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09/08/2026
22/08/2015
São João dos cachorros
A
princípio era um só. Mas os latidos foram despertando outros.
Desespero de quem não quer olhar. Não pode e nem deve olhar, porque
o cão lê o medo no olho do homem. E aí é pior. Sente o
resfolegar, o rosnar dos cães bem na sua perna. Anda como autômato.
Se correr... Nenhuma arma. Nenhum pedaço de pau, nenhuma pedra.
Uma
lua fosca e débeis luzes de postes retorcidos iluminam a rua de
terra, deserta. Os cães continuam a segui-lo. Aliás, persegui-lo.
Acuam-no como caça preciosa. Cada quarteirão vencido parecia ter
léguas de distância. Cada esquina dobrada, mais cães se juntavam à
procissão barulhenta no seu encalço.
Levava
um pacote de alimentos para gatos e um livro desgastado de tantas e
quantas leituras. Não criava bichos de estimação. De bicho,
bastava a si próprio. Os gatos, de um amigo. Daí os alimentos.. Os
cães querem é o gato imaginário escondido no saco, pensou. Jogasse
fora o alimento? Mais fúria, quem sabe... O livro, não. Leitura não
alimenta cachorro. Subisse numa árvore? Merda de cidade mal
arborizada... Desse um grito feito Tarzan dos gibis? Arriscado bancar
o herói quadrinizado.
A
barra da calça molhada pela baba dos famintos. Suor lhe empapa o
corpo. Caminhando e pensando no grande idiota que inventou ser o cão
o melhor amigo do homem. Melhor amigo é da sua mãe, imbecil, à
merda. Xinga o pensamento.
Aqueles
os ex-cães. Noturnos que não têm dono. Esquecem origem, medalha e
pedigree, se é que um dia tiveram. Rosnam violentos como o lobo.
Cobiçam o homem na selva cidade. Mundo cão, esse.
O
cérebro esmiuçou conhecimentos caninos. Não muitos. Sabia da
escola treinadora de cães. Caçar bandidos. Farejar pó. Não se
enquadrava no figurino. E então? Como sair daquela? Lembrava amigo
morto pela baba de cachorro louco. Calafrio no corpo. Náusea. Não
esmorecer. Estômago vira, revira. Vomitar pirão com torresmo.
Travou o gogó.
Abocanhada
na perna da calça. Apertou o passo. Pernas pesavam toneladas.
Ouvidos se acostumavam à latomia espumosa. Rápida olha para trás.
Muitos os cães. Rua inteira coberta de pelos encardidos. Profusão
de bocas arreganhadas. Mar de orelhas, pontiagudos os chifres.
Assemelhavam-se à manada de búfalos pronta ao estouro. Ladravam,
mordiam-se entre si. Não a sombra por falta de espaço.
Estranha
alcateia, sem líder, cavalgando a noite. Ele, a mascote. Merda de
cidade pequena com tantos cachorros assim. Povo pobre. De onde tiram
alimento para essas feras? Que milagre faz sobra de tão pouco na
vida? Boca dos filhos. Filhos da puta esses cães magros e
asquerosos.
Dormia
a cidade. Ele, o fantasma de ruas sombrias, acuado. Fingisse de
morto? O bafio da cachorrada em seu rosto. Cheirá-lo com seus
focinhos frios, baba gosmenta, pulgas, carrapatos e carrapichos no
pelo bernento. Ideia melhor precisava ter.
Iam
e vinham à sua frente, em semicírculos. Urubus à espreita da
carniça. Hienas farejando a presa.
Arrastava
um cão pequeno abocanhado nos fiapos da mesclinha azul. Um tropeção
seria o diabo. Levantou a vista. A pracinha à frente. Um coreto.
Miragem da noite, oásis de salvação. Último reduto da esperança
em frangalhos.
Quando
a cidade acordou, viu o nicho da praça preenchido por estranho
santo, maltrapilho. O breviário na mão esquerda, um livro de Poe.
Na direita, o maná dos gatos. Prestavam-lhe tributo os cães. Um mar
deles.
Aos
poucos, o povo foi se aproximando cauteloso por entre os bichos.
Ajoelhavam-se ao lado dos cachorros que coalhavam a praça. Estranho
aquele são francisco de assis que deixara os pássaros e se dedicava
aos cães. Sangravam-lhe as pernas esfarrapadas.
–
Viva
São João dos Cachorros! –
histérico, o povo.
–
À
merda vocês todos! –
o xingo entredentes.
Formigavam
os pés. Batatas de cãibra subiam e desciam como lagartos pela
barriga da perna. Cada braço, um cabo de aço. Ruptura à vista.
–
Viva
São João dos Cachorros! –
o povo.
–
À
puta que pariu vocês todos! –
inaudível protesto afogava-se na garganta.
Num
momento em que o povo se curvou, olhos fechados, tentou se mover.
Inútil. Pernas e braços não mais o obedeciam. Boca cerrada, língua
travada. Gritar, como?
–
Viva
São João dos Cachorros! –
a ladainha do povo.
–
É
a puta que pariu vocês to...! –
não consegue mais o pensamento engessado.
Tempo
demais fingindo-se santo. Agora, paciência. Era uma estátua de
verdade.
Línguas ávidas vão lambendo as chagas de pedra encarnada.
Línguas ávidas vão lambendo as chagas de pedra encarnada.
José
de Castro, in www.marceloabdon.com.br
14/08/2015
O telefonema
TRIMMMMMMMMMMMMMMMMM…
– Alô…
– É
da casa de dona Eugênia?
– Sim,
é ela.
–
Ligação
a cobrar, minha senhora. Posso completar?
– Quem
é? De onde é?
Uma
ligeira pausa.
– A
pessoa diz que é do seu interesse, minha senhora… Vou completar.
– Mas…
Uma
voz estranha, diferente, metálica do outro lado.
– Alô,
sou eu…
– Eu
quem? Quem está falando?
– Não
reconhece a minha voz?
Tapa
um dos ouvidos. Espicha o pescoço.
– A
ligação está muito ruim…
– Sou
eu, seu marido.–
Alguns
estalidos e chiados na linha.
– Não
estou ouvindo direito.
– Estou
ligando para avisar que morri ontem.
– O
quê? Quem morreu?
– Eu.
Seu marido.
– Alô,
alô, telefonista… Alô…
Mexe
nas teclas, bate no telefone.
CLIC.
Desligaram.
“Já
não se dão mais trotes como antigamente… – pensou dona Eugênia
enquanto colocava o telefone no gancho.
Voltou
a folhear o jornal. Foi quando viu a notícia estampada em tipos bem
negros, com uma foto dele que lhe parecia sorrir: exatamente como no
dia do casamento.
José
de Castro, in www.substantivoplural.com.br
04/08/2015
A braganha
– Pois
lhe digo, compadre, mulezinha vale muito mais do que você pensa.
– Penso
assim, não. Vaquinha tem mais valor.
– Duas
malhadas não pagam mulezinha.
– E
o leite, compadre?
Futuca
o nariz e, de piparote, arremessa longe a bolinha.
– Pensa
que mulezinha não dá leite?
– De
litro, não.
Levanta
do tamborete e vai até o embornal pegar o fumo. Naco grande, cortado
a canivete de folha.
– Não
conhece mulezinha. Mais de litro quando menino não suga os peito.
Carece tirar com bombinha. Não encaroçar.
–
Convence,
não. Vaquinha dá carne.
Espicaça
o fumo na palma da mão. Cerimônia lenta e cuidadosa.
–
Depois
de morta. Vaquinha só dá carne quando vira gado defunto. Mulezinha,
não.
A
lâmina gasta do canivete alisa a palha. Despeja o fumo.
–
Vaquinha
dá bezerro.
–
Mulezinha
dá fio hominho.
Enrola
a palha. Na beirada, passa a língua saburrosa. Sela o pito.
– A
malhada e um saco de feijão. Quiser…
– Mais
valor. Tem negócio, não.
Vai
até o fogão de barro branco. Assopra o tição, avivando a brasa na
ponta. Fumaça pelo nariz e pela boca. Cospe um fiapo de fumo.
– A
malhada, um saco de feijão e…
– E?
– … e
o tordilho.
–
Pouco.
Mulezinha vale mais.
A
barba rala espalhada no queixo pontudo. Bigode, nenhum.
– De
ouro essa mulezinha.
–
Mulezinha
é prendada. Faz lavoura, capina, campeia, cozinha, lava, e passa a
brasa. E tem dois dentes de ouro. Bem aqui, ó.
Aponta
os dois caninos vampirescos, amarelos por conta do fumo.
– Ver
a mulezinha.
–
Depois
de preço acertado.
– Dou
mais a carabina. Dois canos, azeitada.
–
Acrescenta
muito, não.
– Com
trinta cartuchos.
Cospe
no chão e esfrega com o pé descalço a pequena mancha úmida e
raiada.
–
Mulezinha
é caça grossa. Qualquer tareco vou aceitando, não.
– Dou
minha sanfona também.
– Toco
música, não.
–
Difícil
negociar. Vender ou não vender mulezinha?
–
Depende
melhorar a oferenda.
Reacende
o pito no tição. A brasa queima um lado mais que o outro. Baforada
comprida, a palha entre o polegar e o indicador.
–
Findar
amolação: dou a papo amarelo. Garrucha de estimação. Foi do avô.
– É
muita arma de fogo. Melhorando. Mulezinha é fogo!
–
Oferto
mais não.
–
Achando
não haver negócio.
– Tá
brincando.
Bate
a cinza do pito na lata de querosene vazia. Descansa um dos pés no
joelho e coça o comichão que lateja no vão dos dedos.
– É
como lhe digo, compadre. Cafuné de mulezinha é que nem cosquinha de
bicho-de-pé. Se quiser mulezinha, bote coisa de mais apreço.
– Só
se for comadre. E comadre, dou não.
– Bem
que topava uma comparação. Quantos anos têm comadre?
Solta
a fumaça preguiçosa a desenhar arabescos pelo ar. Chupa o cigarro
de palha lentamente. A pressa é inimiga da negociação.
José
de Castro, in www.substantivoplural.com.br
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