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04/08/2026

Jeca Tatu


Os grandes gostavam de judiar dos pequenos. Havia, à distância de um grito, uma mata fechada. Nunca fui lá perto. A mata era o mistério. Escura. De dia ela estava quieta. De noite vinham os barulhos estranhos. Pios de aves noturnas. Barulhos de animais. A gente os ouvia de dentro da casa, trancados, imaginando...
Pois os grandes gostavam de me torturar dizendo que na mata morava um menino pequeno como eu. E, para provar, gritavam com mãos em concha: “Ô menino!”. Passavam-se alguns segundos e de dentro da mata vinha a resposta baixinho: “Ô menino!”. Era o eco. Eu não sabia o que era eco. E acreditava. Antes de dormir, na minha cama, eu ficava a pensar naquele menino sozinho, abandonado na mata, sem casa, sem cama. E eu ficava triste, com dó dele. Hoje sei que o menino não existia. Mas a minha tristeza existia. A solidão daquele menino me acompanha até hoje. Eu tinha medo de que a onça o comesse. Porque todo mundo jurava já ter visto onça.
Foi então que me caiu nas mãos um livrinho, Almanaque do Biotônico Fontoura. Mesmo sem saber ler, fiquei fascinado com um desenho: um homem dando um murro na cara de uma onça enquanto uma outra onça contempla a cena com cara de espanto. E o homem dizia: “Conheceu, papuda!”. Essa frase do esmurra-onças me fazia rir. Era o almanaque do Jeca Tatuzinho. Minha mãe me lia a estória do Jeca Tatuzinho todo dia. E quando chegava no “conheceu, papuda!” eu ria como se fosse a primeira vez. O Jeca Tatuzinho me fez perder o medo das onças. Decorei o livrinho e o levava comigo. E sempre que oportunidade surgia eu me oferecia para lê-lo, para quem quisesse. Minha tia Mema estava doente. Tinha tido um peripaque cardíaco. Ficava assentada o dia inteiro, com aquele sorriso manso, sem nunca se queixar. Eu me assentava num banquinho, abria no Jeca Tatuzinho e lia para ela: “Jeca-tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes...” .
Dizem que os brasileiros de agora não gostam de ler. Naqueles tempos todo brasileiro, inclusive os analfabetos da roça, iam às farmácias para saber se o almanaque já havia chegado. Naqueles tempos as farmácias eram centros de irradiação da cultura. Até hoje os almanaques são fascinantes. Especialmente o Almanaque Brasil de Cultura Popular, do Elifas Andreato. Acho que todo brasileiro gosta de ler almanaque. Eu gosto.

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

28/07/2026

Olhar de criança

Poça D'água (1952), de Maurits Cornelis Escher

O senso comum identifica o “infantil” com o “pueril”. Adulto no qual mora uma criança não é digno de confiança. O ideal é o homem maduro, que abandonou as coisas de criança, que trocou o brinquedo pelo trabalho. A psicanálise concorda: o “infantil” é o regressivo, sintoma neurótico a ser analisado.
Na minha psicanálise, os desejos infantis são desejos eternos e divinos. O infantil não é o regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera reencontrar no futuro. É dos desejos infantis que surge a poesia. A criança e o poeta falam a mesma língua.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço — segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão as duas pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Pois eu digo que o caminho por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança. Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, tudo é espantoso, tudo é divertido. Pena que a mãe não veja nada do que a criança vê porque seus olhos desaprenderam a arte de ver como quem brinca, ela tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança... Olhando fixamente para o chão, ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros; ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não veem, só as crianças e os artistas.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

21/07/2026

Criança

As crianças ignoram os relógios. Os relógios têm a função de submeter o tempo do corpo ao tempo da máquina. Mas as crianças só reconhecem os seus próprios corpos como marcadores do seu tempo. Se as crianças usam relógios, elas os usam como se fossem brinquedos. Que maravilhosa subversão! Usar a gaiola do deus Chronos como brinquedo de Kairós, o deus do tempo da vida.
As crianças, do jeito como saem das mãos de Deus, são brinquedos inúteis, não servem para coisa alguma... Crianças não são para ser usadas como ferramentas. Elas são para ser gozadas, como brinquedos...
Os olhos, diferentemente do resto do corpo, preservam para sempre a propriedadedivina do rejuvenescimento. O sábio é um adulto com olhos de criança.
Janucz Korczak foi um dos grandes educadores do século passado. Foi mansamente com as crianças do seu orfanato para a câmara de gás de um campo de concentração nazista. Ele deu a um dos seus livros, o título Quando eu voltar a ser criança. De acordo com a Adélia Prado, que rezou: “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...”.
Quero voltar para as crianças. A razão? Por elas mesmas. É bom estar com elas. Crianças têm um olhar encantado. Visitando uma reserva florestal no estado do Espírito Santo, a bióloga encarregada do programa de educação ambiental me disse que é fácil lidar com as crianças. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas das sementes, as plantas, as flores, os bichos, os riachinhos. Tudo, para elas, é motivo de assombro. E acrescentou: “Com os adolescentes é diferente. Eles não têm olhos para as coisas. Eles só têm olhos para eles mesmos...”. Eu já tinha percebido isso. Os adolescentes já aprenderam a triste lição que se ensina diariamente nas escolas. Aprender é chato. O mundo é chato. Os professores são chatos. Aprender, só sob ameaça de não passar no vestibular. Por isso quero ensinar as crianças. Ensiná­-las para que elas se encantem com o mundo. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal. Tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, um ninho de guaxinim, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, o zinir das cigarras, o coaxar dos sapos, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Dessas coisas, invisíveis aos eruditos olhos dos professores universitários (eles não podem ver, coitados. A especialização os tornou cegos como toupeiras. Só veem dentro do espaço escuro de suas tocas. E como veem bem!), nasce o espanto diante da vida; desse espanto, a curiosidade; da curiosidade, a “fuçação” (essa palavra não está no Aurélio!) chamada pesquisa; dessa “fuçação”, o conhecimento; e do conhecimento, a alegria!

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

13/07/2026

O saber da cozinheira

A cozinheira: por onde se inicia o preparo do banquete?
Se me disserem que o banquete se inicia na cozinha, com as panelas, fogões, utensílios, ingredientes e tempero, eu direi que estão errados. O banquete se inicia com uma decisão de amor.
Babette, com pena das pessoas mirradas e mesquinhas que a inveja e o ressentimento tornara insensíveis, na aldeia em que vivia, prepara um banquete que lhes daria uma experiência inesquecível de prazer, beleza e generosidade.
Tita, proibida pela mãe de amar o seu amado, prepara os sabores que lhes permitissem fazer, na mesa, o amor que não podia fazer na cama.
O nutricionista, ao preparar um jantar, se pergunta sobre o equilíbrio científico dos vários componentes alimentares que irão compor a refeição. Pondera as utilidades: vitaminas, carboidratos, proteínas. Cozinha para alimentar quem come. Deseja matar a fome de quem come. Seu evangelho reza: “Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão fartos”.
A cabeça da cozinheira funciona ao contrário. Não considera vitaminas, carboidratos e proteínas. Sua imaginação está cheia de sabores. Sonha com os efeitos que os sabores irão produzir no corpo de quem come. Não quer matar a fome. O que ela deseja é fazer amor com quem come, através dos sabores. Quando a fome está satisfeita, o festival de amor chegou ao fim. “Não quero faca nem queijo. Quero é a fome”, diz Adélia Prado. Gostaria que o texto evangélico fosse outro: “bem-aventurados os que têm fome porque eles terão mais fome”. A cozinheira deseja que o seu convidado morra de prazer!

Rubem Alves, em Variações sobre o prazer

08/07/2026

Pergunta de uma pequena menina

A Raquel, minha filha, tinha pouco mais de dois anos. Entrou no meu quarto e me sacudiu até que eu acordasse. Aí ela me olhou e fez a pergunta que a atormentava e a tirara da cama. “Papai, quando você morrer vai sentir saudades?”. Tão pequena e já sabia que uma grande separação nos aguarda! Onde ela aprendera aquilo? Ela nunca tivera experiência alguma com a morte! Talvez a consciência da morte já nasça conosco, não sendo coisa que se precisa aprender. Mais do que isso: ela sabia que morrer é ir para muito longe, para o lugar onde mora a saudade sem retorno. Ter de morrer é estar condenado à saudade... Fiquei mudo de espanto, não sabia o que dizer. Ela então me salvou da minha perplexidade. “Não chore. Eu vou te abraçar...”, ela me disse como consolo. Esse incidente me levou a escrever a estória A montanha encantada dos gansos selvagens, em que esse diálogo é preservado.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

30/06/2026

Ver

De tudo que João Guimarães Rosa escreveu, acho a estória do Miguilim a mais bonita. Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do sertão, precisava andar um dia a cavalo pra se chegar no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no galho da árvore nem os brotos do milho saídos do chão. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. “Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor tirava os óculos e punha­-os em Miguilim, com todo o jeito. “Olha agora!” Miguilim olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas pas­seando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o João.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

