13/07/2026

O volante-de-contenção




De repente, não mais que de repente, como nos versos do Poetinha, surge, em nosso burocratizado, corrupto e tapetudo futebol, uma figura das Arábias, digna das atuações da seleção brasileira naquela Copa lá, nos Emirados Afegãs, Floriano Faissal, ou coisa parecida. Refiro-me ao “volante-decontenção”. Perdemos os pontas, ganhamos alas, overlaping, ponto futuro, elemento surpresa, o diabo. Na zona do agrião dessa confa, cresceu a nefasta importância do cabeça-de-área, dando carrinhos que maltratam a grama, dos quatro ou cinco defensores com um na sobra e mais quatro à frente da zaga dando proteção e dois atacantes recuados guardando aqueles que protegem a zaga e... bom, já tem onze e ninguém chuta em gol. Diante de tanta cautela defensiva, vemos, estarrecidos, a seleção tetra campeã do mundo, com seus volantes-de-contenção, não conseguir cobrar um único e escasso corner direito. Vai ver, a suprema tarefa do volante-de-contenção é ganhar a tal da segunda bola, que, como diz o Tostão, não existe, mas está quicando em todos os comentários abalizados. Eu já perguntei no Bar da Maria se volante-de-contenção é um nome bacaninha pra leão de chácara ou se traduziram mal air bag, mas são tantas as teorias e os fundamentos que ninguém soube responder. Acredito que esteja ocorrendo um fenômeno linguístico: falta criatividade em campo na proporção em que abundam terminologias abiloladas. Puxando a brasa pra minha requentada sardinha de ex-psiquiatra, aqui vão algumas posições que podem não mudar bosta nenhuma, mas gerarão o maior auê na França. Como se sabe, francês adora a parte teórica da coisa:
VOLANTE PARANOICO DELIRANTE — Arma confusão no meio de campo, recuado, gritando “Olha a segunda bola nas costas!”. Forte latência homoerótica. Quando é substituído, acusa o massagista de conspirar com antenas parabólicas para prejudicá-lo. Já sedado, refere-se a Bruno Quadros como “uma grande promessa”. Aí o médico aumenta a dose.
MÉDIO CATATÔNICO AGUDO — É muito difícil explicar a um leigo suas funções. Lembra um pouco o desempenho de Zinho em 94, passando por Jamir no Flamengo e certos lampejos de César Sampaio, na Arábia, em seus momentos mais criativos.
AUTÔMATO AMBIVALENTE — Cumpre religiosamente as determinações da comissão técnica e é Soldado de Cristo ou carrasco de alguma seita. Caracteriza-se pelo fervor com que defende sua bandeira, mas, quando menos se espera, chuta o pau da barraca e joga contra o patrimônio. Dizem que o Taffa sofre desse troço. Sei lá.
MÉDIO FIMOSE — Dá total cobertura ao cabeça de área. Um adendo: gostaria de descrever rapidamente o terrível quadro clínico conhecido como Logorréia Espamofílica seguida de Estupor — o Mal dos Técnicos. Começa com falação intensa, acrescida de rubores, fúria, desejo de ser engolido e convulsão. Quando volta a si, o técnico segura a mão do supervisor e pergunta quem ganhou: a resposta (Foi a Nigéria!) induz ao estupor.

Aldir Blanc, em Direto do Balcão

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