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21/10/2024

Alegria e Tristeza

Freud disse que são duas as fomes que moram no corpo. A primeira é a fome de conhecer o mundo em que vivemos. Queremos conhecer o mundo para sobreviver. Se não tivéssemos conhecimento do mundo à nossa volta saltaríamos pelas janelas dos edifícios, ignorando a força de gravidade, e colocaríamos a mão no fogo, por não saber que o fogo queima.
A segunda é a fome do prazer. Tudo o que vive busca o prazer. O melhor exemplo dessa fome é o desejo do prazer sexual. Temos fome de sexo porque é gostoso. Se não fosse gostoso, ninguém o procuraria e, como consequência, a raça humana acabaria. O desejo do prazer seduz.
Gostaria de poder ter tido uma conversinha com ele sobre as fomes, porque acredito que há uma terceira: a fome de alegria.
Antigamente eu pensava que prazer e alegria eram a mesma coisa. Não são. É possível ter um prazer triste. A amante de Tomás, de A insustentável leveza do ser, se lamentava: “Não quero prazer, quero alegria!”.
As diferenças. Para haver prazer, é preciso primeiro que haja um objeto que dê prazer: um caqui, uma taça de vinho, uma pessoa a quem beijar. Mas a fome de prazer logo se satisfaz. Quantos caquis conseguimos comer? Quantas taças de vinho conseguimos beber? Quantos beijos conseguimos suportar? Chega um momento em que se diz: “Não quero mais. Não tenho mais fome de prazer...”.
A fome de alegria é diferente. Primeiro, ela não precisa de um objeto. Por vezes, basta uma memória. Fico alegre só de pensar num momento de felicidade que já passou. E, em segundo lugar, a fome de alegria jamais diz “Chega de alegria. Não quero mais...”. A fome de alegria é insaciável.
Bernardo Soares disse que não vemos o que vemos; vemos o que somos. Se estamos alegres, nossa alegria se projeta sobre o mundo e ele fica alegre, brincalhão. Acho que Alberto Caeiro estava alegre ao escrever este poema: “As bolas de sabão que esta criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente uma filosofia toda. Claras, inúteis, passageiras, amigas dos olhos, são aquilo que são... Algumas mal se veem no ar lúcido. São como a brisa que passa... E que só sabemos que passa porque qualquer cousa se aligeira em nós...”.
A alegria não é um estado constante — bolas de sabão. Ela acontece, subitamente. Guimarães Rosa disse que a alegria, só em raros momentos de distração. Não se sabe o que fazer para produzi-la. Mas basta que ela brilhe de vez em quando para que o mundo fique leve e luminoso. Quando se tem a alegria, a gente diz: “Por esse momento de alegria, valeu a pena o universo ter sido criado”.
Fui terapeuta por vários anos. Ouvi os sofrimentos de muitas pessoas, cada um de um jeito. Mas por detrás de todas as queixas havia um único desejo: alegria. Quem tem alegria está em paz com o universo, sente que a vida faz sentido.
Norman Brown observou que perdemos a alegria por haver perdido a simplicidade de viver que há nos animais. Minha cadela Lola está sempre alegre, por quase nada. Sei disso porque ela sorri à toa. Sorri com o rabo.
Mas de vez em quando, por razões que não se entende bem, a luz da alegria se apaga. O mundo inteiro fica sombrio e pesado. Vem a tristeza. As linhas do rosto ficam verticais, dominadas pelas forças do peso que fazem afundar. Os sentidos se tornam indiferentes a tudo. O mundo se torna uma pasta pegajosa e escura. É a depressão. O que o deprimido deseja é perder a consciência de tudo, para parar de sofrer. E vem o desejo do grande sono sem retorno.
Antigamente, sem saber o que fazer, os médicos prescreviam viagens, achando que cenários novos seriam uma boa distração da tristeza. Eles não sabiam que é inútil viajar para outros lugares se não conseguimos desembarcar de nós mesmos. Os tolos tentam consolar. Argumentam apontando para as razões para se estar alegre: o mundo é tão bonito... Isso só contribui para aumentar a tristeza. As músicas doem. Os poemas fazem chorar. A TV irrita. Mas o mais insuportável de tudo são os risos alegres dos outros, que mostram que o deprimido está num purgatório do qual não vê saída. Nada vale a pena.
E uma sensação física estranha faz morada no peito, como se um polvo o apertasse. Ou esse aperto seria produzido por um vácuo interior? É Tânatos fazendo o seu trabalho. Porque, quando a alegria se vai, ela entra…
Os médicos dizem que a alegria e a depressão são as formas sensíveis que tomam os equilíbrios e os desequilíbrios da química que controla o corpo. Que coisa mais curiosa: que a alegria e a tristeza sejam máscaras da química! O corpo é muito misterioso...
Aí, de repente, sem se anunciar, ao acordar de manhã, percebe-se que o mundo está de novo colorido e cheio de bolhas translúcidas de sabão... A alegria voltou!

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

01/08/2024

Anatomia x erotismo

O professor ensina a anatomia do mundo. O educador ensina a erótica do mundo. O educador quer acordar a anatomia erótica do corpo: “o máximo de sabor possível”. O objeto do educador é o corpo do aluno. Ele deseja produzir um corpo que saiba sentir prazer e alegria. “Os saberes – que os professores ensinam – nos dão meios para viver. Os sabores – que os educadores ensinam – nos dão razões para viver.”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

18/01/2021

Alegria

“Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas.”

Henrik Ibsen, in O pequeno Eyolf 

17/04/2020

Alegrias

As alegrias chegam de forma inesperada. Eu tive duas. Uma delas foi uma coisa que uma professora me contou. Um inspetor visitava a sua escola. Entrou numa sala de aulas e viu trabalhos das crianças relativos a alguns dos livros infantis que escrevi. Para testá-las, ele perguntou: “Quem é Rubem Alves?”. Um menininho respondeu: “É um homem que gosta de ipês-amarelos”. Fiquei comovido. Foi a mais bela e concisa descrição de mim mesmo que já tive. A outra veio-me por outra professora. Entregou nas minhas mãos alguns volumes. “São livros seus”, ela explicou. Livros meus? Mas não havia nada escrito no papel imaculadamente branco. É que aqueles livros não eram para serem lidos com os olhos. São para serem lidos com a ponta dos dedos. Braille. Que alegria saber que os cegos me lerão! Nunca imaginei…
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

23/07/2019

Prazer

Talvez “prazer” não seja a melhor palavra. Melhor seria alegria! A diferença entre prazer e alegria? O prazer só existe na presença do objeto e cessa na sua ausência. O prazer de comer um caqui precisa de um caqui. O prazer de um abraço precisa do corpo da pessoa amada. Na ausência do caqui ou do corpo não existe prazer. Mas alegria é um sentimento manso que não depende da presença do objeto. Ela existe no preparo da comida – antes que o filho chegue. Só uma memória faz sorrir. O corpo humano se alimenta também de ausências.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

18/06/2019

O princípio satânico do sofrimento

Se existem homens felizes nesta terra, por que eles não gritam, por que eles não descem para as ruas a fim de proclamar sua alegria? Por que tanta discrição, tanta reserva? Se eu sentisse em mim uma alegria permanente, uma irresistível propensão à serenidade, eu faria com que todos os homens conhecessem-na, eu daria vazão a toda esta euforia.
Se a felicidade existe, devemos comunicá-la. Mas talvez os indivíduos verdadeiramente felizes não tenham consciência disto. Se assim for, nós poderíamos oferecer-lhes uma parte da nossa consciência em troca de uma parte da inconsciência deles. Por que a dor tem somente lágrimas e gritos, enquanto o prazer apenas frissons? Se o homem tomasse tanto consciência do prazer quanto da dor, ele não teria que compensar suas alegrias. A repartição das dores e dos prazeres não seria incomparavelmente mais justa?
Se as dores não se deixam esquecer, é porque elas invadem desmesuradamente a consciência. Assim, aqueles que têm muito a esquecer não são outros senão os mesmos que muito sofreram. Somente as pessoas normais não têm nada a esquecer.
Enquanto as dores têm um peso e uma individualidade, os prazeres desfazem-se e fundem como formas de contornos mal definidos. Evocar um prazer e suas circunstâncias é, com efeito, extremamente difícil para nós, pois mesmo a sua mais tênue lembrança vem reforçar a das dores. Certamente, os prazeres não são esquecidos por completo - de uma vida de prazeres, guardar-se-á apenas uma leve desilusão, enquanto o homem que muito sofreu chega, na melhor das hipóteses, a uma resignação amarga.
É um vergonhoso preconceito afirmar tanto que os prazeres são egoístas e apartam o homem da vida, quanto pretender que as dores prendem-nos ao mundo. A frivolidade destes preconceitos revolta e sua origem livresca revela a nulidade de todas as bibliotecas aos olhos de uma experiência vivida até o fim.
A concepção cristã que faz do sofrimento um caminho para o amor, senão sua principal porta de acesso, é fundamentalmente errônea. Mas seria este o único campo em que o cristianismo engana-se? Fazendo do sofrimento o caminho para o amor, ignora-se toda a sua essência satânica. Os degraus do sofrimento não se elevam - eles descem; eles não conduzem ao céu, mas ao inferno.
O sofrimento separa, dissocia; força centrífuga, ele nos desliga do nó da vida, do centro de atração do mundo, lugar em que todas as coisas tendem à unidade. O princípio divino caracteriza-se por um esforço de síntese e de participação na essência do todo. De maneira contrária, um princípio satânico habita o sofrimento - produzindo desarticulação e trágica dualidade.
As diversas formas de alegria fazem-nos participar inocentemente do ritmo da vida; nós o fazemos, ainda que de maneira inconsciente, em contato com o dinamismo da existência, cada uma das nossas fibras ligada às pulsações irracionais do Todo. Isto vale não somente para a alegria espiritual, mas também para todas as formas de prazer.
O distanciamento do mundo, responsável pelo sofrimento, conduz a uma interiorização excessiva e, paradoxalmente, aumenta o grau de consciência - tanto que o mundo inteiro, com seus esplendores e trevas, torna-se exterior e transcendente. Neste ponto de separação, assim que, irremediavelmente só, tem-se o mundo diante de si, como poder-se-ia esquecer o que quer que seja? Sente-se então a necessidade de esquecer somente as experiências que fizeram sofrer. Ou, devido a um paradoxo dos mais impiedosos, desaparecem as lembranças daqueles que gostariam de se lembrar, enquanto fixam-se as reminiscências dos que gostariam de tudo esquecer.
Os homens dividem-se em duas categorias: aqueles a quem o mundo oferece ocasiões de interiorização e aqueles para quem ele permanece exterior e objetivo. Para a interiorização, a existência objetiva não é nada mais do que um pretexto . Assim, somente ela pode tomar uma significação, pois uma teleologia objetiva funda-se e justifica-se em meio a certas ilusões, que têm por defeito o fato de que um olhar penetrante pode desmascará-las facilmente. Todos os homens veem fogos, tempestades, desmoronamentos ou paisagens; mas quantos veem chamas, relâmpagos, vertigens ou harmonias? Quantos, vendo um incêndio, pensam na graça e na morte? Quantos trazem em si uma beleza longínqua que tinge sua melancolia? Para os indiferentes, a quem a natureza não oferece nada além de uma imagem insossa e glacial, a vida é, ainda que ela os preencha, uma soma de ocasiões perdidas.
Independentemente de quão profundos tenham sido meus tormentos, ou de quão grande tenha sido minha solidão, a distância que me separou do mundo somente fez com que este se tornasse mais acessível para mim. Ainda que eu não possa encontrar-lhe nem sentido objetivo, nem finalidade transcendente, a multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento. Conheci momentos em que a beleza de uma flor justificou a meus olhos a ideia de uma finalidade universal, assim como a menor das nuvens soube clarear momentaneamente minha visão sombria das coisas. Os fanáticos da interiorização são capazes de extrair, do aspecto mais insignificante da natureza, uma revelação simbólica.
É possível que eu arraste atrás de mim tudo aquilo que nunca vi? Assusto-me com a ideia de que tantas paisagens, livros, horrores e visões sublimes possam ter se concentrado num pobre cérebro. Tenho a impressão de que eles se transpuseram em mim como realidades e de que eles pesam em meus ombros. Eis, talvez, o motivo para que eu me sinta às vezes oprimido até o ponto de querer tudo esquecer. A interiorização conduz ao colapso, pois o mundo penetra-nos e mói-nos com uma força irresistível. O que há de surpreendente, assim sendo, que as pessoas tentem recorrer a qualquer coisa - desde à vulgaridade até à arte - com o único fim de tudo esquecer?

***

Eu não tenho ideias - mas obsessões. Ideias, todos podem tê-las. Mas ideias nunca provocaram o colapso do que quer que seja.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