18/06/2026

Adultos em excesso

Guimarães Rosa, escrevendo sobre a infância: “Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar­-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas! [Algumas de minhas distrações eram] armar alçapões para pegar sanhaços – e depois tornar a soltá­-los. Que maravilha! Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro, brinquedo saudoso; atrelar um sabugo branco com outro vermelho, e mais uma junta de bois pretos – sabugos enegrecidos pelo fogo. Prender formiguinhas em ilhas, que eram pedras postas num tanque raso, e unidas por pauzinhos, pontes para as formiguinhas passar. Aproveitar um fiozinho d’água, que vinha do posto das lavadeiras, e mudar­-lhes duas vezes por dia a curso, fazendo­-o de Denúbio ou de São Francisco, ou de Sapakral­-lar (nome inventado), com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais marcadas por grupos de pedrinhas, tudo isso sob o voo matinal das maitacas de Nhô Augusto Matraca, no quintal.”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

03/06/2026

Minha mãe



Todo mundo gosta de beleza. Até os pobres. A pobreza também se enfeita. Primeiro era preciso limpar a casa abandonada. Varrer. Tirar as teias de aranha e os picumãs. Picumãs eram estalactites que ficavam pendurados sobre o fogão de lenha, formados pela combinação de teias de aranha e gordura e que, segundo as benzedeiras, tinham extraordinários poderes medicinais para a cicatrização de umbigos. O fogão tinha de ser limpo, cheio que estava com as cinzas deixadas por moradores anteriores. Era preciso caçar os ovos de baratas escondidos nas gretas.
Havia as prateleiras de tábua que o tempo, o pó, a fumaça das lamparinas e do fogão haviam pretejado. As mulheres da cidade enfeitavam suas prateleiras com pano bordado. A Adélia Prado, numa declaração de amor, escreveu ao seu amado: “Você me espicaça como o desenho do peixe na guarnição da cozinha”... Nunca me passou pela cabeça que guarnição de cozinha pudesse entrar em declaração de amor... Quando não tinha pano bordado o jeito era comprar papel cor-de-rosa para fazer os enfeites. Se não tinha nem pano com peixe bordado nem papel comprado o jeito era usar jornal. Minha mãe repicava jornal pra dar uma alegria pobre às prateleiras. E plantava roseiras. Uma roseira florida era sinal de nobreza! Com as rosas brancas trepadeiras se fazia chá pra pôr nos olhos, como colírio. Havia uma coisa que não tinha jeito: os ratos. De noite ficavam correndo entre os caibros redondos e as telhas. Ninguém se assustava. Ninguém gritava. Ninguém corria. Sabia-se que era inútil. O jeito era conviver com eles.
Eu não tinha brinquedos. Acho que nem sabia o que eram brinquedos, desses que se compram em lojas. Minha mãe me fazia uns brinquedos. Ela era uma artesã consumada em petecas de palha com penas de galinha. E fazia-me corrupios com botões grandes e barbante. E ensinou-me a fazer barquinhos e chapéus de papel, e a dobrar jornal para recortar dezenas de bonequinhos de mãos dadas. O livro que mais me encantava tinha sido dela, quando criança. Eram gravuras que faziam sonhar. Um negro arrastando-se na direção de um jacaré de boca aberta para enfiar verticalmente dentro de sua boca um pau pontudo. Quando ele fechasse a boca estaria preso. Eu pensava: “Será que ele conseguiu?”. Uma gravura de um prédio em Nova York com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares”. Uma família de esquimós, pais e filhos vestidos com peles, saudando o sol que aparecia depois de seis meses de noite. E a mais querida: um menino e uma menina fazendo um minijardim com árvores, riachinhos, pontes, cachoeiras. Brincava com pedras, bichos, sabugos de milho, arcos de barril. Da minha mãe recebi minha primeira lição de teologia, embora ela o fizesse com boas intenções. De noite, antes de dormir, ela me fazia repetir: “Agora me deito para dormir. Guarda-me o Deus em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minhalma, ó Senhor, amém”. Essa reza me ensinou que é perigoso dormir. A gente está distraído, guarda baixa, e é possível que a morte ataque. Aprendi que a gente morre. Por isso é preciso Deus, por causa da morte. O sono é uma morte da qual se acorda. Toda noite eu repetia a lição. E aprendi que, morrendo, a alma, uma coisa que mora no corpo, volta para Deus. Eu não queria voltar para Deus. Preferia a terra ao céu. Deus, que pode tudo, bem que poderia me proteger da morte, dando-lhe ordens ao contrário...
Ela também me contava estórias. Uma delas tinha um refrão: “Jingue-le-jingue que eu vou para a Angola...” . Eu não sabia o que era Angola. Depois ela me disse que essa estória fora a Iaiá que lhe contara. A Iaiá era uma escrava que permanecera na casa do meu avô mesmo depois da Lei Áurea. Ficara porque não tinha para onde ir. Aí entendi o que era Angola. Era a Iaiá que cuidava da minha mãe quando menina. Uma outra estória era a da madrasta que enterrara a enteada como castigo por não haver impedido que os passarinhos bicassem os figos da figueira. Mas seus cabelos brotaram do fundo da terra. O jardineiro, ao tentar capiná-los, ouviu um canto melancólico: “Jardineiro do meu pai não capine meus cabelos. Minha mãe me penteava. Minha madrasta me enterrou pelo figo da figueira que o passarinho buscou”. Ao final o pai salva a filha da sepultura onde a madrasta a enterrara. Que maravilhoso tema para uma meditação psicanalítica! E cantava para me fazer dormir: “Tatu subiu no pau, é mentira de você. Lagarto, lagartixa, isso sim que pode ser...” .

