Ficou
célebre o palpite infeliz de Vinicius de Moraes de que “São Paulo
é o túmulo do samba”. Mas depois se esclareceu que foi apenas um
desabafo do poeta, irritado com um bando de bebuns barulhentos que
não o deixavam ouvir o samba que Johnny Alf tocava numa boate
paulistana. Johnny havia se mudado do Rio para São Paulo, e a frase
foi dita por Vinicius para consolá-lo, provocando o bairrismo
paulista.
Vinicius
sabia que o samba paulista já era uma realidade, com Vadico
(parceiro de Noel Rosa em vários clássicos), Paulo Vanzolini (de
“Ronda” e “Volta por cima”), Denis Brean (“Bahia com H” e
“Boogie-woogie na favela”), Germano Mathias e, especialmente, o
originalíssimo Adoniran Barbosa – que, desde os anos 1930,
desenvolvia sua mistura de samba com música do interior e a
linguagem da colônia italiana de São Paulo, que tinha no Brás seu
quartel-general.
O
próprio Vinicius já era parceiro de Adoniran no samba-canção
existencialista “Bom dia, tristeza”, lançado em 1957 pela
sambista acima de qualquer suspeita Aracy de Almeida.
Cantor,
compositor, comediante, o múltiplo Adoniran teve nos Demônios da
Garoa as vozes dos seus maiores sucessos desde 1951, como “Malvina”,
“Joga a chave”, “Saudosa maloca”, “O samba do Arnesto” e
o megassucesso “Trem das 11”, lançado em 1964.
Adoniran
desenvolveu com virtuosismo uma linguagem popular ítalo-paulistana
em que os erros intencionais dão graça e humor aos seus sambas
bem-construídos, como no “Samba do Arnesto”:
“O
Arnesto nos convidou / pro samba, ele mora no Brás / nóis fumo e
não incontremo ninguém / nóis vortemo com uma baita duma reiva /
Da outra vez nóis num vai mais.”
E
em “Tiro ao Álvaro”: “De tanto levar frechada do teu olhar /
meu peito até parece sabe o quê? / táubua de tiro ao Álvaro / não
tem mais onde furá.”
João
Rubinato nasceu em Valinhos (1910) e se mudou para a capital paulista
em 1932, onde começou a frequentar os estúdios de rádios e
gravadoras e fez suas primeiras músicas, estreando como cantor de
rádio em 1934.
Composta
em 1961, “Trem das 11” esperou três anos até ser lançada pelos
Demônios da Garoa. Em setembro de 1964, o disco explodiu nas rádios
do Brasil, encantando o público com sua linguagem “errada” e
alcunhado de “Samba do Édipo” pelo verso “minha mãe não
dorme enquanto eu não chegar”. Maior sucesso de Adoniran, permitiu
que comprasse o sítio onde viveu até o fim da vida, em 1982.
Além
dos Demônios da Garoa, o “Trem” voltou ao sucesso com Jair
Rodrigues, Os Originais do Samba e com Gal Costa, em 1973.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

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