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14/02/2023

Menos coisas = mais liberdade

E se lhe apresentassem uma oportunidade maravilhosa e única na vida, mas você tivesse de atravessar o país em três dias para aproveitá-la? Você ficaria entusiasmado e começaria a fazer planos? Ou pensaria na sua casa, preocupado em como encaixotar tudo a tempo? Entraria em desespero com a ideia de transportar suas coisas por milhares de quilômetros (ou, pior, acharia isso completamente absurdo)? Será que acabaria concluindo que não vale o esforço, que você está “acomodado” aqui e que talvez, mais para a frente, surja outra oportunidade?
Sei que a pergunta a seguir parece loucura, mas será que as suas coisas teriam o poder de prendê-lo a um lugar? Para muitos de nós, é bem provável que a resposta seja “sim”.
As coisas podem funcionar como âncoras. Elas nos fixam e nos impedem de explorar novos interesses e desenvolver talentos. Elas podem atrapalhar nossos relacionamentos, o sucesso profissional e o tempo com a família. Podem sugar nossa energia e nosso espírito de aventura. Você já evitou uma visita porque sua casa estava bagunçada demais? Já perdeu um jogo de futebol do seu filho porque estava fazendo hora extra a fim de pagar as prestações do cartão de crédito? Já deixou passar uma viagem para um lugar exótico porque não tinha ninguém para “cuidar da casa”?
Olhe para as coisas à sua volta no cômodo em que está agora. Imagine que cada um desses itens — cada objeto pessoal — está ligado a você por uma corda. Alguns estão presos a seus braços, outros à sua cintura e outros a suas pernas. (Se quiser ser mais dramático, visualize correntes no lugar de cordas.) Agora tente se levantar e dar uma volta com todas essas coisas se arrastando e ressoando atrás de você. Não é fácil, hein? Acho que você não vai conseguir chegar muito longe nem fazer muita coisa. Vai logo desistir, voltar a se sentar e se dar conta de que é preciso muito menos esforço para ficar onde está.
Da mesma forma, bagunça demais também pode pesar no humor. É como se todos os objetos tivessem seu próprio campo gravitacional e estivessem nos puxando constantemente para baixo e para trás. Podemos nos sentir literalmente pesados e letárgicos num cômodo abarrotado, cansados e preguiçosos demais para nos levantar e fazer alguma coisa. Compare isso com um ambiente limpo, iluminado e com poucos móveis — num espaço assim, nos sentimos leves e cheios de possibilidades. Sem o peso de todos os pertences, sentimo-nos com energia e prontos para tudo.
Com isso em mente, podemos nos sentir tentados a fingir uma arrumação rápida e criar a ilusão de um espaço organizado. É só dar uma passada na loja de departamento, comprar algumas caixas bonitas e criar um cômodo minimalista instantâneo. Infelizmente, o simples ato de enfiar tudo em gavetas, cestas e latas não resolve o problema: a máxima “o que os olhos não veem o coração não sente” não funciona aqui. Mesmo coisas escondidas (seja no armário do corredor, lá na despensa ou num depósito do outro lado da cidade) continuam pesando em nosso coração. Para nos libertarmos mentalmente, precisamos nos livrar de verdade das coisas.
Algo mais a se considerar: além de nos comprimir fisicamente e nos sufocar psicologicamente, as coisas também nos escravizam em termos financeiros, através das dívidas que adquirimos para pagar por elas. Quanto mais devemos, mais insones são as noites e mais limitadas as nossas oportunidades. Não é nada agradável levantar toda manhã e ir se arrastando para um trabalho de que não gostamos a fim de pagar por coisas que não temos, não usamos nem queremos mais. É possível pensar em muitas outras coisas que preferiríamos estar fazendo! Além disso, se esgotamos nosso salário (e mais um pouco) em bens de consumo, secamos os recursos para outras atividades mais gratificantes, como fazer aulas de artesanato ou investir num negócio novo.
Viajar é uma analogia perfeita da liberdade inerente a um estilo de vida minimalista. Pense em como seria chato carregar duas ou três malas pesadíssimas durante as férias. Faz séculos que você está ansioso para essa viagem e, quando desembarca do avião, mal pode esperar para explorar as paisagens. Não tão rápido — antes você precisa esperar (e esperar e esperar) que as malas apareçam na esteira de bagagem. Depois, precisa arrastá-las pelo aeroporto. É provável que você siga direto para o ponto de táxi, porque manobrá-las no metrô seria quase impossível. E nem pense em tentar pegar lugar no city tour que está começando — você tem de ir primeiro ao hotel e se livrar desse fardo gigantesco. Quando você finalmente chega lá, desmaia de cansaço.
O minimalismo, por outro lado, o deixa ágil. Imagine viajar apenas com uma mochila leve — a experiência é definitivamente revigorante. Você chega ao destino, desce do avião e passa pela maré de gente esperando pela bagagem. Depois entra no metrô, pega um ônibus ou anda em direção ao hotel. No caminho, experimenta todas as visões, sons e aromas de uma cidade estrangeira, com o tempo e a energia para saborear tudo. Você tem a liberdade e a flexibilidade de um pássaro para se movimentar por aí — pode levar a mochila a museus e a pontos turísticos e guardá-la num armário quando for preciso.
Diferente do primeiro cenário, você começa com tudo e passa a tarde vendo as paisagens em vez de arrastar suas coisas de um lado para o outro. Chega ao hotel energizado por sua experiência e pronto para outra.
Quando não estamos mais acorrentados às nossas coisas, podemos saborear a vida, nos relacionar com outras pessoas e ser participativos em nossa comunidade. Ficamos abertos a experiências e mais capazes de reconhecer e aproveitar as oportunidades. Quanto menos bagagem carregamos (tanto física como mentalmente), mais podemos viver!

Francine Jay, in Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida

07/01/2023

Menos coisas = menos estresse

Pense na energia que você gasta com a posse de um único bem: planejando a compra, lendo críticas sobre ele, procurando o melhor preço, ganhando (ou tomando emprestado) o dinheiro para comprá-lo, indo à loja para fazer a aquisição, transportando-o até sua casa, encontrando um lugar para colocá-lo, aprendendo a usá-lo, limpando-o (ou limpando em volta dele), fazendo a manutenção, comprando peças extras, pondo-o no seguro, protegendo-o, tentando não quebrá-lo, consertando-o quando ele quebra e, às vezes, pagando as prestações mesmo depois de ter se desfeito dele. Agora multiplique isso pela quantidade de objetos que há na sua casa. Puxa! É realmente exaustivo!
Proteger todas as suas posses pode ser um trabalho em tempo integral. Tanto é que indústrias inteiras surgiram para nos ajudar a manter as coisas em ordem. Empresas giram fortunas nos vendendo produtos de limpeza especializados para cada item — detergentes para roupas, lustradores para talheres, ceras para móveis, sprays de ar comprimido para aparelhos eletrônicos e amaciantes para couro. O ramo dos seguros prospera com a possibilidade de que nossos carros, joias ou obras de arte possam ser danificados ou furtados. Chaveiros, empresas de alarme e fábricas de cofres prometem proteger as coisas de roubo. Técnicos estão à disposição para consertá-las quando quebram e caminhões de mudança estão prontos para juntá-las e levar tudo para outro lugar.
Com o tempo, o dinheiro e a energia que elas demandam, temos a sensação de que nossas coisas nos possuem — e não o contrário.
Vamos olhar mais de perto para quanto do nosso estresse pode ser atribuído aos objetos. Em primeiro lugar, nos estressamos por não
ter coisas. Podemos ver algo na loja ou num anúncio e, de repente, imaginar como pudemos viver até agora sem aquilo. Nosso vizinho o tem, nossa irmã acabou de ganhá-lo de presente e nosso colega de trabalho o comprou na semana passada; ai, meu Deus, somos os únicos no mundo sem um? Começa a surgir um sentimento de privação…
Depois, nos estressamos com a aquisição da coisa. Infelizmente, não conhecemos ninguém que vá nos dar aquilo de graça, portanto teremos de comprá-la. Vamos de loja em loja (ou de site em site) para checar os preços e desejar que esteja em liquidação. Sabemos que não temos dinheiro para a compra naquele momento, mas queremos tê-la agora. Assim, juntamos o nosso parco dinheirinho, fazemos hora extra no trabalho ou passamos o cartão de crédito e torcemos para conseguir pagar as prestações depois.
Chega o glorioso dia em que finalmente compramos aquilo. Enfim ele é nosso! O sol brilha, os pássaros cantam e todo o estresse vai embora. É mesmo? Pense de novo. Agora que gastamos um bom dinheiro com a coisa, vamos ter de cuidar bem dela. Adquirimos não apenas um bem, mas também o peso de uma responsabilidade.
Precisamos tomar o cuidado de limpá-lo regularmente, já que o pó e a sujeira podem prejudicar seu funcionamento e diminuir sua vida útil. Precisamos mantê-lo longe do alcance das crianças e dos animais de estimação para que eles não o quebrem, destruam ou manchem. Parece loucura? Quantas vezes você já estacionou um carro novo no canto mais isolado de um estacionamento ou teve o dia arruinado ao descobrir um arranhão ou amassado novo? Como você se sentiu quando derramou molho de tomate em uma blusa cara de seda?
Nessa hora, quando algo dá errado — como sempre acontece —, nos estressamos por causa do conserto. Examinamos com cuidado o manual ou pesquisamos orientações na internet. Saímos para comprar as ferramentas ou as peças substitutas apropriadas para o conserto. Quando não conseguimos, levamos o objeto até a oficina. Ou adiamos porque não sabemos como (ou não queremos) lidar com aquilo. Ele fica esquecido no canto, em um armário ou na despensa, pesando em nossa consciência. Ou então nós nem o quebramos, só nos cansamos dele. Qualquer que seja o caso, sentimos culpa e ficamos nervosos depois de gastar tanto tempo e dinheiro. E então vemos outro anúncio e ficamos encantados por outra coisa completamente diferente, que é ainda mais interessante do que a última. Ah, não, lá vamos nós de novo…
Temos a impressão de que o dia nunca rende o suficiente — e talvez a culpa seja de nossas coisas. Quantas preciosas horas passamos usando lavadoras a seco, quantos sábados foram sacrificados para trocas de óleo e consertos de carro, quantos dias de folga foram desperdiçados consertando ou fazendo a manutenção de coisas (ou esperando a chegada do técnico)? Com que frequência nos angustiamos (ou damos bronca nos filhos) por causa de um vaso quebrado, um prato lascado ou manchas de lama no tapete da sala? Quanto tempo não gastamos comprando lavadoras, peças e acessórios para as coisas que já temos?
Pare um pouco e relembre os tempos felizes e despreocupados da faculdade. Não é mera coincidência que essa tenha sido a época em que tivemos a menor quantidade de coisas. A vida era muito mais simples: sem hipoteca, sem prestações do carro, sem seguro da lancha. Aprender, viver e se divertir era muito mais importante do que nossas posses. O mundo era pacífico e tudo era possível! Ora, é essa alegria que podemos recuperar como minimalistas. Precisamos apenas pôr nossas coisas no devido lugar para que elas não exijam uma parcela homérica de nossa atenção.
Isso não significa que precisamos alugar quitinetes ou mobiliar tudo com caixotes de feira e sofás de segunda mão. Em vez disso, por enquanto, vamos imaginar que temos metade da quantidade atual de coisas. Nossa, já seria um alívio enorme! São 50% a menos de trabalho e preocupação! Cinquenta por cento a menos de limpeza, manutenção e consertos! Cinquenta por cento a menos de dívidas no cartão de crédito! O que vamos fazer com todo esse tempo e dinheiro extras? Ah, você já teve uma ideia, não é? Estamos começando a enxergar a beleza de sermos minimalistas.

Francine Jay, in Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida

21/12/2022

Você não é aquilo que possui

Ao contrário do que os publicitários querem que você acredite, você não é aquilo que possui. Você é você, e as coisas são as coisas; nenhuma alquimia física ou matemática pode alterar esses limites, mesmo que um anúncio de página inteira na revista ou um comercial inteligente tente convencê-lo do contrário.
No entanto, às vezes caímos nas armadilhas da publicidade. Por isso, precisamos considerar mais uma subcategoria para os objetos que possuímos: “coisas de aspiração”. São coisas que compramos para impressionar os outros ou para agradar nosso “eu de mentirinha” — aquela pessoa, dez quilos mais magra que você, que viaja pelo mundo, vai a festas badaladas ou toca numa banda de rock, se é que você me entende.
Pode ser difícil admitir, mas muitas de nossas posses costumam ser adquiridas para projetar certa imagem. É o caso dos automóveis, por exemplo. É perfeitamente possível satisfazer a necessidade de transporte com um carro simples que nos leve do ponto A ao B. Por que pagaríamos o dobro (ou mesmo o triplo) do preço por um carro de “luxo”? Porque os fabricantes de carro pagam muito caro para que as empresas de publicidade nos convençam de que os carros são projeções de nós mesmos, de nossa personalidade e de nossa posição no mundo corporativo ou na hierarquia social.
E é óbvio que isso não para por aí. A compulsão para que nos identifiquemos com bens de consumo tem um impacto profundo em nossa vida — atinge desde a escolha da casa até as coisas que colocamos dentro dela. Muita gente concorda que uma casa pequena e simples satisfaz de sobra nossa necessidade de abrigo (ainda mais se comparada às moradias dos países em desenvolvimento). No entanto, o marketing do desejo afirma que “precisamos” de uma suíte enorme, um quarto para cada filho, um banheiro para cada um do casal e uma cozinha com utensílios de nível profissional; o contrário é sinal de que não “chegamos lá”. A metragem vira um símbolo de status, e, naturalmente, são necessários mais sofás, cadeiras, mesas, bibelôs e outras coisas para equipar uma casa maior.
As propagandas também nos estimulam para que nos definamos por meio de nossas roupas — e, de preferência, roupas de marca. O nome do estilista estampado na etiqueta não torna os tecidos mais quentes, as bolsas mais duráveis ou as vidas mais glamorosas. Além disso, tudo o que é tendência costuma sair de moda poucos minutos depois da compra — deixando o guarda-roupa abarrotado de peças datadas que torcemos para que um dia voltem à moda. Na verdade, a maioria das pessoas não precisa ter um guarda-roupa de celebridade, já que nossas roupas e acessórios nunca serão alvo de comentários ou de atenção generalizada. Mesmo assim, os publicitários tentam nos convencer de que vivemos sob os holofotes — e de que devemos, portanto, nos vestir de acordo.
Não é fácil ser minimalista num mundo de mídia de massa. Os profissionais de marketing vivem nos bombardeando com a mensagem de que o acúmulo material é a medida do sucesso. Eles exploram o fato de que é muito mais fácil comprar status do que atingir status. Quantas vezes você ouviu que “quanto mais, melhor” ou “a roupa faz o homem”? A publicidade quer que acreditemos que mais coisas significam mais felicidade, quando, na verdade, mais coisas significam mais dor de cabeça e dívidas. O comércio de todas essas coisas é certamente vantajoso para alguém… mas não para nós.
