01/11/2026

1648 – Olinda

 


Excelências da carne de canhão

Era menino quando foi arrancado de sua aldeia africana, embarcado em Luanda e vendido em Recife. Já era homem quando fugiu dos canaviais e refugiou-se em um dos baluartes negros de Palmares.
Nem bem os holandeses entraram no Brasil, os portugueses prometeram a liberdade aos escravos que combatessem contra os invasores. Os chimarrãos de Palmares decidiram que essa guerra não era deles: tanto fazia que fosse holandês ou português quem empunhasse o chicote nos canaviais e engenhos. Mas é, Henrique Dias acudiu para oferecer-se. Desde então comanda um regimento de negros que lutam pela coroa portuguesa no nordeste brasileiro. Os portugueses fizeram dele fidalgo cavalheiro.
De Olinda, o capitão Henrique Dias envia uma carta de intimidação ao exército holandês acampado em Recife. Adverte que de quatro nações está composto o seu regimento, o Tércio dos Henriques: minas, ardas, angolas e crioulos: estes são tão malévolos que não temem nem devem; os minas tão bravos, que aonde não podem chegar com o braço, chegam com o nome; os ardas tão fogosos, que tudo querem cortar de um só golpe; e os angolas tão robustos, que nenhum trabalho os cansa. Considerem agora se romperão a toda Holanda homens que tudo romperam.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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