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14/07/2022

O limpador de chaminés

Eu era bem novo e minha mãe morria,
E meu pai vendeu-me quando eu mal
sabia Balbuciar, chorando limpa-dor
dor dor dor, Assim sujo e escuro sou
o limpador.

Aquele é Tom Dracre, que chorou na
vez Em que lhe rasparam a cabeça:
Vês – Consolei-o – Tom que é bom
não ter cabelo, Pois assim fuligem
não te suja o pêlo.

Assim se acalmou. E numa noite
escura Tom dormindo teve esta
visão futura, Que mil limpadores
Josés Chicos Joões Foram
confinados em negros caixões.

E então veio um Anjo com uma chave branca
E os tirou do escuro destravando a tranca.
E então entre risos ao campo saíram
E entraram num rio e ao Sol reluziram.

Sem sacos às costas, despida a
camisa Voaram nas nuvens,
brincaram na brisa; Disse o Anjo a
Tom que, se fosse bonzinho, Deus
feliz tomava-o como seu filhinho.

E Tom despertando foi na
escuridão Apanhar seu saco
mais seu esfregão, E saiu
alegre na manhã gelada.
Quem seu dever cumpre não receia nada.

William Blake, in Canções da Inocência & da Experiência

18/06/2019

Augúrios da Inocência – trecho

Ver um Mundo num grão de areia
E um Céu numa flor silvestre
Ter o Infinito na palma de sua mão
E a Eternidade numa hora.
Um tordo rubro engaiolado
Deixa o Céu inteiro irado…
Um cão com dono e esfaimado
Prediz a ruína do estado…
Ao grito da lebre caçada
Da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
Um querubim, seu canto silencia…
A cada uivo de lobo e de leão
Uma alma humana encontra a redenção.
O gamo selvagem acalma,
A errar por aí, a nossa alma.
Se gera discórdia o judiado cordeiro,
Perdoa a faca do açougueiro…
A verdade com mau intuito
Supera a mentira de muito.
É justo que assim deva ser:
É do homem a dor e o prazer;
Depois que isso aprendemos a fundo,
Seguros podemos sair pelo mundo…
O inquiridor, que astuto se posta,
Jamais saberá a resposta…
O grito do grilo ou uma charada
À dúvida dão resposta adequada…
Quem duvida daquilo que vê
Jamais crerá, sem
como e porquê.
Se duvidassem, sol e lua
Apagariam a luz sua.
Soltar tua ira pode ser um bem,
Mas bem nenhum quando a ira te retém…
Toda manhã e todo entardecer
Alguém para a miséria está a nascer.
Em toda tarde e toda manhã linda
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Outros nascem numa noite infinda.
Passamos na mentira a acreditar
Quando não vemos através do olhar,
Que uma noite nos traz e outra deduz
Quando a alma dorme mergulhada em luz.
Deus aparece e Deus é luz amada
Para almas que na noite têm morada,
Mas com a forma humana se anuncia
Para as que vivem nas regiões do dia.
William Blake

08/02/2017

Uma imagem divina

A Crueldade tem Humano Coração,
E tem a Intolerância Humano Rosto;
O Terror a Divina Humana Forma,
O Secretismo Humano Traje posto.

O Humano Traje é Ferro forjado,
A Humana Forma, Forja incendiada,
O Humano Rosto, Fornalha bem selada,
Humano Coração, Abismo seu Esfaimado.
William Blake – Tradução: Hélio Osvaldo Alves

11/08/2016

The Tyger

The Tyger, de William Blake

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare seize the fire?

And what shoulder & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what the grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

O Tygre, tradução de José Paulo Paes

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao voo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

16/12/2013

Humano?!

"A crueldade tem coração humano; a inveja, cara humana; o terror, corpo humano, e os segredos, a roupagem dos humanos."
William Blake

11/06/2012


“A prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela incapacidade”.
  William Blake  

16/12/2011

A humana súmula

A Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.

E a paz se alcança com mútuo terror, 
Até crescer o egoísmo do amor: 
A Crueldade tece então a sua rede, 
E lança seu isco, cuidadosa, adrede. 

Senta-se depois com temores sagrados, 
E de lágrimas os chãos ficam regados; 
A raiz da Humildade ali então se gera 
Debaixo do seu pé, atenta, espera. 

Em breve sobre a cabeça se lhe estende 
A sombra daquele Mistério que ofende; 
É aí que Verme e Mosca se sustentam 
Do Mistério que ambos acalentam. 

E o fruto que gera é o do Engano 
Doce ao comer e tão malsano; 
E o Corvo o seu ninho ali o faz 
No mais espesso da sombra que lhe apraz. 

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar, 
Pela Natureza esta Árvore foram procurar; 
Mas foi em vão esta procura insana, 
Esta Árvore cresce só na Mente Humana. 

William Blake, in Canções da Experiência. Tradução de Hélio Osvaldo Alves