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

27/05/2026

Progresso

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

23/05/2026

Gabriel

Não consigo refrear a tentação de puxar conversa com uma criança que não conheço. Se tem uma criança no elevador cheio, eu me agacho para que meus olhos fiquem na altura dos seus. Deve ser muito estranho olhar em volta e só ver fivela de cintos e bolsas. Olhando­-se para cima, os adultos têm a aparência de gigantes.
Na sala de espera do consultório médico estava o menino com seu pai. Calculei, 9 ou 10 anos. Puxei conversa. Ele ficou encabulado. Virou de lado. Mas eu não desisto. Gosto de conversar com crianças. É fácil. E só falar de igual para igual, sem voz melosa e sem usar diminutivos. Ele falou de futebol. Eu disse que não torcia por nenhum time, mas havia escrito um livro, Futebol levado a riso. E lhe contei várias estórias divertidas do futebol. A conversa rolou fácil. Ficamos amigos. Disse­-lhe que escrevi estórias para crianças. Pedi o endereço dele para lhe enviar uns livrinhos. Ele me deu. Mandei os livros. Passados uns dias, ele me mandou um presente: um livro de poesias, raridade literária, data de 1892­-1903. Tão divertida a forma como se escrevia! No meio dos poemas encontrei um que mexeu comigo: “Embala­-me, balanço da mangueira,/ Embala­-me, que enquanto vou contigo e contigo venho, o meu pesar esqueço...”. O presente veio com uma carta dele, assinada Gabriel Quevedo. Disse a ele que Gabriel é nome de anjo! Ele se espantou. E me disse que já estava lendo o livro Lagartixas e dinossauros. Na carta, ele escreveu que o presente era uma prova de gratidão. Mas não precisava ter gratidão por tão pouco. Gostei, Gabriel.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

18/05/2026

Surpresa

O menino gostava dos livrinhos que escrevi para crianças. Seu grande sonho era conhecer o autor de estórias tão bonitas. Ele deveria ser uma pessoa maravilhosa! Aí chegou a ocasião! Haveria um evento para grandes e pequenos em que o Rubem Alves estaria presente. Os pais do menino transmitiram­-lhe a notícia maravilhosa. O menino se encheu de alegria e no dia e horário marcados lá se foram eles para o lugar onde o sonho se realizaria. O Rubem Alves lá estava, no meio de uma criançada, contando estórias. Os pais chamaram a atenção do filho e mostraram: “Aquele ali é o Rubem Alves...”. O menino parou, olhou, deixou o sorriso escorrer pelo canto da boca e perguntou: “Mas o Rubem Alves é ‘isso’?”.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

07/05/2026

Cachorro Vai para o Céu?

Tenho um amigo que é pastor de uma igreja presbiteriana no Rio de Janeiro. Parte da missão de um pastor é esclarecer as dúvidas espirituais que porventura possam advir da leitura confusa das Sagradas Escrituras. Pois ele foi procurado por uma senhora já bem velha, solitária, que morava sozinha e tinha como amigo de todas as horas o seu cãozinho, também já velhinho. A aflição da senhora tinha a ver com o fato de que ela acreditava na Bíblia e lia a Bíblia como consolo. Pois houve um texto que a apunhalou: o escrito no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo 15. Nenhuma das passagens terríveis das Sagradas Escrituras a havia abalado. Ela as lera e ficara em paz... Mas esse mínimo versículo havia abalado o seu mundo. Porque esse versículo enumera aqueles que não poderão entrar no Paraíso: “... Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros...”. “Reverendo, então o meu cãozinho, meu único amigo, não entrará comigo no Paraíso?” Não foi fácil convencer a velhinha. Aí o pastor teve a ideia de invocar a imagem dos rebanhos de ovelhas. Centenas de ovelhas pastando, os lobos à espreita, o pastor sozinho não dá conta, mas os cães estão sempre atentos. Eles são bons. Eles guardam as ovelhas. Por isso os pastores amam os cães. Pastores, ovelhas e cães entrarão todos juntos no Paraíso…

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

05/05/2026

Que dor dói mais?



Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso

[...]

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras

[...]

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas.
Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

01/05/2026

Brinquedos

Amigos me têm perguntado sobre as razões da minha mudança de estilo. Eu só escrevia crônicas com princípio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, como estes. Acontece que a cabeça é uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamentos. Alguns deles são tranqueiras mesmo e os jogo fora. (Mas já me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que não eram tranqueiras...) Outros ficam lá dentro e vão ajuntando, enchendo minha canastra secreta. Não é possível transformá­-los todos em peças literárias porque o tempo é curto e o espaço também. Mas não tenho coragem de me livrar deles. Resolvi então retirá­-los da caixa em que estavam guardados e transformá­-los em brinquedos.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

23/04/2026

Amor e poesia



Ela era uma mocinha. Trabalhava no restaurante da tia. Já era noite e ela estava atrasada. A tia estava preocupada, porque suspeitava que ela estivesse com um certo moço que frequentava o restaurante, mesmo quando não estava nem comendo nem bebendo. Onde estariam? Fazendo o quê?
Eles estavam na praia deserta sob o céu estrelado. Tudo era silêncio, a luz da lua refletida no mar, a voz distante das pessoas, o murmúrio das ondas mansas que lhes molhavam os pés. Distantes um do outro, não se tocavam. Apenas se olhavam. Ele tinha na mão um livro de poemas de amor de Pablo Neruda. Abriu o livro e começou a ler. Ela parou e não se mexeu até que a leitura terminasse.
Já era tarde quando ela chegou. O restaurante estava vazio. Entrou como se estivesse em transe – andava como um sonâmbulo, sem se dar conta da presença da tia.
Onde você esteve? — a tia lhe perguntou com severidade.
Na praia — ela respondeu sem acordar do transe.
A tia se alvoroçou. Praia, lugar solitário, com um moço... E agora esse jeito sonambúlico, nunca visto. Coisa muito grave deveria ter acontecido. E a imaginação da tia começou a ver cenas de nudez e amor carnal na areia, sob a luz do luar.
O que foi que ele lhe fez? — ela perguntou.
Ele leu um poema — a moça respondeu.
Aliviada de suas fantasias carnais, a tia se deu conta de que uma coisa muito mais grave acontecera. E com um profundo suspiro falou:
Leu-lhe um poema... Então você está perdida...
A tia conhecia os segredos do amor. O amor começa com a poesia. O corpo é um instrumento. A poesia é a música.

***

Florentino Ariza perdeu o emprego de escriturário na companhia de navegação. Seu coração fora dilacerado pelo casamento de sua amada, Fermina Daza, com o doutor Urbino, o que interferiu no seu estilo literário: as cartas, que deveria escrever dentro das frias formalidades do estilo comercial, passaram a ser infectadas pela sua paixão — pareciam poemas. Foi advertido, mas não adiantou. O remédio foi despedi-lo.
Sem emprego, teve de procurar um jeito alternativo de ganhar a vida. E, vagabundeando pela praça central da cidade, notou que jovens advogados ali montavam seus negócios. Tinham mesas em que escreviam petições e requerimentos para quem delas necessitasse. E assim ganhavam um dinheirinho. Florentino teve então uma ideia brilhante: cartas de amor! Ele escreveria cartas de amor! Tanta gente queria escrever cartas de amor e não sabia!
O negócio prosperou. E era fácil. Quando um homem queria escrever uma carta para uma mulher, Florentino imaginava que estava escrevendo uma carta para Fermina. E, quando era uma mulher que desejava escrever uma carta para um homem, ele imaginava a carta que gostaria de receber da amada.
Um jovem procurou os seus serviços. Florentino escreveu-lhe uma carta com a paixão que sentia por Fermina. Uma semana depois, foi uma jovem. Ela recebera uma carta tão bonita que não sabia como respondê-la. Ato contínuo, passou a dita carta para as mãos de Florentino – era a que ele mesmo havia escrito uma semana antes. A partir desse momento, ele se envolveu numa furiosa correspondência apaixonada consigo mesmo, ora no papel de Florentino, ora no papel de Fermina.
Os dois jovens se apaixonaram e ao final se casaram. Apaixonaram-se pelo quê? Apaixonaram-se pelas cartas...

