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15/12/2024

Como era bom

o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia.

Chacal, em Poesia marginal – Antologia poética

29/05/2023

Como é bom ser um camaleão

Quando o sol está muito forte, como é bom ser um
camaleão e ficar em cima de uma pedra espiando
o mundo. Se sinto fome, pego um inseto qualquer com
a minha língua comprida. Se o inimigo espreita,
me finjo de pedra verde, cinza ou marrom.
E, quando de tardinha o sol esfria, dou um rolê por aí.

Chacal, in Muito prazer, Ricardo

03/06/2012

Chacal e a nova linguagem da poesia brasileira



Em 2007, a editora brasileira Cosac Naify lançou uma reunião com a produção do poeta Chacal. O volume contém as obras editadas de 1971 a 2002, além do inédito Belvedere, com uma série de novos poemas. O conjunto mostra a força e a originalidade desse autor que está no centro da transformação da poesia brasileira do final do século XX até os nossos dias.
Chacal, Ricardo Carvalho Duarte, nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Aos vinte anos, lançou Muito prazer, Ricardo. Em seguida, O preço da passagem e América. Os três livros foram produções independentes, com tiragens pequenas, distribuídas de mão em mão nos bares, portas de cinema e teatros. Em 1975, lançou a narrativa em versos Quampérios pelo grupo Nuvem Cigana, uma produtora de eventos e inventos que uniu escritores, artistas plásticos, músicos, atores e pirados em geral. Em 1979, colocou na rua, novamente de forma independente, a trilogia Olhos vermelhos, Nariz aniz e Boca Roxa. Em 1983, esses livros foram reunidos em Drops de abril, coletânea distribuída em todo o Brasil pela grande editora Brasiliense.
O impacto desse resgate foi enorme na produção dos jovens poetas do início da década de oitenta. O verso de Chacal, dialogando com as cenas rápidas, o humor, a fala telegráfica de um dos mais inventivos modernistas brasileiros, Oswald de Andrade, constrói um poema que deixa velho o que vinha se fazendo até então. A fala sem cerimônia, a gíria, o rock, a contracultura, a festa, as drogas, tudo isso que estava fora da poesia entra como sangue novo dessa nova linguagem.
O poema não fica apenas nos livros (embora se sustente como poema escrito, com lances visuais pelo corte do verso no espaço, pelo artesanato sonoro, pelos neologismos, pelo prazer da palavra grafada que se revela a cada página), mas é falado em bares, shows de rock, peças de teatro, espetáculos, integrando-se às diversas artes. O poema e o poeta também são indissociáveis na voz de Chacal dizendo ao vivo seus textos. Com ele e seus colegas de geração, a “rapaziada” passou a curtir e a consumir poesia. É um poeta “na idade do rock”, como se lê num dos seus poemas.
Entretanto, todos esses atributos de época, mesmo sendo importantes, não dão conta da totalidade de Chacal. Todo grande autor que traz uma novidade para seu tempo, se sua obra perdura é porque ele tem algo que vai além e aquém da sua época. A linguagem sempre nova de seus poemas, mesmo os escritos já há mais de trinta anos, resistindo a virar redundância, mostra uma sabedoria criativa com as palavras que só possuem os que conhecem os mistérios da expressão poética. Sua visão do mundo, do ser humano, da sociedade, do poder, da sexualidade, da linguagem confere uma verticalidade ao que é dito, encontrando e tateando, mesmo no clima de festa do seu texto, camadas menos aparentes da existência.
Chacal está sempre na contramão. Tem um olhar enviesado sobre tudo. As verdades são postas em cheque, assim como a literatura, a postura de literato ou de autor, a poesia, as palavras, a edição, o livro, a vaidade. Sua origem de esportista, de garoto de praia traz um ar bom de respirar para o texto. Mas mesmo esse garoto rockeiro, hoje já com 58 anos, está com um pé na festa e outro num espaço próprio, crítico e, sobretudo, reflexivo. Enquanto afirma a vida, afirma a dúvida. Até porque a palavra vida está dentro da palavra dúvida. Como ele mesmo afirma num poema: “sempre deixei as barbas de molho”.
Em 1986, Chacal lançou Comício de tudo, também pela Brasiliense, livro de crônicas e poesias - textos inquietos e inventivos em prosa e/ou verso. Em 1994, vem Letra elétrica. Em 2002, A vida é curta pra ser pequena. Por fim, Belvedere, 2007. Lendo do fim ao princípio, como propõe a ordem dos poemas no livro, ou voltando a fita e ampliando o foco sobre a produção mais recente, fica uma certeza: sua palavra continua caminhando em cima da difícil lâmina da surpresa. Sutilezas sonoras, como achar a luz dentro do nome de Lúcifer e outros tantos lances estéticos que não vou enumerar para não estragar a aventura da sua descoberta, prezado leitor. Com vocês, um pouco da poesia de Chacal.


Como era bom

o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo era muito mais asséptico
do que quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia.
Chacal, in Belvedere


Fonte: silvestrin.blogspot.com.br

14/02/2012

Um poeta não se faz com versos

O poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento de sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando
o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho
o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não o panfleto
mas o jeito de distribuir
quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
-se engaveta junto com seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.
Chacal

09/05/2011

Papagaio

Estranho poder o do poeta.
Escolhe entre quase e cais
quais palavras lhe convém.
Depois as empilha papagaio
e as solta no céu do papel.

Chacal

15/04/2011

Sócio do Ócio

Doce ociosidade
sacia minha sede de ser assim
largado no mundo caído na vida
terra mãe luz da manhã



doce sociedade ociosa sempre no cio
já aboliram a escravatura
pendure sua rede mate sua sede
de se espreguiçar


de volta ao princípio
onde o que come é comido
cru ou cozido
vou te devorar


viva nossa carne mortal
de partículas imortais
para pulsar
filhos do sol


até que se cumpra
nosso destino cósmico
sou sócio do ócio
eu sou.

Chacal

12/04/2011

Palavra Corpo

A palavra vive no papel
com vírgulas hífens crases reticências
leva uma vida reclusa de carmelita decalça


corpo palavra

o corpo aprender a ler na rua
com manchetes de jornais
jogadas na cara pelo vento
com gírias palavrões
zoando no ouvido
com gritos sussurros
impressos na pele

palavra corpo

a palavra quer sair de si
a palavra quer cair no mundo
a palavra quer soar por aí
a palavra quer ir mais fundo
a palavra funda
a palavra quer
a palavra fala:
- eu quero um corpo!

corpo palavra

o corpo sabe letras com gosto
de carne osso unha e gente
o corpo lê nas entrelinhas
o corpo conhece os sinais
o corpo não mente
o corpo quer dizer o que sabe
o corpo sabe
o corpo quer
o corpo diz:
- fala palavra!!!

palavracorpo corpopalavra

Chacal