14/02/2019

A alegria inconcebível

Vocês pretendem que o desespero e a agonia são sejam mais do que preliminares, que o ideal consiste em excedê-los, que viver por muito tempo sob o seu domínio nos torna autômatos. Fazem da alegria a única salvação e menosprezam todo o resto. Qualificam de egoísmo a obsessão da agonia, e não encontram generosidade além da alegria. E vocês nos oferecem tal alegria; mas como querem que nós a aceitemos de fora? Pois enquanto ela não surgir de nós mesmos, enquanto ela não brotar de nossos recursos e de nosso próprio ritmo, as intervenções exteriores não servem para nada. É muito fácil recomendar a alegria àqueles que não podem se alegrar! E como alegrar-se, enquanto dia e noite a obsessão da loucura nos tortura? Se dão conta, aqueles que propõem a alegria a cada passo, do que querem dizer o temor de um colapso iminente, o suplício constante deste terrível pressentimento? Junta-se a isto a consciência da morte, ainda mais persistente que a da loucura. Gostaria que a alegria fosse um estado paradisíaco, mas somente se tem acesso a ela por meio de uma evolução natural. Pode ser que nós superemos um dia esta obsessão dos instantes de agonia, para penetrar num paraíso de serenidade. - As portas do Éden estarão, com efeito, fechadas para sempre frente a mim? Até o presente, não encontrei a chave.
Como não podemos alegrar-nos, não nos resta nada além do caminho dos sofrimentos, aquele de uma exaltação louca e sem limites. Conduzamos então a experiência dos instantes de agonia até sua derradeira expressão; vivamos o paroxismo de nosso drama interior! Então só subsistirá uma tensão suprema, desaparecendo, por sua vez, para deixar atrás de si um rastro de fumaça... Pois nosso fogo interior terá chegado a tudo consumir. A alegria não precisa de justificativa - ela representa um estado puro e generoso demais para que façamos seu elogio. Impossível aos desesperados orgânicos, a alegria exerce sobre os desesperados ocasionais uma atração suficiente para dispensar justificativa. A complexidade do desespero absoluto excede infinitamente a da alegria absoluta. Seria por isto que as portas do paraíso são estreitas demais para aqueles que perderam a esperança?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

04/09/2018

Medos e alegrias desta vida

As alegrias desta vida não são as dela, mas o nosso medo de ascender a uma vida mais elevada; os tormentos desta vida não são os dela, mas o nosso autotormento por causa daquele medo.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

13/04/2018

Alegria e Tristeza

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Freud disse que são duas as fomes que moram no corpo. A primeira é a fome de conhecer o mundo em que vivemos. Queremos conhecer o mundo para sobreviver. Se não tivéssemos conhecimento do mundo à nossa volta saltaríamos pelas janelas dos edifícios, ignorando a força de gravidade, e colocaríamos a mão no fogo, por não saber que o fogo queima.
A segunda é a fome do prazer. Tudo o que vive busca o prazer. O melhor exemplo dessa fome é o desejo do prazer sexual. Temos fome de sexo porque é gostoso. Se não fosse gostoso, ninguém o procuraria e, como consequência, a raça humana acabaria. O desejo do prazer seduz.
Gostaria de poder ter tido uma conversinha com ele sobre as fomes, porque acredito que há uma terceira: a fome de alegria.
Antigamente eu pensava que prazer e alegria eram a mesma coisa. Não são. É possível ter um prazer triste. A amante de Tomás, de A insustentável leveza do ser, se lamentava: “Não quero prazer, quero alegria!”.
As diferenças. Para haver prazer, é preciso primeiro que haja um objeto que dê prazer: um caqui, uma taça de vinho, uma pessoa a quem beijar. Mas a fome de prazer logo se satisfaz. Quantos caquis conseguimos comer? Quantas taças de vinho conseguimos beber? Quantos beijos conseguimos suportar? Chega um momento em que se diz: “Não quero mais. Não tenho mais fome de prazer...”.
A fome de alegria é diferente. Primeiro, ela não precisa de um objeto. Por vezes, basta uma memória. Fico alegre só de pensar num momento de felicidade que já passou. E, em segundo lugar, a fome de alegria jamais diz “Chega de alegria. Não quero mais...”. A fome de alegria é insaciável.
Bernardo Soares disse que não vemos o que vemos; vemos o que somos. Se estamos alegres, nossa alegria se projeta sobre o mundo e ele fica alegre, brincalhão. Acho que Alberto Caeiro estava alegre ao escrever este poema: “As bolas de sabão que esta criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente uma filosofia toda. Claras, inúteis, passageiras, amigas dos olhos, são aquilo que são... Algumas mal se veem no ar lúcido. São como a brisa que passa... E que só sabemos que passa porque qualquer cousa se aligeira em nós...” .
A alegria não é um estado constante — bolas de sabão. Ela acontece, subitamente. Guimarães Rosa disse que a alegria, só em raros momentos de distração. Não se sabe o que fazer para produzi-la. Mas basta que ela brilhe de vez em quando para que o mundo fique leve e luminoso. Quando se tem a alegria, a gente diz: “Por esse momento de alegria, valeu a pena o universo ter sido criado”.
Fui terapeuta por vários anos. Ouvi os sofrimentos de muitas pessoas, cada um de um jeito. Mas por detrás de todas as queixas havia um único desejo: alegria. Quem tem alegria está em paz com o universo, sente que a vida faz sentido.
Norman Brown observou que perdemos a alegria por haver perdido a simplicidade de viver que há nos animais. Minha cadela Lola está sempre alegre, por quase nada. Sei disso porque ela sorri à toa. Sorri com o rabo.
Mas de vez em quando, por razões que não se entende bem, a luz da alegria se apaga. O mundo inteiro fica sombrio e pesado. Vem a tristeza. As linhas do rosto ficam verticais, dominadas pelas forças do peso que fazem afundar. Os sentidos se tornam indiferentes a tudo. O mundo se torna uma pasta pegajosa e escura. É a depressão. O que o deprimido deseja é perder a consciência de tudo, para parar de sofrer. E vem o desejo do grande sono sem retorno.
Antigamente, sem saber o que fazer, os médicos prescreviam viagens, achando que cenários novos seriam uma boa distração da tristeza. Eles não sabiam que é inútil viajar para outros lugares se não conseguimos desembarcar de nós mesmos. Os tolos tentam consolar. Argumentam apontando para as razões para se estar alegre: o mundo é tão bonito... Isso só contribui para aumentar a tristeza. As músicas doem. Os poemas fazem chorar. A TV irrita. Mas o mais insuportável de tudo são os risos alegres dos outros, que mostram que o deprimido está num purgatório do qual não vê saída. Nada vale a pena.
E uma sensação física estranha faz morada no peito, como se um polvo o apertasse. Ou esse aperto seria produzido por um vácuo interior? É Tânatos fazendo o seu trabalho. Porque, quando a alegria se vai, ela entra...
Os médicos dizem que a alegria e a depressão são as formas sensíveis que tomam os equilíbrios e os desequilíbrios da química que controla o corpo. Que coisa mais curiosa: que a alegria e a tristeza sejam máscaras da química! O corpo é muito misterioso...
Aí, de repente, sem se anunciar, ao acordar de manhã, percebe-se que o mundo está de novo colorido e cheio de bolhas translúcidas de sabão... A alegria voltou!
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

18/12/2017

Alegria compartilhada

“Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas.”
Henrik Ibsen

11/07/2017

Barganha

“Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.”
Charles Bukowski, in Notas de um velho safado

03/07/2017

Defesa da alegria

Defender a alegria como uma trincheira...
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas
defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos
defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias
defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre
defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso
defender a alegria como um direito
defendê-la de Deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria.
Mario Benedetti

29/06/2016

A alegria mansa

Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranquila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor.
Mas como é que me consolo dessa simples e tranquila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.
Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.
Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça com a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com essa pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes.
E vejo que não há o latejar da dor. Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade.
Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei – e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo a Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

20/02/2016

Dose de loucura

"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais. Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome  de vida. Mergulharíamos na tristeza todos os dias, se com essa espécie de prazeres não dissipássemos o tédio que parece ter nascido conosco."
Erasmo de Rotterdam, in Elogio da loucura

18/09/2015

Onde se esconde a alegria?

“Mordi o lábio. Quem eram aquelas pessoas? Onde estava toda aquela alegria, e onde ela se esconde depois de abandonar uma família? Será que vai para outra família, funde-se à terra ou se dissolve no ar como a fumacinha de nossa respiração no inverno? E se a alegria não vai embora, então por que não sobrou nem um pouco para mim?
Crystal Chan, in Passarinho

30/07/2015

Alegrias e tristezas

“Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam.”
Miguel Torga

07/06/2015

Alegria e dor

“Alegria desmedida e dor muito violenta acometem sempre e apenas a mesma pessoa: pois ambas se condicionam reciprocamente e são também condicionadas juntas por uma grande vivacidade do espírito. Ambas são causadas, não pelo simples presente, mas pela antecipação do futuro. No entanto, visto que a dor é essencial à vida e, pelo seu grau, é também determinada pela natureza do sujeito - o que implica que, na realidade, modificações repentinas, sendo sempre externas, não podem mudar o seu grau -, na base do júbilo ou da dor excessivos há sempre um erro e uma falsa crença: por conseguinte, essas duas exaltações do espírito poderiam ser evitadas com o uso do juízo.”
Schopenhauer 

24/05/2015

Alegria solitária

“Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.”
Clarice Lispector

31/03/2015

Beleza do mundo

“A beleza do mundo, que é cedo demais para perecer, possui dois extremos, um da alegria, outro da angústia, rachando o coração.”
Virginia Woolf

26/03/2015

Dor e alegria

 “Profunda é a dor, mas a alegria é ainda mais profunda. A dor diz: Passa! Mas toda alegria quer eternidade, quer profunda eternidade.”
Friedrich Nietzsche