Mostrando postagens com marcador Jair Rodrigues. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jair Rodrigues. Mostrar todas as postagens

11/11/2022

Trem das 11 | Adoniran Barbosa, 1964


Ficou célebre o palpite infeliz de Vinicius de Moraes de que “São Paulo é o túmulo do samba”. Mas depois se esclareceu que foi apenas um desabafo do poeta, irritado com um bando de bebuns barulhentos que não o deixavam ouvir o samba que Johnny Alf tocava numa boate paulistana. Johnny havia se mudado do Rio para São Paulo, e a frase foi dita por Vinicius para consolá-lo, provocando o bairrismo paulista.
Vinicius sabia que o samba paulista já era uma realidade, com Vadico (parceiro de Noel Rosa em vários clássicos), Paulo Vanzolini (de “Ronda” e “Volta por cima”), Denis Brean (“Bahia com H” e “Boogie-woogie na favela”), Germano Mathias e, especialmente, o originalíssimo Adoniran Barbosa – que, desde os anos 1930, desenvolvia sua mistura de samba com música do interior e a linguagem da colônia italiana de São Paulo, que tinha no Brás seu quartel-general.
O próprio Vinicius já era parceiro de Adoniran no samba-canção existencialista “Bom dia, tristeza”, lançado em 1957 pela sambista acima de qualquer suspeita Aracy de Almeida.
Cantor, compositor, comediante, o múltiplo Adoniran teve nos Demônios da Garoa as vozes dos seus maiores sucessos desde 1951, como “Malvina”, “Joga a chave”, “Saudosa maloca”, “O samba do Arnesto” e o megassucesso “Trem das 11”, lançado em 1964.
Adoniran desenvolveu com virtuosismo uma linguagem popular ítalo-paulistana em que os erros intencionais dão graça e humor aos seus sambas bem-construídos, como no “Samba do Arnesto”:
“O Arnesto nos convidou / pro samba, ele mora no Brás / nóis fumo e não incontremo ninguém / nóis vortemo com uma baita duma reiva / Da outra vez nóis num vai mais.”
E em “Tiro ao Álvaro”: “De tanto levar frechada do teu olhar / meu peito até parece sabe o quê? / táubua de tiro ao Álvaro / não tem mais onde furá.”
João Rubinato nasceu em Valinhos (1910) e se mudou para a capital paulista em 1932, onde começou a frequentar os estúdios de rádios e gravadoras e fez suas primeiras músicas, estreando como cantor de rádio em 1934.
Composta em 1961, “Trem das 11” esperou três anos até ser lançada pelos Demônios da Garoa. Em setembro de 1964, o disco explodiu nas rádios do Brasil, encantando o público com sua linguagem “errada” e alcunhado de “Samba do Édipo” pelo verso “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”. Maior sucesso de Adoniran, permitiu que comprasse o sítio onde viveu até o fim da vida, em 1982.
Além dos Demônios da Garoa, o “Trem” voltou ao sucesso com Jair Rodrigues, Os Originais do Samba e com Gal Costa, em 1973.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

17/03/2013

Cantor Jair Rodrigues surpreende como ator em "Super Nada"



O filme "Super Nada" mostra uma espécie de super-herói brasileiro num programa humorístico da televisão. Malandro descolado, parece um herdeiro de Macunaíma.
Apresentado pelo comediante Zeca (o cantor e compositor Jair Rodrigues), a longa sobrevivência do programa é um mistério. Talvez seu único espectador seja o ator Guto (Marat Descartes, premiado no Festival de Gramado 2012), que vive de trabalhos esporádicos, sem muitas expectativas na vida.
Escrito e dirigido por Rubens Rewald ("O Corpo"), "Super Nada" retrata o problemático encontro entre esses dois personagens. O longa começa com um retrato do cotidiano de Guto, que se esforça em pequenos trabalhos para conseguir se sustentar.
Ele ensaia com o parceiro, Dani (Cristiano Karnas), vive um romance com Lívia (Clarissa Kiste) e mantém encontros esporádicos com a filha Julia (Ligia Descartes), que é criada pela avó (Denise Weinberg).
Guto é um sujeito de bom coração. Quando vê um homem caído na rua, liga para a ambulância. Mas parece que não teve oportunidades na vida. Até que uma noite, apresentando um esquete de mímica com Dani, é visto por uma agente de elenco do seu programa favorito, Super Nada, e convidado para um teste.
Quando Guto conhece Zeca, o enredo toma caminhos mais tensos, transitando entre o drama e o humor negro. Zeca parece estar constantemente alcoolizado, gosta da figura de Guto e os dois acabam no apartamento do ator. Ali o aspirante a ator tem a chance de conhecer melhor seu ídolo.
A chegada da namorada de Guto rompe o equilíbrio e provoca uma drástica reviravolta na trama de "Super Nada". Guto mergulha num estado de culpa e autopunição, muito bem retratados por Descartes. Jair, em seu primeiro papel de destaque no cinema, também está bastante à vontade no papel do humorista cínico e canastrão.
Alysson Oliveira, do Cineweb