***

Um sultão, descobrindo-se traído pela esposa a quem amava perdidamente, toma uma decisão cruel. Não pode viver sem o amor de uma mulher, mas também não pode suportar a possibilidade da traição. Resolve, então, que vai se casar com as moças mais belas dos seus domínios, mas depois da primeira noite de amor vai mandar decapitá-las. Assim o amor se renovaria, a cada noite, em todo o seu vigor de fogo impetuoso, sem nenhum sopro de infidelidade que pudesse apagá-lo.
Espalham-se rapidamente pelo reino as notícias das coisas terríveis que aconteciam no palácio real – as jovens desapareciam logo depois da noite de núpcias. Sherazade, filha do vizir, procura então o pai e lhe anuncia sua espantosa decisão: deseja tornar-se esposa do sultão. O pai, desesperado, lhe revela o triste destino que a aguarda, pois é ele mesmo quem cuida das execuções. Mas a jovem se mantém irredutível.
A estória descreve a jovem Sherazade de forma reveladora. Quase nada diz sobre a sua beleza. Faz silêncio total sobre o seu virtuosismo erótico. Mas conta que ela lera livros de todas as espécies, que havia memorizado grande quantidade de poemas e narrativas, que decorara provérbios populares e sentenças de filósofos.
E Sherazade se casa com o sultão. Realizados os atos de amor físico que acontecem nas noites de núpcias, depois que o fogo do amor carnal se esgota o corpo do esposo, quando só resta esperar o raiar do dia para que a jovem seja sacrificada, ela começa a falar. Conta estórias. Suas palavras penetram suavemente os ouvidos do sultão, como música. O ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe, que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra os vazios da alma. Segundo antiquíssima tradição, foi assim que o Deus humano foi concebido: pelo sopro poético do Verbo Divino, que penetrou os ouvidos encantados e acolhedores de uma virgem.
O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabe que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada – não é eterno, posto que é chama. E então, quando as chamas dos corpos já se apagaram, a voz de Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia. Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, diferente de todas as outras mulheres. Porque uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela nossa que aparece refletida na voz e nos olhos dela...
O sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia mais. E, pela beleza das palavras de Sherazade, o sultão a amou para sempre...

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Conselho de Nietzsche: Diante da possibilidade de casamento, só existe uma pergunta a ser feita – terei prazer em conversar com essa pessoa até o fim dos meus dias? Pois é com os tênues fios da conversa que se tece o amor.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

19/04/2026

Duas caixas

             “Caixa de ferramentas” e “caixa de brinquedos”. É preciso que eu explique por que esses dois conceitos são a base da minha filosofia de educação e de vida. Resumindo: são duas, apenas duas, as tarefas da educação, representadas por duas caixas que o corpo carrega. Na mão direita, mão da destreza e do trabalho, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e da sensibilidade, ele leva uma caixa de brinquedos. Ferramentas são melhorias do corpo. Os animais não precisam de ferramentas ­porque seus corpos já são ferramentas. Seus corpos lhes dão todas a ferramentas de que necessitam para sobreviver. Como são desajeitados os seres humanos quando com­parados com os animais! Veja, por exemplo, os macacos. Sem nenhum treinamento especial, eles tirariam medalhas de ouro na ginástica olímpica. E os saltos das pulgas e dos gafanhotos! Já prestou atenção na velocidade das formigas? Mais velozes a pé, proporcionalmente, que os bóli­dos de Fórmula Um! O voo dos urubus, os buracos dos ta­tus, as teias das aranhas, as conchas dos moluscos, a língua saltadora dos sapos, o veneno das taturanas, os dentes dos castores... Nossa inteligência se desenvolveu para compensar a deficiência das ferramentas que o corpo nos dá, por nascimento. Assim, ela inventou melhorias para o corpo: porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, bicicletas, casas, aviões, computadores... Disse Marshal MacLuhan corretamente que todos os “meios” são extensões do corpo. É isto que são as ferramentas: meios para se viver. Ferramentas aumentam a nossa força, nos dão poder: uma agulha, um pau de fósforo, um par de óculos... A ideia de que o corpo carrega duas caixas – uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda – me apareceu quando me dedicava a entender santo Agostinho. Pois ele, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do uti (ele escrevia em latim) e a ordem do frui. Uti, “o que é útil, utilizável, utensílio”. Usar uma coisa é utilizá­-la para se obter uma outra coisa. Frui, “fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma”. A ordem do uti é o lugar do po­der. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do frui, ao contrário, é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para ser usadas, mas para ser gozadas. A tradição cristã tem medo das coisas que são guardadas na caixa dos brinquedos. Nessa caixa se guarda a origem do pecado: o prazer…

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

11/03/2026

Dor e esperança

Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz­-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando ­morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

05/03/2026

A bela cena



Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, não conhecia a experiência da paixão. O que ele conhecia eram os prazeres do sexo. Esgotada a orgia, o seu desejo era se livrar da mulher. A ideia de acordar com uma mulher ao lado o horrorizava. O seu horror ao amor era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse na sua cama. Encontrava sempre uma desculpa para se livrar da companheira, levando-a de volta à casa dela. Ele se parecia com o sultão de As mil e uma noites, que, depois de uma noite de prazeres carnais, quando o sol iluminava o horizonte, fazia com que a amante fosse decapitada... Era assim que Tomas agia, como um animal caçador que abandona a caça tão logo sua fome é satisfeita.
Mas com Tereza tudo foi diferente. Não que ela tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras. Não era mais bonita. Por que Tomas a amou e deixou que ela passasse a noite na cama dele? Por mais que a examinasse, nada encontrava nela que pudesse ser apontado como a razão do seu amor. Eles se conheciam por um tempo tão curto! Mas, sem razões e contra a sua vontade, o fato era que ele estava apaixonado por ela.
Sua aventura com Tereza havia começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela acontecera do outro lado do impulso que o levava às conquistas. Conhecera Tereza acidentalmente, num bar de uma cidadezinha do interior. Dissera-lhe, quase como brincadeira, que o procurasse se fosse à capital. E lhe dera o seu endereço. Tereza chegou à capital doente, sentindo-se perdida. Não tinha para onde ir. Foi isso que a levou a procurar Tomas. E foi aí que a história de amor começou.
Ela ardia em febre. Ele não podia fazer com ela aquilo que fazia com as outras. Não podia levá-la de volta para casa, porque ela não tinha casa. Ajoelhado à sua cabeceira, “ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas”.
Agora, a distância, pensava sobre as razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita pergunta de Santo Agostinho: “o que é que amo quando amo Tereza?”. Tudo se tornou claro de repente. Ele ficou comovido pela fragilidade de Tereza adormecida – criança amedrontada, chegando aos seus braços com um pedido de socorro.

A mulher não resiste à voz do que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz. Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.

Agora, na memória poética de Tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era uma parte da sua alma. Não morreria jamais.
O que é que amo quando te amo?” Tomas amava Tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. Na cena, Tereza não era Tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. E, de repente, ele deixou de ser Tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. Tereza poderia deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.
Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Amamos a pessoa porque ela completa a bela cena. Por isso Santo Agostinho, antecedendo os versos de Fernando Pessoa, escreveu em suas Confissões: “antes que te conhecesse eu já te amava”. Somos amantes antes de nos encontrar com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, seus rostos envoltos pelas sombras. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma ao lado dos sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto – ou apenas uma voz, um olhar, um gesto com a mão... – que, sem razões, ilumina um dos quadros que estava no escuro. Somos então possuídos pela certeza de que esse rosto que os olhos veem é o mesmo que está no quadro que mora nas sombras da alma. O corpo estremece. A paixão está nascendo.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

19/02/2026

A ternura

Pureza de coração é desejar uma só coisa.” Foi assim que Kierkegaard definiu, a pureza. Puro é aquilo em que não há misturas; é uma coisa só.
A paixão é pura porque vive de uma coisa só: a imagem da pessoa amada. Não se trata de uma imagem mais bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras. O apaixonado só pensa na pessoa amada. Sempre. Os assuntos que fazem as conversas do cotidiano não lhe interessam. Bem que ele gostaria de falar sobre o seu amor, mas se cala sabendo que ririam dele. Camões, no episódio de Inês de Castro, escreveu que ela caminhava

Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Se não havia ouvidos humanos a quem pudesse dizer o nome que tinha gravado no peito, que as árvores, a relva e as pedras fossem depositárias do seu segredo – um único nome.

A raposa pediu que o Pequeno Príncipe a cativasse.
Que quer dizer “cativar”? — ele perguntou.
A raposa explicou:
Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto... Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!

