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15/04/2023
27/08/2021
17/03/2018
26/02/2016
Leitura literária
Andei
pensando muito antes de fazer o Movimento por um Brasil Literário. Conversava muito com o pessoal da Fundação Nacional do Livro sobre
como a escola não pode ser a única responsável pela formação do
leitor. A escola não pode e nem dá conta disso. Se a criança chega
em casa e não encontra nem o pai, nem a mãe, nem avó lendo, como é
que a escola quer que ela leia? Ela não vê isso acontecendo na
vida. Achei que era preciso mobilizar toda uma sociedade em função
da leitura literária. Não deixar exclusivamente na mão da escola
uma tarefa que não pode ser somente dela. Precisamos de uma
sociedade inteira envolvida nesse trabalho de formação de leitor.
Não quis chamar de plano de leitura, projeto de leitura. Eu queria
um movimento de leitura, com pessoas que acreditam que a literatura é
boa, faz bem, com quem possa ajudar, indicar um livro, fazer um grupo
de leitura. Quem pode fazer isso pode entrar no nosso movimento, pode
entrar no site (www.brasilliterario.org.br). Temos contatos que vão informando o que está acontecendo. É todo
mundo que acredita nisso. Não há cobrança nem avaliação. Não
quis nada disso, quis um movimento livre. O movimento é uma coisa
organizada, tem uma organização interna, um fluxo. Todo mundo que
estiver embalado nessa confiança na literatura, que a literatura
pode fazer uma sociedade mais bonita, menos corrupta, mais reflexiva,
mais crítica. Pode fazer uma sociedade mais cheia de compaixão, de
respeito mútuo. Acho que a literatura tem a função de tornar a
sensibilidade mais aguçada. As pessoas mais intuitivas, mais prontas
para as minúcias, para os retalhos, como diz o Manoel de Barros,
para os restos, para as pequenas coisas. A literatura pode nos ajudar
muito.
Bartolomeu
Campos de Queirós,
in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR
15/01/2016
Vida: escola
“O
sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande
livro e a vida é uma grande escola.”
Lin
Yutang,
in A
importância de viver
19/12/2015
Fazer o melhor que puder
Não
tenho preocupação com o público. Vocês já assistiram ao filme A festa de Babete? É isso, ela foi para a cozinha e fez o melhor que ela podia. Só
isso. Vou para o escritório e faço o melhor que posso. Àquela hora
não tem destinatário. Se tiver destinatário, não é mais
literário. Se entrar no escritório e pensar: vou escrever um texto
para criança, já me distancio dela. Já me coloco no lugar de
adulto, me distancio da infância.
Tenho
muito medo do “escrever para criança”. Parece que estou em um
lugar muito legal, que estou bem feliz, bem disposto, alegre e vou
ensinar esses “coitadinhos” a chegar nesse lugar em que estou. Eu
tenho horror disso. Quero mostrar para a criança que também cresci,
mas tenho muita insegurança, muita tristeza, muita alegria, muita
saudade.
Na
minha obra, falo de morte, falo de tudo. Quando escrevo e quero que a
criança seja leitora, faço uma frase mais curta, uma ordem mais
direta, um parágrafo menor, porque o fôlego da criança é pequeno.
Quando escrevo, preciso ler o texto em voz alta para saber se ele
cabe na minha respiração. Às vezes, ao ler o texto em voz alta,
percebo que é preciso transformar uma frase em duas, colocar um
ponto final, dar um jeito porque está muito longa.
Quando
a emoção é muito forte, tenho que mudar de folha. Faço muito
isso, mas quase que protegendo o leitor. O conteúdo, não. As
crianças dão conta. As crianças são muito mais fortes do que nós.
Quando
se chega à idade que cheguei, descobre-se uma coisa
interessantíssima: a vida não é um processo de soma, é um
processo de subtração. Viver um dia é ter menos um dia. Hoje tenho
muito menos dias para subtrair. A criança tem muito mais para viver
do que eu. Ela é muito mais intensa do que eu. Ela tem muito mais
pela frente do que eu. O meu pela frente é pouco. É perigoso quando
a gente pensa que vai escrever para a criança porque a infância é
o lugar que jamais poderei estar a não ser pela fantasia. E a
criança está lá em realidade.
Às
vezes, os adultos, os pais, os professores ou os escritores, se
sentem tão ameaçados porque a criança está em um lugar que
indiscutivelmente já perdi, irremediavelmente nunca mais poderei
estar. Então, começamos a querer trazer essa criança o mais
depressa possível para o lugar onde estou. Aí, você começa a
assaltar a infância da criança. Tenho muito medo desse assalto.
Hoje, muita escola é considerada boa porque rouba a infância da
criança muito cedo. Que aquele professor é muito bom porque rouba a
infância da criança muito cedo. Eu vejo isso com muita clareza. É
preciso deixar a criança viver a sua infância, com suas
inseguranças, seus medos, suas tristezas, suas fantasias.
Bartolomeu
Campos de Queirós,
in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba - PR
02/12/2015
13/09/2015
A escola dos meus sonhos
Rubem Alves conta como se apaixonou pela Escola da Ponte, em Portugal, um lugar único, onde alunos e professores convivem como amigos na fascinante experiência da descoberta.
Vou
contar um caso de amor. Amor à primeira vista. Eu me apaixonei pela
Escola da Ponte. Bastou vê-la para que um passado reverberasse
dentro de mim.
Não
tenho memórias dolorosas do grupo escolar. As coisas a serem
aprendidas eram fáceis e eu as aprendia sem esforço. Mas minha
efervescência intelectual - pois as crianças também têm
efervescências intelectuais - estava em outro lugar: no mundo que
começava quando eu saía da escola.
Eu
me levantava às 5h e me punha a andar pela casa fazendo barulho.
Queria que os adultos dorminhocos despertassem do seu sono para o
mundo maravilhoso que aparecia com a luz do dia. Minha curiosidade me
levou a desmontar o relógio de pulso de minha mãe, o único que ela
tinha. Queria saber como ele funcionava, aquelas engrenagens
fascinantes. Infelizmente, não consegui montá-lo de novo.
No
grupo escolar, nos ensinavam o que o programa mandava: o nome de
serras, Serra da Mata da Corda, do Espinhaço, da Bocaina; o nome de
afluentes de rios distantes, dos quais a única coisa que aprendíamos
eram... os nomes. O que me foi útil no exame de admissão, porque me
perguntaram o nome da segunda maior ilha fluvial do mundo.
Tupinambarana. Eu sabia o nome. Mas ainda hoje, nada sei sobre a
ilha.
Era
tempo da Segunda Guerra Mundial. As batalhas entravam em nossa casa
pelo rádio. “E Stalingrado continua a resistir.” “Aviões
aliados martelaram as posições nazistas no Vale do Pó.” Meu pai
afixou um mapa da Europa na parede e nele íamos seguindo os
movimentos das tropas. A imaginação corria rapidamente e eu me
sentia como um soldado na frente de batalha. O mapa, os países, o
nome das cidades, dos rios, das montanhas - tudo estava vivo para
mim.
Conto
essas coisas da minha vida de menino para dizer que as crianças são
curiosas naturalmente e têm o desejo de aprender. O seu interesse
natural desaparece quando, nas escolas, a sua curiosidade é sufocada
pelos programas impostos pela burocracia governamental. Pela minha
vida tenho estado à procura da escola que daria asas à curiosidade
do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me
encontrei com a escola dos meus sonhos. E me apaixonei.
Novas
formas de ver
Tudo
começou em 2000, via internet. Comecei a receber e-mails de um
desconhecido de Portugal, Ademar Ferreira dos Santos. Uma brasileira
lhe havia dado um livrinho meu, Estórias de Quem Gosta de Ensinar.
Ele gostou. Sem nos conhecermos pessoalmente, nos descobrimos amigos.
Ele me convidou para ir a Portugal e falar aos professores da
Universidade de Braga e adolescentes de uma escola secundária.
Fui
e fiz. Foi bom. Aí, numa manhã, ele me disse: "Vou levar-te a
conhecer uma escola diferente." "Diferente como?",
perguntei. "Não é possível dizer-te. Tu verás."
Chegamos à escola. Na sua frente havia um pátio arborizado. Lá
estava o diretor, professor José Pacheco. Mais tarde, aprendi que
ele se recusa a ser chamado de diretor, por razões que explicarei
mais tarde.
Minha
expectativa era que o diretor, por um mínimo dever de cortesia,
haveria de levar-me a conhecer a escola. Homem de poucas palavras,
trocamos meia dúzia de banalidades. Vinha passando à nossa frente
uma menina de uns 9 anos. Ele a chamou e disse: "Tu podes
mostrar e explicar a nossa escola ao nosso visitante?" "Pois,
pois", respondeu a menina, sem mostrar nenhuma surpresa. Ato
contínuo, ele me abandonou e fiquei eu à mercê da menina.
Os
primeiros sustos
Eu
nunca tinha tido experiência semelhante e nunca imaginei que fosse
possível que um diretor entregasse a uma aluna, menina de 9 anos, a
tarefa de mostrar e explicar a sua escola a um educador estrangeiro.
A
menina não se fez de rogada. Encaminhou-se resolutamente na direção
da porta da escola e eu, obedientemente, a segui. Chegando à porta,
ela parou, voltou-se para mim e disse em voz resoluta e confiante:
“Para entender a nossa escola, o senhor terá de se esquecer de
tudo o que o senhor sabe sobre escolas. Não temos turmas, não temos
alunos separados por classes, nossos professores não dão aulas com
giz e lousa, não temos campainhas separando o tempo, não temos
provas e notas.”
Foi
o segundo susto. As palavras da menina produziram um vazio na minha
cabeça. Porque as escolas que conheço, mesmo as mais experimentais
e avançadas, têm professores dando aulas, têm turmas, têm salas
de aula que separam as crianças, têm provas e testes, têm notas e
boletins para o controle dos pais.
Para ler a matéria completa da Revista Educação, acesse aqui.
13/08/2015
Escola
Passei
a duvidar da escola. Parecia-me um lugar só para dar autorizações.
Se a escola não autorizasse, eu não poderia saber. O medo desse
lugar passou a reinar em minha cabeça. Comecei a dar razão ao meu
irmão, já capaz de dirigir o caminhão assentado em um travesseiro
de paina. Mas logo me veio uma ideia: quando entrar na escola, eu
faço de conta que esqueci de tudo e começo a aprender de novo. “Uma
mentirinha é um santo remédio para botar um ponto final em conversa
fiada”, me ensinou meu avô, coisa que comecei a praticar para
encurtar perguntas e me livrar de incômodos. Havia pessoas que
gostavam de indagar muito mais do que deviam.
Bartolomeu
Campos de Queirós, in Foram muitos, os professores
15/06/2015
Aborrecido de estudar
“Enfastiavam-me
as aulas, salvo as de literatura — que aprendia de cor — e tinha
nelas um protagonismo único. Aborrecido de estudar, deixava tudo à
mercê da boa sorte. Tinha um instinto próprio para pressentir os
pontos álgidos de cada matéria e quase adivinhar os que mais
interessavam aos professores para não estudar o resto. A realidade é
que não entendia por que devia sacrificar engenho e tempo em
matérias que não me interessavam e, pela mesma razão, não me iam
servir para nada numa vida que não era minha.
Atrevi-me
a pensar que a maioria dos meus professores me classificava mais pela
minha maneira de ser do que pelos meus exames. Salvavam-me as minhas
respostas imprevistas, as minhãs ideias dementes, as minhas
invenções irracionais. No entanto, quando acabei o quinto ano, com
sobressaltos acadêmicos
que não me sentia capaz de superar, tomei consciência dos meus
limites. O bacharelato tinha sido até então um caminho empedrado de
milagres, mas avisava-me o coração que no final do quinto me
esperava uma muralha intransponível. A verdade sem adornos era que
me faltava já a vontade, a vocação, a ordem, o dinheiro e a
ortografia para embarcar numa carreira acadêmica.
Melhor dizendo: os anos voavam e não fazia a mínima ideia do que ia
fazer da minha vida, pois havia de passar ainda muito tempo antes de
me aperceber de que mesmo esse estado de derrota era propício,
porque não há nada deste mundo nem do outro que não seja útil
para um escritor.”
Gabriel
García Márquez,
in
Viver para Contá-la
05/01/2013
Vida gazeada
“A gente deve
atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a
escola.”
Mário
Quintana
04/12/2012
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