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14/01/2025

A leste do Éden | 7


[ 3 ]

Adam saiu a pé do vilarejo. A camisa estava suja e as roupas que roubara estavam amarrotadas e encardidas por ter dormido com elas durante uma semana. Entre a casa e o celeiro parou para escutar e num momento ouviu o irmão martelando alguma coisa no grande celeiro novo de tabaco.
Ei, Charles! — gritou Adam.
As marteladas pararam e houve um silêncio. Adam sentiu como se o irmão o estivesse inspecionando através das frestas do celeiro. Então Charles saiu rapidamente, correu até Adam e apertou sua mão.
Como vai você?
Estou ótimo — disse Adam.
Meu Deus, como está magro!
Estou mesmo. E alguns anos mais velho também.
Charles o examinou da cabeça aos pés.
Não me parece próspero.
Não sou.
Onde está sua valise?
Não tenho.
Jesus Cristo! Por onde andou?
A maior parte do tempo perambulando pelo país todo.
Como um vagabundo?
Como um vagabundo.
Depois de todos esses anos e da vida que havia transformado a pele de Charles em couro pregueado e avermelhado seus olhos sombrios, Adam sabia pela lembrança que Charles estava pensando em duas coisas — nas perguntas e em alguma coisa mais.
Por que não voltou para casa?
Simplesmente comecei a vagar. Não podia parar. É uma coisa que pega na gente. Vejo que ganhou uma cicatriz bem feia.
Escrevi sobre ela para você. Cada vez fica pior. Por que não escreveu? Está com fome? — As mãos de Charles formigavam em seus bolsos e ele tocou no queixo e coçou a cabeça.
Pode desaparecer. Conheci um homem, um balconista de bar, que tinha uma parecida com um gato. Era um sinal de nascença. Seu apelido era Gato.
Está com fome?
Claro, acho que sim.
Pretende ficar em casa agora?
Eu... eu acho que sim. Quer me contar as coisas agora?
Eu... eu acho que sim. — Charles ecoou Adam. — Nosso pai morreu.
Eu sei.
Como foi que soube?
O agente da estação me contou. Há quanto tempo ele morreu?
Cerca de um mês.
De quê?
Pneumonia.
Enterrado aqui?
Não. Em Washington. Recebi uma carta e jornais. Foi levado num caixão coberto pela bandeira. O vice-presidente compareceu e o presidente mandou uma coroa. Tudo nos jornais. Fotos também, vou lhe mostrar. Guardei tudo.
Adam estudou o rosto do irmão até que Charles desviou o olhar.
Está zangado com alguma coisa?
Por que deveria estar zangado?
É que me pareceu…
Não tenho motivo nenhum para estar zangado. Vamos, vou preparar-lhe alguma coisa para comer.
Está bem. Ele demorou para morrer?
Não. Foi pneumonia galopante. Partiu rapidamente.
Charles estava encobrindo algo. Queria dizer, mas não sabia como fazê-lo. Continuava escondendo as palavras. Adam ficou em silêncio. Talvez fosse melhor ficar quieto e deixar Charles farejar e rodar em círculos até desabafar.
Não acredito muito em mensagens do além — disse Charles. — Mesmo assim, como é que a gente pode saber? Algumas pessoas garantem que receberam mensagens, a velha Sarah Whitburn. Jurou. Você fica sem saber o que pensar. Você não recebeu nenhuma mensagem, recebeu? Ei, qual foi o bicho que comeu sua língua?
Adam disse:
Estava só pensando.
E ele estava pensando com espanto: Ora, não tenho mais medo do meu irmão! Eu tinha um medo mortal dele, e não o tenho mais. Por que será? Podia ser o Exército? Ou o trabalho nas estradas? Podia ter sido a morte do pai? Talvez — mas eu não entendo. Com a ausência do medo, ele sabia que podia dizer o que bem entendesse, enquanto antes escolhia cuidadosamente as palavras para evitar confusão. Era uma boa sensação a que tinha agora, como se tivesse morrido e agora ressuscitasse.
Caminharam até a cozinha de que ele se lembrava e não se lembrava. Parecia menor e mais encardida. Adam disse quase com alegria:
Charles, eu estou ouvindo. Você quer me contar algo e está dando voltas como um cão de caça ao redor de uma moita. É melhor falar antes de levar uma mordida.
Os olhos de Charles cintilaram de raiva. Ergueu a cabeça. Sua força o havia abandonado. Pensou com desolação: Não posso mais vencê-lo. Não posso.
Adam abafou um riso.
Talvez seja errado eu me sentir bem quando nosso pai acabou de morrer, mas, quer saber, Charles, nunca me senti melhor em toda a vida. Nunca me senti tão bem assim. Vamos lá, Charles, desabafe. Não fique remoendo essa coisa.
Charles perguntou:
Você amava nosso pai?
Não vou responder enquanto não souber aonde está querendo chegar.
Amava ou não amava?
O que isso tem a ver com você?
Responda.
Uma ousadia livre e criativa percorria os ossos e o cérebro de Adam.
Muito bem, vou lhe dizer. Não. Eu não o amava. Às vezes ele me apavorava. Algumas vezes sim, algumas vezes eu o admirava, mas a maior parte do tempo eu o odiava. Agora me diga por que quer saber?
Charles baixou o olhar para suas mãos.
Não entendo — disse ele. — Isso não me entra na cabeça. Ele amava você mais do que qualquer coisa no mundo.— Não acredito nisso.— Não precisa acreditar. Ele gostava de tudo que você lhe trazia. Não gostava de mim. Não gostava de nada que eu lhe dava. Lembra do presente que dei a ele, o canivete? Cortei e vendi um lote de lenha para comprar aquele canivete. Ele nem mesmo o levou para Washington consigo, está ali na escrivaninha dele até hoje. E você lhe deu um cãozinho. Estava presente no seu enterro. Um coronel o levava no colo, o cão estava cego, não conseguia andar. Eles o sacrificaram com um tiro depois do velório.
Adam ficou intrigado com a ferocidade no tom do irmão.— Não estou entendendo — disse. — E não vejo aonde você quer chegar.
Eu o amava — disse Charles. E pela primeira vez na lembrança de Adam, Charles começou a chorar. Deitou a cabeça sobre os braços e chorou.
Adam começou a se aproximar dele, mas um pouco do velho medo voltou. Não, pensou, se tocasse nele tentaria me matar. Foi até a porta aberta e ficou parado olhando para fora, e podia ouvir os soluços do irmão atrás de si.
Não era uma fazenda bonita nas proximidades da casa — nunca tinha sido. Havia detritos por ali, estava tudo arruinado, descuidado, fora de ordem; não havia flores, pedaços de papel e lascas de madeira espalhavam-se pelo chão. A casa também não era bonita. Era um barracão bem construído para servir de abrigo e cozinha. Era uma fazenda sinistra e uma casa sinistra, mal-amada e sem amor para dar. Não era um lar, não era um lugar ao qual se ansiasse por voltar. Subitamente, Adam pensou na madrasta — tão mal-amada quanto a fazenda, adequada, limpa à sua maneira, mas não mais esposa do que a fazenda era um lar.
Os soluços do irmão tinham parado. Adam virou-se. Charles olhava direto para a frente, para o vazio. Adam disse:
Conte-me da mamãe.
Ela morreu. Escrevi para você.
Conte-me sobre ela.
Já lhe disse. Ela morreu. Foi há muito tempo. Não era sua mãe.
O sorriso que Adam captara no rosto dela lampejou na sua lembrança. O rosto dela estava projetado à sua frente.
A voz de Charles veio através da imagem e a explodiu.
É capaz de me dizer uma coisa... Não rapidamente, pense antes de me responder e talvez não responda, a não ser que seja verdade, a sua resposta.
Charles moveu os lábios para formular a pergunta adiantadamente.
Acha que seria possível que nosso pai fosse... desonesto?
O que quer dizer com isso?
Não está claro o bastante? Falei claro. Só existe um significado para desonesto.
Não sei — disse Adam. — Não sei. Ninguém nunca falou nisso. Veja o que aconteceu com ele. Pernoitou na Casa Branca. O vice-presidente compareceu ao seu velório. Isso soa como um homem desonesto? Ora, vamos, Charles — implorou ele —, me fale o que está querendo me dizer desde que cheguei aqui.
Charles umedeceu os lábios. O sangue parecia ter sumido do seu corpo e, com ele, a energia e toda a ferocidade. Sua voz ficou monótona.
Papai fez um testamento. Deixou tudo igual para mim e para você.
Adam riu.— Bem, sempre podemos viver da fazenda. Acho que não vamos passar fome.
São mais de cem mil dólares — prosseguiu a voz inexpressiva.
Está louco? É mais provável que sejam cem dólares. Onde iria arranjar tudo isso?
Não há erro nenhum. Seu salário com o Grande Exército da República era de cento e trinta e cinco dólares por mês. Pagava seu próprio quarto e comida. Recebia cinco centavos por milha e despesas de hospedagem quando viajava.
Talvez tivesse esse dinheiro o tempo todo e não soubéssemos.
Bem, por que não escrever para o Grande Exército da República e perguntar? Alguém lá poderia saber.
Eu não ousaria — disse Charles.
Veja bem! Não se precipite. Existe uma coisa chamada especulação. Uma porção de gente fica rica com ela. Ele conhecia homens importantes. Talvez tivesse encontrado uma boa oportunidade. Pense nos homens que foram à corrida do ouro na Califórnia e voltaram ricos.
O rosto de Charles estava desolado. Sua voz baixou tanto que Adam teve de se debruçar para ouvir. Era tão impessoal como um relatório.
Nosso pai entrou para o Exército da União em junho de 1862. Teve três meses de treinamento neste estado. Isso leva a setembro. Marchou para o sul. Em doze de outubro foi ferido na perna e mandado para o hospital. Voltou para casa em janeiro.
Não sei aonde está querendo chegar.
As palavras de Charles foram breves e pálidas. — Ele não esteve em Chancellorsville. Não esteve em Gettysburg, Wilderness, Richmond ou Appomattox.
Como sabe?
Sua dispensa. Veio com seus outros papéis.
Adam suspirou fundo. No seu peito, como uma batida de punhos, havia um surto de alegria. Sacudiu a cabeça quase em descrença.
Charles disse:
Como foi que ele conseguiu se safar? Com os diabos, como conseguiu se safar? Ninguém chegou jamais a questionar. Você questionou? Eu questionei? Minha mãe questionou? Ninguém. Nem mesmo em Washington.
Adam se levantou.
O que é que tem para comer na casa? Vou esquentar alguma comida.
[…]

John Steinbeck, em A leste do Éden

09/01/2025

A leste do Éden | 7


[ 2 ]

Charles recebia poucas cartas. Às vezes levava semanas sem ir à agência dos correios. Em fevereiro de 1894, quando chegou um envelope espesso de uma firma de advogados em Washington, o agente dos correios achou que devia ser importante. Foi a pé até a fazenda dos Trask, encontrou Charles rachando lenha, e entregou-lhe a carta. E como se dera todo aquele trabalho, esperou para saber o que continha a carta.
Charles o deixou esperar. Muito lentamente, leu todas as cinco páginas, voltou a lê-las, movendo os lábios de acordo com as palavras. Então dobrou a carta e se dirigiu para a casa.
O agente dos correios foi atrás dele e falou:
Algum problema, sr. Trask?
Meu pai morreu — disse Charles, e entrou na casa e fechou a porta.
Foi um golpe para ele — relatou o agente dos correios na cidade. — Foi um golpe tremendo. É um homem quieto. Não fala muito.
Em casa, Charles acendeu o lampião embora ainda não estivesse escuro. Colocou a carta sobre a mesa e lavou as mãos antes de se sentar para ler de novo.
Ninguém foi capaz de lhe mandar um telegrama. Os advogados encontraram o seu endereço entre os papéis do pai. Lamentavam — ofereciam suas condolências. E estavam também muito excitados. Quando foram verificar o testamento de Trask, acharam que poderia haver algumas centenas de dólares para os filhos. Era o que ele parecia valer. Quando inspecionaram seus talões de cheque descobriram que tinha acima de noventa e três mil dólares no banco e dez mil dólares em títulos valorizados. Sentiram-se muito diferentes em relação ao sr. Trask então. Pessoas com todo aquele dinheiro eram ricas. Nunca teriam de se preocupar. Era o suficiente para começar uma dinastia. Os advogados congratularam Charles e o seu irmão Adam. Segundo o testamento, diziam, os bens deveriam ser divididos igualmente. Depois do dinheiro davam uma lista dos objetos pessoais deixados pelo falecido: cinco espadas cerimoniais presenteadas a Cyrus em várias convenções do Grande Exército da República, um martelo de juiz de madeira de oliva com uma plaqueta de ouro, um relógio-amuleto da Maçonaria com os ponteiros de diamantes, as jaquetas de ouro dos dentes que ele tirou quando colocou dentaduras, um relógio de prata, uma bengala com castão de ouro e assim por diante.
Charles leu a carta mais duas vezes e apoiou a testa na palma das mãos. Começou a pensar em Adam. Queria Adam em casa.
Charles sentia-se perplexo e entorpecido. Acendeu o fogão, botou a frigideira para esquentar e lançou nela fatias grossas de carne de porco salgada. Voltou a dar uma olhada na carta. Subitamente a pegou e colocou-a na gaveta da mesa da cozinha. Decidiu não pensar mais no assunto por um tempo.
Claro que não conseguiu pensar em outra coisa, mas era um pensamento tedioso e circular que voltava repetidamente ao ponto de partida: onde ele conseguira aquele dinheiro?
Quando dois acontecimentos têm algo em comum, em suas naturezas ou no tempo ou local, nós chegamos rapidamente à conclusão de que são similares e, a partir dessa tendência, criamos uma magia e os guardamos para contar de novo depois. Charles nunca antes na vida tivera uma carta entregue para ele na fazenda. Algumas semanas depois, um menino foi correndo até a fazenda com um telegrama. Charles sempre associou a carta e o telegrama assim como juntamos duas mortes e antecipamos uma terceira. Correu até a estação de trem do vilarejo com o telegrama na mão.
Veja isso aqui — disse ao telegrafista.
Eu já li.
Já leu?
Veio pela linha — disse o telegrafista. — Eu o botei no papel.
Ah! Sim, por certo. “Necessidade urgente envie cem dólares pelo telégrafo. Voltando para casa. Adam.”
Veio a cobrar — disse o telegrafista. — Deve-me sessenta centavos.
Valdosta, Geórgia, nunca ouvi falar.
Nem eu, mas está lá.
Diga, Carlton, como é que se telegrafa dinheiro?
Bem, o senhor me traz cento e dois dólares e sessenta centavos e eu mando um telegrama dizendo ao telegrafista de Valdosta que pague cem dólares para Adam. Deve-me sessenta centavos, também.
Vou pagar, mas, me diga, como posso saber que é Adam? O que vai impedir qualquer outro de pegar o dinheiro?
O telegrafista se permitiu um sorriso mundano.
Nosso modo de operar, senhor, é o seguinte: o senhor me dá uma pergunta cuja resposta ninguém mais poderia saber. Então eu mando a pergunta e a resposta. O telegrafista faz a pergunta ao sujeito e, se ele não souber responder, não leva o dinheiro.
Ora, isso é muito inteligente. É melhor eu pensar em algo bem bom.
É melhor pegar os cem dólares enquanto o velho Breen ainda está com o guichê aberto.
Charles se divertiu com o jogo. Voltou com o dinheiro na mão.
Já tenho a pergunta — disse.
Espero que não seja o nome do meio da sua mãe. Muita gente não lembra.
Não, nada disso. É esta: “O que foi que você deu para papai no aniversário dele pouco antes de partir para o Exército?”
É uma boa pergunta, mas é comprida como o diabo. Não pode reduzi-la para dez palavras?
Quem está pagando? A resposta é: “Um filhote de cachorro.”
Ninguém adivinharia isso, eu acho — disse Carlton. — Bem, é o senhor quem está pagando, não eu.
Vai ser engraçado se ele tiver esquecido — disse Charles. — Nunca mais voltaria para casa.

John Steinbeck, em A leste do Éden

02/01/2025

A leste do Éden | 7


[ 1 ]

Adam passou seus cinco anos seguintes fazendo as coisas que um exército usa para impedir que seus homens enlouqueçam — polimento interminável de metais e couros, parada, ordem-unida e escolta, cerimônia de clarim e bandeira, um balé de ocupações para homens que não estão fazendo nada. Em 1886, estourou a grande greve das fábricas de carne enlatada em Chicago e o regimento de Adam foi treinado, mas a greve se resolveu antes que ele fosse necessário. Em 1888, os índios Seminole, que nunca haviam assinado um tratado de paz, ficaram indóceis e agitados, e a cavalaria foi treinada de novo; mas os Seminole se retiraram para os seus charcos e ficaram quietos, e a rotina sonâmbula se instalou entre as tropas de novo.
O intervalo de tempo é uma questão estranha e contraditória na mente. Seria sensato supor que um tempo de rotina ou um tempo sem acontecimentos pareceria interminável. Deveria ser assim, mas não é. São os tempos monótonos e parados que não têm nenhuma duração. Um tempo salpicado de interesses, marcado pela tragédia, recheado de alegrias — este é o tempo que parece longo na memória. E é assim quando se pensa a respeito. A falta de acontecimentos não tem postes para marcar sua duração. Entre o nada e o nada não há tempo algum.
O segundo período de cinco anos de Adam acabou antes que ele se desse conta. Era o final de 1890 e ele foi dispensado com divisas de sargento no Presídio em São Francisco. Cartas entre Charles e Adam tinham se tornado uma grande raridade, mas Adam escreveu ao irmão pouco antes de dar baixa. “Desta vez estou indo para casa”, e foi a última coisa que Charles soube dele por mais de três anos.
Adam esperou que o inverno passasse, subindo o rio lentamente até Sacramento, vagueando no vale do San Joaquin e quando a primavera chegou Adam não tinha mais nenhum dinheiro. Enrolou um cobertor e iniciou uma lenta jornada para o leste, às vezes caminhando e às vezes com grupos de homens nos tirantes debaixo de trens de carga lentos. À noite, ele acampava com vagabundos nos arredores das cidades. Aprendeu a mendigar, não por dinheiro, mas por comida. E antes que percebesse ele mesmo era um vagabundo.
Homens desse tipo são raros hoje em dia, mas nos anos 1890 havia muitos deles, homens errantes, homens solitários, que queriam as coisas daquele jeito. Alguns deles fugiam de responsabilidades e alguns se sentiam injustamente rejeitados pela sociedade. Trabalhavam um pouco, mas não por muito tempo. Roubavam um pouco, mas só comida, e de vez em quando pegavam uma roupa de um varal. Eram todo tipo de homens — homens instruídos e homens ignorantes, homens limpos e homens sujos —, mas todos eles tinham a inquietação em comum. Seguiam o calor, mas evitavam o calor excessivo e o frio excessivo. À medida que a primavera avançava, eles a acompanhavam para o leste, e a primeira geada os impelia para o oeste e o sul. Eram irmãos do coiote que, sendo selvagem, vive perto do homem e dos seus galinheiros: ficavam perto das cidades, mas não dentro delas. Associações com outros homens duravam uma semana, ou um dia, e depois cada um seguia o seu caminho.
Em torno das pequenas fogueiras onde borbulhava o ensopado comunitário, circulava todo tipo de conversa e só os assuntos pessoais não eram mencionados. Adam ouviu falar do surgimento da Central Sindical dos Trabalhadores da Indústria com seus anjos irados. Escutou discussões filosóficas, sobre metafísica, estética e experiência impessoal. Seus companheiros da noite podiam ser um assassino, um padre destituído ou que largou a batina por escolha própria, um professor que deixou um bom emprego numa faculdade enfadonha, um homem solitário perseguido pelas lembranças, um anjo caído e um diabo em treinamento, e cada um contribuía com nacos de pensamento à fogueira assim como contribuía com cenouras, batatas, cebolas e carne para o ensopado. Aprendeu a técnica de fazer a barba com caco de vidro, a estudar uma casa antes de bater para pedir um prato de comida. Aprendeu a evitar ou lidar com policiais hostis e a julgar uma mulher pelo calor do seu coração.
Adam sentia prazer em sua nova vida. Quando o outono tocou as árvores, ele havia chegado tão longe quanto a cidade de Omaha, e sem perguntas, motivo ou pensamento apressou-se a tomar o rumo do oeste e do sul, atravessou as montanhas e chegou com alívio ao sul da Califórnia. Caminhou pelo litoral da divisa norte até San Luis Obispo e aprendeu a pegar moluscos, enguias, mexilhões e percas nas poças formadas pela maré, a achar mariscos cavando em bancos de areia e a capturar coelhos nas dunas com um laço de linha de pescar. E ficava deitado na areia aquecida pelo sol contando as ondas.
A primavera o chamou de novo para o leste, porém mais lentamente do que antes. O verão estava frio nas alturas e o pessoal das montanhas foi bondoso como as pessoas solitárias costumam ser. Adam conseguiu emprego no rancho de uma viúva nos arredores de Denver e compartilhou sua mesa e cama humildemente até que a geada o impeliu de novo para o sul. Seguiu o Rio Grande passando por Albuquerque e El Paso, contornando a Grande Curva, atravessando Laredo e chegando a Brownsville. Aprendeu as palavras espanholas para comida e prazer, e aprendeu que quando as pessoas são muito pobres elas ainda têm algo para dar e o impulso de dar. Criou um amor pelos pobres que não poderia ter concebido se não fosse ele mesmo pobre. E a esta altura era um vagabundo experiente, usando a humildade como o seu princípio de ação. Ficou esguio e bronzeado do sol e podia anular sua personalidade a ponto de não provocar nenhum sentimento de raiva ou inveja. Sua voz tornara-se macia e havia combinado muitos sotaques e dialetos em sua própria fala, de modo a não parecer estrangeiro em lugar algum. Esta era a grande segurança do vagabundo, um véu protetor. Muito raramente viajava como clandestino em trens, pois havia uma hostilidade crescente contra os vagabundos, baseada na raiva violenta da Central Sindical dos Trabalhadores da Indústria e agravada pelas ferozes represálias contra eles. Adam foi detido por vadiagem. A rápida brutalidade dos policiais e dos prisioneiros o apavorou e o fez afastar-se das rodas de vagabundos. Viajava sozinho depois disso e se certificava de estar bem barbeado e limpo.
