01/11/2026

Drédito

Garçom traz a conta.
CLIENTE Traz a maquininha, por favor?
Garçom traz a máquina. Cliente dá o cartão.
GARÇOM É débito ou crédito?
CLIENTE Drédito.
GARÇOM Oi?
CLIENTE Crébito.
GARÇOM Não entendi.
CLIENTE Clérbito.
GARÇOM Débito?
CLIENTE Clérigo.
GARÇOM Crédito?
CLIENTE Drécimo.
O cliente começa a suar frio e a passar mal.
CLIENTE Lépido. Périplo.
GARÇOM Senhor, a pergunta é simples. Ou é drédito ou… Quérdito.
CLIENTE Quérdito?
GARÇOM Péricles.
CLIENTE Cérebro.
GARÇOM Mérito.
CLIENTE Derby.
GARÇOM (grita por ajuda) Josias!

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Propriedade

Nunca digas que um verso está de pé quebrado: ele está é de asa quebrada.

Mário Quintana, em Caderno H

1648 – Olinda

 


Excelências da carne de canhão

Era menino quando foi arrancado de sua aldeia africana, embarcado em Luanda e vendido em Recife. Já era homem quando fugiu dos canaviais e refugiou-se em um dos baluartes negros de Palmares.
Nem bem os holandeses entraram no Brasil, os portugueses prometeram a liberdade aos escravos que combatessem contra os invasores. Os chimarrãos de Palmares decidiram que essa guerra não era deles: tanto fazia que fosse holandês ou português quem empunhasse o chicote nos canaviais e engenhos. Mas é, Henrique Dias acudiu para oferecer-se. Desde então comanda um regimento de negros que lutam pela coroa portuguesa no nordeste brasileiro. Os portugueses fizeram dele fidalgo cavalheiro.
De Olinda, o capitão Henrique Dias envia uma carta de intimidação ao exército holandês acampado em Recife. Adverte que de quatro nações está composto o seu regimento, o Tércio dos Henriques: minas, ardas, angolas e crioulos: estes são tão malévolos que não temem nem devem; os minas tão bravos, que aonde não podem chegar com o braço, chegam com o nome; os ardas tão fogosos, que tudo querem cortar de um só golpe; e os angolas tão robustos, que nenhum trabalho os cansa. Considerem agora se romperão a toda Holanda homens que tudo romperam.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos