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26/12/2024

Na hora do Lobo

Quando um homem consome a madrugada
rabiscando umas folhas de papel
e ele sabe que a vida é tonelada
oscilando na ponta de um cordel;
ele sabe que o fim de toda estrada
não deságua no inferno nem no céu,
e ele pensa na feira, na empregada,
água e luz, condomínio e aluguel;

Quando um homem fatiga a voz cansada
com palavras da Torre de Babel
e ele entende que a coisa mais amada
se transmuda na coisa mais cruel;

Quando a taça em que bebe está quebrada,
tanto vidro a boiar em tanto fel
e no peito uma dor desatinada
essa dor que é tão nítida e fiel;

Quando um homem de boca tão calada
sente a mente girar num carrossel,
ele escreve através da madrugada
com cuidados de abelha que faz mel:
sua vida, talvez, foi destinada
a salvar estas folhas de papel.

Bráulio Tavares, em O homem artificial

14/12/2024

A coisa

Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa
que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo
com pernas que ela terá de crescer de si própria;
e que seja ela uma máquina viva, uma máquina
capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.
Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.
Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas
e metonímias e quarks e transistores e estames
e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial…
Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa
que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam
e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,
e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos
e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,
e gritei: “Levanta-te e anda!”- e a coisa era uma galáxia
tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando
com meus olhos de homem, me sorrindo
com tantas bocas de mulher, me envolvendo
com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,
fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,
como um setor a mais invadido um círculo já completo.
Eu quero que essa coisa existisse, assim como
eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.
Coisa criada, cobra criante, serpente criança,
criatura sentiente, existente, sente, pensante,
cercada pela linha brusca do seu até-aqui
Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá
como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,
e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.
Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.
Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,
e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ônibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento… que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.

Bráulio Tavares, em Antologia sonora – Poesia paraibana contemporânea

16/03/2013

Lampião e Lancelote

"Lampião e Lancelote" é um livro escrito e ilustrado por Fernando Vilela e retrata o lendário encontro do famoso cangaceiro do sertão nordestino com um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda. Sua recente adaptação para o teatro foi realizada pelo escritor e compositor Braulio Tavares, que também participa da criação da trilha sonora em parceria com Zeca Baleiro.

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Foto: Julia Moraes/SESI

O que aconteceria se o famoso cangaceiro do sertão nordestino se encontrasse com um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda? Esse lendário encontro foi escrito e ilustrado por Fernando Vilela e utiliza o duelo entre as duas figuras como mote para compor a obra. Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006) mescla versos (sextilha do cordel sertanejo) e prosas (narrativas épicas medievais), utilizando técnicas e cores distintas, como a xilogravura (cobre) e o carimbo (prata), que enriquecem visualmente o encontro épico. O compositor e escritor Braulio Tavares assina a quarta capa de Lampião e Lancelote e define a obra como uma "aventura visual e poética à altura das duas culturas que a inspiraram". A parceria entre Vilela e Tavares que deu tão certo que a obra transformou-se em peça teatral, adaptada pelo poeta campinense.

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Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela

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Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela

Muitos são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma "disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.

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Foto: Julia Moraes/SESI

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Foto: Julia Moraes/SESI

Muitos são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma "disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.

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Foto: Julia Moraes/SESI

Mas se a atmosfera visual de Lampião e Lancelote encanta, seu universo sonoro é igualmente fascinante e envolvente. A linguagem do Cordel e da novela de cavalaria ganharam uma rica trilha sonora, fruto da parceria de Braulio Tavares e Zeca Baleiro. Podemos considerar a rabeca (um dos instrumentos que é tocado ao vivo durante o espetáculo) como o instrumento que melhor representaria nosso sincretismo cultural: ela também é conhecida como o "violino brasileiro" e, apesar de seu tom ser mais baixo e de não possuir um padrão universal de construção como seu parente europeu, tornou-se um instrumento popular na Península Ibérica e chegou ao Brasil durante a colonização portuguesa.
Já disse Câmara Cascudo que "a atitude de cantar é uma afirmativa imediata, suprema, irrespondível, de elevação. É um ludus no nível divinizador do impulso sonoro, comunicação com as forças confusas, abstratas, envolvedoras da inspiração." A música nasce para perpetuar "causos", mitos, alegrias e dores, conquistas e derrotas; serve aos povos como elo de ligação cultural e reforça crenças. Humaniza. E transcende os limites do tempo e do espaço ao recriar constantemente o ritmo da história de todos nós.
A peça fica em cartaz de 14 de março a 30 de junho de 2013 no Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso, Teatro Sesi - São Paulo.
Anna Anjos, in lounge.obviousmag.org

11/11/2012

Os direitos de Faulkner


A Sony Pictures está sofrendo um processo por parte dos herdeiros de William Faulkner por causa de uma frase do autor que aparece no filme “Meia Noite em Paris” de Woody Allen.  A frase é a famosa “The past is not dead. It’s not even past” (“O passado não morreu. Na verdade, ele nem sequer passou”.) Quando vi essa notícia, gelei, porque eu mesmo já devo ter citado essa frase mais vezes do que Woody Allen. Toda vez que o porteiro me entrega a correspondência, o primeiro envelope que procuro é o da intimação judicial.
O texto enviado à Sony reclama que a produtora não pediu autorização para citar esta frase, e diz: “O uso desta citação irregular e do nome de William Faulkner nesse filme tende a causar confusões, a causar equívocos, e/ou enganar os espectadores do filme infrator levando-os a supor uma afiliação, conexão ou associação entre William Faulkner e sua obra, de um lado, e a Sony, do outro”. Isto equivale, grosso modo, àquelas cenas em que um pirralho pega o trenzinho do outro para brincar, e o outro imediatamente arrebata de volta o trenzinho e o desce com força na testa do provocador.
Fiquei mais tranquilo quando vi que o filme arrecadou 94 milhões de dólares. O que recebo no Jornal da Paraíba não chega nem à metade disso, de modo que eles provavelmente irão concentrar seus esforços em cima do pobre Woody.  Isto me lembra o episódio de um álbum de fotografias que foi embargado aqui no Brasil pelos herdeiros de Manuel Bandeira, que se queixavam de não ter recebido nem um tostão pelo fato do poeta aparecer em uma das centenas de fotos que havia no álbum.
Se isso é “direito autoral”, amigos, a minha vontade, a cada ano que passa, é arranjar um emprego burocrático (sou bom datilógrafo!) e liberar tudo que escrevi até hoje, desde que seja para uso não-comercial. Qualquer um pode gravar minhas músicas ou imprimir meus textos, desde que ninguém ganhe dinheiro com isso. Direitos autorais são uma coisa muito justa quando exprimem a remuneração de um autor pelo seu trabalho intelectual e físico (sim, escrever envolve esforço físico), e ajudam a pagar suas despesas. Faulkner ganhou o bastante, em vida, para beber tudo a que tinha direito. As frases que escreveu se impregnaram na nossa linguagem diária (até na minha, imagine só, eu que nunca li um só livro dele). A presença da frase de Faulkner não influiu na bilheteria do filme de Allen, que com frase ou sem frase seria exatamente a mesma. Agora... 94 milhões são 94 milhões, né? Acho que vou ver o filme de novo, e vou entrar com um processo se Owen Wilson disser “eu vi o céu à meia noite se avermelhando num clarão”.
Braulio Tavares, in mundofantasmo.blogspot.com.br

20/05/2011

Depoimento de Braulio Tavares



De uma viagem a Mossoró guardei como lembrança o livro Dez Cordéis num Cordel Só do poeta Antonio Francisco. Como o nome indica, são dez folhetos que haviam saído em separado e que o poeta juntou neste volume (Ed. Queima Bucha, Mossoró, 2003). Poeta de verbo fluente e ótimo recitador, Antonio Francisco tem outras obras publicadas, mas esta coletânea dá uma ótima medida de sua imaginação e de suas virtudes no trato com a palavra.

A maioria dos poemas deste livro têm uma visão crítica do mundo de hoje com seu materialismo, egocentrismo, apego ao dinheiro e desprezo ao meio ambiente. O poeta imagina diversas circunstâncias fantásticas em que o seu narrador é transportado para um ambiente que serve de espelho deformado do nosso mundo, ou então serve de Utopia às avessas que deixa à mostra os nossos erros. Em “Meu Sonho”, é um mundo onírico, voltado para o trabalho e a educação: “As crianças daqui brincam / com paquímetro de aço puro, / esquadro, régua, compasso, / martelo de ferro duro / são brinquedos da infância / e ganha pão do seu futuro”. Em “Do Outro Lado do Véu”, é uma nave espacial que pega o narrador no roçado e o transporta para um lugar remoto onde se extraem, das almas humanas, suas emoções boas ou más, que servem de matéria-prima para os fenômenos da Natureza: “Com dez gramas de orgulho / e trinta de vaidade / toda criança aqui faz / uma grande tempestade / capaz de riscar do mapa / num minuto uma cidade.
Antonio Francisco tem uma enorme fluência de estilo, é um daqueles poetas que, sem forçar a mão, parecem rimar e metrificar espontaneamente. O que não é tão freqüente quanto parece, no mundo do cordel. Uma coisa que se encontra muito no cordel é uma sextilha onde a terceira rima parece enfiada “na marra”, como se somente ao chegar no fim da estrofe o poeta percebesse que a última linha precisa rimar com a segunda e a quarta; aí aparece uma palavra caída de paraquedas somente para fechar a sextilha. Nos versos de Antonio Francisco, isto raramente, ou nunca, acontece.
“A Oitava Maravilha” é a história divertida do deus mitológico Cafuné, que escavou sozinho o leito do Rio São Francisco. “A Arca de Noé” é uma alegoria do desmatamento do Brasil, comparando-o com a arca do patriarca bíblico, que se distraiu e levou para dentro dela um casal de cupins. Em “Os Sete Constituintes”, o narrador dorme em cima de uma árvore e testemunha às escondidas um encontro de diversos animais (o burro, o morcego, o rato, a cobra, etc.) que se queixam da brutalidade e da ignorância do Homem: “O morcego abriu as asas / deu uma grande risada / e disse: Eu sou o único / que não pode dizer nada / porque o Homem pra nós / tem sido até camarada. // Constrói castelos enormes / com torre, sino e altar / põe cerâmica e azulejos / e dão pra gente morar / e deixam milhares deles / nas ruas, sem ter um lar”. É uma voz nova e vigorosa, na tradição crítica e satírica do cordel clássico.