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29/03/2022

A teoria do nabo

Eu não tinha nenhuma vontade de contar minha história amaldiçoada a ninguém. Se tivesse feito isso, um dono de circo logo estaria atrás de mim, tentando me transformar em uma atração — “Rápido, aproximem-se e deem uma olhada! Pague apenas se gostar do que ver!”
Ou não ver… Eu só queria ser normal.
Dito isso, eu não poderia apenas sentar e não fazer nada para resolver esse mistério, então perturbei o dr. Fujita para ler a minha sorte. Pensei que talvez ele pudesse descobrir algo incomum na minha estrutura facial.
Usando uma lupa que mostrava minhas rugas tão enormes quanto o rio Sumida, o dr. Fujita olhou para o meu rosto por tempo suficiente para cavar um buraco através dele. De repente, um olhar de surpresa apareceu em seu rosto e ele se inclinou para trás, como se estivesse amedrontado. Quando ele começou a falar, havia uma certa formalidade em sua voz:
Hum, esta é a primeira vez que vi seu rosto de tão perto, mas, devo dizer, você tem características extremamente únicas. Fiquei bem surpreso.
O que você quer dizer com características únicas? — eu perguntei, começando a sentir-me desconfortável.
Abandonando a sua habitual preguiça, dr. Fujita colocou as mãos de modo firme em seus joelhos.
Dizem que, uma vez, muito tempo atrás, um dos meus colegas sêniores lera o rosto do criado Tokichiro Kinoshita e previu que ele seria um senhor feudal. O meu colega ficara tão perplexo por sua própria previsão e desacreditado em presciência, que ele quebrou seus palitos de previsão2 ali mesmo, jogou-os no rio e declarou que havia desistido da profissão. No fim, aquele Tokichiro Kinoshita acabou se tornando Toyotomi Hideyoshi, um grande senhor feudal, político e samurai. De qualquer modo, neste mesmo instante estou considerando vender minha lupa e meu livro místico de previsão de futuro para uma loja de penhores.
Ei, não tente me assustar. De que diabos você está falando?
Seu rosto. Ele possui uma combinação rara de características, encontrada apenas uma vez em um quatrilhão de anos ou até mais. Se minha leitura estiver correta, você não é um habitante desta realidade que estamos experenciando.
Espere, o que você disse? Não estou entendendo nada.
Nada está além da sua compreensão. Você, meu amigo, é um ultraterrestre.
Ultraterrestre? Agora fiquei ainda mais confuso. Eu posso ser um ultraterrestre, mas estou diante de você, neste momento, no corpo de um respeitável japonês.
Após minha declaração arrogante, uma revelação perturbadora, causada pela lembrança daqueles eventos atemorizantes, surgiu em minha mente. Estremeci quando a memória daquela noite nos campos de Toyama — em que meu corpo aparentemente se tornou invisível — voltou a mim.
Dr. Fujita me ignorou e prosseguiu:
Para ser direto, o que vejo de você agora não é nada além de uma fatia da sua verdadeira forma, vista de um certo ângulo. Digamos que eu tenha um nabo. Se eu fosse cortá-lo em alguma parte do meio, você veria apenas a forma de elipse da superfície cortada. E pensaria: “Oh, essa é uma suculenta e alva superfície em forma de elipse.” Mas aquela superfície branca não é nada além de uma pequena fatia do nabo. Similar ao que vejo de você agora, à minha frente, não é nada além de uma fatia da sua forma verdadeira. Sua verdadeira forma, como um nabo cuja única fatia branca está visível, é algo que transcende a imaginação.
Eu não estou te entendendo.
Pelo menos em teoria você me entende, não é? Agora considere isto. Em nosso mundo, tudo tem altura, largura e profundidade. Ou seja, três dimensões.
Certo, nosso mundo é tridimensional.
Agora, imagine que nosso mundo tenha apenas duas dimensões. Tem altura e largura, mas não tem profundidade. Um mundo como a superfície de uma água calma, um mundo geometricamente plano.
Ok, um mundo bidimensional.
Agora, digamos que nós mergulhemos com calma aquele nabo na água. A princípio, apenas a ponta quebraria a superfície do líquido. Nesse ponto de vista, no mundo bidimensional o nabo é apenas visível como um minúsculo ponto.
Claro.
Entretanto, conforme eu mergulho o nabo mais profundamente na água, a porção cruzando a superfície dela aos poucos se expande para um círculo branco. No mundo bidimensional, o ponto parece crescer aos poucos para se tornar um círculo branco. Mas, assim que a parte das folhas atinge a água, o que até agora se parecia com um círculo branco de repente se transforma em uma dispersão de várias faixas verdes. Essas faixas estão se movendo continuamente, mudando de forma. Por fim, o ponto mais alto das folhas submerge na água, no mundo bidimensional não há nada mais para ser visto.
Entendi. Que estranho.
O que começou como um ponto branco logo se transformou em um largo disco branco, e então em uma dispersão de faixas verdes, até por fim desaparecer por completo. É como se fosse um fantasma para aquelas formas de vida do mundo bidimensional, mas para nós, no mundo tridimensional, é em sua essência nada além de um nabo penetrando a superfície calma da água, enquanto submerge aos poucos. No entanto, formas de vida bidimensionais não podem nem imaginar a forma do nabo que podemos ver. Aqueles no mundo bidimensional não têm a capacidade de perceber objetos tridimensionais.
Uau, você é um cientista incrível.
Isso mesmo. Fisiognomia é ciência. Mas voltando ao que eu estava dizendo. De acordo com a minha leitura, você não é um ser tridimensional, e sim quadrimensional. Você pode crer que algo tão absurdo nunca poderia acontecer, no entanto, é o que eu descobri por meio da leitura, então não sei mais o que lhe dizer. Na verdade, acho que vou desistir de fisiognomia. É uma farsa completa.
Minha única resposta a isso foi suspirar várias vezes. Eu estava atordoado pelas palavras do dr. Fujita. Porém me faltava energia para declarar dramaticamente que eu, assim como Tokichiro Kinoshita, seria muito bem-sucedido na vida, e que a leitura dele havia sido correta. Só pude lamentar, porque eu, dentre todas as pessoas, nasci como um ser humano amaldiçoado — ou devo dizer, forma de vida amaldiçoada. Ao mesmo tempo, veio-me a curiosidade de saber como seria minha forma verdadeira se eu fosse, de fato, um ser quadrimensional.
Desde então, vivo como um recluso. Parece que ainda há momentos em que meu corpo se torna invisível aos outros. Às vezes, alguém se choca contra mim, e, cada vez que isso acontece, digo a mim mesmo: “Lá vamos nós novamente.”
Eu fiz algumas pesquisas outro dia, mas não encontrei nenhuma informação sobre quem eram meus pais. Então eu sei que devo ter sido adotado. É por isso que não tenho como saber se nasci mesmo de um útero humano. De qualquer modo, não existe ninguém que tenha uma memória clara do seu nascimento. A certeza de que alguém veio do útero da mãe é uma concepção equivocada. Por consequência, suspeito da existência de um grande número de pessoas que também são quadrimensionais, assim como eu, vivendo despreocupados, ignorantes quanto às suas condições.
Essas pessoas devem ser extremamente cuidadosas. Sempre que alguém se chocar com você na rua ou em qualquer outro lugar, reflita sobre isso, mantenha em mente que você pode ser invisível para a outra pessoa — ou, talvez, até um corte transversal de um ser quadrimensional.

Juza Unno, in A última transmissão

21/03/2022

Colisão


Eu segui pela calçada vazia. Meu apartamento ficava no terceiro distrito de Totsuka, então, vindo de Shinjuku, o atalho mais curto me levou através da parte solitária dos campos de Toyama. Naquele dia, eu segui minha rotina usual e a mesma rota, mas isso me colocou em uma colisão direta com uma descoberta terrível.
Enquanto eu metodicamente apagava cada uma das luzes das ruas pelas quais eu caminhava¹, passei pela fachada de um estabelecimento comercial, com uma parede malfeita e desnivelada como uma gigante caixa de papelão jogada na rua, que fora misturada com o distrito varejista que dormia, quando eu me aproximei da entrada dos campos de Toyama.
Oh, campos de Toyama à noite! Era um lugar incrivelmente pacífico, conhecido por poucos. Carvalhos cobriam toda a região, serena como uma floresta intocada, e não havia pilhas de lixo, tratamento de esgoto, ou carrinhos de mão abandonado, para não mencionar tendas ou letreiros de neon. O que havia ali era, em sua maioria, barro junto aos carvalhos, pequenas ervas daninhas, caixas vazias de doce de caramelo e papéis farfalhando no solo. Era um lugar desolado; se isso fosse uma ópera, eu entraria com a música dramática, derrubaria uma cortina azul clara ao som de um violino e entoaria uma canção, mas infelizmente eu não tinha nenhuma dessas coisas preparadas — deixando apenas o som dos insetos zumbindo na grama, enquanto a lua surgia entre as nuvens, a luz sedosa fluía como água, e os carvalhos realçavam uma imagem fraca dos seus troncos aos meus olhos. A lua surgiu, e a floresta se tornou mais brilhante.
Naquele momento, fiquei surpreso ao ver alguém aqui nos campos Toyama, estava certo de que era um lugar inabitado. De repente, pessoas surgiram das árvores. Havia dois: um jovem rapaz e uma moça.
Eles papeavam, animados, conforme se aproximavam de mim. Vê-los me irritou por algum motivo, estou certo de que vocês entendem como me senti. Para provocá-los, eu andei de propósito para uma direção em que ficaria no caminho deles. Esperei o jovem casal detectar a minha má intenção e ir embora. No entanto, não importava o quão próximo eu ficava, eles não faziam qualquer tentativa de ir embora. Isso só aumentou minha irritação.
Se eu continuasse a andar para frente dessa maneira, eu não teria outra escolha a não ser trombar com eles. O casal seguiu direto na minha direção, sem mudar o curso. Considerei desviar para evitá-los. Mas então me ocorreu: não havia nenhum motivo para eu evitá-los. Aqueles dois estavam realmente se divertindo; eu estava sozinho e não me divertia nem um pouco. Dado isso, era tão irrazoável para um casal sortudo ceder a mim, um cara azarado?
Semicerrei os olhos e investi impetuosamente contra eles.
Cuidado!”
Meu corpo atingiu o jovem rapaz com um baque.
Ai! — ele gemeu e cambaleou para trás. “Ele vai cair, coitado”, pensei, mas estava enganado; o jovem plantou firmemente o pé no chão e recuperou o equilíbrio.
Nossa, que estranho — murmurou o jovem. — Mas, como estava dizendo, eu disse ao meu tio: “Se isso não der certo…”
Ei, o que aconteceu? Você quase caiu para trás — disse a moça.
Sim, não sei por que, acho que perdi o equilíbrio. Mas não doeu nem nada… Então eu disse ao meu tio…
Espere aí, isso foi muito estranho. Pareceu que você ficou tonto de repente.
Calma, não é nada demais. Você sabe que eu tenho estado um pouco estressado…
O jovem casal conversava enquanto ia embora, e por um tempo eu fiquei sentado na grama, sem palavras, assistindo sua partida.
Aqueles dois simplesmente não se importam… ou são insensíveis. São bem esquisitos! Estavam tão absortos na própria conversa que nem notaram quando trombei com eles. Mas espere um minuto. Tem algo de errado. É estranho que não me perceberam parado bem em frente a eles. Muito estranho.”
Continuei meu caminho através da floresta de carvalho, e o sentimento incômodo não me abandonou. A grama sob meus pés cintilavam à luz da lua, que descia através do topo das árvores.
Naquele momento, avistei outro casal na floresta.
De fato, esta é uma noite de muitos casais!”
A depressão que tomou conta de mim logo se transformou em ressentimento.
Já que estou aqui, posso também trombar com esses dois!”
Minha ânsia impura se tornou cada vez mais forte e difícil de ser suprimida, até que, por fim, corri na direção em que se encontravam, juntos, e colidi com eles. E o que vocês acham que aconteceu?
Eu fiquei mais surpreso do que o casal, como vocês podem imaginar após a experiência anterior.
Ei, pare com isso, Matsushima!
Quê? O que há de errado com você? Foi você que trombou comig...
Cada um acreditava que o outro havia feito algo. Não havia nenhum indicativo de que tinham consciência da minha presença, que agora estava atrás deles depois de ter escorregado por entre seus corpos.
Vendo isso, eu também não pude deixar de murmurar:
Isso é estranho!
Ei… tem mais alguém aqui.
Não, não tem ninguém.
Hum, você deve estar certo. Mas juro que ouvi alguém dizer “isso é estranho”, ou algo do tipo…
Eles me encaravam durante essa conversa; não preciso mencionar que não pareciam me notar.
Naquele instante, senti um calafrio percorrer a minha nuca — uma sensação terrível da qual ainda me lembro até hoje.
Estranho… foi como se ninguém me notasse — nem esse casal, e nem aquele de antes. Como isso é possível?”
Um sentimento esquisito aos poucos tomou conta de mim. Meu coração dançava em meu peito. Acho que eu estava prestes a perder a cabeça.
Senti-me culpado — e ao mesmo tempo aterrorizado —, ainda tentei a mesma coisa com um terceiro casal. E, mais uma vez, o resultado foi lamentável. Ninguém parecia notar minha existência; meu corpo era invisível para eles. Como pode algo tão lastimável e aterrorizante como isso continuar acontecendo?
Passei uma hora deitado na grama do campo de Toyama, sozinho e angustiado. Enquanto isso, as nuvens cobriram a lua, escurecendo tudo nas proximidades, então me levantei e retornei ao meu apartamento. Eu destranquei a porta, entrei no meu quarto e subi na minha cama. Dormi até amanhecer.
Como uma pessoa, por natureza, despreocupada, logo esqueci dos eventos aterrorizantes da noite anterior e, quando acordei, fui direto ao banheiro, com a escova de dentes e a toalha em mãos.
Ei, você se levantou agora? Dormiu bem tarde, hein — uma voz disse para mim.
Tomei um susto e não respondi. Essa voz pertencia ao dr. Fujita, um fisiognomista. Havia rumores de que ele era residente deste prédio desde que foi construído.
Que cara é essa? Você está parecendo um rato aflito com o rabo preso em uma ratoeira.
Dr. Fujita, como sempre, atingiu-me com suas ríspidas observações. Resisti bravamente para não perguntar: “Dr. Fujita, você consegue me ver?” Virei-me para olhar para trás. Queria checar se a observação do dr. Fujita era direcionada a outra pessoa, que poderia estar atrás de mim.
Após o ocorrido, fiquei muito aliviado com o que vi: não havia ninguém atrás de mim. Eu podia ver claramente até o fim do corredor. Não havia ninguém lá, nem mesmo um gato.
Ei, dr. Fujita. Parece que você está de bom humor, aposto que ganhou algum dinheiro ontem à noite — eu disse, rindo pela primeira vez em um longo tempo.
Não apenas na noite passada! — Fujita disse e riu. — Parece que meus clientes gananciosos estão passando bem esses dias, dando gorjeta além do que cobro normalmente. Tempos extraordinários! — Ele gargalhou alto.
A risada de Fujita era impagável, pois dizia que meu corpo era inegavelmente visível. Graças ao dr. Fujita, isso foi provado sem sombra de dúvidas. Eu estava tão feliz que poderia morrer e ir para o céu.
A alegria! O alívio!
Entretanto, eu ainda não tinha explicação para aquela estranha ocorrência noturna nos campos de Toyama. Por que fiquei invisível para eles naquela noite em particular?
Eu discuti isso com meu bom amigo Shiraishi. Mas não contei como minha própria experiência, e sim como a de uma terceira pessoa, sobre a qual Shiraishi zombou e disse:
Bem, isso é óbvio. Está errada a presunção de que o corpo dele (na verdade, o meu corpo) não estava visível.
Por que você diz isso?
Bem, da perspectiva de jovens casais se encontrando secretamente em um lugar como aquele, um homem desconhecido de repente trombar com eles é estranho, uma figura amedrontadora, então, seguindo a expressão “não bata palmas para maluco dançar”, eles simplesmente fingiram não o ver. Esses casais sabiam que irritá-lo só iria piorar as coisas e causar um grande problema para eles.
Hum, entendo. É simples assim — eu ri.
O que há de tão engraçado? Você é um cara estranho.
Shiraishi me encarou com suspeita, mas eu não podia estar mais feliz.
Minha felicidade, infelizmente, não durou nem cinco dias. Em uma noite, no trajeto de Shinjuku para minha residência, enquanto entrava nos campos de Toyama, a mesma coisa aconteceu. Mais uma vez, minha existência fora ignorada.
O meu estado podia ser comparado à recorrência de uma doença terrível. As palavras de Shiraishi me mantiveram feliz durante pouco menos de três dias. Novamente, eu me encontrava envolto até a cabeça em uma infinita escuridão infernal. “O que está acontecendo comigo?” E pensar que o corpo de uma pessoa pode se tornar invisível por inteiro…
Não parecia haver nenhuma dissimulação da parte deles. Quando alguém não podia me ver, realmente não podia me ver. Isso me aterrorizava e, ao mesmo tempo, estimulava uma curiosidade secreta sobre o porquê de isso acontecer. Contudo a resposta não aparecia.
¹ No Japão, na época em que este conto foi escrito, havia cidades em que, após certo horário, os cidadãos eram obrigados a apagar as luzes das ruas conforme passavam por elas.

