Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino
04/08/2026
Jeca Tatu
28/07/2026
Olhar de criança
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
21/07/2026
Criança
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
13/07/2026
O saber da cozinheira
Rubem Alves, em Variações sobre o prazer
08/07/2026
Pergunta de uma pequena menina
A Raquel, minha filha, tinha pouco mais de dois anos. Entrou no meu quarto e me sacudiu até que eu acordasse. Aí ela me olhou e fez a pergunta que a atormentava e a tirara da cama. “Papai, quando você morrer vai sentir saudades?”. Tão pequena e já sabia que uma grande separação nos aguarda! Onde ela aprendera aquilo? Ela nunca tivera experiência alguma com a morte! Talvez a consciência da morte já nasça conosco, não sendo coisa que se precisa aprender. Mais do que isso: ela sabia que morrer é ir para muito longe, para o lugar onde mora a saudade sem retorno. Ter de morrer é estar condenado à saudade... Fiquei mudo de espanto, não sabia o que dizer. Ela então me salvou da minha perplexidade. “Não chore. Eu vou te abraçar...”, ela me disse como consolo. Esse incidente me levou a escrever a estória A montanha encantada dos gansos selvagens, em que esse diálogo é preservado.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
30/06/2026
Ver
De tudo que João Guimarães Rosa escreveu, acho a estória do Miguilim a mais bonita. Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do sertão, precisava andar um dia a cavalo pra se chegar no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no galho da árvore nem os brotos do milho saídos do chão. Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro. Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os olhos pra ver melhor. “Esse nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito. “Olha agora!” Miguilim olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o Miguilim aprendo sobre o João.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
18/06/2026
Adultos em excesso
Guimarães Rosa, escrevendo sobre a infância: “Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas! [Algumas de minhas distrações eram] armar alçapões para pegar sanhaços – e depois tornar a soltá-los. Que maravilha! Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro, brinquedo saudoso; atrelar um sabugo branco com outro vermelho, e mais uma junta de bois pretos – sabugos enegrecidos pelo fogo. Prender formiguinhas em ilhas, que eram pedras postas num tanque raso, e unidas por pauzinhos, pontes para as formiguinhas passar. Aproveitar um fiozinho d’água, que vinha do posto das lavadeiras, e mudar-lhes duas vezes por dia a curso, fazendo-o de Denúbio ou de São Francisco, ou de Sapakral-lar (nome inventado), com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais marcadas por grupos de pedrinhas, tudo isso sob o voo matinal das maitacas de Nhô Augusto Matraca, no quintal.”
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
03/06/2026
Minha mãe
Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino
27/05/2026
Progresso
O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada — e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para a frente, mas da frente para trás. A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…
Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo
23/05/2026
Gabriel
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
18/05/2026
Surpresa
O menino gostava dos livrinhos que escrevi para crianças. Seu grande sonho era conhecer o autor de estórias tão bonitas. Ele deveria ser uma pessoa maravilhosa! Aí chegou a ocasião! Haveria um evento para grandes e pequenos em que o Rubem Alves estaria presente. Os pais do menino transmitiram-lhe a notícia maravilhosa. O menino se encheu de alegria e no dia e horário marcados lá se foram eles para o lugar onde o sonho se realizaria. O Rubem Alves lá estava, no meio de uma criançada, contando estórias. Os pais chamaram a atenção do filho e mostraram: “Aquele ali é o Rubem Alves...”. O menino parou, olhou, deixou o sorriso escorrer pelo canto da boca e perguntou: “Mas o Rubem Alves é ‘isso’?”.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
07/05/2026
Cachorro Vai para o Céu?
Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo
05/05/2026
Que dor dói mais?
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
01/05/2026
Brinquedos
Amigos me têm perguntado sobre as razões da minha mudança de estilo. Eu só escrevia crônicas com princípio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, como estes. Acontece que a cabeça é uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamentos. Alguns deles são tranqueiras mesmo e os jogo fora. (Mas já me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que não eram tranqueiras...) Outros ficam lá dentro e vão ajuntando, enchendo minha canastra secreta. Não é possível transformá-los todos em peças literárias porque o tempo é curto e o espaço também. Mas não tenho coragem de me livrar deles. Resolvi então retirá-los da caixa em que estavam guardados e transformá-los em brinquedos.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
23/04/2026
Amor e poesia
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
19/04/2026
Duas caixas
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
11/03/2026
Dor e esperança
Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba
05/03/2026
A bela cena
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
19/02/2026
A ternura
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
29/01/2026
Educação pobre
Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba





