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23/12/2022

Medo da eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
Acabou-se o docinho. E agora?
Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

20/01/2019

Instante e eternidade

A eternidade apenas se deixa ser compreendida enquanto experiência, como algo de vivido. Concebê-la objetivamente não tem nenhum sentido para o indivíduo, pois sua finitude temporal não lhe permite considerar uma duração infinita, um processo ilimitado. A experiência da eternidade depende da intensidade das reações subjetivas; a entrada na eternidade somente pode ser cumprida transcendendo-se a temporalidade. Deve-se conduzir um combate áspero e intenso contra o tempo para que ele apenas permaneça - uma vez vencida a miragem da sucessão de momentos - a vivência exasperada do instante, que nos precipita diretamente rumo ao atemporal. Como a imersão absoluta no instante concede-nos tal acesso? A percepção do porvir resulta da insuficiência dos instantes, de sua relatividade: todos aqueles que são dotados de uma consciência afiada da temporalidade vivem cada segundo pensando no seguinte. Somente se tem acesso à eternidade, por outro lado, suprimindo-se toda correlação, vivendo-se cada instante de maneira absoluta. Toda a experiência da eternidade supõe um salto e uma transfiguração, pois muito poucos são capazes da tensão necessária para atingir esta paz serena que se encontra na contemplação do eterno. Não é a duração, mas a potência desta contemplação que mais importa. O retorno às vivências habituais não diminui em nada a fecundidade desta intensa experiência. A frequência da contemplação é essencial - só a repetição permite atingir a embriaguez da eternidade, onde as volúpias têm algo de supra-terrestre, uma transcendência radiante. Isolando cada instante na sucessão, concedemos-lhe um caráter absoluto, mas que permanece puramente subjetivo, sem qualquer elemento de irrealidade ou fantasia. Na perspectiva da eternidade, o tempo é, com seu cortejo de instantes individuais, senão irreal, ao menos insignificante em vista das realidades essenciais.
A eternidade faz com que vivamos sem lamentar ou esperar o que quer que seja. Viver cada momento por ele mesmo - isto é exceder a relatividade do gosto e das categorias, distanciar-se da imanência em que nos encerra a temporalidade. O viver imanente à vida é impossível sem o viver simultâneo no tempo, pois a vida como atividade dinâmica e progressiva exige a temporalidade: privada desta, ela perde seu caráter dramático. Quanto mais a vida é intensa, mais o tempo se torna essencial e revelador. Além disso, a vida apresenta uma multiplicidade de direções e de arroubos que somente podem ser empregados no tempo. Falando da vida, nós mencionamos instantes; falando da eternidade - o instante. Não há uma ausência de vida na experiência da eternidade, nesta vitória sobre o tempo, nesta transcendência dos momentos? Uma transfiguração opera-se, um desvio súbito da vida rumo a um plano diferente, no qual a antinomia e a dialética das tendências vitais estão como que purificadas. Aqueles que são predispostos à contemplação da eternidade, tais como os mestres orientais, ignoram nosso áspero combate para transcender o tempo, ignoram nossos esforços de interiorização - nós que estamos profundamente contaminados pela temporalidade. A contemplação da própria eternidade é para nós uma fonte de sedutoras visões e de estranhos encantamentos. Tudo é permitido ao indivíduo dotado da consciência da eternidade, pois, para ele, as diferenciações fundam-se numa imagem de monumental serenidade, que parece o resultado da paixão que se sente por uma mulher, por seu próprio destino ou por seu desespero; mas a propensão que se tem pelas regiões da eternidade atrai uma espécie de élan para a paz de uma luz estelar.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

14/01/2019

Eternidade e moral

Ninguém soube dizer, até os dias de hoje, o que é o bem e o mal. Será o mesmo, certamente, no futuro. Pouco importa a relatividade: só conta a impossibilidade de não fazer uso destas expressões. Sem saber o que é bem, nem o que é mal, e qualifico as ações, entretanto, em boas ou más. Se me perguntassem em razão de quê me pronuncio de tal forma, eu não saberia responder. Um processo instintivo me faz apreciar as coisas segundo critérios morais; pensando nisto em retrospectiva, não lhes encontro mais nenhuma justificação. A moral tornou-se tão complexa, e tão contraditória, porque os valores morais cessaram de se constituir em ordem da vida para se cristalizar numa região transcendente, não mantendo mais do que frágeis contatos com as tendências vitais e irracionais. Como fundaríamos, então, uma moral? A palavra bem me dá vontade de vomitar, de tão insossa e inexpressiva. A moral ordena-nos a obrar pelo triunfo do bem. De que maneira? Por meio do cumprimento do dever, do respeito, do sacrifício, da modéstia, etc... Nisto somente vejo, por minha parte, palavras vagas e vazias de sentido: frente ao fato bruto, os princípios morais revelam-se tão vãos que nós nos perguntamos se não valeria mais à pena, no final das contas, viver sem critérios. Adoraria um mundo que não tivesse nenhum, sem forma nem princípio - um mundo da indeterminação. Pois, no nosso, esses conceitos exasperam mais do que qualquer absolutismo normativo. Eu vejo um mundo de fantasia e sonho, onde debater sobre a legitimidade das normas não teria mais nenhum sentido. Uma vez que, de toda maneira, a realidade é irracional na sua essência, para quê separar o bem do mal - para quê distinguir o que quer que seja? Aqueles que sustentam que podemos, apesar de tudo, salvar a moral frente à eternidade enganam-se redondamente. Eles afirmam que apesar do triunfo do prazer, das satisfações menores e do pecado, só subsistem, diante da eternidade, a boa-ação e a realização moral. Depois das misérias e dos prazeres efêmeros, presenciamos - é o que dizem - o triunfo final do bem, a vitória definitiva da virtude. Eles não devem ter notado que se a eternidade varre as satisfações e prazeres superficiais, ela varre não menos tudo aquilo a que chamamos virtude, boa-ação e ato moral. A eternidade não conduz nem ao triunfo do bem, nem ao do mal: ela anula tudo. Condenar o epicurismo em nome da eternidade é um absurdo. Em quê meu sofrimento me faria durar mais tempo do que um bon vivant? Objetivamente falando, o que pode significar o fato de que um indivíduo estremeça na agonia, enquanto um outro chafurda na volúpia? Que soframos ou não, o vazio nos engolirá indiferente, irremediavelmente e para sempre. Não saberíamos falar de um acesso objetivo à eternidade, mas somente de um sentimento subjetivo, fruto de descontinuidades na experiência do tempo. Nada daquilo que cria o homem pode conduzir a uma vitória definitiva. Por que embriagar-se em ilusões morais, quando existem ilusões muito mais belas? Aqueles que falam da salvação moral frente à eternidade evocam o eco indefinido no tempo do ato moral, sua ressonância ilimitada. Nada é menos verdadeiro, pois aqueles que se dizem virtuosos - na verdade, simples covardes - desaparecem muito mais rapidamente da consciência do mundo do que os adeptos do prazer. De qualquer maneira, mesmo no caso contrário, o que significariam algumas dezenas de anos suplementares? Todo prazer não realizado é uma ocasião perdida pela vida. Assim, não serei eu o responsável por brandir o sofrimento ao mundo, a fim de interditar-lhe as orgias e os excessos. Deixemos os medíocres falarem das consequências dos prazeres: as da dor não são muito mais sérias? Somente um medíocre desejará, para morrer, atingir o estado da velhice. Que sofram, então, ou embriaguem-se, que bebam do cálice do prazer até a última gota, que chorem ou riam, que gritem de alegria ou desespero - nada restará de toda forma. Qualquer moral não tem outro objetivo além do de transformar esta vida numa soma de ocasiões perdidas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

16/03/2015

A eternidade nos escapa

Assim, como se passa a vida? Nós nos esforçamos bravamente, dia após dia, para assumir nosso papel nessa comédia fantasma. Como primatas que somos, o essencial de nossa atividade consiste em manter e entreter nosso território de tal modo que nos proteja e nos envaideça, em escalar, ou pelo menos em não descer, a escada hierárquica da tribo, e em fornicar de todas as maneiras possíveis – ainda que como um fantasma – tanto para o prazer como para a descendência prometida. Assim, gastamos parte não desprezível de nossa energia a intimidar ou seduzir, já que essas duas estratégias garantem, sozinhas, a busca territorial, hierárquica e sexual que anima nosso conato. Mas nada disso chega à nossa consciência. Falamos de amor, de bem e de mal, de filosofia e de civilização, e nos agarramos a esses ícones respeitáveis como o carrapato sedento a seu cão bem quentinho.
Às vezes, porém, a vida nos parece uma comédia fantasma. Como tirados de um sonho, olhamos os outros agir e, gelados ao verificarmos o dispêndio vital requerido pela manutenção de nossos requisitos primitivos, perguntamos com espanto o que restou da Arte. Nosso frenesi de caretas e olhadelas nos parece de repente o cúmulo da insignificância, nosso pequeno ninho tão macio, fruto de um endividamento de vinte anos, parece um inútil costume bárbaro, e nossa posição na escala social, tão duramente conquistada e tão eternamente precária, parece de uma grosseira inutilidade. Quanto à nossa descendência, nós a contemplamos com um olhar novo e horrorizado porque, sem as vestes do altruísmo, o ato de se reproduzir parece profundamente deslocado. Restam apenas os prazeres sexuais; mas, arrastados no rio da miséria primal, eles vacilam da mesma forma, pois a ginástica sem o amor não entra no quadro de nossas lições bem aprendidas.
A eternidade nos escapa.
Nestes dias em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os individualistas, os progressistas e os conservadores; não são mais que hominídeos primitivos, e suas caretas e risos, seus comportamentos e enfeites, sua linguagem e seus códigos, inscritos na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter o próprio nível ou morrer.
Nesses dias, precisamos desesperadamente da Arte. Aspiramos ardentemente a retomar nossa ilusão espiritual, desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo.”
Muriel Barbery, in A elegância do ouriço

18/09/2012

Não se pode perder o que não se tem

“Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espetáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem.”
Marco Aurélio, in Pensamentos