Juza Unno, in A última transmissão

15/01/2022

O banho de música das 18 horas | Capítulo 11

Um anúncio declarou o término do banho de música, e a secretária logo convocou os líderes dos esquadrões de reconhecimento e de bombardeio para o tevê-fone. Seus rostos apareceram na tela, e eles estavam praticamente idênticos: grandes olhos esbugalhados e bochechas magras, arfando como se tivessem asma. A secretária ficou estarrecida — ela nunca os vira tão abatidos.
Os líderes dos esquadrões receberam ordens para começar a mobilização e preparar-se para o combate. Eles respeitosamente aceitaram as ordens, com seus rostos magros brilhando de lealdade. A secretária estava extremamente satisfeita, seu desânimo e raiva foram esquecidos em um instante.
O que você acha, Vossa Excelência? Eu nunca os vi tocados por uma emoção tão profunda.
Não estou muito confiante… Particularmente, eu não consigo mais olhar para as faces do meu povo.
Vossa Excelência, você é sensível demais. Não se preocupe, apenas deixe nas mãos daqueles líderes leais, e tudo ficará bem.
Após quatro ou cinco minutos, o sinal do tevê-fone tocou e os rostos dos líderes de esquadrão apareceram mais uma vez na tela. A exaustão em seus rostos era óbvia; como se eles tivessem envelhecido cinco ou seis anos durante o curto tempo decorrido.
Os líderes contaram que eles emitiram uma convocação de emergência para os soldados. Então revelaram um fato chocante do que aconteceu a seguir. —… Apesar dos espíritos inflamados dos soldados, eles estavam todos com a saúde prejudicada, não havia um único indivíduo apto ao combate.
A princípio, a secretária não conseguiu acreditar. Mas após uma série de questionamentos, ela não teve escolha a não ser aceitar a realidade de má vontade — todos os soldados foram muito afetados pelo banho de música: alguns enlouqueceram, ou quase; outros perderam um quinto do seu peso corporal em apenas um dia ou então seus órgãos vitais ficaram gravemente enfermos. O resultado foi um estado de aniquilação completa do esquadrão de reconhecimento e o de bombardeio (cujo dever era expulsar o inimigo e proteger a nação), mesmo ainda não tendo entrado em combate. A Nação Miruki cometeu suicídio. Em apenas três horas, o banho de música de 24 horas regulamentado pela secretária causara uma devastação terrível à nação. As únicas duas pessoas que ainda estavam confortavelmente acomodados eram a madame Asari e o presidente Miruki, não obrigados à exposição ao banho de música.
Durante esse período, anúncios continuavam a surgir da Divisão de Astronomia. Uma voz fraca informava sobre a aproximação do foguete marciano.
O que aconteceu com essa nação?… — questionou o presidente Miruki, que já não fazia mais nenhum esforço para esconder seu desespero. Na tela, o líder de esquadrão respondeu.
Se as coisas continuarem como estão, o foguete marciano se infiltrará sem dificuldades na Nação Miruki. Se nós tivéssemos pelo menos cem soldados, nós poderíamos proteger a capital, pelo menos por um tempo. Mesmo cinquenta soldados poderiam fazer uma diferença, mas meu esquadrão atualmente está… Argghhh!
A secretária, ao ouvir isso, sentiu sua sobrancelha tremer assim que se lembrou de algo importante.
A-há, ainda temos o último recurso! — ela gritou.
Último recurso?
Sim, último recurso. Derrubar a porta do setor Alishia e assumir o controle dos androides escondidos lá pelo professor Kohak. Em seguida, dispô-los em combate.
É claro, os androides! — o presidente Miruki disse e bateu palmas. Entretanto, o olhar de preocupação logo retornou ao seu rosto. — Mas será que existe mesmo uma coleção deles, fortes, como os que precisamos no setor Alishia? Além disso, aquela porta não abre de jeito nenhum. Os boatos são de que explodirá se forçarmos a entrada.
Bem, isso ainda não foi confirmado, mas também temo a possibilidade de explodir. No entanto, irei abri-la, independentemente do que possa acontecer.
Independentemente do que possa acontecer? — perguntou o líder de esquadrão, com as sobrancelhas franzidas.
Naquele momento, a secretária, tremendo de antecipação no meio do cômodo, de súbito deu uma ordem resoluta.
Eu ordeno que o esquadrão de bombas vá para o setor Alishia e destrua a porta de uma vez por todas. O esquadrão de reconhecimento deve aguardar na reserva até segunda ordem.
Na tela, as expressões dos dois líderes de esquadrão enrijeceram, como se fossem peixes fora d’água. O presidente Miruki lamuriou e se jogou no sofá de modo dramático.
De volta ao Setor Alishia, Penn e Bara pareciam duas pessoas muito diferentes, suas peles e ossos estavam semelhantes aos de múmias.
Penn estava desenhando um diagrama de um aparelho incompreensível no seu quadro de rabiscos, encharcado por uma baba constante que escorria dos seus lábios. Bara — agora um homem — trabalhava ruidosamente com a calculadora; empenhado em uma tarefa impensada de dividir um número indivisível até vários bilhões de casas decimais; às vezes, ele de repente chamava pelo nome da sua amada Annette, como se estivesse delirando de febre.
O esquadrão de bombas, de súbito, invadiu o setor Alishia (agora parecendo com uma instituição de deficientes mentais), e o grande grupo de soldados enfraquecidos e exaustos entrou. Assustados, Penn e Bara se espremeram contra a parede, assim como morcegos.
A partir do sinal do líder, eles começaram a atacar a décima porta. Um trabalho que requeria uma única pessoa para realizá-lo, agora exigia vinte pessoas. Eles morriam um após o outro, lamentavelmente agarrados ao maçarico. Até o menor esforço colocava um fim nos seus corações cansados.
No cômodo, o humor da secretária se deteriorava conforme ela recebia os relatos que chegavam a todo momento. Corpos continuavam a se empilhar do lado de fora da décima sala, e após ouvir que a porta não podia ser aberta e os cadáveres não podiam mais ser movidos de lugar, ela deu a ordem para o esquadrão de reconhecimento avançar.
Mas o que se podia esperar de soldados que se encontravam muito enfermos?
Mesmo assim, finalmente conseguiram destruir a porta. Entretanto, uma vez que os heróis do esquadrão de reconhecimento descobriram uma porta reforçada atrás dela, eles caíram no chão como sacos de batata.
A secretária organizou o exército nacional e o ordenou que fosse até a décima porta. Em seguida, o esquadrão nacional secundário e o terciário foram enviados para ajudar. Ainda assim, a entrada da décima sala não se moveu.
O hino nacional era tocado continuamente com o objetivo de estimular as tropas, mas, ao exceder a dosagem ao máximo, só estimulou perdas de consciência improdutivas. No final, os únicos membros da Nação Miruki com qualquer força restante eram o presidente e a madame Asari.
Ainda assim, ela não deu qualquer sinal de enviar uma ordem cessando o ataque.
Era como se estivesse possuída.
Por fim, os dois deixaram a sala e seguiram pelo corredor, em direção ao setor Alishia. Pela primeira vez, foram batizados pelo banho de música — uma sensação muito agradável. Mas, conforme o tempo progredia, seus cérebros eram cozidos passo a passo pela música acelerada; náusea, e outro sentimento desagradável, aos poucos se infiltrou em ambos. Eles praticamente tropeçaram ao longo da entrada do setor.
Ecoando no local, podiam ser ouvidos gritos de gelar o sangue. Eles olharam em volta, horrorizados, e encontraram pilhas e mais pilhas de corpos. Mais ao fundo, a porta fechada parecia provocá-los.
Vamos? — perguntou o presidente Miruki.
Certo, aqui vamos nós — madame Asari respondeu.
Vamos derrubar essa porta.
Até mesmo eles pareciam não entender o objetivo de abrir a porta. Queimando com a paixão dos mártires, os últimos sobreviventes da Nação Miruki correram impetuosamente em direção à porta de aço, seguindo as ordens que deram a si mesmos.
Naquele momento, havia uma sensação de que seus corpos estavam envoltos em faíscas amarelas. Isso foi o fim. Eles perderam a consciência — e em um piscar de olhos o lugar caiu em um silêncio sepulcral.
Mas se alguém escutasse atentamente, poderia ouvir um som estranho, como se algo estivesse se arrastando das profundezas da terra. Transmitido através de paredes grossas, o som se intensificou devagar, como se algo se erguesse do solo. Momentos depois, surgiu um som metálico, e a porta de ferro do décimo andar — muito semelhante a uma pedra inamovível — aos poucos começou a abrir, sem fazer barulho.
A figura que calmamente apareceu do outro lado da porta aberta da décima sala não era ninguém além do professor Kohak, um homem dado como morto. Uma estranha armadura, similar a um besouro, cobria seu corpo. Atrás dele, quinhentos androides, semelhantes à Annette, acompanhavam-no em silêncio.
O professor girou o primeiro marcador preso ao peito da sua armadura. Uma fraca chama vermelha se arqueou entre seus ombros quando a eletricidade foi descarregada; a distante melodia do banho de música da nação, de repente, foi interrompida em um piscar de olhos.
Em seguida, o professor ajustou o segundo marcador. O exército de androides parados atrás dele começou a andar, passando por ele, em uma linha bem formada em frente à sala. Dois deles ficaram para trás, assumindo a posição de Penn e Bara. Cada androide tomou um posto importante para substituir cada cidadão perdido da Nação Miruki.
O professor Kohak, então, ligou o terceiro marcador. Em resposta, uma leve melodia começou a soar.
Um pouco depois, o rosto de um androide apareceu no tevê-fone da sala. Ele virou-se para o professor e começou a falar:
A música decretada por lei foi completamente destruída. Em seu lugar, um banho de música para a humanidade começou.
O professor assentiu em silêncio. O banho de música exaltava uma nova humanidade! Seria possível que essas enormes pilhas de corpos pudessem renascer em uma nova humanidade através do banho de música?
No entanto, os cadáveres, agora frios como lápides, permaneceram imóveis.
O professor entrou na sala de comando e, usando o gigante painel de controle dentro da sala, habilmente controlou os quinhentos androides sem alma.
Um barulho alto, esganiçado, soou quando um canhão elétrico, nas mãos de um androide, disparou bombas em sucessão direcionadas ao foguete marciano.
Centenas de aeronaves de guerra subiram a superfície, em direção ao céu. No subterrâneo, montanhas de bombas de artilharia, bombas de gás venenoso e bombas desmagnetizantes foram fabricadas — tudo pelas mãos dos androides.
O professor ouvia tranquilamente, extasiado pela melodia desse novo banho de música, o hino que exaltava a humanidade.
Uma música para a humanidade, executada para os cidadãos da Nação Miruki. Os cadáveres gelados? Ou estava sendo tocada para transplantar almas humanas para os lindos androides do professor? Não, era um canto fúnebre, tocada para o único humano sobrevivente, o professor Kohak, que agora governava absoluto. Para ele, um homem muito inteligente, reviver as pilhas de corpos da Nação Miruki não era uma tarefa considerada difícil. Mas ele não tinha a menor intenção de fazer isso. Cientistas são — no fim — pessoas sem coração.
No fundo, o professor Kohak fez tudo isso para construir sua tão sonhada utopia, com ardor e convicção. Após se tornar o foco do ardil da secretária, ele moldou um androide com sua aparência e ordenou sua autodestruição na sala do presidente Miruki. Ele fez isso por dois motivos: para dar início aos seus planos e para acobertar a existência do androide que criara.
Imerso no novo banho de música, um hino para a nova humanidade, a emergente nação androide de Kohak deu o primeiro passo para começar um novo mundo.

Juza Unno, in A última transmissão

08/01/2022

O banho de música das 18 horas | Capítulo 10


A passos pesados, o presidente Miruki andava em sua sala; sua mudança de humor desde o dia anterior era drástica, agora ele sustentava um profundo semblante sombrio.
Sentada em frente à mesa de maquiagem elétrica, a secretária massageava suas glândulas secretoras repetidamente com as ondas de rádio, ao mesmo tempo em que insistia em conversar com o presidente.
Vossa Excelência ainda irá me agradecer por isso. Você pode não estar ciente disso, mas tem havido um aumento de atos indizíveis e vis assim que o efeito do banho de música acaba e as pessoas ficam entediadas; experimentos sexuais questionáveis acontecem, homens viram mulheres, e mulheres se tornam homens. Diante disso, não há como prever quão miseráveis seus espíritos irão se tornar. Vossa Excelência é muito leniente com eles. É uma tremenda perda de tempo permitir que eles durmam, comam, pensem e divirtam-se. Coisas assim apenas fazem com que eles fiquem entediados; não levam a lugar algum, servem apenas para desviá-los. Essa nova moda depravada é uma prova disso. Por esse motivo, modifiquei o banho de música para acontecer a qualquer hora do dia; ajuda o país e seu povo. Se ainda assim não notarmos um efeito satisfatório, gostaria de implementar o que eu considero ser o banho de música ideal: 24 horas por dia, sem parar. Só então poderemos comandar a nação inteira como uma unidade, todos marchando juntos.
Isso lhes roubaria cada fiapo de liberdade que ainda possuem. Certamente não há necessidade de ir tão longe.
Eu discordo. Meu plano iria aumentar muito o bem-estar do povo, porque eliminaria todas as suas preocupações, de uma só vez.
Eu me oponho a isso!
Vossa Excelência, com todo respeito, você apenas se sente assim porque lhe falta capacidade para ser político. Você tem de fazer como estou dizendo, confiar em mim, uma política nata, com plena responsabilidade para governar este país. E então se demitirá. Isso trará a paz que almeja.
Não seja idiota. Isso seria traição. Eu sou o governante eterno desta nação. Nunca irei cedê-la a você!
A secretária riu com desdém.
Não importa o que diga, tenho você e essa nação na palma da minha mão. Agora eu sou o cérebro da nação. Você não tem escolha a não ser me conceder poder total.
Ela projetou seu rosto para cima e gargalhou sem pudor.
O presidente Miruki bateu o pé no chão, frustrado, finalmente percebendo que havia perdido ambos: sua amada, a bela senhora Miruki, e o sábio e venerável professor Kohak — tudo por causa do ardil da secretária. Mas se lamentar era inútil. Também ocorreu a ele a noção de que fora reduzido à condição de um brinquedo da madame Asari.
Depois de 30 minutos, o sinal de emergência disparou de repente, chacoalhando as fundações da Nação Miruki. O que pode ter acontecido?
As pessoas se reuniram em frente aos alto-falantes em uníssono, rostos pálidos de preocupação enquanto ouviam o estridente alarme, alto para alguns e baixo para outros. A mensagem veio de Hoshimi, o chefe da Divisão de Astronomia.
Aviso! Este é um anúncio público da Divisão de Astronomia. Às 8 horas e 40 minutos, um membro da nossa equipe avistou um foguete espacial a 10 graus sudeste da Estrela Norte, e uma investigação mais aprofundada da nave determinou que com o seu curso atual ela colidirá com a Nação Miruki. O tempo estimado da chegada é depois de amanhã, às 23 horas.”
Um foguete de Marte! Um ataque dos marcianos fora adiado por vários anos. Esse temido ataque finalmente chegou.
A propósito, parece que uma onda de rádio, desconhecida à Secretaria de Transmissão, causou grande interferência em seus receptores nos últimos dez dias. Devia ser um sinal vindo do foguete marciano. A Divisão de Astronomia só agora detectou o foguete em seu telescópio digital.
Se os marcianos viessem… — o professor Kohak uma vez declarou — não seria com intenções pacíficas. — Seus receios agora se manifestavam como um fato inegável, que não poderia ser ignorado. Qual seria o propósito desse ataque? As pessoas da Nação Miruki acharam que talvez fosse por causa da inesgotável camada de ouro enterrada abaixo deles. Não importa a era, aqueles que possuem riqueza, um dia, devem perecer por essa mesma riqueza.
Frente a uma crise nacional urgente, por necessidade, o conflito entre a secretária madame Asari e o presidente Miruki naturalmente se resolveu.
Vossa Excelência, acredito que a negligência da Divisão de Astronomia, que fracassou em detectar a chegada do foguete de Marte, deve ser severamente punida.
Nós podemos pensar nisso depois. Por enquanto, devemos fazê-los investigar com quais tipos de armas aquele foguete está equipado e nos enviar o relatório com as informações.
Enquanto os dois conversavam, uma notícia da Divisão de Astronomia chegou pelo tubo acústico. Era a voz do chefe de divisão, Hoshimi.
—… Qualquer investigação aprofundada será muito difícil de ser realizada. Sim, isso mesmo.
O que está acontecendo? Estou começando a duvidar do seu patriotismo.
Não, madame Asari, esse não é o problema. A equipe toda está inflamada com patriotismo, mas está muito eufórica. Eles tentam manipular os instrumentos, contudo ninguém consegue ficar calmo o suficiente para fazer uma observação precisa. Estão operando com apenas metade de sua eficiência normal.
Os seres humanos são muito fracos! Bem, então por que você não faz essas observações por conta própria?
Eu não estou em uma situação diferente da deles. É como se, por algum motivo, meu cérebro estivesse nebuloso.
Nesse caso, acredito que devemos iniciar o banho de música mais uma vez.
Não, madame, não vai funcionar; é o banho de música que está provocando isso.
Merda! Eu me recuso a ouvir mais uma das suas desculpas. No momento em que você ou alguém da sua equipe não cumprir as suas funções, irei demiti-lo.
Madame Asari, se você quer me dar a pena de morte, assim como você deu ao professor Kohak, é melhor que faça agora. Seria melhor morrer do que me corromper ainda mais do que já me corrompi.
Silêncio, Hoshimi. A partir de agora, você está dispensado do seu cargo como chefe e será encarcerado. Eu indico seu assistente Runami para o cargo de novo chefe da divisão.
Runami? O coitado não será capaz de exercer essa função.
Por que diz isso?
Runami é um homem de mente e corpo fracos, ficou louco devido ao banho de música. Ele não apenas deixou de cumprir sua função, como está correndo enlouquecido, quebrando todo equipamento valioso que vê pela frente com uma chave de grifo, tudo isso enquanto canta o hino nacional a plenos pulmões. Incapaz de resistir ao banho de música, o pobre coitado enlouqueceu.
Isso é impossível… Irei conferir agora mesmo, por conta própria. Você está apenas tentando me assustar com suas mentiras.
A ligação foi encerrada.
Logo, madame Asari começou a trocar de roupa.
O presidente Miruki abordou Asari com um olhar de preocupação. — Você não pode sair correndo para a Divisão de Astronomia agora. Se não dermos ordens o quanto antes aos esquadrões de bombardeio e de reconhecimento, para lidarem com esse foguete e se prepararem para o combate, será tarde demais.
Madame Asari tinha um olhar desafiador, mas ainda assim ela parou de se arrumar e rapidamente fez uma ligação por tevê-fone, para os líderes de esquadrão de reconhecimento e de bombardeio.
No entanto, não havia nenhum sinal deles na tela, apenas um muro podia ser visto.
O que aconteceu com eles? — Miruki perguntou.
Nada. Eles não estão lá porque o banho de música das 10 horas começou agora mesmo.
De fato, a melodia do banho de música podia ser ouvida, suave, a distância. Em conformidade com as regulações do banho de música, os dois líderes de esquadrão foram para o corredor e estavam sentados em seus respectivos assentos. Com seu rosto se distorcendo em raiva, o presidente Miruki falou.
Maldição! Isso é um absurdo. Você quer mesmo que eles parem de se preparar para a batalha e passem por um banho de música? Ter cada membro dessa nação abandonando seus postos para se sentar no banho de música, é completamente inaceitável!
Eu tenho que discordar. Se nós não fizermos isso, nunca seremos capazes de manipulá-los facilmente.
Se o foguete marciano começar a lançar bombas de gás venenoso em nós, você irá pedir educadamente para que eles esperem que o banho de música da nossa nação acabe?
O presidente Miruki estava lívido.

Juza Unno, in A última transmissão

31/12/2021

O banho de música das 18 horas | Capítulo 9

Na manhã seguinte, o presidente Miruki e a secretária Asari tomavam o café da manhã juntos.
Embora a secretária estivesse vestindo um pijama, o presidente estava com roupas normais.
Vossa Excelência, eu tenho o conhecimento de que você deu uma escapada tarde da noite. Você não pode ter segredos comigo. Onde você foi?
Não, eu apenas, bem…
Não adianta tentar esconder coisas de mim. Um dos meus homens me disse que te avistou perto do setor Alishia.
Você está dizendo que alguém me viu lá? — o presidente falou, seus olhos se abrindo.
O que foi capaz de fazer você se levantar da cama, no meio da noite, e ter todo esse trabalho?
O quê? Oh, não era nada de especial… Parece que você está confundindo as coisas, e eu não gosto nada disso. Ontem nós descobrimos algo no setor Alishia, não foi mesmo?
Descobrimos o quê?
Bem, foi mais ou menos… Hum, o que foi mesmo?… Ontem nós fomos checar o setor Alishia, mas só pudemos ver até a nona sala. Teve toda aquela confusão quando você tentou forçosamente abrir a porta da décima sala, mais um pouco e tudo explodiria. Mas não ser capaz de entrar nessas salas era uma evidência desagradável de que existem lugares nesta nação onde meu poder absoluto não se estende. Com esse fato incômodo em mente, fui investigar se não havia mesmo nenhuma forma de abrir a porta.
Nossa, você tem estado tão corajoso, não é? Então você conseguiu entrar na décima sala, como esperava?
Não, eu falhei.
Você deveria ter previsto que isso aconteceria. De todo modo, por que você ficou no setor Alishia até o amanhecer?
O que você está insinuando? Eu estava apenas dando o meu melhor para abrir a porta.
Sim, aposto que sim. Apenas não sei qual porta você estava tentando abrir.
Madame Asari virou-se em direção ao papagaio azul, em um poleiro de metal, e segurou um pedaço de carne em seu garfo.
Com uma velocidade cegante, o pássaro faminto abriu seu bico e abocanhou a carne. Mas um instante depois pôde-se ouvir o som de algo caindo no chão. O papagaio esfomeado deixou cair o precioso pedaço de carne no piso, sem hesitar.
Ei, Pinto — o presidente chamou o pássaro pelo seu nome. — Você não está se sentindo bem?
Madame Asari respondeu no lugar do papagaio. — Pinto está plenamente saudável. Ele está apenas dizendo que a carne nojenta dos androides não é de seu agrado.
Você disse carne de androide?
O presidente Miruki saltou de sua cadeira, atordoado. Ele voltou seu olhar para os pés de madame Asari, onde estava uma grande pilha de pedaços amontoados de carne vermelha, em um grande prato de metal. O homem revelou um olhar perturbado ao notar uma trilha de gotas de sangue, que iam do prato até algum lugar atrás das cortinas internas.
Não posso acreditar! Você foi mesmo capaz?!
Miruki correu freneticamente até as cortinas e, no lado mais distante, descobriu uma pilha de máquinas complexas desmanteladas. Na beira da pilha havia o lindo rosto de uma mulher. Apesar de estar um pouco sem cor, ainda mantinha um sorriso brilhante, como se nada houvesse acontecido. Vendo isso, o presidente logo irrompeu em raiva, como um vulcão em erupção.
P-por que você a matou? Por que matou Annette? Ah, sim, você devia estar com inveja da beleza dela, sua vadia! Eu lhe dei a mais estrita ordem de não matar androides, e você desobedeceu sem hesitar. Secretária ou não, você nunca será perdoada por isso!
Madame Asari permaneceu sentada, tranquila, bebendo de seu copo. E então falou:
Você pode sossegar? Eu fiz isso visando os interesses da nação. Pode imaginar que caos seria se a população descobrisse que o seu presidente estava obcecado por um androide, ainda mais em um momento tão importante quanto este? Como eu disse antes, agora é a hora de tomar medidas emergenciais. Estou certa de que Vossa Sábia-Excelência entende isso.
O presidente não refutou os argumentos da madame Asari. Ele apenas se virou e resmungou em voz baixa para si mesmo.
Eu sou apenas um prisioneiro; em uma cela sem grades, mas ainda assim um prisioneiro. Agora estou condenado a eternidade sem uma bela mulher…
Madame Asari fingiu não ouvir os resmungos do presidente. Casualmente ela o fez se sentar à mesa mais uma vez, como antes, e com paciência começou a discutir estratégias nacionais.
A partir de hoje, presidente Miruki, nossa nação começará a realizar manobras de emergência.
Manobras de emergência, de fato. E o que você sugere?
Existe um suprimento ilimitado de ouro enterrado debaixo da nossa nação. Nós iremos minerar aquilo tudo em uma semana.
Quem vai minerar? Minerar tudo aquilo em apenas uma semana… Para começar, nós não temos pessoas suficientes, nem mesmo a quantia necessária de máquinas.
Isso não é desculpa. Apenas deixe comigo.
Deixar com você? — o presidente fungou com desdém. — É óbvio que o seu plano irá falhar. Se o professor Kohak ainda estivesse vivo, estou certo de que ele conseguiria realizá-lo de um jeito magnífico. Você pode ser uma política, mas não é nenhuma cientista.
Cientistas só são necessários no começo. Quando as coisas já se desenvolveram até certo ponto, a execução é o que se torna importante. E executar uma grande empreitada como essa exige ninguém menos do que políticos. A ciência nunca poderá governar, sempre será governada.
Eu costumava pensar da mesma maneira, até ontem. Depois de encontrar Annette, a androide, comecei a duvidar se era verdade. Oh, linda Annette… Nas profundezas da décima sala do setor Alishia, talvez haja centenas, milhares de androides ainda mais belas do que ela. O poder da ciência é incomparável!
Ouro reina sobre a ciência. Irei desenterrar o ouro abaixo de nós em uma semana e reconstruir esta nação com ele: estradas de ouro, salas de ouro, tetos de ouro, paredes de ouro; tudo de ouro. Que plano fantástico, você não acha? Nossa nação irá dominar o mundo com o ouro!
Dominar o mundo? Para isso é preciso de ferro, não de ouro. Ouro não pode vencer uma guerra.
Eu discordo, com ouro suficiente haverá inúmeros países se oferecendo para defender nossa nação com ferro. Tudo o que é preciso é convidar o primeiro-ministro de um país a tentar começar uma guerra conosco e prometer-lhe um quarto construído com ouro puro, e então guerras se tornarão coisas do passado.
Duvido que seja tão simples. Estou longe de ser tão otimista quanto você.
No meio da conversa, eles ouviram um som delicado à distância — a melodia que já ouviram muitas vezes. O banho de música havia começado.
Banho de música? É o banho de música das 18 horas — o presidente Miruki disse e piscou seus olhos, surpreso. — Espere um minuto. Ainda são 8 horas. O banho de música começou no horário errado. O que o responsável por isso está fazendo?
Madame Asari, sem medo, falou com o presidente como se estivesse dando bronca em uma criança pequena.
Sim, é o banho de música. Eu mudei suas regras, e começarão a valer a partir de hoje. A partir de agora, ocorrerá a qualquer hora, doze vezes ao dia. Com isso, a eficiência das pessoas será multiplicada por doze. Dormir e comer não é mais necessário. Após o banho de música, as pessoas estarão dispostas o suficiente para trabalhar por uma hora e meia sem descanso, assim como cavalos de tração. Depois disso, nós simplesmente lhes daremos um outro banho de música.
Isso é muito imprudente. O professor Kohak nunca tentaria fazer algo assim.
O professor Kohak era ardiloso por natureza, e foi por isso que ele, de propósito, limitou o banho de música para apenas uma vez ao dia. Caso contrário, ele seria forçado a trabalhar o dia inteiro. Eu já havia notado isso há um bom tempo. Apenas um verdadeiro político pode aumentar a produtividade em qualquer sentido real. É necessário políticos no controle para trazer à tona o verdadeiro poder da ciência.
Naquele momento, o presidente Miruki ouviu claramente seus cidadãos arfarem em angústia, o som aumentava cada vez mais conforme o banho de música progredia.

Juza Unno, in A última transmissão

24/12/2021

O banho de música das 18 horas | Capítulo 8



Ao ouvir a palavra explodir, madame Asari sentiu um frio na espinha; aquilo acionou uma memória em sua mente de quando eles cruelmente tentaram assassinar o professor no quarto da senhora Miruki e uma inesperada explosão ocorreu, destruindo os corpos de ambos e espalhando os seus membros para todo lado. — Bem, não temos escolha. Irei abrir esta sala após acionar o sistema de segurança.
Com uma expressão desprovida de medo, como se houvesse aceitado seu destino, Bara discou três números na frente da porta. Três luzes-piloto piscaram em sucessão: verde, vermelho, amarelo. Logo a porta começou a se abrir, silenciosa. O temeroso grupo espiou o interior da sala, através da fresta crescente.
A nona sala é onde o professor armazenou seus protótipos. Por favor, não encoste nas criaturas aí dentro.
Bara os conduziu, e eles entraram na sala com cuidado.
O grupo ficou abismado logo na primeira coisa que notaram: de tudo o que podia haver ali, uma mulher nua — inspecionando-lhes com os olhos — foi o que encontraram.
Ela aparentava ter cerca de 17 ou 18 anos de idade, exibindo um lindo corpo de um branco puro e brilhante, remetendo ao leite. Porém, acima de tudo, foi seu rosto encantador que chamou a atenção deles; pode procurar pelo mundo inteiro e você nunca verá uma mulher tão bonita. Algo nela era reminiscente da Vênus de Milo, mas talvez fosse melhor dizer que ela mais se parecia com um anjo. Sem sentir vergonha alguma por seu corpo (que de fato não vestia nada), ela sorriu para o grupo.
Que beleza incrível! — o presidente Miruki disse em voz alta, sem vergonha, com uma alegria lasciva. — Qual é o nome dela?
O nome dado a ela é Annette — respondeu Bara pela jovem mulher.
Então o nome dela é Annette. Esse é um bom nome, mas acredito que seria melhor dar a ela um nome agradável, que faça jus à sua aparência.
Mas, Vossa Excelência, você não deve se confundir. Annette é um androide. Por favor, dê uma olhada minuciosa em seu corpo.
O quê? Olhar o corpo dela?
O presidente Miruki abriu bem os olhos e analisou com calma o corpo de Annette.
Ah, entendo.
Quando o presidente olhou para baixo, não pôde deixar de sorrir, porque havia descoberto a parte do corpo dela que estava incompleta, muito diferente de uma humana de verdade.
Permita-me explicar. O que vocês veem habitando esta sala são todas criaturas experimentais, criadas pelo professor Kohak. Esse ser de quatro patas que parece com um leitão tem o corpo e o coração artificial, e o cérebro foi transplantado de um pastor alemão. Em seguida, temos um macaco com o cérebro de uma criança humana…
De pé, em frente às jaulas de arame, Bara descreveu as criaturas, uma a uma.
Era uma coleção de criaturas bizarras; nenhuma era normal. Algumas pareciam humanas. Uma delas era a parte de cima do corpo de um homem, imerso em um largo recipiente de vidro preenchido com um líquido amarelo. Ele segurava um tubo de vidro em sua boca com as duas mãos e bebia avidamente o líquido roxo que saía dali. Seguindo o tubo até a sua origem, adjunto havia um elaborado aparato químico, mas na entrada dele o líquido em seu interior era amarelo. Em resumo, o ciclo foi desenvolvido para que o líquido amarelo se transformasse no líquido roxo, e então de volta para amarelo assim que passasse pelo meio-corpo. Bara explicou que era um novo experimento focado em estudar ingestão nutricional.
Até mesmo durante as explicações de Bara o presidente Miruki parecia ansioso, distraído pela androide Annette. A secretária, madame Asari, não pôde ignorar o comportamento dele, e por causa disso seu rosto ficou pálido e seu corpo começou a tremer.
No entanto, o presidente Miruki não pareceu notar a reação da madame e se separou do grupo, retornando ao local em que Annette se encontrava.
Adorável Annette, o que você está fazendo aqui?
Annette deu um sorriso largo, assim como uma mulher enlouquecida.
Vossa Excelência — Bara abordou o presidente com um olhar de preocupação. — Annette é um protótipo, então ela só entende alguns códigos especiais. Ela não entende a língua mirukiana.
O quê? Ela não entende mirukiano? Que infortúnio — o presidente disse. Porém a atração que ele sentia por Annette apenas aumentou, sua beleza podia ser considerada enlouquecedora.
Naquele momento, a secretária rangeu os dentes, era visível o seu esforço para se conter, mas logo correu na direção de Annette. O rosto da secretária estava pálido; ela retirou uma faca de dentro de um bolso interno na parte superior de sua roupa e, segurando-a como um picador de gelo, moveu seu braço diretamente contra o coração de Annette. No entanto, no último segundo, Bara pulou no braço de madame Asari, arriscando a própria vida, e por pouco conseguiu proteger o androide. Contudo a secretária estava em um frenesi; mesmo Bara podia sentir a adrenalina.
Secretária, o que está fazendo?
Isso não é da sua conta! Eu tenho autoridade para matar esse androide, e vou!
Por favor, não a mate.
Por que você está interferindo? Pode ser errado matar um ser humano, mas o que há de tão errado em matar um androide? Só de olhar para essa mulher inútil me dá vontade de vomitar. Com a minha autoridade, vou matar Annette.
Não, você não deve matar Annette! Desde que foi construída há várias semanas, ela tem protegido os protótipos desta sala. Ela tem falado conosco e nós nos tornamos amigas. Annette não é diferente de uma pessoa real. Matá-la é apenas… absurdo!
Bara segurou firme o braço da secretária, que tinha a faca em mãos e se recusava a soltar.
Então você deseja se opor à secretária de Estado. Como queira, você não será perdoada!
Por favor, madame Asari, eu imploro que reconsidere… E outra coisa, nós devemos proteger quem restou, porque o professor se foi e talvez nunca mais sejamos capazes de construir outros androides. Isso seria a pior perda possível para a Nação Miruki!
A pior perda possível? Que presunçosa… — madame Asari soltou um riso abafado. — Eu imagino que você tenha se apaixonado por esse androide.
Bara ficou em silêncio.
Em um surto de raiva, a secretária puxou o cabelo de Bara e tentou arrastá-la para o chão. O presidente Miruki, perplexo com isso, vociferou.
Espere, madame Asari. Pelo nome de Miruki, você está proibida de ferir esse androide! Os androides são produtos preciosos da pesquisa de nossa nação. Ao longo dos anos, gastei 80 bilhões de rukul nessa pesquisa. Você não pode matá-los. Agora, abaixe essa faca.
Vossa Excelência — madame Asari disse, enquanto agarrava o colarinho do presidente. — Obedecerei à sua ordem. No entanto, prometa-me uma coisa, você nunca irá falar desses androides inúteis como se eles fossem pessoas reais, porque não são.
Sim, eu sei que não são. E você sabe mais do que ninguém que não tenho motivos escusos aqui.
Com isso, os olhos da secretária se estreitaram de repente e ela corou de vergonha.
No canto, Penn permaneceu sozinho, enojado pelo que havia acontecido.
Que situação perturbadora. Bara se apaixonou pelo androide, e a secretária está tendo um caso com o presidente Miruki. Com tudo isso acontecendo, não há mais motivos para eu me segurar. Meu grande amigo Paul, o fabricante de sapatos, alterou seu corpo para se tornar uma mulher, e com certeza ele fez isso para poder ficar comigo. Certo, acho que está na hora de acertar as coisas com Paul.”

Juza Unno, in A última transmissão