13/07/2026

O saber da cozinheira

A cozinheira: por onde se inicia o preparo do banquete?
Se me disserem que o banquete se inicia na cozinha, com as panelas, fogões, utensílios, ingredientes e tempero, eu direi que estão errados. O banquete se inicia com uma decisão de amor.
Babette, com pena das pessoas mirradas e mesquinhas que a inveja e o ressentimento tornara insensíveis, na aldeia em que vivia, prepara um banquete que lhes daria uma experiência inesquecível de prazer, beleza e generosidade.
Tita, proibida pela mãe de amar o seu amado, prepara os sabores que lhes permitissem fazer, na mesa, o amor que não podia fazer na cama.
O nutricionista, ao preparar um jantar, se pergunta sobre o equilíbrio científico dos vários componentes alimentares que irão compor a refeição. Pondera as utilidades: vitaminas, carboidratos, proteínas. Cozinha para alimentar quem come. Deseja matar a fome de quem come. Seu evangelho reza: “Bem-aventurados os que têm fome porque eles serão fartos”.
A cabeça da cozinheira funciona ao contrário. Não considera vitaminas, carboidratos e proteínas. Sua imaginação está cheia de sabores. Sonha com os efeitos que os sabores irão produzir no corpo de quem come. Não quer matar a fome. O que ela deseja é fazer amor com quem come, através dos sabores. Quando a fome está satisfeita, o festival de amor chegou ao fim. “Não quero faca nem queijo. Quero é a fome”, diz Adélia Prado. Gostaria que o texto evangélico fosse outro: “bem-aventurados os que têm fome porque eles terão mais fome”. A cozinheira deseja que o seu convidado morra de prazer!

Rubem Alves, em Variações sobre o prazer

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