Quando a primavera voltou, partiu para o norte. Sentia que o seu tempo de descanso e paz estava terminado. Rumou ao norte em direção a Charles e às memórias evanescentes da sua infância.
Adam deslocou-se rapidamente através do interminável leste do Texas, através da Louisiana e dos extremos meridionais do Mississippi e do Alabama, até o flanco da Flórida. Sentia que precisava andar rápido. Os negros eram pobres o bastante para serem generosos, mas ele não podia confiar em nenhum branco, por mais pobre que fosse, e os brancos pobres tinham medo de forasteiros.
Perto de Tallahassee, foi detido pelos homens do xerife, julgado vadio e colocado num grupo de trabalhos forçados. Era assim que se construíam estradas. Sua sentença foi de seis meses. Foi solto e imediatamente detido para cumprir mais seis meses. E agora aprendeu como os homens podem considerar outros homens como bestas e que a melhor maneira de lidar com tais homens era agir como besta. Um rosto limpo, um rosto aberto, um olho erguido para encontrar outro olho — essas coisas chamavam atenção e isso por sua vez trazia punição. Adam pensava como um homem que se machucou enquanto fazia uma coisa feia ou brutal, e que agora precisava punir alguém por causa daquele machucado. Ser vigiado no trabalho por homens com espingardas, ser algemado pelo tornozelo e preso a uma corrente à noite eram simples questões de precaução, mas os selvagens açoites pelo menor sinal de contrariedade, pelo menor resquício de dignidade ou resistência pareciam indicar que os guardas tinham medo dos prisioneiros e Adam sabia, pelos anos passados no Exército, que um homem com medo é um animal perigoso. E Adam, como qualquer um no mundo, temia o que os açoites poderiam fazer ao seu corpo e ao seu espírito. Puxou uma cortina ao seu redor. Removeu qualquer expressão do seu rosto, luz dos seus olhos, e silenciou a sua fala. Mais tarde, não ficou tão espantado que aquilo tivesse acontecido com ele, mas que conseguisse absorver e com um mínimo de dor. Foi muito mais horrível depois do que quando estava acontecendo. É um triunfo do autocontrole ver um homem chicoteado até que os músculos das suas costas se mostrem brancos e brilhantes através dos cortes e não dar nenhum sinal de piedade, raiva ou interesse. E Adam aprendeu isso.
As pessoas são sentidas, mais do que vistas, após os primeiros momentos. Durante a sua segunda sentença nas estradas da Flórida, Adam reduziu sua personalidade ao mínimo. Não causava nenhuma agitação, não emitia nenhuma vibração, tornou-se quase tão invisível quanto é possível ser. E, quando os guardas não podiam senti-lo, não tinham medo dele. Deram-lhe tarefas de limpeza no acampamento, de distribuir o mingau para os prisioneiros, de encher os baldes de água.
Adam esperou até três dias antes da sua segunda liberação. Pouco depois do meio-dia, ele encheu os baldes de água e voltou ao riacho para pegar mais. Encheu seus baldes com pedras e os afundou, então esgueirou-se até a água e nadou um longo trecho rio abaixo, descansou, e nadou mais outro trecho. Continuou deslocando-se pela água até que ao entardecer encontrou um lugar debaixo de um barranco com arbustos para se esconder. Não saiu da água.
Mais tarde na noite ouviu os cães farejadores passarem, cobrindo ambos os lados do rio. Havia esfregado seus cabelos com folhas verdes para ocultar o odor humano. Ficou sentado na água com o nariz e os olhos alertas. De manhã os cães voltaram, desinteressados, e os homens estavam cansados demais para investigar as margens adequadamente. Quando tinham ido embora, Adam puxou um pedaço encharcado de carne de porco frita e comeu.
Havia treinado a si mesmo contra a pressa. A maioria dos homens é apanhada quando foge como um relâmpago. Adam levou cinco dias para percorrer a curta distância até a Geórgia. Não corria riscos, continha sua impaciência com um controle de ferro. Ficou espantado com a sua capacidade.
Nos arredores de Valdosta, na Geórgia, ficou escondido até bem depois da meia-noite, entrou na cidade como uma sombra, esgueirou-se para trás de um armazém barato, forçou uma janela lentamente até que os parafusos da tranca foram arrancados da madeira apodrecida. Recolocou a tranca, mas deixou a janela aberta. Tinha de trabalhar à luz do luar que mal atravessava as janelas sujas. Furtou uma calça barata, uma camisa branca, sapatos pretos, um chapéu preto e uma capa de chuva, e experimentou cada artigo para ver se lhe servia. Certificou-se de que nada parecia fora de ordem antes de saltar para fora pela janela. Tudo o que tirou foi de um estoque farto. Nem chegou a olhar para a caixa registradora. Abaixou a janela cuidadosamente e deslizou de sombra em sombra sob o luar.
Ficava escondido durante o dia e saía em busca de comida à noite — nabos, algumas espigas de milho de uma manjedoura, algumas maçãs derrubadas pelo vento. Tirou a aparência de novo dos sapatos esfregando areia neles e amarrotou a capa de chuva para lhe dar um aspecto de usada. Esperou três dias para que caísse a chuva de que ele precisava ou que, em sua cautela extremada, achava que precisava.
A chuva começou no final da tarde. Adam enroscou-se debaixo de sua capa de chuva, esperando que o escuro chegasse, e então caminhou para a cidade de Valdosta. Seu chapéu preto estava caído sobre os olhos e a capa amarela bem fechada no pescoço. Caminhou até a estação e espiou através de uma janela embaçada pela chuva. O agente da estação, com uma viseira verde e as mangas de trabalho em alpaca preta, estava inclinado para fora da bilheteria falando com um amigo. Levou vinte minutos para que o amigo fosse embora. Adam observou-o da plataforma. Respirou fundo para se acalmar e entrou na estação.

John Steinbeck, em A leste do Éden

27/12/2024

A leste do Éden | 6


[ 3 ]

Charles ansiava pela volta de Adam depois de cinco anos. Pintou a casa e o celeiro e, quando a ocasião se aproximou, chamou uma mulher para limpar a casa, limpá-la até os ossos.
Era uma mulher velha, limpa e rigorosa. Olhou para as cortinas podres acinzentadas de poeira, jogou-as fora e fez cortinas novas. Arrancou do fogão a graxa que se acumulara desde que a mãe de Charles morrera. E eliminou das paredes o tom marrom lustroso e desagradável depositado por gordura de cozinha e querosene de lampiões. Limpou os assoalhos com lixívia, ensopou os cobertores em uma solução de soda, queixando-se o tempo todo para si mesma. “Estes homens são uns animais sujos. Até os porcos são mais limpos. Apodrecem em sua própria sujeira. Não entendo como as mulheres se casam com eles. Fedem como pústulas. Vejam só o forno — gordura do tempo de Matusalém.”
Charles mudou-se para um barracão onde suas narinas não seriam assaltadas pelos cheiros imaculados mas dolorosos da lixívia, da soda, da amônia e do sabão amarelo. Ficou, porém, com a impressão de que ela não aprovava a sua maneira de cuidar da casa. Quando finalmente a mulher se foi resmungando da casa cintilante, Charles permaneceu no barracão. Queria manter a casa limpa para Adam. No barracão onde dormia ficavam as ferramentas da fazenda e o equipamento para o seu reparo e manutenção. Charles descobriu que podia preparar suas refeições fritas e cozidas mais rápida e eficientemente na forja do que no fogão da cozinha. Os foles puxavam um calor mais rápido e mais forte do carvão de coque. Não era preciso esperar que o fogão aquecesse. Ele se perguntou por que nunca pensara naquilo antes.
Charles esperou por Adam, e Adam não veio. Talvez Adam tivesse vergonha de escrever. Foi Cyrus quem contou a Charles numa carta zangada sobre o realistamento de Adam contra a sua vontade. E Cyrus indicou que, a certa altura no futuro, Charles poderia visitá-lo em Washington, mas nunca mais o convidou.
Charles voltou para a casa e viveu numa espécie de sujeira selvagem, sentindo uma satisfação em estragar o trabalho da mulher resmungona.
Levou um ano até que Adam escrevesse para Charles — uma carta noticiosa e constrangida tomando coragem para dizer: “Não sei por que me engajei de novo no Exército. Era como se outra pessoa tivesse feito aquilo. Escreva logo e me conte como vai você.”
Charles só escreveu depois de receber quatro cartas ansiosas e respondeu friamente: “Eu dificilmente esperava que você voltasse”, e prosseguia com um relatório detalhado sobre a fazenda e os animais.
O tempo foi exercendo os seus efeitos. Depois disso, Charles escreveu logo depois do Ano Novo e recebeu uma carta de Adam escrita logo após o Ano-Novo. Tinham se distanciado tanto que houve pouca referência mútua e nenhuma pergunta.
Charles começou a se juntar com uma sucessão de mulheres desleixadas. Quando elas lhe davam nos nervos, ele as jogava fora como se vendesse um porco. Não gostava delas e não tinha nenhum interesse de que gostassem dele. Foi se afastando do vilarejo. Seus únicos contatos eram com a estalagem e o agente do correio. O pessoal do vilarejo podia denunciar seu modo de vida, mas uma coisa ele possuía que equilibrava sua vida feia, mesmo aos olhos deles. A fazenda nunca fora tão bem administrada. Charles limpou a terra, construiu seus muros, aperfeiçoou a drenagem e acrescentou uns quarenta hectares à propriedade. Mais do que isso, começou a plantar tabaco, e um celeiro novo e comprido para o tabaco elevou-se de maneira impressionante atrás da casa. Por essas coisas ele manteve o respeito dos seus vizinhos. Um fazendeiro não pode pensar mal demais de um bom fazendeiro. Charles gastava a maior parte do seu dinheiro e toda a sua energia na fazenda.

John Steinbeck, em A leste do Éden

22/12/2024

A leste do éden | 6


[ 2 ]

Adam foi dispensado em 1885 e começou a longa jornada de volta para casa. Na aparência havia mudado pouco. Não tinha porte militar. Na cavalaria as coisas não eram assim. Na verdade, algumas unidades se orgulhavam de manter uma postura desleixada.
Adam sentia-se como um sonâmbulo. É difícil deixar qualquer vida profundamente marcada pela rotina, mesmo se você a odeia. De manhã ele acordava em um segundo e ficava deitado à espera do toque de alvorada. Suas panturrilhas sentiam falta das perneiras, e o pescoço parecia nu sem o colarinho apertado. Chegou a Chicago e lá, sem motivo algum, alugou um quarto mobiliado por uma semana, ficou nele dois dias, foi até Buffalo, mudou de ideia e seguiu para as cataratas do Niágara. Não queria voltar para casa e protelou o regresso tanto quanto possível. O lar não era um lugar agradável na sua lembrança. Os sentimentos que tivera lá estavam mortos nele e relutava em trazê-los à vida. Observou as cataratas hora após hora. Seu bramido o atordoava e hipnotizava.
Certa noite, sentiu um anseio terrível pela proximidade dos homens no quartel e nas barracas. Seu impulso foi correr para uma multidão em busca de calor humano, qualquer multidão. O primeiro lugar público cheio de gente que encontrou foi um pequeno bar, apinhado e fumacento. Suspirou de prazer e quase se aninhou na massa humana como um gato se aninha numa pilha de lenha. Pediu uísque, bebeu e se sentiu quente e bem. Ele nada via ou ouvia. Simplesmente absorvia o contato.
À medida que ficou tarde e os homens começaram a ir embora, teve medo do momento em que precisaria ir para casa. Logo estava sozinho com o balconista, que esfregava sem parar o mogno do balcão e tentava com seus olhos e suas maneiras fazer com que Adam fosse embora.
Vou tomar mais um — disse Adam.
O homem tirou a garrafa. Adam o notou pela primeira vez. Tinha uma marca cor de morango na testa.
Sou novo por aqui — disse Adam.
É o que mais temos nas cataratas — disse o homem.
Estive no Exército. Na cavalaria.
Verdade?
Adam sentiu subitamente que tinha de impressionar o homem, tinha de prender sua atenção de algum modo.
Lutando contra os índios — disse. — Tive momentos inesquecíveis.
O homem não respondeu.
Meu irmão tem uma marca na cabeça.
O balconista tocou o sinal cor de morango com os dedos.
É de nascença — disse. — Fica maior a cada ano. Seu irmão tem um?
O dele foi um corte. Escreveu-me a respeito.
Notou que este meu sinal se parece com um gato?
Parece mesmo.
É o meu apelido, Gato. Eu o tive a vida inteira. Dizem que minha velha deve ter sido assustada por um gato quando estava me parindo.
Estou voltando para casa. Passei muito tempo fora. Não quer aceitar um drinque?
Obrigado. Onde está hospedado?
Na pensão da sra. May.
Eu a conheço. Dizem que ela te enche de sopa para que você não possa comer muita carne.
Acho que cada negócio tem os seus truques — disse Adam.
Acho que é verdade. Existem muitos no meu.
Acredito nisso — concordou Adam.
Mas o truque de que preciso eu não tenho. Queria muito conhecer este. — E qual seria o truque?
Como fazer com que você vá para casa e me deixe fechar esta espelunca.
Adam olhou para ele longamente sem falar.
É uma brincadeira — falou o homem, apreensivo.
Acho que vou para casa de manhã — disse Adam. — Quero dizer, minha verdadeira casa.
Boa sorte.
Adam caminhou através da cidade escura, apressando o passo como se sua solidão fungasse atrás de si. Os degraus curvados da frente de sua pensão rangeram um aviso quando subiu por eles. O vestíbulo estava iluminado por um pingo de luz de um lampião de azeite com a chama tão baixa que parecia prestes a se apagar.
A dona da pensão estava parada diante de sua porta aberta e seu nariz projetava uma sombra na ponta do queixo. Seus olhos frios seguiram Adam como os olhos de um retrato e ela ouviu com o nariz o uísque que o cercava.
Boa noite — disse Adam.
Ela não respondeu.
No alto do primeiro lance de escadas ele olhou para trás. A cabeça dela estava erguida e agora o queixo é que lançava uma sombra sobre o pescoço e seus olhos não tinham pupilas.
Seu quarto cheirava a poeira que umedecera e secara muitas vezes. Pegou um fósforo da caixa de madeira e o riscou num dos lados. Acendeu o toco de vela num castiçal laqueado e olhou para a cama — invertebrada como uma rede e coberta com uma colcha de retalhos suja, o estofo de algodão saindo pelas bordas.
Os degraus do alpendre se queixaram de novo e Adam sabia que a mulher estaria de novo plantada diante da porta pronta para aspergir hostilidade sobre o recém-chegado.Adam sentou-se numa cadeira reta, colocou os ombros nos joelhos e apoiou o queixo nas mãos. Um inquilino no final do corredor começou uma tosse incessante contra a noite.
E Adam soube que não podia voltar para casa. Ouvira velhos soldados contarem que fizeram o que ele ia fazer.“Eu simplesmente não podia suportar aquilo. Não tinha para onde ir. Não conhecia ninguém. Vagueava pelas ruas e logo entrei em pânico como uma criança e a primeira coisa que fiz foi implorar ao sargento para me aceitar de volta — como se estivesse me fazendo um favor.”
De volta a Chicago, Adam realistou-se e pediu para ser lotado no seu antigo regimento. No trem a caminho do Oeste, os homens do seu esquadrão pareciam muito amistosos e cordiais.
Enquanto esperava a troca de trens em Kansas City, ouviu chamarem seu nome e uma mensagem foi enfiada em sua mão — ordens para se apresentar em Washington no gabinete do secretário da Guerra. Adam em seus cinco anos tinha absorvido, mais do que aprendido, a nunca pensar demais sobre uma ordem. Para os soldados regulares, os altaneiros e distantes deuses em Washington eram malucos e se um soldado quisesse manter sua sanidade mental deveria pensar o menos possível em generais.
No devido tempo, Adam deu o seu nome a um funcionário e foi sentar-se na antessala. Seu pai o encontrou ali. Adam levou um certo tempo para reconhecer Cyrus, e mais tempo ainda para se acostumar a ele. Cyrus havia se tornado um grande homem. Vestia-se como um grande homem — casaco e calças pretos de casimira fina, um chapéu largo também preto, sobretudo com gola de veludo, bengala de ébano que ele fazia parecer uma espada. E Cyrus portava-se como um grande homem. Sua fala era lenta e suave, compassada e contida, seus gestos largos, e dentes novos lhe davam um sorriso vulpino fora de toda proporção com a sua emoção.
Depois que Adam percebeu que aquele era o seu pai, ainda continuou intrigado. Subitamente olhou para baixo — nenhuma perna de pau. A perna era reta, dobrada no joelho, e o pé estava calçado numa botina de pelica com elástico lateral. Quando ele andava havia um coxeio, mas não o batuque típico da perna de pau.
Cyrus percebeu o olhar.
Perna mecânica — disse ele. — Funciona com uma dobradiça. Tem uma mola. Não chego sequer a mancar quando me concentro. Vou mostrar-lhe quando a tirar. Venha comigo.
Adam disse:
Estou cumprindo ordens, senhor. Devo apresentar-me ao coronel Wells.
Eu sei disso. Fui eu que mandei Wells despachar as ordens. Vamos andando.
Adam disse inquietamente:
Se não objetar, senhor, acho melhor eu me apresentar ao coronel Wells.
Seu pai mudou de tom.
Eu o estava testando — falou, magnânimo. — Queria ver se o Exército tem alguma disciplina no dia de hoje. Muito bem, rapaz. Eu sabia que faria bem a você. Você é um homem e um soldado, meu rapaz.
Estou cumprindo ordens, senhor — disse Adam. Aquele homem era um estranho para ele. Adam sentiu uma leve repulsa. Algo não era verdadeiro ali. E a rapidez com que as portas se abriram para o coronel, o respeito obsequioso daquele oficial, as palavras “O secretário o receberá agora, senhor” não removeram a sensação de Adam.
Este é o meu filho, um soldado raso, senhor secretário. Exatamente como eu, um soldado raso do Exército dos Estados Unidos.
Dei baixa como cabo, senhor — disse Adam. Ele mal ouvira a troca de cumprimentos. Estava pensando. Este é o secretário da Guerra. Não consegue ver que meu pai não é assim? Ele está só fazendo teatro. O que foi que aconteceu com ele? É estranho que o secretário não consiga perceber.
Caminharam até o pequeno hotel onde Cyrus morava e no caminho Cyrus mostrou os pontos turísticos, os edifícios, os locais históricos, expansivo como um palestrante.
Moro num hotel — disse. — Pensei em ter uma casa, mas viajo tanto que não valeria a pena. Estou percorrendo o país quase que o tempo todo.
O funcionário do hotel também não conseguia notar nada. Fez uma mesura para Cyrus, chamou-o de “senador” e indicou que daria um quarto a Adam ainda que fosse preciso botar alguém na rua.
Mande uma garrafa de uísque para o meu quarto, por favor.
Posso mandar um pouco de gelo picado se quiser.
Gelo! — disse Cyrus. — Meu filho é um soldado. — Bateu com a bengala na perna que emitiu um som oco. — Já fui soldado, soldado raso. Para que precisaríamos de gelo?
Adam ficou espantado com os aposentos de Cyrus. Tinha não só um quarto de dormir, mas uma sala de estar ao lado e o banheiro ficava junto ao quarto.Cyrus sentou-se numa poltrona funda e suspirou. Arregaçou a perna da calça e Adam viu o aparelho de ferro, couro e madeira de lei. Cyrus afrouxou os cordões da bainha de couro que prendia a perna ao cotoco e colocou a imitação de perna ao lado da sua cadeira.
Aperta muito às vezes — disse ele.
Sem a perna, seu pai voltou a ser o mesmo, o homem de que Adam se lembrava. Havia experimentado um início de desdém, mas agora o medo de infância, o respeito e a animosidade voltaram a ele, de modo que parecia um garotinho testando o humor imediato do pai para se ver livre de encrenca.
Cyrus fez suas preparações, bebeu seu uísque e afrouxou o colarinho. Encarou Adam.— E então?
Senhor?
Por que se realistou?
Eu... não sei, senhor. Simplesmente me deu vontade.
Você não gosta do Exército, Adam.
Não, senhor.
Por que voltou?
Eu não queria ir para casa.
Cyrus suspirou e esfregou as pontas dos dedos nos braços da poltrona.
Vai ficar no Exército? — perguntou.
Não sei, senhor.
Posso colocá-lo em West Point. Tenho influência. Posso obter sua dispensa para que se matricule em West Point.
Não quero ir para lá.
Está me desafiando? — perguntou Cyrus calmamente.
Adam levou muito tempo para responder e sua mente procurou alguma saída antes de dizer:
Sim, senhor.
Cyrus disse:
Sirva-me um pouco de uísque, filho. — E, quando Adam o fez, ele continuou: — Não sei se você sabe quanta influência eu realmente tenho. Posso jogar o Grande Exército em massa a favor de qualquer candidato. Até o presidente gosta de saber o que eu penso em relação a questões públicas. Posso derrotar senadores e conseguir empregos como se apanha maçãs. Posso fazer homens e destruir homens. Sabe disso?
Adam sabia mais do que aquilo. Sabia que Cyrus estava se defendendo com ameaças.
Sim, senhor. Ouvi falar.
Eu podia designá-lo para Washington, designá-lo até para mim e ensinar-lhe como são as coisas por aqui.
Eu preferiria voltar para o meu regimento, senhor.
Ele viu a sombra da perda escurecer o rosto do pai.
Talvez eu tenha cometido um erro. Você aprendeu a resistência estúpida de um soldado. — Suspirou. — Vou dar ordens para que se apresente ao seu regimento. Você vai apodrecer no quartel.
Obrigado, senhor.
Depois de uma pausa, Adam perguntou:
Por que não traz Charles para cá?
Porque eu... não, Charles fica melhor onde está. Melhor onde está.
Adam se lembrou do tom do pai e da sua aparência. E teve muito tempo para se lembrar, porque apodreceu no quartel. Lembrou que Cyrus estava sozinho e solitário — e sabia disso.

John Steinbeck, em A leste do Éden

15/12/2024

A leste do Éden | 6


[ 1 ]

Depois que Adam entrou para o Exército e Cyrus se mudou para Washington, Charles passou a viver sozinho na fazenda. Alardeava que ia arranjar uma esposa, mas não recorria ao costumeiro processo de conhecer garotas, levá-las a bailes, verificar suas virtudes, ou a ausência delas, e finalmente deslizar docilmente para o casamento. A verdade da história é que Charles tinha uma timidez abissal diante de garotas. E como a maioria dos homens acanhados, satisfazia suas necessidades normais no anonimato da prostituta. Existe uma grande segurança para um homem tímido junto a uma prostituta. Tendo sido paga, e adiantadamente, ela se tornava uma mercadoria, e um homem tímido pode ser alegre ou até mesmo brutal com ela. Também, não há nada do horror da possível rejeição que mexe com as entranhas dos homens tímidos.
O arranjo era simples e relativamente secreto. O proprietário da estalagem mantinha três quartos no andar superior destinados a ocupação provisória e que ele alugava para garotas por períodos de duas semanas. No final das duas semanas, um novo grupo de garotas entrava em cena. O sr. Hallam, o estalajadeiro, não participava do arranjo. Podia quase dizer sem mentir que nada sabia a respeito. Simplesmente cobrava cinco vezes mais que o preço normal por seus três quartos. As garotas eram escolhidas, alcovitadas, remanejadas, disciplinadas e roubadas por um cafetão chamado Edwards, que morava em Boston. Suas meninas percorriam um lento circuito entre as cidadezinhas e nunca ficavam mais do que duas semanas na mesma localidade. Era um sistema extremamente funcional. Uma garota não ficava na cidade tempo suficiente para ser notada pelos cidadãos ou pelo xerife. Passavam a maior parte do tempo no seu quarto e evitavam locais públicos. Eram proibidas, sob pena de levarem uma surra, de beber, fazer arruaça ou se apaixonar por alguém. As refeições eram servidas em seus quartos e os clientes cuidadosamente selecionados. Nenhum bêbado tinha permissão para subir aos seus quartos. De seis em seis meses cada garota ganhava um mês de férias para se embriagar e se divertir à vontade. No trabalho, bastava uma garota desobedecer às regras que o sr. Edwards em pessoa a deixava nua, amordaçava e açoitava com um chicote de cavalo até quase a matar. Se a faltosa reincidisse, acabava na cadeia, acusada de vadiagem e prostituição pública.
As temporadas de duas semanas tinham outra vantagem. Muitas das garotas estavam doentes, e uma garota quase sempre já tinha deixado a cidade quando o seu mimo incubado finalmente aparecia num cliente. Não havia em quem descarregar a raiva. O sr. Hallam nada sabia e o sr. Edwards nunca aparecia publicamente em seu escritório comercial. Sabia muito bem como tocar o seu circuito. As garotas eram todas muito parecidas — grandes, saudáveis, preguiçosas e burras. Um homem mal podia dizer que houvera uma mudança. Charles Trask se habituou a frequentar a estalagem pelo menos uma vez a cada duas semanas, esgueirar-se até o andar superior, resolver rapidamente o que tinha a fazer, e voltar ao bar para ficar moderadamente embriagado.
A casa dos Trask nunca fora alegre, mas, habitada apenas por Charles, assumiu um ar de decadência sombrio e espectral. As cortinas de renda ficaram acinzentadas, os assoalhos, embora varridos, tornaram-se pegajosos e úmidos. A cozinha estava laqueada — paredes, janelas e teto — com gordura das frigideiras.
A constante esfregação das esposas que tinham morado ali e a faxina geral duas vezes ao ano mantiveram longe a sujeira. Charles raramente fazia mais do que varrer. Desistiu dos lençóis na cama e dormia entre cobertores. De que adiantava limpar a casa quando não havia ninguém para vê-la? Somente nas noites em que ia à estalagem tomava banho e colocava roupas limpas.
Charles era dominado por uma inquietação que o fazia sair de casa ao amanhecer. Trabalhava intensamente na fazenda porque era solitário. Voltando do trabalho, empanturrava-se de frituras, ia para a cama e dormia em consequência do torpor.
Seu rosto sombrio assumiu a gravidade inexpressiva de um homem que está quase sempre sozinho. Sentia falta do irmão mais do que da mãe e do pai. Lembrava-se sem muita exatidão dos tempos antes de Adam ir embora como os tempos felizes e queria que voltassem.
Durante aqueles anos nunca ficou doente, exceto pela indigestão crônica que era universal, e ainda é, em homens que vivem sozinhos, cozinham para si mesmos e comem na solidão. Para isso ele tomava um poderoso purgante chamado Elixir da Vida do Padre George.
Um acidente lhe aconteceu no terceiro ano que passou sozinho. Arrancava pedras do solo e as puxava num trenó até o muro de pedra. Uma rocha maior e arredondada estava mais difícil de remover. Charles a forçava com uma barra de ferro comprida e a pedra se mexia, mas acabava voltando sempre para o seu leito. Subitamente, ele perdeu a paciência. O pequeno sorriso mau voltou ao seu rosto e ele lutou contra a pedra como se fosse um homem, em fúria silenciosa. Enfiou a barra bem fundo por baixo da pedra e jogou todo o seu peso sobre ela. A barra escorregou e sua extremidade superior bateu contra sua testa. Por alguns momentos, ficou caído inconsciente no campo e depois rolou para o lado e cambaleou, meio cego, até a casa. Havia um corte longo e fundo na testa que ia da linha dos cabelos até um ponto entre as sobrancelhas. Durante algumas semanas usou uma atadura na cabeça para proteger uma infecção purulenta, mas aquilo não o preocupou. Naquela época, o pus era considerado benigno, uma prova de que um ferimento cicatrizava adequadamente. Quando a ferida finalmente sarou, deixou uma cicatriz longa e pregueada e, embora a maioria das cicatrizes tenha o tecido mais claro do que a pele ao seu redor, a de Charles ficou marrom-escura. Talvez a barra de ferro tivesse deixado ferrugem debaixo da pele, fazendo assim uma espécie de tatuagem.
O ferimento não havia preocupado Charles, mas a cicatriz sim. Parecia uma longa marca de dedo traçada na sua testa. Ele a inspecionava com frequência no pequeno espelho ao lado do fogão. Penteava os cabelos para a frente sobre a testa para esconder o máximo dela que podia. Acabou criando vergonha de sua cicatriz; odiava sua cicatriz. Ficava inquieto quando alguém olhava para ela e tomado de fúria se alguém lhe perguntasse algo a respeito. Numa carta ao irmão, descreveu seu sentimento em relação a ela.
Parece”, escreveu, “que alguém me marcou como uma vaca. A maldita está ficando cada vez mais escura. Quando você chegar em casa talvez esteja preta. Tudo o que preciso é outra igual atravessada e ficaria parecendo um católico na Quarta-feira de Cinzas. Não sei por que ela me incomoda. Tenho muitas outras cicatrizes. É que parece que fui marcado. E quando vou à cidade, à estalagem, por exemplo, as pessoas olham sempre para ela. Posso ouvi-las comentando quando acham que não consigo escutar. Não sei por que são tão curiosas a respeito. Acaba que não me dá mais vontade de ir à cidade”.

John Steinbeck, em A leste do Éden