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20/06/2022

A chegada da notícia que mudou tudo (trecho final)


Mamãe, eu não estou me sentindo bem”, disse Hossein.
O menino de quatro anos de idade era o segundo filho de Malika e o preferido de sua tia Kamila. Ela brincava com ele no quintal de terra ressecada da família, em Khair Khana, e juntos contavam as cabras e ovelhas que às vezes passavam por ali. Naquele dia, dores de barriga e diarreia afligiam seu pequeno corpo e foram piorando com o passar da tarde. Ele estava deitado sobre a pilha de almofadas que Malika havia arranjado no centro do grande tapete vermelho da sala. Hossein respirava com dificuldade ao entrar e sair de um sono agitado.
Malika observava Hossein e se perguntava se estava em condições de tomar conta dele. Estava grávida de vários meses, pela terceira vez, e havia passado o dia dentro de casa seguindo a advertência que uma vizinha lhe fizera cedo pela manhã para que não fosse trabalhar, porque os talibãs estavam chegando. Distraidamente, ela costurou as partes de um terno de rayon que estava fazendo para um vizinho enquanto assistia com crescente preocupação a piora do estado de saúde de Hossein. Havia agora gotas de suor cobrindo sua testa e seus braços e pernas estavam frios e úmidos. Ela precisava chamar um médico.
De seu guarda-roupa, Malika pegou o maior xale ou lenço de cabeça que possuía. Ela procurou cobrir não apenas sua cabeça, mas também a parte inferior de seu rosto. Como a maioria das mulheres cultas de Cabul, ela costumava usar o xale de maneira casual sobre a cabeça e os ombros. Mas naquele dia teria que usá-lo de maneira diferente; se os talibãs estavam realmente a caminho de Cabul, eles exigiriam que as mulheres andassem com uma burca que, em dari, se chamava chadri e que encobria não apenas a cabeça, mas todo o rosto. Essa já era a lei imposta por eles em Herat e Jalalabad, que haviam caído em seu poder apenas algumas semanas antes. Como ela não tinha nenhuma burca, o véu enorme era a peça mais próxima das exigências dos talibãs que Malika conseguiu encontrar. Ele teria que servir.
Quando sua cunhada, que morava no apartamento acima do seu, chegou para cuidar de seu filho mais velho, Malika pegou Hossein no colo e aninhou-o por baixo de seu largo casaco preto. Com ele apertado contra sua barriga de grávida, ela saiu apressada pela porta para encarar a caminhada de dez minutos até o consultório médico.
O silêncio que reinava na rua deixou Malika assustada. Naquela hora de início de tarde, em seu bairro, costumava haver uma confusão de táxis, bicicletas, burros e caminhões, mas naquele dia as ruas estavam vazias. Os boatos sobre a aproximação dos talibãs tinham levado a vizinhança a se esconder em suas casas, atrás de portões trancados e cortinas fechadas. Aquele era agora um jogo de espera e ninguém sabia o que aconteceria nos próximos dias.
Malika estremeceu ao som produzido por seus próprios saltos na calçada. Mantinha os olhos fixos no chão ao passo que se esforçava para manter firmes as dobras de seu xale; mas o tecido pesado insistia em escorregar de sua cabeça, forçando-a a mudar o menino de lado, enquanto arranjava a veste e caminhava o mais rápido possível. Uma sombra da tarde começou a cair sobre as fileiras desiguais de casas e lojas do bairro de Karteh Parwan.
Finalmente, Malika virou à direita da rua principal e chegou ao consultório que ocupava o andar térreo de uma fileira desordenada de lojas, todas com o mesmo piso de cimento e tetos baixos. Muitas fileiras de pedra amarronzada separavam as lojas dos apartamentos com sacadas acima. Aliviada por se encontrar num espaço protegido e por poder descansar por um instante, Malika falou com o médico que havia saído de seu consultório ao ouvir as batidas à porta.
Meu filho está com febre; acho que ele deve estar muito mal”, ela disse. “Eu o trouxe aqui o mais cedo que pude.”
O médico, um senhor de idade que havia tratado a família de seu marido por muitos anos, ofereceu-lhe um sorriso amável.
Sem problema, é só tomar seu assento e aguardar. Não vou demorar.”
Malika acomodou Hossein numa cadeira de madeira na sala de espera vazia e às escuras. Ela ficou andando, de um lado para outro, tentando se acalmar; em seguida, passou a mão em sua barriga e inspirou profundamente. O pequeno Hossein estava pálido e seus olhos pareciam vítreos e sem expressão. Ela envolveu-o com seus braços e apertou-o contra o próprio corpo.
De repente, um barulho vindo lá de fora a assustou. Malika saltou da cadeira em que estava sentada e dirigiu-se à janela. Nuvens cinzentas pairavam sobre a rua e havia ficado escuro lá fora. A primeira coisa que ela conseguiu vislumbrar foi um caminhão lustroso de cor escura. Ele parecia novo, certamente mais novo do que a maioria dos carros de Cabul. Em seguida, ela viu três homens parados ao lado do caminhão. Eles usavam turbantes grossos enrolados no alto de suas cabeças e tinham nas mãos varas que pareciam bastões. Eles estavam batendo em alguém – isso ela pôde perceber.
Para começar, Malika notou que a figura abatida diante deles era uma mulher. Ela estava estirada no meio da rua, com o corpo enroscado formando uma bola e tentava aparar os golpes. Mas os homens não paravam de golpeá-la. Malika podia ouvir o som dos golpes incessantes dos bastões de madeira batendo na mulher desamparada – em suas costas e pernas.
Onde está seu chadri?” um dos homens gritou para a sua vítima, erguendo os braços para o alto para golpeá-la de novo. “Por que você não está encoberta? Que espécie de mulher é você para sair assim descoberta?”
Pare!” a mulher suplicou. “Por favor, tenha misericórdia. Eu estou usando um xale. Não tenho nenhum chadri. Nunca antes fomos obrigadas a usá-lo.”
Ela começou a chorar. Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Malika ao assistir àquela cena. Seus instintos a instigavam a correr até a rua para salvar a pobre mulher de seus agressores. Mas sua mente racional sabia que aquilo era impossível. Se saísse do consultório médico, ela também seria espancada. Aqueles homens não teriam nenhum escrúpulo para bater também numa mulher grávida, ela pensou. E ademais, ela tinha que proteger seu filho doente. Então ela continuou parada junto à janela, ouvindo a mulher chorar, sem poder fazer nada, e tratou de secar suas próprias lágrimas.
Você acha que este é o antigo regime?” um dos homens jovens gritou. Seus olhos estavam pintados com o cosmético negro usado pelos soldados do Talibã. “Este não é o regime do Dr. Najibullah nem dos Mujahideen”, ele disse, golpeando de novo a mulher com seu bastão. “Nós acreditamos no charia, o código de conduta do Islã, e é esta a lei que agora rege este país. As mulheres têm que andar encobertas. Que isto lhe sirva de lição.”
Finalmente, os homens voltaram para seu caminhão e foram embora. A mulher se curvou insegura para pegar sua bolsa do chão e saiu mancando lentamente.
Malika voltou para junto de Hossein, que estava enroscado em sua cadeira soltando gemidos fracos. As mãos dela tremeram ao pegar os dedinhos das mãos dele. Como a mulher lá na rua, ela pertencia a uma geração de mulheres de Cabul que não sabia o que era usar o chadri. Elas haviam crescido na capital muito tempo depois de o primeiro-ministro Mohammad Daoud Khan ter instituído o uso voluntário de véu pelas mulheres, na década de 1950. O rei Amanullah Khan havia tentado, sem sucesso, promover essa reforma trinta anos antes, mas foi apenas em 1959, quando a mulher do próprio primeiro-ministro apareceu no ato de comemoração do dia da independência nacional usando um lenço na cabeça em vez de cobri-la totalmente com o chadri, que a mudança finalmente entrou em vigor. A atitude dela chocou as massas e marcou uma virada cultural na capital. As mulheres da geração seguinte de Cabul passaram a trabalhar como professoras, operárias, médicas e funcionárias públicas; elas iam trabalhar apenas com a cabeça encoberta e o rosto exposto. Até aquele dia muitas mulheres nunca haviam tido motivo para usar e nem mesmo possuíam os véus que haviam encoberto totalmente as cabeças de suas avós.
De repente, os tempos haviam novamente mudado. As mulheres seriam, dali em diante, obrigadas a se vestir de uma maneira – e adotar um estilo de vida – que jamais haviam conhecido, por governantes que não haviam conhecido outra coisa. Seria isso que a esperava lá fora quando saísse do consultório médico? Malika sentiu as batidas aceleradas do coração em seu peito ao se perguntar como iria para casa em segurança com Hossein. Como o da mulher que vira lá fora, o lenço de Malika era grande, mas não o suficiente para cobrir toda a sua face e convencer os soldados de que era devota. Ela abraçou Hossein com força, tentando tanto proteger a ele como a si mesma.
Foi justamente naquele momento que o médico voltou.
Depois de um exame rápido, porém completo, ele assegurou a Malika que não era nada grave. Ele recomendou que ela desse a ele muito líquido e passou-lhe a receita a ser aviada; em seguida, conduziu Malika e Hossein até a sala de espera. Quando chegaram à porta de saída, Malika parou.
Doutor, eu gostaria de lhe pedir para ficar aqui por mais alguns minutos.” Ela apontou o queixo na direção do menino em seus braços. “Preciso descansar por um instante antes de carregá-lo de volta para casa.”
Malika não queria falar sobre o que tinha acabado de ver, mas o fato continuava atormentando-a. Ela precisava pensar numa maneira de sair em segurança daquela situação.
É claro”, o médico respondeu. “Fique o tempo que quiser.”
Malika ficou andando de um lado para outro da sala de espera, suplicando por ajuda. Ela não poderia voltar para a rua sem um chadri, daquilo ela tinha certeza. Mas não fazia ideia de como conseguir um.
De repente, seu coração disparou. Pela janela, ela viu Soraya, a professora de seu filho mais velho, descendo a rua em direção ao consultório médico. Malika reconheceu de longe seu passo determinado e, em seguida, entreviu o rosto da professora transparecendo por trás do véu escuro. Levava uma pequena sacola de compras pendurada em cada braço. Malika correu até a porta. Depois de averiguar a calçada para se certificar de que os talibãs não estavam mais à vista, ela deu um passo furtivo para fora do consultório médico.
Soraya Jan”, ela chamou da soleira da porta. “É Malika, a mãe de Saeed”.
Surpresa, a professora se aproximou às pressas e Malika lhe contou o que havia acabado de ver ali na rua.
Sem poder acreditar, Soraya balançou a cabeça. Ela havia passado uma hora comprando todas as verduras e legumes que conseguiu para o pilau, o arroz aromático afegão do jantar da família, e pão naan, mas estava muito difícil encontrar comida. Um bloqueio do Talibã estava obstruindo a cidade, impedindo que os caminhões que transportavam alimentos chegassem aos habitantes – cerca de 1,2 milhão –, da capital. Soraya havia conseguido, com dificuldade, comprar apenas algumas batatas e cebolas. No mercado corriam boatos sobre a chegada dos talibãs, mas Malika era a primeira pessoa conhecida que havia visto de perto os novos invasores da capital.
Minha casa fica bem ali na esquina”, Soraya disse para Malika, segurando a sua mão. “Você e Hossein vêm comigo. Nós vamos arranjar um chadri para você voltar para casa. Não se preocupe, vamos dar um jeito.”