Verdade seja dita: os produtos nunca vão nos transformar em quem não somos. Maquiagens caras não nos tornam supermodelos, jardins sofisticados não nos transformam em ativistas ecológicos e câmeras de última geração não nos fazem ganhar prêmios em concursos de fotografia. Mesmo assim, nos sentimos compelidos a comprar e a acumular coisas que contêm promessas: de nos fazer mais felizes, bonitos, inteligentes, amados, organizados, capazes, melhores pais ou maridos.
Mas pense assim: se essas coisas ainda não cumpriram suas promessas, talvez seja hora de se livrar delas.
Da mesma forma, bens de consumo não substituem a experiência. Não precisamos de uma garagem cheia de equipamentos de camping, artigos esportivos ou brinquedos de piscina se o que de fato buscamos é passar férias agradáveis com a família. Renas infláveis e montanhas de presentes não tornam um Natal feliz; mas juntar nossos entes queridos, sim. Acumular pilhas de novelos de lã, livros de receita e material de artesanato não nos torna tricoteiras prendadas, chefs requintados ou gênios criativos. As atividades propriamente ditas — e não os seus materiais — são essenciais para nosso prazer e desenvolvimento pessoal.
Também somos compelidos a nos identificar com coisas que pertencem ao nosso passado, numa tentativa de provar quem fomos ou o que realizamos. Quantos de nós ainda guardam uniformes escolares, blusões de moletom, troféus de natação ou anotações da época da faculdade que jamais serão úteis de novo? Justificamos o ato de guardar essas coisas como evidência de nossas realizações (como se tivéssemos de vasculhar as antigas provas de cálculo para provar que passamos na disciplina). No entanto, esses objetos costumam estar enfiados em caixas em algum lugar, sem provar nada a ninguém. Se é esse o caso, pode ser a hora de se libertar dessas relíquias do seu antigo eu.
Ao examinarmos as coisas com um olhar crítico, pode ser surpreendente perceber quantas delas celebram nosso passado, representam nossas esperanças para o futuro ou pertencem a eus imaginários. Infelizmente, dedicar tanto espaço, tempo e energia a elas nos impede de viver no presente.
Às vezes temos receio de que nos livrar de determinados itens equivaleria a nos livrar de parte de nós mesmos. Não importa se raramente tocamos violino ou se aquele vestido de festa nunca tenha sido usado — no momento em que os abandonamos, perdemos a chance de nos tornar membros de uma orquestra ou socialites. E Deus nos livre de jogar fora o chapéu de formatura do ensino médio — será como se nunca tivéssemos conseguido o diploma.
Precisamos lembrar que nossas memórias, sonhos e ambições não estão guardados nos objetos, mas sim dentro de nós. Não somos aquilo que temos; somos o que fazemos, o que pensamos e as pessoas que amamos. Eliminando resquícios de passatempos que não nos deram prazer, de empreitadas incompletas e de fantasias não realizadas, abrimos espaço para novas (e reais) possibilidades. “Coisas de aspiração” são as bases de uma versão falsa de nossas vidas. Precisamos nos livrar do acúmulo para termos tempo, energia e espaço a fim de trazer nosso verdadeiro eu à tona e concretizar todo o nosso potencial.

