De repente, não mais que de repente,
como nos versos do Poetinha, surge, em nosso burocratizado, corrupto
e tapetudo futebol, uma figura das Arábias, digna das atuações da
seleção brasileira naquela Copa lá, nos Emirados Afegãs, Floriano
Faissal, ou coisa parecida. Refiro-me ao “volante-decontenção”.
Perdemos os pontas, ganhamos alas, overlaping, ponto futuro,
elemento surpresa, o diabo. Na zona do agrião dessa confa, cresceu a
nefasta importância do cabeça-de-área, dando carrinhos que
maltratam a grama, dos quatro ou cinco defensores com um na sobra e
mais quatro à frente da zaga dando proteção e dois atacantes
recuados guardando aqueles que protegem a zaga e... bom, já tem onze
e ninguém chuta em gol. Diante de tanta cautela defensiva, vemos,
estarrecidos, a seleção tetra campeã do mundo, com seus
volantes-de-contenção, não conseguir cobrar um único e escasso
corner direito. Vai ver, a suprema tarefa do volante-de-contenção é
ganhar a tal da segunda bola, que, como diz o Tostão, não existe,
mas está quicando em todos os comentários abalizados. Eu já
perguntei no Bar da Maria se volante-de-contenção é um nome
bacaninha pra leão de chácara ou se traduziram mal air bag,
mas são tantas as teorias e os fundamentos que ninguém soube
responder. Acredito que esteja ocorrendo um fenômeno linguístico:
falta criatividade em campo na proporção em que abundam
terminologias abiloladas. Puxando a brasa pra minha requentada
sardinha de ex-psiquiatra, aqui vão algumas posições que podem não
mudar bosta nenhuma, mas gerarão o maior auê na França. Como se
sabe, francês adora a parte teórica da coisa:
— VOLANTE PARANOICO DELIRANTE —
Arma confusão no meio de campo, recuado, gritando “Olha a segunda
bola nas costas!”. Forte latência homoerótica. Quando é
substituído, acusa o massagista de conspirar com antenas parabólicas
para prejudicá-lo. Já sedado, refere-se a Bruno Quadros como “uma
grande promessa”. Aí o médico aumenta a dose.
— MÉDIO CATATÔNICO AGUDO — É
muito difícil explicar a um leigo suas funções. Lembra um pouco o
desempenho de Zinho em 94, passando por Jamir no Flamengo e certos
lampejos de César Sampaio, na Arábia, em seus momentos mais
criativos.
— AUTÔMATO AMBIVALENTE — Cumpre
religiosamente as determinações da comissão técnica e é Soldado
de Cristo ou carrasco de alguma seita. Caracteriza-se pelo fervor com
que defende sua bandeira, mas, quando menos se espera, chuta o pau da
barraca e joga contra o patrimônio. Dizem que o Taffa sofre desse
troço. Sei lá.
— MÉDIO FIMOSE — Dá total
cobertura ao cabeça de área. Um adendo: gostaria de descrever
rapidamente o terrível quadro clínico conhecido como Logorréia
Espamofílica seguida de Estupor — o Mal dos Técnicos. Começa com
falação intensa, acrescida de rubores, fúria, desejo de ser
engolido e convulsão. Quando volta a si, o técnico segura a mão do
supervisor e pergunta quem ganhou: a resposta (Foi a Nigéria!) induz
ao estupor.
Aldir Blanc, em Direto do Balcão

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