Malika sorriu pela primeira vez naquele dia.
Muito obrigada, Soraya Jan”, ela disse. “Fico enormemente agradecida.”
As duas mulheres percorreram rapidamente o quarteirão até a casa de Soraya, que ficava atrás de um portão amarelo vivo. Elas não pronunciaram uma única palavra durante o rápido percurso e Malika ficou se perguntando se Soraya estava rezando como ela para que não fossem paradas. Ela não conseguia tirar de sua mente a imagem da mulher a cujo espancamento assistira ali, naquela mesma rua.
Alguns minutos depois, elas já estavam sentadas na pequena cozinha de Soraya. Malika segurava com força um copo de chá verde quente e pela primeira vez, em muitas horas, conseguiu relaxar. Ela estava profundamente agradecida pelo aconchego da casa de sua amiga e pelo fato de Hossein, a quem ela havia dado um comprimido ainda no consultório médico, já estar um pouco melhor.
Eu tenho um plano, Malika”, Soraya anunciou. Ela chamou seu filho, Muhammad, que estava em outro cômodo da casa. Quando o menino apareceu, ela encarregou-o de uma missão. “Eu preciso que você vá até a casa de sua tia Orzala. Diga a ela que precisamos que ela empreste um chadri para a tia Malika; diga que o devolveremos dentro de alguns poucos dias. Isto é muito importante. Entendeu?”
O menino de oito anos assentiu.
Depois de apenas meia hora, o pequeno Muhammad entrou correndo na sala e entregou, solenemente, a Malika uma sacola de plástico branco com as alças cuidadosamente amarradas. Dentro dela havia um chadri azul. “Minha tia disse que a senhora pode ficar com o chadri pelo tempo que for necessário”, Muhammad falou, sorrindo.
Malika desdobrou a peça que, na verdade, era feita de muitas camadas de tecido costuradas à mão, umas às outras. A parte da frente, com aproximadamente um metro de comprimento, era feita de poliéster claro com uma barra finamente bordada na parte mais baixa e uma touca no alto. O lado mais comprido do chadri e as camadas da parte de trás formavam um ondeado ininterrupto de pregas sanfonadas que iam quase até o chão. Para usar aquilo era preciso entrar embaixo daquelas dobras onduladas e verificar se a touca estava no lugar certo para proporcionar o máximo de visibilidade possível, através da fenda entrançada para os olhos, que tornava o mundo levemente azulado.
A família convidou Malika para ficar para o jantar e, depois de comer com eles um prato de arroz e batatas à luz de velas no piso da sala, ela levantou-se e vestiu o chadri. A barra de seu elegante par de calças marrom ficou transparecendo por baixo do véu. Até então, Malika havia usado aquele tipo de peça de vestuário apenas algumas vezes, quando tinha visitado os parentes nas províncias e, por isso, achou difícil andar com todas aquelas camadas e pregas escorregadias. Ela esforçou-se para enxergar através da pequena abertura para os olhos que tinha apenas uns cinco centímetros de altura por oito centímetros de largura. Ela pisou no tecido enquanto se despedia, pela última vez, da família de Soraya.
Um de meus filhos em breve lhe trará o chadri de volta”, Malika disse, abraçando a amiga que havia salvado a sua pele.
Ela pegou Hossein pela mão e começou a caminhar para casa sob o céu de uma noite estrelada, andando devagar e com cuidado para não pisar de novo no véu. Ela ia rezando para que o disparo de foguetes esperasse até que pelo menos ela chegasse em casa em segurança.
Muitos dias transcorreriam antes de ela poder ver seus familiares de Khair Khana e contar a eles a aflição que havia passado. Malika fora uma das primeiras a passar pela experiência que agora estava defronte de todas as mulheres. O futuro seria exatamente como a jovem estudante do Instituto Sayed Jamaluddin havia previsto.

Gayle Tzemach Lemmon, in A costureira de Khair Khana

04/05/2022

A chegada da notícia que mudou tudo


Kamila Jan, eu tenho a honra de lhe entregar seu diploma”.
O homenzinho de cabelos brancos e rugas profundamente marcadas disse com orgulho ao entregar à jovem mulher aquele documento de caráter oficial. Kamila pegou o documento e leu:

Este documento é um certificado de que Kamila Sidiqi concluiu com êxito seus estudos no Instituto de Formação de Professores Sayed Jamaluddin.

Cabul, Afeganistão
Setembro de 1996

Muito obrigada, Agha”, Kamila disse. Um sorriso de orelha a orelha irradiou em sua face. Ela era a segunda mulher de sua família a concluir o curso de dois anos no Instituto Sayed Jamaluddin; sua irmã mais velha, Malika, havia se formado alguns anos antes e já estava trabalhando como professora de uma escola secundária de Cabul. Malika, no entanto, não havia tido que enfrentar os constantes bombardeios e fogos disparados por foguetes da guerra civil quando ia e voltava da escola.
Kamila apertou em suas mãos o documento precioso. O lenço pendia de forma casual de sua cabeça e ocasionalmente desviava-se para trás, revelando alguns fios de seu cabelo castanho ondulado, que resvalavam nos ombros. Calças pretas de pernas largas e sapatos escuros de bico fino e salto baixo transpareciam por baixo da barra de seu casaco comprido até os pés. As mulheres de Cabul eram conhecidas por estender os limites rígidos da tradição de seu país e Kamila não era exceção. Até a derrubada do poder do governo do Dr. Najibullah, que era apoiado por Moscou, em 1992, pelos Mujahideen (“santos guerreiros”) que opunham resistência à presença soviética, muitas mulheres de Cabul andavam pelas ruas vestidas à maneira ocidental e com as cabeças descobertas. Mas naquele momento, apenas quatro anos depois, os Mujahideen definiam o espaço público e a vestimenta das mulheres com muito mais rigor, ordenando que trabalhassem em espaços separados dos homens, que andassem com a cabeça encoberta e usassem roupas largas e recatadas. As mulheres de Cabul, jovens e velhas, se vestiam de acordo com tais regras, embora muitas – como Kamila – acrescentassem um pouco de vida a elas, usando um belo par de sapatos sob aqueles casacos pretos disformes.
Estava muito longe de ser como nas décadas de 1950 e 1960, quando as mulheres elegantes de Cabul deslizavam pela capital do país em trajes de estilo europeu combinando com finos lenços de cabeça. Durante a década de 1970, as estudantes da Universidade de Cabul chocavam seus compatriotas mais conservadores das áreas rurais, usando minissaias que mostravam os joelhos e sandálias sofisticadas. Aqueles anos de mudanças foram marcados por protestos e tumultos políticos no campus da Universidade. Mas tudo isso aconteceu bem antes da juventude de Kamila: ela havia nascido apenas dois anos antes da invasão do Afeganistão pelos soviéticos em 1979, ocupação essa que deu origem a uma guerra de resistência afegã que durou uma década e, sob o comando dos Mujahideen, acabaram dessangrando os russos. Quase duas décadas depois de o primeiro tanque soviético ter entrado no Afeganistão, Kamila e seus amigos ainda não sabiam o que era viver em paz. Após os soviéticos derrotados terem retirado sua última ajuda ao país, em 1992, os comandantes Mujahideen vitoriosos começaram a lutar entre si pelo controle de Cabul. A brutalidade da guerra civil chocou os habitantes daquela cidade. De um dia para o outro, as ruas dos bairros foram transformadas pelas facções adversárias em linhas de frente, atirando uma na outra à queima-roupa.
Apesar da guerra, a família de Kamila, como dezenas de milhares de outras famílias de Cabul, continuou indo à escola e ao trabalho sempre que possível, enquanto a maioria das famílias de seus amigos fugiu em busca de segurança nos vizinhos Paquistão e Irã. Com seu recente diploma de professora, Kamila logo iniciaria seus estudos no Instituto Pedagógico de Cabul, uma universidade aberta a ambos os gêneros, fundada no início da década de 1980 durante os anos de ocupação soviética, que promoveram uma ampla reforma educacional com a expansão das instituições estatais. Dentro de dois anos, ela receberia seu bacharelado e poderia iniciar sua carreira de professora em Cabul. Ela pretendia se tornar professora de dari e, quem sabe, algum dia ensinar literatura.
Mas apesar dos anos de trabalho árduo e de seus planos otimistas para o futuro, não haveria nenhum começo alegre para celebrar a grande conquista de Kamila. A guerra civil havia destruído a imponente arquitetura da capital e os bairros de classe média, transformando as ruas da cidade num monte de ruínas, encanamentos e prédios destruídos. Foguetes lançados por comandos bélicos atravessavam regularmente o horizonte de Cabul, caindo sobre as ruas da capital e matando indiscriminadamente seus habitantes. Eventos corriqueiros como uma formatura haviam se tornado arriscados demais até mesmo para serem levados em consideração e muito menos para se comparecer.
Kamila guardou seu diploma impresso com esmero numa robusta pasta marrom e deixou o escritório administrativo, deixando para trás uma série de jovens à espera de receber seus diplomas. Ao percorrer um estreito corredor com janelas até o teto que ia dar na entrada principal do Instituto Sayed Jamaluddin, ela passou por duas mulheres que teciam uma conversa em meio a uma grande aglomeração.
Ouvi dizer que eles estão chegando hoje”, uma mulher disse para a outra.
Meu primo me disse que eles estão na entrada de Cabul”, a outra respondeu sussurrando.
Kamila soube imediatamente quem eram “eles”: eram os talibãs, cuja chegada era considerada, naquele momento, como inevitável. As notícias percorriam a capital numa velocidade estrondosa por meio de uma rede abrangente de famílias que incluía toda a parentela e que ligava todas as províncias do Afeganistão. As notícias sobre o iminente regime eram devastadoras e diziam que as mulheres estariam enrascadas. As regiões rurais mais afastadas e mais difíceis de serem controladas podiam, às vezes, estabelecer exceções para suas mulheres jovens, mas o Talibã andava a passos largos no sentido de consolidar seu poder nas áreas urbanas. Até ali, eles haviam vencido todas as batalhas.
Kamila ficou parada, em silêncio, no corredor da escola em que ela havia lutado tanto para estudar, apesar de todos os riscos e ficou ouvindo o que suas colegas estavam conversando com uma crescente sensação de inquietude. Ela aproximou-se para ouvir melhor a conversa das garotas.
Você sabe que eles fecharam as escolas para mulheres de Herat”, disse a morena de nariz agudo. Sua voz soava carregada de preocupação. O Talibã havia tomado aquela cidade do oeste um ano antes. “Minha irmã ouviu dizer que as mulheres não podem nem mesmo sair de casa quando eles tomam o poder. E nós aqui que pensávamos já ter passado pelo pior”.
Convenhamos”, disse a outra, segurando a mão da amiga, “pode não ser tão ruim assim”. “Talvez eles até tragam consigo um pouco de paz, se Deus quiser.”
Apertando sua pasta entre as mãos, Kamila desceu correndo as escadas para tomar o ônibus que a levaria por uma longa viagem até a casa de sua família no distrito de Khair Khana, ao norte de Cabul. Apenas alguns meses antes, ela havia percorrido a pé os onze quilômetros depois de um foguete ter caído na estrada de Karteh Char, o bairro em que ficava sua escola, danificando o telhado de um hospital das forças de segurança do governo e interrompendo o serviço de transporte pelo resto daquele dia.
Todo mundo em Cabul já havia se acostumado a buscar abrigo nas ombreiras das portas ou nos porões das casas assim que ouviam o já familiar zumbido dos foguetes se aproximando. Um ano antes, o instituto de formação de professores havia transferido as aulas de Karteh Char, por ser um bairro castigado regularmente pelos ataques aéreos e pelo fogo de morteiros, para o local no centro que um dia fora uma escola francesa e que o diretor acreditava ser mais seguro. Pouco tempo depois, outro foguete, cujo alvo era o Ministério do Interior, que ficava nas proximidades, foi parar diretamente em frente à nova sede da escola.
Todas essas lembranças se atropelavam, rapidamente, na mente de Kamila quando ela embarcou no ônibus “Millie” azul-claro enferrujado, que um dia fizera parte do serviço de transporte público, e tomou seu assento. Ela se debruçou sobre a janela com grandes manchas de barro e ficou ouvindo o que diziam as mulheres à sua volta enquanto o ônibus chacoalhava pelas ruas esburacadas de Karteh Char. Cada uma tinha sua própria versão de como seria o novo regime para os habitantes de Cabul.
Talvez eles tragam segurança”, disse uma garota sentada algumas fileiras atrás de Kamila.
Eu não acho isso”, respondeu sua amiga. “Eu ouvi pelo rádio que, uma vez no poder, eles não permitem a existência de escolas. Tampouco de trabalho. Nós não podemos nem sair de casa sem a permissão deles. Talvez, eles só fiquem aqui por alguns meses...”
Kamila olhava pela janela e tentava ignorar as conversas ao seu redor. Ela sabia que provavelmente aquela garota estava certa, mas não queria nem pensar no que seria dela e de suas irmãs menores que ainda viviam em casa. Ela ficou olhando para os donos de lojas naquelas ruas empoeiradas da cidade, envolvidos em seus afazeres diários de fechar suas mercearias, estúdios fotográficos e padarias. Nos últimos quatro anos, as entradas das lojas de Cabul haviam se tornado um barômetro da violência do dia: quando suas portas estavam totalmente abertas era porque a vida estava seguindo em frente, mesmo que fosse ocasionalmente marcada pelo zumbido de um foguete disparado ao longe. Mas quando elas estavam fechadas em plena luz do dia, os moradores dali sabiam que o perigo estava por perto e que também eles fariam melhor se ficassem em casa.
O velho ônibus seguia em frente sacolejando entre um e outro ronco da descarga de seu escapamento e finalmente chegou ao ponto em que Kamila desceu. Khair Khana, um bairro de periferia ao norte de Cabul, era onde morava uma grande comunidade de tajiques, o segundo maior grupo étnico do Afeganistão. Como a maioria das famílias tajiques, os pais de Kamila vinham do norte do país. O sul era, tradicionalmente, terreno dos pashtuns. O pai de Kamila havia transferido sua família para Khair Khana durante sua última viagem em serviço militar como oficial do exército afegão, ao qual havia servido por mais de três décadas. Cabul, ele pensava na época, ofereceria às suas nove filhas melhores chances de uma boa educação. E educação, ele acreditava, era de suma importância para suas filhas, sua família e o futuro de seu país.
Kamila desceu correndo sua rua empoeirada, segurando o lenço por cima da boca para não inalar a grossa fuligem da cidade. Ela passou pelas calçadas estreitas diante da mercearia onde caixotes de madeira com verduras, cenouras e batatas eram vendidas. Trocou olhares com noivos e noivas sorridentes, carregados de flores, em uma série de fotografias de casamento penduradas na parede de um estúdio fotográfico. Da padaria vinha o cheiro delicioso do pão naan saindo do forno, seguido do açougue onde apareciam pendurados nos ganchos de aço grandes pedaços de carne vermelha. Enquanto andava, Kamila ouviu dois comerciantes trocando suas experiências do dia. Como todos os habitantes de Cabul que haviam permanecido na cidade, aqueles dois homens estavam acostumados a assistir a ascensões e quedas de novos regimes e eram capazes de perceber rapidamente o colapso iminente. O primeiro, um homem baixinho careca e enrugado, estava dizendo que seu primo havia lhe dito que as tropas de Massoud estavam carregando seus caminhões e fugindo da capital. O outro balançava a cabeça em sinal de descrença.
Vamos ver o que vai acontecer”, ele disse. “Quem sabe as coisas não acabem melhorando. Inshallah [se Deus quiser]. Mas eu duvido.”
O comandante Ahmad Shah Massoud era o ministro da defesa do país e um herói militar tajique do Vale de Panjshir, perto de Parwan, de onde vinha a família de Kamila. Durante os anos de resistência contra os russos, as forças do Dr. Najibullah haviam aprisionado o pai de Kamila por suspeita de apoiar Massoud, que era conhecido como o “Leão do Vale de Panjshir” e era um dos mais famosos combatentes Mujahideen. Após a retirada dos russos em 1992, o Sr. Sidiqi foi libertado pelas forças leais a Massoud, que trabalhavam então para o novo governo do presidente Burhanuddin Rabbani. O Sr. Sidiqi passou a colaborar por um tempo com os soldados de Massoud, mas acabou decidindo se aposentar e viver em Parwan, lugar onde havia passado sua infância e amava acima de qualquer outro no mundo.
Durante todo o verão do ano anterior a 1996, Massoud havia jurado acabar com a ofensiva dos talibãs, mesmo com a continuidade do bombardeio incessante da capital e com a tomada pelas forças talibãs de uma cidade após outra. Se as tropas do governo estavam realmente desistindo de lutar e se retirando de Cabul, Kamila pensou, os talibãs não podiam estar longe. Ela apressou o passo com os olhos fixos no chão. Não havia porque se preocupar. Ao se aproximar do portão verde de metal de sua casa, na esquina da movimentada rua principal de Khair Khana, ela soltou um suspiro de alívio. Ela nunca havia sido tão agradecida por morar tão perto da parada de ônibus.
O grande portão verde se fechou com uma batida atrás de Kamila e sua mãe, Ruhasva, correu até o pátio para abraçar sua filha. Ela era uma mulher muito pequena, com tufos de cabelos brancos que emolduravam seu rosto redondo, e de expressão respeitosa. Ela deu um beijo em ambas as faces de Kamila e abraçou-a com força. A Sra. Sidiqi havia ouvido as notícias da chegada dos talibãs durante toda a manhã e havia ficando andando por duas horas, de um lado para outro de sua sala, preocupada com a segurança de sua filha.
Finalmente em casa, junto de sua família e com a noite caindo, Kamila se acomodou sobre uma almofada de veludo na sala de sua casa. Ela pegou um de seus livros preferidos – uma coletânea de poemas cujas páginas estavam gastas pelo uso –, e acendeu um lampião de vidro com um palito de fósforo que tirou de uma das caixas pequenas, em vermelho e branco, que a família mantinha espalhadas pela casa justamente para tais ocasiões. A eletricidade era um luxo; ela chegava de maneira imprevisível e funcionava apenas por uma ou duas horas por dia, isso quando funcionava, e todos haviam se acostumado a viver no escuro. Tinham uma longa noite pela frente e esperavam ansiosamente para ver o que aconteceria a seguir. O Sr. Sidiqi não falou muito ao se juntar à filha no chão, ao lado do rádio, para ouvir as notícias da BBC de Londres.
A apenas seis quilômetros dali, Malika, a irmã mais velha de Kamila, estava finalmente terminando um dia ainda muito mais atribulado.

Gayle Tzemach Lemmon, in A costureira de Khair Khana