Francine Jay, in Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida

03/05/2022

Veja suas coisas pelo que elas são

Olhe ao redor: são grandes as chances de que haja pelo menos vinte ou trinta objetos em seu campo de visão. Que coisas são essas? Como chegaram aí? Para que elas servem?
Está na hora de vermos nossas coisas pelo que elas são. Precisamos nomeá-las, defini-las e acabar com o mistério que as cerca. O que são exatamente esses objetos que gastamos tanto tempo e energia para adquirir, manter e armazenar? E como foi que se multiplicaram assim? (Será que se reproduziram enquanto a gente dormia?)
De modo geral, podemos dividir nossas coisas em três categorias: coisas úteis, coisas bonitas e coisas afetivas.
Vamos começar pela categoria mais fácil: as coisas úteis. Nada mais são do que os itens práticos e funcionais que nos auxiliam a realizar tarefas. Alguns são fundamentais para a sobrevivência; outros facilitam um pouco a vida. É tentador pensar que todas as nossas coisas são úteis — mas você já leu um livro sobre técnicas de sobrevivência? Seria um exercício e tanto para esclarecer quão pouco realmente precisamos para seguir vivendo: um abrigo simples, roupas para regular a temperatura corporal, água, comida, alguns recipientes e utensílios para cozinhar. (Se isso é tudo que você possui, pode parar de ler agora; se não, venha com a gente e segure-se!)
Além do imprescindível, existem objetos que, embora não sejam necessários à sobrevivência, ainda assim são muito úteis: camas, lençóis, computadores, chaleiras, pentes, canetas, grampeadores, luminárias, livros, pratos, garfos, sofás, extensões de fio, martelos, chaves de fenda, espanadores — acho que deu para entender. Tudo o que você usa com frequência e que realmente agrega valor à sua vida é bem-vindo em um lar minimalista.
Ah, mas lembre-se: para ser útil, um objeto precisa ser utilizado. Essa é a pegadinha: a maioria das pessoas tem muitas coisas potencialmente úteis que simplesmente ficam sem uso. Coisas repetidas são um ótimo exemplo: quantos potes de plástico que você tem na despensa são de fato utilizados? Você realmente precisa de uma furadeira reserva? Outras coisas definham porque são muito complicadas ou difíceis de limpar: é o caso dos processadores de alimento, dos aparelhos de fondue e dos umidificadores. Existem também os itens das categorias “por via das dúvidas” e “posso precisar disso mais tarde”, que ficam esquecidos no fundo das gavetas, à espera da estreia. Esses são os objetos com os dias contados.
Misturadas às coisas úteis estão aquelas que não têm função prática, mas que satisfazem um tipo diferente de necessidade: nós gostamos de olhar para elas. Simples assim. Ao longo da história, os seres humanos se sentiram compelidos a embelezar seus ambientes — como evidenciam as pinturas rupestres paleolíticas e os quadros pendurados acima do sofá.
A apreciação estética é parte importante da nossa identidade e não deve ser ignorada. O brilho de um vaso bonito ou as linhas elegantes de uma cadeira moderna podem trazer satisfação profunda a nossas almas; esses objetos, portanto, têm todo o direito de fazer parte da nossa vida. A advertência: eles devem ser respeitados e honrados com um lugar de destaque em nossas casas. Se a sua coleção de cristal de Murano está juntando pó numa prateleira — ou, pior, guardada na despensa —, ela não é nada além de uma bagunça colorida.
Quando estiver fazendo o inventário das suas posses, não dê passe livre a tudo o que for artístico. Só porque alguma coisa chamou sua atenção numa feira de arte, isso não significa que ela merece morar para sempre na estante da sua sala de estar. Por outro lado, se aquilo sempre coloca um sorriso no seu rosto — ou se a harmonia visual da peça traz à sua alma uma compreensão mais profunda da beleza da vida —, o lugar desse objeto na sua casa é merecido.
Ora, se todas as coisas em nossas casas fossem divididas em bonitas ou úteis seria fácil. Mas, sem sombra de dúvida, você irá encontrar muitos objetos que não são nem um nem outro. Então, de onde eles vieram e por que estão aí? Noventa por cento das vezes, eles representam alguma memória ou ligação afetiva: a antiga porcelana da sua avó, a coleção de cachimbos do seu pai, o sarongue que você comprou na lua de mel. Eles nos recordam pessoas, lugares e acontecimentos que têm certa importância para nós. Muitas vezes, entram em nossa casa na forma de presentes, heranças ou lembrancinhas.
De novo: se o objeto em questão enche seu peito de alegria, exiba-o com orgulho e desfrute da presença dele. Se, por outro lado, você o guarda por um senso de obrigação (como se a sua tia Edna fosse se revirar no túmulo caso você passasse as xícaras de porcelana dela para a frente) ou para comprovar uma experiência (como se ninguém fosse acreditar que você visitou o Grand Canyon caso jogasse fora aquele globo de neve cafona), você precisa de um exame de consciência.
Ao andar pela casa, converse com suas coisas. Pergunte a cada objeto: “O que você é e para que serve?”, “Como você entrou na minha vida?”, “Eu te comprei ou te ganhei de presente?”, “Com que frequência você é usado?”, “Eu te substituiria se te perdesse ou você quebrasse, ou ficaria aliviado por te jogar fora?”, “Eu te queria antes de te possuir?”. Seja sincero nas respostas: você não vai magoar os sentimentos das suas coisas.
Ao longo das perguntas, é provável que você se depare com duas subcategorias de itens, uma das quais é “coisas de outras coisas”. Você entende o que quero dizer — algumas coisas simplesmente acumulam outras pela própria natureza: acessórios, manuais, limpadores, coisas que fazem parte de outras coisas, que servem para ligar coisas, guardar coisas ou consertar coisas. Existe um grande potencial de organização aqui: livrar-se de uma coisa pode gerar uma série de descartes!
A segunda subcategoria é a de “coisas de outras pessoas”. Essa é complicada. Talvez com exceção de seus filhos (pequenos), sua autoridade sobre as coisas dos outros é bem limitada. Se estivermos falando daquele caiaque que seu irmão pediu para você guardar no porão — e que não veio buscar há quinze anos —, você tem todo o direito de cuidar do assunto por conta própria (depois, claro, de dar um telefonema solicitando a retirada imediata). No entanto, a pilha de utensílios ligados ao hobby do seu parceiro ou os video games antigos do seu filho adolescente requerem uma atitude mais diplomática. Com sorte, sua arrumação se tornará contagiosa e, como consequência, as outras pessoas cuidarão de suas próprias coisas.
Por enquanto, ande pela casa e examine suas coisas: esse objeto é útil, aquele outro é bonito, aquele lá é de outra pessoa (moleza!). Não se preocupe em arrumar nada ainda; logo iremos para essa parte. Claro, se por acaso você se deparar com algo inútil, feio ou inidentificável — vá em frente, adiante-se e desapegue!

Francine Jay, in Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida