118.
Que me pesa que ninguém leia o que
escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o
jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos,
teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria
de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois,
que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí? E é a mesma. A
grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses
papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida
sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande
desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário