os retalhos, como diz o Manoel de Barros, para os restos, para as pequenas coisas. A literatura pode nos ajudar muito.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR

15/01/2016

Vida: escola

O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola.”
Lin Yutang, in A importância de viver

19/12/2015

Fazer o melhor que puder

Não tenho preocupação com o público. Vocês já assistiram ao filme A festa de Babete? É isso, ela foi para a cozinha e fez o melhor que ela podia. Só isso. Vou para o escritório e faço o melhor que posso. Àquela hora não tem destinatário. Se tiver destinatário, não é mais literário. Se entrar no escritório e pensar: vou escrever um texto para criança, já me distancio dela. Já me coloco no lugar de adulto, me distancio da infância.
Tenho muito medo do “escrever para criança”. Parece que estou em um lugar muito legal, que estou bem feliz, bem disposto, alegre e vou ensinar esses “coitadinhos” a chegar nesse lugar em que estou. Eu tenho horror disso. Quero mostrar para a criança que também cresci, mas tenho muita insegurança, muita tristeza, muita alegria, muita saudade.
Na minha obra, falo de morte, falo de tudo. Quando escrevo e quero que a criança seja leitora, faço uma frase mais curta, uma ordem mais direta, um parágrafo menor, porque o fôlego da criança é pequeno. Quando escrevo, preciso ler o texto em voz alta para saber se ele cabe na minha respiração. Às vezes, ao ler o texto em voz alta, percebo que é preciso transformar uma frase em duas, colocar um ponto final, dar um jeito porque está muito longa.
Quando a emoção é muito forte, tenho que mudar de folha. Faço muito isso, mas quase que protegendo o leitor. O conteúdo, não. As crianças dão conta. As crianças são muito mais fortes do que nós.
Quando se chega à idade que cheguei, descobre-se uma coisa interessantíssima: a vida não é um processo de soma, é um processo de subtração. Viver um dia é ter menos um dia. Hoje tenho muito menos dias para subtrair. A criança tem muito mais para viver do que eu. Ela é muito mais intensa do que eu. Ela tem muito mais pela frente do que eu. O meu pela frente é pouco. É perigoso quando a gente pensa que vai escrever para a criança porque a infância é o lugar que jamais poderei estar a não ser pela fantasia. E a criança está lá em realidade.
Às vezes, os adultos, os pais, os professores ou os escritores, se sentem tão ameaçados porque a criança está em um lugar que indiscutivelmente já perdi, irremediavelmente nunca mais poderei estar. Então, começamos a querer trazer essa criança o mais depressa possível para o lugar onde estou. Aí, você começa a assaltar a infância da criança. Tenho muito medo desse assalto. Hoje, muita escola é considerada boa porque rouba a infância da criança muito cedo. Que aquele professor é muito bom porque rouba a infância da criança muito cedo. Eu vejo isso com muita clareza. É preciso deixar a criança viver a sua infância, com suas inseguranças, seus medos, suas tristezas, suas fantasias.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba - PR

13/09/2015

A escola dos meus sonhos

Rubem Alves conta como se apaixonou pela Escola da Ponte, em Portugal, um lugar único, onde alunos e professores convivem como amigos na fascinante experiência da descoberta.


Vou contar um caso de amor. Amor à primeira vista. Eu me apaixonei pela Escola da Ponte. Bastou vê-la para que um passado reverberasse dentro de mim.
Não tenho memórias dolorosas do grupo escolar. As coisas a serem aprendidas eram fáceis e eu as aprendia sem esforço. Mas minha efervescência intelectual - pois as crianças também têm efervescências intelectuais - estava em outro lugar: no mundo que começava quando eu saía da escola.
Eu me levantava às 5h e me punha a andar pela casa fazendo barulho. Queria que os adultos dorminhocos despertassem do seu sono para o mundo maravilhoso que aparecia com a luz do dia. Minha curiosidade me levou a desmontar o relógio de pulso de minha mãe, o único que ela tinha. Queria saber como ele funcionava, aquelas engrenagens fascinantes. Infelizmente, não consegui montá-lo de novo.
No grupo escolar, nos ensinavam o que o programa mandava: o nome de serras, Serra da Mata da Corda, do Espinhaço, da Bocaina; o nome de afluentes de rios distantes, dos quais a única coisa que aprendíamos eram... os nomes. O que me foi útil no exame de admissão, porque me perguntaram o nome da segunda maior ilha fluvial do mundo. Tupinambarana. Eu sabia o nome. Mas ainda hoje, nada sei sobre a ilha.
Era tempo da Segunda Guerra Mundial. As batalhas entravam em nossa casa pelo rádio. “E Stalingrado continua a resistir.” “Aviões aliados martelaram as posições nazistas no Vale do Pó.” Meu pai afixou um mapa da Europa na parede e nele íamos seguindo os movimentos das tropas. A imaginação corria rapidamente e eu me sentia como um soldado na frente de batalha. O mapa, os países, o nome das cidades, dos rios, das montanhas - tudo estava vivo para mim.
Conto essas coisas da minha vida de menino para dizer que as crianças são curiosas naturalmente e têm o desejo de aprender. O seu interesse natural desaparece quando, nas escolas, a sua curiosidade é sufocada pelos programas impostos pela burocracia governamental. Pela minha vida tenho estado à procura da escola que daria asas à curiosidade do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me encontrei com a escola dos meus sonhos. E me apaixonei.

Novas formas de ver
Tudo começou em 2000, via internet. Comecei a receber e-mails de um desconhecido de Portugal, Ademar Ferreira dos Santos. Uma brasileira lhe havia dado um livrinho meu, Estórias de Quem Gosta de Ensinar. Ele gostou. Sem nos conhecermos pessoalmente, nos descobrimos amigos. Ele me convidou para ir a Portugal e falar aos professores da Universidade de Braga e adolescentes de uma escola secundária.
Fui e fiz. Foi bom. Aí, numa manhã, ele me disse: "Vou levar-te a conhecer uma escola diferente." "Diferente como?", perguntei. "Não é possível dizer-te. Tu verás." Chegamos à escola. Na sua frente havia um pátio arborizado. Lá estava o diretor, professor José Pacheco. Mais tarde, aprendi que ele se recusa a ser chamado de diretor, por razões que explicarei mais tarde.
Minha expectativa era que o diretor, por um mínimo dever de cortesia, haveria de levar-me a conhecer a escola. Homem de poucas palavras, trocamos meia dúzia de banalidades. Vinha passando à nossa frente uma menina de uns 9 anos. Ele a chamou e disse: "Tu podes mostrar e explicar a nossa escola ao nosso visitante?" "Pois, pois", respondeu a menina, sem mostrar nenhuma surpresa. Ato contínuo, ele me abandonou e fiquei eu à mercê da menina.

Os primeiros sustos
Eu nunca tinha tido experiência semelhante e nunca imaginei que fosse possível que um diretor entregasse a uma aluna, menina de 9 anos, a tarefa de mostrar e explicar a sua escola a um educador estrangeiro.
A menina não se fez de rogada. Encaminhou-se resolutamente na direção da porta da escola e eu, obedientemente, a segui. Chegando à porta, ela parou, voltou-se para mim e disse em voz resoluta e confiante: “Para entender a nossa escola, o senhor terá de se esquecer de tudo o que o senhor sabe sobre escolas. Não temos turmas, não temos alunos separados por classes, nossos professores não dão aulas com giz e lousa, não temos campainhas separando o tempo, não temos provas e notas.”
Foi o segundo susto. As palavras da menina produziram um vazio na minha cabeça. Porque as escolas que conheço, mesmo as mais experimentais e avançadas, têm professores dando aulas, têm turmas, têm salas de aula que separam as crianças, têm provas e testes, têm notas e boletins para o controle dos pais.
Para ler a matéria completa da Revista Educação, acesse aqui.

13/08/2015

Escola

Passei a duvidar da escola. Parecia-me um lugar só para dar autorizações. Se a escola não autorizasse, eu não poderia saber. O medo desse lugar passou a reinar em minha cabeça. Comecei a dar razão ao meu irmão, já capaz de dirigir o caminhão assentado em um travesseiro de paina. Mas logo me veio uma ideia: quando entrar na escola, eu faço de conta que esqueci de tudo e começo a aprender de novo. “Uma mentirinha é um santo remédio para botar um ponto final em conversa fiada”, me ensinou meu avô, coisa que comecei a praticar para encurtar perguntas e me livrar de incômodos. Havia pessoas que gostavam de indagar muito mais do que deviam.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Foram muitos, os professores

15/06/2015

Aborrecido de estudar


Enfastiavam-me as aulas, salvo as de literatura — que aprendia de cor — e tinha nelas um protagonismo único. Aborrecido de estudar, deixava tudo à mercê da boa sorte. Tinha um instinto próprio para pressentir os pontos álgidos de cada matéria e quase adivinhar os que mais interessavam aos professores para não estudar o resto. A realidade é que não entendia por que devia sacrificar engenho e tempo em matérias que não me interessavam e, pela mesma razão, não me iam servir para nada numa vida que não era minha.
Atrevi-me a pensar que a maioria dos meus professores me classificava mais pela minha maneira de ser do que pelos meus exames. Salvavam-me as minhas respostas imprevistas, as minhãs ideias dementes, as minhas invenções irracionais. No entanto, quando acabei o quinto ano, com sobressaltos acadêmicos que não me sentia capaz de superar, tomei consciência dos meus limites. O bacharelato tinha sido até então um caminho empedrado de milagres, mas avisava-me o coração que no final do quinto me esperava uma muralha intransponível. A verdade sem adornos era que me faltava já a vontade, a vocação, a ordem, o dinheiro e a ortografia para embarcar numa carreira acadêmica. Melhor dizendo: os anos voavam e não fazia a mínima ideia do que ia fazer da minha vida, pois havia de passar ainda muito tempo antes de me aperceber de que mesmo esse estado de derrota era propício, porque não há nada deste mundo nem do outro que não seja útil para um escritor.”
Gabriel García Márquez, in Viver para Contá-la

05/01/2013

Vida gazeada

“A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola.”
Mário Quintana