Aconteceu então que o Pequeno Príncipe cativou a raposa. O tempo passou e chegou o dia em que ele precisou partir. A raposa disse:

Ah! Eu vou chorar.
A culpa é tua; eu não te queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
Quis — disse a raposa.
Mas tu vais chorar!
Vou — ela respondeu.
Então, não sais lucrando nada!
Eu lucro — disse ela — por causa da cor do trigo. — E acrescentou: – Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

O amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto da pessoa amada. A paixão é uma experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A pessoa pela qual se está apaixonado é bela. Não é que ela seja bela – é o olhar apaixonado que a torna assim. Porque não vemos o que vemos, vemos o que somos. Uma mulher é bela quando nos vemos belos ao seu olhar. Quem, ao olhar para uma mulher, pensa em sexo não é um apaixonado.
O apaixonado sorri ao contemplar a amada dormindo, sem tocá-la. O corpo de lado, o rosto sobre o travesseiro, os olhos fechados, o suave ressonar, a camisola suspensa deixando ver a calcinha – é uma imagem de paz, de tranquilidade. E um momento de ternura. Há um desejo de acariciá-la, mas a mão se contém; nenhum movimento dele deverá interromper a beleza da cena. Nela, os impulsos sexuais estão proibidos.
O sexo dos adolescentes e dos jovens se parece com um furúnculo inchado – túrgido, vermelho, dolorido, que busca se livrar do incômodo. O que se busca não é a experiência amorosa, é rasgar o furúnculo para que o pus saia, trazendo alívio. E o esperma não se parece com pus? Quando o orgasmo acontece, numa mistura de dor e prazer, o furúnculo se esvazia e o corpo fica em paz. Pode até ser que nesse momento o parceiro se esqueça da mulher ao seu lado, vire as costas para ela e durma.
Foi sobre esse sexo que Freud escreveu. Era o único que ele conhecia. Era o sexo que Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, fazia com suas namoradas. Mas uma delas protestava: “não procuro o prazer, procuro a alegria...”.
O sexo-furúnculo prescinde da ternura. Tomas não sentia ternura por suas amantes. Elas eram objetos para seu alívio. Ele as usava. Não as amava. O amor mora no olhar terno que sorri ao contemplar o rosto da pessoa amada.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

29/01/2026

Educação pobre

Não existe coisa mais perigosa que poder sem sonho, dinheiro sem visão. Dinheiro sem visão desanda a fazer besteiras que, depois de feitas, viram elefantes coloridos que comem e defecam em excesso sem nada produzir. Desconfio muito dos que, ao falar da educação, falam logo na falta de verbas. A maior pobreza da educação não se encontra na escassez dos recursos econômicos. Ela se encontra na pobreza da imaginação.
A educação se divide em duas partes: educação das habilidades, educação da sensibilidade. Sem a educação da sensibilidade todas as habilidades são tolas e sem sentido.
Conhecer por conhecer, conhecer tudo o que há para ser conhecido: isso é um estilo suíno de aprender.
Há saberes na cabeça que paralisam os saberes inconscientes do corpo.
Que espantosos pedagogos nós éramos, quando não nos preocupávamos com a pedagogia!” (Daniel Pennac)
Contou­-me o jovem médico, residente de psiquiatria: “Me aguardava uma velhinha. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela tomou a iniciativa: ‘Doutor, quero lhe fazer duas perguntas’. ‘Pois não’, eu disse. ‘O senhor é dos médicos que dão remédio ou só falam para curar?’ Respondi: ‘Sou dos que só falam para curar’. Ela continuou: ‘Agora, a última pergunta: Essa conversa que cura, ela é aprendida na escola ou é de graça?’”. A velhinha sabia muito, sem saber. Há saberes que não se aprendem. Nascemos com eles, por graça dos deuses.
Não basta que o aluno conheça o mundo. É preciso que ele deguste o mundo. Não basta que o aluno tenha ciência. É preciso que tenha sapiência.
Sabe­-se muito sobre regras de gramática e análise sintática. Mas onde está o prazer da leitura? Ler gastronomicamente, vagarosamente, por puro prazer, sem a obrigação brochante de ter de preencher um questionário de interpretação.
O educador é um mestre de Kama Sutra, manual de sabedo­ria erótica. São os prazeres e as alegrias que nos dão razões para viver. Brecht, sofrido, disse que o único objetivo da ciência era aliviar a miséria da existência humana. Mas isso não basta. Não basta aliviar a miséria. É necessário produzir a exuberância dos prazeres.
Os saberes são navios. Para se construir navios é preciso ciência. Os portugueses no século XVI construíam trinta caravelas por mês. Tinham ciência. Aprenderam a ciência da construção de caravelas porque eram fascinados pelo navegar. “Navegar é preciso; viver não é preciso...” Foi o sonho de navegar que gerou e pariu a ciência da construção de construir caravelas. A ciência é filha dos sonhos.
Caravelas não se fazem sem recursos econômicos. Mas recursos econômicos não fazem caravelas. Educação não se faz sem recursos eco­nômicos. Mas recursos econômicos não fazem educação. É preciso o sonho. Recursos econômicos sem sonhos frequentemente dão à luz seres monstruosos…

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba